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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Reino de Fogo


Eis um filme até bastante habilidoso em sua esquisitice.
Vejamos: Trata-se de uma aventura de ação pós-apocalíptica envolvendo... dragões (?!?).
Dirigido por Rob Bowman (cujos créditos mais expressivos remetem a alguns episódios da série “Arquivo X”), “Reino de Fogo” promove uma miscelânea toda curiosa e desigual, mas sem muita razão de ser no final das contas, o que corrobora com a evidência de algumas de suas imperfeições.
Se o personagem Danton Van Zan, que Matthew McConaughey interpreta com fulgor raivoso, tem a exuberância para chamar para si o protagonismo, o seu aliado na luta contra os dragões, o inglês Quinn (Christian Bale, anos antes da ascensão na carreira promovida pelo “Batman” de Christopher Nolan) segue uma linha mais discreta e introspectiva –ainda assim, é Quinn o personagem principal de fato; desde o início quando ele, ainda criança, desperta inadvertidamente um dragão em meio às obras subterrâneas gerenciadas por sua mãe (e com isso, determina a desolação inapelável na qual a humanidade viverá dali para frente), até anos depois quando, já adulto, ele se vê à frente de uma comunidade que aprendeu a se virar escondendo-se o máximo possível das criaturas cuspidoras de fogo.
A caracterização da rotina desolada da comunidade de Quinn é impecável: Vivem de cavar obstinadamente para que tenham no subsolo um refúgio garantido e constante para o perigo dos dragões –tanto que tal ato está incluído no contexto de suas orações.
“Star Wars” não é mais que uma encenação de peça infantil –cuja autoria Quinn malandramente reclama para si!
Os dragões queimam tudo que vêem pela frente; seu alimento, de fato, são as cinzas de tudo que seu fogo destrói. Um dia –reza a narração em off do próprio Christian Bale –não haverá mais comida, tendo eles destruído tudo, e eles se extinguirão recorrendo ao canibalismo; é isso, supõe-se, que ocorreu aos dinossauros cuja extinção, Quinn afirma, é culpa deles.
Nesse cenário de desesperança (reforçado pela fotografia de Adrian Biddle que carrega nos tons de prata e cinza, assim como na luz difusa), surge o americano Van Zan e seu grupo de assim auto-intitulados ‘caçadores de dragões’ –tão ameaçadoras são as feras, porém, que a alcunha soa despropositada aos ouvidos de Quinn e de seu braço-direito Creedy (Gerard Butler, também ele, anos antes da fama por “300”).
Van Zan e sua arrogância tipicamente americana –temperada com uma amargura intensa –traz algum otimismo à comunidade, sobretudo, depois que seu grupo (numa cena arrojada) consegue matar um dragão.
A promessa do princípio de uma calejada supremacia da raça humana sobre as criaturas cuspidoras de fogo, no entanto, se revela fugaz quando Van Zan e sua postura começam a fazer mais mal do que bem: Ele entra em atrito com a liderança protecionista e isolacionista de Quinn quando resolve levar homens (mesmo os não-voluntários) à Londres, onde acredita, encontrará o único dragão macho da espécie –aquele mesmo que Quinn vislumbrou quando criança –cuja morte pode colocar um fim permanente à infestação de monstros.
Gradativamente, “Reino de Fogo” vai se afastando de sua inclinação para “Mad Max” ao imolar aspectos de filmes mitológicos de capa & espada (nos quais a aparição de dragões é, de fato, mais comum) com sua ambientação apropriadamente europeia lançando mão de castelos úmidos de tijolos e outras evocações típicas.
Causa uma impressão estranha, visto que nunca abandona também seus elementos de ficção científica. O trabalho de Rob Bowman parece se esbaldar com a originalidade embutida na premissa, e dele extrai vigor e euforia o suficiente para entreter do início ao fim.
Seu pecado é a incongruência: Seus protagonistas (a despeito do empenho verdadeiramente admirável de Bale e McConaughey) não têm carisma o bastante. Suas sequências (ainda que bem executadas) não se destacam de fato. E sua postura de gênero não fica clara em momento algum justamente por conta de sua singularidade.
É bom, mas podia ser sensacional.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Coriolano

Adaptar Shakespeare para o cinema, nos tempos avidamente comerciais e pouco afoitos a arroubos artísticos dos dias de hoje, é sempre adentrar um terreno pantanoso.
Adaptar uma obra de Shakespeare relegada à obscuridade por ter sido adotada injustamente pelo Partido Nazista como uma ferramenta de propaganda durante a Segunda Guerra Mundial (não obstante o fato de ser um dos raros trabalhos de Shakespeare onde se detecta imperfeições na estrutura narrativa) é então ainda mais complicado.
Esses revezes, contudo, não intimidaram o ator Ralph Fiennes que, neste vigoroso “Coriolano” estréia na direção, herdando muito da identidade visual demonstrada por Kathryn Bigelow em “Guerra AoTerror” (que, a propósito, conta com Fiennes em seu elenco), o diretor de fotografia daquele filme, Barry Ackroyd, aliás, é o mesmo que opera a câmera aqui, o que justifica plenamente a similaridade das imagens. Afinal, Fiennes também optou por uma versão radical na qual ao mesmo tempo que preservava toda a pomba e circunstância do texto clássico do bardo, também lhe conferia uma atualização contextual: As intrigas palacianas e dramáticas não mais se passam em meio às ambientações sombrias da antiguidade, mas nos tempos atuais, com intervenção de carros, câmeras, televisores e recursos modernos nas cenas urbanas, e tanques de guerra, uniformes militares e armas de última geração nas seqüências de batalha.
Seguindo uma cartilha infalível, Fiennes escalou a si mesmo para o suculento papel principal, e não deixou por menos: Pontuou as participações do filme com presenças magníficas de um elenco espetacular.
Atravessando um tumultuado período político, Roma vê seu território protegido pelo feroz soldado Caio Márcio (Ralph Fiennes, veemente) que, após rechaçar os invasores Volcos na ofensiva de Coriolos, ganha a alcunha de Coriolano. Mas a valentia de guerreiro de Caio Márcio é proporcional à sua inaptidão em paparicar a plebe. O que faz com que ele caia em uma cilada política que ao invés de sagrá-lo Cônsul provoca seu exílio de Roma. Assolado pelo rancor, ele une-se à Aufídio (Gerard Butler), o líder dos Volcos, para junto de suas tropas invadir Roma.
Curioso como a roupagem moderna (soldados com metralhadoras e apetrechos militares ao invés de armaduras; decretos televisivos ao invés de discursos em praça pública) lhe evidencia sua relevância, tanto quanto seu anacronismo –fruto provavelmente da decisão de manter seu texto intocado.
Da forma como está, a trajetória de Coriolano reitera a corruptividade bélica do ser humano, confrontando um personagem atormentado com suas fraquezas mais inapeláveis. Essa tragédia, registrada durante sua maior parte numa voltagem mais tênue do que se espera de Shakespeare, ganha inusitada ênfase no desempenho transformador e inesperadamente opressivo das mulheres, a sublime Vanessa Redgrave como a mãe de Coriolano que ao fim negligencia o filho em prol da causa universal da vitória, e a linda e desconcertante Jessica Chastain, como sua esposa, o reflexo enganador de uma reconfortante vida em família.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Fantasma da Ópera

Bom diretor Joel Schumacher nunca foi mesmo, mas houve um tempo que ele foi um bocado bem sucedido em enganar os estúdios, parte da crítica e parte do público a esse respeito –mais ou menos o período que abrange a década de 1990, que ele iniciou fazendo dois daqueles que são, até hoje, alguns de seus mais satisfatórios trabalhos (os bons “Linha Mortal” e “Um Dia de Fúria”) e que ele terminou sob uma oscilante consagração proporcionada pelo claudicante “Batman Eternamente”, logo seguido do vazio e burocrático (mas inexplicavelmente, bastante amado por alguns admiradores) “Tempo de Matar” –aquele com Sandra Bullock e que revelou Matthew McConaughey... –para, então lançar o catastrófico “Batman & Robin” (tido como um dos piores filmes de toda a História, e com méritos!), e toda e qualquer consideração que ele tinha como cineasta ir pelos ares.
Desde então, Schumacher passou as décadas seguintes buscando uma espécie de redenção, experimentando com todos os gêneros –mas, principalmente procurando um afastamento do esquema hollywoodiano dos grandes estúdios, através de produções de baixo orçamento e maior liberdade criativa como o policial “Oito Milímetros”, o drama de guerra “Tigerland”, o suspense “Por Um Fio”, o drama “Ninguém É Perfeito”, e por aí vai.
Todos passam longe de ser aquele absurdo mal-filmado que manchou sua carreira (exceto “Em Má Companhia”, de 2002, com Anthony Hopkins e Chris Rock, esse é ruim mesmo!), mas nenhum deles revela-se uma obra capaz de resgatar-lhe qualquer moral como realizador.
Ao longo desses anos em que buscou provar sua competência aos outros (e talvez a si mesmo), veio a ser a esplêndida adaptação da peça musical de Andrew Loyd Webber que provavelmente revelou-se o melhor filme de sua irregular carreira –e ironicamente, um dos poucos casos de superprodução que ele realizou para um grande estúdio.
Entretanto, “O Fantasma da Ópera” pulsa de um ímpeto artístico sobrepujando as tendências comerciais, o quê remete muito àqueles grandes trabalhos feitos à moda antiga.
Cantora do coral da famosa ópera de Budapeste, Christine (a inebriante Emmy Rossum) sonha em tornar-se estrela e diva, e também ser reconhecida por seu talento, no que é auxiliada por um admirador das sombras, o misterioso "fantasma da ópera" (Gerard Butler, anos antes da consagração com “300”, mas já ostentando carisma), a quem ela dá inocentemente a alcunha de "anjo da música".
Mas o "fantasma" (na realidade um homem desfigurado que aprendeu na rejeição do mundo exterior a manipular os bastidores como um ilusionista e fez dos túneis e passagens secretas da ópera, o seu reino) deseja que em troca dessa consagração Christine lhe dê seu amor, o quê aparentemente ela já prometeu a um jovem amor da infância (Patrick Wilson que, apesar dos esforços, não se sai muito bem no embate com Butler).
Musicado, com imensa lealdade em abraçar por completo um gênero que já não é mais moda, imodesto em suas três horas de duração, e plenamente confiante no deslumbre visual que seus altos valores de produção conferem (figurinos, cenários e direção de fotografia são de um primor sem fim) é um filme que pede pela entrega irrestrita do público, tal e qual uma grande história de amor. A grande diferença é que Joel Schumacher desta vez –talvez, fruto das pra lá de mal-sucedidas experiências do passado –não ludibria o expectador com um equívoco: Ele faz em “O Fantasma da Ópera” aquilo que promete, amparado em méritos reais e não em imbecilidades; Emmy Rossum é charmosa de verdade, como também é de verdade a voz modulada e poderosa que ela demonstra nas músicas (ela realmente estudou canto); Gerard Butler é um grande protagonista, viril, dilacerado e ao mesmo tempo cativante e sórdido. São escolhas que transformam o filme em um deleite para além da exuberância óbvia que teria um projeto assim.
Depois disso, Schumacher ficou três anos sem filmar, entregou o mediano terror “Número 23”, e mais alguns outros exemplares sem expressão, atualmente, dedica-se a alguns trabalhos de TV.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

300

O quê Zack Snyder faz com “300” –e que, com justiça, Frank Miller fez com sua graphic novel, a fonte explícita para todo o material do filme –é, na visão rabugenta de uns, a conversão de um episódio fundamental e histórico, a Batalha das Termópilas, num arrojado desenho animado que, ainda que simule o realismo em sua computação gráfica que “Sin City” não se importou em ostentar (e que, deveras, conte com atores de carne e osso), abraça a ultraviolência, o exagero, e nesse processo, o politicamente incorreto.
Os detratores não estão errados em sua observação. Eles estão errados, na realidade, em argumentar que essas decisões tornam o filme ruim, quando na verdade é um de seus inúmeros detalhes cativantes.
Miller (nos quadrinhos) e Snyder (em sua versão cinematográfica) constroem um objeto próprio sobre algo que antes poderia ser uma observação passageira, genérica e banal sobre o episódio da Antiguidade relatado por Heródoto –passageira, genérica e banal como é a produção anterior a retratar o episódio das Termópilas, datada de 1962 e assolada por todas as características formulaicas e industriais que regiam os épicos romanos do mesmo período –é inclusive com isso mesmo que ele se parece: Com um mero épico romano sem personalidade.
Contudo, personalidade é uma característica que não falta ao “300” de Zack Snyder, cuja construção narrativa e visual tem plena consciência da orientação cult que quer tomar; não somente violência gráfica aos borbotões é sinalizada com exclusividade para a fatia adulta da platéia, como seqüências generosas de nudez (feminina, por parte da rainha Gorgo, vivida pela linda e carismática Lena Headley; e masculina, por parte do protagonista e de seus subordinados que durante o filme inteiro não usam mais do que tangas!) fazem parte do cardápio.
Quando a Grécia antiga é ameaçada pela ânsia de conquista avassaladora do imperador persa Xerxes (o brasileiro Rodrigo Santoro, num de seus mais sensacionais trabalhos nos EUA), que se considera um deus, a única resistência parece ser um pequeno exército de trezentos homens, composto pela guarda pessoal do rei Leônidas (Gerard Butler, um protagonista vibrante), de Esparta, o reino mais militarizado e impiedoso de toda a Grécia.
A tática dos espartanos é simples: Obrigar os exércitos persas a usar a afunilada entrada dos desfiladeiros das Termópilas para ter acesso à Grécia, e lá valer-se da geografia apertada que dará vantagem às suas bem preparadas técnicas de combates e minimizará sua inferioridade numérica.
Lançado cerca de um ano depois do divertido e quase experimental “Sin City-A Cidade do Pecado”, de Robert Rodrigues, e com ele dividindo uma série de similaridades (ambos adaptados de obras de Frank Miller; técnica semelhante de filmagem com o elenco interpretando sob um fundo verde no qual o cenário é reconstituído por computador a partir de uma fidelidade canina às imagens das HQs e sua paleta de cores; e muita violência caricatural –o quê parece ser bastante do agrado de Miller), “300” trouxe também um imediato aprimoramento em relação à obra de Rodrigues: Ostentando uma direção mais madura, Snyder criou cenários que, ainda que digitais, eram visualmente convincentes, tornando nebulosa a impressão cartunesca da encenação (se “Sin City” já era uma auto-reflexão pulsante da relação entre quadrinhos e suas adaptações cinematográficas, “300” é um passo além, com Snyder criando elementos ainda mais indissociavelmente cinematográficos para essa transposição).
Ele aceita totalmente a vulgaridade pop desse material (mais do isso, ele a abraça!) e com ela molda a mais eufórica e rejuvenescedora das experiências sensoriais.

domingo, 19 de junho de 2016

Deuses do Egito

O cinemão comercial hollywoodiano continua insistindo numa forma de explorar o apelo de grande sucesso do game “God Of War”.
“Deuses do Egito” não deixa de ser uma tentativa na direção de criar um produto cinematográfico que explore esse filão, já que a trama do game é considerada (com razão) de difícil, e até desnecessária, adaptação para a linguagem cinematográfica.
O diretor Alex Proyas é um artesão essencialmente visual, relacionado, durante algum tempo, à filmes pouco usuais junto ao que se considerava um produto normal de estúdio. Para se ter uma idéia, ele realizou um dos meus filmes prediletos com a atriz Jennifer Connelly: O pouco conhecido e ainda menos falado “Cidade das Sombras” um misto estranho e charmoso de ficção científica, film noir e história de terror que, de certa forma, antecipou vários elementos empregados depois pelos Irmãos Wachowsky em “Matrix”. Ele também fez outro cult movie da década de 1990: “O Corvo”, cuja morte trágica do astro Brandon Lee durante as filmagens jogou uma mórbida atenção sobre a produção.
Outro trabalho seu de alguma relevância foi “Eu, Robô” com Will Smith.
Relevância, contudo, é algo que passa longe desta obra aqui, uma miscelânea que busca harmonizar diretrizes de executivos, pesquisas de público, uma série de fórmulas confiáveis de bilheteria e muitos efeitos especiais.
A história possui bastante semelhança com outro filme igualmente superficial lançado alguns anos atrás: “Imortais”, também ele tentando pegar carona no conceito de divindades antigas cujas lendas, remodeladas, estavam única e exclusivamente à serviço de um entretenimento acelerado feito para a geração Playstation. Uma aula de mitologia completamente distorcida, e da maneira mais esdrúxula.
As coisas não ficam muito melhores neste “Deuses do Egito”.
Numa era em que deuses e homens co-existiam com relativa paz, o vingativo Seth (Gerard Butler, num registro um pouco parecido com seu Leônidas, de “300” ainda que cheio de vilania e canastrice) interrompe bruscamente a coroação de Hórus (Nikolaj Coster-Waldau, de “Game of Thrones”), seu sobrinho e filho de seu irmão, Osíris (o sumido Bryan Brown, de “F/X-Assassinato Sem Morte”), o rei do Egito.
Seth quer o trono para ele, e não hesita em matar o próprio irmão, e arrancar os olhos de seu sobrinho, para aflição da amante deste, Hator, a deusa do amor (a linda Elodie Yung, que interpretou Elektra na série “Demolidor”). Mas a intervenção do ladrão de bom coração, Bek (o irritante Brenton Thwaites) irá reverter a sorte de Hórus: Ele recupera ao menos um dos seus olhos roubados, e parte para deter a sanha de poder de Seth, que pode levar, inadvertidamente, todo o mundo à destruição.
O emprego de efeitos visuais é, certamente, a grande estrela do filme, o quê não chega a ser surpresa seja pelo perfil do diretor, seja pela tendência sempre seguida por esse tipo de filme. O quê é surpresa é a lamentável falta de criatividade que Proyas demonstra aqui, sem dúvida, um serviço sob encomenda, no qual ele está longe da personalidade que conseguiu impor em seus outros bons trabalhos, evidenciando um afastamento do realizador mais autoral que ele foi algumas décadas atrás. Uma pena.