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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Não Se Mexa


 A Netflix ocasionalmente capitaliza certa audiência com algumas produções que, não raro, giram em torno de um enredo francamente aflitivo a envolver uma mulher metida em enrascadas de natureza mirabolante –assim foi nos sucessos “Destinos À Deriva”, “Bird Box” (com Sandra Bullock) e, no que talvez seja o precursor desse modismo, “Jogo Perigoso”. “Não Se Mexa” engorda tal lista repetindo praticamente todos os mesmos tópicos, inclusive o sucesso súbito, indicativo do quanto obras assim, enxutas, exasperantes e pontuais, vão de encontro ao gosto do público.

A jovem Iris (Kelsey Chow, de “Terra Selvagem”) vive uma angústia doméstica infindável –seu filho pequeno morreu ao cair de um despenhadeiro –o que mergulha seus dias numa depressão sem fim. Ao procurar o local da morte do filho para cogitar seriamente a possibilidade de jogar-se de lá, Iris encontra o gatilho para um outro tipo de tormento: Richard, ou um homem que se apresenta a ela com o nome de Richard (interpretado por Finn Wittrock, de “A Grande Aposta” e “Twelve-Vidas Sem Rumo”), aparece do nada, revelando uma história tão trágica e lamentável quanto a dela e demonstrando estar solícito com seu sofrimento –ela a convence a não se jogar do despenhadeiro e, quando se dá conta, Iris está ao lado dele na floresta em regresso ao seu carro.

No entanto, Richard não é nada daquilo que aparentava ser. Ele é, sim, um serial-killer –e, provavelmente, Richard nem é seu verdadeiro nome, visto que, ao longo do filme, ele fornece outros nomes à outros personagens –e, após capturar, inconscientizar e amarrar Iris em seu carro, já temos uma ideia (baseada em tantas obras sobre serial-killers já feita) do quê ele haverá de fazer com ela. Ali mesmo, porém, Iris escapa –na primeira de várias improbabilidades que o roteiro equilibra uma sobre a outra –e durante a luta com Richard, à bordo do carro em movimento, faz com que o veículo colida contra uma árvore (!). Iris foge pela floresta afora, contudo, enquanto estava desacordada no carro, foi injetado nela uma droga que fará seu organismo ‘desligar’ em cerca de vinte minutos: A droga vai parasilá-la completamente. Ela poderá ver e ouvir tudo o que se passa, mas ficará incapaz de se mover ou se exprimir.

E é aí que começa a pequena e original sacada que ocupa do cerne desta produção assinada por Sam Raimi, um notório entusiasta de filmes de terror e suspense: Uma obra na qual a protagonista, ainda que perseguida por um assassino, não consegue se mexer, nem falar, durante a quase totalidade de sua duração –e ainda assim, levando ao extremo a definição de estar indefesa, praticamente tornada tão impotente ante o vilão quanto os próprios expectadores (ainda que, diferente de nós, ela corra risco real de se ferir e morrer), o roteiro encontra meios de avançar com sua trama, criar situações sucessivas, e circunstâncias quase episódicas, nas quais a protagonista vegetativa tem que esperar o efeito severo da droga paralisante e contar com a pura sorte para que seu antagonista implacável não faça dela sua próxima vítima.

Naturalmente, ao realizar verdadeiros malabarismos narrativos para manter, avançar e justificar uma trama assim, o filme dirigido por Adam Schindler e Brian Netto flerta, e muito, com a inverossimilhança em vários momentos –ainda que se pretenda realista em várias ocasiões. São aspectos menores diante do fato bastante relevante de que a obra demonstra, acima de tudo, bom senso, ao se desenvolver numa duração enxuta (cerca de uma hora e meia de duração), sabendo desenvolver e concluir sua premissa antes que o expectador se dê conta do quanto absurda ela é.

Por tais méritos pontuais, “Não Se Mexa” é uma realização imperfeita, indiferentes aos inúmeros lapsos criativos que a fazem similar à tantos trabalhos de gênero que, amparados nas mesmas diretrizes, renderam inúmeros filmes bem-sucedidos e esquecíveis (como “A Queda”, “Águas Rasas” e vários outros), mas, eficiente no tipo de entretenimento que, com certa despretensão, se propõe a ser.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Ajuste Final


 Em seus primeiros projetos cinematográficos, os Irmãos Coen, Joel e Ethan, procuraram visitar distintos gêneros de cinema, a fim de testar suas aptidões e encontrar sua própria voz autoral dentro de expedientes já estabelecidos. É por isso que, em sua primeira fase, fomos brindados com obras como “Gosto de Sangue” (um neo-noir), “Arizona Nunca Mais” (comédia screwball) e “Barton Fink-Delírios de Hollywood” (drama de metalinguagem). À eles, soma-se este “Miller’s Crossing” com o qual os Coen levam um viés inusitado ao filme de gangster.

Ambientado numa cidade norte-americana indefinida (ainda que tenha sido filmado em Nova Orleans), e situado no ano de 1929 (o auge da Lei Seca), “Miller’s Crossing” possui um prólogo que parece um piscadela à “O Poderoso Chefão”, a referência-mor do gênero: Diante da câmera, um descendente de italianos (tal e qual no filme de Coppola) faz um monólogo quase que para a plateia –e para o poderoso ‘chefão’ deste filme, o irlandês Leo O’Bannon, vivido com ar supino por Albert Finney. O descendente de italianos, contudo, é outro gangster, Johnny Casper (Jon Polito, de “A Conquista da Honra”), e ele esboça seu descontentamento com um certo Bernie Bernbaum, um bookmaker clandestino que, apesar de sua insignificância, está incomodando a harmonia de seu negócio de apostas ilegais.

Casper quer Bernie morto. Leo recusa seu pedido. E está, assim, declarada a guerra.

Ouvindo tudo, está Tom Reagan (Gabriel Byrne), braço-direito de Leo e seu melhor amigo, o único aparentemente capaz de expor opiniões discordantes ao irascível Leo. Tom sabe que, ao negar um pedido relativamente sensato à Casper, Leo está pondo a paz de seu império mafioso à perder, mas, Leo se mantém irredutível e a resposta para isso não tarda à vir: Leo está enamorado  da charmosa vigarista Verna Bernbaum (Marcia Gay Harden, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Pollock”) que vem a ser irmã de Bernie Bernbaum (John Turturro). A pedido de Verna, portanto, Bernie goza da proteção indireta de Leo, e seus deslizes constantes, fonte de irritação de Casper, recebem vista-grossa do chefão. Tom, entretanto, sabe que essa paixonite de Leo pode levar à sua derrocada –e, para complicar ainda mais as coisas, Tom e Verna são amantes às escondidas de Leo (!),

Não obstante o requinte cinematográfica que pontua este filme –enfatizado na brilhante fotografia de Barry Sonnenfeld e na música climática, operística e lírica de Carter Burwell –a trama extremamente complexada e intrincada, abarrotada de informações ambíguas, traições, reviravoltas e alianças forjadas de última hora, é contada mesmo através de diálogos carregados de melindres entre os personagens. Nessa circunstância adornada de perfídia, não chega a ser inesperado quando, ao descobrir a traição do melhor amigo, Leo rompe com Tom e este passar para o lado de Casper –a fim de provar sua lealdade ao novo chefe, contudo, Tom é obrigado por seus capangas à levar o incauto Bernie para a floresta de Miller’s Crossing, local onde, pelo jeito, os mafiosos têm o hábito de levar para sacrificar suas incontáveis vítimas.

Amparados em seus valores cinematográficos à toda prova, os Coen dão uma grande contribuição ao conceito narrativo –difundido pela obra-prima de Francis Ford Coppola –no qual as intrigas e tramóias mafiosas, desenroladas num novelo elaborado de mortes e conchavos, ganham uma carregada aura de tragédia e ópera; exemplo disso, entre outras passagens tornadas memoráveis, é o ataque à mansão de Leo, cujo tratamento bastante estilizado e poético deixa um tanto quanto de lado as pretensões de realismo para ressaltar o ambiente em suas minúcias pictórias, como se todos os locais (a mansão, o escritório de Leo, o quarto de Tom, o Clube Shenandoah –olha a referência! –e a própria Miller’s Crossing) fossem palco dos desdobramentos irônicos de uma mitologia muito particular.

Essas considerações, envoltas numa rigidez acadêmica tanto técnica quanto artística, somadas ao inerente humor negro dos Coen, tornam pouco convincentes (ainda que sempre intrigantes) muitos dos desenlaces da trama –um pequenino lapso que, na maioria de seus excelentes trabalhos, os Coen souberam habilmente contornar.

domingo, 18 de setembro de 2022

Na Roda da Fortuna


 Desigual, como aliás, é desigual toda a filmografia dos Irmãos Coen, “Na Roda da Fortuna”, lançado em 1993, vinha na sequência de obras como “Barton Fink-Delírios de Hollywood”, “Ajuste Final” e “Arizona Nunca Mais”; isto é, os Coen chegavam num ponto da carreira em que, ao mesmo tempo que testavam novas formas de contar uma história abordando gêneros novos e desconhecidos, começavam a experimentar algum tipo de aclamação, com prêmios como a Palma de Ouro por “Barton Fink”.

“Na Roda da Fortuna” é a reafirmação dos Coen por um cinema instintivo onde construíam seus filmes a partir de impressões que, proposital ou não, pouca vontade tinham para ir de encontro às expectativas de público ou crítica. É também uma espécie de retorno às raízes ao firmarem aqui uma improvável colaboração com Ram Saimi que aparece como co-roteirista em numa participação especial (Raimi, ainda atrelado às trincheiras dos filmes de terror de baixo orçamento, havia escrito seu escatológico “Dois Heróis Bem Trapalhões” com a ajuda dos Coen), e uma referência e reverência ao cinema de Frank Capra, no qual, os esmagadores interesses industriais e corporativos estavam sempre fadados a serem sobrepujados pelo inocência e pelas boas intenções.

Como já tinham reputação de serem brilhantes cineastas (e isso, para minha profunda admiração, eles nunca deixaram de ser), os Coen já eram capazes de atrair grandes nomes para seu elenco: Aqui, na trinca de personagens principais, eles contam com Tim Robbins (então aclamado por “O Jogador”, de Robert Altman, e por “Bob Roberts”, também sua estréia como diretor), Jennifer Jason Leight (atriz talentosa que, a despeito de seus papéis sexualmente pesados, conseguira se impor como a grande intérprete que é) e o astro veterano Paul Newman (a cereja no topo do bolo, que coroava os Coen como realizadores capazes de despertar o interesse dos maiores de Hollywood).

O título original de “Na Roda da Fortuna”, “Hudsucker Proxy” –uma brincadeira referencial dos autores com um termo que aparece tanto em “Evil Dead”, de Saimi, como também em “Arizona Nunca Mais”, dos Coen –é, na verdade, o título de uma empresa fabricante da Nova York de 1958. Após o suicídio (mostrado com toda a galhofa pouco usual e o arrojo técnico e artístico que tornara os Coen notórios) de seu presidente-fundador, o executivo-chefe Sidney J. Mussberger (Paul Newman, se divertindo a valer) põe em prática um plano ardiloso: Nomear em seu lugar o substituto mais paspalho possível a fim de que o preço das ações despenque. O escolhido vem a ser o ingênuo e sonhador Norville Barnes (Tim Robbins), recém-chegado do interior à Grande Maçã. Entusiasmo com sua boa sorte, Norville promove a execução de suas ideias –inclusive a quase pueril iniciativa de produzir bambolês em larga escala (!) –enquanto a aguçada e destemida repórter Amy Archer (Jennifer Jason Leight, numa personagem que emula brilhantemente os trejeitos da Rosalind Russell de “Jejum de Amor”) fareja, nessa improvável história, um escândalo escondido, destinado a ilustrar as manchetes dos jornais.

Os rumos inesperados (mas, nem tanto) desse enredo são o sucesso repentino dos bambolês de Norville entre as crianças –o que gero um efeito inverso às expectativas vilanescas de Mussberger –e o enlace romântico entre Norville e Amy, fatores que levam Mussberger a revelar, por fim, suas facetas perversas e manipuladoras.

Na fábula que aqui concretizam, os Coen não se furtam de promover seu final feliz valendo-se das concessões indubitáveis e inevitáveis de Hollywood –esta produção, é bom lembrar, foi seu primeiro filme bancado com um orçamento mais vultuoso de um grande estúdio –mas, o fazem com um sinceridade imprevista e desconcertante: Os fatores sobrenaturais a determinar o rumo de sua conclusão são representados por um curioso e nada celestial anjo vivenciado pelo próprio suicida Waring Hudsucker (Charles Durning). Os Coen colocam na mesma salada Frank Capra e as mazelas da Grande Depressão sob um viés de humor negro, não sem antes, garantir também um molho especial com o sabor de seu próprio e inconfundível cinema.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Doutor Estranho No Multiverso da Loucura


 Nos quadrinhos, as inúmeras tramas paralelas que se sucedem e que convergem, muitas vezes, aos mesmos personagens, ambientes e situações raramente acabam despertando nos fãs a minúcia para encontrar detalhes contraditórios ou erros de continuidade. É curioso, pois que, em sua bem-sucedida tentativa de levar esse mesmo status narrativo ao cinema, a Marvel Studios, volta e meia, se defronte com esse problema: Fãs, um tanto quanto chatos e minimalistas, apontando esta ou aquela imperfeição nas amarras de suas histórias.

Já contando mais de vinte produções em sua filmografia –além de algumas séries! –a Marvel começa a enfrentar esta e outras velhas questões, já antigas nos quadrinhos, a respeito de quanto material o expectador deve assim ter conhecimento para compreender na íntegra o filme que irá ver no cinema. E a verdade a ser encarada, hoje, é que... não, não há como assistir a tudo, saber de tudo, ter conhecimento de tudo. E, se esse é um fato bem aceito aos leitores de quadrinhos, com o tempo, os expectadores de cinema, ainda que bem mais exigentes, terão de aceitar também.

Tomemos “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” como exemplo. A princípio, as maiores referências adotadas em sua trama são o filme “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, com participação do Dr. Estranho (o ótimo Benedict Cumberbatch) e do qual é continuação quase direta, a série “WandaVision” que, em função da participação fundamental de Wanda Maximoff (a sensacional Elizabeth Olsen), acaba também dando continuidade à sua trama, e a série “Loki”, cuja abordagem do Multiverso, ainda que indiretamente, influencia todos os desdobramentos que veremos neste filme; e não tenha dúvidas, em outros projetos futuros também! Há também de se considerar o primeiro “Doutor Estranho” –a introdução, afinal, de muitos dos personagens presentes aqui –e o próprio “Vingadores-Ultimato” –ponto crucial para quase todas as histórias desenvolvidas pela Marvel daqui para frente –mas, a verdade é que, dentro em breve, será impossível acompanhar a tudo.

Como ocorre nos quadrinhos, meu conselho é o expectador  desencanar e curtir a viagem, aproveitar a trama, construída pelos roteiristas a fim de ser o mais satisfatória possível bastando em si mesma, mas certamente dependente (e referente) a várias outras vindas antes e depois. Os enredos da Marvel Studios serão, assim, uma miríade de narrativas que acontecem para frente (os filmes vindouros), para trás (os filmes que já foram feitos) e para os lados (alguns casos de obras que se passam quase simultaneamente aos eventos deste), e aos poucos, se não foram todos conferidos, com tempo, haveremos de descobrí-los.

“Multiverso da Loucura” traz Stephen Strange às voltas com uma jovem literalmente única: America Chavez (a carismática Xochiti Gomez) dotada do raro poder de teleportar-se entre uma realidade paralela e outra. Tal poder a torna alvo de ninguém mais, ninguém menos que Wanda, a Feiticeira Escarlate, que desde os eventos atribulados de “WandaVision” –onde sequestrou toda uma cidade para criar uma ilusão feliz onde vivia ao lado do trágico Visão (Paul Betany) e de seus dois filhos pequenos, materializados pelo poder incomensurável de sua magia –almeja pegar os poderes de America para si a fim de reaver seus filhos perdidos, nem que seja tirando-os de outra realidade alternativa.

Na batalha que se segue, Estranho é obrigado a valer-se inadvertidamente dos poderes de America –os quais ela não sabe controlar –e pular para outros universos, tentando escapar de Wanda.

Astuta que só, a Marvel Studios vale-se desse mote para presentear os fãs com momentos vibrantes e referências a outros personagens, numa manobra um pouco parecida com a aparição-surpresa de Andrew Garfield e Tobey Maguire em “Sem Volta Para Casa”. Uma dessas surpresas –só para ficarmos naquelas que os expectadores já tinham ideia de antemão –é a presença de Charles Xavier (Patrick Stewart), o Professor X, anunciando que, em algum lugar do horizonte, os X-Men estão bem próximos de aparecer no Universo Marvel.

E quanto ao filme em si? Embora inquieto, envolvente, visualmente esplendoroso e tecnicamente impecável, é necessário guardar as devidas proporções ao apreciarmos “Multiverso da Loucura”, sobretudo tendo como expectativa os incondicionalmente arrebatadores “Vingadores-Guerra Infinita” e “Ultimato”. A Marvel, como foi dito em outras ocasiões, estabeleceu com com esses dois trabalhos, um patamar tão alto que representa um desafio, e um empecilho, para todas as produções que vieram depois deles igualar tamanha excelência. E com “Multiverso da Loucura” não é diferente. A saída, um tanto brilhante, da Marvel Studios aqui é focar na diferenciação; este novo filme estrelado por Stephen Strange é, pela primeira vez no UCM, um filme de terror, cortesia da desenvoltura de gênero do diretor Sam Raimi, substituindo o diretor anterior, Scott Deriksson (aqui como produtor executivo). De um estilo forte e personalíssimo –o que curiosamente não colide com as predisposições muito comerciais da Marvel –Raimi (que realizou, além dos cultuados filmes de série “Evil Dead”, a “Trilogia Homem-Aranha” com Tobey Maguire e o primeiro “filme-quadrinho” da era moderna, “Darkman-Vingança Sem Rosto”) acrescenta à narrativa os elementos que tanto ama trabalhar, como os movimentos inusitados de câmera, os jump-scares, e o apreço por ícones tenebrosos como zumbis (o desfecho final é impagável!), olhos fulgurantes de possessão (Elizabeth Olsen, grande atriz, consegue ficar assustadora apesar da grande beleza) e um senso de humor muito peculiar a temperar toda essa morbidez.

A assinatura de Raimi, assim sendo, é nítida e constante neste filme, embora ele seja, nítida e constantemente, um filme também da Marvel Studios.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Predadores Assassinos

Lembra um pouco o conceito do sucesso “Águas Rasas”, a premissa básica desta produção de Sam Raimi dirigida pelo especialista Alexandre Aja. Como naquele filme, há uma mocinha bem defendida por uma talentosa e carismática atriz da nova geração –neste caso, Kaya Scodelario, de “Maze Runner” –e como nele, há também um perigo natural na forma de uma fera que caça na água e que ganha uma circunstância vantajosa para encurralar a protagonista numa tensa armadilha, da qual ela só sairá usando de muita perseverança, tenacidade e inteligência (além de um tanto de sorte).
Vamos aos fatos: Kaya vive Haley, uma jovem nadadora, já entrando numa fase estagnada de seu esporte, cujo pai, Dave (Barry Peper, de “O Resgate do Soldado Ryan”), foi seu próprio treinador antes das eventuais desavenças aparecerem.
Todos esses fatores –as nuances dramáticas mais evidentes a cercar os dois personagens protagonistas –já são deixados bem claros nos breves minutos iniciais; e nessa objetividade, já se nota o talento incomum dedicado ao filme.
Afinal, ao partir para os finalmentes, tal carpintaria dramática, ainda que nada memorável, fará toda a diferença na empatia que o expectador desenvolverá pelos apuros de pai e filha.
Moradora da Flórida, estado americano onde tempestades fazem parte do clima habitual, Haley vê pelos noticiários a chega de mais um tornado, ao mesmo tempo em que sua irmã lhe telefona, aflita pela falta de notícias do pai.
Impaciente, Haley resolve ir atrás dele, ignorando as advertências que encontra pelo caminho de que a região onde seu pai está será assolada pela tempestade –e, de fato, o aguaceiro que a produção consegue materializar na película é um fator de efeito imersivo fundamental no filme (dá pra imaginar o pesadelo legítimo que as filmagens devem ter sido para os atores!).
Ao chegar na antiga casa da família, Haley, após muita procura, encontra Dave no porão, machucado com um ferimento terrível no ombro e desacordado. O motivo, ela logo descobre: Dave foi ali encurralado por vários crocodilos descomunais que escaparam da fazenda próxima onde eram criados, e com as águas da tempestade inundando tudo, encontraram fácil acesso até a casa. Quando se dá conta desse fato, Haley já está encurralada no porão assim como seu pai.
Uma situação de ‘beco sem saída’ que testa os nervos do público ao mesmo tempo em que coloca à prova a capacidade dos protagonistas em desvencilhar-se do problema; premissa já bastante batida nas obras de terror que fizeram (e ainda fazem) o gosto de Sam Raimi, sempre um aficcionado do gênero. “Predadores Assassinos” acaba funcionando por uma série de razões peculiares: Porque a reunião de talentos (uma atriz jovem e eficiente, um diretor hábil, um roteiro sem firulas desnecessárias, um aparato técnico engajado e bem empregado) resulta absolutamente feliz; porque a paixão de Raimi e Alexandre Aja por esses códigos de gênero transparece em cada instante da narrativa; e porque a produção como um todo pulsa criatividade nas cenas que se seguem, pavimentando o filme, do início ao fim, com alta voltagem no que tange ao envolvimento emocional e à sensação sempre intensa de perigo.
O filão dos animais assassinos que ameaçam humanos já foi muito explorado no passado, e os realizadores de hoje ainda lidam com o problema de abordar a mesma ideia do eco-terror nos tempos politicamente corretos onde a preservação animal tem defensores tão ferrenhos e xiitas (e, com efeito, os crocodilos aqui ainda que sempre ameaçadores, não surgem vilanizados); todavia, o trabalho de Raimi e Aja passa por cima dos empecilhos ambientalistas compondo com notáveis ferramentas modernas um enxuto e aflitivo terror à moda antiga.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Inocente Mordida

Existe uma certa contradição na fusão entre o ritmo ágil e divertido e o conceito incontornavelmente macabro de filme de terror presente na premissa do oitentista “Um Lobisomem Americano Em Londres” –ainda assim, tal contradição não se reverteu, no resultado final, em prejuízo para o filme: Tão memorável “Lobisomem Americano” é, e tão bem executadas foram suas facetas técnicas e artísticas que o filme logo tornou-se uma referência inconteste do gênero; além de conquistar um merecido Oscar de Melhor Maquiagem.
Exatos onze anos depois, em 1992, o mesmo diretor John Landis logrou uma realização parecida, desta vez, adentrando o terreno dos filmes de vampiros.
E o resultado de “Inocente Mordida”, embora não guarde a mesma ressonância para com a cultura pop, é igualmente inspirado. Landis prova não ser um diretor restringido aos aspectos banais da comédia ao iniciar seu filme com um travelling de câmera magnífico sobre a cidade de Nova York, e contrapô-lo, no instante seguinte, ao intimismo de um quarto de hotel ocupado pela nudez de sua deliciosa protagonista, Marie, vivida pela pra lá de charmosa Anne Parillaud (a estrela francesa de “Nikita”).
Narrando o filme em off, e por conta disso, expressando com freqüência seus pensamentos, descobrimos logo ali que Marie é uma vampira que tem lá os seus escrúpulos: Em sua rotina noturna de sair à procura de sangue, ela prioriza as pessoas más, aquelas que relativamente merecem morrer.
Certamente, em sua mira está, portanto, o sanguinário gangster Sal Macelli (Robert Loggia, esbaldando-se no papel) que tem ocupado as manchetes de jornais com seu comportamento criminoso e prepotente.
Infiltrado na quadrilha de Macelli está o policial Joe Gennaro (Anthony LaPlagia, de “Annabelle 2”) cuja identidade está por um triz de ser descoberta pelos mafiosos –ou seja, ele tem pouco tempo para incriminar e prender Macelli. Todavia, seus planos são frustrados indiretamente pela própria Marie: Ao atacar, primeiramente, um dos comparsas de Macelli (Chazz Palminteri), Marie acaba revelando Gennaro que é exposto como tira na cena do crime e vira inimigo nº 1 da quadrilha de Macelli.
Marie é uma vampira orientada por regras muito específicas: Procura nunca descuidar-se em seus ataques, por exemplo, nem deixar vestígios, garantindo que suas vítimas aparentem ter morrido de alguma outra razão que não uma mordida de vampiro.
É irônico, portanto, que quando enfim consegue atacar Macelli, ela não consiga finalizar o ato, tendo que fugir às pressas: Porque Macelli, com um arma escondida, conseguiu lhe acertar um tiro, e porque um dos homens dele se achava lá para protegê-lo.
O que se segue então é que Macelli, mais tarde, dentro do próprio necrotério para onde é levado, revive como vampiro, com todas as habilidades, poderes e sede de sangue inerentes às criaturas da noite. Une-se, como se diz, a fome com a vontade de comer: Se Macelli antes já era instável e ameaçador para todos à sua volta, a transformação em vampiro só o potencializa como um vilão de perigo impronunciável; e na consciência dessa nova e poderosa condição, Macelli já quer converter todos os seus subordinados em vampiros também!
Ciente do tremendo deslize que cometeu, Marie corre para consertá-lo; tenta, de todas as maneiras matar Macelli, antes que ele crie mais e mais vampiros. Auxiliando-a (ou, pelo menos, a tentando entender o papel dela nesse tumulto) está Gennaro que, ao longo dos dias e noites nos quais precisam rastrear o mafioso-vampiro, não deixa de ser seduzido pela atraente Marie.
Diferente de “Lobisomem Americano”, aqui, o diretor Landis trabalhava uma categoria de filmes de terror (os vampiros) com uma infinidade muito maior de clássicos a serem abordados, revistos ou reinventados –e para tanto, são inúmeras as cenas em que flagramos personagens assistindo pela TV algumas obras marcantes sobre o tema, como produções da Hammer, com Christopher Lee e Peter Cushing, “Drácula”, de Todd Browning, e muitos outros –o que explica o fato de “Inocente Mordida” não ser hoje assim tão conhecido, ainda que possa tranquilamente constar numa lista dos melhores filmes de vampiro dos anos 1990, ao lado do originalíssimo “O Vício”, de Abel Ferrara.
Seja por seu ritmo vertiginoso e envolvente, seja por seu admirável aparato técnico, por sua protagonista maravilhosa (pouco sabemos de Marie, mas graças ao carisma de Anne Parillaud, torcemos por ela sem pestanejar!) ou pelas pontas vibrantes e divertidas de grandes diretores do gênero como Sam Raimi, Tom Savini, Dario Argento e Frank Oz, o filme de John Landis é uma verdadeira pérola.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Darkman - Vingança Sem Rosto


Numa jornada de origem das mais interessantes do cinema moderno –e que gabaritou o diretor Sam Raimi para assumir a direção de “Homem-Aranha”, anos depois –quando vemos o ator Liam Neeson personificar aquele que será conhecido como “Darkman”, lá quase na metade do filme, notamos que as influências de Raimi não poderiam se apresentar mais explícitas, declaradas e apaixonadas: O filme remete imediatamente à “O Fantasma da Ópera”, à “O Abominável Dr. Phibes”, e às histórias em quadrinhos de terror, e sua narrativa inventivamente visual, carregada de detalhes por quadro, com a qual Raimi conduz este seu verdadeiro espetáculo.
Lembrado então como o jovem que chacoalhou o mainstream cinematográfico americano com um produto de baixíssimo orçamento vindo das fileiras do terror alternativo (o emblemático “Evil Dead”), mas cuja repercussão foi forte o bastante para influenciar o cinema comercial, Raimi havia feito pouco mais que a alucinada comédia “Crime Wave” e a continuação de “Evil Dead” antes de realizar esta que pode ser enxergada como sua primeira incursão no cinema comercial de fato.
Nesse sentido, “Darkman”, apesar da estética anos 1990 que pulsa de suas transparentes intenções, é um filme até profético nas características que agrega para moldar seu apelo de público, já que elementos como personagens de histórias em quadrinhos, ou mesmo o teor divertidamente referencial que tempera a narrativa, só seriam assimilados, e empregados em profusão pela indústria, muitos anos depois.
Poucos anos antes de ter sua indicação ao Oscar de Melhor Ator por “A Lista de Schindler” –e décadas antes de redescobrir-se como um eficaz ator veterano de ação –Liam Neeson interpretou Peyton Westlake, o trágico herói que Raimi confronta com o tipo de tragédia mirabolante reservada aos seus protagonistas: Cientista, ele é atacado e seu laboratório, explodido. Sobrevivendo por milagre (ainda que dado como morto), Peyton tem seu rosto desfigurado e perde a capacidade de sentir dor –aspectos que Raimi usará convictamente para encaixar num contexto de ‘superpoderes’.
Pois, Peyton foge, reconstroí o que pode de seu antigo laboratório e busca dar continuidade à suas pesquisa para criar uma pele humana sintética. Agora, mais do que nunca, ele precisará disso se quiser se apresentar com um rosto humano à mulher que ama, intepretada pela sensacional Frances McDormand.
Entretanto, como cabe a um superherói, a personagem de McDormand tem também lá seus apuros dos quais ser salva: Ela é perseguida por um grupo de criminosos contratados, os mesmos, por sinal, que destruíram a vida de Peyton.
A vingança e a necessidade que salvar a amada são assim as motivações para Peyton iniciar um intrincado plano para minar e destruir um a um os integrantes daquela quadrilha; e é absolutamente espetacular ver o que o diretor Sam Raimi (no auge de sua empolgação e juventude criativa) faz para que o filme siga adiante: Ele não economiza técnicas, truques visuais e outros artifícios para fazer de cada cena uma surpresa visual aos olhos do público.
Divertidíssimo, agitado, certamente inventivo e vibrante –ainda que ocasionado por insensibilidades latentes de um diretor vindo dos extremos do terror –“Darkman” foi um sopro de renovação e ar fresco muito bem-vindo numa época em que o cinema (e o público) carecia de alguma novidade.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Morte do Demônio

Mesmo que contando com a produção do próprio Sam Raimi, não deixa de ser um risco a ideia de refilmar um trabalho tão incomum e singular –e de uma relevância própria conquistada pela época e pelas condições em que surgiu no cinema –quanto “Evil Dead”.
Todavia, o diretor Fede Alvarez –apadrinhado por Sam Raimi depois que ele ficou fascinado por seu curta-metragem “Ataque de Pânico” –até que realizou, dentro do possível, uma obra digna e obediente às características estilosas que definem o “Evil Dead” original e, a partir delas, munida de elementos bem administrados na intenção de meramente fazer um bom filme.
Ele ainda aproveitou as brechas no argumento para inserir observações espirituosas que dizem muito sobre os paradigmas do gênero: Reunidos para uma tentativa de desintoxicação do vício de drogas de uma deles, cinco jovens refugiam-se numa cabana completamente isolada no meio do mato –sendo que nem no original nem em sua seqüência (de cuja trama o roteiro deste remake também aproveita algumas soluções) não havia qualquer justificativa para tanto.
Por acaso, eles encontram um livro misterioso e acabam liberando uma série de demônios que inicialmente possuem a jovem viciada Ash (a bonitinha e expressiva Jane Levy, assumindo uma versão feminina do personagem tornado icônico por Bruce Campbell).
Como todo o personagem inserido numa trama de terror, os seus amigos insistem em não acreditar no pior e por conta disso, interpretam os rompantes ocasionados pela possessão como uma crise de abstinência (!). Todavia, os espíritos malignos não param por aí e fazem da permanência de todos eles lá, o maior dos pesadelos.
Com ares de homenagem ao filme cult que revelou Sam Raimi, este remake, ao contrário do filme no qual se inspira (uma produção notadamente de baixo orçamento) goza de um caprichado aparato de recursos técnicos o quê transforma suas cenas num festival de horror gore, entretanto, embora divertido e bem realizado, seu impacto não chega perto da originalidade do “Evil Dead” de 1981.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O Dom da Premonição

Perto do fim da década de 1990, após um hiato de tempo sem filmar, o diretor Sam Raimi pareceu enveredar por um cinema mais sério, sinalizando uma espécie de amadurecimento como cineasta. Exemplificando essa fase, o suspense “Um Plano Simples” surpreendia pela austeridade e pela solidez narrativa mesmo guardando, nas entrelinhas, elementos que ainda agregavam o estilo de Raimi –ele parecia enfim estar tomando o rumo que seus grandes amigos, os Irmãos Coen, também tomaram.
Insistindo nesse caminho, ele deu prosseguimento a realização de obras mais adultas com este “O Dom da Premonição” que, de fato, na filmografia de Raimi, só encontra similaridades mesmo com “Um Plano Simples”.
Todavia, “O Dom...” já recupera os elementos sobrenaturais do início de sua carreira.
Numa variação de sua colaboração em “Um Plano Simples”, o roteiro é escrito pelo ator Billy Bob Thornton (que a maioria lembra de seus trabalhos como ator, mas, vale lembrar, ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 1997, por “Na Corda Bamba”).
É, pois, uma notável reunião de talentos: Além de Raimi e Thornton atrás das câmeras, o elenco reúne a espetacular Cate Blanchett, a oscarizada Hillary Swank (ela tinha acabado de ganhar o Oscar de Melhor Atriz por “Meninos Não Choram” e ainda ganharia outro, anos depois, por “Menina de Ouro”), o badalado astro de “Matrix” (lançado um ano antes), Keanu Reeves, o ótimo Gregg Kinnear e a jovem Katie Holmes (que, neste filme, tem uma cena de nudez!).
Na trama –que remete a uma ambientação do sul da Flórida muito similar à “Na Corda Bamba”, de Thornton –acompanha Annie Wilson (a sempre excelente Cate Blanchett), uma moradora de uma pitoresca cidade sulista e, nas características que a definem, amplamente inspirada na mãe do próprio Billy Bob: Annie é mãe solteira e cria os filhos valendo-se de clientes interessados em suas habilidades premonitórias como uma espécie de vidente.
Em sua inata experiência para elaborar um bom suspense, o diretor Sam Raimi, muito à vontade no gênero, cerca essa protagonista de personagens coadjuvantes pitorescos e peculiares que justificam plenamente esse elenco estelar (que normalmente um diretor gabaritado como Raimi atrai) e que constituem uma galeria de suspeitos para a colcha de retalhos que a premissa costura: Há o limitado e infantil mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), a dona de casa Valerie (Hillary), completamente displicente e passiva em relação à violência que sofre do marido (Keanu Reeves, inesperadamente assustador, é talvez a melhor presença do elenco) e até mesmo o diretor da escola (Gregg Kinnear), por quem Annie nutre uma simpatia especial embora ele seja noivo de Jessica King (Katie), uma garota promiscua que se envolveu co quase todos os homens da cidade.
As habilidades paranormais de Annie tornam-se uma maldição quando suas visões começam a revelar para ela assassinatos iminentes, ou que podem até já ter acontecido –relacionados, inclusive ao súbito desaparecimento de Jessica.
“O Dom da Premonição” é assim quase um meio termo entre a sutileza brilhante de "Um Plano Simples" e as desconcertantes inserções sobrenaturais de "Evil Dead" –com uma nítida inclinação de Raimi para com a seriedade do primeiro, certamente, visando alguma aclamação por esse esforço em amadurecer (“Um Plano Simples”, é bom lembrar teve duas indicações ao Oscar).
Entretanto, como logo ficou claro, Raimi não conseguiu deixar de lado suas paixões de juventude: Ao contrário dos Coen, que souberam conduzir tramas e atmosferas de cunho adulto com o mesmo brilho e entusiasmo de suas obras frenéticas do início da carreira, Raimi não sustentou por muito tempo essa sua tentativa de reinvenção (e este trabalho realmente se ressente de tentar emular o mesmo tipo de narrativa de “Um Plano Simples”) e voltou para os filmes mais fantasiosos com os quais se identificava –logo em seguida, ele assinou contrato para dirigir a aguardada adaptação de “Homem-Aranha” (cujo sucesso desdobrou-se numa trilogia que o ocupou por quase uma década) e realizou um filme de terror nos moldes mirabolantes de “Evil Dead”; o divertido “Arraste-Me Para O Inferno”.
Lá no fundo, o diretor Sam Raimi não queria mesmo crescer.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Uma Noite Alucinante

Era questão de tempo até que Sam Raimi fizesse uma continuação de “Evil Dead”, afinal, o filme o tinha colocado no circuito dos realizadores proeminentes dos anos 1980 aos quais deveria ser prestada atenção e tornou-se imediatamente cult, além de objeto de influência para muitas obras que vieram depois.
Entretanto, foi meio uma surpresa para o público constatar que a continuação que Raimi realizou era um filme bastante diferente do original –e, talvez por isso, ganhou aqui no Brasil a alcunha “Uma Noite Alucinante” no lugar de “A Morte do Demônio”.
O ponto de partida, para falar verdade, não muda coisa alguma: Ash, o personagem sobrevivente do filme anterior (e desta vez, interpretado com ênfase no sarcasmo por Bruce Campbell) retorna à mesma cabana assombrada do filme anterior acompanhado apenas da namorada. E lá, obviamente, as aparições demoníacas, possessões e fenômenos fantasmagóricos voltarão a acontecer.
Se o enredo que este filme retoma não muda em coisa alguma, é o modo como Raimi aborda essa premissa –a rigor a mesma do primeiro filme –que o diferencia daquele que aparentemente ele tenta continuar: O diretor impõe uma auto-paródia flagrante nos desdobramentos do filme ostentando um humor caustico que existia apenas em doses microscópicas no outro filme. Ao mesmo tempo, ele não economiza no sangue e na violência, o quê dá as cenas cômicas um estranhamento desconcertante e desigual (o gênero “terrir”, como passou a ser conhecida a mescla de terror e comédia, era pouco comum na época): Exemplo mais marcante disso é a cena em que Ash tem uma de suas mãos “possuída” e se obriga a cortá-la (!), para em seguida travar uma tensa perseguição por ela pela casa (!!) e depois substituí-la, em seu braço, por uma moto-serra adaptada (!!!).
O estilo de Sam Raimi se acentua, e por fim se consolida neste filme, onde ele leva a extremos sua capacidade de ramificar de forma inacreditável uma trama: O desfecho, onde Ash arremessa todas as assombrações e diabruras num buraco negro (assim como a si mesmo!) é um gancho nítido e incontornável para a terceira parte que veio anos depois, “Uma Noite Alucinante 3-O Exército das Sombras”, com uma imprevista e desconcertante sacada de viagem no tempo: Uma prova de que, num filme orientado pela mente de Sam Raimi, tudo pode acontecer.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Evil Dead - A Morte do Demônio

Uma cabana no meio do mato. Um grupo de jovens. Um diretor iniciante fascinado pelos arroubos do gênero de terror.
Dessa combinação nasceu uma das mais desiguais –e, no fim das contas, influentes –produções do gênero a aparecer nos anos 1980.
Ao realizar “Evil Dead”, Sam Raimi não era mais que um jovem estudante de cinema. Tinha a seu favor aquele ímpeto criativo que caracteriza os autores mais jovens cuja pouca idade conserva uma vontade de abraçar o mundo. Contra ele, a precariedade de um orçamento pífio e uma falta absoluta de recursos.
Todos esses revezes foram contornados com a criação de uma premissa tão inventiva quanto simples: Liderados por Ash (Bruce Campbell, grande amigo do diretor e, desde então, o seu ator-assinatura), vários amigos seguem até uma cabana depauperada no meio de uma floresta.
Longe de tudo –circunstância que dava à produção um controle sobre todos os aspectos do filme sem agregar qualquer despesa –os jovens descobrem escondida no porão uma gravação contendo trechos do “Livro dos Mortos” (elemento relacionado à mitologia dessa série que estranhamente nunca foi muito explorado) e, ao ouvi-la, libertam forças demoníacas que passam a possuí-los; a representação dessa personificação maligna, por sinal, responde por um dos muitos lampejos de criatividade com a qual Raimi contornou as restrições de seu filme: O demônio –ou o que quer que aquilo seja –não é visto, mas em seu lugar, Raimi mostra o ponto de visto de algum ser espectral usando os movimentos fluidos de câmera que rondam ameaçadoramente a floresta até chegar à cabana –Raimi patenteou muitas das câmeras inovadoras utilizadas em “Evil Dead”.
Cenas memoráveis se seguem, sendo talvez a mais comentada pelos expectadores, o estranho, brusco e inacreditável ‘estupro’ de uma jovem na floresta por um cipó (!).
Logo, “Evil Dead” escancarou uma nova forma de se fazer cinema (inclusive influenciando produções de renome que se seguiram como o artístico “A Companhia dos Lobos”) que, com o tempo acabou sendo agregada até mesmo ao cinema comercial; e não é, portanto, qualquer coincidência o fato do próprio Sam Raimi, aqui um realizador tão ousado e transgressivo, ter sido o escolhido para moldar uma das mais emblemáticas adaptações de histórias em quadrinhos (hoje, o supra-sumo do cinema comercial) no início do século XXI: “Homem-Aranha”.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Arraste-Me Para o Inferno

Após realizar três produções consecutivas estreladas pelo “Homem-Aranha” ao longo de quase uma década, o diretor Sam Raimi carecia de algum descanso.
E, para ele, esse descanso significava regressar ao gênero ao qual se sentia plenamente à vontade: O terror.
Daí, o fato de “Arraste-Me Para O Inferno” não somente remeter ao início da carreira de Sam Raimi (com o efusivo, precário e inovador “A Morte do Demônio”), como também ser abertamente referencial a várias obras de terror daqueles idos dos anos 1970 e 80.
Tal e qual seus maiores heróis –diretores díspares, mais fundamentais ao suspense e terror, como Dario Argento, Alfred Hitchcock e Tobe Hooper –Raimi escolhe, aqui, uma protagonista (uma jovem e ambiciosa funcionária bancária, de olho em uma provável promoção no banco em que trabalha, vivida pela gracinha Alison Lohman), e faz dela gato-sapato: Ela testemunha as piores atrocidades, passa por toda a sorte de enrascadas e experimenta as situações mais terríveis que a mente de um diretor de filmes de terror é capaz de elaborar.
Essa premissa, a da jovem envolvida nas piores enrascadas, parece agradar bastante os artesãos do gênero.
Christine –o nome dessa moça –recusa de forma enérgica o pedido de prazo de dívida de uma senhora que sofre o risco de perder a casa. E Raimi, espirituoso que só, não perde a oportunidade, com isso, de fazer um breve e ferino comentário acerca da quebra do sistema econômico que havia assolado o mundo um ano antes da realização deste filme (2009).
Para o azar de Christine, a senhora em questão (Lorna Raver) é uma cigana que nela roga uma maldição milenar –numa cena hilária e aflitiva transcorrida num estacionamento que mostra todo o potencial para o terrir (terror com comédia) que Raimi havia guardado dentre de si em seus últimos projetos.
Ao longo dos dias que se seguem, Christine será perseguida pelas mais improváveis e tenebrosas entidades, ficando bem clara a tremenda encrenca em que se meteu: A moça terá três dias (que passarão com muitos sustos e aparições pavorosas) ao fim dos quais será levada para as profundezas do inferno se não fizer nada para impedir o curso da maldição.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Oz - Mágico e Poderoso

O próprio diretor Sam Raimi admitiu que não estava animado com a idéia de um filme que revisitava o universo do clássico “OMágico de Oz”, de Victor Fleming, mas o roteiro escrito por Mitchell Kapner e David Lindsay, inspirado em elementos pouco conhecidos da série de livros de L. Frank Baun, ambientados em Oz, e repleto de espertas referências ao clássico terminou o conquistando.
E o estilo de Raimi, uma junção deliberadamente gaiata entre modernidade e anacronismo, funciona muito bem na narrativa desta história.
Voltamos aproximadamente trinta anos no tempo em relação à história na qual a menina Dorothy vai para Oz através de um furacão. Ou seja, neste roteiro, Dorothy ainda não nasceu e aquela que é sua tia Annie (vivida por Michelle Williams, que voltará, mais tarde, em outra personagem), ainda jovem, se acha indecisa entre casar com aquele que será seu futuro marido e um flerte ainda inicial com o mágico (vivido com entusiasmo por James Franco que trabalhou com Raimi em sua trilogia do “Homem-Aranha”).
Em algum momento desse prólogo em preto & branco (e também achatado num formato de tela quadrado 4:3 adotado por Raimi), o expectador mais informado sabe que haverá um furacão e que por meio deste, o mágico será conduzido ao espetacular e aí então colorido mundo de Oz (e não só as cores despontam esplendorosas em cena, como a tela também adquire o formato widescreen).
O mágico –um personagem de moral questionável no qual a atuação de Franco remete aos trejeitos normalmente associados à Johnny Depp –se encontra assim num mundo dotado de magia de verdade, com personagens genuinamente dotadas de magia, como a bruxa do oeste Theodora (a linda Mila Kunis), a primeira a encontrá-lo, e as demais bruxas, Evanora, do Leste (Rachel Weisz) e Glinda, do Sul (novamente, Michelle Williams).
Fugindo do que se supõe por óbvio num filme como este, o roteiro ludibria protagonista e plateia mostrando Theodora e Evanora como personagens boas para revelar suas intenções reais a partir da metade do filme, quando Glinda é introduzida e conhecemos melhor o funcionamento dos antagonismos na Terra de Oz –Theodora, aliás, é um caso mais elaborado de uma personagem complexa que sofre uma metamorfose ao longo da trama, e a atriz Mila Kunis se encarrega maravilhosamente bem do recado.
Como numa espécie de tradição herdada do filme original, neste daqui, ao longo de sua aventura em Oz, o mágico encontra alguns personagens de peculiaridade temática e visual que irão lhe acompanhar em sua jornada: O subserviente macaco com asas Finley (voz de Zack Braft) e a delicada menina de porcelana (voz da jovem Joey King).
Aquela que talvez seja a sacada mais referencial e apaixonada de Sam Raimi surge perto do final, quando o plano engendrado pelo mágico se revela. Engenhoso, cheio de estratégia e carregado de ilusionismo, o tal plano consiste de derrotar o poder das bruxas com a única magia mais poderosa que a delas: A magia do cinema.
Ainda que colorido e notadamente infanto-juvenil, o trabalho exercido por Raimi não deixa de incluir alguns reflexos involuntários do diretor de filmes de terror que ele é: E “O Mágico de Oz” em si, sempre agregou, nas entrelinhas de sua mitologia, características de perversidade, incorreção política e sadismo que casam muito bem com o assombro abrupto, algo adolescente, dos filmes de terror de Raimi.

Claro que, devido ao tamanho da produção e ao alcance do filme, esta nova obra traz uma mensagem diferente do enredo pessoal e individualista –da mocinha que tão somente queria voltar para casa –falando, agora, dos esforços altruístas em ajudar toda uma comunidade e, no processo, amarrar devidamente alguns ganchos narrativos ao icônico filme de 1939.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um Plano Simples

À época, não apenas o falecido ator Bill Paxton como também o diretor Sam Raimi –anos antes de dirigir a Trilogia “Homem-Aranha” –tinham dificuldade para expor seus talentos ao público e à crítica; Paxton estava atrelado aos personagens histriônicos com algo de engraçado, que ele viveu em “Aliens-O Resgate”, “Quando Chega A Escuridão” e “O Predador 2”, o quê normalmente lhe relegava ao cargo de coadjuvante (e, não raro, o aprisionava num único papel); já Raimi estava a uma década digerindo a repercussão do cult “Evil Dead”, às voltas com suas estranhas continuações –ele havia feito também o notável “Darkman-Vingança Sem Rosto” e seu último trabalho, antes de hiato de tempo considerável, havia sido a irregular homenagem aos faroeste spaghetti “Rápida e Mortal”, com Sharon Stone.
A chance para ambos, ator e diretor, mostrarem o alcance de suas capacidades veio com “Um Plano Simples”, adaptado do livro de Scott Smith pelo próprio autor com um roteiro fenomenal.
Na trama, que se inicia numa sutil narração em primeira pessoa, descobrimos que a rotina e a mediocridade da vida numa cidadezinha esbranquiçada de neve pesa sobre Hank –papel que Bill Paxton incorpora com minúcia e austeridade inéditas em sua carreira.
Numa manobra narrativa que irmana esta produção à “Fargo”, dos Irmãos Coen, lançado poucos anos antes (e com o qual este belo trabalho guarda, de fato, algumas semelhanças que vão além da ambientação gélida, o visual branco monocromático e a modernização do suspense noir), o diretor Raimi estabelece a constante pontuação de ironia e crueldade do filme ao iniciar a premissa com um avião caído no meio da neve.
A chance de Hank escapar de sua vida medíocre está lá: Dentro desse avião, uma maleta de dinheiro, fruto provavelmente de uma venda de drogas, parece estar à disposição dos afortunados que primeiro achá-la. E eles vêem a ser Hank, seu irmão Jacob (Billy Bob Thornton, numa performance estupenda) e o amigo dele Lou (Brent Briscoe).
Como o título sugere, o procedimento para que todos se dêem bem é de uma simplicidade irresistível, e tal plano é incentivado e acrescido de opiniões e sugestões incisivas pela esposa de Hank, Sarah (Bridget Fonda, cujo rosto de boa moça esconde a personagem mais manipuladora da trama).
E, de novo, há uma curiosa analogia para com “Fargo”: Sarah está grávida, assim como a protagonista de Frances McDormand naquele filme –na visão concordata de ambos os realizadores (Raimi e os Coen) parece haver uma concessão entre os habitantes desses enredos sórdidos, onde suas convicções se enfraquecem diante de uma mulher e seu poder singular de gerar a vida; e essa concessão pode ser usada em favor da justiça (como em “Fargo”) e em prol da ganância pessoal (como aqui).
A decisão conjunta de todos é que Hank guarde o dinheiro por um tempo –pelo menos, um ano –e depois, todos o dividirão e farão aquilo que quiserem.
Mas, Lou não permite que esse plano siga com tranqüilidade: Beberrão, endividado e inconveniente, ele quer dinheiro o quanto antes e, diante das negativas que eventualmente recebe, se torna mais e mais instável, ameaçando o comprometimento do plano (e até mesmo usando isso como chantagem).
Isso e mais o aparecimento de alguns traficantes disfarçados de policiais –e muito interessados em reaver o dinheiro –mostram a eles como seu plano, antes tão simples, tinha potencial de sobra para se complicar.
Demonstrando habilidade em uma percepção adulta para com o traquejo dramático da tensão –que suas obras no gênero de terror e de fantasia jamais dariam indicação que ele tinha –Raimi conduz brilhantemente este trabalho envolvente e palpitante, onde ele contrapõe as personalidades de Hank e Jacob, cada um magnificamente defendido por seu intérprete (Thornton chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), como os grandes catalizadores das situações que surgem.
Terminando de maneira surpreendente nas mesmas cenas com as quais se iniciou, “Um Plano Simples” assombra o expectador com um desfecho que amarra os acontecimentos do início de uma forma atroz, genial e perfeita para os propósitos da trama e do próprio gênero em si: O film noir, como atestam os grandes realizadores –mesmo os pós-modernos –trata quase sempre da queda sem retorno, sem folga e sem ressalvas em um grande abismo moral.

“Há dias em que eu consigo não lembrar de nada. Nem do dinheiro. Nem dos assassinatos. Nem de Jacob. Dias em que eu e Sarah conseguimos fingir ser pessoas normais. Mas esses dias... são raros.”

sábado, 6 de maio de 2017

Homem-Aranha, por Sam Raimi

Homem-Aranha
Tinha uma aura irresistível de sonho realizado quando foi anunciada, aproximadamente no fim da década de 1990, a primeira adaptação do herói das histórias em quadrinhos, Homem-Aranha, para o cinema sob a direção de Sam Raimi, que anos antes tinha entregado uma obra tão satisfatória no quesito de “linguagem dos quadrinhos transposta para a tela de cinema”: O sensacional “Darkman-Vingança Sem Rosto”.
A visão de Raimi do herói primava pela aproximação carinhosa dos conceitos clássicos do personagem, aproveitando muito do material oriundo dos quinze primeiros anos de revistas publicadas, a fase considerada a melhor de todas pelos fãs, escrita pelo próprio criador Stan Lee. Apesar de algumas liberdades criativas bastante discutíveis (os lançadores de teia orgânicos eram, e ainda são, uma sacada difícil de engolir), público e crítica estavam tão extasiados em finalmente poder conferir um filme do Homem-Aranha –inclusive com um prodigioso trabalho de efeitos especiais onde eram concretizadas as então inacreditáveis cenas do herói se balançando em prédios –que todos os possíveis deslizes foram perdoados.
Partindo com prudência e propriedade do princípio básico da origem, o filme mostra o jovem e nerd Peter Parker (Tobey Maguire, na época uma escolha perfeita) que vai a um laboratório onde é mordido por uma aranha geneticamente modificada, ganhando assim poderes similares aos de um aracnídeo como a capacidade de escalar paredes, saltar cerca de 6 metros, força proporcional a de uma aranha, e um sensacional sentido contra o perigo.
Inicialmente, decidido a usar esses dons para conseguir dinheiro e impressionar seu amor não correspondido, a garota da casa ao lado Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), Peter assiste a uma sucessão de eventos resultarem no assassinato de seu tio Ben (Cliff Robertson), pelas mãos do mesmo bandido que ele deixara escapar minutos antes.
À sombra da morte de seu querido tio, Peter faz uma promessa (jamais permitir que criminoso algum escape) assumindo assim a identidade do herói mascarado Homem-Aranha.
A escolha desse caminho leva Peter assim a colidir com o mal-feitor mascarado Duende Verde, na verdade, a identidade inconseqüente, inescrupulosa e imprevisível de Norman Osborn (Willen Dafoe, magistral no personagem a despeito da infeliz escolha visual de sua armadura), pai de seu melhor amigo, Harry (James Franco).
Preenchendo todas as lacunas possíveis da expectativa do público –o filme tinha ação, aventura, comédia, drama e romance –o primeiro “Homem-Aranha” arrastou multidões aos cinemas, mesmo em um período monopolizado por um fenômeno como “O Senhor dos Anéis”.

Homem-Aranha 2
Uma continuação era inevitável depois do grande sucesso do filme de 2002 e, para seguir a mesma trilha de sucesso, a equipe original foi mantida, com o diretor Sam Raimi comandando o mesmo elenco.
Ele aproveitou essa nova chance para aprofundar as questões envolvendo a dicotomia entre o desafortunado Peter Parker e as responsabilidades acarretadas por sua contra-parte, o Homem-Aranha, que o impedem de organizar os problemas de sua própria vida –uma dinâmica genial originada dos quadrinhos e que Raimi soube compreender com perícia tratar-se da grande razão para o sucesso do personagem.
Ele também foi beneficiado pela escolha de um antagonista muito mais carismático e interessante do que o Duende Verde, o Doutor Octopus, que encontrou no exuberante e sensível ator Alfred Molina, um intérprete ideal.
Identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker (Maguire, cujos problemas físicos durante as filmagens acabaram virando lenda) descobre as impossibilidades de conciliar sua vida de super-herói com a rotina de uma pessoa normal que inclui manter seu emprego como fotógrafo no Clarim Diário, cuidar de sua tia May (Rosemary Harris), já idosa, e resolver seus problemas amorosos com Mary Jane (Dunst, prejudicada pela irritabilidade de sua personagem), que acabou noivando com o filho de seu chefe.
Tamanha tensão resulta num súbito stress cujos sintomas são a perda de seus poderes (!), e a possibilidade do Homem-Aranha não mais existir. Entretanto, surge também um novo vilão, o Doutor Octopus (Molina, escolhido após sua belíssima participação em “Frida”), que com seus planos megalomaníacos pode por em risco toda a cidade de Nova York. Uma tragédia que só o Homem-Aranha poderá impedir.
Tomando como base narrativa para esta continuação justamente alguns desdobramentos narrativos de “Superman 2” (o primeiro “Homem-Aranha” já se inspirava em muita coisa de “Superman-O Filme”), Sam Raimi tratou de fazer seu dever de casa aprimorando os efeitos especiais que, do filme anterior para este, sofrem uma espantosa evolução, e emoldurando todos esses detalhes com uma trama sólida, detalhada e inesperadamente humana –fruto do esforço conjunto de quatro competentes roteiristas: Alfred Gough, Miles Millar (ambos da antiga série “Smalville”), Michael Chabon (“Garotos Incríveis” e “Harry Potter”) –estes três creditados como argumentistas –e Alvin Sargent (ganhador do Oscar de Roteiro Adaptado por “Gente Como A Gente”).
Saldado como o melhor filme de super-heróis realizado até então (e o melhor filme do Homem-Aranha até hoje!), “Homem-Aranha 2” ainda se deu ao luxo de encerrar-se com ganchos contundentes para uma promissora e aguardada parte três.

Homem-Aranha 3
Todavia, as coisas mudaram no terceiro filme (e não foram para melhor...).
Apaixonado pelas HQs clássicas do personagem, e desejoso de manter essa orientação ao nomear como antagonista da vez o Homem-Areia (Thomas Alden Church, de “Sideways-Entre Umas e Outras”), vilão conhecido dos fãs antigos, mas pouco popular entre os fãs mais novos, Sam Raimi recebeu uma espécie de incumbência do estúdio da Sony: Atender à demanda dos fãs mais jovens e incluir em seu filme um vilão mais recente, surgido ainda na década de 1990, o truculento Venon.
Raimi, que assumiu o roteiro junto de seu irmão, Ivan Raimi, teve de ordenar uma narrativa que exigia três necessidades: A primeira, dar o devido tempo, atenção e importância dramática ao seu vilão escolhido, Homem-Areia; a segunda, dar igualmente atenção e importância dramática ao vilão que lhe foi imposto, o Venom (e é desagradavelmente perceptível na narrativa o desprezo que Raimi nutre por ele); e a terceira, dar o devido respaldo e conclusão a uma série de pontas soltas de narrativa deixadas como mote no fim do segundo filme.
O resultado foi um roteiro equivocado, enfadonho, excessivamente longo e pouco interessante onde os personagens (inclusive seu protagonista) eram apresentados com motivações mesquinhas, prejudicando a identificação do público.
Quando tudo começa, Peter Parker (Maguire, aqui num registro mais desleixado que do outros dois filmes) sente-se nas nuvens finalmente junto de Mary Jane, seu grande amor (Kirsten Dunst, também ela aparentemente afetada), mas nem tudo é festa na vida do Homem-Aranha; seu outrora melhor amigo Harry Osborn (James Franco, o pior de todos), sabendo do segredo de sua identidade secreta torna-se o novo Duende e parte para a vingança; além dele surge o poderoso Homem-Areia (Alden Church, fazendo o possível num personagem completamente perdido na trama), então um dos suspeitos da morte do tio Ben ocorrida no primeiro filme; e a bela loira Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard, belíssima, porém sub-aproveitada numa personagem icônica dos quadrinhos, mas empregada aqui de maneira tola) aparece para introduzir ciúme e desconfiança em seu relacionamento com Mary Jane.
Quando os problemas parecem se acumular surge um uniforme negro, que lhe amplifica a força e parece ser de origem alienígena. Mal sabe Peter que ele será a semente do que talvez venha a ser o mais perigoso inimigo do Homem-Aranha: o maquiavélico Venon.
“Homem-Aranha 3” foi o ponto final em uma festejada trilogia de um personagem bastante aguardado no cinema, que começou muito bem, mas terminou revelando as conseqüências bastante prejudiciais do desgaste criativo de seu realizador.