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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Quarteto Fantástico - Primeiros Passos


 Criado nos quadrinhos pela dupla Stan Lee e Jack Kirby nos anos 1960, o Quarteto Fantástico já teve quatro versões anteriores feitas para cinema –a de 1994 (uma produção B cuja pobreza técnica e artística foi tamanha que sequer foi lançado!), a de 2005 (talvez, a mais famosa, que trazia Chris Evans como Tocha Humana), sua continuação de 2007 (aproveitando também o arco narrativo a envolver Galactus e o Surfista Prateado, resultando nada mais que uma sessão da tarde mediana) e a de 2015 (uma obra problemática, assolada por todo o tipo de equívoco e, como é habitual em casos assim, uma verdadeira lástima).

Faltava, em cada um desses exemplares, alguém atrás das câmeras que fizesse um esforço mínimo para entender os quadrinhos originais, a motivação dos personagens, o propósito e o contexto para o qual foram criados. Felizmente, a Marvel Studios (enfim, detentora desses personagens após um tortuoso vai e vem de direitos autorais) entregou o material nas mãos do diretor Matt Shakman (realizador de todos os episódios da elogiada série “WandaVision”) que soube pontuar os elementos pertinentes de cada membro do grupo, encontrou o empuxo moral e existencial que dava impulso às suas tramas, e organizou essas considerações numa narrativa bem calibrada, sólida e enxuta, além de adornar seu trabalho com um visual de encher os olhos, aproveitando a estética sci-fi retrô escolhida para a produção.

Numa versão alternativa do planeta Terra (chamada Terra 828, alternativa inclusive ao próprio Universo Marvel em si, cujas obras de sucedem noutra realidade), o mundo chegou à década de 1960 usufruindo de uma plenitude tecnológica fora do comum, graças à existência de um gênio conhecido como Reed Richards (Pedro Pascal). Esse mesmo Reed Richards que, numa eventual viagem espacial (são anos 1960, logo, período da Exploração Espacial) junto de sua tripulação, formada pela esposa Sue Storm (Vanessa Kirby), pelo cunhado Johnny Storm (Joseph Quinn, de “Um Lugar Silencioso-Dia Um” e “Gladiador II”) e pelo amigo Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach, de “Que Horas EuTe Pego?” e da série “The Bear”), acaba colhido por raios espaciais que conferem à todos eles, poderes diferenciados. Reed, agora, além da mente privilegiada, tem também a capacidade de se esticar; Sue consegue produzir poderosos campos de força, além de ficar invisível; Johnny controla o fogo podendo inclusive tornar o próprio corpo incandescente; e Ben vira um ser rochoso superforte ao qual dão a alcunha de Coisa. Essa família se transforma assim nos grandes heróis da Terra, o Quarteto Fantástico.

Quando a trama tem, de fato, início –mostrando essa origem mencionada acima numa breve sequência de um programa de TV –o Quarteto Fantástico testemunha a chegada à Terra da Surfista Prateada (Julia Garner, de “Sin City-A Dama Fatal”), criatura de poder cósmico que afirma ser arauto do poderoso Galactus, um ser tão antigo quanto o universo, movido por uma fome incontrolável e incessante. O seu alimento: Planetas! E chegou a hora dele alimentar-se da Terra.

A Surfista vem, portanto, anunciar para o Quarteto e para o mundo o prazo final da raça humana.

As esperanças se debruçam, obviamente, sobre os quatro membros do Quarteto Fantástico, contudo, quando finalmente eles encontram o incomensurável Galactus (vivido numa imponência assombrosa por Ralph Ineson), ele os confronta com um dilema: Salvar a Terra entregando a ele o filho de Sue e Reed, ainda por nascer.

Ainda que, de longe, a produção mais visualmente arrebatadora e fascinante a adaptar o Quarteto Fantástico para as telonas, o grande trunfo do filme é mesmo seus acertos no roteiro e no elenco: Hábil no manejo dramático de sua trama, o diretor Shakman conseguiu desenvolver de modo satisfatório não só cada um dos membros do grupo como também estabeleceu instigantes e eficientes dinâmicas entre cada um deles e a personagem da Surfista Prateada. Como nas HQs, portanto, “Quarteto Fantástico-Primeiros Passos” vale-se de pertinentes expedientes da ficção científica para enfatizar os laços familiares que unem seus personagens, centralizando assim a personagem vivida brilhantemente por Vanessa Kirby (ela que –veja só! –é neta do próprio Jack Kirby!) no cerne da narrativa, à exemplo do que Shakman já havia também feito em “WandaVision” com a personagem da ótima Elisabeth Olsen –a mulher, esposa e mãe, tornada assim o pilar emocional de toda a união conjunta de um grupo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Nosferatu


 Uma das vozes mais autorais a surgir no panorama do cinema atual, o diretor Robert Eggers tece uma reimaginação de “Nosferatu”, de F.W. Murnau, um dos primeiros filmes do cinema mudo a estabelecer alguns elementos de gênero e certamente o primeiro a tentar uma adaptação (não autorizada e, de ponta a ponta, clandestina) do romance “Drácula”, de Bram Stoker. O filme de Eggers traz assim uma analogia, vasta em possibilidades a serem contempladas, entre o período de tempo em que as produções foram feitas (1922, o primeiro; 2024, este daqui), os filmes que se moldaram a partir dessas considerações (além da primeira refilmagem de “Nosferatu”, feita por Werner Herzog em 1979) e outras possíveis observações de natureza psicanalítica e metafísica, bastante comuns em sua obra.

O ano é 1838, na cidade alemã de Wisborg, onde vivem os recém-casados Helen (Lilly-Rose Depp, de “Viajantes-Instinto e Desejo”) e Thomas (Nicholas Hoult). Helen padece do que hoje podemos identificar como depressão –para a mentalidade de então, é uma celeuma apontada (até pela própria Helen) como melancolia, fruto da opressão feminina sofrida naquela época, e tal condição, descobrimos, levou-a a um surto extremo quando era mais jovem. Ainda assombrada por tal escuridão, Helen clama numa espécie de oração, na cena que abre o filme, por um anjo da guarda, algum ser de correspondência sobrenatural que venha, de repente, por fim a esse tormento. De certa maneira, ela será atendida...

Desejoso de galgar a hierarquia profissional da firma imobiliária em que trabalha, e de proporcionar uma estabilidade financeira à esposa, Thomas, contrariando os apelos dela, parte numa viagem longínqua a fim de negociar com um cliente morador de um castelo distante, nos Cárpatos. Durante esse tempo, Helen fica sob os cuidados do casal de amigos Friedrich (Aaron Taylor-Johnson) e Anna (Emma Corrin, de “Deadpool & Wolverine”) –já nesse início, o filme de Eggers estabelece Friedrich e Anna como um reflexo reverso de tudo aquilo que, como casal, Thomas e Helen não são: Unidos, estáveis e confiantes.

Após um viagem longa e desgastante –durante a qual adentra um mundo exótico e supersticioso de ciganos mal-encarados e tradições desconcertantes –Thomas chega ao castelo do tal Conde Orlock, o ser sobrenatural em questão (vivido com a minúcia e o critério que está tornando célebre o ator Bill Skarsgaard, de “It-A Coisa”).

Em 1922, interpretado por Max Schreck, e em 1979, interpretado por Klaus Kinsky (ainda que nesse filme, eles o chamassem de Conde Drácula!), o Conde Orlock havia adquirido as feições opostas ao aspecto sedutor do vampiro popularizado e personificado por Bela Lugosi: Orlock tinha os dentes incisivos (e não os caninos) protuberantes, era carece e pálido, a lembrar, muito mais um roedor –muito dessa caracterização se deve, em 1922, pelas correntes de raciocínio do Expressionismo Alemão, surgido na década de 20, na Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial, e imediatamente anterior à ascensão do Nazismo –nessa mentalidade vigente (como visto em outras obras como “O Gabinete do Doutor Caligari”), o mal sorumbático e algo autômato era mostrado como uma tortuosa deformação da realidade, e o anti-semitismo recorrente trazia personagens que insistiam no registro de judeus, sempre às voltas com questões financeiras (como os assuntos imobiliários do filme), como ratos, tal e qual o Conde Orlock –vale lembrar que na aclamada HQ “Maus”, de Art Spiegelman, os judeus também surgem retratados como ratos. Se essa caracterização ainda fazia algum sentido em 1979 (quando, no “Nosferatu” de Werner Herzog, a angústia estética de Klaus Kinsky encontrava eco na desilusão recorrente do cinema alemão da década de 1970), no “Nosferatu” de Robert Eggers, isso foi abolido: O Conde Orlock de Bill Skarsgaard já não ostenta dentes pontiagudos (ocultos por um bigodão ao estilo dos czares de antigamente) e sua aparência remete a uma espécie de ancestralidade, uma aristocracia de linhagem imemorial –e sempre muito macabra.

O enredo de “Nosferatu” segue muito semelhante aos demais filmes já realizados –e até aos demais filmes envolvendo Drácula já realizados: Thomas se torna prisioneiro de Orlock que viaja para Wisborg a fim de encontrar Helen, levando consigo uma praga nefasta que ameaçará toda a cidade.

É na relação estranha, ambígua e incômoda com Helen que Eggers erguerá o diferencial de originalidade de seu filme: Orlock não deseja, deveras, arrebatar Helen e tomar seu sangue contra sua vontade (algo que ele faz com um ou outro personagem); ele quer que Helen se entregue a ele de espontânea vontade e, para isso, irá submeter todas as pessoas que ela conhece à um mal inapelável por três dias e três noites, até que ela se convença disso. Há, nessa relação inusitada, uma sugestão de que Helen e Orlock já tiveram um encontro antes –talvez, ele já a tivesse atacado no prólogo surreal e sugestivo do início, talvez ele fosse um antepassado dela regressando dos mortos, ou talvez, ele fosse seu próprio pai! As possibilidades plantadas pelo filme de Eggers são inúmeras e ele as deixa, todas, em aberto, inclusive, sugerindo, no famoso final (quando a mocinha se sacrifica, numa cena com nudez muito mais explícita que todas as versões anteriores) que Orlock pode ter, de fato, se deixado matar.

Amargo, lúgubre e profundamente calcado nas considerações da natureza psicológica, sobretudo, de sua personagem principal, “Nosferatu” é uma obra que corre o risco de decepcionar expectadores ocasionais que nutrirem a expectativa por um filme de vampiros nos moldes convencionais –ele é quase uma desconstrução do conceito de vampiros –detendo-se em cenas que evocam muito mais as possessões aflitivas do clássico “O Exorcista”, e sua ênfase na corrupção espiritual do ser humano.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Resistência


 Responsável pelo aclamado “Rogue One”, o diretor Garreth Edwards realizou este épico de ficção científica que, por sua vez, em muito lembra as obras de Neil Bloomkamp (como “Distrito 9”), nas quais o futurismo inerente ao gênero serve como um estudo das complexidades humanas. Centralizando um tema muito em pauta nas discussões atuais, “Resistência” esboça um mundo onde a Inteligência Artificial evoluiu exponencialmente, a ponto de fazer frente, como espécie, à própria raça humana; nesse mundo concebido por Edwards e por seu co-roteirista, o também diretor Chris Weitz, as máquinas podem sentir (são os chamados ‘simuladores’ tão incrivelmente similares aos humanos que com eles se confundem) e, na medida do possível, podem também lutar por seus direitos –nas imagens de arquivos graduais que abrem o filme, somos inteirados da história que colocou humanos e máquinas uns contra os outros, e de como os primeiros perderiam a batalha para os segundos não fosse uma nave colossal de guerra intitulada “Nomad”, capaz de dizimar cidades inteiras escaneando seus alvos de altitudes quase orbitais.

É curioso, portanto, que uma vez tendo contextualizado esse mundo incrível (e, ainda assim, adornado de ponta a ponta com elementos palpitantes de realidade) o diretor foca sua trama num cerne assim tão intimista: O calejado soldado Joshua (John David Washington, filho de Denzel Washington e protagonista de “Tenet”), no decurso de uma missão na qual deveria rastrear a misteriosa Nirmata (uma entidade ou alguém que controla todas as estratégias adotadas pelas máquinas), acaba perdendo seu grande amor, Maya (Gemma Chan, de “Eternos”) em meio à um pesado ataque em ilhas isoladas do continente outrora conhecido como Ásia onde as máquinas criaram um reduto no qual embrenham-se e misturam-se robôs, ‘simuladores’ e humanos simpatizantes.

Cinco anos depois, Joshua é chamado para uma nova missão: A Coronel Howell (Alisson Janney) requer os resquícios de memória dele, de quando lá esteve infiltrado, para voltar à Nova Ásia e por lá encontrar o que parece ser uma espécie de arma elaborada pela resistência a favor das máquinas. Tal arma, Joshua descobre, é a garotinha Alphie (Madeleine Yuna Voyles), um ‘simulador’ de tamanha perfeição que replica involuntariamente o comportamento de uma criança, e como tal, aprende, cresce e evolui dia-a-dia. Alphie também tem poderes –pode controlar remotamente algumas máquinas próximas –que irão evoluir junto como ela, até que seja capaz de controlar a própria “Nomad” e destruí-la.

A missão da ensandecida Coronel Howell (como são ensandecidos todos os militares deste filme, inclusive seu vilão-mor, interpretado pelo ótimo Ralph Ineson) é, assim, eliminar Alphie, entretanto, Joshua é, ao mesmo tempo, aquele que pode levá-la até ela, e aquele que não a deixará eliminá-la: Alphie pode ou não ter sido criada com base na filha que ele perdeu no mesmo ataque em que Maya, ainda grávida, foi morta (!). Mais; talvez, a própria Maya possa ainda estar viva (pois há uma chance de que fosse ela a misteriosa Nirmata, esse tempo todo) e somente Alphie é capaz de levá-lo até onde ela está.

Construído com tanta ação quanto reflexão, o filme de Edwards não esconde que seu diretor ainda trabalha sobre a sombra da mitologia “Star Wars” –como lá, a premissa, no fim das contas, continua sendo a de rebeldes envoltos em surpreendente tecnologia tentando minar o poder destrutivo de uma Estrela da Morte –porém, ele o faz com uma obra de qualidade insuspeita. Mais do que qualquer outro filme já feito sobre o tema da Inteligência Artificial e seu eterno embate contra os nossos conceitos e preconceitos, “Resistência” apaga as linhas divisórias entre o que é humano e o que é mecânico –mais até do que obras que foram audaciosamente nessa direção como “Blade Runner” e “Blade Runner 2049”, “A.I.Inteligência Artificial”, “Ex-Machina” e o reflexivo “Ghost In The Shell” –criando personagens, ambientes e cenários que levantam a perturbadora discussão: Qual é, afinal, a virtude dos seres de carne e osso se eles ostentam tanta ou até mais predisposição à destruição e à auto-destruição do que os seres sintéticos?

Num emprego absurdamente inteligente e hábil dos efeitos visuais (merecedores de ganhar um certo careca dourado...), o mundo concebido em “Resistência” nos entrega cenas espantosas de um ambiente palpável, orgânico, não despido de tradição, empatia e texturas infindas para mostrar um cenário onde máquinas se integraram de tal forma ao ser humano que se tornaram quase simbióticas em relação à coisas que, presumia-se, eram tão intrinsecamente humanas como sua ancestralidade, seu exotismo e suas crenças.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Do Inferno

No princípio da década de 2000, quando adaptações de histórias em quadrinhos eram fonte secundária de matéria-prima para Hollywood, alguns autores já começavam a chamar a atenção por sua genialidade insuspeita naquela indústria.
Certamente, um dos principais nomes era Alan Moore.
Autor daquela tida como a melhor graphic-novel de todos os tempos (“Watchmen”, adaptada em 2009 por Zack Snyder), Moore era avesso à badalações, purista para com sua arte (com o tempo até histórias em quadrinhos ele passou a repudiar, dando prioridade à literatura) e absolutamente contrário à versões de suas obras para outras mídias.
No entanto, a que se compreender que era difícil passar os olhos no compêndio extenso e primoroso em forma de narrativa chamado “Do Inferno” (sobre as enevoadas investigações e as mais mirabolantes teorias em torno das atrocidades cometidas por Jack, O Estripador) e não imaginar que filme sensacional ele não daria...
Se “Do Inferno”, o filme que por fim terminou sendo realizado, não chega ao patamar de obra-prima que a HQ facilmente adquiriu, pelo menos, resulta numa adaptação criativa e interessante, ainda que inevitavelmente inferior dada a grande qualidade e a vasta minúcia informativa do material original.
1888. Final da Era Vitoriana. Em Londres, prostitutas de um grupo no paupérrimo distrito de Whitechapel começam a aparecer sucessivamente vítimas de hediondos assassinatos que abalam a comunidade da época, ganhando o clamor popular e o status de lenda urbana. O maníaco que perpetra tais atrocidades se auto-intitula Jack, O Estripador.
Tudo começa quando as cinco prostitutas de Whitechapel, Mary Kelly (a maravilhosa Heather Grahan), Dark Annie (Katrin Cartlidge), Liz (Suzan Lynch), Martha (Samantha Spiro) e Kate (Lesley Sharp) testemunham o nebuloso sequestro de sua amiga Ann Crook (Joanna Page) em companhia de seu amado Albert (Mark Dexter), um ‘príncipe encantado’ segundo ela com quem tinha se casado em segredo (somente suas cinco amigas foram testemunhas do casamento), tivera uma filha e que prometera tirar-lhe das ruas.
O que as mulheres não sabiam era que Albert era nada menos que o príncipe da Inglaterra (!), e sua insistência no relacionamento com uma ex-prostituta levou a Família Real a acionar recursos um tanto... imprevisíveis.
Logo, Martha é encontrada morta, em circunstâncias absolutamente atrozes e cruéis. A Scotland Yard passa a investigar o crime designando para a tarefa o Inspetor Abberline (Johnny Depp, sempre muito bom), viciado em ópio e acometido de  lampejos de uma certa mediunidade.
Apesar das inúmeras dificuldades que parecem emergir o caso num miasma de suspeitos infindáveis e uma rede complexa de alianças e conspirações (além de novos crimes que se sucederem com as mortes de Dark Annie, Elizabeth e Catherine afunilando a situação), Abberline consegue descobrir as conexões dos crimes que vão desde a sociedade secreta Maçom até as revelações acerca da criança e do casamento de Albert que podem comprometer a Família Real, e que chegam no fanatismo psicopata então despercebido de um dos mais prestigiados médicos a serviço da realeza, Dr. William Gull (o saudoso Ian Holm).
A despeito de uma relativa displicência na direção dos Irmãos Albert e Allen Hugues (realizadores do posterior “O Livro de Eli”, com Denzel Washington), eles compensam seus lapsos com um acabamento visual digno de aplausos, e a trama fictícia idealizada por Alan Moore –e vertida para cinema com o máximo possível de dignidade pelos roteiristas Rafael Iglesias e Terry Hayes –preenche magnificamente bem as lacunas presentes na história real de uma das maiores lendas urbanas da história: Dessa maneira –e cabe avisar que a partir daqui haverão spoilers –a personagem Mary Kelly, a última das vítimas do Estripador (alçada aqui ao status de personagem principal), termina não morrendo (!), confundida, na verdade, com a desconhecida e desafortunada Ada (Estelle Skornik). O destino de Mary Kelly –bem mais feliz e reconfortante na ficção imaginada por Alan Moore –é fugir para longe de Londres, junto da filha de Ann e Albert, que passou a criar como sua.
Embora ostente todas as vibrantes características dos filmes de suspense e psicopatas que predominaram no período (como “Hannibal”, lançado no mesmo ano), o que realmente fascina em “Do inferno” são as brilhantes ramificações imaginadas por Alan Moore que evoluem a mera premissa de um serial-killer para a mais sórdida e envolvente das conspirações.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

domingo, 22 de março de 2020

Chernobyl

Magnífica minissérie da HBO que reconstitui o conhecido e terrível episódio real (que há tempos merecia uma boa reconstituição cinematográfica) do vazamento radioativo da Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia Soviética.
Dirigida com vigor insuspeito pelo jovem Johan Renck, a minissérie é sucinta e objetiva: Vai direto ao ponto mostrando, já em seus primeiros minutos, o acidente fatídico deflagrado na madrugada de 27 de abril de 1986, quando em meio a um teste de segurança, o reator nuclear apresenta instabilidade alarmante em seus índices de pressão e, ao ser realizado o protocolo de desativação emergencial, explode contra todas probabilidades.
Tão improvável era esse fato que as autoridades maiores presentes na usina na ocasião –imbuídas, além de tudo, da irredutível mentalidade soviética de então –relutam em aceitar a catástrofe como ela é: Chamam os bombeiros para conter o que acreditam ser um mero incêndio, alertam a população de que foi um incidente menor já devidamente controlado, e censuram com veemência ameaçadora aqueles que percebem de imediato o perigo real que se anuncia.
As fatalidades começam a se somar ao longo da noite. Mesmo diante de afirmações de operários –alguns em estado já quase moribundo pela exposição à radiação –os diretores se recusam a crer que o reator tenha explodido.
Quando o presidente Mikhail Gorbachev em pessoa (interpretado por David Dencik) cria um comitê para avaliar, com alguma indiferença, os detalhes do acidente, é o vice-diretor do Instituto Kurchatov, Dr. Valery Legazov (Jared Harris, sensacional), quem alerta para pequenos detalhes do relatório: Como as descrições de pedaços de minérios na cobertura do prédio como sendo destroços de grafite (material que só existia no interior do reator) e as leituras de radiação consideradas baixas simplesmente porque registravam o número máximo marcado nos dosímetros comuns.
Quando Legazov é despachado para Chernobyl ao lado do responsável por controlar a crise Boris Shcherbina (Stellan Skarsgard), a precipitação radioativa já se espalhou até a cidade mais próxima, Pripyat, contaminando toda a população, o solo, os animais, as árvores, as plantas e toda sorte de objetos pelo caminho.
E a grande cratera ainda estava aberta e em chamas, despejando material nocivo na atmosfera a cada hora que se passava.
O trabalho esplêndido do diretor Johan Renck vale-se magistralmente do formato minissérie justamente para abranger todo o escopo detalhado e inacreditável da extensão científica, logística, física e humana do acidente, construindo com esse empenho cenas poderosas que dificilmente abandonarão a memória do expectador.
É um daqueles casos em que a grandiosidade necessária da história justifica seu formato: “Chernobyl” dá corpo assombroso e envolvente aos desdobramentos do acidente trágico, mas eles emolduram um trama na qual seu conteúdo vem repleto de informações pertinentes, como a presença de Ulana Khomyuk (a ótima Emily Watson), física nuclear que se une a Legazov quando um novo problema aparece no horizonte.
Com o incêndio do reator contido à duras penas, o aquecimento fora do comum (acarretado por material radioativo) leva os tanques de água, normalmente instalados em usinas desse porte a um superaquecimento súbito. E o vapor resultante da contenção pode levar a uma explosão tão incomensurável que afetaria outras usinas nucleares levando todo o leste europeu a um inverno radioativo.
Assim, são requisitados voluntários com o objetivo de entrar na área de contaminação mais perigosa da usina já em frangalhos para uma missão suicida onde devem dar a volta nas instalações submersas em água altamente contaminada e abrir as comportas para o corpo de bombeiros –e desnecessário dizer que novamente a produção entrega uma cena tão memorável quanto asfixiante!
A própria Khomyuk é designada, logo depois, para a tarefa de colher depoimentos entre os operadores da sala de comando presentes do momento fatídico –aqueles que ainda tinham condições de falar, pelo menos –para tentar descobrir o que levou à explosão fatal, encontrar e determinar o erro para que ele nunca ocorra novamente.
É isso que leva ao notável episódio final (dentre os cinco que esta minissérie espetacular tem), onde a narrativa ganha ares tensos de um filme de tribunal: Com a maior parte da calamidade contida depois de mais de um ano, Legazov, Shcherbina e Khomyuk participam do julgamento dos responsáveis pela usina presentes naquela noite, o gerente de Chernobyl, Viktor Bryukhanov (Con O’Neill), seu engenheiro-chefe Nikolai Fomin (Adrian Rawlins, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”) e o engenheiro-chefe assistente Anatoly Dyatlov (Paul Ritter, de “A Legião Perdida”), e nesse ensejo, esbarram em uma verdade técnica desconcertante que foi encobrida anos antes pela própria KGB, e que pode ter relação direta com o acidente, e com outros ainda prováveis de acontecer se a prevenção não for executada e se a verdade nua e crua não vier a público.
O trabalho do diretor Renck prima assim pelo manuseio magistral de todas essas facetas, de todos os gêneros que se alternam simultaneamente (do drama íntimo ao filme catástrofe), dos mais variados núcleos dramáticos e dos exigentes aspectos técnicos, conseguindo mesmo assim manter um admirável equilíbrio e coesão que transformam “Chernobyl” num espetáculo informativo, urgente e impactante.

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Balada de Buster Scruggs

A fina ironia tão característica dos Irmãos Coen comparece com seu habitual primor nesta produção da Netflix que reúne alguns de seus mais idiossincráticos elementos.
Como em “Bravura Indômita”, estamos aqui diante de um western –e na abordagem do gênero que visitam, os Coen o evocam de forma tão romântica quanto sarcástica –como em “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, a narrativa se revela pontuada de música –que, no episódio inicial, ocasionalmente é cantada pelos próprios personagens –e como em praticamente todos os filmes sob sua assinatura, este aqui recebe dos Coen um tratamento primordial no qual a sina inapelável dos incautos seres humanos escolhidos para serem seus protagonistas ganha tanto em humor negro quanto em drama humano.

No primeiro dos seis formidáveis episódios que constituem este filme, acompanhamos a inusitada figura de Buster Scruggs que não somente dá nome ao filme, mas também oferece ao sensacional Tim Blake Nelson a chance de se mostrar um intérprete singular.
Scruggs singra o velho oeste americano ciente da fama de perigoso pistoleiro que construiu –e declamando essas circunstâncias em canções cantadas a céu aberto. Onde chega, porém, não é temor que Buster Scruggs suscita: Por seus trejeitos afáveis, seu modo de falar pitoresco e suas roupas caricatas e espalhafatosas –aspectos tornados impagáveis na atuação magnífica de Blake Nelson –ele só inspira petulância em seus desafetos; que ele enfileira, na forma de um cadáver após o outro!
Mas, como ele próprio canta na assombrosamente linda canção que encerra o episódio, há um final para tudo, e mesmo o pistoleiro mais ágil encontra, um dia, alguém com o gatilho mais rápido que o seu; e mesmo a voz mais bela, uma hora ou outra, há de encontrar uma cuja afinação a supere.

Interpretado por James Franco, o assaltante de bancos que protagoniza o segundo episódio experimenta uma sucessão de infortúnios tão bizarros que só poderiam vir mesmo da imaginação dos Coen: Capturado –por um estranho adversário revestido de panelas (?!) –ele é colocado à sombra de uma árvore para ser enforcado. Na hora H, seus algozes são mortos por índios que aparecem tão rapidamente quanto somem, deixando-o com a corda presa no pescoço, montado num cavalo que pode caminhar a qualquer momento –lembra muito a cena que inicia o filme “Maverick”, com Mel Gibson.

O terceiro episódio traz uma dose de intimismo e angústia com a qual volta e meia os Coen surpreendem o público. Liam Neeson é um dos dois membros de um pequeno espetáculo itinerante que singra os ambientes desolados do Oeste.
Entre aldeias gélidas –seja no clima, seja na receptividade social –e lugarejos angustiantes e angustiados, ele e um aleijado desprovido de braços e pernas (Harry Melling) apresentam sempre o mesmo monólogo –que a cada apresentação extrai menos moedas de seus expectadores.
O Velho Oeste mostrado não como o palco para tiroteios honrados e climáticos, mas como um mundo habitado por pessoas submetidas às mais terríveis e implacáveis privações, é o mote deste episódio: O personagem de Neeson aos poucos se ressente da situação de enfermeiro particular em circunstâncias para lá de adversas –e que chegam a lembrar um pouco “Monstros”, de Todd Browning –até que uma galinha adestrada o faz descobrir um modo mais simples de ganhar a vida; para azar do pobre aleijado...

Tom Waits é o protagonista do episódio seguinte, sobre um mineiro que se estabelece num vale até então harmonioso e livre da intervenção do homem. Seu objetivo é achar um veio de ouro puro que, por meio de seus metódicos conhecimentos de mineração, ele será capaz de encontrar através do rio local.
Os Coen, no entanto, reservam uma cruel e sarcástica guinada perto do final.

O quinto episódio acompanha a desafortunada vida da jovem Alice Longabaugh (a bela Zoe Kazan, na mais expressiva personagem feminina de todo o filme). Arrastada pelo malsucedido irmão para um iminente casamento arranjado como parte de seus negócios duvidosos, ela vai parar numa caravana –no melhor estilo “Cimarron” –em direção ao Oeste Selvagem. Entretanto, o irmão dele morre de cólera durante a penosa viagem deixando-a em maus lençóis: Sem ideia de como pagar o empregado contratado, de como cuidar do cachorrinho dele, o irritante Presidente Pierce (!), e basicamente sem ter onde ficar após terminada a longa viagem.
O destino sinaliza com alguma boa-venturança quando ela cai nas graças de Billy Knapp (Bill Heck), braço-direito do capitão da caravana (Grainger Hines).
A narrativa pitoresca e contida dos Coen constrói pacientemente um ensejo de relacionamento a brotar com espontaneidade entre a brutalidade que vinham retratando, só para desferir um soco na cara –recheado de ironia cruel –perto de seu desfecho.

O sexto e último episódio remete à “No Tempo das Diligências”, de John Ford, e de certa forma, também à “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino. Ele se ambienta quase todo dentro de uma diligência designada a não parar por nada até chegar ao seu destino –no que pode ser enxergada como uma metáfora aberta a inúmeras intepretações.
Os cinco ocupantes lá dentro são pessoas de classes sociais tão distintas quanto o são seus aspectos, suas prosas e suas personalidades: Há o matuto falastrão (Chelcie Ross) de tão pouca experiência na interação social que mal se dá conta do quão tediosa e inconveniente é sua conversa; a senhora abastada (Tyne Daily) de modos mais perdulários que sua condição financeira permite; e o apostador inveterado (Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”) cujo cinismo só não é maior que a covardia.
Em meio à conversação desnorteada e com frequência desregrada, os três não se dão conta de que os outros dois passageiros (Jonjo O’ Neil e Brendan Gleeson), bem mais comedidos e calados, são na realidade assassinos de aluguel –e se há algo, na concepção dos Coen, que iguala todos os seres humanos numa mesma manada de indivíduos assombrados é o medo da morte.
Dando a cada um desses notáveis episódios uma unidade narrativa que os torna únicos, os Irmãos Coen constroem uma antologia brilhante, áspera, árida e bem-humorada (apesar de tudo) da difícil vida no Oeste.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Jogador Nº 1

Talvez só fosse possível mesmo que Steven Spielberg dirigisse este filme: Da forma como está, “Jogador Nº 1” é um caldeirão tão amplo e diversificado de referências à cultura pop (a exemplo do livro escrito por Ernest Cline que o inspirou) que somente alguém com a influência de Spielberg conseguiria uma aprovação para todos os personagens, itens e menções que proliferam em cena –este é um daqueles filmes que podemos ver quatro, cinco vezes, e em todas notar um elemento novo, uma outra informação visual.
Com toda sua atenção aos detalhes voltada para a cultura pop do final do século XX e início do século XIX, o “Jogador Nº 1” tem, contudo, sua trama ambientada num denso e detalhado futuro, o ano de 2045, quando a humanidade, cuja desigualdade entre ricos e pobres atingiu um extremo ainda mais superlativo que o dos dias de hoje, escolheu parar de importar-se com seus problemas e emergir coletivamente num mundo virtual chamado “Oásis” –uma espécie de “Matrix” à qual seus usuários se perdem de muito bom grado.
“Oásis”, porém, não é um mundo que replica a realidade do nosso, muito pelo contrário: É um lugar de cenários assombrosos e impossíveis (concebidos com singular noção de espetáculo pela direção de fotografia de Janusz Kaminski) no qual todos podem ser e ter aquilo que quiserem, criando avatares para si mesmos onde são fortes, hábeis e belos na medida proporcional de sua própria vontade, e onde conseguem obter utensílios tão preciosos e inacreditáveis como ter o DeLorean da Trilogia “De Volta Para OFuturo” como carro de corrida, a ‘granada santa’ de “Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado”, a arma giratória do filme “Krull”, ou uma carcaça de robô idêntica ao do “Gigante de Ferro” –e estas são só algumas das referências intensas e simultâneas que se atropelam em cena!
Prova de que a caracterização futurista de Ernest Cline, e agora do diretor Spielberg obedece a uma natureza tão nostálgica quanto referencial é que sua trama guarda bem disfarçados elementos de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”: Como naquele clássico, o grande e cultuado proprietário criador do “Oásis”, o lendário James Halliday (vivido por aquele que Spielberg elegeu seu mais recente ator-assinatura, Mark Rylance, vencedor do Oscar por “Ponte dos Espiões”) faleceu sem deixar herdeiros que cuidem (e usufruem) daquela que, sem sombras de dúvida, é a maior e mais lucrativa empresa do planeta Terra.
No entanto, Halliday tinha um plano: Antes de morrer, ele deixou um ‘easter egg’ escondido em algum lugar das imensidões incalculáveis do “Oásis”. Aquele que tiver a sorte de achá-lo, após uma enigmática trilha de pistas que se iniciam com uma chave, será dono de tudo. Entretanto, cinco anos depois, absolutamente ninguém chegou sequer perto de encontrar uma pista de onde tal tesouro está.
Isso até o jovem e inteligente Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-Men Apocalypse” e “Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi”), na forma de seu avatar, Parcival, descobrir um meio de obter a primeira chave (dentre três) graças à improvável dica encontrada por acaso num dos incontáveis vídeos digitais deixados por Halliday –com isso, ele ganha a primeira chave numa corrida que envolve a moto icônica de “Akira”, o veículo de “Christine-O Carro Assassino”, o batmóvel da série do “Batman” dos anos 1960 e tem, em sua perigosa fase final, o gorila gigantesco de “King Kong”.
Se antes Watts era só mais um jovem usuário do “Oásis” em meio à tantos, essa descoberta fez de seu avatar, uma verdadeira celebridade. Ele agora é o ‘Jogador N° 1’ –e tal privilégio agora faz dele inesperado alvo de Ártemis, o avatar de uma garota que há muito Watts queria conhecer (e que é interpretada pela gracinha Olívia Cooke, de “Eu, Você e A Garota Que Vai Morrer”), além de também colocá-lo no radar de Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, de “Rogue One”), atual chefe corporativo da tentacular “Ioi”, uma organização que não vai medir esforços (e nem escrúpulos) para ganhar tal torneio e se tornar proprietário de todo o “Oásis”.
Além de exercer sua técnica brilhante ostentada em praticamente todos os seus grandes filmes e visivelmente aprimorada ao longo de suas décadas de experiência, Spielberg tem a chance, em “Jogador N° 1”, de extravasar toda sua faceta de cinéfilo (normalmente, mais contida que a de Martin Scorsese, por exemplo), e nerd: Saltam na tela detalhes que remetem a jogos de videogames, músicas dos anos 1980, desenhos animados e filmes, muitos filmes: São visíveis, em inúmeros momentos, citações implícitas ou explícitas de “Indiana Jones”, “O Senhor das Feras”, “Alien-O 8º Passageiro”, “Superman-O Filme”, “As Aventuras de Buckaroo Banzai”, “Os Embalos de Sábado À Noite”, o assassino Jason de “Sexta-Feira 13”, o Freddy Krueger de “A Hora do Pesadelo”, o Chucky de “Brinquedo Assassino” e “Godzilla” –ou mais necessariamente o “Mecha-Godzilla”!
Nada, contudo, se compara à homenagem extraordinária que ele presta –em meio à uma seqüência inteira –ao seu grande amigo Stanley Kubrick e à “O Iluminado”, cujas cenas o filme recria com exatidão embasbacante; só faltou mesmo uma participação de Jack Nicholson!
Spielberg, após uma sucessão de trabalhos de orientação mais séria, criou a maior e mais eletrizante sucessão de referências já acumuladas no cinema, e que dificilmente será superada nos próximos anos.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A Bruxa

Que filmaço este “A Bruxa”!
Uma refinada reconstituição de época, atroz na forma como faz emergir seus atores nos trejeitos arcaicos daquelas pessoas de então, ao mesmo tempo em que é um perturbador conto de terror, o mais poderoso que o cinema nos trouxe em muitos anos.
Engana-se porém aquele que pensar tratar-se de um filme de terror nos mesmos moldes daqueles que infestam as salas de multiplex: Esta não é uma obra a ser consumida por públicos adolescentes.
Sua condução é comedida, e o tratamento narrativo realizado visa criar um clima em torno do qual o diretor Robert Eggers relata sua tenebrosa história.
Em meados do século XVII, uma família de imigrantes ingleses, cujo patriarca entra em desacordo com as normas rígidas da religião local, aventura-se por florestas inexploradas buscando um lugar para se estabelecer e viver. A floresta por eles escolhida é um lugar proibido às crianças, que resumem-se à adolescente Thomasin (a ótima Anya Taylor-Joy), ao garoto Caleb, e aos gêmeos Mercy e Thomas.
Há também o bebê, que no início do filme, por um momento de descuido de Thomasin acaba desaparecido. E levanta-se, então a hipótese de uma bruxa na região, embora a própria Thomasin, assim como o patriarca da família busquem a explicação mais racional e menos aterradora de que foi um lobo.
A tensão que se acumula com o passar dos dias, e com a sucessão de novas ocorrências vai desestabilizando as relações familiares.
Segundo consta, adaptado de uma série de relatos oriundos da própria época, o filme de Eggers encontra sua força na excelência de sua recriação, o quê já contribui para convencer o expectador com o forte realismo que pulsa de todas as cenas.
O desenlace é cruel e árduo, tal como a própria idéia que tinham da condição humana; nada, portanto, mais lógico.
Em sua encenação certeira, sua eficaz e compenetrada caracterização, e na atuação minuciosa de seu elenco, o diretor obtém uma atmosfera asfixiante que envolve o filme do início ao fim, e conduz aos vinte minutos finais. Uma sequência ininterrupta de cenas espantosas e apavorantes.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Caçador e A Rainha do Gelo

"Branca de Neve e O Caçador" era um filme que tinha lá seus problemas, mas eles eram amplamente compensados pela convicção com que o diretor Rupert Sanders adotava um tom épico-realista (cuja referência-mor era "O Senhor dos Anéis") para recontar a história de Branca de Neve.
Se havia uma protagonista das mais banais, interpretada pela péssima Kristen Stewart havia, em compensação, uma antagonista magnífica, numa formidável atuação de Charlize Theron como a bruxa má, Ravenna.
Assim, o filme acabou surpreendendo nas bilheterias, ao contrário da versão mais inclinada para a comédia, dos estúdios Disney, "Espelho, Espelho Meu", com Julia Roberts.
Problema número 1: Durante o período de divulgação do filme, Kristen Stewart e o diretor Sanders (que, à propósito, era casado) foram flagrados em um momento íntimo, trazendo exposição negativa ao filme.
Problema número 2: A melhor personagem do filme, Ravenna (a despeito da boa presença do herói, Chris Hemsworth, como o Caçador) morria no final.
Problema númera 3: Continuar uma trama com começo, meio e fim bem definidos, e que -já que era o caso -não contaria nem com seu diretor e nem com a sua atriz principal, ambos afastados.
Para esses problemas, a Universal Studios até encontrou uma saída bastante desenvolta, chamando o diretor de segunda unidade do filme anterior, Cedric Nicolas-Troyan, o que preservou a mesma identidade visual ao filme, ainda que sua inexperiência conferisse ocasionais lapsos de ritmo.
A trama, contornou engenhosamente os fatos que precisavam ser contornados, como não utilizar a atriz Kristen Stewart, mesmo que a personagem fosse de certa forma essencial à uma sequencia (neste caso, ela é constantemente citada e mencionada ao longo, mas nunca aparece, salvo por uma breve cena na qual há uma dublê de costas...), e a intenção de utilizar uma personagem que todos queriam de volta, por mais que ela estivesse, bem... morta! Assim, o filme inicia-se antes da história contada no filme anterior, para revelar que Ravenna tinha, sim, uma irmã, bruxa como ela, detentora no caso, do poder sobre o gelo (e a referência ao sucesso Disney "Frozen" tem sido amplamente comentado pela imprensa). Curiosamente, o personagem de Sam Spruell -que no outro filme é, sim, irmão da personagem de Charlize -não é sequer lembrado na narrativa. O novo filme revela que Freya (Emily Blunt, também ela excelente), a irmã de Ravenna, estava diretamente relacionada com a história do Caçador, esboçada por alto no primeiro filme, onde ele perdeu a mulher que ama.
Essa mulher, Sarah (a sempre sensacional Jessica Chastain), treinada como caçadora, tal qual ele, foi dada como morta quando ele deixou o reino de Freya.
Logo, a narrativa avança sete anos no tempo, e coloca-se cuidadosamente após os eventos do outro filme, permitindo que o Caçador parta em outra missão, em nome de Branca de Neve, mas, quem faz todas as negociações em nome dela é o príncipe Willian (Sam Claffin). Assim, acompanhado de dois anões, ele reencontra sua amada Sarah que, ao contrário do que foi mencionado no filme anterior, não morreu e, mais tarde, Freya, que vai usar de alguns poderes para trazer de volta a irmã diabólica, Ravenna, permitindo que Charlize Theron agracie o filme com sua estupenda e regozijada interpretação, como fez com o original, ainda que neste daqui, sua presença não some mais do que usn vinte minutos.
Não tem o menor problema.
Se há um elemento que coloca este novo filme num patamar mais alto e digno do que o filme anterior, é o fato de que a sofrível Kristen foi substituída aqui por duas atrizes plenamente capazes e talentosas, Jessica Chastain e Emily Blunt. O saldo acaba sendo pra lá de positivo.