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segunda-feira, 13 de abril de 2020

Psicose

Hoje soa algo absurdo, mas em 1998, um estúdio de cinema, um produtor, uma equipe técnica e todo um elenco não chegaram a achar que a ideia do diretor Gus Van Sant em refilmar o clássico “Psicose”, de Alfred Hitchcock, fosse assim tão equivocado.
Mais: Van Sant não tinha em seus planos uma recriação, uma reinvenção ou mesmo uma repaginação (isso também foi feito, anos depois, na série “Bates Motel”), não, sua intenção era refazer a obra de Hitchcock frame a frame, repetindo os enquadramentos de câmera, mantendo a única iniciativa de acrescentar cores à fotografia outrora preto & branco.
Seu pretexto era a apresentação de uma obra fundamental à uma nova geração criada a base de MTV –e, ao qua parece, tão alienada que era incapaz de procurar um filme mais antigo em alguma locadora que o tivesse à disposição...
O filme até começa promissor, com um take de câmera ininterrupto (um traveling de helicóptero sobrevoa São Francisco e entra dentro da janela de um apartamento) que estava nos planos de Hitchcock, mas que na época as restrições técnicas não permitiram a ele sua viabilização. Assim, na personagem antes vivida por Janet Leigh, temos Anne Heche interpretando Marion Crane, a secretária prestes a passar a perna no próprio chefe; e destinada a pagar caro por isso. A fim de obter o mesmo resultado pretendido por Hitchcock (o de descartar em pleno filme a personagem que aparentava ser a principal), Van Sant tinha a intenção de escalar Nicole Kidmam para o papel (ela havia filmado com ele o ótimo “Um Sonho Sem Limites”), mas os conflitos de agenda não permitiram.
Durante sua fuga, de posse do dinheiro roubado do patrão, Marion chega no Bates Motel onde conhece seu estranho proprietário, Norman Bates.
Incorporado com tamanha adequação ao papel por Anthony Perkins que sua carreira custou a desvencilhar-se da sombra do personagem, Norman Bates é aqui vivido por Vince Vaughn que revela-se uma escolha bastante estranha: Grandalhão feito um jogador de basquete e inexpressivo, Vaughn em nada corresponde ao Norman de Perkins, cujas características errádicas, hesitantes e socialmente ineficazes escondem sua periculosidade sobre um verniz de timidez extrema.
Em vez disso, o Norman de Vaughn é claramente ameaçador, suspeito no sentido genérico do termo e lembra, por vezes, o capanga de um bandidão de fato.
Se você conhece “Psicose”, você sabe o que se sucederá –em nada o filme de Van Sant altera a ordem dos acontecimentos do filme de Hitchcock, revelando somente uma incapacidade mambembe de preservar a mesma maestria: A montagem magistral da cena da morte no chuveiro (estudada por alunos e professores de cursos de cinema) é recriada com cacoetes questionáveis e claudicantes; o desenho de som (responsável pela tensão de inúmeras passagens) é negligenciado a ponto de banalizar muitos momentos outrora antológicos; e o que resta do elenco –Julianne Moore, Viggo Mortensen (antes do “O Senhor dos Anéis”!) e William H. Macy –se esforça em vão para acrescentar credibilidade a um caso perdido.
Por conta de todos esses erros, quando chegamos ao trecho final –que na obra de Hitchcock abriga uma das mais eletrizantes e estarrecedoras reviravoltas do cinema –a reação do público ainda interessado aos acontecimentos é mais de chacota que de assombro.
Involuntariamente, a única serventia do “Psicose” de Gus Van Sant foi provar o quanto inestimável e inimitável era o “Psicose” de Alfred Hitchock e sua técnica então prodigiosa –pois, o enquadramento podia ser o mesmo, o roteiro, com suas sequências e diálogos, poderia ser o mesmo, até a mecânica das cenas poderia se repetir, mas havia uma magia na concepção daquela, e de outras obras-primas do cinema, que o mero e vazio esforço de reprodução não conseguiam replicar.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Garotos de Programa

Na esteira da realização exultante e inovadora de seu “Drugstore Cowboy”, o diretor Gus Van Sant deu continuidade, no início da década de 1990, à sucessão de ótimas obras que ele entregou no cinema independente norte-americano de então.
“Garotos de Programa” surgiu assim carregado de ímpeto criativo, de uma audácia plena permitida somente pela liberdade artística de uma produção marginal, e de notáveis singulares (também elas presentes em “Drugstore Cowboy”) que logo chamara a atenção para Gus Van Sant.
O filme tem também o promissor River Phonenix, que morreu ainda jovem, de overdose, poucos anos depois, o quê fez deste seu trabalho o melhor que ele entregou (venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Berlim) entre os tantos que poderia ter entregado se não tivesse partido cedo demais.
Phoenix interpreta Mike, um jovem que sofre de narcolepsia (a chamada doença do sono) e trabalha nas ruas, se prostituindo. Embora corra o risco de soar normal, e até banal, aos olhos de uma geração mais jovem de cinéfilos, o filme de Van Sant trazia um retrato do universo dos garotos de programa que impressionava pela inovadora destituição de julgamentos morais –o ato de prostituir-se, como se comprova já na primeira e surpreendente cena, é mostrado com uma objetividade lúdica e com uma serenidade narrativa que chegam a ser desconcertantes.
Mike é mostrado como um conhecedor profundo dos meandros das ruas. Compreende as regras e os códigos para lá viver, e conhece vários de seus... colegas de profissão.
Um deles, o que mais o intriga, é Scott (Keanu Reeves), filho de um milionário que exerce a profissão muito menos por necessidade e mais para chacoalhar a índole inabalável e indiferente do pai.
Talvez sejam esses assuntos pendentes relativos à paternidade que fazem Scott se identificar com Mike: Ele deseja, de alguma forma, reencontrar sua mãe. E nessa cruzada, ele e Scott acabam indo para a Itália, seguindo o encalço da única pista que tinham.
Em algum momento das idas e vindas dessa busca vã, a narrativa de Van Sant irá absorver características (e nelas se transfigurar) da peça “Henrique V”, de William Shakespeare, a ponto dos personagens passarem a declamar o texto integral como ele é.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Gênio Indomável

Após uma primeira fase em sua carreira na qual revelou-se um dos meninos prodígios do cinema independente norte-americano, o diretor Gus Van Sant enveredou por um cinema mais comercial –ainda que este “Good Will Hunting” ainda seja, por definição um filme independente –e foi devidamente abraçado por Hollywood, como era de se esperar.
Em seu formato e estrutura, “Gênio Indomável” segue uma cartilha irresistível à Academia de Artes Cinematográficas (e, com efeito, ela acabou premiando-o com dois Oscars): É tocante e bem realizado, cheio de boas escolhas e boas intenções, e seu retrato do subúrbio e da marginalidade jamais se torna ofensivo.
O roteiro do filme –um de seus maiores trunfos, premiado com o Oscar de Melhor Roteiro Original –foi escrito pelos próprios atores, os ainda jovens e iniciantes amigos Matt Damon e Ben Affleck que, indignados pela escassez de bom material com o qual pudessem mostrar seus talentos, resolveram eles mesmos escrever um filme para atuar.
Matt Damon ficou assim com o papel principal, o do jovem Will Hunting, dono de uma mente prodigiosa em cálculos matemáticos, porém um delinqüente problemático de temperamento instável que mal consegue manter um emprego. Ben Affleck, por sua vez, ficou com o papel de melhor amigo de Will, um dos vários companheiros de infância, com os quais ele ainda sai, bebe e arruma confusões. Will não seria diferente de nenhum deles. Mas, Will é um gênio. E essa genialidade não passa despercebida a um professor de universidade (Stelan Skarsgaard) que o apadrinha e resolve colocá-lo nos trilhos para que possa seguir uma carreira e tornar-se alguém. Para domar alguém como Will, é chamado um psiquiatra de métodos pouco convencionais (Robin Williams, no papel que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), tão desajustado quanto o próprio Will Hunting.
Não há qualquer proposta de inovação formal ou temática em “Gênio Indomável” –nem tampouco técnica –há, em vez disso, uma clara intenção e capacidade para realizar um filme bem feito, profundo e articulado na história e nos personagens que se deixa observar e interpretado com excelência por um elenco à época cheio de caras novas e promissoras (além de Damon e Affleck, havia também o irmão mais novo deste, Casey Affleck e a jovem Minnie Driver, como a mulher que Will ama).
E isso certamente já basta para estar acima da média.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Um Sonho Sem Limites

Nicole Kidman está mesmo tentadora neste ótimo filme, talvez, o melhor já engendrado por Gus Van Sant que aqui harmoniza como nunca antes em sua carreira as propensões de cinema comercial com uma saudável e salutar reflexão típica do cinema independente.
Ele não dá folga ao expectador: Realizador ainda jovem (o filme é de 1995) e ávido por experimentações na área de seu ofício, Van Sant constrói uma narrativa intrincada e fragmenta que se auto-impele o tempo todo, indo e vindo no passado e presente, deixando que o ‘antes’ se esclareça pelo comentário do ‘depois’.
Tudo isso molda uma crítica afiada, inteligente, mas nunca rabugenta, nem pretensamente séria, à mentalidade muito classe média e bem norte-americana de ‘vencer a qualquer preço’.
Essa condução ainda que confusa em primeira vista (e sensacional numa revisão) jamais perde o charme e a capacidade de envolver o expectador, em muito graças ao bem conduzido elenco que, nas mãos de Van Sant, entrega atuações cheias de ironia e controlada perplexidade.
É por isso que desde o início sabemos que algo de bem errado aconteceu, e que o cerne dessa possível tragédia –que não sabemos o que foi, mas assistimos diversas testemunhas dando seu parecer a esse respeito –é a ambiciosa (e deliciosa) Suzanne Stone (Nicole Kidman, no papel responsável por ela ter se tornado uma estrela na década de 1990), uma ‘garota do tempo’ da emissora de TV de uma cidadezinha que sonha com o estrelato –e com tal determinação ela almeja esse sonho que suas atitudes no dia-a-dia soam de um exagero e histrionismo absurdo, e por isso mesmo possível!
Suzanne é casada com Larry Maretto (Matt Dillon, que trabalhou com Van Sant no ótimo “Drugstore Cowboy”), o relativamente ingênuo e grosseiro dono de um restaurante de comida italiana.
É por meio de uma reportagem sobre o cotidiano de um grupo de adolescentes desajustados (entre eles um jovem Joaquim Phoenix e o recém-oscarizado Casey Affleck), onde Suzanne vê a chance de deixar de ser a mera apresentadora da previsão do tempo para alçar vôos mais altos, que ela começa a enxergar o empecilho que seu marido pode significar em sua ascensão.
Inexplicavelmente pouco lembrado nos dias de hoje –até então, ele sequer ganhou uma edição em DVD! –“Um Sonho Sem Limites” está certamente entre os melhores trabalhos lançados nos anos 1990. Ele une o ímpeto talentoso e criativo que Van Sant demonstrou em “Drugstore Cowboy”, aliado ao prestígio (e conseqüente tarimba para um maior orçamento e um elenco notável como este) obtido com “Garotos de Programa” –qualidades que não soube expressar tão bem no filme seguinte, o imediatamente anterior “Até As Vaqueiras Ficam Tristes”.
Van Sant ainda faria muitos outros filmes e consolidaria uma carreira audaciosa ainda que cheia de altos e baixos –incluindo algumas indicações ao Oscar por “Gênio Indomável” e “Milk-A Voz da Igualdade" –mas, o seu melhor trabalho de direção continua sendo este pulsante, divertido e sedutor conto de crime e castigo nos subúrbios norte-americanos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Drugstore Cowboy

Quando esta obra de um então iniciante Gus Vant Sant foi lançada em meados de 1989, sua postura incomum pegou público e crítica de surpresa, afinal, era um filme independente –e realizado com técnicas despojadas e senso de acidez de filme independente –mas, cujo resultado final remetia a um registro que se furtava do realismo predominante naqueles trabalhos: Tampouco o olhar de Van Sant parece buscar diretamente um alerta quanto às drogas da forma como pôde ser constatado em trabalhos transgressivos sobre esse tema que vieram depois, como “Trainspotting” (que deve muito de sua estética a esta obra de Van Sant) e “Réquiem Para Um Sonho”.
O interesse de Van Sant está, antes de mais nada, em capturar a euforia, a ligeira falta de perspectiva e os meandros emocionais cheios de possibilidades que aparecem na relação entre dois casais de viciados que juntos formam um grupo a se ocupar de corriqueiros assaltos a drogarias em Portland, no Oregon, em 1970 –é dessa maneira que eles obtêm os medicamentos com os quais se drogam.
Bob, o líder (interpretado por um Matt Dillon meticuloso e sereno), narra sua história em flashback, do leito de uma ambulância. Ele começa detalhando sua rotina ao lado de Dianne, sua namorada (a bela Kelly Lynch), seu amigo Rick (James Le Gros) e a jovem namorada dele, Nadine (Heather Graham, ainda bem novinha). Logo de início, já se pode perceber uma dinâmica problemática no grupo, que Van Sant vai tratar de explorar com espantosa propriedade para um diretor tão jovem. Importa menos a ele os efeitos nocivos do vício (embora eles apareçam irreversíveis a partir da segunda metade do filme) e mais os pequenos pormenores inerentes ao drama humano, que ele evidencia com sua direção desigual –as cenas em que o estado subjetivo de êxtase vivido pelo protagonista se sobrepõe na tela, com delírios acerca de figuras aleatórias, mas principalmente de chapéus (o quê descobriremos mais à frente ser um símbolo de desgraça nos códigos muito particulares dos personagens), são artifícios de narrativa que ganharam o cinema comercial somente mais tarde, nas mãos de Sam Raimi.
Enquanto vivem desses expedientes criminosos, os personagens do filme recebem ocasionais intervenções de personagens a um só tempo arquétipos e ambíguos: David (Max Perlich), um fornecedor de drogas com uns parafusos a menos –e, por isso mesmo, potencialmente perigoso –e Gentry (James Remar, ameaçador), um detetive no encalço de todos eles, mas que nutre um contraditório sentimento paternalista em relação à Bob.
Após uma tragédia pessoal, profeticamente ensaiada e sugerida na narrativa, se concretizar, Bob toma a decisão de abandonar tudo e tentar se reabilitar –mas, uma reabilitação nos moldes brutais e rígidos com que isso se dava nos anos 1970! –e então cruza-se com um conhecido, o padre Tom, interpretado (numa curiosa participação) pelo escritor de “The Naked Lunch”, William S. Burroughs, que discorre inusitadas e desconcertantes opiniões a respeito da condição do vício e dos viciados –e que, certamente, devem refletir não apenas o ponto de vista do personagem, mas sem sombra de dúvidas de seu intérprete também.
O ciclo narrativo de Van Sant se fecha com notável austeridade quando chegamos junto do protagonista na cena em que ele inicia todo o flashback que propiciou o filme, encerrando a trama com um comentário amargo que poderia depor contra o resultado final, não fossem as poucas usuais escolhas de seu diretor ao longo da produção.
Van Sant continuou fazendo (e ainda faz) bons filmes, com seu olhar normalmente voltado para os parias, os marginalizados e os desajustados, uma espécie aparentemente inevitável de desafortunada fauna viva gerada pela sociedade humana, que ele se mostra muito interessado em compreender.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Gerry

"Gerry" é um filme difícil. Na realidade, ele é assim porque seu realizador, Gus Van Sant, é um cara difícil.
Ele até mesmo deixa de ter uma postura como autor à sua maneira iconoclasta. Ao longo de sua carreira, Van Sant já fez de quase tudo: filmes independentes que flertavam com o experimental ("Drugstore Cowboy"), filmes independentes que flertavam com o comercial ("Gênio Indomável"), obras de ressaltada sensibilidade artística ("Garotos de Programa"), delírios autorais que não deram certo ("Até As Vaqueiras Ficam Tristes"), tentativas mainstream ("Encontrando Forester"), produções com singular senso de observação ("Elefante"), obras aclamadas e ousadas financiadas por grandes estúdios ("Milk-A Voz da Igualdade"), obras feitas à parte dos grandes estúdios, mas que obtiveram aclamação ("Um Sonho Sem Limites"), projetos pessoais insossos ("Inquietos") e projetos pessoais catastróficos (o remake de "Psicose").
Dentre tantas coisas, sua identidade sempre transpareceu com mais ênfase no cinema independente.
Daí vem a "trilogia da morte", da qual "Gerry" faz parte, junto com "Os Últimos Dias" e "Paranoid Park".
Por meio de sussurros, de elipses silenciosas, acompanhamos a estranha trajetória de dois amigos, ambos chamados Gerry.
São eles interpretados por Matt Damon e Casey Affleck.
Os dois vão a um deserto peregrinar, e em algum ponto descobrem-se perdidos naquele ermo de areia, onde, nos dias inclementes que se seguirão, não encontrarão nem mesmo um refúgio de sombra para o sol que lhes castiga.
Há uma subjetividade em todos os aspectos de "Gerry" –e que propicia à obra inúmeras conclusões distintas.
Tal subjetividade se encontra presente já na primeira cena, que acompanha, com uma melancolia onipresente, os dois amigos dentro do carro, sem trocar uma palavra, enquanto seguem em direção ao deserto em que se perderão. É também indicativo de um certo simbolismo –a favor do qual a narrativa de Van Sant trabalha –a cena intrigante da pedra gigante sobre a qual um dos ‘Gerrys’ vai parar após tanto andar; o fato dele mesmo não saber como foi parar lá pode ser uma das pistas deixada por Van Sant neste trabalho denso, circular, hermético e enigmático.
Mais do que em qualquer filme feito por Van Sant, este está aberto a múltiplas interpretações.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Elefante

Cinema independente sem concessões esta obra do diretor Gus Van Sant. É cinema norte-americano absorvendo os maneirismos do cinema europeu. 
Van Sant segue seus personagens na tentativa, às vezes nebulosa, de decifrar a tragédia de Columbine, onde alunos, como se sabe, metralharam colegas e professores. A câmera às suas nucas registra suas trajetórias mostrando a individualidade de cada um e também (o que talvez seja mais relevante) sua pluralidade, como vistos de longe, eles são os mesmos estudantes, os mesmos adolescentes que podem habitar qualquer escola. 
Os destinos dessa fauna e suas entrecruzadas linhas de destino próprio parecem despertar um interesse enorme em Van Sant, e ele distorce o tempo, o ritmo e o espaço na sua ânsia de acompanhá-los. É um dia normal numa escola normal. Mas, Van Sant imprime o senso de fatalidade imediatamente nas primeiras cenas. A narrativa que em princípio evoca um tom bucólico, o silêncio a envolver os diálogos juvenis como um éter, sobretudo nas tomadas intermediárias de um céu azul dando lugar a uma escuridão de tempestade são claras evidências de que algo muito errado está para acontecer. 
Não é intenção de Gus Van Sant usar expedientes, nem jogar um filme de suspense para o expectador. O que lhe interessa são os motivos que levam dois jovens a cometer as atrocidades que surgem inevitáveis no segundo ato do filme. Talvez, não exatamente os motivos, já que por definição, este é um crime injustificável. É na busca do significado, e no inevitável fracasso em encontrá-lo, que está o cerne dramático do filme. Dividido por intertítulos que recebem o nome dos personagens, o filme acompanha um a um, só para afinal, mostrar ao expectador que, no fluxo infinito das coisas, eles têm a grandeza de pessoas comuns, e a pequenez de serem próximas vítimas de uma tragédia por vir, destinos que serão interrompidos pelo estalar de gatilhos. 
Dentro desse painel, Van Sant se permite horrorizar com atitudes banais, mas que contêm a crueldade, com os outros e consigo próprio, que pode ser a chave para que, no fim, leva dois desses adolescentes a metralhar colegas e professores: A cena do jovem perdido que tem que tomar conta do próprio pai alcoolizado, ou das três patricinhas que lancham para vomitar propositadamente a comida no momento seguinte. Todas contêm um registro daquela situação não raro insuportável de ser jovem demais para ser levado à sério, e velho o bastante para almejar fazer a diferença na sociedade. Uma situação que resulta num estado emocional de ebuliente frustração e incapacidade, cuja pior das conseqüências talvez seja o caos que vemos se derramar à tela no trecho final. Mas, Van Sant aborda tudo sem estabelecer julgamentos. 
Os personagens e suas idiossincrasias expostos fazem parte do quadro indecifrável que ele expõe ao expectador. Mas, ele não parece nem mesmo requisitar sua autoria.