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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os Vencedores do Oscar 2026


 Nunca antes, na história do Oscar, houve uma adesão tão grande ao gênero de terror. Está certo que não bastou para que um filme de terror ganhasse o prêmio principal (conquistado por “Uma Batalha Após A Outra”, coroando-o como o grande filme de 2025, e finalmente consagrando o já bastante aclamado diretor Paul Thomas Anderson), mas já houve as históricas 16 indicações para “Pecadores” (fazendo dele o mais indicado da História, com duas indicações a mais que os recordistas anteriores “A Malvada”, de 1951, e “Titanic”, de 1998, com 14 cada um), convertidas em 4 prêmios (inclusive os de Melhor Ator para Michael B. Jordan e Melhor Roteiro Original para Ryan Coogler) e o surpreendente prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para a sensacional Amy Madigan por “A Hora do Mal”.

No mais, como costuma ser, o Oscar evitou surpresas com o mais que merecido prêmio de Melhor Atriz para Jessie Buckley, por “Hamnet” e o de Melhor Filme Internacional para “Valor Sentimental” superando da concorrência do brasileiro “O Agente Secreto”, contudo, guardadas as devidas ressalvas dos infindáveis detratores da internet (que ficaram insatisfeitos com a derrota do Brasil), o filme é merecedor e digno: Além de ser uma obra excelente, o filme de Joaquim Trier finalmente levou um Oscar para a Noruega, que até então nunca tinha conquistado a estatueta.

MELHOR FILME

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR DIREÇÃO

"Uma Batalha Após A Outra", Paul Thomas Anderson

MELHOR DIREÇÃO DE ELENCO

"Uma Batalha Após A Outra", Cassandra Kulukundis

MELHOR ATRIZ

Jessie Buckley, "Hamnet-A Vida Antes de Hamlet"

MELHOR ATOR

Michael B. Jordan, "Pecadores"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Amy Madigan, "A Hora do Mal"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Sean Penn, " Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Guerreiras do K-Pop"

MELHOR FOTOGRAFIA

"Pecadores"

MELHOR FILME INTERNACIONAL

"Valor Sentimental" (Noruega)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Avatar-Fogo e Cinzas"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Girl Who Cried Pearls"

MELHOR FIGURINO

"Frankenstein"

MELHOR SOM
"F1"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

"Frankenstein"

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

"Frankenstein"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“Mr Nobbody Against Putin"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"All The Empty Rooms"

MELHOR CURTA-METRAGEM

“The Singers"

“Two People Exchanging Saliva"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Golden", de "Guerreiras do K-Pop"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR MONTAGEM

"Uma Batalha Após A Outra"

domingo, 1 de junho de 2025

Pecadores


 A premissa desta brilhante obra do diretor Ryan Coogler parece claramente beber da fonte de um cultuado filme de terror dos anos 1990, dirigido por Robert Rodrigues e roteirizado (e estrelado) por Quentin Tarantino –“Um Drink No Inferno”.

Como naquele filme há, em “Pecadores”, uma dupla de irmãos (gêmeos, neste caso), cuja trajetória de crimes e mortes os leva à noite fatídica que ocupa o cerne da narrativa; e como naquele filme, há aqui também uma circunstância de cerco onde os protagonistas sobreviventes devem enfrentar perigos impronunciáveis na forma de vampiros até o sol amanhecer –perigos esses que representam um contraponto muito maior ao perigo que eles mesmo representavam.

O ano é 1932. No estado da Louisiana, na cidadezinha de Clarksdale, recém-livrada da Ku Klux Khan (ou, pelo menos, é o que parece), os gêmeos Elijah e Elias Moore, também conhecidos por Smoke e Stack (ambos interpretados, por meio de notáveis efeitos digitais de duplicação, por Michael B. Jordan), retornam ao local onde cresceram dispostos a fazer fortuna. Após um período em Chicago –onde aumentaram sua fama de implacáveis para muito além dos crimes locais –os gêmeos agora têm dinheiro para investir no sonho de um Clube de Blues, comprado de um proprietário ex-Ku Klux Khan, e para o qual almejam trazer seus conhecidos mais próximos: O comerciante chinês Bo Chow (Yao) e sua esposa Grace (Li Jun Li, de “Babilônia”) para ajudar nos preparativos; a esposa de Smoke, Annie (Wunmi Mosaku, de “Deadpool & Wolverine”), para contribuir com seu toque mágico na cozinha; o grandalhão Cornbread (Omar Miller, de “8 Mile-Rua das Ilusões”) auxiliando na segurança; e fornecendo a música aos frequentadores, o veterano e calejado pianista Slim (Delroy Lindo, de “Regras da Vida”) e o primo deles, o assombrosamente talentoso Sammie (Miles Caton); além das presenças das beldades Pearline (Jayme Lawson, de “Batman”), como cantora, e Mary (Hailee Steinfeld), como namorada de Stack.

Tal e qual (de novo) “Um Drink No Inferno”, a trama de “Pecadores” se desdobra em uma única noite. Durante o seu breve prólogo, uma narração em off nos explica que existem pessoas cujo talento musical consegue evocar a música do passado e do futuro, tal habilidade, é explicado também, desperta a atenção e o interesse de alguns seres das trevas, capazes de perceber essa importância sobrenatural.

É a música de Sammie (cujo alcance e a influência através dos tempos são ilustrados numa cena absolutamente memorável) que acaba atraindo as criaturas que, de um ponto em diante, darão um novo rumo ao filme.

Ao contrário da obra de Rodrigues e Tarantino –criticada, à época de seu lançamento, por trazer uma guinada tão abrupta para o gênero de vampiros na metade de sua duração que praticamente contrastava com a parte anterior do filme –este trabalho de Coogler nunca perde sua harmonia, sua solidez ou sua coerência. Na maneira como justapõe os revezes raciais como continuidade trivial de um horror ainda maior a espreitar nas sombras, “Pecadores” se assemelha ao também excelente trabalho desempenhado na série “Entrevista Com O Vampiro”, cuja primeira temporada também trazia essa mesma postura alegórica.

Assim como tantas obras igualmente geniais a ganhar a ribalta, o filme de Coogler se apropria de um difundido conceito de terror para discutir temas sempre em voga, reflexões de ordem social e humana, enquanto deixa sua própria marca dentro de um gênero popular e inesgotável.

E neste caso, ele o faz com um trabalho vibrante e impecável –“Pecadores” é uma jóia preciosa dentre as inúmeras obras cheias de brilhantismo, inteligência e ímpeto renovador que afloraram através do gênero de terror nas temporadas 2024 e 2025, como “Entrevista Com O Demônio”, “A Substância”, “Nosferatu”, “Presença”, “Acompanhante Perfeita” e vários outros, sinalizando uma fabulosa onda crescente de um novo e revitalizado terror concebido em terras norte-americanas.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Love, Death + Robots - 2ª Temporada


 Esquadrão de Extermínio

Num mundo high-tech onde favelas imensuráveis e áreas urbanas agigantadas para além da imaginação (o conceito de direção de arte das animações desta série é, por vezes, arrebatador) se tornaram um mundo contaminado e desiludido, a raça humana, em seu hedonismo, obteve a solução para a vida eterna. Consequência disso, é que as pessoas passam a ter seu controle de natalidade severamente vigiado –viver eternamente torna redundante a necessidade de conceber herdeiros e toda uma nova geração que perpetue qualquer coisa que seja.

Sem um motivo existencial para ter filhos, procriar tornou-se um ato frequentemente visto como ilegal –e os moradores das áreas pobres, quando falham em esconder seus rebentos, são punidos da pior forma: Um grupo de extermínio, encabeçado pelo taciturno protagonista deste episódio, surge com a finalidade de dar cabo das crianças geradas ilegalmente.

Apesar de tudo, e dos esforços lúgubres dele em enxergar seu trabalho com a máxima frieza, as atitudes atrozes que é obrigado a tomar em seu trabalho começam a cobrar seu preço, na forma de pesadelos cada vez mais contundentes. Ele precisará rever esses valores quando encontrar, numa área arborizada afastada da cidade, uma mãe cuidando de sua filha, e os motivos muito válidos que ela tem para ter gerado a criança.


Gelo

A lembrar o conceito do excelente “Gattaca-A Experiência Genética”, este episódio dirigido por Robert Valley (realizador dos clips da banda “Gorillaz” com os quais este curta muito se parece) traz um futuro gélido onde os humanos têm filhos geneticamente modificados para se tornarem mais rápidos e mais fortes. Dois irmãos, o mais velho, geneticamente normal e, por isso, vítima de preconceito, e o mais novo, modificado e, por isso, integrado ao seu grupo de jovens amigos, participam de uma disputa nas tediosas madrugadas nos imensos arredores de uma espécie de plataforma petrolífera no Ártico: Os jovens disputam uma corrida sob a superfície do mar congelado, sob a instigante ameaça de gigantescas baleias que podem fragmentar a crosta e comprometer a sobrevivência dos mais vagarosos. Para o mais novo, a disputa é um divertimento; para o mais velho, uma tentativa –ainda que inconsequente e potencialmente fatal –de provar o seu valor.


Atendimento Automático Ao Cliente

Em uma sociedade muito similar à norte-americana, os idosos gozam de um vida hedônea assessorados por toda sorte de robôs. Aspiradores, massagistas, empregados domésticos em geral. Contudo, a velha moradora de uma casa testemunha uma curiosa pane em seu robô-aspirador –ele subitamente discorda da forma como algumas mobílias estão dispostas na casa. E, com isso, a pane progride para uma hostilidade de fato à medida que a dona deseja acessar o Atendimento Ao Cliente e percebe que as irônicas mensagens gravadas só fazem apoiar a atitude cada vez mais psicótica do robô (!). Uma versão adulta, violenta e sarcástica de “Wall-E”.


Snow No Deserto

Num mundo ao estilo “Star Wars” –e que remete também à grande influência para esta coletânea de episódios, o longa-metragem “Heavy Metal” –um andarilho solitário, Snow, é caçado por uma infinidade de assassinos de aluguel, todos contratados com a intenção de lhe roubar os testículos (!), ou seja, sua carga genética, já que ele, de uma idade centenária, é o único ser vivo capaz de sobreviver à quase todas as intempéries graças à sua prodigiosa capacidade regenerativa. Entretanto, em sua fuga solitária e ininterrupta, ele acaba conhecendo Hirald, uma mulher com os mesmos objetivos dos assassinos de aluguel, porém, com uma concepção diferente –ela não deseja lhe fazer mal algum e, na desconcertante surpresa que reserva, ela tem também seus motivos para querer a companhia e a compreensão que alguém singular como Snow.


A Grama Alta

Na época do que parece ser o Velho Oeste, um homem desavisado (personagem, segundo alguns, concebido à imagem e semelhança do escritor H.P. Lovecraft) vê a locomotiva à vapor na qual viajava parar, na calada da noite, em meio à uma densa campina de grama alta para além da altura média humana. Apesar dos apelos do condutor para que não se afaste, ele fica intrigado com misteriosos movimentos que identifica na vegetação e, ao tentar espiar, perde-se do trem, pouco antes de descobrir que, no meio daquelas folhagens, espreitam criaturas mortais e pavorosas que se alimentam de carne humana.


Pela Casa

Na noite de Natal, dois irmãos têm a travessa ideia de flagrar o Papai Noel no instante em que ele deposita seus presentes na lareira. Entretanto, o que eles descobrem, ao esgueirar-se na surdina até a sala, é  uma surpresa um bocado inesperada.

Concebido a partir da mesma e enganosa concepção visual de clássicos natalinos animados como “Rudolph-A Rena do Nariz Vermelho” –na qual os personagens lembram mais bonequinhos animados em stop-motion –esta arrojada animação pulsa de ironia e humor negro ao agregar ao clima de nostalgia natalino improváveis elementos macabros, a exemplo do que já fizera o clássico cult “O Estranho Mundo de Jack”, sua mais evidente inspiração, no entanto, este curta-metragem vai muito mais longe, na ousadia gore e na desconstrução mítica do que aquele aclamado trabalho.


Gaiola de Sobrevivência

Num episódio que remete muito de “Final Fantasy” –e no qual notamos, por isso mesmo, a gritante evolução exponencial dos efeitos de computação –vemos o ator Michael B. Jordan (o qual comparece dublando o personagem) recriado em CGI, vivendo um astronauta colhido numa guerra futurista em pleno espaço sideral. Embora os percalços de como se deu seu acidente e de como caiu em um planeta distante sejam esmiuçados em breves e pontuais flashbacks, o foco no qual a narrativa se concentra é sua aflitiva situação posterior: Ao encontrar, ainda ferido, uma diminuta base de sobrevivência, ele imagina estar em segurança, porém, o robô de manutenção do local apresenta defeito, o que significa que se volta contra ele e contra qualquer coisa que se mova dentro do recinto.

Incapaz de se mover –pelo ferimento de batalha e por outros agravados pelo próprio robô em seu primeiro ataque –ele deve achar um meio de livrar-se dessa encrenca, antes que acabe definhando naquele local.

Imediatista na mescla de suspense e ficção científica (características que o episódio compartilha com quase todos desta nova coletânea), este curta faz muito lembrar o clássico “Hardware-O Destruidor do Futuro”, além da ficção “Planeta Vermelho”, sobretudo, no designer bastante parecido do robô maligno.


O Gigante Afogado

No último e mais reflexivo de todos os episódios –talvez, por contar com a direção de um dos produtores, Tim Miller, mesmo diretor de “Deadpool” –acompanhamos a melancólica narração em off de um cientista que, ao lado de outros pares, é chamado para verificar e tentar entender um fenômeno inacreditável: O corpo de um gigante nu, totalmente similar a um humano normal, surgiu na beira de uma praia, já morto por afogamento.

O cientista se compadece do gigante e de seu amargo fim, notando inclusive as características mais particulares em sua fronte humana, mas ele parece ser o único –todos os demais ao seu redor (turistas, repórteres, estudiosos e meros curiosos) parecem até mesmo se esquecerem das similaridades humanas daquele gigantesco cadáver e passam a tratá-lo como uma curiosidade turística. Nos dias e e semanas que se seguem –e que ainda testemunham a inevitável decomposição do corpo –o gigante é escalado, pixado, usado como playground, e até mesmo esquartejado (!) com suas partes sendo exibidas, posteriormente, nos mais diversos estabelecimentos e pelas mais inusitadas razões.Um comentário bastante filosófico e pleno de ironia sobre a convulsiva falta de empatia dos seres humanos enquanto coletividade.

sábado, 12 de novembro de 2022

Pantera Negra - Wakanda Para Sempre


 O processo de dar continuidade a filmes de sucesso é uma fina arte que se exerce ao sabor de muitos acontecimentos da vida real. Quem não lembra do falecimento de Heath Ledger, um ano antes dele tomar o planeta de assalto com sua impecável personificação de Coringa em “O Cavaleiro das Trevas”? Certamente, o capítulo final daquela trilogia de Christopher Nolan viu-se comprometido, em seus planos originais, pela morte do insubstituível intérprete do antagonista principal. É, por assim dizer, com algo um pouco parecido que se depararam os realizadores deste “Wakanda Para Sempre”: Tendo o diretor Ryan Coogler levado seu “Pantera Negra” a tornar-se o primeiro filme de super-heróis a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, uma fatalidade mudou os planos gloriosos que ele e a Marvel Studios certamente tinham para a continuação, a morte do protagonista Chadwick Boseman, em 28 de agosto de 2020, vitimado por um câncer.

A decisão da Marvel, guiada por um sentimento de luto que dominou também os fãs pelo mundo todo, foi também matar o personagem que ele interpretava, T’Challa, fazendo com que o legado do herói se encerrasse junto com o grande ator que o interpretava. Embora exalasse respeito, a decisão não deixou de impactar alguns fãs que se opuseram a essa escolha.

Contudo, todos –os que compactuaram com a manobra e os que dela discordaram –tiveram que conferir em “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”, os efeitos dessa decisão e as consequências dela para os coadjuvantes e para todo o Universo Marvel daqui para frente.

Imaginar o que teria sido o filme se Chadwick Boseman tivesse permanecido vivo é um gesto tão doloroso quanto irrelevante, o que importa é a obra plena de emoção e comoção que assim chegou aos cinemas.

É Ryan Coogler, Kevin Feigi e todo o elenco e equipe técnica unidos em preparar a melhor despedida possível para um amigo. É também o filme mais emocionante da Fase 4 da Marvel.

Quando “Wakanda Para Sempre” começa, somos apresentados a uma cena construída com vibração elíptica, onde de pronto, o personagem de T’Challa acaba partindo, por razões que o filme escolhe deixar em aberto. Segue-se um momento fúnebre –já vislumbrado nos trailers da produção –e a energia de luto e de despedida que se levanta a partir dali permeia todo o filme, sendo ocasionalmente atenuada pela urgência da trama que é contada.

Em suas facetas mais práticas, “Wakanda Para Sempre” lida também com a circunstância política acarretada pela decisão tomada ao final do primeiro “Pantera Negra”, no qual a nação africana e ultra-tecnológica de Wakanda revela todos os seus vastos recursos ao mundo. As Nações Unidas, agora, têm um ávido interesse no precioso metal que permite todo esse avanço à Wakanda, a raridade absoluta conhecida como vibranium.

Embora fosse presumido que o vibranium era de exclusividade de Wakanda, algumas pesquisas capitaneadas pelos EUA descobrem que há, sim, vibranium em outra parte do mundo. Mais precisamente nas profundezas do Oceano Atlântico. Entretanto, também lá, o precioso metal tem seus donos: O reino aquático de Talokan, oriundo de uma ancestral cultura asteca, e governado com protecionismo implacável pelo poderoso mutante Namor (Tenoch Huerta, fabuloso no personagem).

Estrategista feroz, Namor procura a rainha Ramonda (Angela Basset, maravilhosa) e Shuri (Letitia Wright), respectivamente, a mãe e a irmã, ainda enlutadas de T’Challa, para pedir-lhes um gesto de boa vontade, da parte de Wakanda, para Talokan: Encontrar e entregar-lhe o gênio responsável pela invenção da prodigiosa máquina que possibilitou aos americanos detectar o vibranium no fundo do mar. No entanto, a decisão não se revela fácil: O gênio em questão é a adolescente Riri Williams (Dominique Thorne, uma excelente aquisição ao Universo Marvel) cuja empatia e inteligência espelha muito as de Tony Stark –o super-herói inaugural desse mesmo universo.

Será esse e outros impasses que colocarão as forças de Talokan em rota de colisão com as de Wakanda, o que faz do filme formidável perpetrado por Ryan Coogler, um épico de guerra, adornado por todo o viés político que as obras mais profundas e circunspectas dessa orientação costumam ter.

É claro que “Wakanda Para Sempre” carrega em si o fardo de ser inúmeras outras coisas também: Um trabalho que resgate aos olhos do público a excelência da Marvel Studios, dispersa em projetos, televisivos e cinematográficos, que, desde o descomunal “Vingadores-Ultimato” não chegaram a empolgar como deveriam; uma profusão habitual de efeitos visuais e ação constante à qual a Marvel já acostumou seus expectadores; uma introdução, fervilhante em representatividade de Namor e toda a mitologia (diferenciada das HQs) que o cerca, na qual o reino submarino de Talokan (diferente da Atlântida vista em “Aquaman”, por exemplo) ganha caracterizações que remetem à cultura mezomericana, numa manobra radical mas, bastante interessante da parte dos realizadores; uma passagem de bastão, do falecido T’Challa para Shuri (a protagonista de fato deste filme); uma cuidadosa preparação para muitos conceitos que haverão de definir o Universo Marvel daqui para frente –com a adição, não só de Namor (aqui contextualizado como um antagonista, mas, perfeitamente capaz de ser um herói extremamente complexo e fascinante em projetos vindouros), como também de Riri Williams (herdeira de Stark e do “Homem de Ferro” cuja série própria, “Ironheart”, já está prevista no Disney Plus) e até da Condessa Valentina Allegra de La Fontaine (a ótima Julia Louis-Dreyfuss), personagem que deve ganhar tremenda importância num futuro próximo –e, acima de tudo, uma homenagem ao legado deixado por Chadwick Boseman.

Na sua tentativa de abraçar tantos objetivos, “Wakanda Para Sempre” naturalmente cede à pressão –até porque não resulta numa obra de cinema tão perfeita quanto a produção anterior –contudo, ao voltar-se, no seu desfecho, aos seus fãs, e ao investimento emocional e incontornável da dor pela partida de seu astro na vida real, o filme entrega um sentimento muito genuíno ao público, elevando sua experiência sensorial para além da adrenalina palpitante de suas cenas de ação.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Fruitvale Station - A Última Parada

Antes de entregar um derivado de qualidade inconteste da série “Rocky”, em “Creed”, antes de realizar um dos melhores filmes da Marvel Studios, obtendo a histórica primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme para uma adaptação de histórias em quadrinhos, em “Pantera Negra”, o diretor Ryan Coogler mostrou a que veio neste drama independente, uma austera e emotiva reconstituição das últimas horas de vida do americano Oscar Grant, cujo assassinato, pelas mãos ineptas e despreparadas de policiais truculentos na Estação Bart Fruitvale, em Los Angeles, ocorrido na manhã de 1º de janeiro de 2009, deu início a uma série de protestos raciais nos EUA –um filme que, pelas pertinentes circunstâncias que o cercam, dialoga muito com o presente, e a indignação suscitada pela morte de George Floyd, em condições parecidas.
O filme se inicia com uma gravação documentada numa câmera de celular, mostrando a cena que chocou milhares de pessoas, onde um cidadão negro é alvejado sem justificativa por policiais que o prenderam, e a seus amigos, sem qualquer acusação.
A história começa pouco menos de 24 horas antes. Oscar (o formidável Michael B. Jordan) está tentando dar estabilidade ao relacionamento com a namorada Sophina (Melonie Diaz, de “Os Reis de Dogtown”) com quem tem uma filha, a pequena Tatiana (Ariana Neal). Com sua habilidade dramática, o diretor Coogler consegue mostrar em poucas cenas o contexto mundano de dramas e agonias cotidianas do casal: Além do fantasma de uma traição a assombrá-los, Oscar perdeu o emprego e tem lá suas conexões com a criminalidade para atormentá-lo –possibilidades corruptíveis que sempre parecem seduzir quando ele se encontra no desespero do desemprego e da impossibilidade de cuidar da própria mulher e filha.
É o dia 30 de dezembro de 2008. E é também o aniversário de sua mãe, Wanda, vivida pela sempre magnífica Octavia Spencer.
Na vicissitude de uma vida comum, Oscar vai ao mercado fazer comprar –onde precisa praticamente implorar, sem muitos resultados, para tentar recuperar o emprego que perdeu –roda com o carro por L.A., e até mesmo cogita vender droga para ter algum dinheiro no bolso; opção da qual as amargas lembranças de sua prisão, anos antes, o fazem desistir.
Numa cena particularmente notável, ele procura, em vão, ajudar um cachorro, atropelado por um motorista inconsequente –o sofrimento do animal, a aflição de Oscar e a absoluta ausência de quaisquer outras pessoas em cena, simbolizam com contundência a denúncia do diretor Coogler para a nociva falta de empatia que os seres humanos tiveram por hábito cultivar em sociedade nas últimas décadas.
À noite, Oscar e Sophina vão à casa de Wanda comemorar seu aniversário –e, de novo, surpreende o expectador, a maneira com que a condução serena e impecável de Coogler consegue arrancar espontaneidade do elenco em interação.
“Fruitvale Station” é um registro de uma comunidade em particular, seus ritos, seus hábitos, suas vidas e suas turbulências, seus humores e seus contratempos; o porque deles falarem como falam, agirem como agem e se vestirem como se vestem, e do porque têm o direito de não serem julgados por isso.
A cena fatídica na Estação Bart Fruitvale se aproxima calma e dolorosamente –porque até lá, o diretor já nos tornou próximos de Oscar, já fez dele alguém que conhecemos e por quem nos importamos; e nos fez saber, desde o princípio, que seu fim será amargo.
O retrato do momento em que toda a tragédia se deflagrou –reconstituído em justaposição á cena verdadeira vista no começo do filme –é de uma execução primordial, tamanho seu minimalismo, sua precisão e, em contraponto, a capacidade peculiar do diretor em encontrar mesmo ali uma emoção sincera, absolutamente despida de sentimentalismos e manipulações romantizadas.
“Fruitvale Station” levanta questões que sempre haverão de nos importar enquanto sociedade, exige respeito e admiração pela realização profissional e brilhante da parte de todos os envolvidos a frente e atrás das câmeras, e consegue comover com a preciosidade do retrato humano e próximo que faz de seres humanos como eu e você.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

É visto que os filmes da Marvel Studios vêem atrelados a uma narrativa que os interliga aos outros filmes do estúdio. “Pantera Negra”, por exemplo, é conectado aos acontecimentos de “Capitão América-Guerra Civil” –onde o herói, T’ Challa foi apresentado pela primeira vez –e não restam dúvidas se conectará também, por conta de inúmeros detalhes, à “Vingadores-Guerra Infinita”.
Ainda assim, tal e qual os mais hábeis artesãos que a Marvel recruta, o diretor Ryan Coogler é astuto o suficiente para fazer deste filme solo um espetáculo inteligente, instigante, envolvente e eletrizante por si só, independente das demais produções: “Pantera Negra” ombreia em qualidade e primor –assim como em temática e austeridade narrativa –a um dos melhores trabalhos do estúdio, o magnífico “Capitão América-Soldado Invernal”.
Extremamente talentoso (como ficou comprovado nos ótimos “Fruitvale Station-A Última Parada” e “Creed-Nascido Para Lutar), Coogler conta a história de seu protagonista, T’ Challa (que Chadwick Boseman interpreta com solidez e propriedade) a partir dos desdobramentos do ocorrido em “Guerra Civil”, no caso, o assassinato por atentado de seu pai T’ Chaka, o que faz dele, por sucessão, o rei de Wakanda (uma nação sul-africana evoluída, futurista e absolutamente secreta) e também seu lendário protetor, o Pantera Negra.
Para acompanhá-lo na ritualística cerimônia de coroação, T’ Challa faz questão da presença da mulher que ama, a cativante, mas nem por isso menos enérgica Nakia (vivida com carisma, vigor e encanto pela linda Lupita Nyong’o, de “12 Anos de Escravidão”), que além de tudo é uma espécie de agente secreto a serviço de Wakanda, monitorando as outras nações do mundo e tentando auxiliar os dissidentes wakanianos no processo.
O roteiro de Coogler, contudo, não se acomoda na inércia dos eventos que transcorrem com naturalidade: Já no começo, ele introduz um flashback envolvendo o rei T’ Chaka ainda em sua juventude –ele próprio como Pantera Negra –que somente a medida que a trama evolui vamos nos dando conta de seu primor.
É quando essas duas linhas narrativas se fundem (T’ Challa assumindo as funções e responsabilidades de rei; e o segredo envolvendo um erro do passado cometido por seu pai) que o filme de Coogler evoluiu do ótimo para o excelente: Eis que T’ Challa descobre que o aliado do contrabandista Ulisses Klaus (Andy Serkis, ótimo), o misterioso Killmonger (Michael B. Jordan, um vilão vibrante e espetacular), é na realidade um membro renegado de sua própria família real e, portanto, digno de desafiá-lo numa luta pelo trono de Wakanda.
Reunindo um dos mais sensacionais e bem empregados elencos da Marvel Studios –além dos atores já mencionados, “Pantera Negra” tem também Danai Gurira (da série “The Walking Dead”) como a líder das Dora Milaje, a arrojada e eficaz guarda real de Wakanda constituída de mulheres guerreiras; o grande Forest Whitaker como Sully, o curandeiro responsável pelo segredo que concebe poderes ao herói (e pivô do grande segredo do filme); a veterana Angela Basset como a rainha, mãe do herói; o britânico Martin Freeman (da trilogia “O Hobbit” e da série “Sherlock”); o indicado ao Oscar Daniel Kaluuya (por “Corra!”); e a notável Letitia Wright, como aquela que deve ser a mais divertida personagem do filme, a inventora e irmã do herói, Shuri –o filme de Coogler guarda desdobramentos radicais, surpreendentes e pertinentes em sua trama, na medida em que se beneficia do fato deste ótimo personagem não ser tão conhecido assim do grande público (o que permite ao realizador surpreender os expectadores com certos lances em sua trajetória) e entrega, na forma de um trabalho extraordinário, um dos mais perfeitos, politizados e válidos manifestos do cinema comercial em prol da diversidade: Um filme de super-herói com um elenco majoritariamente negro, e que ainda por cima é facilmente incluso entre os melhores que a Marvel já produziu

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Creed - Nascido Para Lutar

A série “Rocky” já mostrou-se bastante longeva, e esse aspecto foi explorado ao máximo por seu criador e intérprete Sylvester Stallone.
Depois do ótimo “Rocky Balboa”, de 2006, parecia que a franquia tinha chegado à um final digno e condizente.
Não deixa de ser verdade.
Porém, o promissor diretor e roteirista Ryan Coogler (do notável “Fruitvale Station”) tinha outros planos: Ele almejava fazer uma espécie de derivado de “Rocky”, centrado num personagem, Adonis (vivido por Michael B. Jordan, presença recorrente nos filmes de Coogler), que seria filho de Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros filmes da série) e que contaria, providencialmente, com a luxuosa presença de Rocky, pela primeira vez como coadjuvante, mas um coadjuvante de peso emocional e significativo na narrativa –um daqueles casos em que o personagem, da maneira como é escrito, representa quase um presente para o ator.
A trama segue então os passos de Adonis, filho bastardo de Apollo, mas que nunca conheceu o pai –em vez disso, passou quase a infância, indo de um reformatório a outro.
Adotado pela viúva de Apollo depois que este morre (mais, precisamente, em “Rocky 4”), Adonis cresce e resolve abraçar o legado da família: As lutas de boxe.
Mas, ele tem muito o que provar antes de assumir a pesado herança do nome de seu pai. Com isso em mente, ele passa a treinar com o homem que Apollo mais confiou em vida, o campeão Rocky Balboa.
A direção de Coogler, ao mesmo tempo em que revela competência na forma com que estabelece a premissa, não busca arroubos de reinvenção, pelo contrário, sua narrativa é bastante reverente aos filmes anteriores da franquia, obedecendo sua estrutura, concebendo cenas que se sucedem com familiaridade às que vimos em praticamente todos os outros filmes e que só não caem no ingrato terreno da repetição, porque Coogler é talentoso de fato e sabe dar a elas o devido ímpeto de inovação e diferenciação.
No elenco, Jordan está muito bem –até consegue ficar parecido com Weathers em algumas cenas –assim como também está ótima a bela Tessa Thompson, no papel da mulher que ele ama (e que pode ganhar mais importância na provável continuação), já, Rocky é um caso à parte: Na atuação de Stallone, o personagem parece como uma vestimenta que nele se encaixa de modo confortável: Timing, maneirismos, trejeitos e inflexões de Rocky são características com as quais ele demonstra saber trabalhar com parcimônia e dosagem acertada, justificando a indicação para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante que ele recebeu eu 2016 –e que, infelizmente para alguns, não concretizou-se em vitória, tendo Stallone perdido para Mark Rylance, de “Ponte dos Espiões”.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Quarteto Fantástico

Talvez, o filme mais massacrado pela crítica e ignorado pelo público do ano. 
Mas, falando francamente, não chega a ser essa bomba que muitos falam. Não chega, também, a ser bom. Entretanto, não acho que mereça ganhar, por exemplo, o prêmio de Pior Filme de 2015, no Framboesa de Ouro (embora essa possibilidade exista). 
É uma ficção científica esmerada em sua maior parte do tempo, e com boa e caprichada produção. O problema desse novo “Quarteto Fantástico” é que suas qualidades ficam à sombra de seus erros, que depõem contra o bom produto que poderia ter sido. E em seu terço final, a narrativa se ressente dos problemas do filme, empalidecendo, cedendo à essa pressão, e concluindo muitas cenas com artifícios que beiram o ridículo, o quê é terrível para um filme que começa pretendendo-se realista, no nível dos filmes de Christopher Nolan. 
Outra influência que o filme parece ter é o “Hulk” de Ang Lee: Ele, por vezes, parece desviar-se de muitas características enraizadas dos quadrinhos (e que foram respeitadas à risca nas adaptações anteriores feitas em 1988, por Roger Corman –e nunca lançada comercialmente –e 2005, por Tim Story), para abraçar um conceito de gênero mais específico, mais calcado em alterações artisticamente justificáveis. Mas, o diretor Josh Trank (do muito mediano “Poder Sem Limites”) não tem aquela profunda noção de narrativa de Ang Lee, que permitiu a ele dar a seu “Hulk” uma atmosfera tão pouco usual. Na verdade, não falta somente essa noção de narrativa à Trank; falta-lhe também uma certeza do que, de fato, ele quer, qual é a direção que, afinal, pretende dar a seu filme. É isso tudo que prejudica as coisas, e faz com que o roteiro, o elenco, e todo o mais se perca em dado momento. 
Cenas particularmente ridículas: Quando resolvem fazer a tal viagem interdimensional, Reed Richards tem a idéia de levar seu melhor amigo com eles, Ben Grimm, que nada mais é do que um latoeiro trabalhando num ferro-velho. Por quê? Porque morando próximos um do outro quando eram crianças, e ele é seu amigo! Outra: Ao fazerem a viagem (Reed, Ben, e mais Johnny Storm e Victor Von Doom), eles esquecem (ou talvez a produção tenha esquecido...) do outro membro do quarteto fantástico, Sue Storm, a futura mulher-invisível; ela fica na Terra (!). Mas, como ela obtem seus poderes? Bem, isso não é muito bem explicado pelo filme, mas parece que ela os adquire quando a nave retorna, e emite uma espécie de explosão de energia. Mas, o mesmo acontece em outros momentos do filme (a viagem interdimensional com essa explosão de energia), pelo menos umas outras três vezes, e em todas elas, outras pessoas estão ali presentes, sem que nada lhes aconteça! 
Agora, eu percebo que, se for elaborar todos os deslizes que vão se sucedendo no filme a partir de determinado ponto, este se tornará um texto grande demais. Resumindo: “Quarteto Fantástico” nos faz perceber que, embora façam parecer fácil, as adaptações bem-sucedidas e bem feitas da DC Comics e, em especial, da Marvel Studios são trabalhos feitos com cuidado e critério, que merecem nosso reconhecimento.