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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D


 Em 1977, o diretor Steven Spielberg lançou o filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, uma obra que sob muitos aspectos define sua carreira – as inquietações acerca da existência de vida extraterrestre são tópicos que Spielberg jamais foi capaz de deixar de lado, levando à produções como "E.T. O Extraterrestre” e outras que indiretamente abordavam tal tema. O ponto fora da curva pode ser considerado “Guerra dos Mundos”, no qual Spielberg faz nada mais que um pastiche cinematograficamente requintado de “Independence Day” – isso porque Spielberg sempre enxergou de uma maneira esperançosa a possibilidade de co-existência entre humanos e alienígenas.

Agora, do alto de uma carreira de 50 anos, Spielberg volta a focar suas lentes sobre o tema, numa obra que resgata toda a dúvida insolúvel e o interesse instigante que o levaram até “Contatos Imediatos...” – este “Dia D” é, em si, uma obra que traz Spielberg se reencontrando consigo mesmo, revendo tópicos que sempre lhe foram tão caros ao seu cinema, à luz de uma imponderável modernidade, resvalando em teorias da conspiração que soariam alarmantes nas mãos de outros realizadores, e provando, uma vez mais, o cineasta sem par que ele é.

A trama – concebida pelo roteirista David Koepp, a partir de um argumento do próprio Spielberg – se inicia audaz, sem tempo para tomar o fôlego: Daniel Kellner (o carismático Josh O’Connor, de “Rivais”) já está em fuga. Ao que parece ele roubou arquivos importantes de uma agência ultrasecreta governamental (isso e outra coisa, ainda mais importante e inconcebível!). Tal agência, denominada Wardex, sequestrou sua namorada Jane (Eve Hewson, filha de Bono Vox, o vocalista do “U2”) e agora exigem uma troca ocorrida nas dependências de um ring de luta livre lotado – e é nessas circunstâncias, com todo o intrincado enredo já em curso, que o filme começa.

Paralelo à trajetória de fuga de Daniel e Eve – na qual tentam à todo custo escapar da Wardex, controlada com mão de ferro pelo implacável Noah Scanlon (Colin Firth, sempre fantástico) – vemos também a história de Margaret Fairchild (Emily Blunt, magnífica), garota do tempo de uma emissora de TV em Kansas City que, certo dia, sem a menor explicação, começa a falar numa língua extraterrestre em pleno noticiário matutino, ao vivo!

O caso chama a atenção da Wardex que, tal e qual o fazem com Daniel, almejam agora encontrar e capturar Margaret à todo custo, enquanto um certo Dr. Hugo Wakefield (o ótimo Colman Domingo) procura estar um passo à frente de Scanlon e sua tentacular agência, a fim de driblá-los e fazer aquilo que eles tentam evitar há décadas: Revelar ao público toda a verdade.

Assim como em “Contatos Imediatos...” – cujo plot, de um ponto em diante, centralizava sua atenção no encontro iminente entre os protagonistas Roy e Jillian – em “Dia D” somos conduzidos por Spielberg na expectativa de testemunhar Daniel e Margaret se encontrarem, e descobrir o que, a partir daí, acontecerá.

Não restam dúvidas de que há muito de Spielberg em “Dia D” – não apenas o foco central no tema dos extraterrestres e da incomensurável mudança que a sua revelação causaria no mundo e nos rumos da Humanidade perpassa toda sua filmografia, como também as pertinentes referências à Segunda Guerra Mundial (o próprio título em alusão ao Dia D, na Normandia; a iminência da Terceira Guerra Mundial servindo como um pano de fundo político aos acontecimentos), a gênese de todos os mais profundos questionamentos encontrada nas memórias de infância (como é o caso dos dois protagonistas), e a própria insistência na intervenção irredutível de uma influente figura paterna (que aqui são duas, o autoritário ainda que munido de supostas boas intenções Scanlon, de Colin Firth, e o manipulador, ainda que bondoso, Wakefield, de Colman Domingo, dois atores que, diga-se, sob a direção de Spielberg, brilham como nunca).

No panorama do cinema comercial mundial, “Dia D” é uma realização distinta e exótica como só um diretor de predicados hiperlativos como Steven Spielberg seria capaz de elaborar: É inteligente, complexo, desafiador, fala da correlação entre a crença em vida extraterrestre e a transformação subsequente de paradigmas religiosos, leva a ficção científica  a um patamar que pouquíssimos filmes sobre o tema alienígenas foram capazes de chegar e tudo isso numa produção suntuosa, tecnicamente refinada com todos os aparatos que só o melhor de Hollywood pode proporcionar e mesmo tocando em temas como o acobertamento do governo acerca de assuntos delicados, surge audaciosamente em meio à blockbusters no período mais disputado do ano nos cinemas.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Bridget Jones - Louca Pelo Garoto


 E não é que realmente foi feito o quarto filme da franquia “Bridget Jones”? Iniciada em 2001 com o excelente (e ainda o melhor de todos) “O Diário de Bridget Jones”, esta série de filmes, inspirados nos livros de Helen Fielding, teve sucessivamente como segundo exemplar o simpático ainda que irregular “Bridget Jones-No Limite da Razão”, lançado em 2004 e, também ele, adaptado de um livro da autora. Depois, contudo, algo inusitado aconteceu: Helen Fielding lançou o terceiro livro, “Louca Pelo Garoto”, onde confrontava sua heroína, Bridget Jones, com novas situações numa nova fase da vida. O radicalismo do enredo desse terceiro livro despertou a fúria de fãs da série ao redor do mundo todo, que já naqueles tempos, ameaçaram cancelá-lo!

Essa reação foi de tal forma negativa que os planos para o terceiro filme foram improvisados –foi lançado em 2016, “O Bebê de Bridget Jones”, único filme da série feito a partir de um roteiro original (da própria Helen Fielding) e não de uma adaptação dos livros.

O tempo passou, e a relação dos fãs com o livro “Louca Pelo Garoto”, foi mudando. Não mais revoltados com o descarte do amado personagem de Mark Darcy (Colin Firth, sempre ótimo), os fãs passaram a reparar melhor na construção bem feita do enredo, na ideia revigorante de trazer a protagonista vivenciando um recomeço, enfrentando desafios sob a ótica de uma diferente faixa etária (não mais uma jovem mulher solteira) e no fato da trama, em si, não se mostrar tão acomodada quanto a trama do segundo livro (e filme). Com isso, 2004 testemunhou assim o lançamento de “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto” –produzido pela própria Helen Fielding e pela estrela Renée Zellweger –que enfim traz para o cinema o terceiro livro da série, tornando-se, portanto, o quarto filme!

A inglesa Bridget Jones é viúva desde que seu marido, Mark Darcy faleceu quatro anos atrás (e essa era a manobra narrativa que tanto despertou a fúria das fãs dos livros), no entanto, passado esse prolongado período de luto, Bridget decide que é hora de retomar à vida que tinha antes. O que significa que, apesar de ter agora dois filhos pra criar –o menino Bill (Casper Knopf) e a menininha Mabel (Mila Jankovic) –ela deve voltar a trabalhar (na mesma emissora de TV do primeiro filme) e tentar, na medida do possível, se mostrar aberta a um novo relacionamento, que parece perfeitamente viável na improvável forma do garotão Roxter McDuff (Leo Woodall), embora os flertes de hoje dia acabem dependendo muito mais de ferramentas digitais que a quarentona Bridget Jones deve se virar para aprender a usar!

Essa é, portanto, a tônica do novo “Bridget Jones”, que funcionou à perfeição na literatura e ocasionalmente, funcionou muito bem no cinema também –em grande parte, graças ao acerto fenomenal da escalação de Renée Zellweger ao papel. O diretor Michael Morris parece tão convicto da eficácia dessa fórmula, testada e comprovada junto ao seu público, que ele relaxa em muitos aspectos na sua tarefa. A narrativa de “Louca Pelo Garoto” –diferente da excelência instintiva e acertada com que era conduzida em “O Diário de Bridget Jones” –nunca consegue surpreender o público, em grande medida, porque ao negligenciar este ou aquele personagem, já podemos até adivinhar, de antemão, os rumos que à eles serão dados na trama. Além disso, escalar o respeitável (e indicado ao Oscar!) Chiwetel Ejiofor para um personagem que, em tese, surge como coadjuvante e aos poucos vai ganhando estatura junto à trama, também não pega ninguém de surpresa. Diferente, por exemplo, do que ocorre no primeiro filme com o próprio Mark Darcy –na época, o excelente Colin Firth não era tão famoso, tendo participado dos consagrados “O Paciente Inglês” e “Shakespeare Apaixonado”, mas em papel de vilão. Logo, sua escalação como Darcy era extremamente inspirada –nos passava a ideia de que ele seria quase alguém vilanesco na trama, quando de repente essas primeiras impressões (nossas e da personagem principal) iam sendo subvertidas.

O livro, “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto”, num esperto reaproveitamento da estrutura já clássica do livro original, seguia por tópicos muitos similares aos quais este novo filme não conseguiu se equiparar justamente por causa disso.

Apesar disso, ainda sobram momentos ternos e divertidos (muitos deles por conta da sempre memorável Renée Zellweger, bem ladeada pelo hilário personagem de Hugh Grant), e um agridoce senso de nostalgia deste filme em relação à todos os outros da série.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

O Diário de Bridget Jones


 Embora fosse uma versão nada disfarçada de “Emma”, de Jane Austen, o livro de Helen Fielding tornou-se um espetacular best-seller ao redor do mundo, capturando a atenção do público feminino que encantou-se com a trama divertida e adocicada dos encontros e desencontros amorosos da pra lá de desengonçada Bridget Jones –protagonista esta que, em sua imperfeição declarada e em seus tropeços diversos e constrangedores proporcionava uma poderosa identificação em seu público alvo.

Objeto de enorme atenção por parte de seu fã-clube, a adaptação cinematográfica capitaneada por Sharon Maguire resolveu a difícil tarefa de escalar uma protagonista perfeita com uma opção audaciosa: A texana Renée Zelwegger que, devido ao fato de ser norte-americana e não inglesa como a personagem, suscitou inicialmente protestos das fãs.

Na trama, a inglesa Bridget Jones enfrenta em seu dia-a-dia todos os contratempos típicos de uma mulher moderna: suas brigas com a balança, a competitiva vida profissional, a atrapalhada busca por um amor, ou só alguém para contornar a solidão, as implicâncias da mãe ao ver sua filha solteira aos 30 anos, etc. Bridget registra tudo em seu diário, inclusive seu novo "affair", que vem a ser justamente seu patrão (Hugh Grant, tão engraçado quanto cafajeste), e ainda o aparecimento de um certo, e inconveniente, Sr. Darcy (o ótimo Colin Firth, apenas iniciando sua jornada como astro e intérprete reconhecido).

Ao tentar lidar com os problemas corriqueiros, Bridget deixa-se levar por sua afobação e tira conclusões estapafúrdias que a levam às maiores confusões.

Apesar do reclame das fãs, o filme de Sharon Maguire muito se beneficia da impagável composição de Reneé Zelwegger que cria uma protagonista impecavelmente inglesa (seu sotaque é perfeito) e toda complicada, carregando o filme nas costas sem sentir seu peso –não à toa, ela foi merecidamente indicada ao Oscar 2002 de Melhor Atriz, perdendo a estatueta para Halle Berry.

Essa percepção do público à escolha do elenco –algo que, por vezes, remete a uma característica do cinema inglês –se reflete também no papel de Darcy, no qual  fato de Colin Firth na época ser lembrado tão somente pelo personagem algo vilanesco de “O Paciente Inglês”, leva a plateia a presunções equivocadas sobre ele; algo que, definitivamente corresponde às expectativas almejadas pela produção.

Tão emblemático e estruturalmente certeiro “O Diário de Bridget Jones” é para o gênero da comédia romântica ao qual ele se insere que ele próprio serviu de exemplo a um estudo feito anos depois, onde pesquisadores chegaram à conclusão que o consumo excessivo dessas obras pelo público (certamente, o feminino em especial) era bastante prejudicial aos relacionamentos: A realidade de uma relação à dois, afinal, passa longe do romantismo formulaico e da idealização que define esses trabalhos em geral, e “O Diário de Bridget Jones” em particular.

Todavia, não há como negar a obra imensamente cativante aqui obtida: O sucesso –tanto literário quanto cinematográfico –levou à duas continuações que (ao menos, no cinema) foram “Bridget Jones-No Limite da Razão” e “O Bebê de Bridget Jones”.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

1917

“No céu ou no inferno, não importa o caminho. Viaja mais rápido aquele que viaja sozinho”
Não resta dúvida de que há um dado muito pessoal na missão do soldado Blake (Dean-Charles Chapman) de levar uma mensagem a um oficial nos postos avançados para que interrompa um ataque imimente, pois o inimigo já lhes preparou uma armadilha –o irmão mais velho de Blake serve naquele mesmo regimento e é uma das inúmeras vidas que o sucesso de sua missão poderá salvar.
Instruído a escolher um companheiro, Blake não titubeia ao optar pelo Cabo Schofield (o ótimo George MacKay, de “Capitão Fantástico”), o protagonista de fato do filme, ao lado de quem deverá atravessar toda a chamada Terra de Ninguém –todo o trecho desolado, lamaçento, vasto e altamente perigoso que separava as duas trincheiras inimigas, e no qual toda sorte de perigos poderia acometer a qualquer desavisado.
Assim, em linhas gerais e com uma simplicidade que lhe confere ainda mais poder, se constrói este épico de guerra do diretor Sam Mendes, realizado a partir de experiências que seu avô, Alfred H. Mendes (a quem o filme é dedicado), vivenciou durante a Primeira Guerra Mundial.
A trajetória como diretor de cinema de Mendes é curiosa: Ele começou no teatro para então estrear no cinema com o premiado “Beleza Americana”. Suas obras seguintes –“Estrada Para A Perdição”, “Soldado Anônimo” e “Foi Apenas Um Sonho” –revelaram sua versatilidade para temas de natureza introspectiva, seu apreço pelo drama humano e sua inspirada e diversificada experimentação com técnicas de filmagens.
Guardadas as devidas proporções, tudo isso nos leva à realização de “1917”.
Há nele, um pouco de tudo o que Sam Mendes tentou e testou como cineasta: Lá está o enfoque nas angústias pessoais dos soldados comuns; a experiência adquirida refletida em diversas técnicas cinematográficas empregadas com primazia; o conhecimento de ritmo e da relação entre a narrativa e as cenas de ação descobertas durante sua passagem na série “James Bond” (dos quais Mendes dirigiu o magistrial “007-Operação Skyfall” e o bom “007 Contra SPECTRE”); e seu incontornável apreço pelo teatro.
Sim! Pois, ainda que essencialmente cinematográfico, é de certa origem teatral a proposta que “1917” oferece ao público: Tal como “Birdman”, o trabalho de Mendes desenvolve sua história e todos os percalços impostos aos protagonistas por meio do que parece ser um único plano-sequência.
A diferença: Enquanto “Birdman”, ao versar sobre teatro, ambientava-se todo em um teatro de fato, Mendes põe em prática todos os anos de conhecimento técnico, seus e de sua equipe, para levar a câmera a acompanhar seus personagens ininterruptamente em cenas tidas até outro dia por impraticáveis.
Um avanço jamais sonhado por Alfred Hitchcock quando fez, nos mesmos termos, seu “Festim Diabólico”.
Ao contrário da grande maioria das experimentações com plano-sequências feitas até então –e que, em grande parte, se concentravam numa única grande cena e não em todo um filme –a obra de Mendes não tenta se restringir ao confinamento de um só ambiente, ou a uma encenação dialogada, nem cria subterfúgios para um filme mais loquaz e menos eletrizante: Ele abraça tudo o que significar ser um filme de guerra, com batalhas –algumas envolvendo até aviões! –cenas de ação, de tiroteio, de perseguição e muitos, muitos momentos de suspense.
Essa demonstração acachapante de perícia técnica só funciona porque Sam Mendes faz uma série de escolhas certeiras, confiando na própria percepção de espetáculo e intimismo –e no bom senso de saber discernir e administrar numa narrativa o começo de um e o final de outro –encontrando nos ombros do expressivo George MacKay um brilhante e admirável apoio, valendo-se de um desenho de som plenamente arrojado (onde a intensidade do silêncio é quebrada por tiros capazes de fazer pular da cadeira) e usando os predicados de uma direção de fotografia nunca menos que genial para compor uma das mais sensacionais experiências imersivas dos últimos anos.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Bons Costumes

A belíssima e interessante Jessica Biel diminuiu consideravelmente seu ritmo de trabalho após o casamento com o ator e cantor Justin Timberlake, uma pena já que em ocasionais obras como este “Bons Costumes”, ela se mostra luminosa.
Diretor do cult “Priscilla-A Rainha do Deserto”, o australiano Stephan Elliott, ao adaptar uma peça de Noel Coward, compõe uma obra tão rara e refinada para os padrões de hoje que causa completo mistério a sua ausência entre os indicados ao Oscar do ano de seu lançamento.
Em meados da década de 1930, o jovem inglês John (Ben Barnes, de “Crônicas de Nárnia-O Príncipe Caspian”) chega à aristocrática propriedade de sua família para apresentar sua imprevista esposa, a norte-americana Larita (Jessica Biel, sensacional).
Passado o choque inicial, Larita se descobre num ninho de cobras: As duas irmãs de John (Katherine Parkinson e Kimberley Nixon), obtusas em relação ao amor e à vida, vão gradativamente nutrindo cada vez mais antipatia pela cunhada. Mas, nada se compara à sogra; arredia, esnobe e prepotente Veronica (Kristin Scott Thomas, impecável) procura abertamente em cada detalhe, cada gesto, cada situação, justificativa para hostilizar a nora –e, não raro, meios para manipular o tolo e imaturo John para se manter conivente nesse seu jogo de rancor.
Alheio e desiludido à todas essas picuinhas desde os aborrecimentos acarretados com a guerra, o sogro Jim (Colin Firth, sempre fabuloso) por sua vez passa a admirar profundamente a maneira astuta, desprendida e sagaz com que Larita busca se desvencilhar as armadilhas domésticas que armam em seu caminho.
Tanto a verve do texto quanto o modo com o qual no filme ele é mantido são improváveis no circuito comercial da atualidade; o que só lhe enfatiza ainda mais o valor.
O diretor Stephan Elliott prima por um requinte e uma elegância nos diálogos e na narrativa que evidenciam a maestria com que o elenco é conduzido, vislumbrando detalhes e minúcias que pontuam sua comédia de costumes com formidável riqueza e loquacidade. A cada nova circunstância, a cada nova ocasião ele intensifica seu ritmo, elabora ainda mais a acidez de sua farsa, torna ainda mais contundente suas farpas afiadas, levando tudo num crescendo divertido, envolvente e espetacular.
Uma primorosa fogueira das vaidades aristocratas que não poupa ninguém de suas chamas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Um Golpe Perfeito


Refilmagem de “Como Possuir Lissu”, que tinha o atrativo de reunir em cena os astros Michael Caine e Shirley MacLaine, este “Um Golpe Perfeito”, dirigido por Michael Hoffman (diretor de “O Outro Lado da Nobreza”, “Um Dia Especial” ou “A Última Estação”, filmes distintos sem maiores elos estilísticos), encontra seu maior trunfo no roteiro assinado pelos Irmãos Coen –a estrutura narrativa cheia de vitalidade e criatividade, marcada por situações de ácida observação e humor negro só não é melhor porque deixa no ar a promessa de uma produção imperdível caso eles tivessem também dirigido o material.
Se “Como Possuir Lissu” contrapunha o charme encantador de Shirley MacLaine e um timing cômico absurdamente perfeito revelado por Michael Caine, “Um Golpe Perfeito” os substitui por Cameron Diaz e Colin Firth.
É injusto comparar o carisma intocado de astros do passado –vistos por muitos, às vezes, com razão, como ‘monstros sagrados’ –com o que os astros de hoje podem fazer (daí a situação tão complicada de refilmagens em geral), mas, há de se reconhecer os acertos que aqui se sucedem.
Sex-symbol estonteante nos anos 1990, e ainda uma bela mulher nos anos 2000, Cameron Diaz espertamente compensa a desfavorável comparação com os atributos de MacLaine entregando uma ótima atuação; enquanto Colin Firth contribui com seu minimalismo, sua fleuma britânica e seu talento inquestionável para dar vida à Harry Deane, um desprezado especialista em arte a serviço do prepotente e arrogante Lionel Shabandar (cuja intratabilidade o maravilhoso Alan Rickman tira de letra).
Lionel tem uma acarinhada coleção de arte, da qual a menina dos olhos vem a ser “Montes de Feno Ao Amanhecer”, de Monet. Harry sabe, portanto, ser uma espécie de meta para Lionel obter assim o quadro-gêmeo, “Montes de Feno Ao Entardecer”, pintado pelo mesmo Monet.
Daí, no plano que ele engendra para passar a perna em seu detestável empregador, a habilidade de seu grande amigo Major (Tom Courtenay, o ótimo narrador de toda a trama) em falsificar obras de arte de modo impecável e a presença sedutora da texana PJ Puznowski (Cameron) para se passar pela proprietária de tal obra.
Isso, claro, na ideia fluente, certeira e sem atropelos que passa pela mente de Harry Deane minutos antes dele propor tal estratagema à PJ em um bar do Texas –no roteiro hábil dos Irmãos Coen, essa cena (uma espécie de ‘Expectativa X Realidade’ ao contrapor essa passagem a todo o resto do filme) ganha uma sequência genial, que surpreende o expectador além de criar um inusitado background para a personagem de Cameron –que não diz um palavra –quando ela por fim fala na ‘realidade’ seu sotaque texano pronunciado (uma característica que agrada bastante os Coen) resulta hilário!
A partir daí o mesmo plano que vislumbramos ao lado de Harry naquela notável cena segue com todos os imprevistos que, em sua ingenuidade disfarçada de divertida convicção, ele não antecipou, ressaltando a desenvoltura de Cameron para pairar entre o sensualmente adorável e o funcionalmente engraçado bem como a capacidade surpreendente (e até então não aproveitada) de Colin Firth para a comédia.
Em algum momento do tortuoso e imperfeito golpe que eles aplicam aos improvisos, vai surgindo uma química que flerta com a possibilidade do romance, entretanto, o roteiro dos Coen é bom demais para permitir que o filme se refugie nessa perspectiva redundante e “Um Golpe Perfeito” segue notável até a última cena, um desenlace algo em aberto (Harry e PJ, afinal, não terminaram juntos e Shabandar é um ótimo vilão em potencial para um segundo filme) que sugere a possibilidade de uma continuação que jamais veio.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Moça Com Brinco de Pérola


Discussão a um só tempo interessante e superficial sobre os meandros mesmerizantes da arte, “Moça Com Brinco de Pérola”, em sua relevância artística, corresponde àquela conversa ocasional que se tem com um amigo no balcão de um café: Nos argumentos dispostos pode até haver pretensões de inteligência e de um senso de observação de fato, mas pela simples falta de seriedade dedicada, nada mais é do que passatempo.
No século retrasado no auge de seu reconhecimento artístico o metódico pintor holandês Veemer (Colin Firth, numa caracterização algo cabotina) contrata como criada uma jovem de origem humilde. Logo identifica nela uma beleza incomum e uma presença quase que magnética. Intrigado, ele a acolhe como sua assistente particular em seu atelier e passa a usá-la como modelo dando início a uma complexa relação de amor e atração platônicos, que não passam despercebidos aos olhos perplexos e magoados de sua mulher (Miranda Richardson).
Essa relação originará o quadro que é tido como a obra-prima de Veemer, "A Moça Com Brinco de Pérola", conhecido como a "Mona Lisa" holandesa.
A despeito do detalhe indisfarçável de que o par central não possui muita química –e nesse sentido, os rumos austeros e realistas tomados pela trama acabam sendo apropriados –este filme romântico de enorme beleza visual conduzido pelo diretor Peter Webber (que depois realizaria o também satisfatória “Hannibal-A Origem do Mal”) conta com a inebriante beleza de Scarlett Johansonn (no mesmo ano em que foi revelada no fabuloso “Encontros e Desencontros”), perfeita no enigmático e importante papel da criada Grete.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Verdade Nua


Inspirado no que alguns dizem tratar-se de eventos que remetem à dupla Jerry Lewis e Dean Martin (cuja caracterização de Kevin Bacon e Colin Firth, ambos excelentes, guarda aspetos tantos deliberadamente estudados como propositadamente diferenciados), o diretor canadense Atom Egoyan compõe uma charmosa narrativa a partir de cenas entrecruzadas cronologicamente e múltiplas narrações, bem ao seu gosto fragmentado e elusivo.
“Where The Truth Lies” –a ironia contraditória do título original também já dá sinais da natureza reflexiva do filme –começa com Karen O’ Connor (Alison Lohman), uma jovem jornalista especulando sobre a possibilidade de escrever uma espécie de biografia sobre a celebradíssima dupla de humoristas Lanny Morris (Kevin Bacon) e Vince Collins (Colin Firth). Juntos, eles fizeram grande sucesso no showbizz, inclusive apresentando por muitos anos o indefectível Teleton –campanha televisiva profundamente relacionada aos valores familiares e à caridade.
Ao colher uma série de depoimentos, ela esbarra num nebuloso caso, ocorrido a quinze anos, no auge da carreira dos dois, que, por razões nunca antes esclarecidas, resultou no irreversível rompimento deles, em um punhado de suspeitas e acusações sórdidas, e sobretudo, na morte sem solução (homicídio ou suicídio?) de uma jovem camareira.
Quando chega no ponto em que a verdade do que se passou se descortina para ela, Karen (que num dado momento envolve-se numa sensacional cena erótica!), contudo, já singrou um certo ponto de não retorno referente às posturas morais que parecem separar as pessoas comuns (entre os quais ela antes se incluía) e os indivíduos de postura, índole e caráter volúvel que habitam aquele pernicioso mundo de fama.
Se a história –carregada de facetas de film noir onde os meandros dos acontecimentos servem, em sua riqueza de detalhes, à elucidação da trama (ou à complicação caudalosa dela) –já não fosse suficientemente complexa e elaborada, o diretor Egoyan exercita também uma veia mais pop sem deixar de lado seu fascínio pelas impressões metafísicas de uma narrativa intrincada, com elementos que vão se somando extraídos de diferentes pontos ao longo de uma cronologia que se embaralha e de eventos narrados numa montagem simultânea que se revela desafiadora.
Sua experiência com esse tipo de enredo jamais deixa que o filme se torne confuso ou pedante –naquela que é sua mais salutar característica –e ainda permite abrir espaço para reflexões que só um grande realizador pode suscitar: Até que ponto a busca pela verdade é um objetivo de fato válido? Qual é a dicotomia (explorada a fundo pelo cinema noir mais nunca realmente esclarecida) entre a fama, a promiscuidade e a mentira? Qual a diferença entre os comportamentos dúbios que nos tornam excluídos e aqueles que nos tornam especiais?
Um ótimo filme visto com certa obscuridade já que aquilo que o faz charmoso (sua narrativa entrecortada, fragmentada e auto-consciente) é justamente o que, para algumas platéias, o torna melindroso de se compreender.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Kingsman - O Círculo Dourado

Durante algum tempo, o diretor Matthew Vaughn evitou envolver-se em continuações. Embora tenha entregue filmes extremamente bem-sucedidos, ele não esteve na continuação do ótimo “Kick Ass-Quebrando Tudo”, nem na seqüência do igualmente ótimo “X-Men Primeira Classe”. Essa postura só veio a mudar quando ele resolveu encarar também este “Círculo Dourado” que vem a dar seqüência ao seu divertidíssimo “Kingsman-Serviço Secreto” –talvez, influenciado pela queda de qualidade ocasionada nas continuações de suas próprias obras, em especial, em “Kick Ass 2”.
Como em “Kick Ass”, “Kingsman” partia de uma história em quadrinhos escrita por Mark Millar. Uma redefinição dos conceitos tradicionais de agente secreto ao estilo James Bond, mas transfigurada com elementos muito atuais, como a avançada tecnologia, a ultra-violência, além do cinismo e do sarcasmo que tão bem definem os jovens.
Na continuação, Vaughn não faz a menor questão de fugir desses elementos: “Círculo Dourado”, em todos os aspectos possíveis, dá continuidade natural ao que foi visto em “Serviço Secreto”: Eggsy (o ótimo Taron Egerton) evoluiu de agente em treinamento (no primeiro filme) para um dos poucos agentes da Kingsman em atividade (lembre-se que a maioria morreu!). Seu rival durante o treinamento, o almofadinha Charlie Hesketh (Edward Holcroft) retorna como um dos vilões e surge, já na primeira cena, para dar dor de cabeça ao herói –uma cena insana e eletrizante de ação, diga-se, daquelas que poucos realizadores, como Vaughn, são capazes de orquestrar.
Também a princesa Tilde (Hanna Alström), vista brevemente no filme –e num rápido take, já no final, surpreendente e revelador –agora aparece aqui como namorada séria de Eggsy; essa manobra provavelmente foi uma forma de responder a algumas críticas que apontaram o primeiro filme como excessivamente machista (embora a objetificação da mulher seja uma característica constante também neste segundo filme).
Já confortável na função de agente da Kingsman –uma organização inglesa de espionagem avançada –Eggsy descobre uma ameaça tremenda na forma de Poppy Adams (Julianne Morre, se esbaldando no papel), uma mega-traficante de drogas profundamente frustrada com o anonimato que sua ocupação impõe ao seu serviço –que ele sabe executar com sucesso inquestionável. Disposta a obter o reconhecimento como uma das mulheres mais poderosas do mundo, ela engendra um plano para chantagear o presidente dos EUA (uma ponta de Bruce Greenwood cheia de crítica e acidez) obrigando-o a legalizar todas as drogas.
Psicótica e implacável, ela trata de tirar de seu caminho os possíveis obstáculos, no caso, os agentes da Kingsman que são dizimados num atentado destruidor –e, diferente do filme anterior, agora todos morrem! Todos, não: Apenas Eggsy resta vivo (ele estava, por acaso, jantando com os pais da namorada!) e o analista Merlin (Mark Strong) –isso obriga os dois a procurar apoio e recursos entre os Stateman, a contraparte americana da Kingsman, capitaneados por Champ (Jeff Bridges) e que incluem Ginger (Halle Berry), Uísque (Pedro Pascal, de “A Grande Muralha”) e Tequila (Channin Tatum).
Junto com os aliados da Stateman vem também uma revelação: Gallahad (Colin Firth, sempre digno), o mentor de Eggsy morto no filme anterior está vivo! –e infelizmente, graças ao desleixo do departamento de marketing essa revelação não é surpresa pra ninguém já que o personagem aparece em todos os trailers e pôsteres.
Talvez a maior surpresa deste novo “Kingsman” seja assim a honorável e hilária ponta de Elton John.
Há muito da competência de Matthew Vaughn trabalhando em prol da diversão, mas ele não escapa aqui de inúmeras armadilhas oriundas justamente –vejam a ironia! –do fato de estar fazendo aquilo qual até então tentou fugir: Uma continuação.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O Paciente Inglês

Numa das ironias existentes na prosa literária de Michael Ondaatje em seu aclamado livro, o ‘paciente inglês’ do título acaba sendo húngaro (!), mas ao verter o quê seria a espinha dorsal da narrativa –tida por inadaptável –para o cinema, o diretor Anthony Minghella priorizou menos os aspectos de desafiador atrevimento estrutural e mais o elemento que, em seu cinema, sempre ganhou destaque primordial, o amor.
É, portanto, um romance que ele extrai daquele livro melindroso, cheio de teorias e de possibilidades, se circunstâncias imaginadas e não concretizadas e de uma lógica mais abstrata do que cartesiana.
É o fim da Segunda Guerra Mundial. Um paciente não identificado e completamente desfigurado por queimaduras aparece num hospital militar próximo da Itália. Uma enfermeira canadense (Juliette Binoche, maravilhosa) se compadece dele e decide abandonar seu comboio para cuidar dele até seus últimos dias de vida num mosteiro da Toscana.
Aos dois juntam-se, mais tarde, uma dupla de soldados especializados em desativar minas terrestres (Kevin Whately e Naveen Andrews, que depois participou da série “Lost”) e um fugitivo misterioso (Willem Dafoe).
Paralelamente, a trágica história do assim chamado paciente inglês vai se desenhando na tela, e ficamos sabendo que ele foi um conde húngaro chamado Lazlo Almasy (Ralph Fiennes, um herói romântico brilhantemente distante da sisudez do oficial nazista de “A Lista de Schindler”). Em suas viagens de natureza cultural e intelectual por regiões do Marrocos, Lazlo se vê na companhia de um grupo obsequioso de aristocratas, entre eles, Katharine (Kristin Scott Thomas, uma escolha inesperada revelando-se linda, vulnerável e cativante), esposa de um milionário britânico (Colin Firth). Lazlo se apaixona por Katharine, e esse caso de amor acaba tendo oportunidade de se concretizar durante uma solitária empreitada a dois pelo deserto. Será o desejo cada vez mais irreprimível dos amantes em ficarem juntos e as gradativas constatações do marido de Katharine acerca do adultério que levarão ao desenlace trágico que conduzirá Lazlo quase a morte e àquele leito na Toscana.
Produzido de forma independente pelo veterano Saul Zaentz (que tem em seu currículo “Um Estranho No Ninho”, “Amadeus” e “AInsustentável Leveza do Ser”, além da animação maldita de Ralph Baski para “O Senhor dos Anéis”), a realização do diretor Minghella busca referências essenciais em obras de altíssimo nível cinematográfico, principalmente os épicos de David Lean como “Lawrence da Arábia” e os de Bernardo Bertolucci, em especial “O Céu Que Nos Protege”. Essa poderosa herança visual é colocada a serviço de uma história isenta da linearidade, narrada através de lembranças e flashbacks que embaralham os fatos e dão um novo viés a eventos cuja percepção seria diferente se contados em ordem cronológica.
O resultado disso tudo terminou agraciado com nove Oscars na cerimônia de 1997.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Shakespeare Apaixonado

O trabalho do diretor John Madden –de um estilo que não se define com facilidade em meio aos filmes que realizou, tão díspares quanto este, o drama “Ethan Frome-Um Amor Para Sempre”, a comédia “O Exótico Hotel Marigold” e sua continuação, o thriller de espionagem “A Grande Mentira” e o suspense político “Armas Na Mesa” –ao que parece caiu nas graças da Academia de Artes Cinematográficas ávida que ela estava por enfim ver um filme que biografasse o tão aclamado bardo William Shakespeare.
Só isso mesmo para explicar o fato desta produção (que a rigor é uma mera comédia romântica de época) vencer o Oscar de Melhor Filme numa disputa que incluía o imbatível “O Resgate do Soldado Ryan”. Claro que, avaliando com mais calma, outro motivo aparece: Um dos produtores de “Shakespeare Apaixonado” era Harvey Weinstein que, durante anos, foi determinante para quem ganhava ou perdia as premiações do Oscar, até ele ser completamente afastado da indústria por acusações recentes de assédio sexual.
No filme mesmo, pouca explicação se encontra para as sete estatuetas que ele ganhou: Na trama que se desenrola por meio de farsa e galhofa conhecemos o jovem Shakespeare (Joseph Fiennes, irmão de Ralph que apesar dos esforços não vingou), um rapaz inspirado pela vida boêmia da Inglaterra do século XVI, a escrever peças de teatro para o povo, sua grande fonte de diversão.
O lugar mais freqüentado pela plebe para assistir as histórias que os envolviam era o teatro “The Rose”, de propriedade do endividado Hemslowe (Geoffrey Rush). Com os credores prestes a lhe arrancar o couro (literalmente!), ele deposita suas esperanças na próxima peça escrita por Shakespeare cujos trabalhos costumam ter boa aceitação de público, embora o rapaz esteja passando por uma crise criativa.
A outra peça do tabuleiro é a jovem Viola (Gwyneth Paltrow que absurdamente levou o Oscar de Melhor Atriz tendo como concorrentes Cate Blanchett, por “Elizabeth”, e Fernanda Montenegro, por “Central do Brasil”), filha de pai rico e com o casamento já arranjado com o Lorde Wessex (Colin Firth, numa época em que só era escolhido para papéis vilanescos). Viola, que leva o nome da mesma protagonista de Shakespeare para a farsa “Noite de Reis” e aqui, também ela pratica sua própria farsa, deseja conhecer o mundo antes de restringir a vida à um matrimônio opressor. Ela quer conhecer as peças de teatro encenadas no vilarejo e, se possível diante de seu maior atrevimento, atuar nelas –naquela época, a atuação era estritamente proibida às mulheres restando aos homens fazer os papéis femininos também.
Viola, assim, se disfarça de menino para participar dos ensaios no “The Rose” onde Shakespeare corre para entregar sua peça “Romeu & Ethel, A Filha do Pirata”. Em algum momento, o escritor, porém, perceberá que aquele menino tem uma feminilidade impossível de ser encenada e descobrirá a farsa de Viola –e por ela se apaixonará.
Tentando dar prosseguimento a esse romance da forma como podem e com uma data-limite certamente estipulada –o casamento de Viola e a apresentação da peça são marcados para o mesmo dia! –os dois amantes vêem sua história de amor ganhar a tumultuada rotina do teatro como pano de fundo enquanto os aspectos eufóricos, angustiantes e até frustrantes desse amor vão servindo de combustível para que Shakespeare transforme a peça na obra que, por fim, será chamada de “Romeu & Julieta”.
Certamente gracioso visivelmente feito com o propósito despretensioso de divertir e completamente sem compromissos com qualquer realidade que tivesse envolvido a vida de Shakespeare ou a criação de “Romeu e Julieta”, este “Shakespeare Apaixonado” até seria um filme interessante e simpático não tivesse ele sido superestimado a ponto de protagonizar a premiação mais eclética e questionável de toda a história recente do Oscar.

Hoje ele é visto como um filme mediano que tirou prêmios significativos de grandes obras que mereciam mais.

sábado, 14 de outubro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2011

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
No sábado anterior, eu comentei que a cerimônia de 2012 foi a revelação de Jessica Chastain, pois então, a cerimônia de 2011 foi, sem dúvidas, a revelação de Jennifer Lawrence, inclusive, quem se recordar das imagens da ocasião lembrará que ela estava linda em um vestido vermelho. Mas, embora no filme “Inverno da Alma” trouxesse uma interpretação 100 % digna do prêmio (e na opinião de muitos, merecedora da vitória), desde o início era claro o imbatível favoritismo de Natalie Portman.
Na categoria principal, achei particularmente frustrante ver uma das obras mais brilhantes de David Fincher perder para um filme tradicional, antiquado e redundante, quiçá o mais fraco dentre todos os indicados. Um dos grandes lapsos da história do Oscar.
Menos mal que as categorias técnicas foram generosas com os dois grandes filmes do ano: “A Rede Social” e “A Origem”.

MELHOR FILME
"O Discurso do Rei"

MELHOR DIREÇÃO
"O Discurso do Rei", Tom Hooper

MELHOR ATRIZ
Natalie Portman, "Cisne Negro"

MELHOR ATOR
Colin Firth, "O Discurso do Rei"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Melissa Leo, "O Vencedor"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christian Bale, "O Vencedor"

MELHOR FOTOGRAFIA
"A Origem"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Trabalho Interno"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Strangers No More"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Em Um Mundo Melhor" (Dinamarca)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"A Origem"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"A Origem"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Lobisomem"

MELHOR FIGURINO
"Alice No País das Maravilhas"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"A Origem"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

MELHOR TRILHA SONORA
“A Rede Social"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"We Belong Together", de "Toy Story 3"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"O Discurso do Rei"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"A Rede Social"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Toy Story 3"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Lost Thing"

MELHOR EDIÇÃO
"A Rede Social"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"God Of Love”

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Kingsman - Serviço Secreto

Em “X-Men Primeira Classe” já era possível perceber o imenso apreço do diretor Matthew Vaughn pelos filmes antigos de 007, em especial os realizados nos anos 1960.
Com “Kingsman”, a adaptação de mais uma história em quadrinhos (escrita por Mark Millar, que também escreveu “Kick Ass” outro sucesso de Vaughn), ele conseguiu finalmente realizar um filme de aventura e espionagem de fato. E é com a empolgação genuína de alguém que tem um sonho realizado que Vaughn narra a surpreendente e divertida história de Eggsy (o ótimo e carismático Taron Egerton) um jovem nascido no subúrbio de Londres –e, como tal, dotado de todos os maneirismos, vestimentas e aspectos rudes que definem moradores dessas regiões.
Durante uma das muitas encrencas em que costuma se meter ao lado dos amigos inconseqüentes, Eggsy vai preso e, por um acaso, toma conta com Harry Hart (Colin Firth saindo-se magnificamente bem seu primeiro filme de ação) que, disposto a honrar uma dívida, resolve apadrinhar Eggsy e lhe faz uma revelação: A de que seu pai, morto quando ainda era criança, pertenceu na realidade a uma ordem ultra-secreta de espiões treinados chamada Kingsman.
Orientado por Harry –cujo codinome é Galahad –e disposto a seguir os passos do pai, Eggsy inicia seu árduo treinamento seletivo, ao mesmo tempo em que surge um curioso vilão megalomaníaco (Samuel L. Jackson, numa composição hilária e inspirada) pondo em prática um plano mirabolante que ameaça a humanidade e desafia os agentes da Kingsman.
A direção de Mathew Vaughn demonstra o mesmo senso impecável de ritmo que ele ostentou em "Kick Ass" e "X-Men Primeira Classe" realizando uma saborosa e eletrizante homenagem aos filmes antigos de espionagem que jamais exagera em sua reverência: É, na realidade, um produto vibrante e moderno, agregando com habilidade e naturalidade elementos emergentes do cinema contemporâneo (como ultra-violência, incorreção política e peculiaridades narrativas mais modernas) à uma premissa característica dos filmes de James Bond –funcionando quase como uma aula de como fazer um 007 divertido, fidedigno e com qualidade.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Antes de Dormir

A trama baseada no livro de S.J. Watson –e extremamente similar ao argumento do genial “Amnésia”, de Christopher Nolan –é um verdadeiro quebra-cabeças subjetivo, seja para a protagonista (Nicole Kidman, competente como sempre), seja para o expectador.
Quando o filme começa, Christine (Nicole) segue, sem saber, um ritual diário: Sempre que acorda, seu dedicado marido Ben (Colin Firth) lhe esclarece as circunstâncias nas quais viveu nos últimos anos –Christine tem perda de memória recente. Toda vez que vai dormir ela esquece tudo o que se passou, mantendo somente a lembrança de seus vinte anos de idade. Tudo o mais que ocorreu nas duas décadas seguintes ela não foi capaz de reter (!), graças a um violento ataque que sofreu quando jovem –e a respeito do qual ninguém sabe coisa alguma, exceto Christine, justamente na área inacessível de memória que perdeu.
Entretanto, além de Ben, há outra pessoa na vida de Christine, seu terapeuta Dr. Nash (Mark Strong), cuja existência Ben aparentemente desconhece. Ele orienta Christine a registrar seu dia-a-dia numa câmera e afirma estar com ela em meio à um tratamento para recuperar suas lembranças.
A dinâmica que se estabelece a partir daí –a protagonista perplexa com sucessivas pistas que perde e que recebe acerca de sua vida –molda uma trama pontuada por consecutivas revelações, e personagens que se restabelecem continuamente de outras formas, acompanhando o ritmo de algumas reviravoltas e aparecendo com outras índoles conforme sugere a história –e a participação de Colin Firth, a fim de preservar e dar certa credibilidade à tais revelações, é fundamental.
Dirigido com louvável objetividade e economia proposital de recursos pelo outrora roteirista Rowan Joffe (não confundir com Rolland Joffé, o diretor de “A Missão”), este trabalho entrega uma imensa paixão pelas engrenagens genéricas de suspense da parte de seu realizador. Ele não escapa, por isso mesmo, da comparação com obras maiúsculas como o já citado “Amnésia”, e outras que lhe são influências fortes, como “Uma Clarão Nas Trevas” ou “Vestida Para Matar”, de Brian De Palma.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Magia Ao Luar

Mais ou menos como no celebrado "Meia Noite Em Paris", Woody Allen usa de expedientes mágicos para contar esta história, lá no fundo, uma reflexão pessoal sobre arte e fé.
A verdade é que este é um dos filmes nos quais ele adotou uma espécie de fórmula: Afastar-se um pouco (mas, só um pouco) de sua amada Nova York, para então, procurar novas inspirações e novos temas que tivessem por ambientação e influência outras cidades ao redor do mundo, com todas as referências cinematográficas, artísticas e pessoais que essas cidades traziam em sua bagagem cultural e afetiva.
Desse princípio, surgiram obras, se não geniais, ao menos notáveis e graciosas como o já citado “Meia Noite Em Paris” –talvez, o melhor dessa safra –o hitchcockiano “Match Point”, o lascivo “Vicky Cristina Barcelona”, o exultante e macarrônico “Para Roma, Com Amor” e outros.
O local aqui escolhido é a encantadora e ensolarada Florença, na Itália, a lembrar a ambientação de tantas obras agraciadas de Eric Rohmer; e tal e qual o francês, Allen –num gesto de referência, talvez –pontuada seu filme com diálogos de natureza questionadora acerca da arte, das crenças e dos valores universais.
Mas, Allen não deixa de registrar tudo com um humor irresistível e, aqui, notadamente leve.
Stanley (Colin Firth, no topo da lista dos melhores atores a incorporar um alter-ego de Woody Allen), ele próprio um celebrado ilusionista, mágico dos palcos especializa-se em desmascarar charlatões que se aproveitam da ingenuidade alheia, menos por altruísmo e mais por um niilismo irreprimível (e muitas vezes inconveniente) que o norteia.
Chamado ao interior da Itália, em Florença, para socorrer uma família de ricaços que se encantou com uma suposta médium (a apaixonante e luminosa Emma Stone), ele se surpreende com a espontaneidade e autenticidade da jovem que foi desmascarar.
Diante das surpreendentes capacidades dela, ele começa a questionar seus próprios conceitos.
Aqui mais gracioso do que ferino, Allen se vale de um elenco que normalmente só grandes diretores como ele são capazes de reunir: Sua obra é agraciada com os talentos excepcionais de Colin Firth, Emma Stone e dos ótimos Simon McBurney, Márcia Gay Harden e Jacki Weaver.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O Bebê de Bridget Jones

As circunstâncias que cercam este filme dizem muito a respeito do quão complicada pode ser a relação entre uma obra de cultura pop e seu público-alvo (tão mais complicada quando esse público se mostra protecionista em relação aos personagens, e rabugento diante de opções plausíveis de roteiro).
O primeiro filme desta agora trilogia, “O Diário de Bridget Jones”, dirigido por Sharon Maguire, adaptado do romance de Helen Fielding (por sua vez, nítida e declaradamente inspirado na obra “Emma”, de Jane Austen) e lançado em 2001, foi um sucesso em inúmeras instâncias. Talvez, a melhor comédia romântica feita até hoje, acompanhava a dura, constrangedora e tumultuada rotina da moça inglesa Bridget Jones, às voltas com toda a sorte de problemas da mulher moderna: As brigas com a balança; a competitividade profissional; os dilemas entre a vida amorosa e a disponibilidade de ser solteira; as cobranças dos familiares.
Tudo isso servia de palco para a interpretação brilhantemente modulada e rica em timing que a texana Renée Zellweger entregou, mostrando-se mais que perfeita para o papel.
A continuação veio alguns anos depois, adaptando também a continuação literária: “Bridget Jones-No Limite da Razão”, dirigido desta vez por Beeban Kidron, era menos memorável, menos divertido, mais rasteiro, porém ainda satisfatório.
Algum tempo se passou com os fãs (ou melhor, as fãs!) aguardando ansiosamente um terceiro capítulo (visto que, hoje em dia, tudo vira trilogia) e, alguns anos atrás, a escritora enfim lançou o terceiro livro, “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto”... com resultados catastróficos!!!
As fãs, apaixonadas pela personagem de Bridget Jones e, sobretudo, pela sua cara metade nos dois capítulos anteriores, o nobre e taciturno Sr. Darcy (que nos filmes foi vivido brilhantemente por Colin Firth), ficaram revoltadas com o terceiro livro onde Bridget é uma viúva (leia-se, Darcy morre!) e acaba tendo que encarar uma nova forma de rotina e competitividade trabalhista (lembrem-se, uma década se passou!), além de, é claro, retomar a antiga e complicada vida afetiva de mulher solteira –e assim ela conhece um rapaz mais jovem com quem inicia um relutante romance.
Tamanha foi a intensidade dessa revolta para com os rumos radicais tomados por esse livro que o estúdio da Universal (em parceria com a Working Title, produtora inglesa) decidiu não adaptá-lo ao realizar este terceiro filme.
Prova disso –e do esmero em resgatar o máximo de elementos do filme original –é que foi chamada a mesma diretora, Sharon Maguire que providenciou para que a ambientação, o tom, e a estrutura narrativa se mantivessem familiares aos fãs. A própria autora, Helen Fielding foi chamada para elaborar uma nova trama, condizente com as expectativas confortáveis do público, e pode-se dizer que, nesse irônico sentido, eles não decepcionaram: “O Bebê de Bridget Jones” preserva as características graciosas da personagem e embora não seja melhor do que o excelente filme de 2001 (que, diga-se, deu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz à sensacional Renée Zellweger), é bastante superior à sua continuação.
Agora, acompanhamos a sempre avoada Bridget Jones prestes a completar 43 anos, o quê apesar da estabilidade que obteve, ainda serve de pretexto para as cobranças de sua mãe (Gemma Jones). Já faz alguns anos que, sem maiores explicações, ela separou-se de Mark Darcy, ainda que eles sempre se encontrem em algumas ocasiões.
As complicações da vida de Bridget começam quando ela –em sua turbulenta tentativa de se manter romanticamente ativa –dorme com um desconhecido, Jack (Patrick Dempsey, cujo personagem toma o lugar de Hugh Grant que não voltou para esta continuação) e, poucos dias depois, tem uma recaída com o próprio Darcy. Para descobrir então que engravidou!
Agora, sem ter idéia de quem exatamente seja o pai, a normalmente atrapalhada Bridget deve lidar com a delicada situação (como e quando contar para eles?!), além do fato complicado por si só de estar prestes a se tornar mãe –sua obstetra, só para constar, é interpretada de forma hilariante pela sempre fantástica Emma Thompson.
Engraçado, vibrante e cheio de simpatia, é um filme bem sucedido em resgatar aquela sensação bastante prazerosa que “O Diário de Bridget Jones” já trazia.
E essa, pode ter certeza, era a intenção dos envolvidos!