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domingo, 9 de abril de 2023

John Wick 4 - Baba Yaga


 É bem provável que nenhum diretor de ação do cinema moderno ostente um conhecimento tão intrínseco das engrenagens cinematográficas quanto Chad Stahleski. Na epopéia em quatro filmes que compõem a “Saga John Wick”, ele provou-se um raro entendedor daquilo que conferem brilho, textura e valor à linguagem narrativa traduzida em imagens que se movem. Diferente da grande maioria dos diretores de ação –até mesmo daqueles admiráveis, como John Woo –para Stahelski a ação não é mera cacofonia e caos visual. Ele a enxerga na essência da imagem em movimento que define o próprio cinema e, para tanto, são imprescindíveis as proposições de cinema mudo, as referências temáticas e sensoriais do faroeste, o tratamento estilizado dos entraves físicos, a amplitude do enquadramento a emoldurar a ação num quadro de cores vivas, elementos que se percebem desde o primeiro filme. Stahelski foi particularmente feliz ao descobrir que nenhum outro ator senão Keanu Reeves seria capaz de compreender e refinar a linguagem corporal de movimentos precisos e expressivos que definem o protagonista –e olha que muitos intérpretes antes dele se apresentaram para a tarefa.

Em seu quarto longa-metragem, “John Wick” surge consagrado como uma das grandes realizações no campo da ação cinematográfica de todos os tempos, e refuta cada um dos palpites negativos de seus detratores ao afirmarem que, por vezes,a proposta embutida em sua fórmula se torna propícia à repetição. A trama de “Baba Yaga” é simples, entretanto, sua elaboração é tão brilhante, tão cheia de requinte e primor que mesmo diante da nada modesta duração de duas horas e quarenta e nove minutos (o que prolonga suas sequências para muito além do que os anteriores já permitiam) se revela um espetáculo extasiante.

Na última vez que vimos John Wick, em “Parabellum”, ele foi arremessado pela traição de Winston (Ian McShane) num caminho de conflitos ainda mais impossíveis, destituído de aliados –na verdade, ele ainda pode contar, vez ou outra, com o auxílio do Rei de Bowery (Laurence Fishburne, sempre soberbo), no entanto, as complicações de Wick se afunilaram: A Alta Cúpula (os mandatários principais da tentacular organização de assassinos que se estende pelo mundo todo e dentro da qual Wick é uma lenda), em desespero, relegou poder absoluto ao instável e psicótico Marquês de Gramont (Bill Skasgaard, de “It-A Coisa”), depois que Wick (na cena que já abre o filme) dá provas de que agora vai atrás dos membros anciões para matar um a um. O Marquês trata assim de punir Winston tirando-lhe o status de gerente e o controle do Hotel Continental –na verdade, implodindo todo o hotel! –e deixando claro que todo aquele que acobertar Wick pagará o mesmo preço. Com efeito, é o que se sucede no Japão, no Hotel Continental de Osaka, gerenciado por Shimazu (Hiroyuki Sanada), grande amigo de John Wick: O local é invadido por atiradores da Alta Cúpula na primeira das inúmeras sequências monumentais do filme.

A partir daí, John Wick elabora um plano: A fim de resolver em definitivo sua situação com a Alta Cúpula, ele deverá propor um duelo de honra contra o próprio Marquês de Gramont. Contudo, para tanto, ele precisa do respaldo de uma família integrante da Cúpula, família esta que John Wick possui –e se encontra em Berlim –porém, há tempos eles já o deserdaram. A única maneira de restaurar os laços com a atual líder do clã, sua ressentida irmã adotiva Katia (Natalia Tena, de “Harry Potter e A Ordem da Fênix”) é aceitar uma incumbência que somente John Wick seria capaz de cumprir: Eliminar Killa (Scott Adkins), o chefe da jurisdição alemã da Cúpula, responsável por matar seu pai. Nessa trajetória de embates e destruição –que, a rigor, se cumpre nos mesmos moldes dos filmes anteriores –John Wick se cruza com pelo menos dois personagens que introduzem uma interessantíssima dinâmica de ambiguidade em seu conflito: O implacável Caine (o maravilhoso Donnie Yen, de novo interpretando um personagem cego sensacional depois de “Rogue One”) cuja genuína amizade com John Wick se equilibra, na mesma balança moral, com o zelo incondicional pela filha, e o misterioso Mr. Nobody (Shamier Anderson, de “Cidade de Mentiras” e da série “Winonna Earp”) mercenário admirador de Wick que apenas aguarda, paciente, o preço pela sua cabeça atingir as cifras que deseja –e que compartilha com ele o mesmo apreço por cães!

Com base nessa trama urgida com precisão –na qual a originalidade está na execução, na objetividade com que atende as demandas de seu público e no esmero singular com que molda as características de sua fascinante mitologia –Chad Stahleski transforma “Baba Yaga” num tratado assombroso e ambicioso da construção narrativa da ação no cinema. Os elementos visuais que determinam uma obra cinematográfica –fotografia, montagem, manejo dos atores dentro do plano –são empregados, todos em uníssono, na composição de sequências espantosas de ação, seja o tiroteio numa sala envidraçada de exposição japonesa, ou a perseguição numa rave alemã com cascatas artificiais decorando o recinto (antecedida por uma brilhantemente tensa disputa de cartas), seja a luta inacreditável situada em pleno Arco do Triunfo, na França, em meio ao tráfego insano de automóveis em alta velocidade, ou a impressionante cena na escadaria de duzentos e vinte e dois degraus que leva à Basílica de Sacré-Coeur, o grande clímax de “Baba Yaga”. Tudo, na obra de Stahelski está a serviço do aprimoramento visual do que se entende por ação, e na excelência técnica de suas coreografias de luta, na beleza ímpar de sua direção de fotografia e no arrojo exemplar de seu astro (bem como a desenvoltura física espantosa de seus dublês) ele faz de “Baba Yaga” um verdadeiro desafio a ser superado por qualquer longa-metragem de ação por vir.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Te Amarei Até Te Matar


 Dentre os diversos e variados filmes entregues pelo diretor e roteirista Lawrence Kasdan entre os anos 1980 e 90 –todos com um elenco estelar que normalmente se repetia –“Te Amarei Até Te Matar” é aquele com as características mais autorais, uma comédia transbordante de humor negro, inspirada, por sua vez, num fato real (!), tão inacreditável que só poderia ser plausível mesmo sob a alegação de que se baseava na realidade.

Dono de uma pizzaria na Pensilvânia, o ítalo-americano Joey Boca (Kevin Kline, no personagem mais sarcástico de sua carreira depois de “Um Peixe Chamado Wanda”) se acha o dono do mundo: Mete forças o tempo todo com a sogra enfezada, Nadja (Joan Plowright), inferniza os empregados, em especial, o humilde Devo (River Phoenix) e trai abertamente a esposa, Rosalie (Tracey Ullman).

Quando Rosalie descobre o adultério, com efeito, não lhe faltam conselheiros caprichosos –Nadja e Devo (este, secretamente apaixonado por ela) –para lhe incitar a vingar-se. Sem poder se divorciar (entre os católicos isso é inadmissível), a saída que resta é dar cabo do marido mulherengo, afinal, estando morto, Joey beneficia muito mais a todos do que estando vivo.

Ao lado de Devo e Nadja –dois comparsas dos mais destrambelhados que se pode imaginar –Rosalie dá inicio a um meticuloso plano de vingança, que inicialmente inclui matar Joey envenenado (!).

Contudo, isso não dá certo (teria o veneno deixado de funcionar?) e o grupo recorre a, digamos, “profissionais”: Entra em cena a dupla de pretensos ‘assassinos de aluguel’, formada pelos maconheiros Harlan e Marlon (William Hurt e Keanu Reeves, ambos impagáveis), tão lesados e fora da realidade que, em momento algum do filme, sabem onde estão (!).

Após um início claudicante, onde o roteiro assume ares burocráticos para estabelecer motivações –algo que revela a disposição acadêmica de Kasdan –“Te Amarei Até Te Matar” não tarda a enveredar por meio do filme que enfim queria ser, desenvolvendo sua trama toda ao longo de uma única madrugada, com idas e vindas, trapalhadas, surpresas e reviravoltas que emulam um senso de humor macabro, muito adequado a um Alfred Hitchcock, temperado, porém, com um viés ácido que só começaria a ser de fato experimentado no cinema da década de 1990.

O elenco fenomenal faz maravilhas –os maconheiros vividos por Keanu Reeves e William Hurt simplesmente roubam as cenas; Kasdan extrai muito comicidade de intérpretes normalmente atrelados a atuações mais sérias, caso de Phoenix, Plowright e Ullman (embora esta tivesse feito trabalhos com Mel Brooks e John Walters); e Kevin Kline oferece toda a solidez e sustentação à trama, compondo um protagonista em torno do qual todos os objetivos circundam –e o filme, com seu misto incomum e inusitado de comédia, suspense e fatalismo, se não consegue divertir plenamente todos os públicos (pois seu humor é deveras peculiar e particular para chegar a tal abrangência), ao menos se mostra envolvente, curioso e instigante na análise descontraída e hilária das falhas humanas que nos impelem ao delito, e das inesperadas intrigas da vida doméstica.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O Dia Em Que A Terra Parou


 Antes da impressão um tanto razoável de que o diretor Scott Derikson estava a adentrar território sagrado refilmando o clássico da ficção científica de 1951, é preciso lembrar que o filme original, dirigido então por Robert Wise, já é antigo o bastante para permitir uma repaginada bastante promissora, sobretudo no que tange aos seus aspectos técnicos; elemento sempre importante no gênero da ficção científica.

E Derikson ainda faz um esforçado dever de casa: Ele capricha no trabalho de condução e direção, ciente da oportunidade preciosa que ganhara (após o surpreendente sucesso de seu “O Exorcismo de Emily Rose”), e seu roteiro, para além da trama de simplicidade alegórica anti-belicista que definia o original, acrescenta elementos que se fazem pertinentes, especialmente na primeira parte, em que seu fôlego narrativo ainda se mostra ávido.

As coisas já começam interessantes no prólogo, a mostrar um alpinista (Keanu Reeves) tendo um contato imediato com um ser de outro mundo numa longínqua montanha gélida: Eis, portanto, a origem, por assim dizer, do corpo terreno do alienígena Klaatu.

Corta então para a atualidade, para a personagem da belíssima Jennifer Connelly, Dra. Benson, recrutada em seu próprio lar, na calada da noite e em circunstâncias nebulosas, para integrar um time de especialistas numa operação sem precedentes: Um objeto voador não identificado está vindo do espaço com rota fixada em Londres. E os indícios mais recentes, de desacelaração e manobra aérea, indicam que não é um meteoro ou um asteróide qualquer e sim uma nave tripulada.

É curioso como filmes envolvendo extraterrestres têm, na primeira parte de sua premissa, os momentos mais sugestivos e instigantes: Observe como a mesma coisa acaba acontecendo em “Independence Day”, do qual o filme de Derikson acaba, invariavelmente, pegando alguns elementos emprestados –a atmosfera iminentes de fim do mundo, o retrato algo clichê da relação cientistas/militares, a postura sempre relapsa das autoridades (representada aqui por uma pouco aproveitada Kathy Bates) e, certamente, a confiança desmesurada depositada nos efeitos visuais de ponta.

É logo em seguida, contudo, que o novo “O Dia Em Que A Terra Parou” mostra um de seus maiores trunfos: Quando, já na iminência do contato entre os humanos perplexos e os alienígenas visitantes, o ser do espaço se revela numa familiar aparência humana, interpretado assim por Keanu Reeves –sempre um bom ator que, pelo perfil camaleônico de toda sua filmografia e pela postura algo questionadora com que sempre guiou sua carreira, acaba caindo como uma luva no papel do alienígena Klaatu!

Pena que não demora muito –logo depois que Klaatu resolve fugir do confinamento onde as autoridades terrenas tentam colocá-lo, na companhia da Dra. Benson, o único humano sensato que achou pela frente –para o filme engatar uma marcha mais desanimadora, rumo a um sem-fim de cenas que estiveram em quase todas as obras do gênero a tratar de invasão alienígena nos últimos tempos: O poder incontrolável que ameaça toda a raça humana (na forma do robô Gort, sabiamente mantido em suas características memoráveis do filme anterior); a gradual descoberta do alienígena de que a humanidade merece, sim, ser poupada apesar de seus erros que comprometeram o ecossistema da Terra (o que responde pela demagógica participação de John Cleese); e até mesmo a relação um tanto forçada (certamente o aspecto mais enfadonho do filme) entre o alienígena e o garotinho, filho adotivo da Dra. Benson, vivido sem a menor inspiração por Jaden Smith, filho do próprio Will Smith.

Há menos inocência nesta refilmagem em comparação com o clássico antibélico de Robert Wise –o antigo “O Dia Em Que A Terra Parou” requer cumplicidade do expectador atual para ser devidamente compreendido e aproveitado –mas, a tensão política, a reflexão ecológica (uma conclusão bastante óbvia) e as imagens visualmente recauchutadas para uma nova geração não chegam a ser tão marcantes quanto o foram nos anos 1950; talvez nem seja culpa do filme mediano que Derikson entregou: Os expectadores de hoje em dia se habituaram a não se surpreender com nada e a se incomodar com tudo.

sexta-feira, 12 de março de 2021

A Casa do Lago


 Se havia algo de fulgurante em “VelocidadeMáxima” era a química entre o casal Sandra Bullock e Keanu Reeves. O público –que, em parte devido a esse detalhe fez daquele filme um grande sucesso –não teve o gostinho de vê-los juntos novamente na continuação, na qual Keanu foi substituído pelo insosso Jason Patric. Entretanto, houve uma compensação, quase dez anos depois, quando Sandra e Keanu estrelaram o romance “A Casa do Lago”.

Na trama, Keanu é o arquiteto Alex Wyler. Sandra é a jovem médica Dra. Kate Forster. Numa manobra que aproxima o filme dirigido por Alejandro Agresti de “Sintonia de Amor” –onde o casal protagonista quase nunca é visto juntos em cena, mas monopoliza a torcida do público pela ótima combinação dos dois –a história carregada de elementos fantásticos coloca os dois apaixonados divididos por um obstáculo intransponível de tempo: Num intervalo de cerca de dois anos, ambos ocupam a mesma casa à beira de um lago: Ele, em 2004, é o inquilino. Ela, em 2006, fartou-se de morar no centro de Chicago e mudou-se para lá.

Todavia, por alguma razão tão mágica quanto inexplicável, a caixa de correio do lugar envia as cartas através do tempo, permitindo aos dois trocarem correspondências.

Por meio disso, e da perplexa descoberta da circunstância fantástica que os une, os dois, Alex e Kate, vão descobrir que são almas gêmeas e, pouco a pouco, um forte desejo de acharem um meio de se encontrar vai tomando conta delas –e, bem verdade, da plateia também.

A medida que “A Casa do Lago” avança, alguns questionamentos se tornam inevitáveis: Aonde, afinal, está o Alex de 2006, enquanto o seu eu de 2004 troca cartas com Kate?

A resposta a essa pergunta representa, talvez, uma das maiores modificações deste filme em relação à obra que ele procura refilmar, o sensível drama romântico sul-coreano “Il Mare”.

Na qualidade de refilmagem norte-americana –de uma obra que, deveras, não necessitava ser refilmada, visto que é apenas seis anos mais antiga que este filme –o filme de Alejandro Agresti reprisa com certa descaramento toda a sólida e eficaz simplicidade narrativa do original, atrevendo-se apenas a alterar o que o tornava memorável: Justamento o elemento de irônico fatalismo presente em seu enredo e que só notamos no desfecho inesperado.

Em prol do convencionalismo predominante no cinema norte-americano em geral –e nas histórias românticas em particular –“A Casa do Lago” faz todas as concessões possíveis e com isso abre mão dos fatores que poderiam fazê-lo antológico.

O resultado final é um filme agradável e ao mesmo tempo banal, esquecível justamente por sua convicção em jamais chocar o público, tornado palatável graças à presença de seu radiante casal protagonista que, mesmo dividindo uma quantidade limitadíssima de cenas, consegue fazer facilmente o público adepto de um romance suspirar.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

John Wick 3 - Parabellum

O argumento um tanto elitista de alguns críticos de que o gênero de ação comporta uma qualidade inferior de cinema encontra uma fortíssima discordância nos filmes da série “John Wick”: Neles, há um senso apurado de narrativa e, por que não, uma carpintaria dramática que evidencia com simplicidade poderosa (mas, nem por isso superficial) os dilemas morais de seu protagonista, ao mesmo tempo que oferece um relevo fascinante onde personagens coadjuvantes e suas esboçadas tramas individuais se apresentam com a necessária informação administrada; isso tudo a serviço daquilo no qual o diretor Chad Starelski mostrou-se ser um mestre –as cenas de ação, de embate e de tiroteio mais bem coreografadas e surpreendentes dos últimos tempos!
Sim, pois nesse quesito, filme nenhum, por mais brilhante que seja, parece ser capaz de igualar “John Wick”.
Suas influências, caso não tenha ficado claro em uma infinidade de referências plantadas nas cenas, é a essência do cinema-mudo –embora imbuído de trilha sonora pulsante e apropriada, “John Wick” é construído sobre cenas que não precisam de diálogos para se expressar, nas quais o movimento dos corpos corresponde a um entendimento do fetiche e da sinergia inerente ao gênero de ação.
Exibindo aquela contundência e aquela objetividade que já o tornaram memorável, o filme começa exatamente no ponto em que o segundo, “Um Novo Dia Para Matar”, se encerrou: Com o lendário matador John Wick declarado ex-comungado pela Alta Cúpula de Assassinos, por ter quebrado as regras e assassinado um desafeto dentro das dependências do Hotel Continental, local considerado neutro onde ninguém deveria morrer.
Já nesse prólogo, o diretor Stahelski apresenta suas cartas na mesa, sendo a mais valiosa delas o seu astro, Keanu Reeves, cuja destreza corporal já havia ajudado a tornar os dois filmes anteriores antológicos.
Aqui, o personagem John Wick já é, para Reeves, um invólucro confortável, ao qual ele se adapta com tamanha rapidez que mal precisamos de preâmbulos, de explicações ou de pretextos para que sua via-crusis já se intensifique; com essas certezas, Stahelski já arremessa o protagonista e o expectador na tortuosa montanha russa que é seu filme, onde um inimigo espreita a cada esquina e uma luta mortal pode se desenvolver nos mais improváveis ambientes, seja uma silenciosa biblioteca (que cena!), seja um estábulo ou até mesmo uma perseguição subsequente envolvendo um dos cavalos e várias motocicletas (!).
O plano algo improvisado de John Wick para escapar com vida é pedir auxílio no Cinema Tarkovsky (uma referência constante nos filmes de Stahelski e de seu colaborador David Lelitch), onde ele poderá requisitar uma ajuda da diretora de um grupo de balé (Anjelica Huston), por meio da qual veremos um pouco de luz ser jogada sobre as origens bielo-russas do protagonista.
Em seguida, Wick consegue ir em direção à Casablanca –onde, para variar, outra cena magnífica se desenrola –e procura pela outrora aliada Sofia (Halle Berry), de quem pretende cobrar uma espécie de favor: Ajudá-lo a seguir deserto adentro e encontrar o lendário chefe da Alta Cúpula, Berrada (Saïd Taghmaoui, de “Mulher Maravilha”) a fim de negociar diretamente com a autoridade maior.
Entretanto, nesse interím, a Alta Cúpula despacha uma personagem tão fria quando desconcertante, a Juíza (Asia Kate Dillon), para mover uma represália a todos que ajudaram de alguma forma John Wick, como Winston (Ian McShane, de “Piratas do Caribe-Navegando Em Águas Misteriosas”), gerente do Continental que deu a ele uma hora de vantagem antes da validação da recompensa por sua cabeça; ou o rei de Bowery (Laurence Fishburne), cujo gesto de emprestar uma arma à John Wick deflagrou todo o caos que ganha corpo neste filme.
Consciente da musculatura mitológica que atribui à sua criação, o diretor Stahelski confronta seu herói com uma sucessão de guinadas de ordem tão filosófica quanto irônica –a maior delas, sendo a ideia de encerrar onde tudo começou, ou seja, no Hotel Continental, palco de uma das mais insanas sequências de ação do cinema moderno, trazendo como formidável antagonista, o hábil, leal e letal espadachim interpretado por Mark Dacascos.
São muitos os elementos memoráveis que “Parabellum” entrega em profusão (a eletrizante participação dos atores de “Operação Invasão” merece ser aplaudida de pé!), mas talvez, seu detalhe mais notável seja o equilíbrio com que todos eles estão amarrados do início ao fim –nada sobra e nada falta neste primor de realização, resultando num espetáculo de inuspeito refinamento entre ritmo, história e ação.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Uma Noite Muito Louca

Hoje, Keanu Reeves é um veterano que goza de prestígio junto ao público e crítica graças a excelentes filmes comerciais no currículo e uma reputação de caráter impecável, mas houve um tempo, em algum momento dos anos 1980, que era um jovem ator muito promissor.
Foi na qualidade de promessa hollywoodiana que ele estrelou “The Night Before” –ou “Uma Noite de Loucuras”, ou "Uma Noite Muito Louca" nos parcos nichos nacionais em que ele foi conhecido –dirigido e roteirizado por Thom Eberhardt, com nítida e apaixonada inspiração no genial “Depois de Horas”, de Martin Scorsese.
Todavia, o próprio trabalho de Eberhadt converteu-se, ele próprio, numa inspiração, ainda que obscura: Não obstante as influências mais recentes e famosas (como “Cara, Cadê Meu Carro?” e “Despedida de Solteiro Em Las Vegas”), este filme –como será bastante evidente por sua premissa –é uma das referências incontornáveis para a trama de “Se Beber, Não Case”.
Keanu Reeves é Winston, jovem estudante que, como todos os protagonistas adolescentes, acidentais e desafortunados nos anos 1980, padece da mediocridade perante seus pares.
Entretanto, o problema imediatamente urgente de Winston não é esse: Ele acorda num beco sujo, e com as roupas em farrapos, sem maiores lembranças ou informações de como foi parar lá ou do que aconteceu no noite anterior.
Claro que pouco-a-pouco sua memória vai retornando e, de situação em situação, ele vai reconstruindo o quebra-cabeça de sua então nebulosa aventura –as características narrativas melhor empregadas por Eberhardt e que respondem pelo aspecto mais eficaz do filme, presente sobretudo na ótima primeira metade.
Winston, na verdade, experimentou o supra-sumo da boaventurança para um jovem prestes a formar-se no colegial (mais um elemento inerente ao cinema dos anos 1980) –ele conseguiu ir à festa de formatura com a garota mais disputada do colégio (Lori Loughlin, de “Admiradora Secreta”) graças a uma aposta perdida por ela para suas colegas; o castigo era aceitar o convite dele.
No entanto, as confusões e encrencas que se seguiram –e que são elucidadas por meio de ocorrências sugeridas a medida que o filme avança –o levaram a experimentar um pesadelo: Ele a leva, no carro esporte do pai, para o lado errado da cidade, num subúrbio cujas roupas de gala que vestem atrai o interesse dos moradores locais.
Não há como negar que Thom Eberhardt, se não foi nada original ao moldar deliberadamente um pastiche juvenil de “Depois de Horas”, ao menos, soube fazer a lição de casa e percebeu a conjunção de pequenas sacadas que integravam a estrutura narrativa que Scorsese montou –e, se não as recria com brilho, o faz com despretensão e euforia relativamente contagiante.
Como é normal em muitos casos, o filme perde vertiginosamente sua graça conforme os indícios até então incertos começam a serem revelados; e sem o charme de seu mistério para disfarçar, o filme de Eberhardt não consegue ocultar o amadorismo de seu roteiro e a pouca inventividade de sua direção, restando assim somente o carisma de Keanu Reeves para sustenta-lo.
É uma boa sustentação, diga-se: Keanu dá um brilho empático e admirável à um personagem que, nas mãos de outro ator, poderia soar apenas aquilo que o roteiro tentar fazer dele. Um boboca.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Caçadores de Emoção


Mesmo quando ainda não tinha diante de si os predicados do reconhecimento da crítica e das premiações (o quê veio com “Guerra Ao Terror”), a diretora Kathryn Bigelow sempre foi hábil e talentosa –e, contrariando as impressões gerais suscitadas por realizadoras mulheres, uma de suas especialidades era no terreno bem masculino dos filmes de ação.
Certamente, “Caçadores de Emoção” é um dos grandes responsáveis por isso.
Sua dupla de protagonistas reunia basicamente um proeminente jovem em ascensão (Keanu Reeves) que unia de maneira rara a simpatia de parte da crítica, que enxergava suas qualidades como ator, e o interesse do público feminino (para o qual a cena inicial –um treinamento debaixo da chuva com camisa molhada e musculatura em evidência –certamente foi feita); e um fulgurante astro do período (o saudoso Patrick Swayze), garantia certa de bilheterias, recém-saído do maior êxito de sua carreira (no caso, “Ghost-Do Outro Lado da Vida”) e, também ele, unindo habilmente a capacidade de bem atuar com o apelo junto às mulheres.
De lambuja, Swayze ainda encarou um inesperado papel de vilão, que ele assumiu com o entusiasmo e a euforia de um ator que, depois de tanto tempo, enfim, sentiu-se desafiado.
A trama de “Caçadores de Emoção” não traz maiores novidades –mas, sabe extrair dessa mesma simplicidade os elementos que fazem seu charme: Uma audaciosa quadrilha promove sucessivos assaltos a banco nas cidades da Costa Oeste dos EUA. Usando máscaras de ex-presidentes norte-americanos, eles ostentam tal irreverência (um deles chega a exibir o traseiro para uma câmera de segurança!) que não tarda a levar o veterano agente do FBI, Angelo Pappas (o ótimo Gary Busey) a concluir que todos, talvez, possam ser surfistas ou adeptos de esportes radicais (!).
A aparência notadamente jovem de seu novo parceiro, Johnny Utah (Reeves), vem então a calhar: Pappas acredita que ele é capaz de infiltrar-se nessa comunidade ‘paz e amor’ e assim descobrir quais aqueles que têm o perfil para serem os procurados assaltantes.
Durante sua investigação –e sua claudicante tentativa de enturmar àquela tribo –o agente Utah acaba conhecendo Bodhi (Swayze), o carismático líder de um grupo que o acolhe e lhe ensina a surfar e a subtrair as ansiedades da vida moderna. Junto com eles, Utah conhece Tyler (Lori Petty), por quem se apaixona.
E é nítido, desde o primeiro instante, que esse grupo amistoso que recebe o herói de braços abertos, é também a quadrilha de assaltantes, o quê o levará a um dilema moral (e verdadeiramente funcional) que é o cerne da premissa, e às seqüências eletrizantes e simultâneas que se sucederão na sensacional segunda metade do filme.
E pronto! Da forma como está e como se apresenta, “Caçadores de Emoção” não precisa de muito mais para ser um dos mais vibrantes e empolgantes produtos de entretenimento entregues na década de 1990.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O Dom da Premonição

Perto do fim da década de 1990, após um hiato de tempo sem filmar, o diretor Sam Raimi pareceu enveredar por um cinema mais sério, sinalizando uma espécie de amadurecimento como cineasta. Exemplificando essa fase, o suspense “Um Plano Simples” surpreendia pela austeridade e pela solidez narrativa mesmo guardando, nas entrelinhas, elementos que ainda agregavam o estilo de Raimi –ele parecia enfim estar tomando o rumo que seus grandes amigos, os Irmãos Coen, também tomaram.
Insistindo nesse caminho, ele deu prosseguimento a realização de obras mais adultas com este “O Dom da Premonição” que, de fato, na filmografia de Raimi, só encontra similaridades mesmo com “Um Plano Simples”.
Todavia, “O Dom...” já recupera os elementos sobrenaturais do início de sua carreira.
Numa variação de sua colaboração em “Um Plano Simples”, o roteiro é escrito pelo ator Billy Bob Thornton (que a maioria lembra de seus trabalhos como ator, mas, vale lembrar, ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 1997, por “Na Corda Bamba”).
É, pois, uma notável reunião de talentos: Além de Raimi e Thornton atrás das câmeras, o elenco reúne a espetacular Cate Blanchett, a oscarizada Hillary Swank (ela tinha acabado de ganhar o Oscar de Melhor Atriz por “Meninos Não Choram” e ainda ganharia outro, anos depois, por “Menina de Ouro”), o badalado astro de “Matrix” (lançado um ano antes), Keanu Reeves, o ótimo Gregg Kinnear e a jovem Katie Holmes (que, neste filme, tem uma cena de nudez!).
Na trama –que remete a uma ambientação do sul da Flórida muito similar à “Na Corda Bamba”, de Thornton –acompanha Annie Wilson (a sempre excelente Cate Blanchett), uma moradora de uma pitoresca cidade sulista e, nas características que a definem, amplamente inspirada na mãe do próprio Billy Bob: Annie é mãe solteira e cria os filhos valendo-se de clientes interessados em suas habilidades premonitórias como uma espécie de vidente.
Em sua inata experiência para elaborar um bom suspense, o diretor Sam Raimi, muito à vontade no gênero, cerca essa protagonista de personagens coadjuvantes pitorescos e peculiares que justificam plenamente esse elenco estelar (que normalmente um diretor gabaritado como Raimi atrai) e que constituem uma galeria de suspeitos para a colcha de retalhos que a premissa costura: Há o limitado e infantil mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), a dona de casa Valerie (Hillary), completamente displicente e passiva em relação à violência que sofre do marido (Keanu Reeves, inesperadamente assustador, é talvez a melhor presença do elenco) e até mesmo o diretor da escola (Gregg Kinnear), por quem Annie nutre uma simpatia especial embora ele seja noivo de Jessica King (Katie), uma garota promiscua que se envolveu co quase todos os homens da cidade.
As habilidades paranormais de Annie tornam-se uma maldição quando suas visões começam a revelar para ela assassinatos iminentes, ou que podem até já ter acontecido –relacionados, inclusive ao súbito desaparecimento de Jessica.
“O Dom da Premonição” é assim quase um meio termo entre a sutileza brilhante de "Um Plano Simples" e as desconcertantes inserções sobrenaturais de "Evil Dead" –com uma nítida inclinação de Raimi para com a seriedade do primeiro, certamente, visando alguma aclamação por esse esforço em amadurecer (“Um Plano Simples”, é bom lembrar teve duas indicações ao Oscar).
Entretanto, como logo ficou claro, Raimi não conseguiu deixar de lado suas paixões de juventude: Ao contrário dos Coen, que souberam conduzir tramas e atmosferas de cunho adulto com o mesmo brilho e entusiasmo de suas obras frenéticas do início da carreira, Raimi não sustentou por muito tempo essa sua tentativa de reinvenção (e este trabalho realmente se ressente de tentar emular o mesmo tipo de narrativa de “Um Plano Simples”) e voltou para os filmes mais fantasiosos com os quais se identificava –logo em seguida, ele assinou contrato para dirigir a aguardada adaptação de “Homem-Aranha” (cujo sucesso desdobrou-se numa trilogia que o ocupou por quase uma década) e realizou um filme de terror nos moldes mirabolantes de “Evil Dead”; o divertido “Arraste-Me Para O Inferno”.
Lá no fundo, o diretor Sam Raimi não queria mesmo crescer.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Garotos de Programa

Na esteira da realização exultante e inovadora de seu “Drugstore Cowboy”, o diretor Gus Van Sant deu continuidade, no início da década de 1990, à sucessão de ótimas obras que ele entregou no cinema independente norte-americano de então.
“Garotos de Programa” surgiu assim carregado de ímpeto criativo, de uma audácia plena permitida somente pela liberdade artística de uma produção marginal, e de notáveis singulares (também elas presentes em “Drugstore Cowboy”) que logo chamara a atenção para Gus Van Sant.
O filme tem também o promissor River Phonenix, que morreu ainda jovem, de overdose, poucos anos depois, o quê fez deste seu trabalho o melhor que ele entregou (venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Berlim) entre os tantos que poderia ter entregado se não tivesse partido cedo demais.
Phoenix interpreta Mike, um jovem que sofre de narcolepsia (a chamada doença do sono) e trabalha nas ruas, se prostituindo. Embora corra o risco de soar normal, e até banal, aos olhos de uma geração mais jovem de cinéfilos, o filme de Van Sant trazia um retrato do universo dos garotos de programa que impressionava pela inovadora destituição de julgamentos morais –o ato de prostituir-se, como se comprova já na primeira e surpreendente cena, é mostrado com uma objetividade lúdica e com uma serenidade narrativa que chegam a ser desconcertantes.
Mike é mostrado como um conhecedor profundo dos meandros das ruas. Compreende as regras e os códigos para lá viver, e conhece vários de seus... colegas de profissão.
Um deles, o que mais o intriga, é Scott (Keanu Reeves), filho de um milionário que exerce a profissão muito menos por necessidade e mais para chacoalhar a índole inabalável e indiferente do pai.
Talvez sejam esses assuntos pendentes relativos à paternidade que fazem Scott se identificar com Mike: Ele deseja, de alguma forma, reencontrar sua mãe. E nessa cruzada, ele e Scott acabam indo para a Itália, seguindo o encalço da única pista que tinham.
Em algum momento das idas e vindas dessa busca vã, a narrativa de Van Sant irá absorver características (e nelas se transfigurar) da peça “Henrique V”, de William Shakespeare, a ponto dos personagens passarem a declamar o texto integral como ele é.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra

Assim como “O Casal Osterman”, de Sam Peckinpah, e “A Tocha de Zen”, de King Hu, este "Parenthood" é um daqueles casos de títulos nacionais equivocados que não dão a menor idéia do que será de fato a produção em si. Pior: Seu título sugere uma comédia rasgada e pastelão –impressão potencializada pela presença de Steve Martin –que o filme, no fim das contas, não é. O quê deve ter frustrado muitos expectadores mal informados que lhe foram conferir.
O trabalho do diretor Ron Howard (ainda nos anos 1980, antes da consagração com “Apollo 13” e “Uma Mente Brilhante”), contudo, é cheio de sutileza e inteligência, daquelas raras comédias agridoces que apelam à maturidade do público.
A começar pela estrutura do roteiro que compartilha a trama entre diversos personagens, todos membros de uma mesma família, os Buckman.
O protagonista, Gil (Steve Martin, admiravelmente contido), guarda um leve ressentimento da educação algo rude recebida de seu pai (o sensacional Jason Robards), e almeja uma proximidade de seus três filhos pequenos muito maior do que a que ele teve. Tudo, entretanto, atrapalha. Sejam as exigências profissionais, sejam as próprias crianças e seus eventuais problemas escolares e de adequação, o que leva Gil e sua esposa Karen (a cativante Mary Steenburgen) a questionar seus desempenhos como pais.
Do lado da irmã de Gil, Helen (Dianne Wiest, ótima) as coisas não estão muito mais simples: Divorciada, ela se vê perplexa –e, na maioria das vezes, sem saber o quê fazer –com o comportamento do filho pré-adolescente Garry (Joaquim Phoenix, ainda bem jovem, aqui assinando ainda como Leaf Phoenix) e as atitudes rebeldes da filha Julie (Martha Plimpton) que cismou de se envolver com um rapaz desajustado, Tod (Keanu Reeves, na fase “Bill & Ted”).
Já a irmã mais jovem, Susan (a bela Harley Kozak) tem um casamento cada vez mais asséptico com o metódico Nathan (Rick Moranis, apático), uma vez que ele se dedica menos ao relacionamento com a esposa e mais à educação pouco usual da filha pequena dos dois.
O próprio patriarca interpretado por Jason Robards tem lá seus problemas: O caçula Larry (Tom Hulce, de “Amadeus”) retornou para o seio da família e trouxe a tira-colo um filho pequeno que todos desconheciam –e que logo sobra para os avôs cuidarem –assim como diversas dívidas irresponsáveis obtidas em jogatina.
É um panorama feito com carinho das famílias norte-americanas, sempre às voltas com circunstâncias que caminham em direção à disfunção, nesse sentido, ele lembra uma pouco a obra-prima chinesa “As Coisas Simples da Vida”, de Edward Yang.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

John Wick - Um Novo Dia Para Matar

Deve ser terrível para os críticos intelectualóides de plantão, que detestam filmes de ação em detrimento às obras mais herméticas, constatar a brilhante homenagem ao cinema que é “John Wick-Chapter 2”.
Seu pôster já remete à uma obra dos tempos áureos estrelada por Harold Loyd e, se isso ainda ficar dúbio, ele ainda confirma isso já na primeira cena, quando vemos uma cena exatamente de um filme de Harold Loyd, ser refletida em um prédio, para então mostrar um carro passando em perseguição –o fato dos efeitos sonoros estarem sincronizados ao filme indica o quanto aqueles trabalhos de antigamente, construídos de notável virtuosismo físico, interferem profundamente na concepção deste filme.
O novo filme dá o mais natural dos segmentos ao que se passa em “De Volta Ao Jogo” quando vemos o lendário John Wick perpetrar os últimos arremates na exuberante vingança que ele realizou no primeiro filme, para em seguida, a trama desta continuação propriamente se iniciar: No complexo mundo de assassinos a que pertencia, John Wick tinha uma dívida antiga que lhe possibilitou a aposentadoria da qual antes aproveitava.
Mas, a dívida foi cobrada na forma de Santino (Riccardo Scamarcio), herdeiro italiano da Gamorra que espera um favor de Wick: Matar-lhe a irmã mais velha (Claudia Gerini) e com isso torná-lo o sucessor direto do império do pai.
Nada neste filme é tão simples quanto parece e, a tentativa de Wick em deixar tudo para trás fará com que uma ingrata quantidade de assassinos voltem sua atenção para ele.
Tal e qual o primeiro, este trabalho admirável ao extremo do diretor Chad Stahelski mergulha nos meandros curiosos do universo ambíguo que registra, analisando suas regras e as conseqüências brutais para aqueles que as dobram (mostrando com habilidade, estilo e requinte as maneiras refinadas com que esse mesmo universo se esconde debaixo do nariz do cidadão comum que vive no mundo real), potencializando tudo o que havia antes funcionado, e dando mais uma oportunidade de Keanu Reeves mostrar o ator completo, em termos de recursos dramáticos e vitalidade física, que ele é –e, no magnífico papel de John Wick, ele não deixa tal oportunidade passar.
Ao fim, esse segundo filme (tão logo se encerra com uma cena numa casa de espelho que é, não somente uma referência ao clímax do cultuado “A Dama de Shangai”, de Orson Welles, mas também uma amostra do quanto o cinema moderno é capaz de repaginar e aperfeiçoar tais cenas clássicas) o roteiro e a direção –ao contrário, do primeiro que se concluía com simetria louvável –entregam um gancho explícito e pulsante para uma terceira parte que, se prosseguir nesta continuidade qualitativa, deve transformar “John Wick” numa série tão incrivelmente relevante e marcante para o gênero de ação quando a “Trilogia Bourne” o foi na década de 2000.

domingo, 21 de maio de 2017

Demônio de Neon

Incompreendido: Essa talvez seja a definição mais adequada para o novo trabalho do diretor Nicolas Winding Refn que, cada vez mais confortável no rótulo de autor, fez uma de suas mais desafiadoras obras para o público.
“Demônio de Neon” começa acompanhando os passos da misteriosa e intrigante Jesse (Elle Fanning, ostentando um sex-appeal que ela já sinalizava em seus trabalhos com idade mais tenra como “Uma Lugar Qualquer” e “Super 8”).
Sem família e sem eira nem beira, Jesse quer destacar-se como modelo profissional no competitivo ambiente de Los Angeles e, de fato, sua beleza genuína e incomum não tarda a lhe proporcionar oportunidades, assim como também atrai a inveja de duas colegas (Bella Heathcote e Abbey Lee) e interesse da maquiadora Ruby (Jena Malone) que, combinados, representarão certo perigo para ela.
É um conto aflitivo, frio e visualmente exuberante este que Winding Refn compôs. Sua câmera e sua paleta de cores parecem incorporar (ou ao menos sugerir) os aspectos mais horrendos do ser humano, em curiosa oposição à beleza acachapante e opressora que predomina nas imagens. Assim sendo, ele inicia sua narrativa atento aos ressentimentos mundanos de ordem mais íntima facilmente ocultos através das aparências, mas gradualmente atinge atos inquietantes que aproximam esta obra, de fato, de um filme de terror (incluindo aí o canibalismo!) –embora ele nunca deixe de ser incategorizável.
Esse jogo de imagens e antíteses justapostas se evidencia no começo, quando as duas primeiras cenas de diálogo mais relevantes se sucedem, ambas, numa justaposição de reflexos de espelhos.
O que se segue a partir daí é uma sucessão de momentos transcorridos numa dimensão abstrata através da qual o diretor colhe imagens de absurdo alegórico e composição minimalista e refinada, extraindo constante estranheza: De aspecto metafórico, sobretudo, parecem ser as cenas ocorridas no motel onde Jesse se hospeda –um puma surge do nada do apartamento dela (!!!) –ocasionadas pela presença ameaçadora e invasiva de um gerente pernicioso e diabólico (Keanu Reeves, surpreendendo num papel sombrio e perigoso).
É verdade que Elle Fanning, talentosa, carismática e graciosa, sustenta sozinha grande parte do filme, e é verdade também que esse é um de seus grandes problemas, visto que a guinada radical, inesperada, macabra e anti-climática que ocorre em seus vinte minutos finais deixa de lado a protagonista (no que pode, ou não, ser uma referência de Winding Refn à “O Eclipse”, de Michelangelo Antonioni) para transcorrer em cenas de tom quase aleatório, até minguar num final estranho e inconcluso.
Se Winding Refn experimentou, em seus dois projetos anteriores a aclamação (com o magnífico “Drive”) e a indiferença (com o mediano “Só Os Deuses Perdoam”), com este “Demônio de Neon” ele descobriu uma incompreensão extrema da parte de público e crítica, ultrajados com o retrato superficial e rancoroso que ele faz do mundo fashion. Esses hiperlativos, somados à obra profundamente desigual que este filme é, fazem dele o mais absoluto cult-movie de sua carreira.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Velocidade Máxima

Diretor de fotografia de uma série de sucessos dos anos 1980 e 1990 ("Instinto Selvagem" e "Chuva Negra" por exemplo), o holandês Jan De Bont estreou neste acelerado sub-produto vendido como um '"Duro de Matar" dentro de um ônibus' –conceito, aliás que se encaixa como uma luva!
A despeito da superficialidade flagrante de sua premissa a condução de De Bont –rasa no que diz respeito aos fatores dramáticos, mas suficientemente atento aos pormenores do ritmo e das cenas de ação –os efeitos especiais e sonoros primorosos, e o carisma tanto do astro Keanu Reeves como da então revelação Sandra Bullock (e a indelével química que demonstram juntos) são fatores que, somados, convergem num dos mais saborosos, descerebrados e pulsantes entretenimentos da década de 1990.
Após uma arrojada operação na qual ganhou a antipatia de um criminoso cheio de planos mirabolantes (Dennis Hopper), um jovem policial de Los Angeles (Keanu Reeves) vê-se numa situação inusitada: A bordo de um ônibus metropolitano, ele tem de salvar os "reféns" do estratagema ardiloso (e não raro, absurdo) do maníaco; o ônibus em questão está carregado com explosivos programados para explodir quando a velocidade reduzir a menos de 50 km por hora. Dessa forma, em pleno horário do rush matutino, e no meio da cidade ele precisa contornar a complicada situação de nunca poder parar um ônibus, enquanto busca um meio de prender o bandido.
Como diretor Jan De Bont encontrou logo neste seu primeiro trabalho uma forma toda própria de romantizar a inércia –essa técnica, incusive o fez ser bem cotado para a direção de “Godzilla”, em 2000 (terminando a cargo de Rolland Emmerich), e também proporcionou escopo e recursos para seu projeto seguinte, o igualmente bem-sucedido “Twister” –e enfatizar a ação e seus dobramentos físicos com um romantismo que deixava seu filme à beira do cativante. Verdade seja dita: Esse mérito não pertence somente a ele, mas também e sobretudo à incrível sintonia que o casal Keanu Reeves/Sandra Bullock apresenta em cena.
Juntos, eles são daquelas duplas que poderíamos assistir por horas sem nos aborrecer.
O próprio Jan De Bont cometeu o deslize de subestimar isso não chamando Keanu Reeves para a continuação e deixando apenas Sandra Bullock, mas Hollywood não deixou passar em branco: Anos depois os dois foram de novo reunidos, num filme romântico de fato, o gracioso “A Casa do Lago”, que refilmava o ótimo sul-coreano “Il Mare”, mas essa, é uma outra história...

domingo, 23 de abril de 2017

De Volta Ao Jogo

“John Wick” –o título original deste grande filme que, sabe lá Deus porque, não foi usado no Brasil –remete de forma inteligente a uma série de ótimas produções do cinema físico.
Filmes magníficos como “Haywire”, “O PagamentoFinal”, a Trilogia Bourne, “Cassino Royale” e até mesmo alguns trabalhos de Harold Loyd e Buster Keaton –aos quais esta produção habilmente dirigida por Chad Stahelski e por David Leitch se irmana –que não se resumem a meros filmes de ação, mas a obras onde o movimento concebido por ação obedece a um fluxo de tal beleza que se faz sintomático o interesse da câmera.
Sua premissa é simples, como também é simples a premissa de um musical onde os atores, por definição do gênero, saem cantando e dançando nas cenas, mas, sob este pretexto as seqüências que se desenrolam na tela são de uma fluência atordoante.
Interpretado por Keanu Reeves (que cai como uma luva para esse tipo de papel), o personagem título é um homem ainda no processo de digerir o luto pela morte da esposa –a mais poderosa lembrança dela é, portanto, o cachorrinho que ela lhe deu ainda em vida.
O mesmo cachorrinho que um bando de inconseqüentes bandidos chefiados pelo filhinho de papai Iosef (Alfie Allen, o Theon Greyjoy de “Game Of Thrones”) irá matar durante uma tentativa de assalto à residência de Wick.
Na seqüência, esses bandidos (e o expectador) descobrirão que John Wick era, antes de aposentar-se, uma lenda no submundo do crime ao qual pertence o pai de Iosef, Viggo Tarasov (Michael Nyqvist, caricato e apropriado ao papel de vilão).
Ele sabe, então, que a imprudência do filho liberou uma força vingativa que ameaçará o seu império.
Lançado no mesmo ano do aguardado “47 Ronins”, “De Volta Ao Jogo” surpreendeu por apresentar uma larga superioridade cinematográfica em relação ao outro projeto de Keanu Reeves: Se as expectativas eram de que a colorida fantasia de samurais resgatasse o sucesso de sua carreira, este formidável filme de gangsteres e pistoleiros inverteu tal equação terminando como o mais celebrado filme do ator desde o cultuado “Matrix”.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Drácula de Bram Stoker

“Eu Atravessei oceanos de tempo para encontrar você!”
Vlad Dracul (Gary Oldman, sucinto e exuberante em cena), nobre romeno e guerreiro dos Cárpatos do Século XV volta de sangrentas campanhas pela Europa Medieval após anos de ausência de seu lar. Diante do equívoco de que ele havia morrido, sua amada Elizabetha (então personificada pela jovem Winona Ryder) suicidara-se. Indignado com a crueldade do destino, Dracul renega Deus e seus desígnios, tornando-se assim uma criatura sobrenatural, um vampiro. Um paria à condição humana e, por isso mesmo, imortal. Condenado a viver para sempre da escuridão da noite e da necessidade pulsante e irracional de sangue. Os séculos transcorrem até a era vitoriana quando o Conde Dracul, que oscila entre a forma cadavérica de um velho centenário, um ser bestial meio humano meio morcego, e um homem sobrenaturalmente jovem, reencontra aquela que ele acredita ser a reencarnação de Elizabetha, na forma de Myna (mais uma vez Winona Ryder, particularmente linda), a então noiva de seu jovem corretor de imóveis, Jonathan Harker (Keanu Reeves, mais perdido que cego em tiroteio).
Incapaz de expressar seus anseios senão pela crueldade de um predador, Dracul –ou Drácula –sitia Jonathan em seu longínquo castelo, onde ele se torna refém das três “noivas do vampiro” (entre elas, uma Monica Bellucci jovem e em inicio de carreira), enquanto parte para a Inglaterra onde converte Lucy (Sadie Frost), a melhor amiga de Mina, numa criatura da noite, e enreda a própria Mina num jogo perigoso de sedução sobrenatural.
Entretanto, em seu caminho surge um estudioso das criaturas da noite conhecidas como “nosferatu”, o culto e astuto Professor Gabriel Van Helsing (Anthony Hopkins, recém-saído de “O Silêncio dos Inocentes” dando um registro desigual e maníaco a um personagem antes tratado com heroísmo).
Rebuscado, esplendoroso, estilizado.
Um roteiro (de James Hart) inteiramente debruçado sobre os meandros emocionais dilacerantes do romance de Bram Stoker –e, por isso mesmo, quase convertido numa trágica história de amor de megalomaníacas conseqüências sobrenaturais. Concebido como cinema do mais alto nível, esta adaptação de Francis Ford Coppola abre mão de ser um filme de terror para ser uma obra única.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

47 Ronins

Imaginava-se que, quando de seu lançamento, fosse este alardeado filme que viesse a restaurar o estrelato de Keanu Reeves –a trilogia “Matrix” já contava lá seus quase quinze anos de idade! –porém, o filme que acabou cumprindo (e muito bem) essa tarefa terminou sendo o bastante superior “De Volta Ao Jogo”.
Inspirado em um fato real que, no Japão, já ganhou dimensões lendárias –além de uma infinidade de adaptações, uma delas, inclusive dirigida pelo celebrado Kenji Mizoguchi –esta produção tem sua trama acrescida de elementos de fantasia que causam uma impressão de deslocamento e exotismo, e ilustram bem o trabalho ocasionalmente displicente que resulta de quando o cinema norte-americano trabalha com um material oriundo de uma cultura estrangeira: Sem constrangimento, eles literalmente brincam com coisa séria.
Desnecessário dizer, portanto, que as inúmeras outras versões desta mesma lenda executadas por cineastas japoneses são de cunho muito mais realista que esta estranha e irregular mistura de aventura de fantasia e épico samurai.
Durante a época do shogunato, no Japão ainda feudal, a província de Ako é vitimada pelas maquinações de um jovem lorde, aliado a uma feiticeira (Rinko Kikuchi, de “Babel” e “Círculo de Fogo”, belíssima), que provocam a desonra e a morte do chefe feudal, o lorde Asano, fazendo com que todos os samurais componentes de sua guarda tornem-se ronins, e sua filha, seja entregue ao vilão, sendo obrigada assim a desposá-lo.
Mas, os ronins, liderados pelo guerreiro Oishi (Hiroyuki Sanada, de “O Samurai do Entardecer”), aliados a um mestiço, têm outros planos e desejam não só reaver sua honra, mas também vingar seu mestre.
As intervenções “poéticas” de elementos fantásticos –que vão desde a bela feiticeira, até pequenos detalhes que alteram sutilmente trama e incluem criaturas das mais diversas espécies ao estilo “Senhor dos Anéis” –determinam muito do tom e do ritmo distintos da célebre lenda japonesa (e sobretudo, de suas austeras versões cinematográficas japonesas), e até expõem a intenção do diretor Carl Rinsch em brincar com as variações de gêneros de aventura que tem à disposição (incluindo um cardápio variado –e excessivo –de efeitos especiais) do que em trabalhar um cinema realmente sério. Esse argumento só encontra reparo de fato no desfecho, quando o filme prescinde de um irreal final feliz para se ater à conclusão de sua fonte original, sem enfeites.
Mesmo assim, roteiro desta produção norte americana possui visíveis modificações que nem sempre se harmonizam, especialmente no que diz respeito a forçada presença do mestiço, personagem de Keanu Reeves, cujos insistentes esforços narrativos para fazê-lo relevante à trama surgem como as manobras mais mal-sucedidas no que tange à sua realização. É, porém um entretenimento razoável e beneficia-se das ótimas presenças de Rinko Kikuchi, de Hiroyuki Sanada e do quase sempre vilanesco Cary-Hiroyuki Tagawa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Advogado do Diabo

“Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula.”
É deliciosamente sarcástica a forma como o diabo, interpretado enfaticamente por Al Pacino, ironiza e desdenha as supostas regras criadas por Deus e impostas ao homem.
Essa auto-consciência divertida presente em sua caricata interpretação –a despeito da seriedade ostentada por todos os outros atores –é o salva-vidas ao qual o expectador deve se agarrar no objetivo de melhor aproveitar o interessante filme do diretor Taylor Hackford, um misto quase conceitual, ainda que cheio de charme e elementos interessantes, de “O Bebê de Rosemary” com “Wall Street-Poder e Cobiça”.
Da obra de Polanski, o diretor extrai o equilíbrio curioso obtido da junção entre um clima francamente tétrico de filme de terror com um senso de humor perverso, inerente à narrativa. Da obra de Oliver Stone, ele tira sua ambientação (ainda que estejamos falando, aqui, de advocacia e não de executivos empresariais), com homens de terno para todos os lados; tira também a percepção de luxo e requinte que seduz os incautos e, sobretudo, a figura soberana e incontornavelmente corruptível elevada às raias literais da perniciosidade.
Há, nele também uma característica com a qual muitos filmes comerciais dos anos 1990 trabalhavam seu apelo popular: A união, em cena, de um ator consagrado com um jovem astro promissor.
O jovem promissor em questão é Keanu Reeves (recém-saído do sucesso “Velocidade Máxima”, mas ainda alguns anos antes de “Matrix”) cujo registro titubeante e engajado da perplexidade ajuda na composição de seu personagem, um advogado ambicioso contratado por importante firma nova-iorquina, após inocentar, contra todas as previsões, um réu acusado de pedofilia.
O chefe de tal firma (Pacino, que une graça e supremacia numa quase paródia do Gordon Gekko de Michael Douglas em “Wall Street”), poderosíssimo e cheio de segundas intenções, acompanha atenciosamente a ascensão de seu novo advogado que, ingênuo, ignora o fato de estar trabalhando para o capeta em pessoa.
Esse misto curioso de terror e filme de advocacia, que felizmente parece jamais se levar a sério, guarda ainda vestígios pertinentes da visão cristã do diretor Hackford sobre as pulsões humanas e seus sete pecados capitais transfigurados em cenas particulares: Há sobretudo a cobiça (quando o protagonista negligencia a própria esposa –uma jovem Charlize Theron, linda, frágil e angelical –em prol de um caso), a luxuria (materalizada especialmente nas curvas de uma espetacularmente sexy Connie Nielsen –que tem até cenas de nudez!), a vaidade (representada pelo golpe final do capeta, na última e emblemática cena), a ira (uma enérgica participação do sumido Graig Nelson, que fez “Poltergeist-O Fenômeno”, no papel de um cliente nem um pouco inocente) e outros.
Talvez o produtor, Arnold Coppelson não estivesse totalmente livre dessa obsessão tendo ele produzido a obra-prima “Seven-Os Sete Crimes Capitais” alguns anos antes para o diretor David Fincher.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Bata Antes de Entrar

Eli Roth tem lá o seu estilo. Seus filmes prestam homenagem aos paradigmas do terror e, não raro, pontuam suas tramas com elementos sexuais extraídos das fantasias masculinas mais corriqueiras.
"O Albergue" já era prova daquilo que "Bata Antes de Entrar" já ratifica.
O problema: O segundo filme vem a revelar a perda do sopro de renovação que Eli Roth demonstrava no primeiro.
Como em "Albergue", "Bata..." começa sugestivo, picante e sensual: Sozinho em casa em razão de uma viagem que sua esposa e seus filhos fizeram à praia, Evan (Keanu Reeves, também produtor executivo) não tarda a receber a inesperada visita de duas jovens espetaculares; a morena Lorenza Izzo e a loira Ana de Armas (a primeira, namorada do próprio Eli Roth; a segunda, a melhor coisa do filme!).
Elas se insinuam, como só personagens de cinema mesmo são capazes de se insinuar, e como ninguém é de ferro o protagonista tem uma noitada de sexo à três com elas. Mas, ao acordar na manhã seguinte tudo estará diferente e as duas jovens vão se revelar cada vez mais psicóticas, na medida em que transformam a vida do sujeito num inferno.
A partir desse ponto, Eli Roth instala os elementos-chave de filme de terror que ele conhece tão bem. Ou que conhecia: Tudo em "Bata Antes de Entrar" torna-se enfadonho, banal e repetitivo depois da sensacional cena em que vemos as duas garotas nuas (e que proporciona, portanto, a mudança de tom do filme).
Em última instância, a abordagem que Eli Roth vislumbra do filme depois da virada até bastante óbvia que a trama sofre, poderia ser semelhante ao enfoque dado por Michael Haneke em "Violência Gratuita", do qual "Bata..." herda muitas semelhanças. Mas, Eli Roth não tem o requinte de Haneke, e nem tampouco seu filme vem revestido por qualquer senso de observação de alguma falsa noção de segurança da classe burguesa, ou mesmo expedientes mais sofisticados.
O que Roth quer é tão somente fazer um conto de terror onde converte uma das mais notórias fantasias masculinas num pesadelo. E só. Não existe, por exemplo, motivação no comportamento das duas personagens: Ficamos a esperar por uma justificativa, de repente, alguma informação acerca do passado do personagem de Reeves que explique o porque daquilo estar lhe acontecendo, mas nada aparece.
Em outros filmes, com outros diretores, esse detalhe (a omissão estratégica de um porquê) poderia ser sugestivo, acrescentar camadas e ampliar o leque de possibilidades e ramificações do enredo. Mas, com Roth soa tão somente como uma omissão mesmo, deixando no ar os propósitos que engatilharam a narrativa de seu filme.
Não chega a ser uma catástrofe, mas ele dá aqui, passos significativos nessa direção.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Matrix Reloaded e Revolutions

Se fosse parar utilizar uma palavra para definir cada um dos filmes da trilogia “Matrix”, elas seriam ‘espanto’, para o primeiro e revolucionário filme, ‘expectativa’ para o segundo, “Matrix Reloaded”, lançado em maio de 2003, e ‘decepção’ para o terceiro e último, “Matrix Revolutions”, lançado aproximadamente seis meses depois, numa estratégia um pouco parecida com o lançamento de “De Volta Para O Futuro 2 e 3”, em 1990, e os clássicos franceses “Jean de Florete” e “A Vingança de Manon”, em 1986.
Na sequência de sua luta, e de toda a humanidade, contra a opressão das máquinas, Neo se defronta com novos personagens e novos acontecimentos, que o levam, junto de Morpheu e sua amada Trinity a um plano definitivo para encerrar a guerra e libertar a humanidade presa ao mundo virtual.
Um ataque à cidade subterrânea de Zion (a última cidade humana povoada da Terra) é descoberto, dando aos humanos opositores das máquinas um prazo apertados para sobrepujá-las. Isso agrega urgência ao plano tão acarinhado de Morpheu, que inclui a libertação de uma entidade conhecida como O Chaveiro, e o uso de suas capacidades para penetrar no núcleo de consciência da Matrix, onde os poderes espantosos de Neo (explorados neste segundo filme em sequências assombrosas) poderão libertar todos os humanos prisioneiros daquele sistema.
Todos esses desdobramentos levam Neo a se encontrar com o Arquiteto, o idealizador supremo da Matrix, que trás consigo desconcertantes revelações.
Aguardadíssima pelo público, devido ao forte status Cult que o primeiro filme logo conquistou, esta continuação de "Matrix" terminou por se mostrar um impressionante espetáculo visual com pelo menos duas cenas (a perseguição de carro e a luta contra 200 agentes) capazes de deixar qualquer um boquiaberto.
Os diretores (Andy e Larry Wachowsky) mostravam um domínio técnico tão arrojado quanto o que demonstraram no filme original, chegando até a fazer com que “Reloaded” tirasse um certo proveito de ser justamente o ‘filme do meio’: Como a trama já não tinha um início, e sabia-se de antemão que não teria um desfecho, eles trabalharam com a expectativa do público, criando uma história que levantava ainda mais dúvidas e enigmas a respeito da Matrix, e trazendo novos personagens, como Merovingian (Lambert Wilson), Persephone (interpretada pela sempre deslumbrante italiana Monica Bellucci), o próprio Chaveiro (Randall Duk Kim), e por fim o Arquiteto (Helmut Bakaitis), que só acrescentavam mais mistério ao desenlace, reservado para o terceiro filme graças ao gancho aflitivo deixado na última cena.
O quê reservou à “Matrix Revolutions” a mais ingrata das tarefas: Responder a questões que não necessariamente teriam respostas plausíveis (e se você assistiu a meia hora final de “Reloaded”, sabe exatamente do quê eu estou falando), e dar um respaldo, desta vez sem subterfúgios, para todas as altíssimas expectativas levantadas, o quê, se pensarmos melhor, era desde sempre, algo impossível.
Dessa maneira, quando “Revolutions” se inicia, a guerra definitiva contra as máquinas já se aproxima. E isso leva Neo a encarar seu destino dentro da Matrix, e seu maior inimigo, o Agente Smith, após ser resgatado por Morpheu e Trinity de um limbo ao qual foi jogado no final nebuloso de “Reloaded”.
Após todas as pontas soltas e perguntas sem respostas deixadas pelo filme anterior, esperava-se demais deste terceiro e derradeiro filme.
O que talvez explique por que ele é um pouco decepcionante.
A despeito da excelência da parte técnica, bastante explorada nos filmes anteriores, a história não soube esclarecer de modo satisfatório tantas dúvidas deixadas no ar (Qual o propósito de personagens como Merovingian e Persephone? Que relação têm a Oráculo e o Arquiteto? Como e por quê os poderes de Neo acabaram se manifestando na realidade? De onde surgiu o ‘escolhido’, já que o Arquiteto deu a entender que ele era parte da Matrix?), respondendo-as de uma maneira rasa, quase deixando-as de lado, e focando bastante na ação ininterrupta que domina muito da metade final do filme, e que parecia muito mais bem-feito e inovador nos episódios anteriores.

Num ano em que o cinema contou com um filmaço de qualidade sem precedentes como “O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei”, as duas esperadas continuações de “Matrix” amargaram a frustração de não se equiparar ao filme original.