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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

O Melhor Jogo da História


 Ainda nas primeiras décadas do Século XX, o jovem Francis Ouimet (Shi LaBeouf, despido dos cacoetes que depois comprometeram sua carreira) protagonizou uma circunstância de superação sem precedentes: Filho de um humilde operário (Elias Koteas), imigrante irlandês morador de Boston, ele, que até seus módicos 16 anos havia tão somente trabalhado como carregador de tacos no prestigiado clube de golfe local, inscreveu-se no disputado campeonato aberto de golpe, o U.S. Open, como amador. Até então, o clube e seus associados –abastados que, com frequência, confundiam tradição com elitismo –experimentavam um impasse indigesto: Os últimos campeonatos haviam sido conquistados por ingleses, no entanto, seu competidor, John McDermott (Michael Weaver), estava disposto a quebrar essa hegemonia e não deixar esse título escapar das mãos dos norte-americanos. O problema é que o então campeão mundial, o britânico Harry Vardon (Stephen Dillane, de “As Horas”) e seu parceiro Ted Ray (Stephen Marcus, de “Jogos, Trapaças e DoisCanos Fumegantes”) formavam uma dupla imbatível que não tarda, nas disputas eliminatórias, a deixar McDermott para trás e desclassificá-lo.

É o jovem Francis, subestimado como perdedor certo, quem vai galgando timidamente as posições do campeonato –auxiliado por seu ajudante infantil, e ladrão de cenas do filme, Eddie (o fantástico Josh Flitter, de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”) –e termina disputando o primeiro lugar diretamente com os campeões do mundo.

Uma história real que parecia predestinada a se converter numa daquelas peças de cinema perfeitas a evocar a narrativa de perseverança e edificação das obras antológicas de Frank Capra –e só um estúdio subsidiário da Walt Disney mesmo, como a extinta Touchstone Pictures, para comprar, em pleno ano de 2005, tal ideia! Coube ao ator Bill Paxton reconhecer tais elementos de gênero tão prontamente identificáveis na história de Francis Ouimet e arregaçar as mangas como diretor (ele havia dirigido um único trabalho anteriormente, o terror “A Mão do Diabo”) para de fato transformá-la em filme.

Como numa atenciosa receita de bolo, todos os ingredientes estão lá, caprichosamente administrados: Junto da trama de superação e obstinação a recompensar a tenacidade dos puros de coração estão o romance de classes sociais distintas entre o protagonista proletário e a mocinha de família rica (Peyton List) –e, como tal, tanto o pai como o irmão dela se opõem firmemente (e vilanescamente) ao romance –a oposição paterna na qual o patriarca não consegue reconhecer o talento do filho e instala drama e conflito na narrativa ao impor sua retrógrada reprovação ao rapaz, e a amizade divertida, cheia de pequenas farpas, que nasce gradualmente, até converter-se em lealdade à toda prova, entre o protagonista e seu jovem escudeiro (carregador de tacos, no caso...).

Aproveitando habilmente alguns recursos cinematográficos à disposição –nos quais os jogos de golfe são convertidos em exercícios de envolvente virtuosismo com a câmera simulando o trajeto da própria bolinha até o buraco, e outros truques visuais interessantes –o diretor Paxton extrai de tudo isso um entretenimento simpático e agradável, cuja provável cumplicidade do expectador é recompensada com instantes de genuíno suspense durante os tensos vinte minutos finais. Seu único tropeço é o fato, um bocado incontornável, de que o golfe é um esporte frequentemente elitista, cujas regras e normas de postura são pouco conhecidas do público médio ao qual, em sua simplicidade, o filme parece se dirigir.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Apollo 13

Lançado em 1995, “Apollo 13”, de Ron Howard, dialoga diretamente com “Os Eleitos”, de Philip Kaufman, de 1983, e “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, de 2018; embora sejam filmes de diferentes diretores (e, portanto, de diferentes estilos e propostas) e lançados em época consideravelmente afastadas de tempo, todos fornecem uma contribuição de esclarecimento ao público para notáveis episódios da emocionante Corrida Espacial Norte-Americana.
Dentre eles, pela natureza improvável e cheia de percalços em seus acontecimentos, “Apollo 13” é o mais notável: Em 1969, durante o Programa Discovery, a 13ª missão do projeto Apollo, destinado à lua, dá errado, ameaçando a vida de seus três astronautas tripulantes, Jim Lovell (Tom Hanks, em seu primeiro projeto após os Oscars consecutivos de Melhor Ator por “Philadelphia” e “Forrest Gump-O Contador de Histórias”), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon).
Imediatamente, a Nasa e seus técnicos passam a organizar uma missão de improviso para trazê-los da órbita da Terra até a segurança do solo, sem fazer idéia da integridade do funcionamento da nave, ou mesmo da extensão dos danos ocorridos nos aparelhos.
Nesta sensacional variação de filme catástrofe –o que torna “Apollo 13” uma espécie de precursor dos ótimos “Gravidade” e “Perdido Em Marte” –o diretor Ron Howard (então, mais conhecido por comédias descompromissadas como “Splash” com o próprio Tom Hanks) constrói uma belíssima narrativa, prodigiosa na capacidade de capturar o envolvimento do público mesmo diante de detalhes técnicos tão complexos quanto imprescindíveis à trama, ao revelar um fato histórico real que entrou para a história da Nasa como o seu "mais brilhante fracasso".
Muito bem representado por seu elenco (coadjuvantes particularmente brilhantes são Ed Harris, Kathleen Quinlan e Gary Sinise) e amparado por um trabalho técnico exemplar, o filme de Howard se vale, sobretudo, de um roteiro minimalista e equilibrado de William Broyles Jr. e Al Reinert (a partir do livro “Lost Moon”, do próprio Jim Lovell e de Jeffrey Kluger) no qual são balanceados com a mesma intensidade os dramas vivenciados pelas famílias dos astronautas em perigo –que funcionam como uma eficaz representação do público –as tensões sucessivas, repletas de desafios técnicos e questões logísticas experimentadas pelos engenheiros do centro de comando, e o temor impronunciável dos próprios astronautas diretamente envolvidos na calamidade, lutando contra o tempo e contra as probabilidades numa nave agonizante em gravidade zero na tentativa de retornar para casa.
Um resgate cinematográfico de valores muito norte-americanos, amparado numa grande história cujas circunstâncias absolutamente singulares não abrem margem para o cinismo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O Predador 2 - A Caçada Continua

“Predador 2” entrou para a crônica cinematográfica do início dos anos 1990 como um projeto mal-sucedido, em grande parte devido ao retorno insatisfatório na bilheteria em comparação ao vultuoso orçamento gasto pelo produtor Joel Silver; e por tal infortúnio, ele também é lembrado como um filme inferior na comparação com o original e fracassado também na intenção de agradar a crítica. Ninguém imaginava que seria mesmo fácil para o jovem diretor Stephen Hopkins ombrear a sagacidade e o manejo prodigioso de elementos perpetrados por John McTiernam em “O Predador”.
Entretanto, visto hoje –e sob um ângulo geral de continuações em justaposição aos seus originais –“Predador 2” se revela algo notável: Hopkins foi inteligente e habilidoso o bastante para manter um ritmo e uma identidade visual que, na medida do possível e do aceitável, espelhavam a mentalidade por trás do trabalho de McTiernam. Se em “O Predador” a selva na qual se ambientava o filme era um personagem à parte com uma direção de fotografia minimalista e engenhosa, neste segundo filme, a cidade de Los Angeles onde a trama se passa (porque é um tanto quanto óbvio a escalada de ‘selva’ para ‘cidade grande’ na premissa de uma continuação...) surge também ela detalhada, atendendo aos mesmos traquejos de câmera, apresentando um peculiaridade visual caótica, detalhada e muito parecida.
Não há dúvidas: No calor que retrata em seus filtros quentes (e no suor e nos comentários dos personagens) e na alta voltagem impressa desde a primeira cena de tiroteio, este é um lugar perfeitamente possível de atrair as atenções do famoso alienígena que caça por esporte.
Sua presença já se evidencia na primeira cena, onde traficantes e policiais travam um tiroteio tão brutal e selvagem que chega a ser caricato. Ali também surge, de forma igualmente caricata, o protagonista vivido por Danny Glover, Tenente Mike Harrigan, que numa pose típica de herói de ação arremessa um carro cobre os bandidos. Bom ator, Glover vai se impondo nesse raso personagens aos poucos, ainda que jamais consiga igualar o carisma de Schwarzenegger, e francamente, nem tenha tantas oportunidades assim para bem interpretar –estamos falando de um filme de ação, oras!
De qualquer maneira, embora difícil de engolir, a cena que o introduz no filme serve ao menos para mostrar o porque do policial logo se tornar uma espécie de prêmio para o predador, tão logo o alienígena dá cabo instantaneamente de todos os traficantes, alarmando a polícia.
Entra em cena o agente do FBI, Peter Keyes (Gary Busey, de “Caçadores de Emoção”), que logo assume o estranho local do crime antes de Harrigan e seus parceiros –o boa-praça Danny (Rubén Blades, de “O Último Entardecer”), a casca-grossa Leona (Maria Conchita Alonso) e o novato Jerry (um jovem Bill Paxton) –começarem as investigações.
Isso se repete novamente (o FBI puxando o tapete da polícia), durante uma chacina de traficantes jamaicanos e colombianos, quando o Tnt. Harrigan já começa a compreender que não são os jamaicanos, nem seus rivais do tráfico, os colombianos, quem estão por trás de massacres tão inacreditáveis –ambos, inclusive, foram vítimas de quem quer que seja.
Contudo, apesar da insistência do Agente Keyes em deixar o Tnt. Harrigan de fora do caso, àquelas alturas, a busca pelo misterioso assassino já tornou-se pessoal: Danny foi morto pelo predador, e todos os outros estão também em sua lista, sendo Harrigan, o ‘troféu principal’.
Um dos problemas enfrentados pela obra de Hopkins é que, até por conta da existência do primeiro filme, o público já adentra sua trama ciente dos elementos que compõem a mitologia do ‘predador’ –o mistério em torno do ser que ronda os personagens, um dos aspectos mais fascinantes e envolventes do filme de McTiernam, é um elemento que não faz muito sentido ser empregado aqui, afinal, já sabemos quem ele é e o que ele é, já o vimos!
De novo, é necessário, por isso mesmo reconhecer o trabalho notável que Stephen Hopkins soube realizar: Ele opta por um equilíbrio entre as aparições cada vez mais intensas do predador e o prosseguimento de sua trama policial sem deter-se em muitas firulas, indo direto onde o expectador deseja chegar. Além disso, a presença do personagem de Gary Busey permite a construção de um terceiro ato carregado de adrenalina e de saborosas revelações acerca do interessante antagonista alienígena.
Foi inclusive a aparição do interior da nave do predador –ocorrida no trecho final –que plantou uma semente nas expectativas dos fãs: Nessa cena, é possível ver, entre os ‘troféus’ da criatura, um crânio do ser monstruoso do filme “Alien-O 8º Passageiro”, sugerindo a possibilidade de um crossover dessas duas franquias, algo que veio, de fato, a acontecer em histórias em quadrinhos e videogames, e por fim, em 2004, com a produção “Alien X Predador” –mas, essa é outra história...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Abutre

Não obstante a faceta amarga e sombria da sociedade que por vezes evoca, este é certamente um projeto em família: O diretor e roteirista Dan Gilroy juntou-se aos irmãos Tony (que escreveu a “Trilogia Bourne” e “Conduta de Risco”) e John, produtor e montador deste filme respectivamente, e ainda deu a sua esposa, Rene Russo, uma ótima personagem à qual ela dá brilhante ênfase dramática
“O Abutre” é um retrato compenetrado e comprometido da imprensa marrom e das diretrizes imorais da busca por manchetes que comprometem até mesmo a execução da lei.
Seu protagonista, Louis Bloom ganha, de Jake Gyllenhaal, uma atuação minuciosa nos trejeitos irrequietos que denunciam uma ausência absoluta de escrúpulos.
Da frustração e júbilo que experimenta, às tragédias e ocorrências que testemunha, o olhar de Louis é sempre o mesmo, vítreo e atento, denotando sua falta de empatia. Para tanto, quando o filme começa, o vemos roubando cabos para ganhar algum dinheiro. Contudo, atividades ilícitas não são o bastante e ele procura uma ocupação.
O que ele encontra na noite em que resolve parar, por curiosidade, para ver um grave acidente às margens de uma rodovia: Logo após os policiais e paramédicos chegam os repórteres com suas câmeras.
Louis fareja uma oportunidade ali e, em poucos dias, está com sua própria câmera a postos, acompanhando a frequência do rádio da polícia em busca de algo para filmar e assim poder barganhar com as redes de noticiários sensacionalistas sempre atrás desse material.
Sem saber, Louis encontra seu habitat: É de fato um ambiente perfeito para alguém inescrupuloso e calculista crescer e ascender, um âmbito onde sua indiferença para com a vida alheia represente uma vantagem que o permite focar-se naquilo que almeja.
Ele consegue, de certa forma, aliados: De um lado, a editora de um telejornal obscuro (a própria Rene Russo), cujas filmagens, quanto mais sanguinárias, mais garante a audiência de que ela própria precisa para manter seu cargo.
Do outro, um jovem assistente, Rick (Riz Ahmed, o violãozinho de “Venom”) cujos questionamentos morais aos poucos começam a representar empecilhos para o próprio Louis.
Obtendo êxito cada vez maior com seu ofício de esfregar a câmera na cara de pessoas afrontadas por acidentes, assaltos, homicídios e toda sorte de tragédias urbanas, Louis adquiri tanta proximidade com o crime que aos poucos passa a imbricar por ele: Começa fazendo pequenas alterações em locais de acidente (mudando corpos de posição para conseguir um ângulo mais dramático), evolui para um acidente automobilístico forjado (sabotando os freios da furgão de um câmera concorrente, vivido por Bill Paxton) e culmina em sua participação desprezível e ilegal num caso de assassinato –Louis chega antes da polícia no palco de uma chacina e captura imagens inéditas com sua câmera (imagens estas que não tardam a lhe proporcionar um crescimento exponencial na carreira), o que inclui –sem que a polícia seja notificada –gravações dos rostos e do carro dos assassinos.
Louis retêm essas imagens para que possa encontrar os bandidos com ela, denunciá-los à polícias, e obter assim uma nova manchete bombástica.
Envolvente e absolutamente intrigante no registro de uma fauna tão presente e tão despercebida, inclusive nas telas da TV brasileira também, o filme de Dan Gilroy se mostra incisivo e desconcertante na justaposição inteligente que faz dos profissionais dessa área que sobrepõem interesses pessoais à valores éticos.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

No Limite do Amanhã


Inúmeros foram os filmes que se aproveitaram do mote de “Feitiço do Tempo” –onde um mesmo dia se repete indefinidamente para o atormentado protagonista –poucos, porém, foram os que souberam usar esse conceito para criar algo igualmente notável e, mais ainda, com indiscutível rigor técnico de continuidade exigido por uma produção onde o mesmo evento se repete diversas vezes.
“No Limite do Amanhã”, que reuniu o astro Tom Cruise e o diretor Doug Liman (ambos fizeram juntos depois “Feito Na América”) gira em torno dessa premissa numa roupagem de ficção científica com invasão alienígena e pontuais inserções de filme de guerra: A arrojada cena de batalha no início do filme –e que, por repetição se estende por todo ele –é nitidamente inspirada, decalcada e influenciada de “O Resgate do Soldado Ryan”.
Há uma guerra contra uma raça ainda desconhecida de alienígenas no futuro. Não ficam muito claras as razões dessa batalha (como não ficam muito claras inúmeras questões deste filme), nem o porque do conflito se dar em terra, num campo de batalha, e não no espaço sideral. Dessa forma, a humanidade envia um batalhão de soldados a uma ofensiva em céu aberto, com consequências desastrosas.
Integrante escorregadio dos esforços de marketing desse conflito, o major William Cage (Tom Cruise, balanceando bem o humor e a estoicismo do personagem) é forçado a ir a campo e acaba morto logo nesse primeiro combate. No entanto, ao ser fulminado no mesmo instante em que seu sangue toca o sangue alienígena, ele adquire um inusitado dom roubado dos inimigos: Repetir aquele mesmo dia, toda a vez que morre, revivendo-o e reiniciando-o continuamente.
Até se dar conta de sua imprevista condição, o versátil diretor Liman vai saber muito bem orquestrar os ótimos momentos de humor que irão intercalar com as cenas de ação, pródigas em tudo que a indústria hollywoodiana tem de melhor em termos técnicos.
Em algum momento, Cage encontra a casca-grossa sargento Rita Vatraski (a ótima Emily Blunt), a única pessoa que parece compreender sua nova capacidade e ser capaz de instruí-lo a usá-la: Tentar retroceder todas as vezes, aprender cada vez mais, e procurar encontrar um meio de salvar a raça humana.
Embora certamente carente de originalidade por motivos óbvios, a premissa em si (extraída de uma história em quadrinhos japonesa) é inventiva na maneira com que as cenas se sucedem levando o expectador a envolver-se, tentando acompanhar os infortúnios improváveis dos personagens e as maneiras como a produção fará para recriar as mesmas sequências com pequenos diferenciais.
O entusiasmo do diretor Liman com esse material –que ele converte efusivamente num passatempo bem divertido –o faz relevar até mesmo inclinações mais evidentes e banais que contaminam a trama perto do final (como o envolvimento afetivo dos dois protagonistas).  E é notável o fôlego que Tom Cruise demonstra para personagens que dele exigem grande dedicação física.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Quando Chega A Escuridão

A primeira cena de “Quando Chega A Escuridão” mostra um pernilongo sugando o braço do protagonista: Uma analogia à natureza das criaturas chupadoras de sangue que será o cerne de toda a premissa.
A diretora Kathryn Bigelow estréia no cinema adentrando um gênero que poderia tornar desfavorável a comparação com obras que vieram antes e depois, mas seu trabalho prima por uma postura diferenciada, admiravelmente objetiva e convicta da abordagem fatalista que adota para o vampirismo em contraponto a um existencialismo melancólico (destacado pela trilha sonora de Tangerine Dream) típico da juventude à qual remete, sobretudo, o charmoso par principal, Caleb (Adrian Pasdar, que muito depois fez a série “Heroes”) e Mae (Jenny Wright).
Ele encontra ela em uma madrugada casual. O flerte jamais parece se concretizar devido ao comportamento erradico dela –e quando sabemos previamente que Mae é uma vampira (o que é o caso da grande maioria dos expectadores que vão ver o filme) podemos notar uma tensão toda especial moldando o clima.
Um detalhe interessante é o fato do filme de Bigelow em momento algum usar a palavra “vampiro”; nem tampouco os famosos caninos salientes aparecem!
Os outros elementos paradigmáticos do subgênero, entretanto, estão todos lá: Sem conseguir suportar a ansiedade em desvencilhar-se de Caleb antes do nascer do sol (e bastante perturbada pela sede de sangue) Mae não resiste e o morde pouco antes de sair correndo. Com isso, ela inicia a transformação de Caleb que logo estará prestes a ser incinerado pelos raios solares.
Nessa condição, ele se junta ao grupo de Mae, composto pelo menino Homer (Joshua John Miller) –um adulto preso num corpo imortal de criança –o imprevisível Severen (Bill Paxton), o líder sombrio Jesse (Lance Henriksen) e sua companheira Diamondback (Jenette Goldstein) –todos os três recém-saídos de “Aliens-O Resgate”, de James Cameron.
Juntos, eles singram o centro-oeste norte-americano numa vida nômade fazendo vítimas à noite. Paralelamente, o pai de Caleb, Loy (Tim Thomerson, de “Trancers”) empreende uma investigação ao filho desaparecido por conta própria, junto da filha pequena.
Mais do que simplesmente promissor, “Quando Chega A Escuridão” revela uma diretora ciente dos fatores que fazem um filme ser instigante, singular e válido; prova disso é a relevância como entretenimento que este trabalho preserva décadas depois de sua realização –à exceção, talvez, da concessão redentora em seu terceiro ato, quando o roteiro sai com a tirada de que uma transfusão de sangue basta para que um vampiro volte a ser uma pessoa normal (!).
Um detalhe menor, porém, diante de todo o grande filme que o envolve.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Encaixotando Helena

A estréia na direção de Jennifer Chambers Lynch, filha de David Lynch, trouxe a ela uma estranha expectativa de que, como cineasta, ela herdasse o gosto pelo bizarro e pelo surreal que caracterizava o estilo de seu pai.
De certa maneira, ela até tentou corresponder a essa impressão.
Em “Encaixotando Helena”, o quê se tem é uma história de amor transfigurada pelas circunstâncias bizarras que dão margem à perversão (Kim Basinger até já havia fechado acordo para participar do filme quando se deu conta do material francamente controverso com o qual iria se envolver e desistiu do projeto): Torturado por lembranças de infância que sugerem um possível incesto cometido com sua mãe (!), o médico Nick (Julian Sands, ator que oscilou entre ótimos trabalhos e produções vergonhosas) a despeito de estar envolvido com Anne (Betsy Clark) se mostra obcecado pela bela Helena (Sherilyn Fenn, de “Twins Peaks”, estreitando as comparações entre Jennifer e seu pai) uma espécie de acompanhante de luxo que, beneficiada por sua grande beleza e por tudo que ela lhe proporciona, o ignora completamente. Isso quando não o repudia sem qualquer hesitação!
Entretanto, numa noite específica, quando Helena parece disposta a dizer basta e procura Nick para lhe expressar com mais veemência seu desprezo, um acidente acontece –um carro inadvertidamente a atropela.
E um corte drástico arremata essa cena de forma elíptica sem que mais detalhes gráficos pudessem ser explorados (algo que certamente David faria).
Nos dias que seguem descobrimos que Helena sobreviveu, e que Nick, única testemunha do acidente a levou para sua casa onde precisou (ou convenceu a si mesmo que precisava) amputar as pernas de Helena (!), confinando-a a uma cadeira de rodas.
A relação se mostra tensa e recriminatória, especialmente porque Helena, afligida pela angústia de sua nova condição se ressente ainda mais com Nick, mesmo que ele se declare apaixonado por ela a todo o momento.
Logo, o comportamento selvagem de Helena o leva a tomar uma medida drástica: Amputa também os braços dela (!), confinando-a em uma caixa como uma boneca!
Diante da inevitabilidade de seu convívio, e de uma gradual transformação nos sentimentos de Helena quando o filme já chega em sua segunda parte, ela e Nick desenvolvem uma relação doentia que mistura resignação e dependência com amor e atração física. Mas, isso tudo pode ser interrompido, pois existem pessoas que ainda procuram pela desaparecida Helena, como seu displicente e superficial amante (vivido por Bill Paxton).
Jennifer Chambers Lynch buscou fazer um filme similar ao que se espera de seu pai na premissa básica (e a trama realmente se principia em elementos francamente desconcertantes), mas não manteve tal decisão em seu formato: Narrativamente falando, o filme é tímido, ginasiano até, com cenas de sexo que por pouco não descambam para o registro brega do soft-porn que proliferou naqueles mesmos anos 1990, longe da audácia onírica e aflitiva que David Lynch compõe com tanta naturalidade.
Em algum momento, Jennifer se dá conta disso e sente a pressão: Seus personagens não ocupam com tranqüilidade nem com convicção o cenário no qual estão inseridos na maior parte do tempo, uma mansão de paredes e ornamentos saídos da publicidade –parecem, na verdade, esgueirar-se pelos cantos, como se existisse ali outro acontecimento ocorrendo, e dele e de seus envolvidos tentam passar despercebidos.
Talvez, o aspecto mais frustrante de “Encaixotando Helena” mesmo seja o fato de que o filme sugere uma transgressão na maneira com que irá expor a situação ilustrada na premissa desde os cartazes do filme, e termina não indo em direção nenhuma: Seu desfecho banaliza toda a trama que se construiu até então na intenção apenas de ratificar seu elemento insólito.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um Plano Simples

À época, não apenas o falecido ator Bill Paxton como também o diretor Sam Raimi –anos antes de dirigir a Trilogia “Homem-Aranha” –tinham dificuldade para expor seus talentos ao público e à crítica; Paxton estava atrelado aos personagens histriônicos com algo de engraçado, que ele viveu em “Aliens-O Resgate”, “Quando Chega A Escuridão” e “O Predador 2”, o quê normalmente lhe relegava ao cargo de coadjuvante (e, não raro, o aprisionava num único papel); já Raimi estava a uma década digerindo a repercussão do cult “Evil Dead”, às voltas com suas estranhas continuações –ele havia feito também o notável “Darkman-Vingança Sem Rosto” e seu último trabalho, antes de hiato de tempo considerável, havia sido a irregular homenagem aos faroeste spaghetti “Rápida e Mortal”, com Sharon Stone.
A chance para ambos, ator e diretor, mostrarem o alcance de suas capacidades veio com “Um Plano Simples”, adaptado do livro de Scott Smith pelo próprio autor com um roteiro fenomenal.
Na trama, que se inicia numa sutil narração em primeira pessoa, descobrimos que a rotina e a mediocridade da vida numa cidadezinha esbranquiçada de neve pesa sobre Hank –papel que Bill Paxton incorpora com minúcia e austeridade inéditas em sua carreira.
Numa manobra narrativa que irmana esta produção à “Fargo”, dos Irmãos Coen, lançado poucos anos antes (e com o qual este belo trabalho guarda, de fato, algumas semelhanças que vão além da ambientação gélida, o visual branco monocromático e a modernização do suspense noir), o diretor Raimi estabelece a constante pontuação de ironia e crueldade do filme ao iniciar a premissa com um avião caído no meio da neve.
A chance de Hank escapar de sua vida medíocre está lá: Dentro desse avião, uma maleta de dinheiro, fruto provavelmente de uma venda de drogas, parece estar à disposição dos afortunados que primeiro achá-la. E eles vêem a ser Hank, seu irmão Jacob (Billy Bob Thornton, numa performance estupenda) e o amigo dele Lou (Brent Briscoe).
Como o título sugere, o procedimento para que todos se dêem bem é de uma simplicidade irresistível, e tal plano é incentivado e acrescido de opiniões e sugestões incisivas pela esposa de Hank, Sarah (Bridget Fonda, cujo rosto de boa moça esconde a personagem mais manipuladora da trama).
E, de novo, há uma curiosa analogia para com “Fargo”: Sarah está grávida, assim como a protagonista de Frances McDormand naquele filme –na visão concordata de ambos os realizadores (Raimi e os Coen) parece haver uma concessão entre os habitantes desses enredos sórdidos, onde suas convicções se enfraquecem diante de uma mulher e seu poder singular de gerar a vida; e essa concessão pode ser usada em favor da justiça (como em “Fargo”) e em prol da ganância pessoal (como aqui).
A decisão conjunta de todos é que Hank guarde o dinheiro por um tempo –pelo menos, um ano –e depois, todos o dividirão e farão aquilo que quiserem.
Mas, Lou não permite que esse plano siga com tranqüilidade: Beberrão, endividado e inconveniente, ele quer dinheiro o quanto antes e, diante das negativas que eventualmente recebe, se torna mais e mais instável, ameaçando o comprometimento do plano (e até mesmo usando isso como chantagem).
Isso e mais o aparecimento de alguns traficantes disfarçados de policiais –e muito interessados em reaver o dinheiro –mostram a eles como seu plano, antes tão simples, tinha potencial de sobra para se complicar.
Demonstrando habilidade em uma percepção adulta para com o traquejo dramático da tensão –que suas obras no gênero de terror e de fantasia jamais dariam indicação que ele tinha –Raimi conduz brilhantemente este trabalho envolvente e palpitante, onde ele contrapõe as personalidades de Hank e Jacob, cada um magnificamente defendido por seu intérprete (Thornton chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), como os grandes catalizadores das situações que surgem.
Terminando de maneira surpreendente nas mesmas cenas com as quais se iniciou, “Um Plano Simples” assombra o expectador com um desfecho que amarra os acontecimentos do início de uma forma atroz, genial e perfeita para os propósitos da trama e do próprio gênero em si: O film noir, como atestam os grandes realizadores –mesmo os pós-modernos –trata quase sempre da queda sem retorno, sem folga e sem ressalvas em um grande abismo moral.

“Há dias em que eu consigo não lembrar de nada. Nem do dinheiro. Nem dos assassinatos. Nem de Jacob. Dias em que eu e Sarah conseguimos fingir ser pessoas normais. Mas esses dias... são raros.”

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Titanic

Virou lenda a história de como a perseverança do diretor James Cameron levou à criação de um dos maiores sucessos que o cinema já conheceu.
Essa disposição de Cameron em ir paulatinamente além do que o cinema é capaz de materializar em termos técnicos –e do que os atores são capazes de fazer em termos práticos –já havia aparecido em filmes como “O Segredo do Abismo” (durante o qual surgiu a idéia para “Titanic”) ou “O Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final”, mas nunca havia se expressado com a convicção, e a tenacidade inigualáveis com as quais ele enfrentou neste projeto, as intempéries naturais, a descrença dos produtores, os contratempos eventuais de filmagens (e outros até bem mais singulares) e a própria limitação de seus colaboradores para moldar sua visão: Uma recriação suntuosa, realista e de proposta quase imersiva para a platéia no que tange à utilização de efeitos visuais, do trágico naufrágio do navio Titanic, ocorrido em 14 de abril de 1912 –recriação essa infinitamente mais arrojada e definitiva do que os limitados esforços vistos em filmes antigos, sendo até então o mais célebre o filme “Somente Deus Por Testemunha”.
Ciente do cinema de natureza clássica que estava abordando –diferente de seus outros trabalhos, mais voltados para ação e ficção científica –Cameron emoldurou os acontecimentos reais com uma trama fictícia, de sua autoria. Dessa forma somos apresentados, no início (que se passa em tempos atuais) à idosa Rose (a ótima Gloria Stuart), uma senhora nonagenária que apresenta-se à equipe de pesquisadores oceanógrafos de Brock Lovett (o sempre bom Bill Paxton) como uma das ocupantes do Titanic na trágica noite em que ele naufragou. Disposto a encontrar uma jóia preciosa perdida durante o naufrágio, Lovett e sua equipe ouvem atentamente quando Rose recorda-se de quando era uma jovem moça (interpretada, desta vez, pela linda e estonteante Kate Winslet) em 1912 e, ao lado do noivo que não amava (Billy Zane, apropriadamente canastrão) e da própria mãe (Frances Fisher) embarcou na fatídica viagem de inauguração do transatlântico Titanic. Durante a viagem, da Inglaterra até o porto de Nova York, ela conhece Jack Dawson um jovem artista pobretão (Leonardo Dicaprio, que deve seu estrelato à este filme) por quem acaba se apaixonando.
Mas, como hoje todo mundo bem sabe, o gigantesco navio colide com um iceberg antes de chegar ao seu destino tornando iminente seu naufrágio, e colocando em sérios perigos as vidas de Rose e Jack, assim como seu amor.
Não restam dúvidas de que os momentos verdadeiramente memoráveis do filme se encontram na segunda e exuberante metade de suas três horas de duração: O naufrágio mostrado em todos os seus detalhes poderosos e atrozes. Cameron vale-se além de tudo de um domínio prodigioso de suspense por meio do qual ele gradativamente intensifica a aflição e o desespero dos passageiros, que aos poucos se dão conta de que estão à beira de uma catástrofe e, no processo, enfileira cenas coletivas estupendas: A disputa cada vez mais desesperadora pelos poucos botes salva-vidas disponíveis; a poética seqüência em que os músicos integrantes de uma banda se recusam a se separar e decidem tocar música até o fim; a inclinação gradual e implacável de todo o navio (o quê corresponde à todo o cenário do filme inteiro!) levando centenas de figurantes a despencar nas águas geladas; o rompimento brutal do casco do Titanic –cena jamais mostrada nas outras reconstituições cinematográficas do naufrágio por ser até então considerada impraticável! –que leva milhares à morte; e a seqüência assombrosa em que o navio se encontra num ângulo de 90 graus, prestes a afundar em definitivo.
Apesar disso, a primeira metade do filme não é uma mera introdução prolongada; ela ilustra muito bem a capacidade de Cameron em construir personagens acima de tudo carismáticos. Prova disso é o sutil e divertido desabrochar da protagonista Rose –mais até do que a evolução de seu romance com Jack –de uma jovem indefesa e amargurada para uma mulher corajosa e convicta. Por conta de todos esses elementos, pode parecer banal hoje, falar a respeito de um filme que –conseqüência do estarrecedor fenômeno popular que se tornou –todo mundo conhece. No entanto, na época de seu lançamento, “Titanic” guardava, de fato, elementos inéditos no cinema hollywoodiano; o emprego que Cameron dava aos efeitos especiais (verdadeiramente assombrosos) era de uma habilidade extraordinária, assim como a forma vigorosa com que ele manipulou todas as facetas logísticas (e, sabe-se, complicadíssimas) dessa imensurável produção e, contra todas as previsões, dela extraiu um filme sólido, detalhado, belíssimo e emocionante –ainda me lembro das multidões saindo do cinema, como num processo quase ritual, em prantos. Essa inquestionável demonstração de competência certamente justificou a vitória de James Cameron na categoria de Melhor Diretor do Oscar 1997, provavelmente o mais merecido de seus prêmios, dentre os 11 que recebeu –igualando assim a hegemonia de uma marca histórica que o épico “Ben-Hur” mantinha há quase quarenta anos.
Por essa e por inúmeras outras razões, um feito técnico e artístico notável, e que dificilmente se repetirá.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

True Lies

Em 1994, os parceiros e camaradas James Cameron e Arnold Shwarzenegger experimentavam situações distintas na carreira: Schwarzenegger teve supremacia como astro de cinema de então ligeiramente abalada quando, um ano antes, o seu equivocado “O Último Grande Herói” foi esmagado nas bilheterias pelo fenômeno “Jurassic Park”, de Steven Spielberg. Já, James Cameron crescia cada vez mais aos olhos de público e crítica como um dos grandes artesãos de Hollywood, uma vez que seu último trabalho havia sido o bem-sucedido “Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final” –na época a maior bilheteria de todos os tempos, depois superado pelo mesmo “Jurassic Park”...
Para restaurar a boa fase do amigo Schwarzenegger, o diretor Cameron resolveu retomar a parceria com ele, num projeto bem mais inusitado –e um bocado mais manhoso e carregado de artifícios –do que os dois primeiros “Exterminador do Futuro”: Tratava-se da refilmagem de um gracioso (e, na comparação com esta megalomaníaca produção norte-americana, despretensioso) filme francês de ação, “La Totale!”.
É claro que, com tais nomes envolvidos, tudo é maior nesta refilmagem, e Cameron aproveita a oportunidade para fazer desta a sua própria versão de 007; vale lembrar que somente um ano depois, em 1995, Pierce Brosnan faria sua estréia como James Bond em “007 Contra Goldeneye”, após uma ausência do personagem nas telas de cinema desde os anos 1980 (o público, portanto, estava ávido por produções com esse apelo).
E contra muitas previsões “True Lies” resulta algo de bastante notável! –até mesmo a composição de Schwarzenegger para um Bond americano, mais truculento e brutamontes, mas ainda assim, cheio de estilo e refinamento, é dotado de carisma e uma verve própria.
Ele é Harry Tasker, um agente secreto do governo americano (seu chefe é, ninguém menos que Charlton Heston!) envolvido em toda sorte de missões mirabolantes ao melhor estilo 007 –e que ganham toda a moldura de arrojo e sofisticação que a direção de Cameron é capaz de proporcionar.
Tasker, no entanto, vive o quê pode ser considerada uma rotina das mais inrônicas na qual tem de esconder da mulher, Helen (Jamie Lee Curtis, sobre quem há muito o quê falar), com quem é casado há anos, sua real profissão: Ele arrisca-se em missões perigosas e arriscadas pelos lugares mais inusitados do mundo, enquanto ela crê inocente que ele é um mero analista de computadores.
Entretanto, surge uma ameaça de adultério: O espião, tão soberano, viril e infalível em seu âmbito profissional corre o risco de ser passado para trás por um vigarista de quinta categoria (vivido com histrionismo impecável por Bill Paxton) que finge-se para Helen que é um –veja só! –espião (?!).
Disposto a usar de seus recursos para colocar a situação em ordem, Traske ameaça fazer com que essa estranha situação na qual se encontra seu casamento venha a se espatifar de encontro aos perigos muito reais de sua ocupação.
Especialista do gênero ação e aventura, Cameron orquestra com habilidade uma narrativa distinta das sisudas ficções científicas que primeiramente lhe reuniram com Schwarznegger. É, porém, Jamie Lee Curtis quem rouba o filme dando à personagem de Helen, não apenas uma metamorfose das mais deslumbrantes ao longo da trama (ela vai de desengonçada à espantosamente sexy sem jamais perder uma empatia rara), como também uma interpretação descontraída, sensual e engraçada. Por tal demonstração de desenvoltura e competência –e por conseguir o feito de relegar os efeitos visuais de última geração à segundo plano –ela conquistou um merecidíssimo Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Comédia ou Musical.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Aliens - O Resgate

Ancorado na magnífica atuação de Sigourney Weaver, o diretor James Cameron –cujo currículo estava longe de trazer os títulos portentosos que ele tem hoje, é bom lembrar, só para termos uma idéia de sua audaz iniciativa naquela época –construiu esta primorosa continuação de “Alien” oferecendo, como diferencial, doses muito mais generosas de ação e suspense, contrapondo a adrenalina elevada à inovação técnica e estética e à atmosfera impecável –extraída dos pesadelos de H.P. Lovecraft –que fizeram o charme do magnífico filme de Ridley Scott.
É justo afirmar que Cameron entregou a melhor e mais digna dentre todas as seqüências da saga.
Única sobrevivente do ataque de uma criatura alienígena à sua tripulação ocorrida no filme anterior, a Tenente Helen Ripley (Sigourney que, por este trabalho, ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz) acorda após anos em animação suspensa no espaço, e é resgatada. Mas descobre que o planeta onde outrora encontrou a criatura agora é colonizado por pessoas. As autoridades ignoram suas advertências, mas quando perdem totalmente o contato com a colônia, e suspeitam de que algo muito errado ocorreu, eles a procuram para acompanhar um grupo de soldados de elite designados a averiguar o que houve, e eliminar os alienígenas.
Eufórico, tecnicamente impecável e sombrio como poucos filmes comerciais do período ousaram ser, este “Aliens-O Resgate” salienta a capacidade inata de Cameron como diretor –que só ficaria realmente patente em obras ainda mais ambiciosas como “Titanic” e “Avatar” –ao inserir poderosos elementos dramáticas na narrativa, e fazer disso um de seus alicerces e diferenciais. Algo que sempre definiu a série “Alien”.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Twister

Meio esquecido hoje em dia pelas novas gerações de cinéfilos e expectadores médios, esta produção foi relativamente marcante nos anos 1990, estabelecendo (ao lado de “Independence Day”, no mesmo ano) um novo padrão estético para os blockbusters realizados dali para frente. A direção do holandês Jan De Bont (outrora diretor de fotografia) não deixava dúvidas: Eram os efeitos visuais os personagens principais do filme, e até mesmo seus protagonistas humanos, Bill Paxton e Helen Hunt, aparecem conformados com esse fato em cena, comportando-se, muitas vezes, como coadjuvantes.
Eles são, à propósito, um casal de ‘caçadores de tornados’ em meio à um complicado processo de separação. Ele arrasta a namorada (Jami Gertz, que fez alguns filmes nos anos 1980) para os confins do Kansas a fim de obter a assinatura da ex-esposa para os papéis de divórcio, mas isso tudo é mera embromação.
O quê de fato importa é que o lugar está para sofrer uma das mais intensas temporadas de furacões dos últimos anos, e esse grupo está mais do que disposto à passar por ela para coletar dados que possibilitem a criação de um sistema mais eficaz de alerta... ou algo assim.
Isso porque o tratamento dado à trama –e, por conseqüência, aos personagens –é tão insípido e superficial que tudo, quando muito, se sustenta como pretexto para o encaminhamento das cenas de ação; mesmo presenças como o mais tarde consagrado Phillip Seymour Hoffman são adereços básicos sem maiores cuidados, que tão somente somam no sentido de justificar os momentos intensos.
De Bont sequer faz questão de esconder isso e, tal qual já fizera em seu filme anterior –aquele que o havia revelado –“Velocidade Máxima”, ele converge a narrativa, seja o suspense ou a trama que com ela costura, para esses momentos específicos, quando os verdadeiros protagonistas aparecem: Os mais fotogênicos e ultrarealistas furacões que a computação gráfica foi capaz de conceber para o cinema.

Ao menos nesse quesito o filme se saiu magnificamente bem: Até hoje não foi realizado um filme de mesmo tema que o supere –a única pálida e vergonhosa tentativa é “No Olho do Furacão”, uma bobagem, além de tudo filmado em ‘found footage’, que mesmo com décadas de aperfeiçoamento na área de efeitos de computação gráfica, não conseguiu igualar as sequências mais empolgantes deste pequeno clássico dos filmes descerebrados de ação.