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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Elizabeth

Numa daquelas coincidências que volta e meia ocorre entre as produções comerciais norte-americanas, este brilhante “Elizabeth” foi lançado na mesma temporada que o romântico “Shakespeare Apaixonado” –com ele, tinha em comum o fato curioso de trazer a personagem da Rainha Elizabeth (que, naquele filme, tinha função mais coadjuvante e era vivida por Judi Dench), de ser, portanto, um filme de época e de trazer no elenco pelo menos dois astros que se repetiam: Em ambos aparecem Joseph Fiennes (irmão de Ralph Fiennes, protagonista lá, e um mero par romântico sem sal aqui) e Geoffrey Rush (coadjuvante inclusive indicado ao Oscar lá, e personagem fundamental –e sensacional –à trama aqui, e até mais merecedor ainda de uma indicação!).
Salvo esses detalhes um pouco constrangedores, os filmes são obras radicalmente diferentes.
Se “Shakespeare...” se debruça numa farsa graciosa e romântica, “Elizabeth” é um pulsante e arrebatador thriller de conspiração –que tem por peculiaridade se passar entre as ambientações arcaicas do século XVI.
Com seu reino assolado por lutas religiosas, Mary Tudor (Kathy Burke), então soberana da Inglaterra está morrendo.
Como seu pai o Rei Henrique IV não havia deixado um herdeiro homem, a sucessora mais próxima ao trono é a jovem Elizabeth (Cate Blanchett), filha da renegada Ana Bolena.
Embora os nobres ingleses não economizem maquinações para matá-la e impedi-la de subir ao trono, a morte de Mary Tudor acaba sendo tão inevitável quanto o reinado de Elizabeth.
Ela restabelece o protestantismo –religião na qual foi educada –e com isso conquista a inimizade do Papa (John Gielgud) que, ao excomungá-la, coloca a Inglaterra em rota de colisão com os beligerantes reinos católicos da França e da Espanha.
Dessa maneira, os primeiros anos de Elizabeth como rainha serão cercados de intrigas e conspirações perigosas que ameaçarão seriamente o povo da Inglaterra em geral, e a vida de sua monarca em particular. Ela precisará contar com a mente estratégica, o sangue frio e a crueldade implacável de Sir Francis Walsingham (Rush), o único em sua corte inteligente e incisivo o bastante para voltar a venalidade de seus conspiradores contra eles mesmos. Desses extenuantes embates palacianos, Elizabeth surgirá como uma rainha enérgica, lendária e inigualável.
Por meio deste Tour de Force cinematográfico, o diretor indiano Shekard Kapur (de “A Rainha Bandida”) molda uma sucessão impressionante de cenas antológicas cujo primor individual de cada uma cria uma colcha de imagens capturadas que constituem o básico de sua trama e conduzem o filme, levando novas percepções técnicas ao gênero das intrigas palacianas e emoldurando a magnífica presença da australiana Cate Blanchett, literalmente majestosa no papel que a revelou para Hollywood –e, pelo qual, de arrancada, ela já obteve uma indicação ao Oscar!

sábado, 20 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1997

Este foi um ano no qual a Academia deu inédita atenção às produções independentes: Elas dominaram as categorias com obras carregadas de propriedade e que passavam longe da prioridade comercial dos grandes estúdios.
Ainda assim, “O Paciente Inglês” –na época o mais caro filme independente da história –dominou as premiações com nove estatuetas.
Havia também um número recorde de ingleses nas mais diversas categorias, conseqüência de grandes trabalhos lançados naquele ano como “Trainspotting”, de Danny Boyle, ou “Hamlet”, de Kenneth Brannagh. O prêmio de Melhor Ator, entretanto, foi conquistado por um australiano; o excelente Geoffrey Rush. E o de Atriz Coadjuvante, por uma francesa; a maravilhosa Juliette Binoche.
Aos americanos restou as categorias de Melhor Atriz –que ficou com Frances McDormand –e a de Ator Coadjuvante –vencida por Cuba Gooding Jr. surpreendendo muita gente em uma categoria bastante disputada.

MELHOR FILME
"O Paciente Inglês"

MELHOR DIREÇÃO
"O Paciente Inglês", Anthony Minghella

MELHOR ATRIZ
Frances McDormand, "Fargo"

MELHOR ATOR
Geoffrey Rush, "Shine-Brilhante"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Juliette Binoche, "O Paciente Inglês"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Cuba Gooding Jr., "Jerry Maguire-A Grande Virada"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Paciente Inglês"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Quando Éramos Reis"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Breathing Lessons-The Life and Work of Mark O’ Brien"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Kolya-UmaLição de Amor" (República Tcheca)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"A Sombra e A Escuridão"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Independence Day"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Professor Aloprado"

MELHOR FIGURINO
"O Paciente Inglês"

MELHOR SOM
"O Paciente Inglês"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Paciente Inglês"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
“O Paciente Inglês"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
"Emma"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"You Must Love Me", de "Evita"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Fargo"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Paciente Inglês"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Quest"

MELHOR MONTAGEM
"O Paciente Inglês"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Dear Diary”

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Shakespeare Apaixonado

O trabalho do diretor John Madden –de um estilo que não se define com facilidade em meio aos filmes que realizou, tão díspares quanto este, o drama “Ethan Frome-Um Amor Para Sempre”, a comédia “O Exótico Hotel Marigold” e sua continuação, o thriller de espionagem “A Grande Mentira” e o suspense político “Armas Na Mesa” –ao que parece caiu nas graças da Academia de Artes Cinematográficas ávida que ela estava por enfim ver um filme que biografasse o tão aclamado bardo William Shakespeare.
Só isso mesmo para explicar o fato desta produção (que a rigor é uma mera comédia romântica de época) vencer o Oscar de Melhor Filme numa disputa que incluía o imbatível “O Resgate do Soldado Ryan”. Claro que, avaliando com mais calma, outro motivo aparece: Um dos produtores de “Shakespeare Apaixonado” era Harvey Weinstein que, durante anos, foi determinante para quem ganhava ou perdia as premiações do Oscar, até ele ser completamente afastado da indústria por acusações recentes de assédio sexual.
No filme mesmo, pouca explicação se encontra para as sete estatuetas que ele ganhou: Na trama que se desenrola por meio de farsa e galhofa conhecemos o jovem Shakespeare (Joseph Fiennes, irmão de Ralph que apesar dos esforços não vingou), um rapaz inspirado pela vida boêmia da Inglaterra do século XVI, a escrever peças de teatro para o povo, sua grande fonte de diversão.
O lugar mais freqüentado pela plebe para assistir as histórias que os envolviam era o teatro “The Rose”, de propriedade do endividado Hemslowe (Geoffrey Rush). Com os credores prestes a lhe arrancar o couro (literalmente!), ele deposita suas esperanças na próxima peça escrita por Shakespeare cujos trabalhos costumam ter boa aceitação de público, embora o rapaz esteja passando por uma crise criativa.
A outra peça do tabuleiro é a jovem Viola (Gwyneth Paltrow que absurdamente levou o Oscar de Melhor Atriz tendo como concorrentes Cate Blanchett, por “Elizabeth”, e Fernanda Montenegro, por “Central do Brasil”), filha de pai rico e com o casamento já arranjado com o Lorde Wessex (Colin Firth, numa época em que só era escolhido para papéis vilanescos). Viola, que leva o nome da mesma protagonista de Shakespeare para a farsa “Noite de Reis” e aqui, também ela pratica sua própria farsa, deseja conhecer o mundo antes de restringir a vida à um matrimônio opressor. Ela quer conhecer as peças de teatro encenadas no vilarejo e, se possível diante de seu maior atrevimento, atuar nelas –naquela época, a atuação era estritamente proibida às mulheres restando aos homens fazer os papéis femininos também.
Viola, assim, se disfarça de menino para participar dos ensaios no “The Rose” onde Shakespeare corre para entregar sua peça “Romeu & Ethel, A Filha do Pirata”. Em algum momento, o escritor, porém, perceberá que aquele menino tem uma feminilidade impossível de ser encenada e descobrirá a farsa de Viola –e por ela se apaixonará.
Tentando dar prosseguimento a esse romance da forma como podem e com uma data-limite certamente estipulada –o casamento de Viola e a apresentação da peça são marcados para o mesmo dia! –os dois amantes vêem sua história de amor ganhar a tumultuada rotina do teatro como pano de fundo enquanto os aspectos eufóricos, angustiantes e até frustrantes desse amor vão servindo de combustível para que Shakespeare transforme a peça na obra que, por fim, será chamada de “Romeu & Julieta”.
Certamente gracioso visivelmente feito com o propósito despretensioso de divertir e completamente sem compromissos com qualquer realidade que tivesse envolvido a vida de Shakespeare ou a criação de “Romeu e Julieta”, este “Shakespeare Apaixonado” até seria um filme interessante e simpático não tivesse ele sido superestimado a ponto de protagonizar a premiação mais eclética e questionável de toda a história recente do Oscar.

Hoje ele é visto como um filme mediano que tirou prêmios significativos de grandes obras que mereciam mais.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar

Há diversos méritos que sobrepõem este filme acima do anterior, “Navegando Em Águas Misteriosas”, em termos de qualidade: O roteiro que encontra meios até inventivos de relacionar sua trama à história contada nos três primeiros filmes da franquia; a mocinha com muito mais carisma e motivação vivida por Kaya Scodelario (na verdade, nesse detalhe este filme supera todos os demais!); e a duração, mais curta e enxuta (embora o filme ainda se estenda para além das duas horas de metragem).
Infelizmente, este filme também tem lá seus deméritos, oriundos principalmente dos trejeitos indissociáveis que a saga adquiriu desde seu início, e que se repetem com impressão deliberada neste quinto exemplar.
O Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp, cujo personagem perdeu um pouco do protagonismo devido aos abalos pessoais na carreira) agora é procurado por Henry Turner (Brenton Thwaites, de “Deuses doEgito”), rapaz determinado à quebrar a maldição que impede seu pai de regressar para terra firme e viver em família –sim, ele é filho de Will Turner (Orlando Bloom) transformado no capitão imortal do navio “Holandês Voador” ao final de “No Fim do Mundo”!
O único meio de quebrar a maldição (na verdade, de quebrar todas as maldições) é encontrando o Tridente de Poseidon –e é aí que torna-se necessário encontrar Jack Sparrow, ou melhor, sua bússola mágica com a qual é possível achar tal artefato.
Três personagens irão cruzar-se com eles no percurso de sua aventura: A jovem e bela Carina Smith (Kaya), dedicada estudiosa de astronomia (e sintomaticamente confundida com uma bruxa pelos numerosos ignorantes da época); o capitão Barbosa (Geoffrey Rush, com freqüência tão bom, ou melhor, que o próprio Johnny Depp em cena), que desde “AMaldição do Pérola Negra” vive uma relação de inimizade e aliança constante com Sparrow; e o fantasmagórico Capitão Salazar (o espanhol Javier Barden), o providencial vilão sobrenatural deste filme cuja origem é profundamente relacionada à do próprio Jack Sparrow –o qual, à propósito, ele anseia encontrar para concretizar sua vingança.
E ainda no terreno das participações luxuosas, temos uma breve (e consideravelmente aleatória) aparição de Paul McCartney como tio de Jack Sparrow, espelhando a participação especial (bem melhor) de Keith Richards em alguns dos filmes anteriores.
Os diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg (realizadores de “A Aventura de Kon-Tiki”, produção norueguesa indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012) buscam, portanto, uma sutil diferenciação de seu trabalho em relação ao de Gore Verbinski (diretor dos três primeiros) e de Rob Marshall (do quarto), no que são, em sua maior parte do tempo, mau sucedidos, esmagados pela convenção de fazer desta uma obra tão homogênea quanto as outras. Eles ocasionalmente introduzem novas e inventivas percepções acerca de uma aventura em alto-mar, traduzidas em enquadramentos inesperados, numa fluidez quase de desenho animado (mais perceptível na primeira metade, debilitada na segunda) e numa identidade visual peculiar em relação aos demais filmes, embora não consigam evitar nem o fato de que as mesmas repetições de premissa e artimanhas rocambolescas permanecem todas lá, nem a falta de traquejo deles próprios para conduzir o humor das cenas cômicas ou a falta de experiência para administrar o ritmo e a continuidade de uma superprodução.

No frigir dos ovos é um trabalho superior ao último filme, o mais fraco da série até então, mas está longe de ter frescor e o sabor de novidade dos três primeiros exemplares, uma tendência que infelizmente deve se tornar o principal calcanhar de Aquiles da franquia daqui para frente.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Piratas do Caribe - Navegando Em Águas Misteriosas

Embora os três primeiros “Piratas do Caribe” –todos eles dirigidos por Gore Verbinski –fossem uma trilogia fechada em termos de temática e narrativa, todos sabiam que era questão de tempo até a franquia ser retomada.
O quê era motivo de preocupação, ao mesmo tempo de que empolgação, era que seria certamente sob uma nova direção: Gore Verbinski, assim como o elenco original em sua quase totalidade, não retornaria. Em seu lugar foi chamado Rob Marshall, uma escolha intrigante –ele havia dirigido o musical vencedor do Oscar, “Chicago”, além dos não tão excelentes “Memórias de Uma Gueixa” e “Nine”.
Talvez fosse uma certa perícia técnica demonstrada por Marshall, além da intenção dos produtores em chamar um realizador que trouxesse um viés de frescor e ineditismo à franquia (de onde quer que venha) que o levou a ser escolhido para este novo “Piratas do Caribe”.
Na verdade, salvo o visual requintado –cortesia do orçamento milionário dos estúdios Disney –o estilo característico capa & espada carregado de humor e aventura, além dos personagens de Johnny Depp (o já emblemático Capitão Jack Sparrow), de Geoffrey Rush (Barbosa, um pouco diferente, por sua vez, da caracterização vista nos outros filmes) e do pirata Gibbs (Kevin McNally) não há muito, nesta produção, que a ligue com os filmes anteriores.
Nela, o pirata Jack Sparrow, uma vez mais destituído de seu posto de capitão pelo traiçoeiro Barbosa (como visto ao fim de "Piratas do Caribe-No Fim do Mundo"), encontra-se agora na Inglaterra, onde cai no meio de vários interesses cruzados; da Espanha; de piratas que se acotovelam nas docas, muitos orientados pelo sinistro Barba Negra (Ian McShane); e de seu velho inimigo Barbosa, agora a serviço da coroa inglesa e com contas a acertar com o próprio Barba Negra.
Todos buscam a localização da fonte da juventude.
Com o objetivo muitas vezes de salvar a própria pele, Sparrow junta-se à tripulação de Barba Negra, comandada pela bela e impetuosa Angélica (a linda espanhola Penélope Cruz, compondo uma mocinha infinitamente mais interessante que a de Keira Knightley), um antigo e tempestuoso romance na vida de Jack.
Calibrado e pensado até a exaustão para ser um típico sucesso de bilheteria, este “Navegando Em Águas Misteriosas” padece de uma série de males, a maioria deles relacionados à pressão de ser o quarto filme de uma franquia de rentabilidade milionária: Quer ser tão arrojado e divertido quando os anteriores, mas quer também ser desenvolto o bastante para evitar suas falhas. Tal postura engessa o filme, uma vez que tanto planejamento não reserva espaço ao improviso e à espontaneidade –e todos sabem que foi quase por acaso que Johnny Depp teve a inspiração para moldar Jack Sparrow, o personagem que guiou praticamente sozinho esses filmes ao sucesso!
Também o diretor Marshall, já no começo da produção, deixa notar a pressão que ele sente ao tentar, pelo menos, igualar o bom trabalho de Verbinski (ótimo no primeiro filme, interessante no segundo, razoável no terceiro), e sua narrativa estranhamente pesa parecendo preocupada em não demonstrar preocupação.

terça-feira, 14 de março de 2017

A Vida e Morte de Peter Sellers

O diretor Stephen Hopkins (de trabalhos oscilantes em qualidade como “O Predador 2” e “A Sombra e A Escuridão”) foi corajoso ao moldar, neste celebrado filme televisivo, uma estrutura à qual todos os filmes de caráter biográfico deveriam se basear: Um registro absolutamente imparcial em seu humor e seu drama, mostrando todas as facetas questionáveis de caráter que seu biografado porventura poderia ter, e muitas vezes, beneficiando-se delas para incrementar e tornar ainda mais envolvente sua narrativa.
Filmes superestimados como “A Teoria de Tudo” poderiam aprender a ser muito melhores, se sua execução se inspirasse na deste daqui.
Peter Sellers (vivido com preciosismo ímpar por Geoffrey Rush), famoso ator e comediante nascido na Inglaterra foi criado por uma mãe rígida, ainda que com ternura esmagadora, e por seu pacato e submisso pai. Durante a juventude, descobriu um insuspeito gosto pela atuação, valendo-se desse dom para, mais tarde, no final da década de 1950, se tornar radialista e então ator. Logo, ele sinalizou também, em sua inspirada inclinação para o improviso e na rica capacidade para caracterizações de natureza caricata, uma habilidade nata para comédia. Tendo abertas as portas para o estrelato no cinema, Sellers, a medida que adquiria cada vez mais reputação, cacife e privilégios, foi revelando também uma personalidade mimada e egoísta.
O filme enaltece seu talento na mesma proporção que critica (e ridiculariza) seus desvios imaturos de caráter: Em uma seqüência é mostrado que, quando trabalhou numa produção com a estrela Sophia Loren (Sonia Aquino, belíssima), Sellers se apaixonou pela grande atriz italiana e, não apenas acabou deixando Anne (Emily Watson), sua então esposa, como também (quando ficou absolutamente claro que Loren não queria nada com ele) teve um caso com a substituta da atriz.
Ao fim dos anos 1960, sua carreira ganhou fôlego, ao participar de "A Pantera Cor-de-Rosa", comédia estrelada por David Niven e dirigida pelo americano Blake Edwards (o ótimo John Lithgow). O sucesso de seu personagem, o Inspetor Clouseau –no filme inicial, pouco mais que um coadjuvante –o converteu no protagonista dos filmes seguintes da série.
Anos depois, ele descobriu um novo romance ao conhecer a bela atriz sueca Britt Ekland (Charlize Theron), contudo seus ataques de raiva prejudicaram e encerraram também esse casamento. O filme registra impiedosamente a ironia da trajetória profissional e pessoal de Sellers, ao mostrar que ele obtém largo sucesso comercial como grande comediante, ainda que a série “A Pantera Cor-de-Rosa” não lhe fosse satisfatória como artista, enquanto sua vida particular foi ficando cada vez mais em frangalhos.

Entre a narração de uma cena e outra, que abrange estes trechos da vida de Sellers, é curioso notar a intervenção magnífica do ator Geoffrey Rush, a comentar e refletir tal cena, às vezes, até mesmo despindo-se do personagem de Peter Sellers e assumindo (com a mesma veemência) os personagens de outros colegas do elenco, sejam eles homens ou mulheres (!), um recurso que serve para mostrar não só a versatilidade inquestionável de Sellers em suas personificações, mas também para evidenciar a excelência do grande ator que o interpreta.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Piratas do Caribe - No Fim do Mundo

Continuação direta de "O Baú da Morte".
O terceiro filme de “Piratas do Caribe” herdava uma sucessão de exageros que foram escalando no segundo –e que ainda afetam os filmes novos: A cada novo filme, o diretor Gore Verbinski abandonava a atmosfera ligeiramente lúdica do primeiro, em prol de um turbilhão suntuoso e extravagante de efeitos visuais de ponta justificados com insistência pedante no roteiro. Não são elementos ruins, mas apenas aspectos que expõem o quanto uma história sofre ao ser ampliada além de sua necessidade.
O fato do primeiro “Piratas do Caribe” ter sido tão bem sucedido, de sua mistura entre humor, aventura e filme de pirata ter encontrado um filão comercial a ser explorado e, principalmente, do personagem Jack Sparrow ter caído nas graças do público, tornava quase obrigatório a realização de não uma, mas duas continuações (como se pôde constatar).
Os próprios roteiristas, Ted Elliot e Terry Rossio, admitiram que conceberam o primeiro filme para ser uma história fechada, com começo, meio e fim. A idéia de dar continuidade aos arcos narrativos dos personagens, estendê-los e, no processo, buscar aprofundar o que seria possível aprofundar (e tatear assim as bases para uma franquia duradoura de filmes) veio certamente depois, e alguns problemas inerentes a este detalhe chegam neste terceiro filme.
Já se registra certo cansaço na direção de Gore Verbinski (que pegou várias dicas de Peter Jackson, familiarizado com filmagens extensas de filmes gigantescos e interligados narrativamente, vide “O Senhor dos Anéis”), inclusive certo descontrole em suas escolhas que, entre outras coisas, levam este longa metragem a atingir a duração de três horas!
O quê começou como um entretenimento despretensioso e enxuto, foi ganhando características cada vez mais megalomaníacas.
De qualquer forma, ainda há como relevar toda essa gordura e se divertir com a trama que tem início logo após a estranha "morte" de Jack Sparrow (Johnny Depp que pira sozinho durante todo o primeiro terço de filme) ocorrida no clímax do filme anterior.
Will Turner e Elizabeth Swann (Orlando Bloom e Keira Knightley, ambos visivelmente desgastados) precisando resgatá-lo de uma espécie de limbo ao qual foi enviado e, para tanto, vão até Cingapura onde encontrarão o pirata Sao Feng (a requintada e aguardada presença de Chow Yun Fat, infelizmente breve demais), que lhes proporcionará meios de singrar essa viagem, capitaneados pelo ressuscitado capitão Barbosa (Geoffrey Rush, uma sentida ausência no filme anterior e que trava embates divertidíssimos com o personagem de Depp).
Há um motivo especialmente urgente para trazer Jack de volta: Os piratas estão sendo aniquilados pela união das forças do perverso Lord Cuttler Beckett (Tom Hollander, nada interessante) com o monstruoso Davy Jones (Bill Nigh, esse sim, bem legal!). Só a união dos Nove Lordes Piratas terá poder para pará-los, e Jack Sparrow é um deles!
Tantos personagens, tramas e sub-tramas (algumas francamente bastante desinteressantes) com o imperativo de serem encerradas a contendo neste capítulo final da primeira trilogia (pois, outros filmes se seguiram) afetam bastante o ritmo que Gore Verbinski impõe.
Tudo resulta cansativo, embora ainda sim seja um feito notável em vista da catástrofe que poderia ter sido: Pode-se perceber o pesadelo que foi organizar a logística de uma superprodução como esta só tentando acompanhar, como mero expectador leigo, a profusão alucinante e vertiginosa de detalhes que envolvem apenas a apoteótica batalha final, onde dois navios, ocupados pelos protagonistas, se atracam em alto-mar.
Depois deste trabalho, não só Verbinski abandonou a franquia, e outro cineasta entrou em seu lugar –foi Rob Marshall, de “Chicago” e “Memórias de Uma Gueixa” –como também foram aposentados os personagens de Keira Knightley e Orlando Bloom (e eles estavam mesmo ficando insuportáveis!). Os produtores resolveram ficar somente com o quê funcionava: O espírito irresistível e farsesco das aventuras de capa & espada, e o personagem deliciosamente dúbio e debochado de Johnny Depp, o capitão Jack Sparrow.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra

Uma genuína aventura a moda antiga que homenageia os filmes de piratas e capa & espada tão celebrados na época da Velha Hollywood.
O início do filme introduz, ainda em tenra idade, o casalzinho que será o par romântico (e supõe-se, protagonista) do filme –mas, curiosamente, eles são, mais tarde, deixados de lado em prol do grande personagem da produção, mas... estou me antecipando.
A jovem Elizabeth Swann, filha do governador de Porto Royal (breve presença de Jonathan Price), cresce em meio às embarcações que transitam pelo Caribe, então província da Inglaterra durante o século XIX, o auge da pirataria.
Numa noite impregnada de mau agouro, o navio de seu pai resgata um pequeno náufrago do mar, um jovem chamado Will Turner, portando um medalhão que indica ser ele filho de um pirata. Temendo pela vida do garoto (piratas eram enforcados sem perdão na época), Elizabeth esconde seu medalhão de todos.
Os anos passam. Elizabeth torna-se uma linda mulher (a bela inglesinha Keira Knightley, basicamente revelada neste filme) e Will Turner (Orlando Bloom, em alta por sua participação na trilogia “O Senhor dos Anéis”, como Legolas), adotado pelo ferreiro local, torna-se um hábil fabricante de espadas.
É quando chega a Porto Royal o pirata Jack Sparrow (Johnny Depp, naquele que é o grande personagem da produção, mencionado acima) buscando recuperar seu antigo navio tomado anos atrás pelo amotinado Capitão Barbosa (Geoffrey Rush, um perfeito e divertido contraponto à atuação de Depp).
Em meio à disputa que se desenha entre esses dois personagens está o jovem casal de apaixonados (o medalhão que Elizabeth guardou desde então, e que comprova a origem pirata de Will, é um artefato que os piratas desejam obter à todo o custo), assim como uma maldição que recaiu sobre a tripulação e que os transforma em esqueletos à luz do luar –e a única maneira de quebrar tal maldição está, entre outras coisas, em recuperar o medalhão.
A partir daí, seguem-se frenéticas e vertiginosas reviravoltas, proporcionadas em grande parte, pelo espírito ardilosamente vigarista de Jack Sparrow, além de diversas e sucessivas situações, por meio das quais o roteiro do filme continuamente aborda momentos-chaves do gênero pirataria: Devidamente justificadas na trama, haverá cenas em que os personagens andam na prancha (!); batalhas navais com direito à tiros de canhão; perseguições à moda antiga onde os personagens exibem dotes acrobáticos que remetem ao Burt Lancaster de “O Gavião e A Flecha”.
Não obstante essa pulsante homenagem ao gênero que busca pertencer, este “Piratas do Caribe” –o primeiro de uma série que até agora rendeu quatro longa-metragens (o quinto está por ser lançado este mesmo ano!) –se sustenta como filme e como passatempo de fato graças aos elementos que, por acaso, lhe guardam originalidade. Sendo assim, esta versão cinematográfica para um conhecido brinquedo dos parques temáticos da Disneyworld tinha tudo para resultar numa obra superficial e picareta, visto a natureza do projeto, porém, felizmente, o material caiu nas mãos de uma competente equipe, como o diretor Gore Verbinski (recém-saído de um surpreendente sucesso de público, o terror “O Chamado”), o produtor Jerry Buckenheimer (sempre uma garantia de produção esmerada) e um departamento inventivo e prodigioso de efeitos visuais (as seqüências em que os piratas se tornam esqueletos são de uma minúcia e criatividade que há tempos não se via em produções-pipoca), que juntos transformaram a premissa numa obra divertidíssima. Entretanto, nada seria o mesmo sem o ator Johnny Depp: Em suas mãos, o sarcástico e ambíguo protagonista, Capitão Jack Sparrow, ganha uma interpretação única e inspirada, valorizando por completo, e elevando a um patamar de requinte o que poderia ter sido um mero divertimento.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Contos Proibidos do Marquês de Sade

A trajetória do diretor Phillip Kaufman é irregular, em grande parte porque ele atua como produtor e roteirista, deixando imensos intervalos de tempo entre seus trabalhos.
E quando alguns deles –como o policial “Sol Nascente”, com Sean Connery –não chamam muita atenção, a tendência do público esquecer seu nome se reforça ainda mais.
Talvez, por isso não tenha havido muita celeuma quando, no ano 2000, este trabalho do mesmo diretor do erótico e magnífico “A Insustentável Leveza do Ser” foi lançado, mesmo que abordasse um tema –os últimos e tumultuados dias do famigerado Marquês de Sade (não uma biografia, vejam bem) –que tinha muito potencial para trazer a mesma receita de requinte, erotismo e insuspeito valor cinematográfico de sua excepcional adaptação do livro de Milan Kundera.
Entretanto, o público, como bem se sabe, tem memória curta.
Século XVIII. Trancafiado num sanatório da França, o tão célebre quanto libidinoso Marquês de Sade (Geoffrey Rush, ainda na ressaca por seu Oscar de Melhor Ator por “Shine-Brilhante”, em 1996) não se encontra, de forma alguma, sob controle. Seus contos imorais ganham facilmente a liberdade das ruas, e mesmo dentro das dependências do lugar, sua presença chega a alterar alguns personagens, como o jovem e racional padre (Joaquim Phoenix) que volta e meia se vê dividido entre a fé e o desejo pela bela camareira do sanatório (Kate Winslet, jovem, linda e ainda na ressaca pelo sucesso avassalador de “Titanic”), esta por sua vez, cai ocasionalmente nos gracejos do Marquês.
As coisas tornam-se tensas quando entra em cena um novo diretor (Michael Caine, realmente ameaçador) designado para por ordem no lugar usando métodos brutais e opressores.
Longe de igualar o brilhantismo de “Insustentável Leveza...”, Kaufman fez um filme elegante e requintado cuja vulcânica interpretação de Geoffrey Rush, como Marquês de Sade, é muito bem escorada pelo competente elenco, sobretudo, Kate Winslet e o grande Michel Caine.

domingo, 19 de junho de 2016

Deuses do Egito

O cinemão comercial hollywoodiano continua insistindo numa forma de explorar o apelo de grande sucesso do game “God Of War”.
“Deuses do Egito” não deixa de ser uma tentativa na direção de criar um produto cinematográfico que explore esse filão, já que a trama do game é considerada (com razão) de difícil, e até desnecessária, adaptação para a linguagem cinematográfica.
O diretor Alex Proyas é um artesão essencialmente visual, relacionado, durante algum tempo, à filmes pouco usuais junto ao que se considerava um produto normal de estúdio. Para se ter uma idéia, ele realizou um dos meus filmes prediletos com a atriz Jennifer Connelly: O pouco conhecido e ainda menos falado “Cidade das Sombras” um misto estranho e charmoso de ficção científica, film noir e história de terror que, de certa forma, antecipou vários elementos empregados depois pelos Irmãos Wachowsky em “Matrix”. Ele também fez outro cult movie da década de 1990: “O Corvo”, cuja morte trágica do astro Brandon Lee durante as filmagens jogou uma mórbida atenção sobre a produção.
Outro trabalho seu de alguma relevância foi “Eu, Robô” com Will Smith.
Relevância, contudo, é algo que passa longe desta obra aqui, uma miscelânea que busca harmonizar diretrizes de executivos, pesquisas de público, uma série de fórmulas confiáveis de bilheteria e muitos efeitos especiais.
A história possui bastante semelhança com outro filme igualmente superficial lançado alguns anos atrás: “Imortais”, também ele tentando pegar carona no conceito de divindades antigas cujas lendas, remodeladas, estavam única e exclusivamente à serviço de um entretenimento acelerado feito para a geração Playstation. Uma aula de mitologia completamente distorcida, e da maneira mais esdrúxula.
As coisas não ficam muito melhores neste “Deuses do Egito”.
Numa era em que deuses e homens co-existiam com relativa paz, o vingativo Seth (Gerard Butler, num registro um pouco parecido com seu Leônidas, de “300” ainda que cheio de vilania e canastrice) interrompe bruscamente a coroação de Hórus (Nikolaj Coster-Waldau, de “Game of Thrones”), seu sobrinho e filho de seu irmão, Osíris (o sumido Bryan Brown, de “F/X-Assassinato Sem Morte”), o rei do Egito.
Seth quer o trono para ele, e não hesita em matar o próprio irmão, e arrancar os olhos de seu sobrinho, para aflição da amante deste, Hator, a deusa do amor (a linda Elodie Yung, que interpretou Elektra na série “Demolidor”). Mas a intervenção do ladrão de bom coração, Bek (o irritante Brenton Thwaites) irá reverter a sorte de Hórus: Ele recupera ao menos um dos seus olhos roubados, e parte para deter a sanha de poder de Seth, que pode levar, inadvertidamente, todo o mundo à destruição.
O emprego de efeitos visuais é, certamente, a grande estrela do filme, o quê não chega a ser surpresa seja pelo perfil do diretor, seja pela tendência sempre seguida por esse tipo de filme. O quê é surpresa é a lamentável falta de criatividade que Proyas demonstra aqui, sem dúvida, um serviço sob encomenda, no qual ele está longe da personalidade que conseguiu impor em seus outros bons trabalhos, evidenciando um afastamento do realizador mais autoral que ele foi algumas décadas atrás. Uma pena.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Munique

Esta produção de Steven Spielberg chegou como azarão na cerimônia do Oscar 2005, tão dominada ela estava pelo discurso de aceitação suscitado pelo elogiadíssimo romance homossexual “O Segredo de Brokeback Mountain” (que, por sinal, terminou a festa confirmando o preconceito já que perdeu o prêmio de Melhor Filme para o bem menos cotado “Crash-No Limite”. Mas, essa é outra história...).
Em “Munique” o quê se vê é a faceta de Spielberg como cineasta sério, de filmes que foram ganhando textura e profundidade à medida que ele foi envelhecendo: “A Cor Púrpura”. “Império do Sol”, “A Lista de Schindler”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Lincoln” e o recente “Ponte dos Espiões”.
Alías, “Lincoln”, de 2012, trazia uma nova colaboração com Tony Kushner, mesmo roteirista de “Munique”. Salta aos olhos, neste trabalho, a necessidade de Spielberg em compreender a lógica que norteia o panorama político do mundo, e as decisões dos líderes pertinentes à ele.
O diretor deposita toda sua técnica (um primor em termos de ritmo e posicionamento de câmera) a fim de desnudar as motivações por trás das cenas que registra.
Ele começa em 1972, no histórico atentado das Olimpíadas de Munique, onde atletas israelenses são seqüestrados e depois chacinados num catastrófico ato terrorista palestino. Após relatar este que é considerado o primeiro ato de terrorismo da Era Moderna, Spielberg coloca em cena Abner (o ótimo Eric Bana), membro do Mossad, a polícia secreta de Israel, que recebe de Golda Meir em pessoa (a Primeira-Ministra israelense, interpretada com brilho por Lynn Cohen), a sigilosa e nunca confirmada missão de rastrear e eliminar os responsáveis pelo atentado. No percurso dessas sequências de tirar o fôlego, Spielberg esmiúça seus personagens colocando em foco suas dúvidas e ideologias, e como alguns deles não conseguem encontrar convicção ao se verem perpetrando atos tão brutais quando aquele do qual estão se vingando.
Um grande trabalho de Spielberg, talvez o menos conhecido de sua magnífica filmografia.