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domingo, 1 de outubro de 2023

Trem-Bala


 Ao lado de Chad Stahelski, o diretor David Leitch conduziu uma espécie de revolução no cinema hollywoodiano de ação –ancorados na formidável mitologia de “John Wick”, as novas produções não mais se satisfaziam na pancadaria descerebrada que dominou o gênero a partir dos anos 1980. Agora, os filmes de ação têm um entendimento singular de cinema (não somente com notáveis referências que vão desde obras obscuras do cinema de Hong-Kong até menções apaixonadas a trabalhos cultuados do cinema mudo, mas também exercícios de virtuosismo técnico que, não raro, incluem planos-sequências formidáveis e desafiadores construídos num único take) e uma exuberante contribuição da habilidade artística, instintiva e corpórea de seus dublês (ofício primeiro de Stahelski), isso tudo, sem esquecer quesitos antes negligenciados como interpretação (tais filmes ostentam sempre talentosos atores como não deixa mentir o ótimo Keanu Reeves), roteiro (seus enredos mergulham em meandros que apresentam profundidade e dramaturgia) e direção (o conhecimento narrativo pulsa, em igual entusiasmo, com o conhecimento da ação) –em suma, agora, filmes de ação são cinema de verdade.

A diferença entre os dois grandes responsáveis por essa pequena revolução temática, Stahelski e Leitch, é que, enquanto Stahelski aprecia a estrutura interna da movimentação dos corpos em conflito, e disso faz toda uma coreografia com propósito e sentimento, Leitch é apaixonado pelos elementos que impulsionam, dentro da trama, esses mesmos corpos em conflito. Dessa convicção veio a adaptação de quadrinhos nunca menos que sensacional “Atômica” e, agora, este “Trem-Bala”, cuja trama, inspirada, por sua vez, no romance de Kotarô Isaka, caminha pelos sinuosos desdobramentos da comédia, adentra os intrincados flashbacks de um neo-noir moderno e se ramifica em diversos personagens, assumindo pontos de vista, interrompendo o fluxo narrativo para regressar no tempo e narrar histórias paralelas que, às vezes, vão complementar a história principal de formas inesperadas. Em suma: Enquanto promove ação ininterrupta e pancadaria refinada num nível que Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme jamais poderiam sonhar em seus áureos tempos, David Leitch também se permite brincar com a narrativa de forma elaborada e sofisticada.

A premissa que urge “Trem-Bala” é complexa –e vai se complicando e se fragmentando ainda mais a medida que o filme avança –embora desenvolvida dentro de uma circunstância simples: O filme muito pouco sai de dentro da ambientação do trem-bala do título, um transporte high-tech de alta-velocidade que singra todo o Japão.

É dentro dele que o assassino Ladybug (Brad Pitt, divertidíssimo) irá, aos poucos, desvendar a missão que lhe foi confiada –e que é, em si, uma baita enrascada! Sob instruções via celular de sua contratante Maria (uma ponta luxuosa de Sandra Bullock, devolvendo o favor da participação especial de Pitt em “Cidade Perdida”), Ladybug deve roubar uma maleta contendo dinheiro de dois outros passageiros do trem, os gêmeos Lemon e Tangerine (Brian Tyree Henry e Aaron Taylor Johnson, que de gêmeos não têm nada). O problema é que os gêmeos também têm seus próprios contratempos; a missão deles é levar o dinheiro (contido na maleta) e uma espécie de refém (Logan Lerman), um viciado que vem a ser filho do temido chefão do crime, White Death (Michael Shannon). Nem bem o trem sai da estação, a maleta é roubada (por Ladybug) e o refém é morto (por alguém cuja identidade ainda é um mistério) colocando Lemon e Tangerine com um grande abacaxi nas mãos. Eles têm que encontrar um meio de livrarem-se dessa confusão antes do trem-bala chegar à última estação –quando não terão escapatória (nem eles, nem Ladybug) das mãos cruéis de White Death.

Há, em meio ao frenesi dos demais passageiros do trem, outros personagens que acrescentam mais densidade e intriga a essa sucessão de tumultos: Kimura (Andrew Koji), assassino de aluguel disposto a vingar um acidente sofrido pelo filho cujo papel, dentro do trem, termina sendo o de marionete nas mãos da manipuladora Prince (Joey King, na personagem mais enervante do filme), uma patricinha dissimulada e aparentemente inocente que planeja a morte que praticamente todos os personagens (!); a Vespa (Zazie Beetz, de “Deadpool 2” e “Coringa”) uma assassina sorrateira especializada em envenenamento; Wolf (o rapper Bad Bunny), um assassino mexicano à bordo do trem, também ele, em busca de vingança; e uma espécime rara de cobra (!?), surrupiada do zoológico local, dona de um veneno capaz de levar a vítma de sua mordida à morte por hemorragia em 30 segundos (!), e que por conta desse mero detalhe é essencial à história.

Cada um desses personagens é norteado por seu próprio propósito e sua própria trama, e é dessa forma que suas trajetórias se cruzam (ou melhor, se colidem!) à bordo do trem-bala, quando seus objetivos e motivações entram em conflito à medida que o trem avança, e sua trama, pontuada de alianças refeitas e desfeitas, de mortes e perseguições, revelações e segredos de última hora, vai se afunilando até a apoteótica estação final, quando diretor David Leitch terá exibido todo o seu espetacular leque de recursos para brindar o público com um dos mais inventivos, divertidos e insanos filmes a mesclar comédia e ação em níveis impraticáveis em muito tempo.

domingo, 9 de abril de 2023

John Wick 4 - Baba Yaga


 É bem provável que nenhum diretor de ação do cinema moderno ostente um conhecimento tão intrínseco das engrenagens cinematográficas quanto Chad Stahleski. Na epopéia em quatro filmes que compõem a “Saga John Wick”, ele provou-se um raro entendedor daquilo que conferem brilho, textura e valor à linguagem narrativa traduzida em imagens que se movem. Diferente da grande maioria dos diretores de ação –até mesmo daqueles admiráveis, como John Woo –para Stahelski a ação não é mera cacofonia e caos visual. Ele a enxerga na essência da imagem em movimento que define o próprio cinema e, para tanto, são imprescindíveis as proposições de cinema mudo, as referências temáticas e sensoriais do faroeste, o tratamento estilizado dos entraves físicos, a amplitude do enquadramento a emoldurar a ação num quadro de cores vivas, elementos que se percebem desde o primeiro filme. Stahelski foi particularmente feliz ao descobrir que nenhum outro ator senão Keanu Reeves seria capaz de compreender e refinar a linguagem corporal de movimentos precisos e expressivos que definem o protagonista –e olha que muitos intérpretes antes dele se apresentaram para a tarefa.

Em seu quarto longa-metragem, “John Wick” surge consagrado como uma das grandes realizações no campo da ação cinematográfica de todos os tempos, e refuta cada um dos palpites negativos de seus detratores ao afirmarem que, por vezes,a proposta embutida em sua fórmula se torna propícia à repetição. A trama de “Baba Yaga” é simples, entretanto, sua elaboração é tão brilhante, tão cheia de requinte e primor que mesmo diante da nada modesta duração de duas horas e quarenta e nove minutos (o que prolonga suas sequências para muito além do que os anteriores já permitiam) se revela um espetáculo extasiante.

Na última vez que vimos John Wick, em “Parabellum”, ele foi arremessado pela traição de Winston (Ian McShane) num caminho de conflitos ainda mais impossíveis, destituído de aliados –na verdade, ele ainda pode contar, vez ou outra, com o auxílio do Rei de Bowery (Laurence Fishburne, sempre soberbo), no entanto, as complicações de Wick se afunilaram: A Alta Cúpula (os mandatários principais da tentacular organização de assassinos que se estende pelo mundo todo e dentro da qual Wick é uma lenda), em desespero, relegou poder absoluto ao instável e psicótico Marquês de Gramont (Bill Skasgaard, de “It-A Coisa”), depois que Wick (na cena que já abre o filme) dá provas de que agora vai atrás dos membros anciões para matar um a um. O Marquês trata assim de punir Winston tirando-lhe o status de gerente e o controle do Hotel Continental –na verdade, implodindo todo o hotel! –e deixando claro que todo aquele que acobertar Wick pagará o mesmo preço. Com efeito, é o que se sucede no Japão, no Hotel Continental de Osaka, gerenciado por Shimazu (Hiroyuki Sanada), grande amigo de John Wick: O local é invadido por atiradores da Alta Cúpula na primeira das inúmeras sequências monumentais do filme.

A partir daí, John Wick elabora um plano: A fim de resolver em definitivo sua situação com a Alta Cúpula, ele deverá propor um duelo de honra contra o próprio Marquês de Gramont. Contudo, para tanto, ele precisa do respaldo de uma família integrante da Cúpula, família esta que John Wick possui –e se encontra em Berlim –porém, há tempos eles já o deserdaram. A única maneira de restaurar os laços com a atual líder do clã, sua ressentida irmã adotiva Katia (Natalia Tena, de “Harry Potter e A Ordem da Fênix”) é aceitar uma incumbência que somente John Wick seria capaz de cumprir: Eliminar Killa (Scott Adkins), o chefe da jurisdição alemã da Cúpula, responsável por matar seu pai. Nessa trajetória de embates e destruição –que, a rigor, se cumpre nos mesmos moldes dos filmes anteriores –John Wick se cruza com pelo menos dois personagens que introduzem uma interessantíssima dinâmica de ambiguidade em seu conflito: O implacável Caine (o maravilhoso Donnie Yen, de novo interpretando um personagem cego sensacional depois de “Rogue One”) cuja genuína amizade com John Wick se equilibra, na mesma balança moral, com o zelo incondicional pela filha, e o misterioso Mr. Nobody (Shamier Anderson, de “Cidade de Mentiras” e da série “Winonna Earp”) mercenário admirador de Wick que apenas aguarda, paciente, o preço pela sua cabeça atingir as cifras que deseja –e que compartilha com ele o mesmo apreço por cães!

Com base nessa trama urgida com precisão –na qual a originalidade está na execução, na objetividade com que atende as demandas de seu público e no esmero singular com que molda as características de sua fascinante mitologia –Chad Stahleski transforma “Baba Yaga” num tratado assombroso e ambicioso da construção narrativa da ação no cinema. Os elementos visuais que determinam uma obra cinematográfica –fotografia, montagem, manejo dos atores dentro do plano –são empregados, todos em uníssono, na composição de sequências espantosas de ação, seja o tiroteio numa sala envidraçada de exposição japonesa, ou a perseguição numa rave alemã com cascatas artificiais decorando o recinto (antecedida por uma brilhantemente tensa disputa de cartas), seja a luta inacreditável situada em pleno Arco do Triunfo, na França, em meio ao tráfego insano de automóveis em alta velocidade, ou a impressionante cena na escadaria de duzentos e vinte e dois degraus que leva à Basílica de Sacré-Coeur, o grande clímax de “Baba Yaga”. Tudo, na obra de Stahelski está a serviço do aprimoramento visual do que se entende por ação, e na excelência técnica de suas coreografias de luta, na beleza ímpar de sua direção de fotografia e no arrojo exemplar de seu astro (bem como a desenvoltura física espantosa de seus dublês) ele faz de “Baba Yaga” um verdadeiro desafio a ser superado por qualquer longa-metragem de ação por vir.

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Promessa

Dentre os renomados cineastas chineses, aplaudidos por todo o mundo por suas obras dramáticas, Chen Kaige, o célebre realizador de "Adeus Minha Concubina", sempre foi o mais desigual. Nada mais natural que –a exemplo de Ang Lee (“O Tigre e O Dragão”) e Zhang Ymou (“O Clã das Adagas Voadoras”) –sua incursão nos filmes de artes marciais fosse, também ela, de um resultado todo singular e incomum.
Num mundo pleno de fantasia, um reino fragmentado entre o Mar do Céu e a Terra da Neve enfrenta uma guerra sangrenta na disputa mesquinha por sua coroa. Procurando por comida no campo de batalha (todo ele registrado numa opção visual rica em artesanato e artificialismo da parte de seu designer de produção), uma menina pobre, Qingcheng, foge com um bolinho nas mãos que, ao cair nas águas de um rio, revela a ela a presença da deusa Manshen que a oferece uma alternativa à vida miserável: Crescer para tornar-se dona de uma beleza hipnótica e por meio dela desfrutar de riqueza e bem estar, exceto pelo fato de que pagará um alto preço por isso, pois todo o homem que ela amar morrerá.
Vinte anos depois, as guerras ainda persistem, e o humilde escravo Kunlun (Jang Dong-Gun) –tão humilde que sequer tinha o hábito de andar em pé, só ajoelhado ou rastejando –acaba sem querer promovendo uma inversão no conflito, favorecendo o Exército da Armadura Vermelha, liderado pelo Grande General Guangming (Hiroyuki Sanada, que não é chinês, mas japonês), perante o Exército Negro.
Nomeado escravo de Guangming, Kunlun o acompanha numa missão de suma importância: Ir à Cidade Imperial, onde o rei se vê encurralado por seu maior inimigo que lhe deseja tomar a esposa, que não é nenhuma outra senão Qingcheng, agora crescida (e interpretada pela belíssima Cecília Cheung).
No percurso, Guangming é ferido e, sem condições de prosseguir, ordena a Kunlun que vista sua armadura e, passando-se por ele, que conclua sua missão; eis que então o pobre escravo será confundido com o grande herói de guerra pelas circunstâncias. Tomado como Guangming, Kunlun salva a princesa Qingcheng e mata o rei (por pura imprudência e ignorância) e, quando a culpa ameaça recair sobre Guangming, a deusa Manshen reaparece que faz com ele uma aposta: Obter a soberania e o amor de Qingcheng.
Intrincado, não? Fica ainda mais: Acontece que Qingcheng se afeiçoou ao homem de armadura que a salvou (que ela presumiu ser Guangming, mas que era Kunlun), e ao ser resgata de uma prisão por Kunlun onde seu novo pretendente Wuhuan a colocou, deixa o escravo para trás –preso pelos inimigos –para fugir junto com Guangming.
No entanto, Qingcheng por algum tempo tenta abandonar Guanming (ela sabe que se continuar com ele a maldição se fará presente e ele morrerá), enquanto Kunlun é salvo por um estranho e sombrio assassino de aluguel que, compadecido dele, lhe revela seu passado nobre na lendária Terra da Neve –de onde provêem suas habilidades prodigiosas.
A família que Kunlun antes teve (ele descobre durante uma viagem no tempo!) foi chacinada por Wuhuan –deveras, o grande vilão do filme –enquanto o amor entre Guangming e Qingcheng evolui a medida que o próprio Guangming compreende que Qingcheng se apaixonou por Kunlun quando este vestiu sua armadura e não por ele.
Será o próprio Wuhuan, após muitas vicissitudes dessa espécie de triangulo amoroso, quem irá conduzir essa situação a um desfecho quando capturar Guangming, para ser julgado pelo assassinato do rei, e depois Qingcheng obrigando Kunlun a intervir em definitivo.
Um bom exemplo da criatividade visual do diretor Chen Kaige, esta bela superprodução chinesa, pródiga em cenas de ação "wuxia", como é designado no oriente o gênero das artes marciais que desafiam a gravidade com vôos impossíveis, trás mais do que apenas vôos impossíveis: Ela habita todo um universo cinematográfico de improbabilidades físicas, onde os homens demonstram rapidez e leveza que os tornam seres sobrenaturais –e tais elementos coexistem na trama junto da própria natureza. Tudo isso e mais o esforço de Chen Kaige em emoldurar esta fantasia romântica com seu apurado e contundente senso de fatalismo passional presente em todos os seus trabalhos faz de “A Promessa” uma experiência sensorial plena.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vida

Em princípio, percebe-se uma característica seguida à risca pelo diretor Daniel Espinosa, neste filme, vinda da cartilha elaborada por Ridley Scott desde que realizou “Alien” e suas tentativas de prólogo, “Prometheus” e “Alien-Covenant”: A escolha incomum e criteriosa de intérpretes interessantes e diversificados para viver o número reduzido de personagens.
Habitando a Estação Espacial Internacional, em órbita na Terra, estão, portanto, o veterano das Forças Armadas Norte-Americanas convertido em voluntário espacial Jordan (Jake Gyllenhaal, sempre eficiente), a astronauta inglesa Miranda (Rebecca Ferguson, de “Missão Impossível-Nação Secreta”), o cientista sul-africano Derry (Ariyon Bakare), o encarregado canadense dos procedimentos de segurança Adams (Ryan Reynolds, o “Deadpool” em pessoa que já havia participado de “Protegendo O Inimigo”, um dos trabalhos anteriores de Espinosa), a suboficial russa Golovkina (Olga Dihovichnaya) e o capitão japonês Sho (Hiroyuki Sanada, que já havia sido capitão na espaçonave de “Sunshine-Alerta Solar).
Munido desse elenco, de uma premissa tão básica que já se imagina o plot do filme ao olhar para seu pôster, e centrado na intenção de fazer uma agradável fusão narrativa entre os elementos icônicos do “Alien” original com os aspectos mais autênticos e realistas (e, por isso mesmo, mais amedrontadores) da obra-prima “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, Espinosa conseguiu construir um terror espacial que supera com folgas as duas últimas tentativas do próprio Scott em refazer seu “Alien”.
Orbitando nosso planeta, a tripulação da Estação Espacial Internacional intercepta uma sonda vinda de Marte e a recebe com o entusiasmo de quem sabe que ela trás descoberta incalculáveis para a ciência.
A maior delas, um ser protozoário logo batizado Calvin, será fonte de inúmeras surpresas: Com o tratamento adequado, a forma de vida desperta de sua inanição e passa a crescer em ritmo exponencial. Logo, ganha tamanho suficiente para caber na mão do encantado Derry, a despeito dos alertas constantes dos demais tripulantes, sobretudo, Jordan e Adams, os mais interessados na segurança.
Como é sintomático nos personagens envolvidos em tramas aterrorizantes, sejam elas num casarão, ou numa espaçonave, o assombro irá interferir na objetividade e o pânico será disparado na primeira atitude incoerente: Uma falha na segurança levará eles a temer pela vida de Calvin, e assim tentar um procedimento de desfibrilação. Mas, a forma de vida interpreta aquilo como uma tentativa de ataque e volta-se contra todos eles, revelando, na evolução implacável de seu organismo um perigo mortal para todos eles.
Espelhado no ser concebido por Ridley Scott, a criatura de “Vida” cresce a muda de forma, avançando por estágios da mesma maneira que alcança novas áreas da estação e elimina um a um dos tripulantes.
Se, na visão de Scott, a criatura alienígena agregava mais significado à medida que evoluía, junto com sua narrativa, de um perigo justificadamente orgânico, para um simbologismo que contaminava a própria nave, no trabalho profundamente referencial de Espinosa, as analogias meio que se perdem na tentativa única e até válida de realizar um grande trabalho de suspense –o quê muitos nem isso conseguem hoje em dia.
Seu final, contudo, é de uma inesperada contundência ao deixar de lado o reflexo involuntário do cinema comercial onde os protagonistas prevalecem por meio de soluções implausíveis e surpreender o expectador com uma crueldade verdade extraída de Darwin: Viver para uma determinada forma de vida significa levar outra forma de vida a morrer.

sábado, 29 de julho de 2017

O Último Samurai

Provavelmente o melhor trabalho do diretor Edward Zwick no terreno dos filmes épicos é, e continuará sendo por muito tempo, o brilhante drama de guerra “Tempo de Glória”, mas isso não significa que, nas décadas seguintes, ele não tenha tentado, senão superar sua obra-prima, ao menos igualá-la; esforços como o pouco conhecido e não muito eficiente “Coragem Sob Fogo” (com Meg Ryan e Denzel Washington) e este mais bem-sucedido “O Última Samurai” são indicações de um realizador que conseguiu conceber uma obra de qualidade espantosa até para si próprio, e que depois passou a tentar perseguir um novo pico de excelência.
E aqui ele até busca disfarçar bem esse objetivo: Se “Tempo de Glória” se passava na Guerra de Secessão Norte-Americana, “O Último Samurai” leva a ação para o Japão –ainda que partilhe do mesmo período de tempo, final do século XIX.
Nathan Algren, personagem de Tom Cruise, é, por sinal, um veterano daquela mesma guerra, beberrão e decadente por conta das agruras que as experiências em batalha lhe proporcionaram, ele é enviado por iniciativas privadas, como oficial militar norte-americano, ao Japão na esperança de que use sua habilidade em treinamento para auxiliar na luta contra samurais insurgentes que se opõem ao monopólio político americano sobre o Japão Imperial, uma situação que ele encara com o cinismo de quem pouco se importa.
É uma narrativa bastante norte-americana e, por isso mesmo, conivente, condescendente e dotada de considerável displicência em relação aos assuntos estrangeiros e da relação de superioridade dos EUA com eles. Ainda que inegavelmente charmosa.
O envolvimento de um astro como Tom Cruise promove, claro, uma abordagem respeitosa dessa outra cultura –no que o filme tem de mais admirável –embora essa percepção, de uma cultura distinta abordada com exotismo e indulgência jamais se dissipe.
As coisas mudam quando Algren chega ao Japão e, durante as primeiras batalhas logo é capturado e levado a um longínquo vilarejo comandado pelo samurai Katsumoto (Ken Watanabe, merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), um guerreiro devotado ao seu imperador e, por isso mesmo, líder de um movimento de oposição ao monopólio pernicioso praticado pelos americanos em sua terra.
Enquanto se recupera, longe do ambiente militarizado de onde veio, Algren toma contato com o ambiente genuíno do Japão, refletido naquele vilarejo, onde prevalece o modo de vida dos samurais, um código de conduta e nobreza ao qual ele resolve aderir (entre os outros samurais, lá está Hiroyuki Sanada, astro do maravilhoso “O Samurai do Entadecer”).
Livre e redimido, Algren retorna a civilização ciente de que deve buscar um meio pacifico na resolução do conflito, a fim de impedir que a cultura dos samurais seja esmagada. Mas em seu retorno um dilema crucial o aguarda.
O diretor Zwick tira de letra as facetas de superprodução do filme –leia-se, as belíssimas cenas coletivas de batalha que se intensificam, sobretudo, nos quarenta minutos finais, além desta ou daquela seqüência de luta –mas, sua grande responsabilidade ao abordar este projeto (e que, em parte, foi concluída com satisfação), é o modo com que se trabalha as complexas motivações de Katsumoto, um guerreiro que, como tal, só consegue –e só considera apropriado –expressar-se em meio às batalhas. A política é terreno, supõe ele, para indivíduos mais desenvoltos e manhosos. Daí, a dramaturgia visceral, traduzida neste ótimo épico de guerra, com que ele e seus aliados (Algren, incluso) tentam argumentar, por meio das batalhas que ganham ou que perdem, à sua autoridade maior, o imperador (mostrado como um jovem relutante e inseguro) e à ele clamar por um profundo respeito pelas suas culturas milenares.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sunshine - Alerta Solar

Existem filmes que são verdadeiras assombrações para aqueles que desejam aventurar-se em algum gênero cinematográfico específico.
Quando o versátil diretor escocês Danny Boyle –vindo da ótima reformulação de filmes de zumbi, “Extermínio" –resolveu enveredar pelo terreno da ficção científica, certamente, os fantasmas com os quais ele se deparou foram “Alien”, de Ridley Scott, “2001-Uma Odisséia NoEspaço”, de Stanley Kubrick e “Solaris”, de Andrei Tarkovski; obras essenciais e passíveis de comparação para qualquer filme cujo cenário é uma espaçonave.
À esses títulos é possível também incluir mais um: “O Enigma do Horizonte”, de Paul Anderson, cuja trama guarda algumas grandes semelhanças com esta daqui.
O grande diferencial de “Sunshine”, pode-se dizer, é o próprio Danny Boyle –sua direção inteligente, elegante e paulatinamente compenetrada jamais deixa que a premissa (ocasionalmente absurda) despenque para suas facetas mais banais e redundantes.
A trama se passa no futuro.
Longe do planeta Terra, a bordo da nave Icarus 2.
Após a missão fracassada da Icarus 1, essa segunda nave parte em direção ao sol deixando para trás um planeta terra a beira de um inverno solar. O astro-rei está morrendo, sua energia se acabando (numa probabilidade científica real vislumbrada pelo roteiro) e quando isso terminar por acontecer todo o sistema solar morrerá, engolido por uma supernova.
Para deter isso, a tripulação da Icarus 2 leva consigo uma bomba nuclear que ao ser detonada, supõe-se, reacenderá o sol e salvará a humanidade da extinção.
O grupo reunido a bordo da nave é, ele próprio, um conjunto bastante interessante de personagens e interpretes: Robert Capa, o especialista em fusão atômica –e protagonista –interpretado por Cillian Murphy (que protagonizou também “Extermínio”); o piloto Mace (Chris Evans, num papel sensacional bem antes do Capitão América); o honrado capitão Kaneda (o ótimo Hiroyuki Sanada, de “O Samurai do Entardecer”); a botânica Corazon (Michelle Yeoh, de "O Tigre e O Dragão"); a cientista Cassie (Rose Byrne); o psicólogo Searle (Cliff Curtis), e ainda os astronautas vividos por Troy Garity e Benedict Wong.
Até que todos eles cheguem lá, partindo do princípio surreal de que uma nave tripulada seja capaz de ir em direção ao sol (ainda que isso seja tratado, na narrativa, com verossimilhança e seriedade), a tripulação da Icarus 2 descobrirá as conseqüências imprevisíveis que o ser humano pode sofrer ao tentar se opor a sua própria extinção.
Danny Boyle não perde o pulso em nenhum momento sequer neste instigante conto de ficção científica amparado em conceitos existenciais tal qual "Solaris" de Tarkovski, mas com ritmo e acabamento de filme comercial.

terça-feira, 14 de março de 2017

O Samurai do Entardecer

Há um considerável risco do maravilhoso filme do diretor Yoji Yamada aborrecer aqueles expectadores que estiverem ávidos por um filme pontuado por lutas de espadas (aqui elas existem, porém, definidas e específicas, cada uma delas conta) e por uma narrativa que enalteça a bravura, a valentia, à exemplo dos filmes de faroeste.
O diretor faz uma escolha decisiva ao evidenciar a extraordinária bravura de seu protagonista através das minúcias mundanas de seu drama doméstico: Dedicado à suas duas filhas pequenas e à sua mãe cada vez mais senil desde que ficou viúvo, o samurai Seibei, por seu compromisso familiar rígido, recebeu o apelido dos companheiros de trabalho de “Seibei Entardecer” –quando o sol se põe, ele ruma direto para casa, ao contrário dos demais, que têm por destino a taverna local.
A presença de uma esposa faz falta na vida de Seibei (interpretado com primor por Hiroyuki Sanada no papel que o tornou um astro internacional): Suas roupas, tais como ele próprio, se encontram em situação de miséria, e as condições dentro de casa, sobretudo quando à limpeza a alimentação não estão muito melhores sem uma dona da casa que harmonize as tarefas. Essa atividade, somada ao trabalho junto ao clã, sobrecarrega Seibei.
Parece ser então providencial que a bela Tomoe (Rie Myiazawa, cativante), irmã de um grande amigo de Seibei, e grande amor deste na juventude, tenha se separado do marido após um matrimônio infernal e violento.
É providencial, mas a providência tem, também, algo de cruel: Pesa em Seibei a possibilidade de condenar Tomoe a uma vida sem luxos que ele, como humilde samurai, é incapaz de proporcionar.
Yoji Yamada faz uso de sua capacidade primorosa em ressaltar o drama em suas mais variadas sutilezas para entregar um dos mais aclamados filmes de samurai das últimas duas décadas (embora eu ainda prefira o magistral “A Última Espada”, de Yojiro Takita).
Não é para menos: Seu trabalho enfatiza os percalços humanos sobrepostos ao código milenar de honra samurai e às lutas inevitáveis de espadas que se seguem –ainda assim, devido à esse suporte dramático poderoso, tais lutas, quando surgem em cena, ganham em peso, importância e significado emocional junto ao público.
Brilhante.
É o primeiro filme de uma consagrada trilogia que Yoji Yamada entregou anos mais tarde, e que sempre abordava a trama e suas ramificações sentimentais a partir das privações experimentadas por samurais de segundo escalão, ausentes de glamour –pode ser chamada de “A Trilogia dos Samurais Pobres”.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

47 Ronins

Imaginava-se que, quando de seu lançamento, fosse este alardeado filme que viesse a restaurar o estrelato de Keanu Reeves –a trilogia “Matrix” já contava lá seus quase quinze anos de idade! –porém, o filme que acabou cumprindo (e muito bem) essa tarefa terminou sendo o bastante superior “De Volta Ao Jogo”.
Inspirado em um fato real que, no Japão, já ganhou dimensões lendárias –além de uma infinidade de adaptações, uma delas, inclusive dirigida pelo celebrado Kenji Mizoguchi –esta produção tem sua trama acrescida de elementos de fantasia que causam uma impressão de deslocamento e exotismo, e ilustram bem o trabalho ocasionalmente displicente que resulta de quando o cinema norte-americano trabalha com um material oriundo de uma cultura estrangeira: Sem constrangimento, eles literalmente brincam com coisa séria.
Desnecessário dizer, portanto, que as inúmeras outras versões desta mesma lenda executadas por cineastas japoneses são de cunho muito mais realista que esta estranha e irregular mistura de aventura de fantasia e épico samurai.
Durante a época do shogunato, no Japão ainda feudal, a província de Ako é vitimada pelas maquinações de um jovem lorde, aliado a uma feiticeira (Rinko Kikuchi, de “Babel” e “Círculo de Fogo”, belíssima), que provocam a desonra e a morte do chefe feudal, o lorde Asano, fazendo com que todos os samurais componentes de sua guarda tornem-se ronins, e sua filha, seja entregue ao vilão, sendo obrigada assim a desposá-lo.
Mas, os ronins, liderados pelo guerreiro Oishi (Hiroyuki Sanada, de “O Samurai do Entardecer”), aliados a um mestiço, têm outros planos e desejam não só reaver sua honra, mas também vingar seu mestre.
As intervenções “poéticas” de elementos fantásticos –que vão desde a bela feiticeira, até pequenos detalhes que alteram sutilmente trama e incluem criaturas das mais diversas espécies ao estilo “Senhor dos Anéis” –determinam muito do tom e do ritmo distintos da célebre lenda japonesa (e sobretudo, de suas austeras versões cinematográficas japonesas), e até expõem a intenção do diretor Carl Rinsch em brincar com as variações de gêneros de aventura que tem à disposição (incluindo um cardápio variado –e excessivo –de efeitos especiais) do que em trabalhar um cinema realmente sério. Esse argumento só encontra reparo de fato no desfecho, quando o filme prescinde de um irreal final feliz para se ater à conclusão de sua fonte original, sem enfeites.
Mesmo assim, roteiro desta produção norte americana possui visíveis modificações que nem sempre se harmonizam, especialmente no que diz respeito a forçada presença do mestiço, personagem de Keanu Reeves, cujos insistentes esforços narrativos para fazê-lo relevante à trama surgem como as manobras mais mal-sucedidas no que tange à sua realização. É, porém um entretenimento razoável e beneficia-se das ótimas presenças de Rinko Kikuchi, de Hiroyuki Sanada e do quase sempre vilanesco Cary-Hiroyuki Tagawa.

domingo, 15 de maio de 2016

Wolverine - Imortal

Ainda em processo de recuperação dos eventos transcorridos em "X-Men O Confronto Final" Logan se refugia nas florestas do Canadá, quando é procurado por uma jovem japonesa que lhe resgata um episódio de seu passado: Quando salvou, durante a II Guerra Mundial, a vida de um jovem soldado japonês, no exato momento em que a bomba atômica foi detonada nos céus de Nagazaki. O soldado, agora um milionário, a beira da morte deseja compensar Logan por tê-lo salvo, dando-lhe a única coisa que depois de tanto tempo ele almeja: a chance de morrer.
Mesmo após os resultados pra lá de frustrantes do filme solo do Wolverine, os estúdios da Fox, felizmente, ainda não tinham desistido do personagem. Foi assim que, dessa forma, chamaram novamente o ator Hugh Jackman (sempre sensacional em sua caracterização), contrataram o diretor James Mangold (realizador do ótimo faroeste “Os Indomáveis”) e o colocaram na missão de adaptar a cultuada graphic-novel "Eu, Wolverine", uma notável história de tom mais realista que colocava Logan no Japão, conseguindo assim restabelecer Wolverine como o grande personagem que é após aquele filme frustrante. 
O resultado unia elementos de filmes de samurai (indo além de sua ambientação), com aspectos que remetiam a filmes clássicos de gêneros norte-americanos, como "Os Implacáveis", muito do agrado do diretor Mangold, tudo isso, mesclado a uma trama de histórias em quadrinhos que terminou funcionando bem na tela de cinema.
Embora possuísse suas fragilidades, o novo filme trazia pelo menos uma cena digna de nota: A bem elaborada e memorável cena de luta sobre um trem-bala em movimento.
Está certo que o filme poderia ter sido ainda mais fiel à saga dos quadrinhos e que aquele trecho final envolvendo o Samurai de Prata é esquisito e desnecessário, sem falar que a cena pós-créditos que faz a ligação com o filme seguinte (“Dias de Um Futuro Esquecido”) é melhor que o longa inteiro mas... bem, isso é uma outra história.