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sábado, 13 de setembro de 2025

Corra Que A Polícia Vem Aí!


 Numa época em que já era improvável realizar uma comédia besteirol e abilolada por si só, o diretor Akiva Schaffer (membro do grupo de comediantes The Lonely Island) também resgatou uma cinessérie que parecia extinta –a aloprada saga cômica-policial do Detetive Frank Drebin que, no fim dos anos 1980 e início dos 1990, representou o supra-sumo da comédia norte-americana produzida no período. Feita nos mesmos moldes insanos de “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu!” uma década antes, e estrelada pelo impagável Leslie Nilsen (cujo entendimento da comédia o levava a ser o personagem mais sério em cena e, paradoxalmente, o mais hilariante), essa produção foi compreendida na íntegra pelos novos realizadores na hora de ganhar uma nova roupagem. Eles escalaram, para o papel do novo protagonista, filho do personagem anterior, Frank Drebin Jr, o incontornavelmente sério Liam Neeson (que, com sua carranca, se torna uma improvável fonte constante de graça do início ao fim) e pontuaram o incomum roteiro (pois qualquer enredo que traga algum humor hoje em dia É incomum) com piadas relacionadas aos novos tempos, aos expedientes condicionados que o gênero sempre ostentou, e imbuídas das bobagens usuais de sempre.

O resultado é um filme bobo, destemido, notável e ocasionalmente surpreendente.

Membro da polícia de Los Angeles, Frank Drebin jr. (Neeson), é alguém que tem algo a provar –seu pai havia sido, no passado, uma lenda na força policial. Contudo, para aqueles conhecedores das circunstâncias dos filmes originais, Jr. puxou o pai em tudo e por tudo: Ao redor de Frank, tudo se convertia em caos por conta do talento sobrehumano que ele tinha para deixar confusões acontecerem sem cessar. E Jr. é exatamente assim; crê piamente estar fazendo seu trabalho investigativo com a maior seriedade possível, mas só está equilibrando uma trapalhada atrás da outra.

Um intrigante caso de assassinato cai em suas mãos quando um funcionário de uma empresa milionária fabricante de carros elétricos surge vítima aparentemente de suicídio. A irmã do falecido, Miss Beth Davenport (Pamela Anderson, em estado de graça após a indicação ao Globo de Ouro por “The Last Showgirl”), no entanto, sabe que o irmão não se matou –ele foi, sim, assassinado. E os objetivos disso escondem uma conspiração que, por enquanto, permanece um mistério.

É Fran Jr., mais por destrambelhamento do que por instinto policial de fato, quem irá percorrer a trilha das pistas até o magnata Richard Cane (Danny Huston, num papel que começa a lhe parecer quase inevitável) e ao plano maquiavélico, digno de um vilão de James Bond, que ele engendra.

No decurso dessa investigação e de todos os reflexos involuntários que o filme executa dentro do gênero que almeja parodiar (os filmes policiais norte-americanos e, aqui e ali, os filmes noir dos anos 1950), as piadinhas (sejam as infames ou as genuinamente engraçadas) vão se acumulando, como aquela recorrente, na qual os policiais nunca ficam sem um copo cheio de café para beber, o gracejo em torno do fato de Liam Neeson partir ao meio todo o celular no qual está falando (uma brincadeira com sua persona truculenta de herói de ação), ou a absurda cena do início, na qual o enorme Liam Neeson frustra um sequestro se disfarçando de inocente garotinha (!). Neeson, por sinal, esbanja uma química formidável com sua parceira de cena, Pamela Anderson, e há um empenho nítido e louvável da parte do elenco, da direção e do roteiro em fazer o humor do filme funcionar –e embora os momentos cômicos encontrem um ou outro empecilho devido à pouco habituada plateia de hoje, esse esforço persiste até o final.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

À Procura da Vingança


 Inúmeros são os filmes de faroeste de teor clássico que norteiam e acabam remetendo à “Seraphim Falls”, uns realizados antes, outros até depois desta produção –o grande problema é que muitos deles também encontram uma forma de serem melhores que o filme dirigido por David Von Ancken (conhecido produtor e diretor do ramo televisivo). A começar temos, logo na sequência que inicia o filme (o personagem de Pierce Brosnan, num ambiente gelado, é alvejado por um bando liderado pelo personagem de Liam Neeson e foge, padecendo de dor e de frio, iniciando uma perseguição que irá perdurar por todo o filme), uma série de momentos que lembram a obra-prima “O Regresso”, realizado por Alejandro González-Iñarritu anos depois deste filme, mas, certamente superior em praticamente todos os quesitos.

Fotografado pelo exímio John Toll (diretor de fotografia vencedor do Oscar da categoria por “Lendas da Paixão” e por “Coração Valente”), o filme não se isenta de, nesse tenso e envolvente prólogo, emular sequências do clássico “O Vingador Silencioso”, de Sergio Corbucci, e de “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino (também realizado posteriormente), todos eles, faroestes que encontram sua originalidade ao ambientar suas cenas de embate em meio à neve.

Predominantemente visual, econômico em seus diálogos (restringidos, em grande parte, às discussões monetárias do bando com seu contratante, o personagem de Neeson), o roteiro escrito por Abby Everett Jaques e pelo próprio diretor Ancken nos leva a testemunhar essa perseguição durante boa parte da trama, sem saber ao certo do porque ela se deflagrou, ou as motivações mais específicas que levam Neeson a perseguir e Brosnan a tentar escapar; salvo flashbacks breves que mais sugerem uma explicação mais profunda vindoura do que explicam de fato.

Há uma confiança deliberada e até estudada na capacidade dos atores e seus personagens sustentarem o filme, mesmo que sem os backgrounds narrativos de praxe: Liam Neeson vive, portanto, Carver, personagem norteado pela vingança que, durante muito tempo, evoca o Capitão Ahab, de “Moby Dick” –um indivíduo assolado pela necessidade de se vingar, disposto a passar por cima de tudo (ética, obstáculos humanos, até mesmo aliados ocasionais) a fim de concluir seu intento; mais propenso à ganhar a simpatia do público (devido ao seu estado combalido durante boa parte do filme), o personagem de Brosnan é Gideon que, aqui e ali, demonstra lá seus valores morais, ainda que nunca chegue sequer perto de exibir características de bom moço. Sem a motivação esclarecida para aquele que caça e para aquele que é caçado, sobra ao filme de Ancken, contar com a capacidade destes atores em capturar, com seu carisma, a atenção do expectador.

Não é exatamente o que acontece: Hàbeis em construir figuras ambíguas (e este parece ter sido um objetivo velado que ambos, aqui, adotaram em comum), Brosnan e Neeson não vilanizam nem romantizam nenhum dos dois personagens antagonistas, potencializando ainda mais a indagação do público –para quem, afinal, torcer?

Tivesse o personagem de Gideon mantido seu intérprete original (Richard Gere que, ainda na pré-produção, abandonou o projeto), “Seraphim Falls” talvez até não necessitasse de tais expedientes para definir ao público quem é seu protagonista e quem é seu antagonista. Da forma como ficou, isso é incerto, e a capacidade de envolver o público nesse enredo se torna escorregadia.

Claro que, lá pelas tantas, o esclarecimento chega na forma de um providencial flashback –nele, descobrimos que Carver foi um coronel confederado, e que Gideon, o capitão de uma tropa de soldados da União, tudo isso durante o final da Guerra Civil Norte-Americana (meados de 1865). Numa lamentável tentativa de obter inúteis localizações de possíveis desertores confederados, os soldados de Gideon invadem a casa da família de Carver, inadvertidamente incendiando o local e, sem querer, assassinando a mulher e os filhos dele, que se achavam no local sem ter como sair.

A descoberta desse elo de ligação entre os protagonistas afunila a tensão para o desfecho, mas, ao mesmo tempo, enfraquece algumas atitudes testemunhadas antes: Sobretudo, Carver que oscilava entre uma crueldade estudada e uma apatia quase vilanesca, de repente já não parece não certo assim de seu ódio e sua sede de sangue contra Gideon.

Curiosamente, o trecho final –que precede o típico duelo à céu aberto de filmes de faroeste –traz duas aparições de natureza alegórica a confrontar os dois homens em perseguição: A primeira traz o veterano Wes Studi (de “Dança Com Lobos” e “Fogo Contra Fogo”) a viver um indígena de trajes civilizados à beira de uma pequena lagoa no meio do deserto. Pragmático, ele negocia com Gideon, e depois com Carver, a água preciosa que está disposto a ceder mediante uma compensação. Tudo aquilo que se almeja, ele parece dizer, cobra seu preço, inclusive, neste caso, a vingança. A segunda aparição é de uma certa Madame Louise (vivida por Anjelica Huston) que, tal e qual uma bruxa, traz magicamente aquilo que ambos precisam para encerrar seu embate interminável –uma última bala para Gideon, uma pistola para o desarmado Carver; para ambos, ela oferece um último comentário cínico, reiterando que não há nada de muito valoroso no mundo que ambos podem acabar deixando.

Como tudo o mais neste filme, porém, essas ideias promissoras acabam mais numa promessa do que num fato consumado.

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Balada de Buster Scruggs

A fina ironia tão característica dos Irmãos Coen comparece com seu habitual primor nesta produção da Netflix que reúne alguns de seus mais idiossincráticos elementos.
Como em “Bravura Indômita”, estamos aqui diante de um western –e na abordagem do gênero que visitam, os Coen o evocam de forma tão romântica quanto sarcástica –como em “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, a narrativa se revela pontuada de música –que, no episódio inicial, ocasionalmente é cantada pelos próprios personagens –e como em praticamente todos os filmes sob sua assinatura, este aqui recebe dos Coen um tratamento primordial no qual a sina inapelável dos incautos seres humanos escolhidos para serem seus protagonistas ganha tanto em humor negro quanto em drama humano.

No primeiro dos seis formidáveis episódios que constituem este filme, acompanhamos a inusitada figura de Buster Scruggs que não somente dá nome ao filme, mas também oferece ao sensacional Tim Blake Nelson a chance de se mostrar um intérprete singular.
Scruggs singra o velho oeste americano ciente da fama de perigoso pistoleiro que construiu –e declamando essas circunstâncias em canções cantadas a céu aberto. Onde chega, porém, não é temor que Buster Scruggs suscita: Por seus trejeitos afáveis, seu modo de falar pitoresco e suas roupas caricatas e espalhafatosas –aspectos tornados impagáveis na atuação magnífica de Blake Nelson –ele só inspira petulância em seus desafetos; que ele enfileira, na forma de um cadáver após o outro!
Mas, como ele próprio canta na assombrosamente linda canção que encerra o episódio, há um final para tudo, e mesmo o pistoleiro mais ágil encontra, um dia, alguém com o gatilho mais rápido que o seu; e mesmo a voz mais bela, uma hora ou outra, há de encontrar uma cuja afinação a supere.

Interpretado por James Franco, o assaltante de bancos que protagoniza o segundo episódio experimenta uma sucessão de infortúnios tão bizarros que só poderiam vir mesmo da imaginação dos Coen: Capturado –por um estranho adversário revestido de panelas (?!) –ele é colocado à sombra de uma árvore para ser enforcado. Na hora H, seus algozes são mortos por índios que aparecem tão rapidamente quanto somem, deixando-o com a corda presa no pescoço, montado num cavalo que pode caminhar a qualquer momento –lembra muito a cena que inicia o filme “Maverick”, com Mel Gibson.

O terceiro episódio traz uma dose de intimismo e angústia com a qual volta e meia os Coen surpreendem o público. Liam Neeson é um dos dois membros de um pequeno espetáculo itinerante que singra os ambientes desolados do Oeste.
Entre aldeias gélidas –seja no clima, seja na receptividade social –e lugarejos angustiantes e angustiados, ele e um aleijado desprovido de braços e pernas (Harry Melling) apresentam sempre o mesmo monólogo –que a cada apresentação extrai menos moedas de seus expectadores.
O Velho Oeste mostrado não como o palco para tiroteios honrados e climáticos, mas como um mundo habitado por pessoas submetidas às mais terríveis e implacáveis privações, é o mote deste episódio: O personagem de Neeson aos poucos se ressente da situação de enfermeiro particular em circunstâncias para lá de adversas –e que chegam a lembrar um pouco “Monstros”, de Todd Browning –até que uma galinha adestrada o faz descobrir um modo mais simples de ganhar a vida; para azar do pobre aleijado...

Tom Waits é o protagonista do episódio seguinte, sobre um mineiro que se estabelece num vale até então harmonioso e livre da intervenção do homem. Seu objetivo é achar um veio de ouro puro que, por meio de seus metódicos conhecimentos de mineração, ele será capaz de encontrar através do rio local.
Os Coen, no entanto, reservam uma cruel e sarcástica guinada perto do final.

O quinto episódio acompanha a desafortunada vida da jovem Alice Longabaugh (a bela Zoe Kazan, na mais expressiva personagem feminina de todo o filme). Arrastada pelo malsucedido irmão para um iminente casamento arranjado como parte de seus negócios duvidosos, ela vai parar numa caravana –no melhor estilo “Cimarron” –em direção ao Oeste Selvagem. Entretanto, o irmão dele morre de cólera durante a penosa viagem deixando-a em maus lençóis: Sem ideia de como pagar o empregado contratado, de como cuidar do cachorrinho dele, o irritante Presidente Pierce (!), e basicamente sem ter onde ficar após terminada a longa viagem.
O destino sinaliza com alguma boa-venturança quando ela cai nas graças de Billy Knapp (Bill Heck), braço-direito do capitão da caravana (Grainger Hines).
A narrativa pitoresca e contida dos Coen constrói pacientemente um ensejo de relacionamento a brotar com espontaneidade entre a brutalidade que vinham retratando, só para desferir um soco na cara –recheado de ironia cruel –perto de seu desfecho.

O sexto e último episódio remete à “No Tempo das Diligências”, de John Ford, e de certa forma, também à “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino. Ele se ambienta quase todo dentro de uma diligência designada a não parar por nada até chegar ao seu destino –no que pode ser enxergada como uma metáfora aberta a inúmeras intepretações.
Os cinco ocupantes lá dentro são pessoas de classes sociais tão distintas quanto o são seus aspectos, suas prosas e suas personalidades: Há o matuto falastrão (Chelcie Ross) de tão pouca experiência na interação social que mal se dá conta do quão tediosa e inconveniente é sua conversa; a senhora abastada (Tyne Daily) de modos mais perdulários que sua condição financeira permite; e o apostador inveterado (Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”) cujo cinismo só não é maior que a covardia.
Em meio à conversação desnorteada e com frequência desregrada, os três não se dão conta de que os outros dois passageiros (Jonjo O’ Neil e Brendan Gleeson), bem mais comedidos e calados, são na realidade assassinos de aluguel –e se há algo, na concepção dos Coen, que iguala todos os seres humanos numa mesma manada de indivíduos assombrados é o medo da morte.
Dando a cada um desses notáveis episódios uma unidade narrativa que os torna únicos, os Irmãos Coen constroem uma antologia brilhante, áspera, árida e bem-humorada (apesar de tudo) da difícil vida no Oeste.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Darkman - Vingança Sem Rosto


Numa jornada de origem das mais interessantes do cinema moderno –e que gabaritou o diretor Sam Raimi para assumir a direção de “Homem-Aranha”, anos depois –quando vemos o ator Liam Neeson personificar aquele que será conhecido como “Darkman”, lá quase na metade do filme, notamos que as influências de Raimi não poderiam se apresentar mais explícitas, declaradas e apaixonadas: O filme remete imediatamente à “O Fantasma da Ópera”, à “O Abominável Dr. Phibes”, e às histórias em quadrinhos de terror, e sua narrativa inventivamente visual, carregada de detalhes por quadro, com a qual Raimi conduz este seu verdadeiro espetáculo.
Lembrado então como o jovem que chacoalhou o mainstream cinematográfico americano com um produto de baixíssimo orçamento vindo das fileiras do terror alternativo (o emblemático “Evil Dead”), mas cuja repercussão foi forte o bastante para influenciar o cinema comercial, Raimi havia feito pouco mais que a alucinada comédia “Crime Wave” e a continuação de “Evil Dead” antes de realizar esta que pode ser enxergada como sua primeira incursão no cinema comercial de fato.
Nesse sentido, “Darkman”, apesar da estética anos 1990 que pulsa de suas transparentes intenções, é um filme até profético nas características que agrega para moldar seu apelo de público, já que elementos como personagens de histórias em quadrinhos, ou mesmo o teor divertidamente referencial que tempera a narrativa, só seriam assimilados, e empregados em profusão pela indústria, muitos anos depois.
Poucos anos antes de ter sua indicação ao Oscar de Melhor Ator por “A Lista de Schindler” –e décadas antes de redescobrir-se como um eficaz ator veterano de ação –Liam Neeson interpretou Peyton Westlake, o trágico herói que Raimi confronta com o tipo de tragédia mirabolante reservada aos seus protagonistas: Cientista, ele é atacado e seu laboratório, explodido. Sobrevivendo por milagre (ainda que dado como morto), Peyton tem seu rosto desfigurado e perde a capacidade de sentir dor –aspectos que Raimi usará convictamente para encaixar num contexto de ‘superpoderes’.
Pois, Peyton foge, reconstroí o que pode de seu antigo laboratório e busca dar continuidade à suas pesquisa para criar uma pele humana sintética. Agora, mais do que nunca, ele precisará disso se quiser se apresentar com um rosto humano à mulher que ama, intepretada pela sensacional Frances McDormand.
Entretanto, como cabe a um superherói, a personagem de McDormand tem também lá seus apuros dos quais ser salva: Ela é perseguida por um grupo de criminosos contratados, os mesmos, por sinal, que destruíram a vida de Peyton.
A vingança e a necessidade que salvar a amada são assim as motivações para Peyton iniciar um intrincado plano para minar e destruir um a um os integrantes daquela quadrilha; e é absolutamente espetacular ver o que o diretor Sam Raimi (no auge de sua empolgação e juventude criativa) faz para que o filme siga adiante: Ele não economiza técnicas, truques visuais e outros artifícios para fazer de cada cena uma surpresa visual aos olhos do público.
Divertidíssimo, agitado, certamente inventivo e vibrante –ainda que ocasionado por insensibilidades latentes de um diretor vindo dos extremos do terror –“Darkman” foi um sopro de renovação e ar fresco muito bem-vindo numa época em que o cinema (e o público) carecia de alguma novidade.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Cruzada


Embora seja encarado, na opulenta filmografia do diretor Ridley Scott, como uma obra menor, o épico “Cruzada” é um belo exemplo das amplas capacidades dele como realizador; é, também, um exemplo de como se construir um épico de maneira satisfatória: Sua narrativa é tensa, intensa, romântica, grandiosa, lírica e violenta. E razoavelmente pontuada por referências históricas pertinentes.
Seguindo o mesmo procedimento criativo adotado por ele e por seus roteiristas ao criar “Gladiador”, Scott se detêm sobre um momento notável da História Antiga –neste caso, a transição entre a segunda e a terceira Cruzada de Jerusalém –criando um roteiro hábil em pairar sobre os eventos fundamentais daquele momento, centralizando tudo isso em torno de um protagonista fictício –talvez, o único personagem que não é real na trama.
Esse personagem vem a ser Ballian de Ibelin (papel que Orlando Bloom agarra com unhas e dentes a fim de se livrar da imagem de Legolas em “O Senhor dos Anéis”), viúvo e renegado ferreiro francês na aldeia em que vive devido ao suicídio da esposa.
Ballian junta-se ao grupo de cavaleiros templários de seu recém-conhecido pai (Liam Neeson) que o conduz até Jerusalém, então um pólo de interesses religiosos e intrigas palacianas por conta da tomada dos árabes, o que pode ser breve, pois Saladino (o ótimo Ghassan Massoud), o líder militar dos muçulmanos espia a frágil trégua mantida a duras penas pelo leproso rei de Israel (Edward Norton, irreconhecível atrás de bandagens e maquiagem).
O possível sucessor do rei, Guy de Lousigniam (Marton Csokas), é um homem selvagem e hostil que anseia por uma guerra contra os muçulmanos. É essa oportunidade que Saladino espera para arremessar suas tropas sobre a cidade e retomar Jerusalém. Nessa cruzada, o papel de Ballian poderá ser fundamental.
Ainda que ocupe um ingrato lugar intermediário e transitório na filmografia de Ridley Scott (não atinge o auge qualitativo e artístico que ele demonstrou, em mais que uma vez, que é plenamente capaz de alcançar; mas, está longe de ser uma de suas obras inferiores), “Cruzada” é um épico belíssimo com magníficas e bem realizadas cenas de batalha, além de um notável e variado elenco; acima de tudo, uma demonstração da técnica sólida e admirável de um especialista no gênero.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Gangues de Nova York

A primeira colaboração entre Leonardo Dicaprio e Martin Scorsese marcou um período em que o astro começava enfim a deixar a sombra do sucesso esmagador de “Titanic” para trás e construía uma bela carreira –no mesmo ano, ele lançou o excelente “Prenda-Me Se For Capaz”, de Steven Spielberg.
Na filmografia de Scorsese, por sua vez, “Gangues de Nova York” dialoga com “A Época da Inocência”, por se ambientarem na mesma metrópole e no mesmo período de tempo (o Século 19), embora pareçam tratar de assuntos e temas de radical diferenciação –e a presença de Daniel Day-Lewis no elenco de ambas as produções não deve, por isso mesmo, ser tratada como coincidência.
Este foi um projeto longamente acalentado por Scorsese –as primeiras tentativas de viabilizá-lo datam do fim da década de 1970! –talvez, por refletir com pertinência os seus interesses como contador de histórias.
Como é inerente ao seu vigor, Scorsese observa o submundo corrupto da cidade de Nova York, ainda em estado transitório do quê viria a ser –uma cidade entrecortada pelos fortes contrastes culturais trazidos por imigrantes das mais diversas partes do mundo. É para lá que vai o jovem Amsterdam Vallom (Dicaprio, cada vez mais evoluído como ator), com a obscura intenção de vingar a morte de seu pai pelas mãos de Bill The Butcher, o atual líder da estrutura de poder vigente.
E a cena de batalha que responde como prólogo do filme, quando Bill mata o pai de Vallom (vivido por Liam Neeson) é, já ela, de um registro arrepiante e sem concessões da brutalidade como só um mestre é capaz de fazê-lo.
Bill (interpretado com preciosismo invulgar por Day-Lewis) é um personagem intrigante: É a essência do mal, e nada em seu comportamento psicótico esconde isso, mas nutre um senso de honra –assim como um afeto aos que lhe são próximos e confiáveis –que lhe confere inesperada humanidade: Ele realiza, por exemplo, uma cerimônia anual, em homenagem ao seu inimigo assassinado, o pai de Amsterdam Vallom. O próprio Vallom, por sua vez, durante algum tempo, cai em suas graças, virando seu braço-direito.
Bill ganha também, de Scorsese e do ator que o interpreta, uma caracterização algo destoante, um aspecto que o torna sempre uma figura intrusiva em cada uma das imagens em que aparece: Essa sensação é passada nos detalhes meticulosamente escolhidos em seu figurino (as opções de cores evidenciam tanto a falta de conhecimento do personagem em como se vestir adequadamente, como sua não declarada intenção de pertencer à uma classe mais alta que não é a sua), no movimento brilhantemente estudado de Day-Lewis (que para variar emprega uma técnica bem equilibrada e apropriadamente espalhafatosa em sua atuação), e até em detalhes que poderiam soar cartunescos numa outra composição (como a íris artificial num dos olhos de Bill).
São todos esforços conscientes e inteligentes que só fazem bem à história: Por conta deles, em nenhum momento essa humanização de Bill tira o foco (e a expectativa, ou até torcida) do expectador para o cerne da narrativa: A vingança de Amsterdam Vallom.
Para levar a cabo essa vingança, entretanto, Vallom compreende que terá de envolver-se com os mecanismos políticos e sociais dessa cidade ebuliente que cresce a partir dos imigrantes que recebe em quantidade maciça nos seus portos.
É assim que, na medida em que conta a história do embate brutal entre dois homens em níveis que vão se estreitando do cordial e político até o físico e nada civilizado, Scorsese reflete sobre a mentalidade intrinsecamente animalesca daqueles audazes pioneiros que moldaram a América, sobretudo, uma de suas mais emblemáticas cidades, Nova York. Na abordagem grandiosa que seu épico vigoroso busca fazer, e na complexidade loquaz e ramificada do trecho histórico que relata, o diretor acaba inferindo por momentos que oscilam em impressão na condução de seu trabalho, ora confuso, ora eletrizante, mas ele jamais deixa que se perca uma apurada visão artística sobre todas as facetas que se dispõe a observar e, mais do que isso, jamais perde o foco da analogia essencial que, no fim das contas, seu filme procura estabelecer, como bem mostra a cena final onde o diretor avança no tempo para evidenciar as torres gêmeas do World Trade Center em seu enquadramento: Era então o ano de 2002, e o 11 de Setembro ainda era uma ferida aberta pedindo por tratamento (ainda que ele fosse existencial).

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Silêncio

Movimento. Um dos elementos mais inerentes ao cinema, desde sua criação, era também um dos paradigmas em torno do qual as cenas concebidas pelo mestre Akira Kurosawa trabalhavam.
É natural que seja, portanto, o movimento um dos aspectos manipulados por Martin Scorsese nesta espécie de homenagem que ele faz ao mestre e ao seu estilo com esta obra onde ele leva seus protagonistas ao Japão.
Mas, “Silêncio” é, também ele, um filme de Scorsese: Em seu cerne estão as mesmas dúvidas de ordem prática e existencial acerca do quê o catolicismo é, e qual a real aplicação de seus valores em nosso mundo que ele levou à condição do Messias em “A Última Tentação de Cristo”, assim como também vemos a própria concepção de fé sob o prisma de uma gigantesca distinção cultural, como ele havia feito antes em “Kundun”.
Em meados do Século 17, na vã tentativa de levar o catolicismo ao Japão, o padre jesuíta português Ferreira (Liam Neeson, que Scorsese gosta de empregar em papéis breves, mas emblemáticos para a narrativa, como o pai do personagem de Leonardo Dicaprio em “Gangs de Nova York”) é dado como desaparecido. Os rumores que chegam até a Europa dão conta de que, por alguma razão, ele renunciou à Igreja Católica.
Dispostos a esclarecer o quê supõem ser uma calúnia e à continuar o trabalho de Ferreira de onde parou, os jovens padres Rodrigues (Andrew Garfield, caracterizado com barba e cabelo comprido, como uma alusão direta à Jesus) e Garupe (Adam Driver) partem para lá, e encaram a árdua e clandestina tarefa de levar a palavra de Deus à um lugar onde a ordem vigente é extirpá-la como uma ideologia rejeitada.
A narração em off de Andrew Garfield que permeia grande parte dessa primeira metade do filme vem carregada de angústia e desolação genuínas diante da constatação do quão rarefeito é aquele ambiente para que a crença que lhes têm a oferecer seja disseminada; e esses momentos fazem, por vezes, lembrar os monólogos de natureza metafísica que Jean Luc Godard colocou em muitos momentos de “Je Vous Salue, Marie”.
Rodrigues e Garupe buscam confortar, com sua mera presença e seus ensinamentos, os poucos seguidores da fé cristã que encontram nas paupérrimas aldeias japonesas com as quais cruzam, mas, à medida que avançam para outros territórios, aproximam-se também da forte repressão ao catolicismo praticada pelo inquisidor Inoue-Sama (o grande Issey Ogata, compondo com propriedade um personagem inesperado para as expectativas que a narrativa faz dele).
Os algozes parecem ser, em princípio, os agentes da provação que o próprio Rodrigues espera para si, mas em vez disso, eles trazem –junto com a inesperada presença de Ferreira –um dilema: Até que ponto reafirmar sua fé e seus valores humanistas se torna algo de fato digno se isso leva ao sofrimento de outras pessoas?
Com três horas pesarosas e dilacerantes de duração, Scorsese elabora um intrigante, diferenciado e válido discurso acerca dos desdobramentos imprevistos da intolerância e das necessidades realmente práticas (em termos de conduta e benevolência) da religião.
Seu filme não busca, portanto, mover uma crítica muito menos despertar um sentimento de indignação pelo fator sanguinário de um episódio histórico, mas sim elucidar a dificuldade de entendimento –e nela procurar uma resposta –que leva os seres humanos a antagonizar uns aos outros: Na autêntica tristeza que gera com seu trabalho, Scorsese quer paz e não guerra.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Krull

Há várias pulsões comportamentais inerentes da indústria –e do modo lúdico com que a sociedade enxergava o embate do bem contra o mal nos ainda ingênuos anos 1980 –em “Krull”.
Existe o fantasma onipresente de “Star Wars” que, logo depois do sucesso arrebatador, influenciou uma infinidade de produtos do gênero naquela década, da qual esta inusitada fantasia de aventura “extraterrestre medieval” é um de seus mais desiguais exemplares.
Existe também uma postura bastante explícita que compartilha uma visão de rebeldia jovem para com as normas vigentes contra o totalitarismo –traduzida, sobretudo, no fato de que os exércitos malignos usam armaduras homogêneas e armas de raios, e combatem os insurgentes representantes do bem que aparecem caracterizados como camponeses armados de porretes, bastões, arcos de madeira e outras peças arcaicas, que remetem também um combate de indivíduos que vivem da natureza contra a sombra opressora da indústria.
Todas mensagens subliminares que a platéia cativa dos anos 1980 não tinha ainda o hábito de analisar e interpretar, e por isso mesmo, não sabia dizer ao certo qual era o fascínio tão irreprimível que levava uma produção de aspectos B, ao mesmo tempo precária e dona de algum charme, a cair nas graças de seu público.
“Krull” dá nome a um planeta nos confins da galáxia, onde uma antiga disputa entre dois povos é colocada de lado em função de uma trégua, selada pelo casamento entre o príncipe Colwyn (Ken Marshall, da minisérie “Marco Pólo”) e a princesa Lyssa (Lysette Anthony).
A razão do encerramento de tal disputa é a aparição de um inimigo em comum, vindo do espaço sideral: Um monstro invasor trazendo hordas de soldados intergalácticos armados.
É esse mesmo inimigo que ataca a cerimônia de casamento e seqüestra a princesa Lyssa, obrigando Colwyn a unir-se a um inusitado grupo para resgatá-la, que inclui o austero e sábio Ynir (Freddie Jones), o aprendiz de feiticeiro Kegan (Liam Neeson, em início de carreira), um mago cego (John Welsh) e um ciclope (Bernard Bresslaw), além de diversos voluntários, desejosos de confrontar as forças opressoras do Senhor da Fortaleza.
Dirigido por Peter Yates (do clássico policial “Bullit”), “Krull” é uma aventura que de fato envelheceu –e sua comparação com a pedra fundamental desse tipo de fantasia “Star Wars” é quase um ato de covardia –mas, como em muitos casos de filmes dos anos 1980, esse anacronismo que lhe acomete hoje é um de seus mais irresistíveis apelos, sem falar que ele guarda elementos interessantes de sobra, como a esteticamente intrigante arma chamada ‘gladium’ –talvez, a mais divertida e criativa alternativa para um sabre de luz do cinema! –os efeitos especiais que replicam traquejos técnicos da época do stop-motion, o vilão monstruoso cheio de características amedrontadoras e ambíguas, e a mocinha inesperadamente voluntariosa e vibrante da bela ruivinha Lysette Athony.

sábado, 29 de outubro de 2016

Algumas previsões para o Oscar 2017...

A cada ano que passa, o maior prêmio do cinema parece vir rodeado de prognósticos cada vez mais melindrosos: Desta vez, muitos são os que insistem numa proliferação de filmes de conteúdo racial, em resposta direta à polêmica que predominou nas últimas edições e que gira em torno do fato de haverem apenas brancos nomeados nas indicações.
Se isso irá se confirmar ou não, é algo que só saberemos mais tarde, por ora, palpitar os possíveis competidores na categoria principal já parece bastante complicado.
Cinco parecem ser os mais prováveis:

O Nascimento de Uma Nação
Alardeado como um dos possíveis concorrentes ao Oscar desde que chamou estrondosamente a atenção nos circuitos de festivais independentes onde foi exibido, o filme dirigido, estrelado e produzido por Nate Parker (cotado para concorrer nessas três categorias) não apenas chega como uma lembrança emblemática com relação às polêmicas de exclusão que mancham o Oscar ultimamente, como também está relacionado à própria história do cinema: Ele é refilmagem de um épico homônimo dirigido por D. W. Griffith em 1915, que trazia as primeiras experiências cinematográficas no campo da narrativa. O teor racista da obra de Griffith, contudo, manchou parte desse brilho, levando o diretor inclusive a rodar um outro épico, “Intolerância”, desta vez, ressaltando a igualdade das raças. Esta refilmagem reestrutura a história, o contexto e, sobretudo, o subtexto, adquirindo ares de um poderoso (e pelo que andam falando, magnífico!) manifesto contra a discriminação.
Contra o filme pesam as recentes denuncias de estupro contra seu realizador, o quê pode tornar a lembrança da Academia um pouco hesitante em relação a ele.

Sully-O Herói do Rio Hudson
Existem aqueles que são os prediletos da Academia de Artes Cinematográficas e que, ano a ano, não faltam entre os indicados. Alguns, é bem verdade, por mérito indiscutível.
Parece ser esse o caso deste novo filme que trás não um, mas dois profissionais que o Oscar tem em altíssima conta: Clint Eastwood (premiado por “Os Imperdoáveis”, em 1992, e por “Menina de Ouro”, em 2004) e Tom Hanks (vencedor de dois Oscars consecutivos de Melhor Ator por “Philadelphia”, em 1993, e “Forrest Gump”, em 1994).
A história também é, ela própria, um prato cheio para premiações interessadas em obras edificantes e sérias, sem a intenção de chocar: A história do piloto Chesley Sullenberger, que ficou famoso ao salvar as vidas dos ocupantes de um avião comercial ao pousar a aeronave nas águas do rio Hudson, em 15 de janeiro de 2009. Sullenberger –ou Sully –teve sua vida esmiuçada depois do acontecimento, numa trama ligeiramente parecida com outro filme, “O Vôo”, de Robert Zemeckis, não por acaso, bastante lembrado no Oscar 2012.

A Chegada
A cada nova obra o canadense Denis Villeneuve consegue pegar de assalto o público e a crítica. Num ano em que tivemos espetáculos de pirotecnia assumidamente comercial do porte de “Independence Day-O Ressurgimento”, Villeneuve entregou um dos mais profundos, intimistas e inquietantes registros sobre um provável contato com uma raça alienígena no cinema. Os apreciadores do gênero ficção científica estão, desde já, ávidos pela possibilidade que verem um filme desse gênero indicado ao Oscar de Melhor Filme (o quê não ocorria desde 2009, com “Avatar” e “Distrito 9”), e aqueles que o viram garantem que o filme tem méritos de sobra para fazer história!

La La Land-Cantando Estações
Autor daquele que talvez seja o filme mais surpreendente do Oscar 2015, o sensacional “Whiplash-Em Busca da Perfeição”, o diretor Damien Chazelle mais uma vez volta seu olhar para a música –mas num contexto e num clima diferente –e recorre à um dos pares mais festejados do cinema atual, os apaixonantes e carismáticos Ryan Gosling e Emma Stone, que já estiveram juntos em “Amor À Toda Prova” e “Gangster Squad”. O filme já vem laureado do Festival de Veneza com o prêmio de Melhor Atriz para Emma Stone (o quê a coloca como possível concorrente ao Oscar e aos outros prêmios) e com uma sucessão de críticas maravilhadas daqueles que o assistiram.

Silence
E, por fim, como ignorar um novo trabalho de Martin Scorsese? Voltando seu olhar palpitante, antropológico e sempre magistral para os missionários no Oriente, o realizador de “Táxi Driver”, “Os Bons Companheiros” e “O Lobo de Wall Street” conduz Liam Neeson (que já havia vivido um padre jesuíta em “A Missão”) e Andrew Garfield (buscando recolocar a carreira nos trilhos depois do claudicante resultados de “O Espetacular Homem-Aranha 1 e 2”) no que parecem ser interpretações espetaculares.

No mínimo, mais uma aula de cinema!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A Lista de Schindler

Durante boa parte de sua carreira Steven Spielberg viu-se reduzido à pecha de diretor de filmes de fantasia, ainda que sua genialidade tenha se mostrado, desde sempre, incontestável. Suas incursões na área da dramaturgia séria eram, em geral, recebidas com intriga e um certo ar de desconfiança: Quando ele lançou “A Cor Púrpura” e “Império do Sol”, na segunda metade dos anos 1980, a excelência reconhecida desses filmes não impediu que muitos observassem o curioso desconforto de ver o estilo de Spielberg versar em torno de questões adultas, distantes das aventuras infanto-juvenis que àquela altura já tinham se tornado a sua marca.
Em 1993, contudo, Spielberg deu um basta nesse ciclo vicioso que parecia querer confiná-lo num só rotulo –valendo-se, é bem verdade, de uma campanha de marketing bem planejada e oportuna: Nesse mesmo ano, ele lançou o arrasa-quarteirão (hoje, também ele, um clássico) “Jurassic Park”, que retomou para si, durante alguns anos, o posto de maior bilheteria da história do cinema (que outrora, ele já tinha obtido com “E.T.-O Extraterrestre”) e, numa dobradinha digna de um dos grandes realizadores de todos os tempos, entregou também um filme adaptado do romance de Thomas Kennealy, ainda que dotado de características autorais, sério, sombrio até, profundamente enraizado no registro histórico da Segunda Guerra Mundial (ainda que, a rigor, não fosse um filme de guerra), filmado numa fotografia em preto & branco das mais deslumbrantes de todos os tempos e imbuído de uma emoção poderosa e irrestrita, que ainda tinha os méritos de evitar o sentimentalismo fácil, além de ultrapassar as três horas de duração.
Surgia assim “A Lista de Schindler”, um filme com tantos predicados notáveis que seria impossível que a Academia de Artes Cinematográficas (leia-se, o Oscar) o deixasse passar batido. E a campanha de marketing (que salientava o fato hercúleo de Spielberg ter entregado “Schindler” e “Jurassic” num mesmo ano) não deixava ninguém esquecer isso, aliada ao fato de que o filme tinha qualidades reais e inquestionáveis. 
Durante a ocupação nazista na Europa o magnata Oskar Schindler (Liam Neeson, sensacional) chega à Krakóvia disposto a fazer fortuna. Contando com a conivência de oficiais nazistas (cujo favoristismo ele obtém entre seus membros valendo-se de seu charme de bom-vivant), ele abre uma fábrica de panelas inicialmente com investidores judeus e mais tarde patrocinada pela própria Gestapo, sempre valendo-se das circunstâncias da guerra.
Seu grande aliado na empreitada é o relutante contador Isaac Stern (Ben Kingsley, num trabalho primoroso), que aos poucos começa a tímida, e cada vez mais constante, iniciativa de usar a fábrica para preservar vidas.
Quando toda a Polônia é tomada, e grande parte da Krakóvia convertida em um campo de concentração, regido pelo perigoso e irascível Amos Goethe (Ralph Fiennes, magnífico e ameaçador), Schindler passa a usar como mão-de-obra os judeus vindos do próprio campo. Não demora muito para que sua fábrica passe a ser chamada de refúgio.
No recorrer dos anos que fizeram a Segunda Guerra Mundial, Schindler ajudou a salvar a vida de milhares de judeus.
São muitos os momentos que o talento de Spielberg consegue tornar antológicos (a interminável e brutal seqüência da evacuação do gueto de Varsóvia; a cena em que um oficial ameaça um senhor judeu com uma pistola que insiste em não disparar; o momento emocionante em que Schindler percebe o valor da vida, e reconhece em lágrimas que podia ter salvo muito mais pessoas), mas poucos se igualam à magnífica seqüência final quando seu diretor converte o preto & branco à cores, e paralelamente o registro fictício ao documental, mostrando uma cena na qual todos os verdadeiros personagens do filme, ao lado dos intérpretes que os viveram, depositam uma pedra no túmulo de Oskar Schindler (num costume judeu) –uma única rosa é colocada ao fim, pelo próprio ator Liam Nesson.

Longo, emocionante, técnica e artisticamente irrepreensível, e não raro espetacular, “A Lista de Schindler” terminou conseguindo aquilo que todos esperavam, proporcionando a consagração de Steven Spielberg, e assim conquistando 7 prêmios Oscars em 1993, incluindo as cobiçadas estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor. Hoje, ele tem uma honraria talvez ainda mais inestimável: É um dos melhores filmes da década de 1990.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Nathalie X / O Preço da Traição

A idéia de refilmar um filme flutua entre impressões ora equivocadas, ora nobres. É pertinente, por exemplo, a proposta de um aprimoramento técnico oferecido pelos recursos digitais da atualidade, ou até mesmo a transfiguração deste ou daquele tema sob o viés de uma mente artística diferente (Caso de “A Mosca” de David Cronenberg). Muitos, porém, são os detratores desse hábito, para os quais exemplos não faltam, afirmando que refilmagens são cópias preguiçosas (e, não raro, desrespeitosas!) do filme original.
Quando funcionam, estes trabalhos em que outro diretor revisita a mesma premissa de outro filme e leva à ele um novo e diferenciado enfoque, servem para comparar os elementos interessantes do material, e o modo como distintos realizadores enfatizam suas peculiaridades à medida que identificam ali as ressonâncias de sua própria obra.
Tomemos o exemplo deste dois filmes: o francês “Nathalie X” e o canadense “O Preço da Traição”.
O filme francês relata a história de uma dona de casa de classe alta descobrindo que seu marido cometeu adultério e ficando intrigada com a mulher que supostamente teria sido sua amante, uma belíssima acompanhante de luxo. Após uma série de atos relutantes da parte da primeira, elas acabam se conhecendo e pondo tudo em pratos limpos, mas desse contato surge uma estranha relação entre as duas, que por vezes parece ter conotações homossexuais.
Como é de um certo costume no cinema francês há um drama de sutil carga erótica na narrativa, que principia partir de um enredo que remete à “A Bela da Tarde” (a mulher burguesa envolvida deliberadamente com o mundo da prostituição), mas toma um rumo diferente (até inesperado numa determinada cena), embora soe disperso em contrapartida à sua inquestionável elegância: Parece ser do interesse da diretora Anne Foutaine que a narrativa privilegie a sugestão ao fato no que diz respeito ao seu erotismo, e para tanto, ela tira muito bom proveito de suas duas excelentes atrizes; a madura e elegante Fanny Ardant e a sexy e angelical Emmanuelle Béart.
Acontece que “Nathalie X”, talvez pelos elementos que o filme habilmente preserva subentendidos para o público, era uma dessas obras que sinalizam o interesse de outros realizadores. E uma refilmagem não tardou a ser produzida.

Orquestrada pelo talentoso e desigual Atom Egoyam (diretor e roteirista de “O Doce Amanhã”), “O Preço da Traição” –“Chloe”, no original –parte da mesma premissa, modificando uma série de coisas, a ponto de tornar-se quase um filme diferente.
Sob a esmagadora suspeita de ter sido traída, esposa dedicada de um renomado professor canadense (Liam Neeson, substituindo Gerard Depardieu, no original) contrata uma jovem garota de programa para seduzí-lo e depois lhe relatar passo a passo os detalhes de seus encontros. Aos poucos uma estranha conexão começa a surgir entre elas, tornando-se uma obsessão para a mais jovem.
Embora careça da sutileza do outro filme (e esta talvez seja, de fato, uma atitude proposital da parte da direção), alguns elementos são mais bem-resolvidos do que na obra original, conferindo unidade de ritmo, e um posicionamento de gênero que o filme francês não entrega (e que pode ter frustrado alguns), entretanto falta-lhe a ambigüidade e a autenticidade que davam charme à “Nathalie X”.
A trama, aqui se prolonga para muito além do desfecho do outro filme, levando a concessões mais óbvias de suspense, e dando novas características (maniqueístas, alguns dirão) à personagem da garota de programa.
Vale a pena lembrar que, para tanto, Atom Egoyam deixa de lado qualquer impressão subliminar no clima de sedução que se estabelece entre as duas protagonistas e faz com que Julianne Moore e Amanda Seyfried (ambas belíssimas) protagonizem uma cena de sexo de alta temperatura erótica (e esse, talvez, fosse afinal o propósito dessa refilmagem: Levar a trama à um ponto radical onde o filme francês não quis –ou não se atreveu –ir).
Nesse sentido, “O Preço da Traição” faz lembrar outra refilmagem, "Os Infiltrados", onde Martin Scorsese, buscou ampliar e ramificar muito do que era sugerido no original chinês, “Conflitos Internos”, culminando com um filme mais pop e menos inteligente.

Dentre os dois, meu predileto é “Nathalie X”, mas não nego certa “beleza” que há em “O Preço da Traição”.

domingo, 17 de abril de 2016

Batman Begins

Cada filme da trilogia do Cavaleiro das Trevas baseava sua história num elemento diferente, representado de uma certa forma no antagonista que o Batman enfrenta ao longo da trama. Uma das muitas sacadas geniais de Christopher Nolan ao longo dos três filmes.
No inaugural “Batman Begins”, o tema é o medo. O medo de ver seus pais sendo mortos por um bandido, ainda criança, e de ficar preso a essa lembrança para sempre. E medo é aquilo que, mais tarde, Bruce Wayne (Christian Bale, excelente) almeja incutir nos criminosos de Gothan usando assim o Batman. Não a toa, seus vilões aqui são o Espantalho (interpretado por Cillian Murphy, cujo poder é gerar o medo através de seu gás alucinógeno), e Rhas Al-Gul (Liam Neeson, ou Ken Watanabe, depende do enfoque...), um terrorista (!) e que, a propósito, serve como fonte para as plantas que provêm ao Espantalho sua arma secreta.
É fácil admirar a maestria com que Nolan conduziu essa reinvenção do Homem-Morcego, o quê talvez não seja tão fácil, é perceber que não foi algo simples chegar até ela.
Naquele ano, 2005, já contavam oito anos que o personagem tinha ganhado o que é considerado por unanimidade como o seu pior filme (e um dos piores filmes já realizados de todo o cinema!), o psicodélico, inadequado e inconveniente “Batman & Robin” de Joel Schumacher. O medo do estúdio em fazer outra bobagem só não era maior que o medo de perder o imenso lucro que um personagem como Batman proporcionou no passado, e assim, carregados de cautela, chamaram Christopher Nolan, recém-saído da aclamação por dois longa-metragens pouco usuais e primorosos: Os neo-noir “Amnésia” e “Insônia”.

Amparado num conceito de realismo (que, a rigor, sempre definiu sua filmografia) e munido de um elenco espetacular (Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, além dos já citados), ele deu início à criação de uma trilogia ímpar tida por muitos como o auge da tradução de uma história em quadrinhos para o cinema.

domingo, 3 de abril de 2016

A Missão

Há uma ressonância dramática na trilha de Maurice Jarre que atravessa todo o filme. É um comentário imbuído de tristeza, cujo requinte épico ele deve ter aprendido com David Lean. E “A Missão” não deixa mesmo de ser isso: Um épico em tintas contemporâneas, que volta sua atenção para elementos até então inéditos, mas que começavam a ser notados: Os colonizadores e o exotismo das paisagens sul-americanas, também explorados em “A Floresta de Esmeraldas” e “Brincando Nos Campos do Senhor”, todos daquela mesma década. Também é um diferencial o senso de observação perspicaz do diretor Roland Joffé, que vinha de uma ampla experiência com documentários, por meio do qual ele insiste em texturas e percepções que agregam realismo à narrativa, ela própria prodigiosa no avanço poderoso e contido da trama.
Nela, acompanhamos o árduo processo de colonização na América do Sul em geral, e no Brasil em particular, em meados do Século XVI, onde as matas brasileiras se tornaram palco de um dramático conflito: De um lado, escravagistas espanhóis que desejam capturar os indígenas ilegalmente e levá-los para serem vendidos na Europa; do outro, os padres catequistas que desejam instalar nas imensas tribos locais suas missões, e doutrinar os nativos com sua religião católica. No final, ambos de qualquer maneira terminaram por esmagar sua cultura e crenças originárias.
É a trajetória de Rodrigo Mendonza (um luminoso Robert De Niro), inicialmente um mercador de escravos e, mais tarde, após uma tragédia pessoal, um voluntário jesuíta, que expõe as violentas implicações da tomada praticamente hostil dos europeus às regiões da América do Sul, bem como seu conflito de interesses, o que acaba trazendo-lhes a guerra.
Além da produção brilhante que é, “A Missão” permite conferir o auge artístico de Roland Joffé, um diretor que, no meio da década de 1980 prometia ser uma das grandes revelações do cinema, mas que, após dois belíssimos trabalhos (este e o também tocante “Os Gritos do Silêncio”) nunca mais foi o mesmo artesão.
É, portanto, seu legado, este filme longo, solene e lindo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Star Wars - Episódio 1 - A Ameaça Fantasma

Após o lançamento de "O Retorno de Jedi", em 1983, houve uma época em que acreditou-se que nunca mais haveria um novo "Star Wars". Esse período negro comportou mais ou menos o ano de 1986 até quase o final dos anos 1990. Mas, ao fim daquela década os fâs puderam se animar novamente: Após conferir a evolução dos efeitos especiais (perceptível especialmente no prodigioso "Jurassic Park"), evolução essa que ele próprio ajudou a proporcionar, George Lucas resolveu voltar à sua saga, retornando ao passado para contar o que seria o início da trama -que é sempre bom lembrar, ele iniciou no Episódio 4 -com a qual ele mesmo revolucionou o cinema em 1977. 
Em 1999, chegava então aos cinemas "A Ameaça Fantasma", embalada por cenas de encher os olhos e que, verdade seja dita, à época, reuniu multidões no cinema. 
Todavia, apesar da empolgação, e de momentos genuinamente legais, "A Ameaça Fantasma" trazia uma incomoda aura de perfeição. O jovem ator que fazia Anakin Skywalker era ruim. A trama enrolava na maior parte do tempo. O personagem digital de Jar Jar Binks era irritante e insuportável (e aparecia durante quase o filme todo!), e as coisas boas (o vilão Darth Maul; o jovem Obi Wan Kenobi de Ewan McGregor; Natalie Portman) apareciam, ao menos nesse primeiro filme, por pouco tempo em cena.
George Lucas havia criado, acima de tudo, um prato cheio para os detratores de sua saga intergaláctica.
No distante planeta Naboo, frotas hostis representando uma auto-intitulada "Associação", fazem um cerco ao planeta, o que exige a presença de dois cavaleiros Jedi (o jovem Obi-Wan Kenobi e seu mestre, Qi-Gon), para que intercedam em favor da paz e da justiça. Tudo sai errado com uma declaração de guerra seguida por um fuga audaciosa da Rainha Padme Amidala do planeta junto dos Jedis. Eles vão todos parar no distante Tatooine, onde encontram ajuda no garotinho escravo Anaquin Skywalker. Logo, Qi-Gon, fascinado com o potencial do garoto o levará ao planeta Coruscant, local do conselho Jedi, obcecado com a idéia de fazer dele seu aprendiz.
Diz a lenda que o próprio George Lucas não queria dirigir esse filme: Ele teria procurado Spielberg, e até Ron Howard para oferecer-lhes a direção, mas ouviu de todos a mesma resposta; "Este é um filme que tem que ser feito por você!"
Eles não podiam estar mais enganados. Os vintes e poucos anos (desde o primeiro "StarWars", de 1977) em que Lucas ficou sem sentar na cadeira de diretor fizeram uma enorme diferença neste trabalho, minando muito da qualidade que este filme poderia ter tido. Ele empalidece ainda mais, por exemplo, se compararmos com recente "O Despertar da Força", com a criteriosa direção de J.J. Abrahams.

domingo, 15 de novembro de 2015

Excalibur

Grande mestre, esse John Boorman. Diretor de magistrais trabalhos nos anos 1970 e 1980, como “Amargo Pesadelo” e “Esperança e Glória”, ele é também realizador da melhor (e provavelmente jamais igualada) versão da lenda do Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda: “Excalibur”. 
A primeira parte da história, narrada num tom épico que depois serviria aos propósitos narrativos de filmes como “Gladiador” ou “Senhor dos Anéis”, mostra a obsessão de Uther Pendragon (Gabriel Byrne) em tornar-se rei, após obter a fabulosa espada Excalibur, das mãos da Dama do Lago. Ao alcançar seu objetivo, ele apenas troca uma obsessão por outra: Uther deseja Igraine, a esposa do homem que antes foi seu aliado em batalha. Fazendo um pacto com o mago Merlin (Nicol Williamson), e com o demoníaco dragão que lhe fornece poder, Uther tem uma noite fugaz de amor com Igraine enquanto seu marido cai morto no campo de batalha. Mas, Merlin volta, nove meses depois, para cobrar a dívida pelo favor prestado, e seu preço é Arthur, o recém-nascido, fruto daquela mesma noite. Uther arrepende-se do pacto, mas é interceptado por inimigos de seu reino antes de alcançar Merlin. Eles matam Uhter, que antes de cair crava a espada Excalibur em uma pedra, impedindo qualquer de empunhá-la (numa cena fantástica, bem feita, bem filmada, bem dirigida e bem interpretada). 
A trama avança, assim, algumas décadas e, na segunda parte, encontraremos Arthur (Nigel Terry) já rapaz, trabalhando como escudeiro para o filho de seu pai adotivo (Merlin entregou-o para que um camponês o criasse). Acidentalmente, Arthur remove a espada da pedra, tornando-se rei. 
Nos anos por vir ele se apaixonará pela bela Guinevere (Cherie Lunghi), a filha de um de seus maiores aliados, consolidará seu castelo, unificará seu reino, em Camelot, e criará a Távola Redonda, em homenagem à honra que une seus cavaleiros. Mais tarde, Arthur conhecerá Lancelot (Nicholas Clay), nobre cavaleiro cuja honradez em combate irá surpreender o próprio Arthur. Após uma breve contenda, eles tornar-se-ão amigos, porém, numa reviravolta do destino, Lancelot e Guinevere se apaixonarão, traindo Arthur e deixando o reino de Camelot à mercê dos feitiços malignos da vingativa meia-irmã de Arthur, a bruxa Morgana (Helen Mirren). Uma época negra que somente a descoberta do Santo Graal irá dissipar. 
Mesmo a mais elaborada sinopse talvez não dê conta da complexidade à que “Excalibur” consegue chegar. Seus personagens são multifacetados, e isso é maravilhosamente refletido no trabalho minucioso do elenco. Também é digna de aplausos a direção de John Boorman que emprega uma sucessão de decisões brilhantes nesta sua versão tão pessoal da lenda. A primeira delas é certamente a de jamais render-se a uma tendência comercial (na qual, sem dúvida, as cenas de sangue ou de nudez seriam sensivelmente reduzidas, além do conteúdo bastante dramático e trágico da história); a segunda, é adotar o tom ímpar que adotou, o de em princípio, desmistificar a lenda (infligindo reações muito humanas e ambíguas em seus personagens) o quê termina apenas por valorizá-la; e a terceira é finalmente colocar alguns dos mais brilhantes atores britânicos para vivenciá-los, como Hellen Mirren (bonitona pra caramba!) como Morgana, ou Gabriel Byrne com Uther Pendragon, há até mesmo um jovem Liam Neeson e um ainda desconhecido Patrick Stewart (porém a grande presença vem a ser mesmo Nicol Williamson, esplêndido num registro desigual de Merlin). 
Uma das grandes obras de fantasia do cinema.