Mostrando postagens com marcador Matt Damon. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Matt Damon. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dinheiro Suspeito


 Melhores amigos na vida real, os astros Matt Damon e Ben Affleck já dividiram a cena diversas vezes em filmes como o premiado “Gênio Indomável” (praticamente a estréia dos dois) ou o bizarro “Dogma”, de Kevin Smith. Em “Dinheiro Suspeito” – ou “The Rip”, o título original – eles voltam a fazê-lo desta vez do alto de uma carreira já consagrada e com anos de experiência nas costas – o que confere a ambos bagagem suficiente para interpretar magistralmente os dois protagonistas.

Dirigido brilhantemente por Joe Carnahan (realizador extremamente talentoso para com o gênero policial tendo assinando o magnífico “Narc”), “Dinheiro Suspeito” reflete um cinema que, em grande medida, já não é mais feito – uma obra sólida, enxuta, sem firulas, sobre personagens sem firulas existindo no limiar de extremos da Lei, da violência e da criminalidade, lembra muito (como quase todo o cinema de Carnahan) as produções cheias de energia, ênfase e personalidade realizadas nos anos 1970.

“Dinheiro Suspeito” já começa sem qualquer receio de expor o expectador à diálogos carregados de densidade: Sob a atmosfera já pesada de um escritório da polícia, o Tenente Dane Dumars (Matt Damon, ótimo) tece uma conversa com seu superior. A Capitã Jackie Velez (Lina Esco, de “London”), responsável pela investigação aos desdobramentos de um cartel de drogas em Miami, acabou de ser morta num violento e misterioso atentado. A suspeita recai sobre seus próprios colegas – a corregedoria acredita que foram policiais corruptos, na folha de pagamento dos traficantes, que perpetraram o atentado, e para tanto, agentes federais, representados entre outros pelo implacável Del Byrne (Scott Adkins), mobilizam uma bateria indigesta de interrogatórios a todos os membros da Unidade de Narcóticos do Departamento de Polícia de Miami, inclusive J.D. Byrne (Ben Affleck, surpreendente), seu próprio irmão!

A suspeita paira no ar.

Para Dane, J.D. e os agentes Numa Baptiste (Teyana Taylor, de “Uma Batalha Após A Outra”), Lolo Salazar (Catalina Sandino  Moreno, de “Maria Cheia de Graça”) e Mike Ro (Steve Yeun), os demais integrantes da força-tarefa, a Cap. Velez (que, à propósito, estava envolvida com J.D.) esbarrou numa descoberta bombástica – e que talvez seja a confirmação do que até então era uma lenda urbana: Paióis de dinheiro mantidos por cardéis que armazenam quantias tão assombrosas de dinheiro do tráfico que qualquer policial, honesto ou não, se sentiria compelido a pegar um pouco para si.

Engessados pela burocracia do sistema, abalados pelos detalhes nebulosos da investigação da Cap. Velez – detalhes estes que, em grande parte, parecem ter morrido com ela – e subitamente inseguros em depositar confiança absoluta uns nos outros, J.D., Numa, Lolo e Mike resolvem seguir Dane numa apreensão de dinheiro sugerida pelo que talvez seja uma dica anônima.

Com a noite a cair sobre Miami, eles chegam a um bairro residencial de Hialeah onde mora Desi (Sasha Calle, de “Flash”), uma jovem que alega inocência e afirma tão somente estar ocupando a casa de foi de sua falecida avó. Os policiais adentram o recinto e, numa busca, descobrem um paiol com a alarmante quantia de 200 milhões de dólares (uma das maiores apreensões de dinheiro já feitas!) – quando a dica anônima sugeria meros 150 mil!

Instala-se um clima de preocupação: Um valor tão grande não pode passar despercebido aos traficantes, ou mesmo aos policiais corruptos que os ajudam – o grupo de Dane, portanto, corre perigo. É questão de tempo até que inimigos fortemente armados caiam sobre eles. No entanto, segundo a Lei, eles não podem deixar o local sem ante fazer a contagem – e, de novo, ainda pesa a questão de que talvez não possam confiar uns nos outros.

Não existem distrações redundantes nem desvios melindrosos no filme de Joe Carnahan, o que ele constrói com habilidade espantosa é um trabalho básico, tenso, decorrido numa única noite e ambientado quase que totalmente num único lugar (ainda que seu refinamento cinematográfico evite qualquer impressão teatral). Seus atores estão em ponto de bala (não me lembro quando foi a última vez que vi Ben Affleck tão bem), seu roteiro (assinado por ele próprio e por Michael McGrale) além de engenhoso e meticuloso, aborda aspectos distintos da atividade policial e gerencia elementos que desembocam em revelações surpreendentes na parte final, e sua direção extremamente segura e absorvente equilibra com rara primazia as sequências explosivas de ação (ainda que, no clímax, ele exagere um pouco nesse quesito), a tensão gradual e crescente e a manutenção louvável de um enredo sempre em desenvolvimento, trazendo até o fim novas informações ao público.

domingo, 12 de novembro de 2023

Oppenheimer


 O cinema de Christopher Nolan sempre foi uma junção imprevista de gêneros comerciais. Ação e espionagem com thriller onírico em “A Origem”. Ficção científica em larga escala e drama familiar em “Interestelar”. Adaptação de histórias em quadrinhos com referência ao policial setentista em “Cavaleiro das Trevas”. Suspense rocambolesco com filme de época em “O Grande Truque”, e assim por diante. Há uma nova mescla em “Oppenheimer” e, na habilidade melindrosa e na insuspeita elegância com que tudo é feito, isso é um pouquinho mais difícil de ser dissecado.

Como sempre, no interesse irreprimível por seus personagens e suas trajetórias, Nolan distorce, torce e retorce o tempo a fim de acompanhar, justapor e refletir as várias etapas de suas vidas. “Como se resume toda uma vida?” é uma pergunta que surge, mais de uma vez, já na primeira parte de “Oppenheimer”. Nolan parece usar de seu filme para afirmar que tal feito não é virtualmente possível. Seu protagonista é J. Robert Oppenheimer (vivido com solidez metódica e competência instintiva por Cillian Murphy), o ‘pai da bomba atômica’. E quando o encontramos, Nolan o mostra contrapondo duas situações distintas no tempo. Em 1954, quando foi intimado a uma audiência de segurança pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), e logo depois, já na qualidade de pivô para uma audiência posterior no senado norte-americano, a fim de confirmar a neutralização de sua influência política, a envolver o Almirante Lewis Strauss (Robert Downey Jr., brilhante).

O Almirante Strauss, aliás, quando surge, quase sempre nos momentos fundamentais da segunda metade da trama, parece protagonizar um outro filme à parte –e não à toa, suas cenas são mostradas por Nolan em preto & branco, numa forma de diferenciar, seus segmentos dos demais, protagonizados por Oppenheimer. Ademais, essas duas sequências de audiência (a da AEC, em cores, e a do Senado, em preto & branco) são duas circunstâncias de julgamento, onde estão em pauta questões morais que só chegaram a pesar de verdade anos depois da gênese desconcertante da bomba atômica, e do poder destrutivo que ela, por fim, revelou ao mundo. Em algum momento, desse fluxo narrativo –que Nolan converte num turbilhão de informações tecnicamente pesadas até deliberadamente harmonizar seu ritmo, num esforço de acompanhar a mente inquieta de seu personagem –o filme começa a contar, de modo um pouco mais linear, a história de Oppenheimer: Estudante de Física Quântica na Europa, onde acompanhou com entusiasmo as palestras do cientista Niels Bohr (Kenneth Brannagh), em meados da década de 1920, Oppenheimer ficou conhecido por sua dedicação e tenacidade nos círculos acadêmicos da Alemanha e da Suíça antes de voltar aos EUA, na tentativa de levar as arrojadas pesquisas no campo quântico para as universidades norte-americanas. Em Berkeley, na Califórnia, ele conhece o Prof. Ernest Lawrence (Josh Hartnett), ao lecionar no Instituto de Tecnologia, época em que suas primeiras inclinações políticas de esquerda aparecem: Ele incentiva alunos e professores para a criação de um Sindicato que representasse a categoria, e envolve-se com a ativista do Partido Comunista Jean Tatlock (Florence Pugh) para depois casar-se com a ex-comunista Kitty Puening (Emily Blunt).

Em 1942, com a Segunda Guerra Mundial em curso, e com os norte-americanos alarmados com as pesquisas avançadas em fissão nuclear dos cientistas alemães, o governo dos EUA, representado pelo General Leslie Groves (Matt Damon) convida o Dr. Oppenheimer a liderar o Projeto Manhattan com a complicada missão de ultrapassar os esforços alemães e chegar na frente da corrida armamentista para construir a primeira bomba atômica. Para tanto, Oppenheimer faz exigências inusitadas aos militares: constrói toda uma cidadezinha do zero, com infraestrutura e tudo, no vale amplo e deserto de Los Álamos, para abrigar os vários departamentos de produção que ele iria administrar a fim de que as pesquisas quânticas avançassem sem os empecilhos da sempre –como a distância dos familiares, por exemplo –e (a exigência mais difícil para o Exército Norte-Americano), fazer vista grossa às tendências comunistas deste ou daquele cientista, tido por Oppenheimer como fundamental ao projeto. Sua equipe incluía o abnegado Edward Teller (o também diretor Ben Safdie), ferrenho defensor do desenvolvimento da bomba de hidrogênio, o cauteloso e criterioso Isidor Isaac Rabi (David Krumholtz, de “Roda Gigante”), o pesquisador Enrico Fermi (Danny Deferrari) e o atencioso David L. Hill (Rami Malek).

Nos anos tumultuados entre o desenvolvimento do projeto e a criação de fato da bomba, muitas coisas acontecem –os alemães são derrotados, restando somente a oposição bélica dos japoneses no Pacífico; o presidente Dwight Eisenhower, responsável pelo início do Projeto Manhattan, morre e é substituído por Harry S. Truman (vivido por Gary Oldman); e Jean Tatlock suicida-se na banheira de sua casa –contudo, no dia 16 de julho de 1945, os esforços de Oppenheimer e sua equipe numerosa culminam no Teste Trinity, realizado num campo deserto, nas proximidades de Alamogordo, provando a viabilidade da bomba atômica, e seu poder descomunal de destruição. Na sequência, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki são escolhidas para serem os alvos da bomba, encerrando, por fim, as hostilidades da Grande Guerra.

Entretanto, os transtornos de Oppenheimer estavam longe de terminar. Quando ele –movido por temores anteriores ao Projeto Manhattan, discutidos com o sensato Prof. Einstein (Tom Conti), de que a bomba atômica seria um perigo para o mundo caso não houvesse colaboração entre as nações –busca restringir novos avanços na pesquisa de energia nuclear para fins bélicos, ele logo deixa de ser uma celebridade para, aos olhos do governo, se tornar uma figura discordante com os preceitos da Guerra Fria contra União Soviética que então se precipitou no horizonte, o que o leva à audiência de segurança da AEC, cujos depoimentos e interrogatórios (todos posicionados como ganchos pontuais dos flashbacks do roteiro), visaram descobrir as relações comunistas mantidas por Oppenheimer.

Nesse manejo assombroso que executa de uma ampla, complexa e nada simples história real e no vocabulário tecnicamente complexo que seu roteiro abraça, Nolan uma vez mais realiza cinema de gente grande, desta vez, mesclando um resgate urgente e necessário de um registro histórico imprescindível com sua evidente paixão por expedientes de suspense; Ao alterar a cronologia dos eventos como são mostrados, ele transforma a última hora (das nada modestas três que o filme possui!) num verdadeiro thrilher de mistério, para então, ao fim, regressar à intimista reflexão com Albert Einstein, e deixar o público reflexivo com as sombrias (e muito reais) possibilidades da trajetória humana.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Conflitos Internos / Os Infiltrados


 Conflitos Internos

Extremamente prestigiado em Hong Kong, o diretor Andrew Lau é um hábil manejador de tramas prolixas, capaz de ressaltar suas arestas de originalidade em meio à gêneros e conceitos dos quais público e crítica tendem a subestimar.

Uma de suas obras mais aclamadas –pelo menos, no Oriente, onde obteve largo sucesso –“Conflitos Internos”, o qual ele co-dirigiu em colaboração com Alan Mak no ano de 2002, não somente é um brilhante thriller policial e, a sua maneira, uma evocação apaixonada dos meandros complexos e fascinantes com os quais Francis Ford Copolla forjou a mitologia de seu “O Poderoso Chefão” como também é o imprevisto estopim (até para seus realizadores!) de uma bem-sucedida trilogia.

Neste primeiro filme, testemunhamos, em meio ao submundo criminal de Hong Kong, as trajetórias de um criminoso e de um policial, interpretados por Andy Lau (não confundir com o diretor de quem ele é quase homônimo!) e Tony Leung, respectivamente, que em paralelo se infiltram entre seus próprios inimigos. Ambos acabam ganhando a confiança nas suas áreas. Ironicamente, o policial disfarçado de bandido torna-se um dos homens de confiança do chefe da quadrilha quando surge a suspeita de que há um espião entre eles. Ao mesmo tempo, o gangster infiltrado na polícia integra uma equipe justamente para descobrir quem está entregando informações aos bandidos. Pouco a pouco, os dois estão prestes a desmascarar um ao outro.

Andrew Lau e Alan Mak trabalham maravilhosamente bem a circunstância de suspense do filme, cuja impecável atmosfera nos faz desconfiar de cada movimento, de cada olhar mal-disfarçado; é um mundo de suspeitas onde ninguém pode confiar em ninguém, e cada ato parece supervisionado por inimigos ávidos por ter alguém a quem desmascarar.

Como em toda trama de intriga, Lau e Mak justapõem os antagonistas deixando bem clara a forma preocupante com que estão inseridos entre as fileiras inimigas –mas, somente isso fica cristalino; tudo o mais (alianças, motivações, lealdades) é deixado brilhantemente ambíguo, de forma a potencializar sua tensão, que acaba coroada com um final impiedoso do qual o viés shakesperiano embutido em sua premissa converge a um eco ensurdecedor.

O segundo filme da trilogia (realizado em decorrência de seu inesperado sucesso de público, visto que esta é, evidentemente, uma história planejada com começo, meio e fim) trata-se de uma espécie de prequel que esmiuça com mais detalhes o passado dos dois personagens principais, enquanto que o terceiro termina sendo, de fato, a continuação, mostrando os desdobramentos e consequências do desfecho do primeiro filme.


Os Infiltrados

Como costuma ocorrer a um filme estrangeiro de insuspeita qualidade a destacar-se entre as milhares de obras produzidas pelo mundo ano a ano, “Conflitos Internos” –ao menos, a primeira e, de certa forma, a segunda parte –acabou sendo refilmado em 2006. E não uma refilmagem qualquer: “Os Infiltrados” ganhou direção de ninguém menos que Martin Scorsese (recém-saído de seu suntuoso épico “O Aviador”) e foi estrelado por Leonardo Dicaprio ao lado de Matt Damon, o elenco conta ainda com Jack Nicholson numa de suas últimas participações num longa-metragem antes da aposentadoria.

A trama, ainda que roteirizada pelo conceituado William Monahan (de “Cruzada”), replica a de “Conflitos Internos” com constrangedora proximidade: Um policial (Dicaprio) infiltra-se na máfia de Massachussets, em Boston, enquanto paralelamente, um espião da máfia (Damon) é plantado na força policial. Os anos se passam e cada um dos respectivos infiltrados adquire confiança em sua corporação até a descoberta de que ambas as partes possuem um espião. A trama acompanha então a nervosa investigação (e consequente duelo) para que um consiga desmascarar o outro.

Como costuma acometer nas refilmagens promovidas pelos norte-americanos, a despeito da qualidade um tanto desafiadora do material que tentam refilmar, os realizadores se esforçam bastante para incrementar os elementos já presentes no filme original; e aqui, o roteiro de William Monahan é desonestamente astuto ao aproveitar muito da trama, não apenas do primeiro, como também do segundo filme: Ao valer-se do original e de sua prequel, os realizadores de “Infiltrados” têm a chance de moldar uma obra mais robusta, com mais elementos dramáticos a oferecer diante do enxuto “Conflitos Internos” –além da presença inédita do personagem de Mark Whalberg, inexistente no original, que acrescenta um elemento mais contundente ao desfecho, ainda que algo questionável –e, embora este seja de fato um filme menor dentro de sua formidável filmografia, um filme dirigido por Martin Scorsese ainda É dirigido por Martin Scorsese: A mitologia de toda a criminalidade de Boston concebida para o filme é rica e notável em seu detalhamento, e o diretor não somente equilibra atuações de forma a todos soarem impecáveis (Jack Nicholson, nitidamente substituindo uma presença que seria regularmente de Robert De Niro, não acaba roubando a cena de ninguém como inicialmente poderíamos presumir) como também evoca um sem-fim de referências cinematográficas vastas –que vão de cortes abruptos e imprevisíveis decalcados de Glauber Rocha à sutis manobras narrativas extraídas de antigos filmes noir –regendo o que pode ser chamada de uma sinfonia de violência e psicologia.

Ainda que tímido diante de tantas obras maiúsculas que Scorsese entregou antes e depois (e certamente inferior, mesmo que com todos os seus esforços, à produção original na qual foi inspirado) coube a este pequeno épico policial a honra de ser a produção pela qual Martin Scorsese finalmente recebeu seu Oscar de Melhor Diretor. Ele traz a fúria narrativa e a costumeira maestria que um mestre como Scorsese consegue criar, mas, não tenha dúvidas, é bastante simplório na comparação com muitos de seus trabalhos.

Em tempo, no ano de 2009, houve mais uma refilmagem de “Confiltos Internos”, desta vez, realizada na Coréia do Sul (uma indústria cinematográfica a qual nunca se deve subestimar), com o título inglês de “City of Dammation”, dirigida por Dong Won Kim e concebida numa variação –pasmém –de comédia!

sábado, 30 de julho de 2022

Os Agentes do Destino


 Há certa beleza nesta adaptação de Phillip K. Dick (autor de "Blade Runner" e "Minority Report"), aclamado escritor de ficção científica cuja obra sempre questionou a manipulação da vida. contudo, o trabalho do diretor George Nolfi, se prima por uma austeridade que lhe confere uma elegância incomum às obras corriqueiras do cinema norte-americano, ele também se mostra mais portentoso do que esclarecido: Se há uma mitologia mais detalhada por trás dos intrigantes ‘homens de chapéu’ que surgem no filme, ela fica completamente relegada nas entrelinhas –as explicações que são fornecidas ao protagonista (e, por conseguinte, ao público) são vagas e sem maiores aprofundamentos. Seriam eles alienígenas? Agentes multi-dimensionais? Titereiros do caos vindos do futuro?

Nada em relação a isso fica muito claro, passando a impressão, de um certo ponto em diante, que o suspense assim  esboçado em torno de tal mistério foi mais perfumaria do que narrativa, e na expectativa de respostas válidas às questões que ele mesmo plantou, o filme entrega, em seu clímax, um corre-corre aventuresco sem muita inovação, como se ao acelerar o ritmo, um lapso desses pudesse assim ser compensado.

Na trama acompanhamos um jovem congressista (vivido por Matt Damon), candidato ao senado de Nova York, conhecendo uma bailarina (Emily Blunt, hábil em encantar) no dia em que descobre ter perdido sua eleição. Por ela, o rapaz se encanta de imediato. Torna a revê-la por acaso algum tempo depois, mas, quando tenta manter com ela um relacionamento, é detido por estranhas figuras trajando terno e chapéu, donos, ao que parece, de um estranho poder controlador da realidade. Segundo estes, o amor por ela não faz parte do "plano" estabelecido para ele. O papel dela teria sido tão somente de ‘inspirá-lo’ num determinado ponto de sua vida, nada mais. Contudo, os dois compartilham, nesse breve encontro, de um amor avassalador que não estava nos planos dos ‘homens de chapéu’ que, munidos de seus curiosos poderes –capacidade de teleporte, uma espécie de telecinese e alarmante predisposição para se meter na vida alheia (!) –procuram tentar separá-los, numa forma de forçá-los a seguir um rumo predeterminado de vida. apesar disso, o casal enamorado conta com a simpatia de um desses homens (Anthony Mackie, de “Guerra Ao Terror”, antes de se tornar o Falcão em “Capitão América-O Soldado Invernal”) que tentará ajudá-los.

Em sua despretensão e simplicidade este filme, austero e discreto, acerta em quase tudo que se presta, sobretudo a escolha do par central, o sempre competente Matt Dammon e a inglesa Emily Blunt, belíssima. É, no entanto, profundamente frustrante, os rumos adotados por sua premissa, que sugere, durante sua primeira metade, um desafiador questionamento de realidade ao estilo “Matrix”, temperado com elementos mais mundanos e, por que não, introspectivos, para então, gradualmente, ir abandonando esse instigante aspecto –o de uma ficção científica com uma proposta bastante singular perante seus pares –para investir na preguiçosa proposta de um casal apaixonado lutando contra qualquer obstáculo por seu amor. Ainda que esse tal obstáculo apareça na história como um grande e aparentemente intrincado vácuo que nunca recebe a devida justificativa.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Compramos Um Zoológico


 Em algum momento depois da aclamação pra lá de merecida de “Quase Famosos”, o cinema de Cameron Crowe ameaçou sair dos trilhos. Esse curioso processo começou com a refilmagem de “Abra Los Ojos”, “Vanilla Sky”, e prosseguiu em excessos mais ou menos prejudiciais que apareceram em obras como “Tudo Acontece Em Elizabethtown”, de 2005, e “Compramos Um Zoológico”, de 2011, exatos seis anos depois –o intervalo se deu por Crowe dedicar esse tempo realizando o documentário “Pearl Jam 20 Twenty”.

Inspirado em uma história real, “Compramos Um Zoológico” é lisérgico na liberdade plena com que Crowe, diretor e roteirista (escrevendo em conjunto com Aline Brosh McKenna, roteirista de “O Diabo Veste Prada”), consegue imprimir na tela sua visão descolada, romântica e embriagante sobre o mundo, o amor e a vida.

É essa abordagem, exacerbada de alto astral, que Crowe confere à trajetória de Benjamin Mee (o sempre comprometido Matt Damon), um viúvo recente, mergulhado na auto-piedade de seu luto que recebe (muitas vezes até demais!) de todos os coadjuvantes a sua volta, indícios de que a vida é, sim, muito bela –sendo o mais expressivo deles o irmão interpretado pelo ótimo Thomas Alden Church.

Cedendo de uma forma um tanto torta às insistências de recomeçar, Mee, ao lado dos dois filhos, o adolescente Dylan (o apático Colin Ford) e a pequena Rosie (Maggie Elizabeth Jones), compra um zoológico depauperado e decadente em vias de ser fechado e resolve transformar sua recuperação numa espécie de cruzada pessoal à qual dedicar-se.

Para efeitos práticos do expediente da ficção, há nesse zoológico –dentre as inúmeras figuras peculiares em seu humor e sua galhofa pueril que Crowe tem por hábito criar –duas garotas, uma mais velha (vivida por Scarlett Johansson, ótima atriz que merecia uma personagem mais relevante) e uma mais jovem (vivida por Elle Fanning) que, sem maiores esforços para se disfarçar, lá estão posicionadas para ser o infalível interesse romântico, respectivamente, do protagonista Mee e de seu filho Dylan.

Desprovido do equilíbrio fascinante entre trama bem escrita, emoções austeramente calibradas e construção sensata de narrativa presente nas melhores obras de Crowe, “Compramos Um Zoológico” oscila entre desmedida ingenuidade e excessiva sacarose, em sequências que soam quase intoleráveis aos expectadores menos adeptos do romantismo muito particular exercido pelo diretor.

A questão bastante admirável no fato de ser inspirado num fato real, e ainda assim guardar elementos que flertam o tempo todo com o improvável e o mirabolante, acaba ficando para escanteio diante da atmosfera tão agridoce que ele imprime.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O Teorema Zero


 Um dos últimos trabalhos a nascer da mente fervilhante e inquieta do diretor Terry Gilliam, “O Teorema Zero” pode ser enxergado como uma tentativa de reedição de sua obra “Brazil-O Filme”, no qual ele também contemplava um protagonista às voltas com as imponderabilidades da vida, da mente e da existência, inserido num futuro fútil, esquisito e alegórico.

Escrito por Pat Rushin, o roteiro tem uma assombrosa identificação com os conceitos de abstração, loucura e escatologia metafísica que Gilliam se permitiu revelar em seus projetos mais audazes e autoriais. Mais até: “O Teorema Zero” é, possivelmente, a obra na qual Gilliam mergulha com mais afinco nas inquietações insolúveis e inacreditáveis que lhe orientavam como artista; em grande medida, isso significa que tentar encontrar um sentido em toda a anarquia que se manifesta na tela pode ser um esforço vão.

Também produtor, o ator Christoph Watz vive o protagonista Qohen Leth; com a cabeça (e as sobrancelhas!) toda raspada, e morador de uma igreja abandonada convertida em apartamento (!), Qohen é o típico personagem alienado, com um pé na loucura e outro na esquizofrenia, que Gilliam tanto aprecia; o maluco que expressa a maluquice do mundo ao seu redor, num ato de rompimento com o sistema ao atrever-se a adquirir um mínimo de lucidez.

Qohen trabalha numa empresa de nome Mancon, controlada pelo aparentemente onisciente Gerente (Matt Damon, em uma ponta de luxo), na qual sua função é, como ele mesmo diz, “processar entidades” (!?).

O que vemos Qohen realmente fazer é trabalhar arduamente na tela de um computador tentando completar uma espécie de quebra-cabeças 3D que é também uma equação matemática –parece ser a solução visual de Gilliam para o tal ‘teorema zero’, uma espécie de enigma para o mistério da vida, do qual o protagonista se incumbe, e cuja tentativa de ressolução ocupa cada hora de seus dias.

Qohen padece de todos os tipos de fobia –como fica patente nas conversas destrambelhadas com sua psiquiatra online (Tilda Swinton) –e não deseja ter de ir até a empresa trabalhar, preferindo fazê-lo recluso dentro de sua casa, o que deixa seu supervisor (David Thewlis, de “Cruzada” e “Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban”) de ânimos acirrados. Numa festa na casa desse mesmo supervisor, à qual ele comparece meio que forçadamente, Qohen tem um encontro com a descontraída e sexy Bainsley (a deliciosa Mélanie Thierry, de “A Lenda do Pianista do Mar”) que, sem mais nem menos, passa a frequentar sua casa, na forma de uma fantasia erótica que se torna real.

Qohen ganha também a companhia de Bob (Lucas Hedge, de “Boy Erased”), o jovem filho do gerente tornado estagiário da empresa que, pouco a pouco, se torna seu amigo.

Durante esses percalços –que vão se estendendo ao longo de anos –Qohen aguarda obstinadamente por uma ligação que recebeu numa madrugada, e a qual, por descuido, acabou perdendo a conexão. Essa ligação, ele acredita piamente, trará uma voz feminina e transcendental, que lhe dirá, por fim, o sentido de sua própria vida, fazendo toda a tristeza, desesperança e angústia pelo qual passou ter um significado.

Em meio à essa trama amalucada que simula um certo despertar do personagem principal, o diretor Terry Gilliam dispõe pistas acerca da reflexão que ele quer levantar, entretanto, seja de propósito ou de desleixo, essa reflexão nunca fica clara: Seria uma dissertação sobre o nosso vazio existencial? Um conto sobre o tempo que desperdiçamos com questionamentos que jamais nos preencherão por completo? Ou uma angustiada (ainda que ocasionalmente humorada) observação da eterna ausência de respostas para nossas dúvidas metafísicas?

As referências de Terry Gilliam aos seus trabalhos passados são manifestas –além do já citado “Brazil-O Filme” temos a oposição entre medo e amor de “O Pescador de Ilusões”, a percepção alucinatória que engole protagonista e coadjuvantes em “Medo e Delírio em Las Vegas”, a busca idealizada por uma ilusão em “Os Doze Macacos”, e a devoção a uma rotina sem sentido de “Contraponto” –e em seu ressonante significado junto à filmografia tão incomum desse realizador, elas apontam um compêndio e um testamento de loucuras megalomaníacas, desvarios convertidos em imagens e um tratado visual onde o cinema não conhece e não deve conhecer limites.

A obra de Terry Gilliam é assim, cheia de beleza, inconstância e possibilidades irrestritas, tal e qual a arte em sua forma mais pura.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Contágio

Em tempos de Coronavírus, este filme lançado em 2011 (durante a comoção do H1N1, a gripe suína) voltou a ganhar relevância na lembrança dos expectadores. Trata-se de uma superprodução conduzida por Steve Sodenbergh com a mesma elegância que ele dedicou à sua obras menores e independentes.
Vitimada por um vírus desconhecido após uma viagem internacional, americana moradora de Minnesota (e interpretada por Gwyneth Paltrow) morre no leito hospitalar sem razões aparentes, logo seguida de seu filho de sete anos.
Ela deixa viúvo seu marido (Matt Damon, provavelmente o protagonista em meio à tantos astros) e os médicos com uma perturbadora interrogação acerca do quê a matou.
Nas cenas simultâneas mostradas por Sodenbergh fica claro que houve contágio: No aeroporto, uma estagiária em Londres, um assalariado de Hong Kong e um executivo do Japão também acabam infectados por ela.
O episódio em solo americano, imediatamente seguido de vários outros, aciona o Centro de Controle de Doenças dos EUA, cujos profissionais (entre eles, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Bryan Cranston e Jennifer Ehle) correm para catalogar os efeitos da doença e conter seu rápido avanço identificando cada uma das pessoas contaminadas –que em poucos dias eles perceberão ser milhares.
Logo, um digital influencer (Jude Law) passa a valer-se do fato de ter sido um dos primeiros a noticiar o surto, e gera pânico com suas declarações bombásticas destituídas de embasamento e senso de responsabilidade.
São também enviados profissionais (Marion Cotillard e Chin Han) para investigar a origem do vírus (ao que tudo indica em Macau) enquanto equipes de geneticistas correm contra o tempo para criar uma vacina para o que logo se torna uma ameaça de nível global.
É curiosa a forma com que Sodenbergh aborda os desdobramentos humanos da crise –evidentemente acometida de características muito mais dramáticas do que os exemplos recentes da vida real –ostentando um elenco numeroso e estelar, mas, deixando claro em sua narrativa que essas presenças são, ainda assim, efêmeras diante das implicações ocasionadas de absurdo que se sucedem: A personagem de Marion é sequestrada por aldeões interessados em usá-la como refém para barganhar e tornarem-se os primeiros da fila quando houver uma vacina; o personagem de Jude Law, de olho em lucro pessoal, passa a coagir a população que segue suas orientações para não acreditar no Centro de Controle de Doenças, nem mesmo quando uma cura é finalmente processada; o vírus se alastra com mais intensidade devido à desorganização logística das autoridades locais que, a partir de determinado momento, têm de lidar até com uma greve de funcionários da área de saúde; todavia, nada gera mais caos do que o medo disseminado pela mídia sensacionalista (não dá uma sensação de déja-vú?), o que leva pessoas a estocar comida e o exército a fechar fronteiras; e a própria concepção da vacina (obtida no terço final do filme) se dá pela ação de personagens que desafiaram as normas e a burocracia (como o médico vivido por Elliott Gould e a sensacional personagem de Jennifer Ehle) para agilizar o salvamento de vidas humanas.
Com este filme austero e incisivo, Sodenbergh usa de seu talento para analisar os efeitos de uma epidemia, não tanto pelo aspecto científico e orgânico da doença em si, mas a partir das distintas ações e reações flagradas nos diferentes e diversos personagens que ele bota em cena que, de modo geral, representam os sentimentos cosmopolitas, evasivos e não raro egoístas do ser humano diante dessas situações.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Ford Vs Ferrari

As 24 Horas de Le Mans representam a corrida mais desgastante, difícil e exigente do mundo. É como uma grande montanha: Nada é tão desafiador ou intransponível.
Uma disputa de motores, ânimos e estratégias que se inicia num dia para só se encerrar no dia seguinte, com suas equipes competidoras trituradas pelo cansaço, pelo stress, pela pressão psicológica e, não raro, pelos acidentes atrozes decorridos nas pistas.
Quando o todo poderoso magnata do automobilismo Henry Ford II teve sua proposta de aliança de negócios recusada pelo também poderoso Enzo Ferrari, ele compreendeu que a recém-descoberta rivalidade entre os dois só podia ser de fato resolvida nas pistas de Le Mans –onde a Ferrari havia vencido as quatro últimas disputas!
A Ferrari tinha uma tradição automobilística por meio da qual seu carro era visto como um oponente impossível de ser batido.
Ford enxergava nessa oportunidade um meio de mostrar que, em sua área, não estava para brincadeiras. Todos, entretanto, concordavam que a Ferrari, ao menos nas pistas de Le Mans, não era um adversário que deveria ser desafiado.
É em torno dos meandros por vezes espetaculares dessa richa que se debruça o filme magnífico dirigido por James Mangold.
Engana-se, contudo, quem julgar que torna central a sua trama os chefões Henry Ford II e Enzo Ferrari: Seus protagonistas de fato são o ex-piloto e líder de escuderia Carroll Shelby (vivido por Matt Damon) e o indomável piloto e mecánico Ken ‘Bulldogue’ Miles (vivido por Christian Bale).
Dessa forma, o trabalho de Mangold desvia-se o foco dos nomes lendários envolvidos na trama, e o concentra no esforço heróico de homens comuns, no primeiro de seus inúmeros acertos.
Outrora um vencedor habilidoso de Le Mans, Shelby é procurado por um executivo de Ford, Lee Iacocca (Jon Berthal) que o recruta para capitanear a empreitada de tentar superar a Ferrari.
Shelby compreende que para disputar Le Mans não apenas deve construir o melhor e mais rápido carro –tarefa esta que, ainda assim, se mostrava cheia de percalços inacreditáveis –mas, também deve conseguir o melhor piloto; alguém que compreenda a máquina num nível tão intuitivo que seja capaz, num improviso, de arrancar dela o máximo.
Essa pessoa, ele sabe, é Ken Miles.
E aí começam alguns problemas: De difícil temperamento, Ken não é habituado a seguir ordens e, embora obtenha resultados assombrosos nas pistas de corrida, ele também obtém a antipatia do executivo-sênior de Ford, o arrogante Beebe (Josh Lucas, de "Uma Mente Brilhante" e "Hulk", especializado nesses papéis).
Tanto Ken, quanto principalmente Shelby sofrem, portanto, pressão vindas de duas extremidades distintas: De um lado, são pressionados para que consigam o rendimento que garanta à Ford a improvável supremacia nas 24 Horas de Le Mans (e nisso, têm como obstáculos as próprias leis da Física!); de outro, são sabotados por seus próprios dirigentes –algo antecipado pelo próprio Ken Miles –que ignoram as habilidades e o conhecimento de sua equipe para impor suas próprias restrições na execução e confecção do carro, na escolha dos pilotos (onde prevalecia Ken, contra a vontade de Beebe) e nos procedimentos da equipe.
Munido de muito jogo de cintura, Shelby tem de fazer política para garantir em sua equipe o único talento que sabia ser essencial para a vitória: Ken Miles.
Semelhante em muitos aspectos ao brilhante “Rush-No Limite da Emoção”, o filme de Mangold vale-se do mesmo inteligente princípio narrativo, onde sua trama dá prioridade aos pormenores extraordinários que faziam desta uma história frequentemente inacreditável. Matt Damon está ótimo como Carroll Shelby, em cujo comportamento austero se deposita o ponto de equilíbrio do filme, mas quem rouba mesmo as cenas é Christian Bale, como Ken Miles, cuja interpretação une maneirismos de seu personagem no excelente “O Vencedor” com algumas nuances minimalistas de seu papel em “A Grande Aposta”.
Um filme envolvente no registro minucioso e orgânico que faz dos bastidores tumultuados das grandes corridas, e arrebatador na recriação raivosa e eletrizante da alta voltagem obtida pelos pilotos dentro das pistas.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Pequena Grande Vida


Outrora especialista em crônicas da vida real sobre personagens absolutamente comuns, o diretor e roteirista Alexander Payne mergulha aqui na sua primeira premissa dotada de um viés de ficção científica. Aproveitando –como todo bom autor que andou pelo gênero –para fazer sua dissertação particular sobre a periclitante situação do meio ambiente e o imponderável destino da raça humana sob esse prisma, sem nunca abandonar, no entanto, o ponto de vista do homem comum.
Tal homem comum é Matt Damon que interpreta o terapeuta ocupacional Paul Safrânek. Desde sempre com a conta bancária no vermelho, Paul junto da esposa (Kristen Wiig) testemunham, no início como todo o mundo, por noticiários na TV, a criação de um método revolucionário para resolver o problema de superpopulação mundial: A miniaturização.
Pessoas são levadas em centros específicos e, por meio de um processo avançadíssimo (esmiuçado pelo roteiro com raro preciosismo), reduzidos a um tamanho de não mais que doze centímetros.
Essas pessoas passam a viver em comunidades montadas especificamente para sua proporção reduzida. O pulo do gato: Sendo muito menores, eles consomem menos comida, ocupam menos espaço e demandam uma quantidade muito menor de recursos –mesmo aqueles que representam uma vida de regalia –e, por consequência, gastam menos dinheiro.
Para Paul, a renda financeira de que dispõe relega ele e a mulher à uma vida suburbana, mas, uma vez reduzidos, esse valor lhes permite uma vida de luxo –um dado que, somado ao fato de um amigo (vivido por Jason Sudeikis) fazer uma exaltada propaganda positiva da miniaturização, o convence a tentar o procedimento.
Entretanto, como vem a ser tão sintomático quanto notável no cinema de Payne, as certezas só se expressam na teoria –na prática, elas esbarram na volatilidade humana: Quando Paul já passou pelo processo de miniaturização, eis que sua esposa lhe anuncia, num telefonema, ter se arrependido.
Assim, a dita nova vida, que Paul almejava com entusiasmo já começa com dolorosos transtornos imprevistos. Solteiro, ele acaba –num reflexo de crise de meia idade –no meio de uma festa promovida pelo vizinho e novo amigo, Dusan (Christoph Waltz), na qual ele acaba conhecendo a diarista Ngoc Lan (a notável Hong Chau), uma ex-ativista e imigrante vietnamita, outrora famosa por uma situação inusitada: No Vietnam, as autoridades passaram a usar a miniaturização para conter o excesso carcerário, reduzindo os prisioneiros, como Ngoc Lan, sem o seu consentimento.
Por isso, Paul descobre, ela entra num nicho desconhecido, que não estava previsto nas ostensivas propagandas: As pessoas pobres que terminam passando pela miniaturazação por inúmeras razões improváveis, e integram o grupo cada vez maior de pobres de classe baixa que passam a trabalhar para os hedonistas miniaturizados das classes superiores.
Ao conceber essa estranha utopia que logo ganha ares de distopia, Alexander Payne parece incapaz (e indiferente) de conter seu ímpeto natural de falar sobre impressões e sentimentos quase sempre muito íntimos e pouco evidentes –muito mais em foco do que o rumo que essa inusitada sociedade em miniatura toma (embora isso também faça parte dos desdobramentos da premissa) está a curiosa relação que se estabelece entre Paul e Ngoc Lan.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Onze Homens e Um Segredo


A discussão cerca do quão válida uma refilmagem é tem, nesta obra, um de seus melhores argumentos: Ao contrário do que é hábito em Hollywood –onde são refilmadas sucessivamente obras excelentes que não precisariam de uma refilmagem –o time de George Clooney e Steve Sodenbergh refez um filme não tão bom, não tão perfeito e não tão bem-sucedido (uma pequena aventura de assalto feita para aproveitar a fama do Rat Pac, grupo formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford). Eles assim o fazem com perfeita consciência das limitações da obra original; e em tudo tentam melhorá-la.
É, pois o grande propósito de se realizar uma refilmagem: Repaginar um filme e aproximá-lo mais do potencial de qualidade que não havia sido alcançado da outra vez.
E o diretor Sodenbergh compreende com profunda perspicácia que toda essa premissa depende de charme: Cada personagem que marca presença, cena após cena, é de um carisma desigual.
A frente de todos eles, nesse e em outros quesitos, certamente está Danny Ocean (George Clooney tão eficaz quanto em sua primeira colaboração com Sodenbergh, o brilhante “Irresistível Paixão”). Recém-saído da prisão, ele chega a Las Vegas com um plano já previamente elaborado, por meio do qual visa retribuir toda a impunidade que o gangster Terry Benedict (Andy Garcia) exerce sobre os outros: Dele almeja roubar toda a féria de seu cassino principal.
Para tanto, Danny Ocean conta com um grupo extraordinário de outras dez pessoas com especialidades muito particulares: Seu braço-direito Rusty Ryan (Brad Pitt, que consegue ombrear o carisma e a desenvoltura superlativos de Clooney); o forte e desprendido Frank Catton (o saudoso Bernie Mac); o hábil e inteligente Basher Tarr (Don Cheaddle); o experiente e safo Reuben Tishkoff (Elliott Gould); o meticuloso e estrategista Saul Bloom (Carl Reiner); os experts em tecnologia Virgil e Turk Malloy (Casey Affleck e Scott Caan); o ágil e acrobático Yen (Qin Shaobo); o escorregadio Livingston Bell (Eddie Jemison); e o filho de um grande aliado do passado Linus Caldwell (Matt Damon).
A intenção de Ocean não é apenas de bancar o Robin Hood, roubando do milionário antagonista –no processo de seu intrincado golpe quer roubar dele também a atual companheira, Tess (Julia Roberts), ex-esposa de Ocean.
Como se pode constatar pelos nomes citados, o elenco que Sodenbergh reuniu para seu filme é tão, ou mais, ostensivo que o elenco do “Onze Homens e Um Segredo” original; e ele compensa essas presenças cintilantes dando a todos eles momentos memoráveis.
Contudo, seu grande feito é a execução do assalto propriamente dito que ocupa os últimas e sensacionais vinte minutos de filme: Uma aula de condução de roteiro, direção de cena e manutenção de ritmo, onde cada tomada surpreende o expectador e cada guinada deixa um sorriso no rosto.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Cartas Na Mesa


Tendo realizado algumas obras relevantes nos anos 1980, o diretor John Dahl teve seu estilo intrincado e instigante de pronto relacionado aos grandes estetas do film noir do passado.
É esse estilo que, em “Cartas Na Mesa”, ele emprega para revestir de charme a narrativa que acompanha de maneira tensa as rodadas aparentemente intermináveis de pôquer sobre as quais o filme se debruça.
Recém-saído do filme que revelou seu talento ao mundo, “Gênio Indomável”, Matt Damon vive o estudante de Direito Mike McDermott que uma jogada desafortunada faz perder, já no início do filme, todo o dinheiro que tinha para o mafioso russo Teddy KGB (John Malkovich, sempre de um preciosismo a toda prova).
Apesar da capacidade de ler as reações de seus adversários e de prever a sucessão de cartas ser para ele um dom natural, Mike se ressente desse episódio a ponto de prometer à namorada (Gretchen Mol) que nunca mais irá jogar novamente.
Isso, entretanto, dura somente até que Les ‘ Worm’ Murphy (Edward Norton, também ele, um talento recém-descoberto em Hollywood) saída da prisão.
Worm é o pequeno demônio que incita os caprichos e os excessos de Mike em seu ombro direito. E uma vez com os pés fora da prisão, ele já deve dinheiro para pessoas potencialmente perigosas, extensões que levam, inclusive, à Teddy KGB!
Mike é seu amigo de infância (certamente o único que lhe restou) que ampara todas as suas encrencas: Acaba assim contraindo uma dívida homérica em nome de Worm e, embora tenha tido uma ou outra recaída pela tentação de jogar (o quê terminou mnando seu relacionamento, e comprometendo a confiança de seu mentor, vivido por Martin Landau, depositada nele) será essa dívida que o conduzirá realmente de volta às mesas de pôquer e à uma inevitável revanche contra KGB.
No cinema de John Dahl –como pode ser conferido no anterior (e fantástico) “O Poder da Sedução” –importa menos a busca por inovação e mais o primor de um execução bem feita e certamente envolvente. Ele honra completamente esses predicados aqui, valendo-se desses dois jovens talentosos (Damon e Norton) para entregar personagens críveis e interessantes e sequências de jogatina que exigem nervos de aço do expectador.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Deadpool 2

Por mais interessante, inovador e divertido que fosse “Deadpool” ele ainda se prestava a melhoramentos, já que os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick contentaram-se com um filme de origem, assumiram uma produção de baixo-orçamento (junto da qual vinha mais liberdade autoral e a possibilidade de uma censura alta) e abraçaram um caráter, digamos, ‘vira-lata’ para o filme.
Com a saída do diretor Tim Miller, devido à diferenças criativas com o astro Ryan Reynolds, e a entrada do ótimo David Leitch (co-diretor de “John Wick” e diretor de “Atômica”), “Deadpool 2” evolui assim para uma produção classe A, com um orçamento generoso condizente com a bilheteria e a repercussão positiva que o trabalho anterior obteve.
Com o seu status-quo de anti-herói estabelecido desde o final do primeiro filme, e ao lado do amor de sua vida, Vanessa (a brasileira Morena Baccarin), Wade Wilson, o assim chamado Deadpool (interpretado por Ryan Reynolds com uma compreensão singular do personagem) dá início à uma varredura inconsequente da bandidagem –e as cenas que se seguem, além de unir a galhofa deliciosa e politicamente incorreta que fez o sucesso do outro filme, traz também a excelência técnica no registro da ação que o diretor Leitch ostentou em suas obras anteriores.
Ainda que bastante previsível, o roteiro tece uma tragédia que dá um novo rumo à trajetória de Deadpool enquanto anti-herói a caminho de ser herói.
Ele vai parar na Mansão X, onde o mutante Colossus, desde o filme anterior, tenta convencê-lo a juntar-se aos X-Men.
Pouco a pouco, a trama de Deadpool –que só não resvala no tédio graças à presença extraordinária de Reynolds e ao bem calibrado humor sarcástico –vai colidir com outra trama: A de Cable (Josh Brolin, arrasando num personagem que foi disputado a tapa por muitos atores em Hollywood).
Vindo do futuro (no melhor estilo “Exterminador do Futuro” cuja menção, inclusive, é feita), Cable irá valer-se de seus poderes high-tech e seu braço biônico para mudar a história na qual um vilão homicida extermina sua família. No presente, tal vilão não passa de uma criança, o carismático orfão Russel (Julian Dennison) que sofre maus-tratos na impiedosa instituição em que foi jogado.
Para Cable, neutralizar aquele que um dia será o destruidor de sua família é uma missão para a qual ele se faz implacável.
Para Deadpool, espiritualmente mais inclinado à redenção do que outrora, o garoto merece a chance de tornar-se alguém melhor, entretanto, diante do colosso que representa Cable, ele conclui que não pode fazê-lo sozinho –neste ponto, Colossus e os X-Men se injuriaram novamente com suas atitudes e o deixaram –e, portanto, resolve montar um grupo, o X-Force!
A seleção e apresentação dos membros de tal grupo é praticamente um show cômico à parte, mas, o que realmente importa é uma única personagem: A sensacional Dominó, vivida pela fulgurante Zazie Beetz, cujos superpoderes –sorte em um nível absurdo –são empregados numa sucessão espetacular de cenas tão engraçadas quanto bem orquestradas.
Repleto de trocadilhos e farpas rápidas, além de referências ainda mais infindáveis do que no primeiro filme –detalhes que tornam prazerosas inclusive as inúmeras revisões –“Deadpool 2” tem o mérito de acrescentar à receita renovadora de humor auto-consciente a percepção singular do diretor Leitch para com as cenas de pancadaria e perseguição –dificil dizer qual das tantas é a mais primorosa!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Syriana - A Indústria do Petróleo


Como em “Traffic” –o filme pelo qual venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado –a estréia como diretor de Stephen Gaghan, “Syriana”, é uma trama que amplifica seu tema central por meio de três linhas narrativas fragmentadas que se ramificam e se complementam ao longo do filme.
De um lado, temos o agente da CIA Bob Barnes (George Clooney, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mas certamente o personagem principal do filme) cuja experiência em lidar com os meandros complexos das negociações armamentistas travadas entre células terroristas conquistou o milagre de mantê-lo vivo esses anos todos; ironicamente, sua derrocada parece vir de dentro da própria CIA quando seus superiores começam a mover um plano para torná-lo bode expiatório numa circunstância que tornou-se desfavorável.
De outro lado, acompanhamos o conselheiro financeiro norte-americano Bryan Woodman (Matt Damon), residente em Genebra, que após uma tragédia familiar consegue uma inesperada proximidade com um príncipe saudita disposto e usar de sua fortuna para melhorar as condições de vida no Oriente Médio.
A terceira trama segue o advogado Bennett Holiday (Jeffrey Wright) representante menor de uma indústria norte-americana de extração petrolífera –e cuja influência tentacular de seus diretores atinge as condições sócio-políticas dos moradores do Irã –sobre quem paira a responsabilidade de viabilizar uma autorização de extração de petróleo cercada por complicações legais que, não raro, esbarram em infrações consideráveis à lei.
Como era de se esperar neste trabalho, Gaghan honra seu passado de roteirista e executa magnificamente bem as amarras de seus núcleos dando solidez à uma trama fácil de se perder, mas ele ainda acrescenta uma direção austera e convicta (herança, talvez, de seu convívio com Steve Sodenbergh) com a qual consegue tornar minimamente palatável esta incisiva (e dada sua postura, surpreendente) crítica às extensões nocivas exercidas pelo governo norte-americano nas mazelas dos países do Oriente Médio.
Seu trabalho une a contundência e a certeza de realismo de um documentário à predisposição dramática e flexibilidade narrativa de uma ficção –o melhor de dois mundos.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Gênio Indomável

Após uma primeira fase em sua carreira na qual revelou-se um dos meninos prodígios do cinema independente norte-americano, o diretor Gus Van Sant enveredou por um cinema mais comercial –ainda que este “Good Will Hunting” ainda seja, por definição um filme independente –e foi devidamente abraçado por Hollywood, como era de se esperar.
Em seu formato e estrutura, “Gênio Indomável” segue uma cartilha irresistível à Academia de Artes Cinematográficas (e, com efeito, ela acabou premiando-o com dois Oscars): É tocante e bem realizado, cheio de boas escolhas e boas intenções, e seu retrato do subúrbio e da marginalidade jamais se torna ofensivo.
O roteiro do filme –um de seus maiores trunfos, premiado com o Oscar de Melhor Roteiro Original –foi escrito pelos próprios atores, os ainda jovens e iniciantes amigos Matt Damon e Ben Affleck que, indignados pela escassez de bom material com o qual pudessem mostrar seus talentos, resolveram eles mesmos escrever um filme para atuar.
Matt Damon ficou assim com o papel principal, o do jovem Will Hunting, dono de uma mente prodigiosa em cálculos matemáticos, porém um delinqüente problemático de temperamento instável que mal consegue manter um emprego. Ben Affleck, por sua vez, ficou com o papel de melhor amigo de Will, um dos vários companheiros de infância, com os quais ele ainda sai, bebe e arruma confusões. Will não seria diferente de nenhum deles. Mas, Will é um gênio. E essa genialidade não passa despercebida a um professor de universidade (Stelan Skarsgaard) que o apadrinha e resolve colocá-lo nos trilhos para que possa seguir uma carreira e tornar-se alguém. Para domar alguém como Will, é chamado um psiquiatra de métodos pouco convencionais (Robin Williams, no papel que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), tão desajustado quanto o próprio Will Hunting.
Não há qualquer proposta de inovação formal ou temática em “Gênio Indomável” –nem tampouco técnica –há, em vez disso, uma clara intenção e capacidade para realizar um filme bem feito, profundo e articulado na história e nos personagens que se deixa observar e interpretado com excelência por um elenco à época cheio de caras novas e promissoras (além de Damon e Affleck, havia também o irmão mais novo deste, Casey Affleck e a jovem Minnie Driver, como a mulher que Will ama).
E isso certamente já basta para estar acima da média.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Bravura Indômita

O cinema da Era de Ouro de Hollywood exerce um encanto fenomenal nos Irmãos Coen. Para tanto, eles criaram alguns de seus mais notáveis trabalhos debruçando-se sobre os valores, as circunstâncias e a mentalidade daquela época e como esses fatores foram, em grande medida, decisivos na concepção de obras fundamentais à sétima arte.
É um pouco desse fascínio que eles parecem resgatar nesta maravilhosa adaptação do livro de Charles Portis, e que, em sua recriação cheia de talento e personalidade, não faz nada feio se comparado com o clássico de 1970, estrelado por John Wayne –o único filme, diga-se, que chegou a dar, à essa lenda do cinema, a chance que concorrer e ganhar o Oscar de Melhor Ator.
A versão dos Coen não tem pretensão de substituir, no imaginário do público, o filme clássico, mas sim de oferecer uma visão diferenciada sobre o mesmo argumento; em muitos aspectos os Coen tornam este um filme bastante diferente, infundindo nele suas percepções mais atualizadas, uma espécie de ambigüidade moral na caracterização dos personagens e do ambiente, e um nível de detalhamento que escapava às produções antigas.
Velho Oeste. Ao chegar num típico vilarejo ao Norte dos EUA, a jovem Mattie Ross (Hailee Stanfield, fabulosa) tem um único objetivo: mobilizar uma caçada implacável ao homem vil (Josh Brolin) que matou seu pai.
Aos seus 14 anos, porém, Mattie, mesmo que obstinada e astuta, obtém pouco crédito das autoridades locais, que invariavelmente ignoram seus apelos. A única ajuda que ela consegue é o beberrão, mal-humorado e caolho Rooster Cogburn (Jeff Bridges, numa atuação brilhante em postura e observação), junto do relutante oficial LaBoeuf (Matt Damon, também ele muito bem aproveitado).
Juntos, muitíssimo à contra-gosto, essas três pessoas de irredutível caráter, mas, completamente incompatíveis entre si empreenderão a tal caçada humana pelas longínquas e inóspitas pradarias americanas.
Absolutamente livres de auto-censura e de qualquer necessidade politicamente correta, os Coen, astuciosos, pontuam seu filme com observações que jamais surgiriam em uma produção dos tempos da Velha Hollywood, em especial o tratamento indigno e cruel reservado aos índios pelo homem branco.
Eles homenageiam o passado com a auto-consciência crítica de quem sabe pertencer ao futuro.
Nem por isso, contudo, os Coen enaltecem atos de anti-heroísmo da parte de seus personagens tão humanos e idiossicráticos: Espirituosos, os Coen expõe as facetas dúbias, emocionais e irreversíveis de sua jornada até o seu desolado fim, permitindo, por meio de intérpretes de grandeza maior, que o público se enamora de todos eles apesar de tudo, e compartilhe uma pontinha de lamento quando chega a hora da despedida.