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domingo, 1 de junho de 2025

Pecadores


 A premissa desta brilhante obra do diretor Ryan Coogler parece claramente beber da fonte de um cultuado filme de terror dos anos 1990, dirigido por Robert Rodrigues e roteirizado (e estrelado) por Quentin Tarantino –“Um Drink No Inferno”.

Como naquele filme há, em “Pecadores”, uma dupla de irmãos (gêmeos, neste caso), cuja trajetória de crimes e mortes os leva à noite fatídica que ocupa o cerne da narrativa; e como naquele filme, há aqui também uma circunstância de cerco onde os protagonistas sobreviventes devem enfrentar perigos impronunciáveis na forma de vampiros até o sol amanhecer –perigos esses que representam um contraponto muito maior ao perigo que eles mesmo representavam.

O ano é 1932. No estado da Louisiana, na cidadezinha de Clarksdale, recém-livrada da Ku Klux Khan (ou, pelo menos, é o que parece), os gêmeos Elijah e Elias Moore, também conhecidos por Smoke e Stack (ambos interpretados, por meio de notáveis efeitos digitais de duplicação, por Michael B. Jordan), retornam ao local onde cresceram dispostos a fazer fortuna. Após um período em Chicago –onde aumentaram sua fama de implacáveis para muito além dos crimes locais –os gêmeos agora têm dinheiro para investir no sonho de um Clube de Blues, comprado de um proprietário ex-Ku Klux Khan, e para o qual almejam trazer seus conhecidos mais próximos: O comerciante chinês Bo Chow (Yao) e sua esposa Grace (Li Jun Li, de “Babilônia”) para ajudar nos preparativos; a esposa de Smoke, Annie (Wunmi Mosaku, de “Deadpool & Wolverine”), para contribuir com seu toque mágico na cozinha; o grandalhão Cornbread (Omar Miller, de “8 Mile-Rua das Ilusões”) auxiliando na segurança; e fornecendo a música aos frequentadores, o veterano e calejado pianista Slim (Delroy Lindo, de “Regras da Vida”) e o primo deles, o assombrosamente talentoso Sammie (Miles Caton); além das presenças das beldades Pearline (Jayme Lawson, de “Batman”), como cantora, e Mary (Hailee Steinfeld), como namorada de Stack.

Tal e qual (de novo) “Um Drink No Inferno”, a trama de “Pecadores” se desdobra em uma única noite. Durante o seu breve prólogo, uma narração em off nos explica que existem pessoas cujo talento musical consegue evocar a música do passado e do futuro, tal habilidade, é explicado também, desperta a atenção e o interesse de alguns seres das trevas, capazes de perceber essa importância sobrenatural.

É a música de Sammie (cujo alcance e a influência através dos tempos são ilustrados numa cena absolutamente memorável) que acaba atraindo as criaturas que, de um ponto em diante, darão um novo rumo ao filme.

Ao contrário da obra de Rodrigues e Tarantino –criticada, à época de seu lançamento, por trazer uma guinada tão abrupta para o gênero de vampiros na metade de sua duração que praticamente contrastava com a parte anterior do filme –este trabalho de Coogler nunca perde sua harmonia, sua solidez ou sua coerência. Na maneira como justapõe os revezes raciais como continuidade trivial de um horror ainda maior a espreitar nas sombras, “Pecadores” se assemelha ao também excelente trabalho desempenhado na série “Entrevista Com O Vampiro”, cuja primeira temporada também trazia essa mesma postura alegórica.

Assim como tantas obras igualmente geniais a ganhar a ribalta, o filme de Coogler se apropria de um difundido conceito de terror para discutir temas sempre em voga, reflexões de ordem social e humana, enquanto deixa sua própria marca dentro de um gênero popular e inesgotável.

E neste caso, ele o faz com um trabalho vibrante e impecável –“Pecadores” é uma jóia preciosa dentre as inúmeras obras cheias de brilhantismo, inteligência e ímpeto renovador que afloraram através do gênero de terror nas temporadas 2024 e 2025, como “Entrevista Com O Demônio”, “A Substância”, “Nosferatu”, “Presença”, “Acompanhante Perfeita” e vários outros, sinalizando uma fabulosa onda crescente de um novo e revitalizado terror concebido em terras norte-americanas.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

As Marvels


 Houve uma época, não muito tempo atrás, em que a Marvel Studios era um gigante das telas de cinema; filmes produzidos pelo estúdio e protagonizado por seus personagens eram estrondosos sucessos de bilheteria e, não raro, iam muito bem numa avaliação da crítica revelando uma capacidade notável para o estúdio compreender as dinâmicas de seus personagens e dar-lhes versões cinematográficas que conseguiam satisfazer em inúmeros aspectos.

Essa, porém, é uma época que ficou no passado –essa é a triste constatação a que se chega ao conferir “As Marvels”. Dono do nada honroso título de pior bilheteria do estúdio (isso dentre seus mais de vinte longa-metragens) o filme dirigido por Nia DaCosta não é exatamente uma obra ruim. Seu pecado é não atingir notas de intensidade que justifiquem qualquer entusiasmo do público, para o bem ou para o mal. Ele não consegue sequer ser um produto de opções controversas que despertam indignação apaixonada nos fãs como fez, por exemplo, “Batman Vs Superman”. Na ânsia de fazer um produto que errasse o mínimo possível, evitando ousar ou atrever-se em qualquer direção, a Marvel Studios realizou uma obra pasteurizada que perde cada uma das chances de se fazer memorável.

E essas chances, infelizmente, existiram.

Temos como exemplo disso o aguardado desenlace da relação entre Carol Danvers (Brie Larson) e Monica Rambeau (a belíssima Teyonah Parris), conduzido desde “Capitã Marvel”, na qual Monica se tornou adulta enquanto esperava pela concretização da promessa da ‘Tia Carol’, de voltar à Terra para rever ela e a mãe, Maria Rambeau (Lashana Lynch). Aconteceu que Carol, ocupada demais com as atribulações pesadíssimas de uma superheroína de nível cósmico por todo o universo afora, não foi capaz de regressar à Terra antes de Maria morrer de câncer e Monica acabar ganhando, também ela, poderes inusitados (explicações para isso, na série “WandaVision”) –em “As Marvels”, o momento em que enfim Monica e Carol se reencontram e têm a oportunidade para esclarecer sua relação afetiva é tão negligenciado, tratado de maneira tão desdenhosa e com tamanha falta de profundidade que dá até pra imaginar o misto de injúria e inconformismo que despertou em todos os fãs.

E essa sensação de descontentamento diante do que podia ter sido e não foi é, lamento dizer, uma constante em “As Marvels”.

Na trama, Monica e Carol têm seus poderes entrelaçados com os da terceira protagonista do filme, Khamala Khan (Iman Vellani, da série “Miss Marvel”, de longe, a melhor coisa do filme todo): Toda a vez que elas usam seus poderes em conjunto, estejam em qualquer lugar do universo que estiverem, as três trocam de lugar –o que prontamente explicada a misteriosa cena pós-créditos no final da série “Miss Marvel”...

Esse curioso efeito acaba tornando-as uma espécie de equipe involuntária, unidas contra a vilã da vez, a implacável Dar-Benn (Zawe Ashton, esposa de Tom Hiddleston, o “Loki”), uma Acusadora do antigo Império Kree (mesmo posto de Ronan, o vilão de “Guardiões da Galáxia”) cujo objetivo é juntar os dois lendários e poderosos braceletes quânticos –um dos quais, responsável pelo despertar dos poderes de Khamala –e usá-los para extrair o poder do sol, ou alguma coisa assim...

Em algum momento dessas idas e vindas, o roteiro deixa entrever numa ou noutra motivação injustificada, o crescente desprezo que os realizadores parecem sentir pelo material com o qual estão trabalhando: Não apenas as predisposições para estabelecer propósitos em seus personagens vai minguando (chegando ao cúmulo de uma constrangedora cena musical ganhar mais importância na trama do que muitas explicações plausíveis), como também inúmeras cenas que deveriam esclarecer alguns pontos de seu enredo acabam completamente ignoradas, talvez, deixadas de lado de forma displicente numa sala de edição, como a aparição sem sentido de Carol Canvers na primeira cena em que as Marvels se veem todas juntas; o destino dado ao planeta Aladna que teve todo seu oceano sugado para outro lugar; o portal que drenava a energia do sol; o destino final dos braceletes (no desfecho, só um deles é visto com Khamala) e muitos outros momentos.

É como se toda aquela minúcia e atenção dedicada aos detalhes que fazia de “Vingadores-Ultimato” uma obra tão brilhante e notável já não fosse qualquer prioridade aqui.

domingo, 18 de junho de 2023

Homem-Aranha Através do Aranhaverso


 Já de arrancada percebemos o grande acerto que foi os realizadores da animação “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” terem dado mais espaço à personagem Spider-Gwen (voz de Hailee Steinfeld). Vinda de uma realidade alternativa onde Peter Parker morreu –e quem terminou convertendo-se em Mulher-Aranha foi ela, Gwen Stacy –a Spider-Gwen (como passou a ser chamada pelos fãs) logo tornou-se favorita do público nos quadrinhos, tradição que se manteve ao aparecer nos cinemas em “Homem-Aranha No Aranhaverso”, que esta nova animação trata de continuar. Todavia, Gwen não é a única protagonista deste arrojado longa-metragem de animação –desde já, grande candidato ao Oscar da categoria no ano que vem –há também, Miles Morales (voz de Shameik Moore).

Transformado em Homem-Aranha após os contratempos que levaram à morte de Peter Parker em sua realidade, Miles vivenciou todo o arco narrativo de aprendizado e descoberta do herói no filme anterior –agora, ele está tentando ainda adaptar-se à nova vida, e às novas mudanças que não param de chegar: Os pais de Miles –o pai, recentemente promovido à capitão de polícia; a mãe, uma enfermeira que imigrou de Porto Rico –relutam em deixar que Miles explore todo seu potencial indo estudar numa faculdade em Nova Jersey, longe do Brooklyn, onde acreditam mantê-lo sempre por perto. Essa dramaturgia, até bastante importante para o filme e o personagem, não tem muito tempo para transcorrer quando uma inusitada ameaça se manifesta: Trata-se do Mancha (!?), cientista capaz de materializar buracos de teleporte aqui e ali, e que é um dos vilões mais subestimados e ridicularizados do Homem-Aranha nos quadrinhos. Contudo, a criatividade irreprimível dos diretores Joaquim dos Santos, Justin K. Thompson e Kemp Powers, e dos roteiristas Phil Lord, Christopher Miller e David Callaham transforma Mancha num contratempo que começa, sim, atrapalhado e desengonçado (ele mal consegue controlar os poderes que ganhou por puro acaso no clímax do filme anterior), no entanto, a medida que a narrativa desvenda uma amplitude maior de seus poderes, descobrimos, ao lado de Miles, uma periculosidade que pode acabar colocando em risco todo o Multiverso.

Na sequência desses acontecimentos, Miles reencontra Gwen, por quem teve uma queda durante sua breve interação no outro filme –sendo personagens vindos de universos distintos, não havia, para os dois, maiores esperanças de se verem uma outra vez, ainda assim, Gwen acaba aparecendo no quarto de Miles. As explicações são breves, mas pontuais: Gwen (como vemos no prólogo arrebatador deste filme) foi recrutada por Miguel O’Hara (voz de Oscar Isaac), um Homem-Aranha taciturno e autoritário vindo do ano de 2099, para compor um numeroso grupo formado por versões alternativas do Homem-Aranha vindo de várias partes do assim chamado Aranhaverso. A missão deles: Impedir que indivíduos desgarrados de suas realidades originais (pelos eventos mostrados no filme anterior) comprometam a existência dos vastos universos provocando a destruição de todos eles.

Dentro dessa curiosa lógica multiversal, Miles Morales ocupa uma posição inesperada; ao que tudo indica, nunca foi o destino dele se tornar um Homem-Aranha –tanto é que a aranha radioativa que mordeu-o, dando-lhe seus poderes, veio por acidente de uma outra realidade. Para Miguel O’Hara, Miles é, portanto, uma anomalia, das tantas que ele impôs a si próprio a missão de corrigir.

É curioso notar que, no empuxo proporcionado a seus muitos e notáveis personagens, “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” é um filme sobre paternidade: É sobre o Capitão Stacy, pai de Gwen, e sobre o seu dilema de perseguir a própria filha por não saber ser ela a vigilante mascarada Mulher-Aranha; é sobre o Capitão Morales que, como policial, tem a relutante ajuda no Homem-Aranha para lutar contra o crime, sem saber que ele é seu filho, Miles, cujos segredos dessa vida dupla, aos poucos vão minando a relação que tinham; e é também sobre o veterano e fora de forma Peter Parker (do filme original) que redescobriu sua satisfação para viver (e seguir sendo Homem-Aranha) ao se tornar pai da pequenina May Day e sobre o próprio Miguel O’Hara, alimentado e impulsionado pela amargura de ter perdido mulher e filho devido a um erro multiversal –e disposto a não deixar que esse mesmo erro se suceda com mais ninguém novamente.

É um primor que “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” traga tantos personagens e que, mesmo assim, todos encontrem um momento satisfatório de desenvolvimento que os fazem mais profundos do que inicialmente se presume que eles sejam, e mais notável ainda que esse desenvolvimento se dê por meio de um tema que parece conectar a todos eles numa única e emocionante unidade narrativa –a despeito de manter o mesmo jogo assombroso de cores (os estilos de animação distintos variam conforme os personagens de diferentes universos se apresentam), as mesmas cenas alucinantes de ação do original (ainda mais inquietas, estilizadas e vertiginosas) e a mesma cinematografia pulsante e original (inclusive, com um trilha sonora que oscila descontraidamente entre funk, soul, rap e hip hop), “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” surpreende o expectador ao revelar-se inesperadamente intimista –são as particularidades de ordem pessoal e os problemas emotivos, familiares e sentimentais de seus personagens, construídos com zelo e delicadeza fora do comum, que representam, de fato, o coração do filme, e o fazem ser assim tão especial.

Tão sublime e brilhante é esse trabalho que mal se percebe o tempo passar e o filme caminhar na direção de seu inevitável desfecho, que pega toda a plateia de surpresa ao não terminar coisa alguma: O encerramento deste “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” é tão abrupto e aberto que a sensação dos expectadores ao fim da sessão é uma ansiedade perplexa pela chegada da já anunciada terceira parte.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Gavião Arqueiro


 Dentre os heróis originais a integrarem os Vingadores, o único que jamais conseguiu ganhar um filme-solo foi, infelizmente, o Gavião Arqueiro, vivido pelo competente Jeremy Renner. Na verdade, o Gavião Arqueiro foi (e, em grande medida, ainda é) sistematicamente subaproveitado dentro do Universo Marvel –basta lembrarmos de sua participação, boa parte dela como um comparsa hipnotizado de vilão, em “Vingadores”. A série “Hawkeye”, do Disney Plus, prometia corrigir esse lapso.

Como todas as demais séries lançadas pela Marvel em 2021 –“WandaVision”, “Falcão & Soldado Invernal” e “Loki” –esta chega narrativamente atrelada a todos os diversos filmes da Marvel Studios que a precederam, e seus acontecimentos, certamente irão reverberar em inúmeros projetos que ainda estão por vir. Na verdade, isso é bem nítido: Como parece ser inerente aos trabalhos mais recentes da Marvel, “Gavião Arqueiro” é uma trama sobre a passagem de bastão, onde uma nova geração surge para preencher o lugar dos combatentes veteranos e cansados, e nesse sentido, a série é também sobre Kate Bishop (a maravilhosa Hailee Steinfeld), até mais do que sobre Clint Barton, codinome do Gavião Arqueiro –detalhe que ameaça colocá-lo para escanteio dentro da própria série que protagoniza.

O primeiro episódio, dentre seis, começa inspirado: Testemunhamos os eventos de 2021, do primeiro filme dos Vingadores, contudo, não do já conhecido ponto de vista dos heróis, mas do ângulo da pequena Kate, então uma garotinha de apenas nove anos, que vê, estarrecida, das dependências em frangalhos de seu apartamento, a devastadora Batalha de Nova York. Algo em meio àquele caos chama a atenção de Kate: Um herói, munido de arco e flecha, enfrenta os alienígenas e salva a vida das pessoas (incluindo a dela própria). ele não é provido de superpoderes, não tem um martelo mágico, nem uma armadura tecnológica. Ele conta apenas com sua habilidade e vigor. É o Gavião Arqueiro.

Nos dias atuais, Kate já é uma moça com vinte e tantos anos, mas a inspiração do Gavião Arqueiro, de certa forma a definiu: Ela é prodigiosa em arcoaria. Já, a Batalha de Nova York foi devidamente assimilada pela cultura pop; Foi convertida em um musical –“Rogers-The Musical” –exibido nos palcos off-Broadway; é essa peça teatral que vemos Clint Barton assistindo com os filhos enquanto ainda digere os acontecimentos de “Vingadores-Ultimato”, entre eles, a morte de sua melhor amiga, Natasha Romanoff (Scarlett Johansson). Esses contratempos e mais as árduas missões ao longo dos anos passaram a afetar seriamente a sua audição –numa manobra oriunda dos premiados quadrinhos escritos por Matt Fraction, que serve de produtor-consultor desta série,

Os caminhos de Kate e Clint, é óbvio, estão fadados a se cruzarem. E isso ocorre quando, por acaso, Kate veste o traje de Ronin –a identidade vigilante adotada por Clint quando sua família foi blipada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –e acaba na mira de uma gangue nova-iorquina ávida por vingança, a Gangue do Agasalho (?!), também oriunda da graphic-novel de Matt Fraction.

Clint então precisa livrar Kate –que na empolgação assume o papel de sua parceira/pupila/ajudante –do encalço da Gangue do Agasalho, e de sua perigosa líder, Maya (Alaqua Cox), uma surda-muda hábil em artes-marciais, enquanto corre contra o tempo para tentar passar o Dia de Natal junto de sua família –a série busca emular assim, as narrativas ágeis e descontraídas de alguns filmes natalinos, aos quais, inclusive, a produção faz referência. Entretanto, tudo é somente a ponta do iceberg: A trama de “Gavião Arqueiro” se ramifica a medida que descobrimos mais a respeito de seus inúmeros personagens, como Eleanor Bishop (a ótima Vera Farmiga), mãe de Kate, que guarda terríveis segredos envolvendo o assassinato de um ricaço; ou o noivo dela, o bon vivant Jack Duquesne (Tony Dalton), um espadachim de habilidade um tanto suspeita (na realidade, ele próprio um importante personagem de histórias mais antigas da Marvel); até mesmo Laura Barton (Linda Cardelini), esposa de Clint, dona de um passado misterioso que ameaça voltar para persegui-la, algo que seu marido não pode deixar; ou Yelena Belova (a sempre sensacional Florence Pugh) que, desde a cena pós-créditos de “Viúva Negra” sabemos ter Clint Barton na mira por acreditar ser ele o responsável pela morte de sua irmã, Natasha Romanoff; e, para a alegria de inúmeros fãs de quadrinhos, a aparição-surpresa, já nos episódios finais, do verdadeiro vilão da trama, um personagem (e um ator) que fará o público vibrar.

De fato, mais do que enfim conceder um tão aguardado protagonismo ao Gavião Arqueiro –embora nesse quesito ele também seja compensador –esta série prepara o terreno para os novos personagens que estão chegando ao Universo Marvel, sendo a mais notável aqui a mocinha Kate Bishop, que a talentosa Haille Steinfeld transforma numa heroína  com a qual é impossível o público não se encantar. Mas, não é só ela: A produção dedica quase um episódio inteiro para evidenciar a química extraordinária que ela compartilha com a Yelena Belova de Florence Pugh –certamente as caras mais proeminentes daqueles que estarão a frente dos Vingadores no futuro. A produção sempre competentíssima de Kevin Feige tira imenso proveito do formato estendido e episódico da série e trabalha seus carismáticos personagens com minúcia, parcimônia e minimalismo, fazendo com que acompanhá-los, seja em momentos de ação, de humor ou de drama, torne-se  uma experiência nunca menos que deliciosa.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Ender's Game - O Jogo do Exterminador


 O diretor sul-africano Gavin Hood ganhou do Oscar de Filme Estrangeiro por "Infância Roubada" e, em seguida, quase destruiu a própria carreira ao dirigir “X-Men Origens Wolverine”, o primeiro (e catastrófico) filme solo do personagem. Ao encarar esta adaptação austera, equilibrada e interessante de uma série conhecida de livros juvenis, ele tentou –e de certa forma conseguiu –provar que é um bom realizador.

Ender’s Game” passa longe de ser uma obra-prima, mas deixa evidente a condução sensata, a noção de ritmo e o entendimento de uma história que Gavin Hood pode ter quando não há todo um estúdio dando pitaco em seu trabalho.

A trama se passa no futuro, onde toda uma geração de crianças é treinada para uma provável guerra contra uma raça alienígena que tentou uma invasão fracassada a Terra no passado.

Uma dessas crianças é o jovem e promissor Ender (Asa Butterfield), cujo irmão mais velho não soube desenvolver seu potencial, fazendo com que a mesma descrença caísse agora sobre ele.

Sua rotina na academia militar situada no espaço é penosa: além de enfrentar desafiadoras provas simuladas, Ender precisa lidar com o bullying de inúmeros colegas e rivais que aparecem em seu caminho.

Dois são os mentores que pavimentam seu caminho rumo à uma certa auto-descoberta e à transição da perplexidade adolescente até a consciência estrategista e ética de um vida adulta inicial, e eles são o Coronel Graff (Harrison Ford) e o lendário Mazer Rackhan (Ben Kingsley, que fez, anos antes, “A Invenção de Hugo Cabret”, também ao lado de Asa Butterfield), além de outras personagens evidentemente plantadas com o nítido objetivo de guiá-lo ao amadurecimento pessoal, como atestam as presenças demagógicas, ainda que inebriantes de Hailee Stenfeld e Abigail Breslin; todavia, o personagem mais marcante do filme é o breve antagonista Bonzo, vivido por Moises Arias (da série "Hannah Montana" e de "Kong-A Ilha da Caveira") –ele responde pelo trecho mais envolvente, sólido e reflexivamente esclarecedor de todo o filme. Esse acerto particular (e possivelmente involuntário) em todo um único bloco narrativo (pois, Bonzo não tarda a ser descartado da trama), em detrimento das outras partes, boas mas não tanto, fornecem um estranho desequilíbrio ao filme de Gavin Hood. Ele flerta seriamente com a grande obra que poderia ter sido, para então, praticamente em toda sua segunda metade, investir em aspecto que nunca funcionam –sua elaborada reviravolta final, por exemplo, é um bocado fácil de antecipar.

No saldo geral, “Ender’s Game” termina como uma experiência positiva para o expectador, ainda que seu curto fôlego como trabalho antológico tenha feito sua repercussão, seja de público, seja de crítica, ser merecidamente muito aquém do que se esperava. Fato que termina condenando o gancho final –explicitamente necessitado do respaldo de uma continuação –a jamais ser concluído em outros filmes.

terça-feira, 14 de julho de 2020

As Panteras

Em seu formato originário de série de TV, “As Panteras” seguia –até por imposições orçamentárias –uma linha mais detetivesca e investigativa. Quando foi vertido para o cinema no ano 2000, estrelado por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu e dirigido por McG, “As Panteras” adquiriu escopo mais extravagante e assimilou uma miríade de referências cinematográficas de sua época (algumas pouco apropriadas ao seu próprio material) como lutas de kung-fu ao estilo “Matrix” (!) e todo o arsenal visual e estilístico de seu um tanto histriônico diretor. Ainda assim, seu sucesso rendeu uma continuação em 2003.
Já passados quase vinte anos daquele esforço inicial, “As Panteras” voltam a dar as caras no cinema, desta vez dirigidas pela também atriz Elizabeth Banks que aproveitou a oportunidade para agregar novas atitudes comportamentais à nova obra, relativas, como não poderia deixar de ser, ao contundente movimento de empoderamento feminino, a exemplo do recente “Aves de Rapina”.
As novas Panteras são ainda mais audaciosas, independentes e auto-suficientes em relação aos homens do que suas antecessoras, e caso não tenha ficado bem claro, isso já é explicitado no diálogo da cena inicial –ambientada no Rio de Janeiro, olhe só! –entre a personagem de Kristen Stewart e um alvo qualquer.
Kristen Stewart, por sinal, é uma das boas surpresas do filme: Enérgica, eufórica e incontrolável, sua personagem, Sabina, não lembra em nada a caracterização sorumbática que ela dá à protagonista Bella, de “Crepúsculo”.
Junto dela, está também a eficiente agente de campo Jane, vivida pela deslumbrante Ella Balinska.
Completando o trio principal, está Elena, interpretada pela maravilhosa Naomi Scott, conhecida da diretora Banks desde que trabalharam juntas no set de “Power Rangers”. Naomi, ou melhor, Elena é o que se pode chamar de protagonista do filme: A narrativa adota sua ótica subjetiva para, na maior parte do tempo, mostrá-la adentrando e descobrindo esse novo mundo. Elena é uma das brilhantes programadoras que trabalha na empresa milionária de seu patrão, o Sr. Brok (Sam Claffin, que trabalhou com a diretora Banks no set de “Jogos Vorazes-Em Chamas”). Inteligente, Elena descobre um pequeno problema colateral na nova e revolucionária tecnologia que Brok irá revelar ao mundo: Ao mesmo tempo em que é um programa capaz de operar em qualquer mainframe, é também capaz de gerar um poderoso pulso eletro-magnético tão forte que pode matar vidas humanas.
Inicialmente, ela tenta alertar seus superiores sobre isso –e é reprimida naquele tipo e encenação padrão que gosta de sublinhar a avareza e a insensatez masculina.
Depois, de posse de um cartão da Agência Towsend (que representa as Panteras), Elena contata os famosos investigadores (ou investigadoras) e, nesse processo, descobre que sua vida está em perigo.
Agora, na qualidade de ‘pantera em treinamento’, Elena terá de contar com Sabina e Jane, além da chefe Bosley (a própria diretora Banks, num papel pela primeira vez interpretado por uma mulher), para impedir misteriosos mal-feitores de vender o programa dotado do poder de matar no mercado negro de armas.
Tal e qual foi tentado nos filmes de 2000 e 2003, este novo “As Panteras” assume ares de filme grandioso de ação, e sua trama adquire reflexos condicionados dos thrillers de espionagem pós-modernos, como “Missão Impossível” (também ela uma série televisiva convertida em série cinematográfica) e “007”. Nessa reafirmação convicta de gênero, “As Panteras” apresenta os cacoetes de sempre –locações européias refinadas (começando em Hamburgo, na Alemanha, e daí para frente), cenas de perseguição e tiroteio, bugigangas tecnológicas e sequências de luta empenhadas num rigor físico coreografado –contudo, sai-se muito bem no resultado porque a direção de Elizabeth Banks é mais competente, equilibrada e sensível que a do histérico McG, e porque suas três protagonistas encontram facilidade em fazerem-se maravilhosas: A dinâmica de provocações verbais, camaradagem e rivalidade entre Kristen Stewart e Ella Balinska é um divertimento só, e Naomi Scott está encantadora e sensacional na pele da aprendiz de Pantera, para quem esse mundo novo de espionagem que se descortina à sua frente é quase como um clube restrito e exclusivo ao qual ela teve a sorte de ser convidada.
Um ponto interessante no filme de Elizabeth Banks é que ele reconhece todas as obras relativas às Panteras –desde o seriado dos anos 1970 e 80, até os filmes dos anos 2000 –como sendo parte do mesmo universo: E por isso, há em alguns momentos, referências aos filmes e à série, sobretudo, nas divertidas cenas pós-créditos, que contam entre outras com a participação de uma das panteras originais Jaclyn Smith.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Bumblebee

Os filmes dos Transformers resgataram para cinema o conceito dos robôs que se transformam em carros oriundo da famosa série animada dos anos 1980. E o fizeram com imenso sucesso de bilheteria, ainda que com qualidade cada vez mais questionável: Se o primeiro “Transformers” era de um primor escapista, o segundo “A Vingança dos Derrotados” era uma catástrofe que deixava em evidência as insuficiências artísticas abissais de seu diretor, Michael Bay, notoriamente avesso a narrativa profundas e intimistas, e muito adepto de decibéis e pirotecnia em níveis alarmantes. A saga –que resultou num total de cinco filmes –a partir daí, balbuciava entre as tentativas de Bay corresponder às críticas que faziam dele (sempre com largo êxito de público): O terceiro “O Lado Obscuro da Lua” era ao mesmo tempo uma continuação e quase uma contradição esquizofrênica do anterior; no quarto “A Era da Extinção”, Bay proporcionou uma reformulação no elenco humano (certo de que era o irritante Shia LaBeouf quem começava a saturar a plateia) e com isso uma espécie de recomeço (todavia, na prática, pouca coisa mudou de verdade); e o quinto “O Último Cavaleiro”, mais uma vez com Mark Wahlberg, um tratado insano e exorbitante de explosões, tiros e cacofonia representou uma pá de cal na tumultuada saga que assim se desenhou.
Com toda essa bagagem (e contando com Michael Bay como produtor, ao lado de Steven Spielberg), foi realizada esta primeira reformulação de fato que a um só tempo lança indícios de que pode seguir por uma linha narrativa alternativa, mostra-se um derivado concedendo protagonismo à um dos mais carismáticos personagens dos filmes anteriores (o pequeno robô Bumblebee), e retrocede no tempo (anos 1980, mais precisamente) a fim de aparentemente elucidar melhores detalhes no princípio da trama.
Com isso acompanhamos a trajetória de Bumblebee (cuja voz vem a ser do jovem astro Dylan O’ Brien, de “Maze Runner”), soldado integrante dos Autobots, enviado à Terra por seu líder, Optimus Prime, a fim de garantir uma sobrevida à sua resistência contra os Decepticons numa espécie de refúgio –toda essa primeira cena, ambientada no planeta Cybertron, é simplesmente de encher os olhos!
Já na chegada à Terra, Bumblebee tem seu dispositivo de voz destruído por um inimigo –e por pouco não perde a vida; tem, em vez disso, sua memória seriamente danificada.
Algum tempo depois, na forma inerte de um fusca (modelo que corresponde ao usado na série animada original, numa manobra nostálgica e genial dos realizadores), ele é encontrado pela jovem Charlie (a talentosa Hailee Steinfeld) que se torna sua amiga.
Logo, no entanto, o perigo virá não apenas na forma de alguns Decepticons que rastreiam Bumblebee até a Terra, mas também na de militares beligerantes que não fazem questão de discernir os bons dos maus (representados, sobretudo, no personagem de John Cena que entrega aqui uma atuação excelente, a despeito de sua fisionomia brucutu).
Assim sendo, o grande diferencial de “Bumblebee”, o filme, vem a ser o fato de ser o primeiro filme da franquia “Transformers” dirigido por outra pessoa que não Michael Bay –o escolhido aqui é o jovem Travis Knight.
E, se não chega a ser um gênio do cinema, Knight ostenta uma sensibilidade para a trama e os personagens que jamais se expressou nos cinco filmes da Era Michael Bay: “Bumblebee” concentra-se na delicada relação entre o robô que vira carro (e que expressa sentimentos num primoroso trabalho da equipe de efeitos especiais) e a garota que se torna sua amiga –aproveitando tal oportunidade para fazer um turbilhão de referências à hoje cultuada década de 1980, desde músicas famosas que preenchem de cabo a rabo a trilha sonora, até detalhes ínfimos e sutis, e as invariáveis citações cinematográficas (essencial para o tom do filme e do relacionamento que ele centraliza é, portanto, o filme “Clube dos Cinco”, de John Hugues, que aparece em algumas cenas). Esse senso de abordagem da narrativa, e da própria mitologia dos Transformers (e que se estende até seu registro visual) exercido pelo diretor Knight é corajosamente divergente do que Michael Bay fez, e isso é válido o suficiente para fazer deste o melhor filme realizado nessa franquia até então.
Se há nele um porém é a pouca experiência do próprio diretor que se manifesta com obviedade numa junção não tão harmoniosa entre as sequências mais intimistas e suas cenas de ação, ou algumas de suas inserções digitais –mesmo isso, contudo, são aspectos pequenos que não influem no ótimo resultado final deste filme que (diferente dos que o antecederam) aposta muito mais na empatia e na sensibilidade.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mesmo Se Nada Der Certo

Após a bem-sucedida mescla de cinema, música e improvisação chamada “Apenas Uma Vez”, o diretor John Carney ganhou aval para uma produção mais elaborada com direito à astros do primeiro time de Hollywood: Além dos protagonistas, Mark Ruffalo e Keira Knightley, há James Corden, Catherine Keener, a talentosa Hailee Steinfield (a menina de “Bravura Indômita”) e ilustres pontas de Adam Levine e Cee Lo Green.
Todavia, o que John Carney fez, em melodia e intenção, foi algo muito parecido com seu trabalho anterior beneficiado desta vez de valores consistentes de produção o quê tira dele, para o bem ou para o mal, aquela crueza que “Apenas Uma Vez” tinha.
Dan já teve melhores dias como produtor musical, mas agora amarga a decadência profissional, a relação pouco amigável com a esposa (Catherine Keener) e o afastamento da filha (Hailee Steinfield), tudo isso levando-o ao cume do alcoolismo –e, de início, falta alguma exatidão na atuação improvisada de Mark Ruffalo, que vai melhorando pouco a pouco e se firmando no papel ao longo do filme. É um ponto de virada então quando ele se encontra com Gretta (Keira Knightley, buscando escolhas interessantes que a afastem dos papéis de mocinha do início de sua carreira), e nela descobre um daqueles talentos singulares e brutos que marcam a indústria musical.
Esse encontro, enunciado numa série de flashbacks, já dá uma idéia da sofisticação que o orçamento mais generoso propiciou ao diretor, assim como na belíssima cena em que Keira canta só em um barzinho e, na ótica do personagem Dan, é vista cercada por instrumentos de acompanhamento que tocam sozinhos.
Dan e Gretta –que também tem lá seu drama, tendo sido largada em Nova York pelo namorado (Adam Levine), e agora se vê meio sem rumo –decidem produzir um álbum de forma independente, sem gravadora ou estúdio de som, o quê significa gravar as músicas nas ruas com toda a cacofonia da cidade e os incidentes eventuais interferindo no resultado.
É mais uma vez, portanto, uma ode de John Carney à arte dos cantores de rua como havia sido em “Apenas Uma Vez”, e como ele tornou a fazer depois deste filme em “Sing Street”, todas obras onde ele usa a música como um intermediário no fluxo de emoções complicadas (como o amor) entre pessoas igualmente complicadas: Aqui, como em seus outros trabalhos, Dan e Gretta se entendem, se ajudam e se compreendem, e na inevitabilidade da lida com sentimentos à flor da pele que a música inspira, vêem então o amor florescer. Ainda assim, Carney, como em seu filme anterior, opta por não mergulhar nesse oceano: Em seus filmes o romance apenas imbrica timidamente por frestas diminutas que as escolhas narrativas do diretor (Dan é casado; Gretta tem lá suas pendências com o namorado; e a idade de ambos não é muito compatível) não permitem aflorar plena e escancaradamente –é uma opção que ele faz, mas é uma pena desperdiçar casal de química tão nítida e encantadora como Mark Ruffalo e Keira Knightley.

“Mesmo Se Nada Der Certo” é mais hollywoodiano, mais melindroso, mas Carney é feliz em usar os recursos que dispõe a mais para elaborar um belo filme.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Bravura Indômita

O cinema da Era de Ouro de Hollywood exerce um encanto fenomenal nos Irmãos Coen. Para tanto, eles criaram alguns de seus mais notáveis trabalhos debruçando-se sobre os valores, as circunstâncias e a mentalidade daquela época e como esses fatores foram, em grande medida, decisivos na concepção de obras fundamentais à sétima arte.
É um pouco desse fascínio que eles parecem resgatar nesta maravilhosa adaptação do livro de Charles Portis, e que, em sua recriação cheia de talento e personalidade, não faz nada feio se comparado com o clássico de 1970, estrelado por John Wayne –o único filme, diga-se, que chegou a dar, à essa lenda do cinema, a chance que concorrer e ganhar o Oscar de Melhor Ator.
A versão dos Coen não tem pretensão de substituir, no imaginário do público, o filme clássico, mas sim de oferecer uma visão diferenciada sobre o mesmo argumento; em muitos aspectos os Coen tornam este um filme bastante diferente, infundindo nele suas percepções mais atualizadas, uma espécie de ambigüidade moral na caracterização dos personagens e do ambiente, e um nível de detalhamento que escapava às produções antigas.
Velho Oeste. Ao chegar num típico vilarejo ao Norte dos EUA, a jovem Mattie Ross (Hailee Stanfield, fabulosa) tem um único objetivo: mobilizar uma caçada implacável ao homem vil (Josh Brolin) que matou seu pai.
Aos seus 14 anos, porém, Mattie, mesmo que obstinada e astuta, obtém pouco crédito das autoridades locais, que invariavelmente ignoram seus apelos. A única ajuda que ela consegue é o beberrão, mal-humorado e caolho Rooster Cogburn (Jeff Bridges, numa atuação brilhante em postura e observação), junto do relutante oficial LaBoeuf (Matt Damon, também ele muito bem aproveitado).
Juntos, muitíssimo à contra-gosto, essas três pessoas de irredutível caráter, mas, completamente incompatíveis entre si empreenderão a tal caçada humana pelas longínquas e inóspitas pradarias americanas.
Absolutamente livres de auto-censura e de qualquer necessidade politicamente correta, os Coen, astuciosos, pontuam seu filme com observações que jamais surgiriam em uma produção dos tempos da Velha Hollywood, em especial o tratamento indigno e cruel reservado aos índios pelo homem branco.
Eles homenageiam o passado com a auto-consciência crítica de quem sabe pertencer ao futuro.
Nem por isso, contudo, os Coen enaltecem atos de anti-heroísmo da parte de seus personagens tão humanos e idiossicráticos: Espirituosos, os Coen expõe as facetas dúbias, emocionais e irreversíveis de sua jornada até o seu desolado fim, permitindo, por meio de intérpretes de grandeza maior, que o público se enamora de todos eles apesar de tudo, e compartilhe uma pontinha de lamento quando chega a hora da despedida.