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sábado, 27 de julho de 2024

Deadpool & Wolverine


 E já aviso de antemão, leitor ocasional ou não, este texto contém os famigerados spoilers, logo, se você aprecia uma experiência cinematográfica com surpresas intactas, leia depois de ter visto o filme!

Após os eventos de “Deadpool 2”, o mercenário Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool (Ryan Reynoldos, desempenhando em estado de graça como sempre) procura por Happy Hogan (Jon Favreau) a fim de ingressar nos Vingadores –naquela época, 2018, vale lembrar, além dos acontecimentos de “Deadpool 2”, ainda estávamos às vésperas dos eventos bombásticos de “Vingadores-Guerra Infinita”. Durante a cena –que mais lembra uma mera entrevista de emprego –Happy convence Wade de que ele não necessariamente leva jeito para ser superherói (não no sentido altruísta do termo) e acaba convencendo-o a aposentar seu uniforme. De volta à sua realidade (para a qual ele pode ir e voltar graças ao aparelho fornecido por Cable em “Deadpool 2”, diga-se), Wade se torna um vendedor de carros e assim passam-se seis anos.

É no aniversário de Wade –no qual, providencialmente se reúnem os seus melhores amigos, ou seja, os coadjuvantes que estiveram ao lado dele em seus dois filmes –que o filme, agora dirigido por Shawn Levy, começa de verdade: Wade é visitado por agentes da AVT (Agência de Variância Temporal, mostrada na série “Loki”) e levado até sua sede onde recebe do funcionário Paradox (Matthew McFadyen, de "Orgulho e Preconceito") uma notícia indigesta. O seu universo (que corresponde ao universo mais ou menos bagunçado de filmes da Fox) está morrendo! Segundo Paradox, todo universo tem uma ‘âncora’, um ser tão essencial àquela realidade que sua morte pode levar à desintegração de todo o universo. A ‘âncora’ do universo de Wade morreu –no caso, Wolverine (vivido como todo mundo sabe, com excelência por Hugh Jackman, há uns vinte anos), no filme “Logan”. Dessa forma, Wade, agora uma vez mais dentro do traje de Deadpool, precisa quebrar as regras da própria AVT (que o tinha levado para lá a fim de chamá-lo a integrar a Linha Sagrada, isto é, o universo oficial do MCU) para encontrar nas infinitas realidades alternativas do multiverso, um substituto apropriado, uma ‘âncora’ que substitua aquela que seu universo perdeu –em outras palavras, um outro Wolverine!

E começam aí, então, o festival de referências que fazem de “Deadpool & Wolverine” uma obra assim tão sedutora: Nas variações de Wolverine que acompanhamos Deadpool encontrar com tanta descontração, vemos versões em live-action de segmentos que farão a felicidade dos fãs de quadrinhos como o Wolverine extraído de “A Era do Apocalypse” (na qual ele não possui uma das mãos!); a versão conhecida como ‘Caolho’; uma versão interpretada pelo ex-Superman Henry Cavill (!); uma recriação de sua primeira aparição nas HQs, quando enfrentou o Hulk; e até mesmo a recriação de uma das capas clássicas das revistas, onde foi crucificado num imenso X de madeira. Ao fim dessa busca, resta somente uma versão apropriada de Wolverine para Deadpool levar consigo, uma versão renegada (ainda que trajando, enfim, o icônico colante amarelo dos quadrinhos e das animações), junto da qual ele retorna à AVT, somente para serem enviados por Paradox ao Voidt, ou Vazio –se você assistiu a série “Loki”, então sabe que trata-se de uma dimensão onde são despejados os sobreviventes indesejados de realidades condenadas que, por algum motivo ou outro, conseguem escapar da eventual obliteração.

Contudo, o Voidt agora está diferente: Por conta de acontecimentos bem reais (no caso, a compra dos estúdios da 20th Century Fox pela própria Walt Disney Company e, portanto, a aquisição desta de todas as propriedades intelectuais daquele estúdio), o Voidt está repleto de personagens oriundos do Universo Marvel da Fox nos cinemas, que reúne os filmes dos X-Men, (num total de onze filmes) os do Quarteto Fantástico (ambas as versões de 2005 e 2015) e os do Deadpool. E claro que, com  isso, o filme de Shawn Levy não haverá de desperdiçar a oportunidade de entregar sequências extasiantes aos expectadores, que apelam ao fã com aparições surpresas (algumas absolutamente sensacionais) capazes de despertar a mesma euforia indescritível que algumas cenas de “Vingadores-Ultimato” o fizeram há cinco anos atrás.

Embora seja uma obra longe da perfeição –e muitos críticos sisudos já correram apontar isso, destacando como exemplo a superficialidade do roteiro em inúmeros trechos, ignorando o fato de que as filmagens de “Deadpool & Wolverine” se sucederam durante a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023, o que impediu muitas cenas de ganharem o devido polimento –o filme de Shawn Levy ainda assim tem bom senso e perspicácia o suficiente para sinalizar ao público com tudo aquilo que funcionou muito bem antes deles: O humor incontido e inconsequente de seu irreprimível protagonista (o filme tem a mais alta classificação indicativa permitida pela Marvel Studios até então); as referências inúmeras, algumas um tanto difíceis de se apanhar pelos não-iniciados nos filmes desse certamente vasto universo de heróis; e as sequências vibrantes, feitas para entregar instantes, situações e manobras muito esperadas e almejadas pelos fãs de carteirinha que provavelmente sairão acalentados e saciados do cinema, como há muito tempo não faziam, sob a alegação de que a Marvel havia perdido o jeito para agradar seu público.

“Deadpool & Wolverine” vem provar que não: Ainda há muitas emoções e surpresas a serem entregues ao público. Desde que sejam concebidas por artesões absolutamente capazes e competentes, e tão apaixonados pelo material que manejam quanto seus fiéis expectadores.

domingo, 1 de outubro de 2023

Trem-Bala


 Ao lado de Chad Stahelski, o diretor David Leitch conduziu uma espécie de revolução no cinema hollywoodiano de ação –ancorados na formidável mitologia de “John Wick”, as novas produções não mais se satisfaziam na pancadaria descerebrada que dominou o gênero a partir dos anos 1980. Agora, os filmes de ação têm um entendimento singular de cinema (não somente com notáveis referências que vão desde obras obscuras do cinema de Hong-Kong até menções apaixonadas a trabalhos cultuados do cinema mudo, mas também exercícios de virtuosismo técnico que, não raro, incluem planos-sequências formidáveis e desafiadores construídos num único take) e uma exuberante contribuição da habilidade artística, instintiva e corpórea de seus dublês (ofício primeiro de Stahelski), isso tudo, sem esquecer quesitos antes negligenciados como interpretação (tais filmes ostentam sempre talentosos atores como não deixa mentir o ótimo Keanu Reeves), roteiro (seus enredos mergulham em meandros que apresentam profundidade e dramaturgia) e direção (o conhecimento narrativo pulsa, em igual entusiasmo, com o conhecimento da ação) –em suma, agora, filmes de ação são cinema de verdade.

A diferença entre os dois grandes responsáveis por essa pequena revolução temática, Stahelski e Leitch, é que, enquanto Stahelski aprecia a estrutura interna da movimentação dos corpos em conflito, e disso faz toda uma coreografia com propósito e sentimento, Leitch é apaixonado pelos elementos que impulsionam, dentro da trama, esses mesmos corpos em conflito. Dessa convicção veio a adaptação de quadrinhos nunca menos que sensacional “Atômica” e, agora, este “Trem-Bala”, cuja trama, inspirada, por sua vez, no romance de Kotarô Isaka, caminha pelos sinuosos desdobramentos da comédia, adentra os intrincados flashbacks de um neo-noir moderno e se ramifica em diversos personagens, assumindo pontos de vista, interrompendo o fluxo narrativo para regressar no tempo e narrar histórias paralelas que, às vezes, vão complementar a história principal de formas inesperadas. Em suma: Enquanto promove ação ininterrupta e pancadaria refinada num nível que Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme jamais poderiam sonhar em seus áureos tempos, David Leitch também se permite brincar com a narrativa de forma elaborada e sofisticada.

A premissa que urge “Trem-Bala” é complexa –e vai se complicando e se fragmentando ainda mais a medida que o filme avança –embora desenvolvida dentro de uma circunstância simples: O filme muito pouco sai de dentro da ambientação do trem-bala do título, um transporte high-tech de alta-velocidade que singra todo o Japão.

É dentro dele que o assassino Ladybug (Brad Pitt, divertidíssimo) irá, aos poucos, desvendar a missão que lhe foi confiada –e que é, em si, uma baita enrascada! Sob instruções via celular de sua contratante Maria (uma ponta luxuosa de Sandra Bullock, devolvendo o favor da participação especial de Pitt em “Cidade Perdida”), Ladybug deve roubar uma maleta contendo dinheiro de dois outros passageiros do trem, os gêmeos Lemon e Tangerine (Brian Tyree Henry e Aaron Taylor Johnson, que de gêmeos não têm nada). O problema é que os gêmeos também têm seus próprios contratempos; a missão deles é levar o dinheiro (contido na maleta) e uma espécie de refém (Logan Lerman), um viciado que vem a ser filho do temido chefão do crime, White Death (Michael Shannon). Nem bem o trem sai da estação, a maleta é roubada (por Ladybug) e o refém é morto (por alguém cuja identidade ainda é um mistério) colocando Lemon e Tangerine com um grande abacaxi nas mãos. Eles têm que encontrar um meio de livrarem-se dessa confusão antes do trem-bala chegar à última estação –quando não terão escapatória (nem eles, nem Ladybug) das mãos cruéis de White Death.

Há, em meio ao frenesi dos demais passageiros do trem, outros personagens que acrescentam mais densidade e intriga a essa sucessão de tumultos: Kimura (Andrew Koji), assassino de aluguel disposto a vingar um acidente sofrido pelo filho cujo papel, dentro do trem, termina sendo o de marionete nas mãos da manipuladora Prince (Joey King, na personagem mais enervante do filme), uma patricinha dissimulada e aparentemente inocente que planeja a morte que praticamente todos os personagens (!); a Vespa (Zazie Beetz, de “Deadpool 2” e “Coringa”) uma assassina sorrateira especializada em envenenamento; Wolf (o rapper Bad Bunny), um assassino mexicano à bordo do trem, também ele, em busca de vingança; e uma espécime rara de cobra (!?), surrupiada do zoológico local, dona de um veneno capaz de levar a vítma de sua mordida à morte por hemorragia em 30 segundos (!), e que por conta desse mero detalhe é essencial à história.

Cada um desses personagens é norteado por seu próprio propósito e sua própria trama, e é dessa forma que suas trajetórias se cruzam (ou melhor, se colidem!) à bordo do trem-bala, quando seus objetivos e motivações entram em conflito à medida que o trem avança, e sua trama, pontuada de alianças refeitas e desfeitas, de mortes e perseguições, revelações e segredos de última hora, vai se afunilando até a apoteótica estação final, quando diretor David Leitch terá exibido todo o seu espetacular leque de recursos para brindar o público com um dos mais inventivos, divertidos e insanos filmes a mesclar comédia e ação em níveis impraticáveis em muito tempo.

domingo, 17 de setembro de 2023

Cidade Perdida


 A escritora Loretta Sage (Sandra Bullock) é uma daquelas autoras de best-sellers aventureiros que vive uma vida diametralmente oposta a das heroínas que cria: Doméstica, banal, conveniente, ainda tão mais acomodada devido ao fato de ter enviuvado.

Todavia, como toda a trama previsível e comercial que une aventuras à moda antiga com comédia romântica, Loretta está fadada a experimentar, na vida real, as peripécias que tanto escreveu para suas personagens –e está aí, na diferença ora constrangedora, ora inusitada, entre a ficção vistosa e a realidade inclemente, o grande charme almejado pelo filme dirigido pelos irmãos Adam e Aaron Nee.

Enfurnada em sua casa e pouco interessada no mundo lá fora, Loretta é arrancada de sua inércia por sua ativa e opinativa editora Beth (Da’Vine Joy Randolph) que lhe cobra o mais recente livro de sua série de sucessos literários, todos protagonizados pelo inverossivelmente galante Dash McMahon. Contudo, o sucesso, da forma como veio, não parece satisfazer Loretta –porque ao escrever as aventuras de sua heroína, ela sente estar criando literatura de baixa qualidade e, sobretudo, porque tal sucesso parece vir menos pelo teor esforçado de seus escritos e mais pelo apelo visual das capas, nas quais tornou-se tradição aparecer, caracterizado como Dash, o modelo Alan Caprison (Channing Tatum) que, de fato, arranca suspiros das leitoras.

É no constrangedor evento de lançamento do último livro que Loretta acaba sendo sequestrada pelo jovem, excêntrico e abilolado bilionário Abigail Fairfax (Daniel Radcliffe) destinada a fazer parte de um plano tão estranho quanto ele: Ajudá-lo a decifrar o paradeiro da mítica Coroa de Fogo, relíquia de uma cidade perdida localizada em uma ilha no Oceano Atlântico que, à propósito, é citada no mais recente livro de Loretta.

Com Loretta em perigo, resta à Alan contratar o aventureiro da vida real Jack Trainer (Brad Pitt, numa participação hilária) para fazer o que, em tese, seu personagem faria: Resgatar a moça em perigo e salvar o dia.

Contudo, diante de desdobramentos cada vez mais improváveis, Alan e Loretta veem-se sozinhos em meio à selva da tal ilha, perseguidos pelos capangas sem-noção de Fairfax e levados, pelo súbito faro arqueológico redescoberto de Loretta, a seguir o rastro de pistas que podem levar à Coroa de Fogo –e à diversas armadilhas também.

Paradisíaca, frenética e pontuada de lances cômicos tanto quanto de ganchos nem sempre oportunos para o romance, “A Cidade Perdida” apesar do fato incômodo de não entregar nenhuma novidade de fato (sua mescla de aventura com romance a lembrar deliberadamente o clássico “Tudo Por Uma Esmeralda” remete imediatamente à ‘sessão da tarde’) funciona graças às suas espirituosas presenças do elenco, em especial, seu par central: No papel do herói romântico em potencial, Channing Tatum surpreende, revelando inesperadas doses de vulnerabilidade e hesitação –e encontrando justamente aí, um engraçado diferencial para o seu personagem –já Sandra Bullock escuta o tempo todo (em especial das farpas que saem da boca do desagradável vilãozinho) que está velha demais para esse tipo de aventura. Pura provocação –ela está linda, e sua personagem, divertidíssima!

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Stop Loss - A Lei da Guerra


 O termo “stop-loss” se refere ao soldado americano reescalado para servir na Guerra do Iraque mesmo após ter cumprido seu período voluntário. Dirigido por Kimberly Peirce, mesma realizadora do contundente “Meninos Não Choram”, este drama de guerra, ao tratar justamente das circunstâncias um tanto massacrantes do “stop-loss” parece inicialmente fazer uma espécie de propaganda patriótica ao Exército Norte-Americano, embora, no decorrer de seus acontecimentos termine por se revelar exatamente o oposto –um trabalho, na verdade, até anti-belicista e anti-militarista.

Produzido pela Paramount Pictures em colaboração com a MTV Films –sendo, portanto, um filme para a TV –“A Lei da Guerra” acompanha três amigos em missão no Iraque: Brandon (Ryan Phillippe, também presente em “A Conquista da Honra”), Steve (Channing Tatum) e Tommy (Joseph Gordon-Levitch), todos vindos da cidade de Brazoz, no Texas.

Ao fim do longo período de 11 anos como soldados, os três regressam para suas famílias e sua cidade-natal, não sem antes serem submetidos à excruciantes experiências em combate –uma delas, uma emboscada nas ruas de uma cidadezinha iraquiana, é mostrada no prólogo em sangrentos e exasperantes detalhes.

De volta, todos eles tentam se adaptar à nova vida. Não conseguem; Steve tenta estabelecer um convívio com Mich (a bela Abbie Cornish, de “Sucker Punch-Mundo Surreal”), sua noiva à cinco anos, mas os severos surtos de stress pós-traumático galgam para a violência doméstica; Tommy, de casamento marcado, põe a perder seu futuro matrimônio (e sua permanência no exército) graças à sua propensão ao alcoolismo.

Já, Brandon, que almejava uma vida tranquila depois de cumprido seu dever, tem um ingrata surpresa: Devido à uma ordem presidencial, ele é um dos “stop-loss”; tão admirável foi seu desempenho em combate que o exército não aceita sua dispensa e, praticamente à revelia dele próprio, decide enviá-lo de volta para o Iraque. Sua excelência como soldado foi a razão para mantê-lo preso à guerra da qual já queria se desvencilhar.

Essa faceta profundamente crítica para com esse determinado procedimento militar –cujos números e estatísticas (ao menos, os que estão disponíveis) são enunciados com realismo nos créditos finais –é o que diferencia “A Lei da Guerra”, uma vez que ele começa aparentando-se quase como uma variação de “O Franco Atirador” –onde jovens regressam para casa tendo de conviver com os revezes do conflito –inserido na Guerra do Iraque.

Na verdade, a lida psicológica com o trauma do Iraque pode ser vista como a fonte de um sub-gênero à parte entre os filmes de guerra norte-americanos (tal e qual o Vietnam) em meados da década de 2000: Houve entre outros o drama “Soldado Anônimo”, o suspense “No Vale das Sombras” e o premiado “Guerra Ao Terror”.

“A Lei da Guerra” se insere nesse conjunto em partes... pois, a partir de determinado ponto, ele muda, convertendo-se num quase road movie onde Brandon, agora desertor, negando-se ceder às exigências autoritárias do exército, se torna uma espécie de fugitivo, ao lado de Mich, agora afastada de Steve –inclusive, com uma promessa de triângulo amoroso pairando no ar; a diretora Peirce, entretanto, parece sensata o bastante para não ceder ao convencionalismo.

Embora bem interpretado, bem conduzido, e envolvente na maior parte do tempo, “A Lei da Guerra” carrega o problema de jamais ir até o fim nos inúmeros objetivos que se propõe: Sua crítica ao exército não se eleva em conclusões relevantes de fato (até porque o desfecho, nesse sentido, é bastante conciliatório e desanimado) e os dramas de seus personagens assim desenvolvidos (o alcoolismo de Tommy, a amizade entre Steve e Brandon e, sobretudo, o envolvimento platônico, mas certamente afetivo, entre esse último e a jovem Mich) jamais chegam num encerramento que possa sugerir redenção, resolução ou término.

A despeito da competência e do profissionalismo com que tudo é realizado, nem sempre esses sublimes adjetivos conseguem contornar a frustração por esses lapsos do roteiro.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Magic Mike XXL


 Apesar de não contar com os personagens Dallas (de Matthew McConaughey) e Kid (de Alex Petiffer), a grande ausência que determina o resultado da continuação de “Magic Mike” é a do diretor Steve Sodenbergh. Felizmente, quem ocupa o lugar dele é o produtor Gregory Jacobs que escapa astuciosamente da armadilha de tentar emular Sodenbergh e concebe a este filme um brilho e uma personalidade próprios.

Cerca de três anos depois de ter abandonado os palcos, o ex-stripper Mike (Channing Tatum, de volta num dos personagens mais marcantes de sua carreira) segue realizando suas aspirações profissionais afrente de uma empresa de móveis personalizados.

De repente, ele recebe um telefonema de seus antigos colegas: Os também strippers Ritchie (Joe Manganiello), Ken (Matthew Bomer), Tito (Adam Rodriguez) e Tarzan (Kevin Nash) o chamam para um reencontro.

Ao contrário de Mike, eles continuaram como strippers, e agora, largados ao léu por Dallas –que partiu para o estrangeiro levando Kid à tiracolo –querem fazer uma última apresentação numa convenção em Macau, antes de receberem dinheiro o suficiente para todos partirem em busca de seus próprios sonhos.

Assaltado de uma súbita nostalgia, Mike decide acompanhá-los, numa forma de celebrar a última oportunidade em que esses grandes amigos estarão todos juntos.

Como diretor, Jacobs troca a observação inquisitiva e analítica da vida moderna executada por Sodenbergh por uma visão mais desprendida, onde predomina o alto-astral, e as emoções mais universais a acompanhar o reencontro dos amigos –o primeiro reflexo bastante positivo é que o filme acaba dando espaço muito maior para os coadjuvantes e suas vulnerabilidades.

Se no primeiro “Magic Mike” todo o staff de strippers servia mais para uma caracterização esmerada do universo das casas noturnas, bem ao gosto a um só tempo niilista e meticuloso de Sodenbergh, aqui, os anseios e emoções desses personagens entram em foco, proporcionando a eles a humanidade que não tiveram a chance de expor: Ritchie é fanfarrão, carismático e, na leveza que compartilha com todos, um amigo crucial à união do grupo (e possivelmente o melhor personagem do filme); Ken tem seus próprios anseios e objetivos, mas antes de tudo precisa superar um ligeiro ressentimento pelo abandono de Mike; Tito é hábil cozinheiro e planeja obter dinheiro com essa derradeira apresentação para se lançar no ramo; e Tarzan –ou Ernest –encobre com imponência e seriedade sua vontade casar e constituir família.

Essa mudança de enfoque, do cinismo para a ternura, revela facetas novas de todos os personagens e, sobretudo, de suas dinâmicas: No trajeto de Miami até Macau, confissões afloram, lembranças animadas são colocadas em pauta e todos saboreiam a sensação agridoce de estarem juntos uma última vez, o que transforma “Magic Mike XXL” num autêntico road-movie.

E como tal, o trajeto de seus protagonistas até seu destino final é registrado nas minúcias de seu humor e de seu drama: O trailer que os leva sofre uma acidente, obrigando-os a apelar para os favores de uma conhecida (Jada Pinkett Smith num papel originalmente feito para ser masculino), e na sequência, encontrar breve refúgio na mansão de uma ricaça carente (ponta de Andie MacDowell); não sem antes Mike e seu pessoal pararem numa loja de conveniência e, num desafio oferecido ao divertido Ritchie –arrancar um sorriso de uma soturna atendente –produzirem a melhor cena do filme.

Quase um musical na evocação irrestrita que promove da descontração inerente aos seus personagens, “Magic Mike XXL” é uma continuação que troca sem pudores o drama circunspecto por uma atmosfera leve, irrequieta e contagiante. E faz disso seu grande mérito.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Foxcatcher - Uma História Que Chocou O Mundo


 Adeptos de histórias reais –e, não raro, dramas de orientação contundente –o diretor Bennett Miller lança seu olhar para os percalços que conduziram a um crime que chocou o mundo do esporte no final da década de 1980, munido de uma percepção que, se não modifica em nada o roteiro e a possível fidelidade aos fatos, vale-se de impressões subliminares para tentar sugerir uma possível justificativa a uma atrocidade virtualmente injustificável.

Competidor olímpico de luta greco-romana, o americano Mark Schultz (Channing Tatum) vive resignado e à sombra do irmão mais velho, Dave (Mark Ruffalo), também ele medalhista da mesma modalidade: É uma rotina que, em sua subjetividade, o diretor Miller não se furta de mostrar depressiva (a exemplo do que ele já fizera em “Capote” e “O Homem Que Mudou O Jogo”): O filme que acompanha Mark é silencioso, deprimente e triste.

Se Mark é soturno, Dave é carismático e exuberante –adjetivos que parecem despertar um ressentimento no irmão mais novo (características estas que, é bom lembrar, nunca são explicitadas no roteiro, mas evidenciadas na direção).

Mark recebe um telefonema do milionário John du Pont (Steve Carrell, tão competente na seriedade quanto o é no humor) e, ao ser convidado por ele para integrar sua equipe olímpica e morar em sua mansão, introduz um novo elemento nessa estranha dinâmica.

John du Pont é o tipo de personagem difícil de despertar empatia ou identificação: Egocêntrico em sua bipolaridade e na evidente indiferença para com sentimentos alheios (exceto pela opinião nunca positiva da mãe, vivida por Vanessa Redgrave), John é rodeado de indivíduos tornados subservientes por sua riqueza.

A dinâmica entre ele e seu séquito é estabelecida com clareza no filme: John é rico e financia com seu poder todas as operações à sua volta, em troca, seus apadrinhados lhe dedicam implausível enaltecimento, e ignoram a mediocridade em seu comportamento.

Ao trazer Mark Schultz para perto de si, John somente o transforma em um desses; ainda que, em seus desengonçados discursos motivacionais, John reafirme sua intenção de honrar o sonho americano, inspirar valores e ajudar o próximo.

Mark enxerga nessa oportunidade a chance de realizar suas aspirações e encontrar um meio de brilhar sem ser ofuscado pelo irmão.

Mas, Dave também está no radar de John.

Assim, o filme de Bennett Miller se fragmenta em dois filmes distintos,  conforme as interpretações: Um, é o filme que assistimos (onde Mark e John desenvolvem uma relação de amizade quase unilateral que vai migrando para uma dinâmica mais abusiva ao sabor das personalidades de ambos e suas idiossincrasias, o que ganha contornos mais complicados e mais desequilibrados quando Dave resolve se juntar à equipe, acirrando a tensão reprimida nos relacionamentos de dominação moral assim construídos); O outro é o filme que poderia ter sido feito, e que surge nas entrelinhas não tão evidentes deixadas por Miller. O fato é que a verdade em torno de um acontecimento –sobretudo, de natureza trágica como este –é, com frequência, algo movediço e escorregadio. Compreendendo esse detalhe, e sabendo de antemão que, dentre suas fontes de depoimentos pessoais, nem Dave Schultz e nem John du Pont (falecido em 2010) podem fornecer suas versões, restando somente o taciturno, arredio e nada inteligível Mark para lhe esclarecer os detalhes minimalistas da situação, o diretor Miller montou uma narrativa que, em parte, lembra a do filme “Teoria de Tudo” –onde as opiniões do biografado estão a interferir o tempo todo na veracidade da biografia –e assim faz de Mark o protagonista calado que, essencialmente, atravessa o filme com sua dignidade aparentemente intacta.

É nas impressões subjetivas, e nada óbvias, entretanto, que Miller deposita as possíveis e verdadeiras conclusões acerca do que pode ter ocorrido: Não à toa, “Foxcatcher”, à despeito do incômodo perene que evoca no expectador, foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor, e não ao de Melhor Filme –uma dica de que é a impressão que se tem da trama, e não seus pontos factuais, o verdadeiro relato a ser apreendido.

Um competente trabalho defino por percepções e considerações subliminares, emoldurado numa climática e introspectiva realização ao estilo do drama independente norte-americano, cujo resultado, em sua deliberada imprecisão existencial, acaba sendo perturbador.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Magic Mike

A realização de Steve Sodenbergh é um ponto de virada tanto na carreira de Matthew McConaughey quanto na de Channing Tatum, sobretudo, para este último: Em sua aparência superficial, “Magic Mike” pode até parecer com as bobagens que alavancaram a carreira de Tatum entre o público feminino, como o romance brega-dançante “Se Ela Dança, Eu Danço”, no entanto, a direção de Sodenbergh garante muito mais profundidade ao resultado, jogando luz sobre o bom ator que, quando quer, ele consegue ser.
Inicialmente dois personagens parecem representar as duas facetas de uma mesma moeda junto ao plot: São Mike (Tatum) e Adam (Alex Pettyfer, de “Eu Sou O Número Quatro”).
Mike é o astro de um clube de strip-tease para mulheres (profissão que Channing Tatum realmente tinha antes de virar ator, o que talvez explique a desenvoltura quase sobrehumana que ele demonstra em cena), no qual Adam, sob incentivo dele, passa a trabalhar também.
Mike é o veterano. Adam é o novato.
É pelos olhos de Adam que vemos esse novo mundo se descortinar à nossa frente, mas, logo ele é deixado de lado em prol de Mike que se impõe como o protagonista de fato à medida que a narrativa progride.
Os demais strippers do grupo são Ritchie ‘Bem Dotado’ (Joe Manganiello), Ken (Matt Bomer, de “Dois Caras Legais” e “Sete Homens e Um Destino”), Tito (Adam Rodriguez) e Tarzan (Kevin Nash, de “John Wick”).
Todos trabalham num show erótico promovido por Dallas (McConaughey, fantástico), um misto paternal de entusiasta e gerenciador –mas, também, como veremos à frente, impiedoso no que tange ao tino empresarial.
É notável a maneira com que Sodenbergh trabalha a incontornável exposição dos atores à nudez nas cenas de performance (executadas com toda exuberância que a teatralidade exige), construindo uma narrativa de propósitos e predisposições voltados para a história e não para um presumido erotismo: “Magic Mike” não é, deveras, um filme sobre homens nus em um palco!
Ele é, sim, sobre seu protagonista Mike, e sobre como os vícios de seu universo podem atingir mesmo aqueles teoricamente blindados contra eles.
Dentre todos os personagens a orbitar o astro solar e reluzente que é Dallas, o grande destaque da casa, Mike, policia-se a fim de estabelecer um meta para si: Aos 30 anos, ele não está ficando mais jovem; sabe que a garantia de seu vasto ganha-pão atual é fugaz, e deseja poupar para empreender. Nas fissuras ocasionais de suas atividades diurnas –mostradas em paralelo à agitação embriagante da noite e à amizade junto de Adam –se percebe o olhar carregado do drama humano, independente e austero que Sodenbergh lança às considerações tão norte-americanas, ao conceito do ‘way of life’, da ‘terra das oportunidades’.
Um futuro sólido, de estabilidade econômica, é um sonho frequentemente inatingível para todos, ao contrário, do que outras obras americanas, quase sempre voltadas para a ênfase do sucesso, insistem em reafirmar.
E Mike, articulado, boa-praça, genuinamente bem-intencionado e esperançoso, haverá de descobrir não só os revezes discriminatórios que servirão de obstáculos ao seu caminho, mas também encontrará a acidez  convicta do próprio diretor Sodenbergh que, munido do roteiro circunspecto e espirituoso de Reid Carolin, haverá de fazê-lo sofrer cada etapa de sua derrocada com compartilhada euforia dramática: Da companheira de cama pela qual nutria um sentimento que começava a adquirir afeto (Olivia Munn), ao próprio âmbito profissional, onde prevalecia como estrela, mas começa a declinar em função das sabotagens impessoais de Dallas e da ascensão de Adam (nuances que “Magic Mike” toma emprestado de narrativas clássicas como “A Malvada”, “Memórias de Uma Gueixa” e –pasmem –“Showgirls”!), o filme de Sodenbergh empenha-se, primeiro, em construir com brilho, minimalismo e êxtase o seu contexto para então submeter seu protagonista às provações árduas de sua desilusão.
Para tanto, em meio à sinergia desconcertante produzida pelas apresentações sistemáticas, insinuantes e pra lá de erotizadas de seu vigoroso e viril elenco masculino, Sodenbergh usa de seu talento para sublinhar as relações humanas de fato: A amizade com ares de mentoria entre Mike e Adam; a camaradagem, composta pelos mais variados improvisos, desenvolvida pelos strippers no camarim; a influência revitalizadora, mas corruptível de Dallas à todos ao seu redor e, sobretudo, a aproximação tensa, lenta, pontuada de conceitos e preconceitos entre Mike e a irmã de Adam, Brooke (Cody Horn, de “Twelve-Vidas Sem Rumo”), que vê nesse ofício e na vida presumidamente desregrada deles uma antítese da normalidade que anseia para si. Ainda assim, ela e Mike identificam-se em suas próprias esperanças, e na compreensão de que precisam entender para serem entendidos.
“Magic Mike” é assim, um desafio ao próprio preconceito do expectador: Ameaça ser vulgar, pecaminoso e cheio de fantasias femininas, mas se revela profundo, melancólico e recompensador.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Anjos da Lei

Como tantos seriados de outrora, o policial juvenil dos anos 1980 criado por Stephen J. Cannell e Patrick Hasburgh, “Anjos da Lei”, teve sua eventual transposição para as telas de cinema em 2012.
Contudo, para aqueles que foram conferir o resultado embalados pela nostalgia de ver a mesma mescla de drama adolescente e intriga policial levada à sério na tela grande, a direção nada usual de Phil Lord e Christopher Miller (animadores de “Batman-Lego”) terminou abordando a premissa como aquilo que de fato hoje ela soaria: Uma comédia do absurdo.
Nos anos 1980 –como muitos casos de obras cinematográficas veem corroborar –era motivo de charme estruturar narrativas em torno do improvável das circunstâncias; logo, fazia todo o sentido junto ao período o conceito de policiais infiltrados que, devido à fisionomia juvenil, se passavam por estudantes, enquanto tentavam identificar criminosos em ação por detrás do sistema estudantil. Não à toa, fez muito sucesso –e ainda revelou o astro Johnny Depp que não tardou a migrar para o cinema.
Conscientes da singularidade temática que norteou a cultura pop da década de 1980, os diretores Lord e Miller pegam sua história atual e a ambientam no mesmo universo da série (com direito à uma alucinada participação especial de Depp e seu co-astro Peter DeLuise já perto do final), mas modificam completamente sua abordagem, tornando-a, de certa maneira a razão de ser do projeto: “Anjos da Lei”, o filme, se passa, afinal de contas, numa outra época de “Anjos da Lei”, a série, e é isso que termina por defini-lo.
Quando de fato experimentaram a adolescência nos anos 1980, Schimdt (Johah Hill) e Jenko (Channing Tatum) eram perfeitos opostos: O primeiro, gordinho, nerd e tímido (embora Hill tenha emagrecido consideravelmente em comparação aos seus filmes anteriores); o segundo, fortão, brucutu e sem-noção –e, por isso mesmo, popularíssimo na escola!
Adultos, se reencontraram na Academia de Polícia e descobriram que, em sua amizade recém-descoberta, eram complementares: Jenko passou a ajudar Schmidt nas atividades físicas; Schmidt passou a ajudar Jenko nas atividades intelectuais.
Formados policiais, e já inseparáveis melhores amigos, eles (que sempre foram meio atrapalhados...) acabam sendo enviados para o Programa de Policiais Infiltrados Anjos da Lei, sediado na mesma igreja de fachada da série, endereçada na Rua Jump, nº 21 –“21 Jump Street” título original da série e do filme.
(Repare, entre seus colegas de profissão, a presença de Dakota Johnson, futura estrela de “Cinquenta Tons de Cinza”)
A missão deles é infiltrar-se no círculo de amizade dos traficantes da escola local, entre os quais uma novíssima droga começa a circular, e a partir daí, descobrir quem é o fornecedor.
Contudo, Schimdt e Jenko percebem, já no primeiro dia, que as coisas mudaram bastante desde os tempos em que frequentaram o colégio: Os nerds não são mais os desprezados (alguns deles, pelo menos); os esportistas fortões e burros (dos quais Jenko é exemplo emblemático) já passam longe de serem os mais populares; e o politicamente correto transformou as relações estudantis com a inesperada chegada de uma forte aceitação (agora é inapropriado os alunos resolverem tudo na porrada como antes), as novas tribos (além dos nerds, dos góticos e dos esportistas, agora há também os emos, e os hipsters) e, como consequência disso, uma inversão de valores se acarreta entre os dois protagonistas: Outrora rei da popularidade, agora é Jenko quem tem de se sujeitar à andar com os rejeitados, e é o sensível e sensato Schmidt quem se sobressai na nova ‘cadeia alimentar’ integrando o grupo dos descolados da escola, entre os quais está o traficante local Eric (Dave Franco) e sua namoradinha Molly (uma ainda novinha Brie Larson).
Diante desse curioso paradoxo, os diretores Phil Lord e Chris Miller usam desse novo status quo para fazer graça: “Anjo da Lei” é todo chacota, num nível tão intenso e radical que pode até incomodar os puristas e apreciadores do tom ocasionalmente melodramático que a série original adotava. Eles não estão nem aí!
Essa opção tão irrestrita quanto à reinvenção cômica desse conceito rende alguns momentos hilariantes, e outros presunçosos onde o humor nem sempre soa apropriado ou espontâneo, comprometendo o resultado.
Curiosamente, não acaba sendo Jonah Hill, mais assíduo em obras de comédia, quem se destaca: É o normalmente sisudo Channing Tatum, demonstrando um incrível e inesperado timing cômico quem realmente faz “Anjos da Lei” funcionar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A Legião Perdida


Diretor dotado de personalidade e orientação próprias, passa longe da intenção de Kevin MacDonald (de “O Último Rei da Escócia”), ao revisitar a lenda da Nona Legião de Roma desaparecida, reprisar o épico de Ridley Scott, “Gladiador” –muito de sua estrutura e estilo, inclusive, foge dessa comparação.
A Nona Legião de Roma foi uma das muitas que fizeram incursões pelo norte inexplorado da Bretanha, quando o Império Romano buscava arduamente estender ao máximo seus domínios. Foi, entretanto, a única que não regressou: Diante de seu misterioso desaparecimento, o Imperador Adriano decretou a construção de uma grande muralha que determinava os limites do mundo conhecido –para além de suas fortificações, ficavam as terras ermas das selvagens tribos bretãs, certamente responsáveis pelo desaparecimento de tantos soldados.
A trama do filme de MacDonald –na única similaridade maior com o filme de Scott –pega emprestada a história real para dela fazer o eixo que impulsa seu enredo fictício.
Channing Tatum é, assim, Marcus Flavius Aquila, oficial romano designado para um dos entrepostos na Muralha de Adriano e filho do capitão da lendária Nona Legião.
Passados vinte anos do ocorrido, Marcus deseja, acima de tudo, restaurar a honra do nome da família; desde então, as especulações até cogitam a possibilidade de seu pai ter entregue o estandarte da águia, o símbolo da honra de Roma, para os inimigos.
Servindo como oficial, Marcus demonstra grande bravura, liderando suas tropas contra selvagens ofensivas dos nativos –e numa batalha é severamente ferido.
Enviado duzentas léguas ao sul, na mansão de um tio (Donald Sutherland), Marcus conhece o escravo Esca (o sempre ótimo Jamie Bell) quando este demonstra nobreza incomum numa arena –tão incomum que Marcus salva sua vida, o que deixa Esca em eterna dívida para com ele.
Quando surge um vago indício de que o estandarte de uma águia romana (certamente o do Nona Legião), foi tomado por uma tribo nortista de bretões, Marcus toma a decisão de seguir com Esca para além da Muralha de Adriano, e encontra-la, a fim de restaurar em definitivo a honra de seu pai e de sua família.
Mal sabe Marcus, porém, que sua jornada será ainda mais dolorosa e difícil do que ele poderia imaginar: Para além daquela fronteira, no inóspito mundo desconhecido, os conceitos de mestre e escravo que vinculam Marcus e Esca nada significam –mais, podem encontrar circunstâncias que até os inverterão! –e a sobrevivência de ambos, em meio à tribos cuja hostilidade está à flor da pele, pode depender de uma lealdade que eles não necessariamente serão capazes de manter um pelo outro.
Mais do que enfatizar a coreografia das batalhas –embora ele até dê uma colher de chá com alguns conflitos bem executados –o diretor MacDonald prefere se esbaldar com o suspense intenso inerente ao fato de seus protagonistas se lançarem numa missão insana nos confins distantes de um mundo selvagem, com o registro naturalista e autêntico (característico de um documentarista) de uma região onde a natureza se revela rica em texturas, humidade e perigos, e com a dinâmica fascinante entre Marcus e Esca, na qual a tensão se faz presente pelos ressentimentos representados pelos povos antagônicos a que eles pertencem, e pela constante mudança hierárquica que sua atribulada jornada promove entre os dois.
Curiosamente, num acaso que costuma assombrar algumas produções hollywoodianas, “A Legião Perdida” foi lançada no mesmo ano, 2011, que um outro filme, também ele girando em torno do mito da Nona Legião, o bem mais modesto “Centurião”, com Michael Fassbender.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

É O Fim


Eis uma comédia que, pode-se dizer, leva o absurdo de sua premissa às últimas consequências.
Numa simulação de realidade que frequentemente serve à seus propósitos cômicos, o comediante (e, aqui, tanto ator como diretor) Seth Rogen interpreta a si mesmo.
Ou seja, ele é um ator famoso –e já no início indagado do porque interpreta sempre o mesmo personagem –à espera de um amigo no aeroporto de L.A.
Esse amigo vem a ser jay Baruchel –que contracenou com Rogen em “Ligeiramente Grávidos” e faz parte, de fato, de seu círculo de amizades –e eles se reencontram depois de um longo tempo. Jay, embora também ator, é um pouco avesso ao modo de vida predominante na Califórnia. Seus planos são passar o tempo com seu amigo –e nisso o filme não tem pudores em suscitar todos os maneirismos de comédias sentimentais sobre amigos e parceiros; o quê Seth Rogen (que divide a direção com Evan Goldberg) parece prezar muito em sua filmografia.
Os planos de Jay, contudo, são frustrados: Seth não tarda a carregá-lo para uma festa promovida pelo astro James Franco em sua nova mansão. E, lá, não é somente James Franco que aparece interpretando uma versão impiedosamente caricatural e hedonista de si próprio: Vemos também a cantora Rihanna, os atores Jason Segel, Emma Watson e Michael Cera (numa versão terrivelmente irresponsável, inconsequente e promíscua do que supostamente seria o comportamento de um ator famoso), e os essenciais ao filme, Jonah Hill e Craig Robinson –todos, sem sombra de dúvidas, saídos do grupo de confiança de Rogen.
Até então, “É O Fim” não aparenta ser mais que uma comédia esquisita e um pouco ousada que flerta com as impressões da fama. Entretanto, ao acompanhar a decisão de Jay em ir a uma loja de conveniência junto de Seth, o filme entregará sua assombrosa guinada: Após um desastroso terremoto, raios azuis irrompem o céu (!) e capturam pessoas específicas entre a população. Uns são assim misteriosamente levados, outros ficam para ver a destruição que se segue por fogo e desmoronamento.
Na casa de Franco, contudo, ninguém percebeu o ocorrido (!!).
Após convencê-los –numa situação na qual a narrativa enfatiza o rídiculo da questão –alguns dos famosos citados até morrem (!) despencando num enorme buraco flamejante (nessa cena, temos também a aparição breve de Paul Rudd, o “Homem-Formiga”).
Rogen, Baruchel, Franco, Hill e Robinson têm a ideia de ficar na mansão de Franco, sobrevivendo com a água e a comida que há lá –isso até descobrirem que junto com eles está também o espaçoso e inconveniente (e, com frequência, o mais engraçado do filme) Danny McBride.
Forçados ao convívio, todos esses personagens, dotados do pouco de sensatez que têm, procuram racionalizar a situação: Ao que parece o Apocalypse Bíblico ocorreu, com o arrebatamento das almas boas e tudo o mais, e à eles, atores famosos, só restou experimentar o inferno na Terra (!).
O roteiro (do próprio Rogen) especula os desdobramentos realistas dessa situação certamente nada realista, embora explicíta a partir da definição da crença de muitas pessoas –e ainda que de certo o filme não almeje controvérsia na abordagem indireta da religião, ele sem dúvidas não a evita.
A verdade é que, em sua galhofa incontrolável, não dá para levar “É O Fim” muito à sério.
Mesmo nos momentos em que se pretende tenso, por exemplo, o filme conduz deliberadamente ao riso; um riso nervoso é bem verdade, mas riso ainda assim.
Uma mescla de comédia adolescente e debochada, referências improváveis, improvisão encorajada e solta e uma certa coragem inconsequente, este trabaho é, como outros assinados por Rogen, um exemplo do estilo muito peculir e significativo de um autor em meio à mesmice da comédia norte-americana.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Garotas Sem Rumo


Em sua estréia num longa-metragem de ficção a premiada documentarista Bárbara Kopple fez um notável e dramático estudo de comportamento no qual procurou honrar a idéia de uma amiga: A argumentista original, Jessica Kaplan (a quem o filme é dedicado) faleceu enquanto o projeto ainda se achava em pré-produção.
Dessa forma, o roteiro acabou ganhando um polimento luxuoso. Stephen Gaghan, o premiado roteirista de “Traffic”, deu continuidade à concretização da trama e dos personagens a partir do esboço inicial e da intenção de Kaplan, e o resultado desse esforço é insidioso e em alguns momentos excessivamente indulgente para com os jovens da geração que retrata. Não falta neles –como fica especialmente patente na protagonista vivida por Anne Hathaway –inteligência, esclarecimento e auto-consciência das mazelas do mundo e seu papel na sociedade.
Nada disso impede, contudo, que essa jovem experimente uma espécie de vazio existencial, que em argumentos propensos ao drama, costuma sempre ser o gatilho para o questionamento.
Como suas amigas, ela é uma garota da classe-alta, moradora do bairro chique de Palisades, em Los Angeles. E como elas, busca no despojamento uma atitude que a faça existencialmente confortável com sua condição.
No entanto, ao que tudo indica isso não basta.
Na busca por algo que tire o tédio de sua rotina, ela e sua melhor amiga (Bijou Phillips) acabam se envolvendo com rapazes pobres da periferia latina, que têm de traficar droga para obter dinheiro. A proximidade do perigo as excita, mas evidentemente ameaça suas vidas. Logo, elas envolverão amigos, amigas, pais e namorados, num conflito inevitável.
Apesar dos predicados, este filme é lembrado como o filme em que Anne Hathaway (de "O Diário da Princesa") parece pela primeira vez nua.

quarta-feira, 21 de março de 2018

O Destino de Júpiter

É fato que as Irmãs Wachowsky nunca mais conseguiram repetir o feito (um tanto quanto singular) de criar algo tão antológico e marcante quanto “Matrix” –nem em suas bem acabadas continuações elas chegaram a obter esse êxito.
Não que não tivessem tentado: Nas últimas décadas, eles... ops, desculpem, elas (!) entregaram uma versão live-action para cinema frenética, ainda que pouco eficaz, do anime “Speed Racer”, e uma ambiciosa (e presunçosa) adaptação do complexo romance de David Mitchell, “A Viagem”.
A sua tentativa mais próxima, contudo, de criar uma saga nos mesmos moldes comerciais de “Matrix” foi mesmo este “O Destino de Júpiter” que ironicamente parece beber da fonte de outra grande saga da ficção científica: “Star Wars”.
Embora ainda haja algo que remete ao conceito de “Matrix” na premissa de um mundo fantástico que se esconde debaixo de uma fachada de realidade normal, é certamente a criação de George Lucas que mais influencia os seres extraterrestres e as intrigas espaciais de ordem intergaláctica que norteiam este filme freqüentemente estranho, onde é difícil dizer se essa estranheza resulta por ser proposital ou porque as realizadoras não tiveram desenvoltura para evitá-la.
Interpretada com a habitual solidez da belíssima Mila Kunis, a protagonista, a jovem Júpiter Jones, vem a ser filha de imigrantes ucranianos que vivem em Nova York a encarar os revezes de uma vida paupérrima: Sua rotina é acordar de madrugada e limpar latrinas.
Todavia, Júpiter (cujo nome lhe foi dado pelo pai, apaixonado astrônomo falecido) como dita a cartilha hollywoodiana de tramas com tal apelo, não é uma pessoa comum –e isso se nota quando surgem em seu encalço seres vindos do espaço, uns desejosos de matá-la, outros, de protegê-la. E nesse ponto, as Wachowsky perdem completamente a chance de realizarem o aplicado trabalho de ação que exerceram em sua obra mais famosa, dando às cenas vertiginosas de “Destino de Júpiter” um registro convencional e desanimado.
A resposta para as atribulações mirabolantes que se abatem sobre a perplexa protagonista na primeira parte do filme é inesperada: Júpiter vem a ser a encarnação de uma rainha espacial do passado, em cuja herança está todo o planeta Terra!
Uma vez que ela, agora descoberta, se tornou alvo das conspirações de seus próprios herdeiros (entre os quais o mais proeminente é um efeminado e constrangedor Eddie Redmayne, pouco antes de levar o Oscar de Melhor Ator por “A Teoria de Tudo”), ela precisa contar com a ajuda do agente Caine (Channing Tatum, visivelmente o fetiche das diretoras), uma mistura atlética e supina de canino e humanóide (!), já que afinal todos os traiçoeiros membros de sua ‘família real’ estão de olho da Terra que, na realidade, trata-se do maior celeiro (!) de hospedeiros de todo o universo –as raças mais evoluídas têm uma tecnologia que os permite migrar de um corpo jovem para outro sem jamais serem alcançados pelo envelhecimento e pela morte.
Assim sendo, tal e qual seu cultuado "Matrix", as Irmãs Wachowski tentaram criar uma trama inusitada (no que, a princípio, elas seriam exímias), onde as camadas normais da realidade ocultam um mundo todo diferente, dotado de mitologia e complexidade próprias. Sua intenção se perde da pretensão de fazer desta uma nova e grandiloquente saga –pontuada por suas descabidas reflexões existenciais de botequim –e na execução frouxa cujos equívocos vão se acumulando até soarem incabíveis: Para se ter uma idéia do desleixo, existem dois clímax que se sucedem da mesma forma e com as mesmas justificativas (quase como uma mesma cena repetida duas vezes!).
O detalhismo rebuscado, e o esmero visual poderiam até ter feito deste um espetáculo acima da média, não tivessem desta vez as Wachowski errado de maneira tão espetacular: Esta tremenda demonstração de negligência resultou em vergonhosas indicações de Piores do Ano no Framboesa de Ouro 2015, concorrendo diretamente com “Cinqüenta Tonsde Cinza”.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Kingsman - O Círculo Dourado

Durante algum tempo, o diretor Matthew Vaughn evitou envolver-se em continuações. Embora tenha entregue filmes extremamente bem-sucedidos, ele não esteve na continuação do ótimo “Kick Ass-Quebrando Tudo”, nem na seqüência do igualmente ótimo “X-Men Primeira Classe”. Essa postura só veio a mudar quando ele resolveu encarar também este “Círculo Dourado” que vem a dar seqüência ao seu divertidíssimo “Kingsman-Serviço Secreto” –talvez, influenciado pela queda de qualidade ocasionada nas continuações de suas próprias obras, em especial, em “Kick Ass 2”.
Como em “Kick Ass”, “Kingsman” partia de uma história em quadrinhos escrita por Mark Millar. Uma redefinição dos conceitos tradicionais de agente secreto ao estilo James Bond, mas transfigurada com elementos muito atuais, como a avançada tecnologia, a ultra-violência, além do cinismo e do sarcasmo que tão bem definem os jovens.
Na continuação, Vaughn não faz a menor questão de fugir desses elementos: “Círculo Dourado”, em todos os aspectos possíveis, dá continuidade natural ao que foi visto em “Serviço Secreto”: Eggsy (o ótimo Taron Egerton) evoluiu de agente em treinamento (no primeiro filme) para um dos poucos agentes da Kingsman em atividade (lembre-se que a maioria morreu!). Seu rival durante o treinamento, o almofadinha Charlie Hesketh (Edward Holcroft) retorna como um dos vilões e surge, já na primeira cena, para dar dor de cabeça ao herói –uma cena insana e eletrizante de ação, diga-se, daquelas que poucos realizadores, como Vaughn, são capazes de orquestrar.
Também a princesa Tilde (Hanna Alström), vista brevemente no filme –e num rápido take, já no final, surpreendente e revelador –agora aparece aqui como namorada séria de Eggsy; essa manobra provavelmente foi uma forma de responder a algumas críticas que apontaram o primeiro filme como excessivamente machista (embora a objetificação da mulher seja uma característica constante também neste segundo filme).
Já confortável na função de agente da Kingsman –uma organização inglesa de espionagem avançada –Eggsy descobre uma ameaça tremenda na forma de Poppy Adams (Julianne Morre, se esbaldando no papel), uma mega-traficante de drogas profundamente frustrada com o anonimato que sua ocupação impõe ao seu serviço –que ele sabe executar com sucesso inquestionável. Disposta a obter o reconhecimento como uma das mulheres mais poderosas do mundo, ela engendra um plano para chantagear o presidente dos EUA (uma ponta de Bruce Greenwood cheia de crítica e acidez) obrigando-o a legalizar todas as drogas.
Psicótica e implacável, ela trata de tirar de seu caminho os possíveis obstáculos, no caso, os agentes da Kingsman que são dizimados num atentado destruidor –e, diferente do filme anterior, agora todos morrem! Todos, não: Apenas Eggsy resta vivo (ele estava, por acaso, jantando com os pais da namorada!) e o analista Merlin (Mark Strong) –isso obriga os dois a procurar apoio e recursos entre os Stateman, a contraparte americana da Kingsman, capitaneados por Champ (Jeff Bridges) e que incluem Ginger (Halle Berry), Uísque (Pedro Pascal, de “A Grande Muralha”) e Tequila (Channin Tatum).
Junto com os aliados da Stateman vem também uma revelação: Gallahad (Colin Firth, sempre digno), o mentor de Eggsy morto no filme anterior está vivo! –e infelizmente, graças ao desleixo do departamento de marketing essa revelação não é surpresa pra ninguém já que o personagem aparece em todos os trailers e pôsteres.
Talvez a maior surpresa deste novo “Kingsman” seja assim a honorável e hilária ponta de Elton John.
Há muito da competência de Matthew Vaughn trabalhando em prol da diversão, mas ele não escapa aqui de inúmeras armadilhas oriundas justamente –vejam a ironia! –do fato de estar fazendo aquilo qual até então tentou fugir: Uma continuação.

sábado, 17 de setembro de 2016

Ave, César!

O cinema da Velha Hollywood já estava presente há algum tempo nos trabalhos dos Irmãos Coen: Prova disso é o enigmático “Barton Fink-Delírios de Hollywood” e o divertidíssimo “E Aí, Meu Irmão Cadê Você?” (cujo título foi tirado do filme dentro do filme da trama do clássico “Contrastes Humanos”).
Nunca porém eles haviam emergido de forma tão abrangente nesse retrato como o fazem aqui, e sua especulação a respeito daquela Hollywood, hoje já folclórica, vem todo permeada por sua ironia típica, não raro cruel, e seu senso de observação intrínseco de uma genial simplicidade.
As várias e absurdas tramas que passeiam por todo o filme têm como elo de ligação o produtor Fred Mannix (Josh Brolin, colaborador freqüente dos Coen em trabalhos como o antológico “Onde Os Fracos Não Têm Vez” e o excelente “Bravura Indômita”, mas tão arraigado no papel que você nem lembrará disso). O trabalho dele, além de coordenar os aspectos da produção dos simultâneos filmes realizados pela Capital Pictures Studios, é também conter os egos –e as encrencas quase surreais –que surgem da relação nem sempre profissional entre os astros fúteis e mimados e os diretores e vários técnicos envolvidos nos filmes.
Há o astro de faroestes (Alden Ehrenreich, hilariante) que, após consolidar sua carreira nos papéis exclusivamente físicos de cowboy, migra para os filmes mais dramáticos, com resultados catastróficos, para desespero de seu afeminado diretor (Ralph Fiennes); a atriz especializada em filmes aquáticos (Scarlett Johansson, linda como sempre em papel claramente inspirado em Esther Williams), que precisa providenciar um rápido casamento arranjado a fim de atenuar o possível escândalo por uma gravidez inesperada; e –dentre todos o quê toma mais tempo da narrativa –o astro de um proeminente épico bíblico (George Clooney, interpretando o que deve ser uma caricatura de Richard Burton), que acaba seqüestrado por um grupo de lesados intelectuais comunistas, na verdade, todos roteiristas amargurados com o sistema hollywoodiano de então, que não lhes dava o devido valor.
Todas essas questões, tramas paralelas e personagens ganham uma estranha abordagem na qual os Coen enfatizam o humor nonsense na mesma proporção que o drama humano embutidos nas circunstâncias.
O resultado é de uma sofisticação que beira a inacessibilidade, um problema que, se pararmos para avaliar, sempre ronda as obras desiguais desses talentosos realizadores.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os Oito Odiados

Desde o inaugural “Cães de Aluguel” ninguém está seguro em um filme de Quentin Tarantino. E as coisas continuam inóspitas neste seu novo trabalho, “Os Oito Odiados”, ele próprio guardando imensas similaridades com “Cães de Aluguel”: Lá estão os mesmos personagens violentos e perigosos, confinados num único ambiente (uma cabana nas montanhas que serve de refúgio para uma nevasca que irá durar dias); e lá também estão as suspeitas de que alguém dali é um traidor prestes a matar a todos.
Comparar os dois filmes é constatar o acentuado aprimoramento técnico que, como diretor, ele ganhou ao longo dos anos, mas salvo essa desenvoltura para com o acabamento, ele manteve-se o mesmo, preservando aquela fúria idiossincrática, a contundência moral e o senso de observação afiado para com as facetas mais brutais do ser humano.
E permanece um grande entusiasta do cinema.
Entre as muitas referências que transitam neste irônico e monumental faroeste (irônico e monumental em todos os sentidos, inclusive na exuberante captura visual da fotografia em Ultra Panavision 70), a combinação do ator Kurt Russel, do cenário tomado por neve, do ambiente claustrofóbico, bem como da descoberta de um inimigo mortal infiltrado entre eles, remete imediatamente ao clássico “Enigma do Outro Mundo”, de John Carpenter.
A narrativa episódica de Tarantino tem início nas pradarias extensas, cobertas de neve do Wyoming, onde os caminhos aparentemente levam todos os personagens à cidade de Red Rock. Como o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth e a sua prisioneira, a indomável criminosa Daisy Domergue (a ótima Jennifer Jason Leigh).
À eles junta-se de imediato, o Major Marquis Warren (um imponente Samuel L. Jackson), também ele um caçador de recompensas em direção à Red Rock, e logo mais o duvidoso Chris Mannix (Walton Goggins), afirmando ser, por sua vez, o novo xerife do lugar. A nevasca que os persegue chega à alcançá-los já no isolado “Armazém da Minnie”, cuja dona não está; em seu lugar está um certo mexicano Bob, cheio de explicações esfarrapadas. Os outros membros ali confinados são: O carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o escorregadio Joe Gage (Michael Madsen) e o taciturno veterano da Guerra Civil, General Sanford Smithers (Bruce Dern).
Todos têm lá suas histórias nebulosas para contar. E todos são interpretados por atores magníficos.
Quando ainda estamos impressionados com o protagonismo poderoso de Samuel L. Jackson e Kurt Russel, logo somos arrebatados pela presença cheia de timbres de Tim Roth, ou pela desenvoltura sibilante de Walton Goggins, ou pela intrigante postura erradica de Demian Bichir, ou pelas atuações mais silenciosas, porém ressonantes e latentes de Michael Madsen e Bruce Dern.
Pensando melhor, por pouco a alucinada e magnífica composição de Jennifer Jason Leigh não rouba o filme para ela não fosse tanta gente boa em cena.
Com seu roteiro sensacional, pontuado por reviravoltas, e uma admirável técnica cinematográfica que evita magnificamente as armadilhas de um teatro filmado, Quentin Tarantino faz com que seu elenco majestoso seja o coração de mais este trabalho brilhante.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Inimigos Públicos

A precisão de perceber uma época que se transforma é o retrato nunca menos que sublime que nos proporciona o diretor Michael Mann. 
Tal qual é inerente em sua filmografia, os protagonistas e seus asseclas surgem como seres humanos mergulhados nos meandros de suas profissões: Assaltante de banco, no caso do John Dilinger de Johnny Depp; Agente federal, no caso do Neal Purvis de Christian Bale. Mas o registro de Mann, feito com câmera digital do próprio gênero de gangster é que é verdadeiramente desconcertante. A beleza de enquadramentos assimétricos é logo arrebatada pela imprevisibilidade da percepção que a imagem granulada nos provoca. Não há dúvida, aquele é um mundo prestes a mudar. 
E como toda mudança, esta certamente será dolorosa. Os tiroteios a céu aberto em praça pública do Velho Oeste ficaram para trás, mas ainda não longe o suficiente. As leis, a indústria e o progresso tomam de assalto os EUA (assim como a Grande Depressão, seu efeito colateral) e acabam domesticando os homens e regulamentando as cidades. Mas ainda há resquícios desses cowboys de arma na cintura nesses homens civilizados da década de 1930. E Neal Purvis é um deles. O selvagem pistoleiro agora em contato com o homem moderno dentro de si, um certo receio ao ser posto a frente do ainda embrionário Bureau de Investigação. Purvis, porém, tem pouco tempo de cena. É Dilinger a fonte real do fascínio da narrativa. E Johnny Depp, após vinte anos de carreira, e tantos ótimos filmes, aqui parece revelar um novo ator, uma nova forma de interpretar, um novo Johnny Depp, imerso num realismo de pólvora e sangue. Assistir um ator encontrar algo assim é uma jornada incrível. 
Seria injustiça não citar a linda Marion Cotillard, perfeita no contraponto humano e lúdico de uma história que é quase lendária. Em seus momentos centrais “Inimigos Públicos” tem a visceralidade da câmera digital que Michael Mann usou e aprimorou desde o fantástico “Colateral”. No seu princípio e no seu fim, porém, ele retorna às câmeras de cinema, onde o formato widescreen parece emoldurar essa trajetória que não é apenas de John Dilinger, mas de toda uma nação, a caminho de uma nova época, durante a qual só ali, naquele instante, se percebia os efeitos da mudança, e num outro nível, de todo um gênero cinematográfico que nascia então, por meio de homens que, como Dilinger, morriam para se tornarem lendas.