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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Venom - A Última Rodada


 “Venom” foi o estopim de uma iniciativa um tanto estranha da parte da Sony Pictures: Proprietários dos direitos de imagem do Homem-Aranha, os executivos fizeram um acordo com a Marvel Studios até hoje um pouco nebuloso –e assolado por altos e baixos na relação entre as duas empresas –no qual a Marvel poderia usar o Homem-Aranha em seus filmes, desde que a Sony ficasse com um quinhão das gordas bilheterias. Abrindo mão de livre e espontânea vontade desse protagonista –com exceção da premiada animação “Homem-Aranha No Aranhaverso” –a Sony então dedicou-se a realizar produções envolvendo todos os demais personagens do assim chamado ‘Aranhaverso’, ou seja, os vilões, anti-heróis e coadjuvantes que compunham a variada fauna que orbitava, nos quadrinhos, o seu personagem principal (e que não era pouca, visto que a diversidade de personagens que cercam o Homem-Aranha é extremamente rica). A ideia era, portanto, fazer filmes (na realidade, fazer todo um universo!) a partir de personagens introduzidos nas histórias em quadrinhos do Homem-Aranha, só que sem o Homem-Aranha (!), fazendo deles protagonistas eventuais na falta do protagonista factual.

E as coisas até que começaram bem com “Venom”, dirigido por Ruben Fleischer e estrelado por Tom Hardy, fazendo bonito nas bilheterias, contudo, bastou muito pouco para ver que nem tudo eram flores... logo, uma sequência foi providenciada, “Venom-Tempo de Carnificina” , cujo resultados foram bastante lastimáveis; na esteira veio o achincalhado “Morbius”, estrelado por Jared Leto, ainda em 2024, tivemos a catástrofe “Madame Teia” e enquanto escrevo estas linhas, “Kraven-O Caçador” amarga uma bilheteria de cinema que faz dele o último prego no caixão desse universo malfadado. O que nos traz para este “Venom-A Última Rodada”.

Fornecendo um ponto de partida para o roteiro de uma forma um tanto intrincada –ele não continua, na verdade, de onde “Tempo de Carnificina” parou, mas sim das duas cenas pós-crédito envolvendo Venom e Eddie Brock, vistas respectivamente em “Tempo de Carnificina” e “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” –o filme dirigido por Kelly Marcel (diretora de “Walt Nos Bastidores de Mary Poppins” e uma das autoras do argumento de “Cruella”) acompanha Eddie Brock e o simbionte alienígena, unido ao qual ele se torna o poderoso Venom, numa fuga desenfreada. Fugindo do quê? Bem... não fica muito claro, mas na maioria das vezes, Eddie foge de soldados armados e equipados que desejam captura-lo, assim como a todas as pessoas expostas aos tais simbiontes alienígenas desde o primeiro filme (lembre-se este é o terceiro!). todos são levados como prisioneiros pelo oficial linha-dura Strickland (Chiwetel Ejiofor) para a secretíssima Área 55 (a Área 51 foi desativada...) para serem estudados pela Dra. Payne (Juno Temple, fraquinha, fraquinha). Logo, outras ameaças, ainda maiores, surgem no encalço de Eddie e Venom: Outros simbiontes, desta vez, oriundos do espaço sideral, mais especificamente do seu planeta-natal que serve, acima de tudo, como prisão para o vilanesco e poderoso Knull –um ser incomensurável poder, vindo –claro –dos quadrinhos da Marvel, pedido, inclusive, por muitos fãs, para ser introduzido neste derradeiro capítulo mas muito pouco aproveitado, sendo que o prólogo até faz parecer que será o grande antagonista deste filme. Ainda que tudo fique só na promessa...

Por alguma razão que nunca fica muito clara –até porque muitas coisas não ficam muito claras no corre-corre que orienta esta narrativa –o simbionte de Eddie possui o tal ‘codex’ que representa a chave para a libertação de Knull da prisão que o impede de partir para a conquista do universo; sendo assim, ele envia legiões de suas criaturas para a Terra a fim da capturar Venom.

A trama a girar em torno dessas desengonçadas motivações vai e vem entre diferentes núcleos de personagens, ostentando amadorismo em quase todos eles –nas cenas da Área 55, onde se espera suspense e um clima sci-fi que explique e justifique o plot cósmico que em algum momento este filme abraça, o ritmo se torna sôfrego, as situações forçadas e as atuações lamentáveis (nem mesmo o sempre competente Chiwetel Ejiofor escapa do vexame); nas sequências envolvendo o próprio Eddie Brock, nas quais imagina-se haverá ação e perseguição a proporcionar aos fãs do personagens aquilo que eles querem, tudo é desmazelado, realizado com uma continuidade duvidosa, adornado de um humor forçado e inapropriado, destituído de timing, e, o pior de tudo, jogado em cena com explicações tão vagas que se tem a impressão de que não existem muitas razões para acontecer aquilo que acontece em tela –salvo o fato de que o roteiro assim determinou.

“Venom-A Última Rodada” é um encerramento de trilogia que almejava ser emocionante e, pelo menos, digno, mas se vê comprometido por tantas inconsistências que chega a ser absurdo terem aparecido numa produção de estúdio, onde milhões de dólares são gastos com profissionais cujo trabalho deveria impedir que esses lapsos acontecessem.

quarta-feira, 2 de março de 2022

The Batman


 O milagre operado pelo diretor Matt Reeves neste novo e empolgante filme estrelado pelo Cavaleiro das Trevas tem uma explicação bastante simples: Diretor sensato e competente, Reeves pegou todas as predisposições cinematográficas que deram certo nas obras anteriores com o Batman –a ambientação singular e sedutora de Tim Burton; o viés brutal e realista de Christopher Nolan; a percepção de quadrinhos adultos evocada por Zack Snyder –e delas extraiu uma mescla tão aprimorada, tão sagaz em sua realização que, embora seja esta a décima produção a contar com o personagem no cinema (outras ainda estão a sair com outros atores interpretando-o), o trabalho do diretor consegue fazê-lo parecer algo absolutamente novo.

Muitos são os filmes que orientam “The Batman”, sejam eles na construção de seus personagens (algo que ele faz com brilho singular), sejam na concepção e condução da própria história –que aqui, diferente das realizações anteriores prima menos pela ação (embora ela exista em profusão inteligente e bem calibrada) e mais por nuances de ordem investigativa. Com efeito, Reeves vai de encontro a anseios que somente fãs aficcionados do herói dos quadrinhos almejavam do personagem, o seu lado detetive.

“The Batman” deixa de lado toda e qualquer necessidade de refazer a origem do protagonista (relatada pelo menos umas três vezes, nos filmes anteriores) para encontrá-lo exatamente no ponto em que contam já dois anos de sua intensa atividade como vigilante noturno nas noites violentas de Gothan City. Nesse papel, Robert Pattinson entrega um Batman imponente, elegante e dotado de inesperada empatia, unindo o senso interpretativo de Michael Keaton, o fulgor sombrio de Christian Bale e a ferocidade senciente de Ben Affleck. Batman ainda é uma figura estranha e recente nas ruas apinhadas de criminalidade de Gothan, entretanto, já conquistou ao menos um bom aliado nas trincheiras da guerra contra o crime, o Capitão James Gordon (Jeffrey Wright). Ao ser chamado por ele para a avaliação de uma cena de crime –o assassinato audacioso e chocante do próprio prefeito de Gothan em pessoa –Batman se defronta com pistas que o levam a um inimigo meticuloso, perigoso e astuto, o Charada (cuja grande interpretação de Paul Dano mescla elementos do assassino real do “Zodíaco” à características do psicopata de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”).

Na tentativa de decifrar o emaranhado de pistas deixadas pelo Charada –cuja elucidação, essencial à espinha dorsal da narrativa, adorna o filme com uma atmosfera de filme noir do início ao fim –Batman vai encontrando outros notáveis personagens de sua galeria dos quadrinhos, que acrescentam novas camadas à trama e contribuem com magníficas transposições para cinema, como Selina Kyle, a Mulher Gato (vivida pela bela Zoe Kravitz, numa química espetacular com Pattinson), o mafioso Pinguim (Colin Farrell, tornado irreconhecível pela maquiagem que evoca, em sua persona, o Al Capone de Robert De Niro em “Os Intocáveis”) e Carmine Falcone (John Turturro, se divertindo a valer).

Quase atingindo nada modestas três horas de duração, “The Batman”, de Matt Reeves, passa muito longe de qualquer reflexo da infantilidade proposta pelo “Batman”, de Tim Burton, num longínquo 1991, ao invés disso, o personagem dos quadrinhos surge aqui numa obra cheia de orientações muito adultas –não são raros os momentos em que compreendemos que, fosse o protagonista um detetive particular e não um herói encapuzado, esta seria uma autêntica produção nos moldes de “Fuga do Passado” ou “A Morte Num Beijo” –onde, inclusive, a construção dos personagens, seus momentos intimistas e as intrigas que avançam a história ganham muito mais prioridade do que qualquer cena de ação (ainda que elas também estejam lá, fotogênicas e impactantes).

Ao entregar um filme de realismo invejável enraizado na mitologia do herói assim reapresentado e rejuvenescido –este novo Batman, à princípio, todo independente do Universo Compartilhado da DC Comics onde é vivido por outros intérpretes, traz Robert Pattison, numa das mais sensacionais personificações de Batman/Bruce Wayne já concebidas –Matt Reeves criou, com propriedades fascinantes e rigor técnico arrebatador, uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos do cinema.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Venom - Tempo de Carnificina


 Desde a cena pós-crédito de “Venom” já ficou claro em torno do que giraria a sua continuação: O vindouro embate entre o anti-herói Venom (originado dos quadrinhos da Marvel onde foi um antagonista do Homem-Aranha) e um inimigo ainda pior, o Carnificina (também ele oriundo dos quadrinhos). Vivido por Woody Harrelson, o Carnificina, ou melhor, Cletus Kassidy, é o típico retrato histriônico que o cinema costuma fazer de um psicopata –irrequieto, impulsivo, irradiando periculosidade.

É esse assassino –introduzido num prólogo onde descobrimos o laço que o une à jovem e igualmente perigosa Shriek (Naomi Harris, de “Moonlight” e “Piratas do Caribe-No Fim do Mundo”) possuidora de superpoderes –quem Eddie Brock (Tom Hardy) vem a visitar, seja na mencionada cena pós-crédito do filme anterior, seja no início deste filme. Eddie é jornalista, e seu ofício atrai o interesse de Cletus, então encarcerado e a caminho da pena de morte por injeção letal. O porque de Cletus ter essa, digamos, obsessão em nomear Eddie como seu confidente é um dos inúmeros lapsos sem muita justificativa que povoam o claudicante filme realizado por Andy Serkis.

Gênio da captura de performance –ele personificou Gollum, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres” e Cesar em “Planetas dos Macacos-A Origem” –Andy Serkis, é de se presumir, tinha também um intrínseco conhecimento do uso cênico da computação gráfica, o que deve tê-lo gabaritado para dirigir este trabalho –no qual, sobretudo sua dupla principal, depende dos efeitos visuais para se fazer convincente –em substituição à Ruben Fleischer, diretor do original.

Nesse quesito –dos efeitos computadorizados –ele até se sai bem (“Tempo de Carnificina” tem a fluidez, a beleza e a precisão minimamente necessárias aos grandes blockbusters, mas isso é tão lugar comum que mal consta como trunfo), entretanto, onde realmente importa (a condução narrativa) o filme encontra inúmeros obstáculos, que começam a se somar logo quando sua premissa (bem) básica inicia sua construção: Em uma das várias entrevistas que se seguem, Cletus consegue atacar Eddie, tirando um pouco de sangue dele.

O sangue de Eddie, como sabemos desde o primeiro filme, está  contaminado com o simbionte alienígena Venom e, a partir da gota ingerida por Cletus, dá origem à um novo simbionte, Carnificina que, para resumir a coisa toda, cresce, liberta Cletus da prisão e se transforma numa verdadeira máquina de matar.

Tudo que ele almeja, a partir daí, é reencontrar e libertar Shriek, presa numa instituição governamental –único lugar que comporta seu poder, um grito devastador.

Nesse ínterim, o –vamos dizer –‘relacionamento’ entre Eddie e Venom não vai bem: O alienígena, vaidoso por acreditar ser o responsável por Eddie ser quase uma espécie de superherói, reluta cada vez mais em aceitar as regras impostas por seu hospedeiro humano, como a de nunca devorar os cérebros humanos dos desafetos que encontra. Com esses atritos constantes, a compatibilidade de Eddie e Venom se vê comprometida justamente quando ambos estão a beira de enfrentar o Carnificina, cujo simbionte quer Venom (seu pai) morto; e cujo hospedeiro (Cletus) quer Eddie morto!

Essa –pasmem –é uma das poucas motivações que fazem algum sentido no filme.

Há, por exemplo, Eddie, insistentemente retratado como um fracassado, enquanto Venom, no roteiro terrivelmente simplista, surge como uma criatura exclusivamente norteada por seus instintos; um é irritante por sua repetição (pois, o primeiro filme já batia muito nessa tecla), o outro, por sua implausibilidade (ao mesmo tempo que se apresenta já inserido em hábitos da civilização, comporta-se como se houvessem outros que ele desconhece). Assim, sem um bom protagonista fica difícil para o expectador comprar seu antagonista: Embora Woody Harrelson seja sempre hábil no registro da uma vilania inconsequente, toda vez que seu personagem deixa essas áreas (em especial, ao investir na relação com Shriek) ele derrapa. O poder dela –seu grito destruidor –é exatamente o ponto fraco de ambos os simbiontes, do bem e do mal, e ainda que nas boas intenções dos realizadores, eles quisessem que essa fosse uma dinâmica intrigante e curiosa, na prática, isso não leva a lugar algum, culminando em contradições ocasionados no desfecho que desafiam a vontade do público em continuar acompanhando o filme.

Se há um mérito real em “Tempo de Carnificina”, ele está no fato de que é objetivo e enxuto com seus noventa e sete minutos de duração –isso, e a presença inebriante, segura e apaixonante da maravilhosa Michelle Williams, anos-luz melhor que todo o resto do filme: e mesmo assim sua participação é básica e mal aproveitada –no mais, a continuação do filme de 2018 (que apesar do entretenimento diverito que era já possuía preocupante inclinação para o genérico) se mostra desanimadora e pouco atrativa; é um sinal de alerta, afinal, quando sua intrigante cena pós-crédito (sim, este filme também tem uma!) chama muito mais a atenção do que todo o longa-metragem que veio antes dela.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Grande Truque


 Projeto do diretor Christopher Nolan ensanduichado entre “Batman Begins” e “Batman-O Cavaleiro das Trevas”, este “O Grande Truque” pode ter sido encarado por ele como um respiro da imersão no universo de histórias em quadrinhos, imergindo, em contrapartida, nos meandros nebulosos e enigmáticos do mundo dos ilusionistas.

Curiosamente, na mesma época, outro trabalho brilhante, “O Ilusionista”, de Neil Burger, com Edward Norton, também dividiu com ele o mesmo tema, os louros da crítica e algum sucesso de bilheteria. Na comparação com a aventura mais singela estrelada por Edward Norton, “O Grande Truque” é logística e narrativamente ambicioso lançando mão de muitas aspirações cerebrais que Nolan só iria amplificar em obras futuras, transformando em seu grande diferencial, como realizador, esse esforço em conciliar, em blockbusters nada discretos, essa predisposição autoral e até intelectual com narrativas escapistas para as massas.

Muitos podem dizer que “O Grande Truque” é desafiador até demais para as percepções do público: Pra começar, há um esforço claro de Nolan e dos atores Hugh Jackman e Christian Bale em tornar ambígua a disputa implacável e incessante entre os mágicos ilusionistas Robert Angier e Alfred Borden. À despeito dessa disputa –mote central do filme –envolver os atores que viviam então Wolverine e Batman nas telas (e de ser esse embate uma clara referência aos olhos do público), não há distinção de bem e mal esboçada nas caracterizações; um elemento corajoso, mas que pode desanimar uma parte considerável da audiência.

Angier é frívolo, amargurado e rancoroso. Borden é arrogante, presunçoso e esnobe. São personagens construídos não para cativar de pronto o público, mas para enfatizar a ele suas características humanas e, não raro, reprováveis: Em ambos jaz uma obsessão injustificada de superar as realizações do outro.

Para cada truque de mágica que Angier elabora, Borden já tem um novo para arrebatar o público e lhe roubar alguns expectadores em plena Londres do Século XIX. Entretanto, sabemos que algo deu tremendamente errado: O filme já se inicia com Borden na cadeia por um crime estarrecedor. Os propósitos que levaram a esse crime são então esmiuçados num flashback –recurso que a narrativa de Nolan usa até levar o público a perder o fio da meada –e dizem respeito aos truques de mágica que, encenados noite após noite nos palcos londrinos, serviram de duelo entre dois homens dispostos a serem insuperáveis em seu ofício.

Levando o conceito de disputa às últimas consequências, Nolan arremessa seus protagonistas num empate que ganha circunstâncias cada vez mais fantasiosas e imprevisíveis –e, portanto, trágicas.

Há, no cinema de Christopher Nolan, esse inusitado resgate de temas masculinos por meio de um prisma onde gêneros improváveis são investigados. Disso se alimenta sua filmografia, incluindo a aclamada “Trilogia do Cavaleiro das Trevas”: Temos o temor do esquecimento (“Amnésia”), ou da dissolução do legado (“Interestelar”) e da imponderabilidade dos anseios (“A Origem”); em “O Grande Truque” está em pauta o medo da derrota perante um adversário, a tornar bastante humana a percepção de um filme todo incomum.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei Versão Estendida

É possível uma obra já tida por impecável elevar ainda mais seu altíssimo padrão de qualidade? Esta é a difícil pergunta que as Versões Estendidas de “O Senhor dos Anéis” se atreveram a responder com uma audaciosa resposta afirmativa.
No capítulo final, “O Retorno do Rei”, algumas dessas cenas novas foram filmadas depois que o filme ganhou 11 Oscars na histórica cerimônia de 2004, o que não as impede de, pelo menos, conferir um aspecto esclarecedor a muitas passagens em alguns momentos.
Não há, contudo, razão para os pessimistas temerem, o filme majestoso, arrojado e inigualável que tomou o mundo de assalto continua lá: Após as duras provações experimentadas em “As Duas Torres”, o hobbit Frodo Bolseiro (Elijah Wood), ao lado de seu filme companheiro Sam (Sean Astin) adentra a etapa derradeira, e mais arriscada, de sua jornada, quando está por penetrar no território obscuro, maligno e infestado de perigos conhecido como Mordor. Não é só: Cada vez mais prejudicado em seu juízo perfeito pela influência do anel, Frodo rejeita a amizade sincera de Sam para cair nas armadilhas morais de Gollum (Andy Serkis, numa aula de interpretação virtual), cujo plano é entregá-lo de bandeja à horripilante aranha gigante Laracna, numa das mais espetaculares cenas do filme (e do cinema).
No outro núcleo de protagonistas, vemos Aragorn, Legolas, Gimli e Gandalf encontrarem Merry e Pippin, depois dos desencontros do filme anterior –é nesse momento que presenciamos uma das mais festejadas cenas da versão estendida, quando Gandalf, convertido em um mago branco, se depara com Saruman (Christopher Lee) e o confronta; certamente uma cena que foi um pecado ter sido tirada da versão de cinema.
O filme se ocupa de mostrar os desdobramentos desses personagens: Gandalf e Pippin seguem para a Cidade Branca de Gondor (um prodígio de efeitos visuais e direção de arte claramente reservado com zelo para aparecer apenas neste filme) onde devem alertar o esclerosado regente Denethor (John Noble) da chegada iminente de um exército incalculável de orcs; em Rohan, o Rei Théoden (Bernard Hill) e sua sobrinha Eowin (Miranda Otto) reúnem o exército dos rohimin para tentar impedir que a raça dos homens seja subjugada em definitivo pelas forças de Sauron; já, Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies), numa missão diferente, devem invadir catacumbas amaldiçoadas para reivindicar o auxílio de guerreiros fantasmas na grande guerra por vir, guerreiros estes que só responderam ao próprio herdeiro do Rei Isildur, e legítimo rei de Gondor, papel do qual Aragorn já não tem mais como fugir.
Essas subtramas –preenchidas com uma infinidade de cenas grandes ou pequenas que lhes acrescentam novas impressões –convergem, primeiro, na grandiloquente Batalha dos Campos do Pelenor, uma das grandes sequências épicas do cinema moderno, e depois, no enfrentamento final à Sauron e aos orcs, às portas de Mordor, quando Frodo, Sam e Gollum chegam ao ápice de sua conflituosa relação –e o bem e o mal encontram uma das personificações mais complexas, cativantes e visualmente estarrecedoras de seu eterno conflito.
Há beleza indescritível, inesgotável e inatacável em “O Retorno do Rei” –acredite, cada fotograma de sua cinematografia é um wallpaper! –e sua Versão Estendida tão somente fornece um novo e requintado ângulo para apreciá-la; no equilíbrio tão improvável quanto inacreditável de elementos íntimos com predicados épicos e grandiosos, e na obra de perfeição comovente que é obtido, “O Retorno do Rei” representa o final esplendoroso de uma das grandes sagas de nosso tempo, o auge do talento artístico de Peter Jackson e o ápice qualitativo nas telas de cinema das últimas décadas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres Versão Estendida

Pode-se afirmar que o capítulo do meio da formidável “Trilogia do Anel” é aquele que mais muda na comparação da versão de cinema com sua versão estendida.
O mais controverso dos três filmes por parte de algumas decisões criativas de seu diretor Peter Jackson –utilizar seu prólogo dramático no final do primeiro filme e jogar o antológico momento da aranha gigante para a terceira parte –“As Duas Torres” é aquele no qual o material original produzido pelos roteiristas (além de Jackson, Fran walsh, Phillippa Boyens e Stephen Sinclair) mais se expressa: Nele, vemos sub-tramas mais simplórias na versão literária ganhar ênfase e profundidade, além de algumas licenças poéticas que incrementam certas dinâmicas entre os personagens; sendo a mais gritante, a paixonite contumaz de Ewin (Mirando Otto) por Aragorn (Viggo Mortensen).
Por falar nele, Aragorn, com o acréscimo de novas linhas à trajetória empreendida por ele, Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) ao fim de “A Sociedade do Anel”, acaba adquirindo um protagonismo que toma o lugar central de Frodo (Elijah Wood) nesta narrativa –ele que era sem dúvida o protagonista do filme anterior, mas, que voltará a ser protagonista do filme posterior.
Neste épico monumental, desprovido de começo e de fim pela força dessas circunstâncias, a direção de Jackson relata assim três linhas narrativas paralelas originadas do dramático desfecho da primeira parte: Na primeira, Frodo e Sam (Sean Astin) adentram as regiões mais ermas e obscuras em seu caminho árduo rumo à Mordor; enquanto Frodo adentra também, num nível mais íntimo, áreas ainda mais sombrias de sua condição espiritual graças à influência maléfica do poderoso anel que deve destruir. Exemplo radical do mal provocado pela corrupção do anel, a criatura Gollum (Andy Serkis, brilhante) passa a acompanhá-los com a promessa de ser-lhes um guia –embora, lá no fundo, sua mente distorcida almeje traí-los.
Na segunda linha narrativa, os hobbits Merry (Dominc Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), cativos dos perversos orcs, são levados por eles até o traiçoeiro mago branco Saruman (o saudoso Christopher Lee) até serem interceptados no meio do caminho, levando os pequeninos a ficar sobre a guarda de Barbárvore, uma criatura conhecida como ‘ent’ –árvores ambulantes que representam um dos muitos assombros em efeitos visuais que o filme entrega.
E finalmente, na terceira linha, Aragorn, Legolas e Gimli, comprometidos na tentativa de resgatar Merry e Pippin, terminam por acabar deixando de lado essa missão para juntarem-se aos homens do reino de Rohan, cujo Rei Théoden (Bernard Hill, de “Titanic”) e seu povo se veem ameaçados de genocídio pela sanha de Saruman e sua horda de orcs, o que culmina na longa, violenta e arrebatadora Batalha do Abismo de Helm.
De modo geral, as inúmeras cenas novas que aparecem neste corte –e que se mostram intensas na sua primeira metade, praticamente desaparecem durante do clímax (prova do quão satisfeito Jackson ficou com o resultado) e voltam em um ou outro momento já no epílogo, pela primeira vez mostrando resultados não tão harmoniosos –reforçam as características shakesperianas deste capítulo da “Trilogia do Anel” em especial: Nos monólogos intensos do elenco, sobretudo, no núcleo que inclui os cavaleiros de Rohan, como o Rei Théoden, Eomer (Karl Urban), Eowin e Grima Língua de Cobra (Brad Dourif, de “Um Estranho No Ninho”); e também nas gratificantes cenas de flashback que ampliam a presença de Boromir (Sean Bean, magnífico) e agregam novas camadas ao personagem de seu irmão, Faramir (David Wenham, de “300”).
Tais considerações enfatizam o objetivo de Jackson e toda sua equipe em alcançar o mais alto nível cinematográfico e artístico possível, e ratificam o fato, já nítido e evidente na época do lançamento em cinema, destas produções estarem entre as grandes obras de cinema de todos os tempos.

terça-feira, 25 de junho de 2019

King Kong

Numa revisão, o apaixonado trabalho de Peter Jackson permite transparecer as apuradas técnicas narrativas de adaptação em relação ao assombro de seus efeitos visuais que predominam na forte impressão deixada nas primeiras vezes.
Após a ressaca de bilheterias e premiações sem precedentes da “Trilogia Senhor dos Anéis”, o projeto seguinte de Peter Jackson –ao qual a mídia e o público dedicaram interessada expectativa –representava um retorno à gênese pessoal de seu próprio apreço ao cinema: O “King Kong” original, de 1933, dirigido por Merian Cooper e Ernest Schoedsack, foi uma das obras que definiram a identidade cinéfila de um ainda muito jovem Peter Jackson.
Com efeito, sua refilmagem é frequentemente uma declaração de amor.
Já havia sido feita uma refilmagem, por John Guilhermin, em 1976, e ela tomava o mesmo princípio de atualidade do original, ambientando a trama naquele tempo presente.
Ao decidir recriar com exatidão passional o filme de Merian Cooper, Jackson paradoxalmente afastou-se dele: Se o filme original trata sua época (1933) como o período presente, o “King Kong” de Peter Jackson, ao ambientá-lo no mesmo 1933 agrega elementos distintos da contemporaneidade como a atmosfera nostálgica a emular as características da Grande Depressão, as inescapáveis referências cinematográficas e a recriação de época em termos cinematográficos que, por si só, já proporciona um filtro à realidade inerente ao cinema enquanto arte e exercício de imaginação.
Assim sendo (e com as três horas de narrativa das quais se beneficia), este “King Kong” é, antes de tudo, um filme sobre Ann Darrow, vivida com a adequada noção de desamparo por Naomi Watts –nas mãos dela, a protagonista é tanto uma artista em busca de seu lugar ao sol, como também uma sonhadora romântica que, em algum lugar lá no fundo, alimenta a esperança de achar, ou ser achada, por um príncipe encantado.
Mas, a realidade é dura: Atriz de vaudeville, Ann, como todos, já beira os níveis desesperadores da pobreza. É quase uma providência divina quando o cineasta Carl Denham (Jack Black, evitando magistralmente os personagens cômicos com os quais é associado) lhe chama para estrelar um filme numa aventura imprevista.
“King Kong” é também sobre Carl Denham. Visionário e entusiasta do cinema –e malandro acima de tudo –Carl vislumbra em cada projeto seu o sucesso; indiferente ao fato de que realmente nunca o encontra. O próximo, no entanto, promete: De posse de um mapa ancestral, Carl reúne uma equipe, um elenco, uma tripulação e ainda o escritor Jack Driscol (Adrien Brody, pouco aproveitado) para juntos partirem num navio a caminho da lendária Ilha da Caveira, habitada, dizem as lendas, por criaturas pré-históricas. Lá, Carl alimenta planos de fazer uma das mais singulares filmagens já feitas –e toda a primeira hora do filme de Jackson é dedicada a esmiuçar essas motivações, as dinâmicas estabelecidas entre os distintos personagens (como a afeição romântica nascida entre Ann e Jack; as intermináveis manobras de Carl que levam todos no papo; ou a hilária prepotência vaidosa do astro da película, vivido por Kyle Chandler, em sua melhor atuação no cinema), a empatia por eles nutrida e, por consequência, a elevação exponencial do suspense quando por fim estiverem em perigo.
Quando “King Kong” já está quase na metade, sua improvavelmente longa duração começa a se justificar: Jackson constrói com ela uma atmosfera que poucos realizadores hoje têm tanta paciência para fazer.
A Ilha da Caveira, portanto, enche os olhos do expectador com seus perigos inimagináveis que seus efeitos visuais de última geração convertem em momentos assombrosos.
E Kong. Quando o protagonista de fato deste filme surge, ele se mostra assombroso, personificado por uma excelência tátil por meio da computação gráfica e, sobretudo, através da performance minuciosa e abrangente de Andy Serkis que traz para o icônico primata gigante a mesma maestria que ele ostentou em Gollum, de “O Senhor dos Anéis”.
O resto é história. Falou-se muito também sobre o fato de Peter Jackson exercitar seu vasto aparato cinematográfico sobre um filme do qual todo mundo sabia o desenlace final, mas ele não o faz presumindo que o expectador não o soubesse: Em cada circunstância que leva a trama a avançar (a captura de Ann pelos nativos; sua entrega ao deus Kong; os perigos experimentados por Jack e a tribulação para reencontrá-la; a captura de Kong; e, por fim, sua apresentação e desastrosa fuga em Nova York), Jackson enfatiza não as surpresas em potencial, mas o drama de se moldar uma tragédia irreversível.
Esse primor encontra seus acordes mais elevados na construção complexa e nada verbal da relação afetiva entre Ann e Kong –e que culmina, por sua vez, numa cena inexistente em todas as outras versões, e que pode ser nomeada como a mais bela e emocionante sequência desta produção: Quando ela e Kong, pouco antes da perseguição aérea que o levará para sempre, brincam de escorregar no gelo nas águas congeladas do rio Hudson.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

É visto que os filmes da Marvel Studios vêem atrelados a uma narrativa que os interliga aos outros filmes do estúdio. “Pantera Negra”, por exemplo, é conectado aos acontecimentos de “Capitão América-Guerra Civil” –onde o herói, T’ Challa foi apresentado pela primeira vez –e não restam dúvidas se conectará também, por conta de inúmeros detalhes, à “Vingadores-Guerra Infinita”.
Ainda assim, tal e qual os mais hábeis artesãos que a Marvel recruta, o diretor Ryan Coogler é astuto o suficiente para fazer deste filme solo um espetáculo inteligente, instigante, envolvente e eletrizante por si só, independente das demais produções: “Pantera Negra” ombreia em qualidade e primor –assim como em temática e austeridade narrativa –a um dos melhores trabalhos do estúdio, o magnífico “Capitão América-Soldado Invernal”.
Extremamente talentoso (como ficou comprovado nos ótimos “Fruitvale Station-A Última Parada” e “Creed-Nascido Para Lutar), Coogler conta a história de seu protagonista, T’ Challa (que Chadwick Boseman interpreta com solidez e propriedade) a partir dos desdobramentos do ocorrido em “Guerra Civil”, no caso, o assassinato por atentado de seu pai T’ Chaka, o que faz dele, por sucessão, o rei de Wakanda (uma nação sul-africana evoluída, futurista e absolutamente secreta) e também seu lendário protetor, o Pantera Negra.
Para acompanhá-lo na ritualística cerimônia de coroação, T’ Challa faz questão da presença da mulher que ama, a cativante, mas nem por isso menos enérgica Nakia (vivida com carisma, vigor e encanto pela linda Lupita Nyong’o, de “12 Anos de Escravidão”), que além de tudo é uma espécie de agente secreto a serviço de Wakanda, monitorando as outras nações do mundo e tentando auxiliar os dissidentes wakanianos no processo.
O roteiro de Coogler, contudo, não se acomoda na inércia dos eventos que transcorrem com naturalidade: Já no começo, ele introduz um flashback envolvendo o rei T’ Chaka ainda em sua juventude –ele próprio como Pantera Negra –que somente a medida que a trama evolui vamos nos dando conta de seu primor.
É quando essas duas linhas narrativas se fundem (T’ Challa assumindo as funções e responsabilidades de rei; e o segredo envolvendo um erro do passado cometido por seu pai) que o filme de Coogler evoluiu do ótimo para o excelente: Eis que T’ Challa descobre que o aliado do contrabandista Ulisses Klaus (Andy Serkis, ótimo), o misterioso Killmonger (Michael B. Jordan, um vilão vibrante e espetacular), é na realidade um membro renegado de sua própria família real e, portanto, digno de desafiá-lo numa luta pelo trono de Wakanda.
Reunindo um dos mais sensacionais e bem empregados elencos da Marvel Studios –além dos atores já mencionados, “Pantera Negra” tem também Danai Gurira (da série “The Walking Dead”) como a líder das Dora Milaje, a arrojada e eficaz guarda real de Wakanda constituída de mulheres guerreiras; o grande Forest Whitaker como Sully, o curandeiro responsável pelo segredo que concebe poderes ao herói (e pivô do grande segredo do filme); a veterana Angela Basset como a rainha, mãe do herói; o britânico Martin Freeman (da trilogia “O Hobbit” e da série “Sherlock”); o indicado ao Oscar Daniel Kaluuya (por “Corra!”); e a notável Letitia Wright, como aquela que deve ser a mais divertida personagem do filme, a inventora e irmã do herói, Shuri –o filme de Coogler guarda desdobramentos radicais, surpreendentes e pertinentes em sua trama, na medida em que se beneficia do fato deste ótimo personagem não ser tão conhecido assim do grande público (o que permite ao realizador surpreender os expectadores com certos lances em sua trajetória) e entrega, na forma de um trabalho extraordinário, um dos mais perfeitos, politizados e válidos manifestos do cinema comercial em prol da diversidade: Um filme de super-herói com um elenco majoritariamente negro, e que ainda por cima é facilmente incluso entre os melhores que a Marvel já produziu

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos - A Guerra

A trilogia que conta a espetacular e épica saga de César –um personagem que em si resume o propósito e as razões da existência da sociedade dos macacos –chega ao fim neste filme, mais uma vez dirigido por Matt Reeves, que fez um bom trabalho em “Planeta dos Macacos-O Confronto”, embora não tão primoroso quando Rupert Wyatt em “Planeta dos Macacos-A Origem”.
Entretanto, parece que entre um filme e outro, Matt Reeves viu, reviu e avaliou cada um de seus deslizes e suas fraquezas a fim de saná-las para este final de trilogia: A sua evolução como cineasta neste trabalho é algo espantoso. Ele concebeu certamente o melhor filme dessa nova trilogia “Planeta dos Macacos”, plenamente digno de ser enxergado, nas décadas vindouras, como uma obra tão clássica quanto a original estrelada por Charlton Heston.
Contam exatamente quinze anos desde que os macacos, liderados por César se emanciparam do jugo dos homens, em “Planeta dos Macacos-A Origem” (ao mesmo tempo em que foi disseminado um vírus que quase varreu a raça humana), e cinco anos desde que as ações de Koba levaram à inevitabilidade de uma guerra entre humanos e símios, em “Planeta dos Macacos-O Confronto”.
Na qualidade de líder de seu povo, César deseja paz. Contudo, não é o que líder dos humanos –intitulado por eles como O Coronel –quer: Soldados fazem incursões constantes nas matas a fim de aniquilar os macacos, mesmo quando sofrem derrotas terríveis –e a primeira cena de batalha já deixa bem claro a nítida evolução intelectual e estratégica experimentada pelos símios, assim como a genialidade espantosa dos efeitos visuais que recriam os macacos em cena de maneira irretocável, e a técnica espetacular e renovadora com a qual o diretor Reeves consegue reger o filme.
Como num filme de guerra autêntico e genuíno, o diretor expõe as circunstâncias menos nítidas –macacos auxiliando os humanos e vice-versa, assim como desentendimentos de ideologia em ambas as facções –para emoldurar um filme poderoso amparado em grandiosas cenas. Embora tenha morrido no filme anterior, por exemplo, o personagem Koba continua sendo poderosamente ressonante na trama deste daqui; sua constante comparação com César e sua trágica trajetória, é um dos elementos de grande força dramática do roteiro, após um acontecimento, ainda na primeira parte, que talvez seja melhor não ser mencionado.
Único humano que ganha alguma importância na narrativa –pois aqui, os humanos são inexpressivos e irrelevantes –Woody Harrelson vive o Coronel que, em sua vilania plena, ganha ocasionais momentos de referência ao Coronel Kurtz de “Apocalypse Now”, assim como uma megalomaníaca analogia ao Deus Bíblico; tudo isso, na intenção de evidenciar a propensão perene que o ser humano tem para acarretar a destruição de si mesmo e dos demais à sua volta.
Os sucessivos blocos que compõem este grande filme oferecem ampla chance para que Reevez faça extraordinárias referências cinematográficas: As mais notáveis dizem respeito aos filmes sobre campos de concentração em geral, e “Fugindo do Inferno” em particular; mas há também espaço para “Doutor Jivago” (na cena em que César e seus companheiros encontram um casarão embranquecido com tanta neve onde acham outro macaco inteligente) e “Os Dez Mandamentos” (numa das últimas cenas, quando César e seus seguidores realizam o grande êxodo que a tempos planejavam). Mas a referência-mor para o filme é –e não poderia deixar de ser, o “Planeta dos Macacos” clássico –e ela surge numa sucessão de momentos (quando César e seus companheiros são vistos cavalgando na beira de uma praia, numa cena inconfundível do original), em pequenos detalhes (o filhote sobrevivente de César chama-se Cornelius) e em diálogos dos personagens (quando o próprio personagem de Harrelson admite que os humanos estão perdendo a capacidade de falar e, se ele próprio não fizer algo, este será um “planeta dos macacos”), até por fim envolver todo o filme (o desfecho, quando César consegue levar todos os seus até um lugar onde poderão viver, e que se parece demais com o mesmo cenário da comunidade de macacos vista no filme original).
A trilogia prólogo de “Planeta dos Macacos” chega ao fim com um filme digno, poderoso e emocionante, honrando plenamente o legado de seu clássico graças a dois talentos monumentais: O esplêndido ator-virtual Andy Serkis que faz de César um dos grandes personagens do cinema moderno (quando é que vão resolver dar um Oscar a ele?!) e, desta vez, o diretor Matt Reeves entregando aqui seu melhor filme, uma acachapante e magnífica alegoria sobre as inclinações que nos separam uns dos outros.

Planeta dos Macacos - O Confronto

Se formos levar em conta os demais filmes da franquia “Planeta dos Macacos” –as continuações menos prestigiadas do clássico com Charlton Heston –podemos perceber que “Planeta dos Macacos-A Origem” era uma reinvenção de “A Conquista do Planeta dos Macacos”, de 1972, seguindo uma linha mais factual, mais austera e mais plausível do que aquela mirabolante premissa de viagem no tempo.
E o filme cumpriu brilhantemente seu papel no sentido de preencher as lacunas acerca do mundo que o personagem astronauta de Charlton Heston encontrou quando regressou à Terra. Todavia, o filme não foi ávido, ilustrando com propriedade o início da ascensão dos símios em paralelo à derrocada da humanidade, deixando mais questões para sempre utilizadas em filmes posteriores.
Dessa forma, quando a história é retomada nesta continuação, dez anos já se passaram. Longe da civilização humana e de qualquer contato com os humanos, os macacos liderados por César (Andy Serkis que, mais uma vez, empresta ao personagem virtual emoção e presença únicas) agora vivem numa comunidade pacífica e tranqüila.
Os sobreviventes da raça humana que não sucumbiram ante o vírus (que, ao mesmo tempo, torna os macacos mais inteligentes) vivem num grupo polarizado entre duas lideranças distintas: De um lado, há Malcolm (Jason Clarke), um homem benevolente e sábio; do outro, Dreyfus (Gary Oldman), um beligerante e desconfiado cortejador da guerra.
Quando uma sucessão de circunstâncias leva a comunidade de César a encontrar os sobreviventes humanos, os dois grupos pouco a pouco começam a estabelecer uma aliança. Mas, se nem todos entre os humanos são confiáveis, nem tampouco eles são entre os macacos: Koba (personificado por Toby Kebbel), um dos conselheiros de César deseja a todo o custo uma guerra contra os humanos, e para isso parece disposto a sacrificar a própria paz que César tanto busca preservar.
O diretor deste segundo filme, Matt Reeves (ele dirigiu “Cloverfield-Monstro” e “Deixe-Me Entrar”, a refilmagem norte-americana de “Deixe Ela Entrar”), assumiu o posto com a desistência de Rupert Wyatt, realizador do filme anterior, sob a alegação de que não havia um roteiro hábil pronto para o início do projeto.
Reeves assumiu o filme com ares de diretor contratado, mas tratou de honrar todos os elementos funcionais do filme anterior: Sua premissa –um estopim narrativo para o grande embate entre macacos e humanos –recupera Koba, um interessante personagem usado com brevidade em “Planeta dos Macacos-A Origem”, mas que aqui ganha importância antagônica na trama e acaba responsável pelas ações que deflagram o terceiro ato deste filme e boa parte do que se verá na próxima produção.
Este é, portanto, não um filme de guerra, mas um filme sobre os gatilhos emocionais e morais que conduzem a guerra –como já era o clássico de 1968 que originou tudo isso, este novo “Planeta dos Macacos” é uma bela e inteligente alegoria acerca das razões (ou absoluta inexistência delas) das quais os homens se valem para a justificativa de seus conflitos.
O trabalho de Wyatt era mais fluido e convicto que o de Reeves em comparação, porém, o grande apelo do filme –o fato de que o magnífico César, que dividia de certa forma o protagonismo com James Franco no filme anterior, é aqui, indiscutivelmente o personagem central e principal –é mantido, enaltecido e ressaltado com o emprego de magistrais efeitos especiais.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos - A Origem

O clássico “Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e lançado no ano de1968 (um ano antes, portanto, de Kubrick chacoalhar o cinema e o gênero de ficção científica com seu “2001-Uma OdisséiaNo Espaço”), já estava distante o bastante para que Hollywood tivesse ambiciosos lampejos de reinvenção.
É notória a tentativa de recomeçar tudo de novo, em 2001 (ironias...), com uma nova versão da mesma trama com Charlton Heston, desta vez estrelada por Mark Whalberg, e dirigida por Tim Burton, entretanto, exceto pelo capricho na maquiagem, a nova produção era, em tudo e por tudo, inferior ao marcante filme dos anos 1960.
Uma década depois, Hollywood (mais especificamente, os estúdios da Fox) continuaram tentando, agora, com a idéia de uma reinvenção de fato. E mais: Com mérito genuíno.
Se o clássico tinha algo de francamente inovador, à época, na maquiagem símia criada para seus atores incorporar macacos desenvolvidos, então, supôs o perspicaz diretor Rupert Wyatt, era necessário que o legado de “Planeta dos Macacos” fosse respeitado seguindo essa busca por inovação –“A Origem”, esse novo filme, agora possuía, não atores primorosamente maquiados, mas todo um elenco convertido em macacos virtualmente reais, graças à tecnologia de captura de performance, apresentada por Peter Jackson em “O Senhor dos Anéis”, nas cenas que envolviam o personagem digital Gollum, e por James Cameron no revolucionário “Avatar” e aqui, por sua vez, elevada à um novo nível.
A trama também não cometia do erro do filme de Tim Burton, em tentar refazer o clássico, mas o complementava: Tratava-se, na realidade de um prólogo, revelando como a Terra, do mundo civilizado atual, converteu-se na distopia dominada por uma raça avançada de macacos como visto no clássico.
E o ponto de partida para essa mudança se origina no personagem de James Franco (recém-saído de uma indicação ao Oscar por “127 Horas”), um jovem cientista determinado a encontrar a cura do Mal de Alzheimer que acomete seu pai (o veterano John Lithgow). Ele realiza uma experiência clandestina numa fêmea chimpanzé, o que gera, mais tarde, um filhote de prodigiosa inteligência: César –interpretado pelo grande especialista em atuação na captura de performance do cinema, Andy Serkis, que também foi responsável pela extraordinária presença de Gollum (muito legal notar que James Franco assume aqui o papel de coadjuvante de um personagem digital com um bocado de dignidade).
Com o tempo, César (personificado de modo assombroso pelos movimentos e pela técnica de Andy Serkis) adquire consciência de quem é e acaba levado e encarcerado num zoológico para macacos, onde junto de outros símios, sofre maus tratos nas mãos de humanos cruéis –representados, entre outros, por Brian Cox e Tom Felton, habituados a papéis de vilões. Logo, César percebe que, na condição de líder de sua raça, deve valer-se do quê sabe e compreende para conduzir os da sua espécime à uma rebelião sem precedentes, que deverá levá-los à liberdade, para bem longe do julgo dos humanos.
O modo com que a direção de Rupert Wyatt conduz a trama, o amadurecimento de César (com estupendo desenvolvimento dele enquanto personagem, e brilhante observação na ascensão de sua liderança) e o desenrolar de todas as facetas fundamentais às características presentes no filme clássico é de um primor estupendo; tornando até mesmo redundantes referências mais convencionais como as falas “Isto aqui é um hospício!” ou “Tire suas patas de mim, seu macaco imundo!”.
Todas essas bem elaboradas características conduzem harmoniosamente ao segmento final, onde vemos a arrepiante insurreição dos animais contra os seres humanos (é curioso como, em suas motivações muito bem estipuladas no roteiro, o filme consegue colocar de maneira convincente, os humanos –ou seja, nós mesmos! –como os detestáveis vilões), uma sucessão fantástica de cenas que mesclam ação, eficácia narrativa e o brilho de efeitos visuais empregados em favor da história que eleva a produção num outro nível, capaz de fazer dele uma obra tão icônica quanto o clássico que busca honrar.

sábado, 5 de novembro de 2016

10 Histórias em Quadrinhos que poderiam render grandes filmes

Agora, quero propor algo diferente: Um olhar mais atento e até especulativo sobre algumas obras que ficaram meio de lado nesta moda de adaptações de histórias em quadrinhos que pegou de assalto o cinema comercial, mas que parece ter se concentrado mais no gênero de super-heróis, deixando de lado outras histórias igualmente sensacionais, e que poderiam resultar em magníficas obras de cinema.

Maus –Um dos maiores clássicos das HQs de todos os tempos ao lado de “Watchmen” e “O Cavaleiro das Trevas”, esta obra poderosa e devastadora feita em preto & branco poderia render uma animação voltada para adultos. Trabalhoso seria para o roteiro adaptar a linguagem essencialmente literária com a qual o autor Art Spiegelman conta, pelos olhos do próprio pai, a história de sobrevivência de sua família de judeus que, durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a estar à beira da morte no campo de concentração de Auchwitz. Na visão impiedosa e implacavelmente artística de Spiegelman, os judeus (incluindo seu pai e ele próprio) são retratados como ratos, os alemães como gatos e os norte-americanos como cães, num recurso que paradoxalmente traz um insuspeito humanismo na abordagem de todos eles.

Os Leões de Bagdá –Outro trabalho que funcionaria como uma animação para adultos ou até mesmo um desses filmes onde a computação gráfica recria com perfeição a realidade animal (caso do clássico “Babe-O Porquinho Atrapalhado” ou do recente “Mogli-O Menino Lobo”), esta fábula sobre a dura realidade (e a confusa ideologia) da Guerra do Iraque parte de uma história real: Durante um bombardeio à Bagdá, as bombas libertam quatro leões do zoológico no qual estavam presos, e esses animais passam assim a peregrinar, num misto de assombro, perplexidade e descoberta pelos inexplicáveis escombros daquele mundo humano. O roteirista Brian K. Vaughn imaginou assim, com forte influência do simbólico “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, como teriam sido as desventuras, questionamentos e dúvidas daqueles animais inocentes perdidos no campo de uma batalha da qual nada entendiam.
Um primor.

Retalhos –Uma das obras-primas do escritor e desenhista Craig Thompson (a outra, e igualmente magistral é “Habibi”) este volume único e plenamente emocionante conta um fragmento de sua própria vida, onde ele ressalta a convivência cheia de dualidades com o irmão mais novo durante a infância, a criação religiosa infundida pelos pais, as agruras e o fardo de crescer em meio à adolescência, os revezes particulares da vida em contraponto à experiência catártica do primeiro amor e ao início da vida adulta.
Uma obra cativante feita de pequenos e preciosos detalhes que renderia um filmaço.

Ex-Machina –(não confundir com o brilhante filme de ficção científica estrelado por Alicia Vikander) Esta é, curiosamente, uma história, também ela, de super-herói. Mas um super-herói diferente: Mitchell Hundred é (ou melhor, era) o super-herói conhecido como Ex-Machina, dotado do poder de se comunicar com as máquinas. Naquele que é lembrado como seu grande momento como herói, ele consegue evitar (numa magnífica e corajosa jogada de realidade alternativa) que um dos aviões terroristas destruam uma das torres do World Trade Center no fatídico 11 de setembro. O resultado? Mildred é eleito prefeito de Nova York! A série de quadrinhos acompanha assim a sua tumultuada rotina gerenciando uma das grandes metrópoles do mundo em contraponto ao seu passado heróico que surge em flashbacks ao longo da trama.
Seria uma bem-vinda e magnífica revisão do conceito (cada vez mais batido) de super-heróis.

Concreto –E, por falar nisso, dentre todos os “super-heróis” cuja história vem com uma necessária e saudável diferenciação, provavelmente o mais notável deles é Concreto. Escrito e desenhado pelo artista Paul Chadwick (após uma passagem pela Marvel na qual deve ter se frustrado com o funcionamento esquemático do sistema), o personagem e sua concepção pulsam de inventividade, idiossincrasia e humanismo: Concreto é Ron, um escritor que por meio de uma misteriosa abdução alienígena se vê confinado num imenso e poderoso corpo de pedra e, de um dia para outro, torna-se objeto de estudo de cientistas militares e, mais tarde, da mídia sensacionalista.
Disposto a tentar construir uma vida nessa nova condição (e a lidar com o escrutínio midiático sobre sua figura incomum) ele se torna uma nova espécie de celebridade, tentando testar os limites de seus poderes, ora ajudando as pessoas em perigo, ora se submetendo à disputas humanamente impossíveis.
Já dá para imaginar as maravilhas que Andy Serkis faria ao interpretar Concreto em uma personificação digital num filme.

Fathom –O personagem-título é um guerreiro que busca a conciliação numa iminente guerra entre a humanidade e uma espécie que habita um mundo submarino oculto nos oceanos, mas a protagonista mesmo é a jovem Aspen que, devido ao fato de ser um híbrido entre os dois povos, humano e submarino, e além de possuir vasto poder, representa um papel fundamental nesse conflito. Grande trabalho do falecido artista Michael Turner (muito mais lembrado por seu talento em desenhar belas mulheres do que por seu traquejo como roteirista, é bem verdade), “Fathom” tem todos os elementos melagomaníacos, espalhafatosos e dramáticos que configuram uma boa adaptação de quadrinhos para o cinema. Houve até rumores sobre uma adaptação estrelada por Megan Fox depois que ela se tornou famosa com o primeiro “Transformers”, mas nada foi para frente.
Uma das teorias é a de que “Fathom” seria um projeto com considerável grau de dificuldade por ser em grande parte ambientado em alto mar.

Ronin –(não confundir com o filme de ação homônimo realizado em 1997 por John Frankenheimer) Talvez o mais cinematográfico dos autores de quadrinhos (inclusive pela facilidade com que seus trabalhos ganharam os cinemas), Frank Miller criou, no início dos anos 1980, esta que é, talvez, sua mais ‘infilmável’ obra: “Ronin” é um conto reflexivo, surreal, fatalista e multifacetado sobre os fantasmas da mente na trama audaciosa de um samurai errante teleportado do Japão do Século XIII para uma Nova York futurista na qual o demônio que tencionava matar se tornou controlador do mundo.
A familiaridade da premissa básica não é à toa: Gendy Tartakovsky (de “Meninas Superpoderosas”) baseou-se essencialmente em “Ronin” para conceber sua animação “Samurai Jack”, com um resultado muito mais ameno e pueril.
Na verdade, a trama de “Ronin” mergulha nas armadilhas da insanidade como forma de fragmentar as neuroses humanas, ao mostrar a jornada subjetiva de um herói incapaz de compreender seus infortúnios na mesma medida em que não distingue a loucura de sua própria imponderabilidade.
Tão complexo quanto “Maus” ou “O Incal”, “Ronin” tentou ser adaptado logo depois que “300”, realizado por Zack Snyder, virou febre, pelo mesmo produtor Gianni Nunnari, sob a direção de Sylvain White, de “Stomp The Yard”, mas os trabalhos cessaram quando os executivos perceberam que se tratava de um projeto infinitamente mais denso.

O Incal –Já que falamos nele: Concebido pelo traço incomum do artista Moebius e pela mente fervilhante do escritor Alejandro Jadorowski (também cineasta!), este conto amplo, detalhista e inusitado de ficção científica é uma das obras mais aclamadas dos quadrinhos e ao lado de “Watchmen” (pelo menos antes deste ser adaptado por Zack Snyder) figurava sempre nas listas das adaptações de quadrinhos mais aguardadas e paradoxalmente mais difíceis de serem concebidas.
A trama (pra lá de esotérica) acompanha a trajetória circular de vida, morte e renascimento do detetive particular John Difool, num mundo futurista às voltas com um cristal dotado de grande poder e crenças religiosas cujos dogmas podem afetar a própria realidade, além de uma infinidade de personagens complexos e enigmáticos. Um delírio autoral dos mais ricos em criatividade que a nona arte já viu.
Especulou-se durante um tempo o nome de Ridley Scott para uma adaptação.

Y-O Último Homem –Talvez a obra-prima do roteirista Brian K. Vaughn (criador também das espetaculares premissas de “Ex-Machina” e “Leões de Bagdá” mencionados acima), esta HQ é um exercício e tanto de imaginação: Seu protagonista, o jovem metido à ilusionista Yorick Brown, é o único sobrevivente do sexo masculino num mundo onde uma epidemia de natureza genética exterminou todos os seres providos do cromossomo ‘y’, vagando assim num mundo pós-apocalíptico onde as mulheres prevalecem. A série (magnífica, por sinal) reflete sobre todos os percalços possíveis de uma situação assim, sob o prisma da verossimilhança.
Um grande filme pedindo para ser feito, e não faltam jovens atores proeminentes que poderiam interpretar Yorick Brow e sua parceira a Agente 53.

Estranhos No Paraíso –(não confundir com o clássico alternativo dos anos 1980 dirigido por Jim Jamursch) Uma das mais sensacionais histórias em quadrinhos de todos os tempos, acompanha a rotina nada heróica de duas jovens, Katchoo (a cara da Jennifer Lawrence!) e Francine (Amy Schumer, se pintasse o cabelo de preto), que vivem às voltas com desilusões, amores e dramas muito reais, cortesia do ilustrador e roteirista Terry Moore, dono de um talento sem igual para escrever sobre a dinâmica dos relacionamentos.
À medida que a trama avança (assim como os anos), camadas das protagonistas vão se revelando transformando-as em pessoas verdadeiras das quais temos genuíno prazer em nos aproximar.
Uma síntese primorosa e única entre comédia, drama e história de vida.