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domingo, 31 de dezembro de 2023

Tempo de Matar


 Em meados de 1996, o diretor Joel Schumacher, por incrível que possa parecer, se encontrava em destaque em Hollywood. Responsável por isso foi a dobradinha de filmes que ele lançou no período, sendo um deles a sua primeira incursão no universo do Homem-Morcego a substituir Tim Burton, “Batman Eternamente” (que embora tenha conquistado o descontentamento da crítica teve boa bilheteria, fracasso foi, de fato, o filme seguinte, “Batman & Robin”), e o outro, este mezzo suspense, mezzo filme de tribunal, “Tempo de Matar”, adaptado da obra de John Grisham (autor que estava em alta naqueles tempos tendo diversas produções adaptadas de seus livros).

É possível notar, através desse exemplo, que o fracasso, às vezes, ensina muito mais que o sucesso: Embora nunca tenha sido um grande diretor, foi depois desta produção relativamente aclamada que Schumacher perpetrou sua mais infame bizarrice cinematográfica, entretanto, foi logo depois do vexame incalculável de “Batman & Robin” que ele teve o bom senso de conduzir a carreira por meio de realizações menores, nas quais o controle do diretor era mais garantido, e o resultado qualitativo, mais certo de ser obtido. Mas, “Tempo de Matar” vale assim esse alarde que, à época, suscitou? Nem tanto.

No sempre segregado e sempre em polvorosa, Mississipi, no sul dos EUA, uma garotinha da comunidade negra é agredida e estuprada por dois rapazes brancos racistas que vão imediatamente à julgamento, sob a quase certeza de absolvição diante das impunes legislações sulistas. No entanto, o indignado pai da criança, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), se antecipa à qualquer sentença e metralha os dois criminosos dentro do tribunal, fazendo justiça com as próprias mãos.

É Carl Lee quem agora está no banco dos réus, prestes a ser condenado por homicídio. Sua defesa é assumida pelo jovem e idealista advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey, no papel que o revelou à Hollywood após várias participações menores em produções pequenas) que não faz ideia –mas, fará! –de todas as imbricações e desdobramentos que acarretará sua decisão de defender um acusado negro numa comunidade como a do Condado de Canton.

Com a cidade em iminência de virar um barril de pólvora –de um lado os manifestantes negros exigindo veementemente absolvição, de outro, os asseclas da Ku Klux Klan, restaurada no lugar pelos esforços do vingativo irmão de um dos assassinados, vivido por Khiefer Sutherland –Brigance deve enfrentar, nos tribunais, a voracidade inescrupulosa do procurador Rufus Buckley (Kevin Spacey), a desvantajosa antipatia do Juiz Omar Noose (Patrick McGoohan, de “Coração Valente”) e a real ameaça que toda essa circunstância representa a ele e à sua família. Para auxiliá-lo, Brigance conta com o apoio do mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), do amigo e parceiro em advocacia Harry Rex Vonner (o histriônico Oliver Platt) e com a inteligência aguçada da jovem estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, mais coadjuvante do que protagonista, embora tenha o nome em primeiro nos créditos).

É certamente uma trama urgida com a eficiência e a competência de quem compreendia esse gênero como ninguém –e provavelmente, ela deve funcionar melhor no livro original –ainda assim, apesar de seus bons momentos, o filme é pedante, dirigido com pieguice. Ficam patentes o descontrole de Schumacher para com emoções que deveriam ser mais contidas e a incapacidade dele em extrair atuações bem calibradas de seu elenco vasto e estelar: Em geral, bons atores, Sandra Bullock e Matthew McConaughey se contentam em ter suas belezas evidenciadas e seus egos massageados; quem salva a pátria, no fim das contas, é o sempre ótimo Samuel L. Jackson –grande ator, sua carreira merecia muito mais do que a única indicação ao Oscar (Melhor Coadjuvante por “Pulp Fiction”) que até hoje ele recebeu.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Linha Mortal


 Lançado bem no início da década de 1990, quando o diretor Joel Schumacher ainda se achava hábil o bastante para acrescentar elementos supostamente experimentais numa obra comercial –como luzes difusas, ângulos de câmera diferenciados e modismos do período que nada mais eram do que isso, modismos –este “Linha Mortal” trazia o requinte de ser produzido por Michael Douglas que, antes de alcançar o estrelato como ator, chegou a conquistar o Oscar de Melhor Filme como produtor em “Um Estranho No Ninho”. Isso jogava expectativas elevadas num filme que nunca chegava a ser uma obra-prima, mas conseguia sempre manter-se interessante.

Na trama, um grupo de alunos, residentes de medicina –entre os quais, os ainda jovens Kevin Bacon, Julia Roberts (antes do sucesso de “Um Linda Mulher”), Oliver Platt e William Baldwin –embarcam no arriscado plano de um colega vivido por Kiefer Sutherland: Instalados de madrugada, num porão das dependências do campus, eles irão parar o coração de um deles com um desfibrilador (o primeiro voluntário, é óbvio, será o personagem de Sutherland), e após um curto intervalo, ressuscitá-lo valendo-se dos recursos médicos.

O que eles testemunham nesse intervalo pós-morte é registrado através de depoimentos. A cada tentativa, o período com o coração parado –mostrado no monitor cardíaco com uma linha reta ininterrupta, o chamado “Flatlinners” do título original –é maior e cada vez mais perigosamente próximo dos cinco minutos (quando a morte pode se tornar cerebral), e por conta disso, cada vez mais difícil de trazer a ‘cobaia’ de volta à vida.

Contudo, eles não voltam sozinhos: Passada a empolgação dos primeiros testes relativamente bem sucedidos –afinal, trouxeram todos de volta sem maiores contratempos ou efeitos colaterais –eles passam a serem procurados pelo que parecem ser fantasmas, aparições que muito se parecem com lembranças que eles guardam da infância. São, na verdade, os pecados em vida que eles expiarão após a morte, mas que, pela circunstância da experiência, os estão castigando ainda vivos.

Percebe-se aqui e, sobretudo, em projetos que ele entregou nas décadas seguintes, que Joel Schumacher é bom em perfumaria: Seus filmes têm ritmo, visual relativamente elaborado e, não raro, são cercados de uma premissa sempre instigante e promissora, entretanto, Shcumacher não sabe enfatizar os predicados sublimes dessa premissa se eles já não vierem completamente organizados no roteiro. Sua direção é empenhada no aspecto técnico e rudimentar no aspecto instintivo e artístico –os atores particularmente se incumbe de tipos caracterizados mais do que de personagens necessariamente humanos; temos o protagonista ambíguo de Kiefer Sutherland, a mocinha padronizada de Julia Roberts, o personagem íntegro, estóico e sólido (e, como tal, enamorado da mocinha) vivido por Kevin Bacon, o conquistador barato (e bota barato nisso!) de William Baldwin, além do coadjuvante para fazer volume de Oliver Platt –um papel que, na verdade, ele interpretou em quase toda sua carreira.

Diante dessas simplificações conceituais, que reduzem a curiosa e reflexiva observação do roteiro dos percalços possíveis do pós-morte a um conto de terror cada vez mais convencional e previsível, o filme de Schumacher deixa de ser aquilo que poderia –e que é sugerido em sua envolvente e promissora hora inicial –para tornar-se, ao fim, um passatempo característico.

A comprovação de uma certa qualidade lhe surgiu com tempo: Em 2017, ele recebeu uma refilmagem, intitulada aqui no Brasil de “Além da Morte”, onde as ideias presentes em sua trama eram ainda mais pasteurizadas e banalizadas.

Se jamais chega a ser espetacular, “Linha Mortal”, de Joel Schumacher, ao menos, tem do início ao fim, uma aura de curiosidade e originalidade que lhe dá certa dignidade (além de argumentos fortes e convincentes para hoje ser considerado um cult-movie), mesmo diante do lamentável fato de que nunca cumpre suas promessas.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Tigerland - O Caminho da Guerra

Entre o fim da década de 1990 e o começo da década de 2000, o diretor Joel Schumacher, à sombra do fracasso retumbante de “Batman & Robin”, viu-se diante de uma necessidade de se provar como realizador. A partir de diversos filmes feitos sem maiores pressões mercadológicas, uma coisa logo ficou bem clara: Quanto mais econômico era o orçamento e maior era a autonomia criativa, maior era também a qualidade de seus filmes; e quanto mais dinheiro (e pressão) envolvidos, mais risível era o trabalho de Schumacher (excluindo-se possivelmente apenas a superprodução “O Fantasma da Ópera”).
Foi o drama de guerra “Tigerland” que iniciou essa fase de projetos de baixo orçamento, aberto às experimentações estéticas. E foi também aqui que se revelou o talento do irlandês Colin Farrell, com quem Schumacher ainda faria “Por Um Fio”.
Farrell vive Roland Bozz, um recruta como tantos outros capturado na máquina política norte-americana para ser treinado pelo exército e enviado para lutar no Vietnam.
Bozz, como pode-se presumir, é um rebelde. Entretanto, sua contestação é de uma natureza muito especial: Inteligente, observador e perspicaz juíz da natureza humana, Bozz não só consegue desestabilizar a beligerância de seus superiores, como também identifica, entre seus colegas, aqueles que escondem suas razões pessoais para não ir à guerra; e consegue assim encontrar as fissuras no sistema para tirá-los do exército.
Tigerland termina sendo o nome do campo onde se dará o último estágio do treinamento dos recrutas: Um lugar que recria, com exatidão inóspita e perigosa, as condições cruéis, e não raro fatais, do próprio Vietnam.
À sua maneira antimilitarista, o filme de Schumacher presta um tributo especial à “Os Rapazes da Companhia C” na maneira com que organiza sua narrativa; excluindo, porém, a ida ao Vietnam.
No protagonismo enfatizado do carismático personagem de Colin Farrell, na atenção algo melodramática prestada aos dramas individuais de cada recruta, e nos rumos objetivos de sua trama, o diretor não esconde suas intenções pacifistas, ainda que haja um indisfarçável fetichismo pelos soldados e pelos aspectos militares, facetas que a manhosa narrativa, com estudada câmera na mão, tenta, mas não consegue ocultar.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Twelve - Vidas Sem Rumo

O diretor Joel Schumacher parece adorar a voz do ator Kiefer Sutherland. Ele primeiro o dirigiu nos anos 1990 dando-lhe um personagem loquaz e eloquente no suspense “Linha Mortal”. Em seguida, ele o escalou para um papel quase desprovido de presença cênica, mas cuja voz era fundamental: O do franco-atirador anônimo e onipresente em “Por Um Fio”.
Em “Twelve-Vidas Sem Rumo”, Kiefer Sutherland surge como o narrador da trama inspirada no livro de Nick McDonell, cuja narração se faz necessária para o ritmo, para o entendimento, e até para certa melodia do filme.
Buscando ser uma daquelas obras independentes que denunciam a falta de perspectiva dos jovens privilegiados (os adultos, quando aparecem, se mostram instáveis e negligentes), o filme circula a vida de alguns personagens aleatórios capturados numa festa que inicia a trama –e deixados numa outra festa que a encerra.
O protagonista White Mike (Chace Crawford) é fornecedor de drogas para a maioria desses jovens. Ele mente compulsivamente para a angelical Molly (Emma Roberts) enquanto chafurda deliberadamente na lama do submundo dos traficantes.
Morador da mansão onde a festa se sucede, o jovem Chris (Rory Colkin) se vê às voltas com a agressividade do irmão mais velho, Claude (Billy Magnussen), recém-saído da reabilitação, e com a envolvente (e existencialmente promíscua) sedução da patricinha Sara (Esti Ginzburg) que manipula todos a sua volta –ela obtém status com o namorado Tobias (Nico Tortorella); adoração e drogas com o jovem Andrew (Maxx Brawer); e, de Chris, o consentimento para celebrar seu aniversário na casa dele.
É numa dessas festas que sua amiga, Jessica (Emily Meade) acaba sem querer se viciando no alucinógeno ‘Twelve’, tão forte que White Mike se recusa a vender –quem o vende é o perigoso traficante Lionel (Curtis Jackson) a um preço tão proibitivo que logo Jessica terá de se prostituir para manter o vício.
O próprio Lionel e White Mike, até então colaboradores leais, podem estar em rota de colisão: Lionel matou Charlie (Jeremy Allen White), amigo de infância de White Mike, cuja culpa, segundo a polícia, pode vir a incriminar o instável Hunter (Philip Ettinger), primo de Mike.
O diretor conduz essa ciranda numa narrativa refinada em empenho visual, acrescida de ritmo e de todas as alternativas cosméticas e transfiguradoras do cinema. E, nesse empenho (no de conceber um filme agradável a qualquer custo), ele abdica por completo da retidão moral: Schumacher não escapa do fato de que passa a mão na cabeça de personagens frequentemente amorais, ainda que ele o faça num filme fluido e sedutor.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Um Dia de Fúria


Em “Taxi Driver”, o mestre Martin Scorsese achou que seria dramaticamente contundente explorar a gradual transformação de um homem comum, já abalado por celeumas de seu tempo, num estopim de fúria psicopata que é revelada na antológica sequência final.
Da mesma maneira, o diretor Joel Schumacher partiu de reflexão parecida ao moldar este seu “Um Dia de Fúria”, com um diferencial mais objetivo: Nem tanto interessa a ele as motivações bem pavimentadas que o caminho de seu protagonista em direção ao surto apresenta; ele que mostrar são as consequências  e os desdobramentos do surto em si.
Por isso, o filme já começa com William (Michael Douglas, vibrante) dando um basta de dentro de um carro que não conseguia avançar devido ao engarrafamento; além de tudo o calor escaldante da Califórnia e o suor resultante lhe acirram os nervos –sua imediata ida (a pé mesmo) à uma loja de conveniência próxima só piora ainda mais o quadro. Indignado com uma pouco lisonjeira discussão com o dono do lugar, William inicia ali seu acerto de contas. Em seguida, ele promove um rastro de intolerância reagindo com violência a tudo e a todos que lhe cruzam o caminho, provocando um caos em sua ida para casa.
Aliás, uma ida para a casa que ele presume ser sua já que é onde sua ex-mulher está com sua filha.
Paralela a essa cada vez mais perigosa trajetória (e hoje munida de uma certa ingenuidade), estão as investigações do policial Prendergast (Robert Duvall) que, em seu último dia de trabalho, encara o inusitado caso de um homem que chegou ao cúmulo de sua injúria com o sistema –e é esse personagem quem vai juntar as peças, no decorrer do filme, a fim de esclarecer tudo, inclusive os motivos (mais pontuais do que se pode imaginar) para William querer extravasar sua fúria nos inadvertidos e alienados seres humanos que vê a sua frente.
De recepção popular consideravelmente calorosa –pode até ser definido assim como cult –este trabalho oscila entre cenas muito boas e alguns momentos bastante discutíveis e lamentáveis, todos eles preenchendo uma premissa das mais promissoras que rendeu um filme menos brilhante do que poderia ter sido.
Ainda assim, com a respeitável exceção da bela adaptação cinematográfica de “O Fantasma da Ópera”, este curioso conto sobre as neuroses reprimidas e, por fim, extravasadas do cidadão médio comum da década de 1990 é o melhor filme de toda a carreira do irregular diretor Joel Schumacher que, a bem da verdade, fez muita porcaria.

domingo, 23 de abril de 2017

Batman no Cinema

Batman
Por muito tempo, o cinema tateou na busca por uma conciliação narrativa com a linguagem dos quadrinhos. Essa busca é bastante ilustrativa quando olhamos a seqüência de filmes protagonizados pelo Batman, que ganhou, na opinião de muitos, sua personificação cinematográfica definitiva com Christian Bale, na Trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.
Bem antes disso, o público e a crítica (na verdade, bem mais o público do que a crítica) deixou-se encantar pela primeira versão cinematográfica do herói, concebida por Tim Burton e estrelada por Michael Keaton.
De um estilo peculiar e personalíssimo, Burton tinha uma visão eclética do projeto conceitual: Ao mesmo tempo em que ele via uma apropriada atmosfera sombria a relacionar-se diretamente com o personagem e o mundo que o cerca (a obscura e corrupta Gotham City) o que passou a influenciar até mesmo os quadrinhos dali por diante, embora o próprio filme de Burton deva muito à reformulação do personagem promovida na graphic novel “Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller –ele também tinha uma certa displicência para com a figura do próprio herói (visto como nitidamente desinteressante em sua narrativa) o que priorizou, neste primeiro filme, o antagonista Coringa interpretado com som e fúria por Jack Nicholson.
O vigilante sombrio e amargurado Batman (cuja origem acaba sendo pouco mais que uma recordação, longe do trabalho cuidadoso feito em "Batman Begins") torna-se quase um detalhe em meio à trama que acompanha Jack Napier (Nicholson) e a traição sofrida por seu mentor, o líder do crime organizado de Gotham City, Carl Grisson (Jack Palance), o quê leva Napier à mergulhar acidentalmente num tonel de ácido, de onde emerge já transformado no maluco homicida Coringa.
Para o Coringa, depois de matar Grisson, o controle de Gotham agora só encontra obstáculo mesmo no Batman, cuja identidade secreta, o milionário Bruce Wayne, está às voltas de um relutante romance com a repórter Vicky Vale (Kim Basinger, esplêndida), dedicada, por sua vez, a descobrir a real identidade do herói mascarado.
Um sucesso exorbitante, menos por seus valores cinematográficos e mais por sua campanha maciça de marketing, “Batman” revelou o inesperado pendor comercial de Tim Burton e uma sutil predisposição dele em deixar de lado os aspectos mais marcantes de seu estilo em função de uma colaboração com um produto de estúdio, o quê ele voltaria a fazer, anos mais tarde, na refilmagem/reinvenção de “Planeta dos Macacos”, de 2001.

Batman-O Retorno
O êxito arrebatador do filme de Burton deixava claro que, à ele, brevemente uma continuação se seguiria. Se teria Tim Burton mais uma vez na direção, aí a história era outra (Burton não ficou satisfeito com o controle criativo limitado que teve no primeiro filme, e o diretor de arte, Anton Furst, ganhador do único Oscar recebido pelo filme, era muito cotado para assumir a direção da seqüência, antes de falecer).
O estúdio terminou concluindo que não valia a pena mudar a equipe e manteve Burton dirigindo o novo filme e Michael Keaton o estrelando –embora muitos questionassem sua adequação ao papel.
Tal e qual o primeiro “Batman”, neste novo filme Burton tornou a manifestar seu fascínio pelos desajustados e seu indisfarçável carinho pelo monstruoso –ou seja, pelos vilões –centrando todo o interesse da narrativa desta vez, na origem pontuada por abandono e detalhes grotescos de Oswald Cobblepot, ou melhor, o Pingüim (Danny De Vito, irreconhecível debaixo da densa maquiagem) e, principalmente, na trajetória envolvente de Celina Kyle, secretária do empresário Max Shreck (Christopher Walken, num personagem cujo nome remete ao ator célebre por interpretar o vampiro no clássico “Nosferatu”, de Murnau) cuja descoberta dos negócios ilícitos do patrão leva Celina a uma transformação radical, tornando-se a ambígua e sensacional Mulher-Gato (que ganhou, nas formas e nas expressões de Michelle Pfeifer uma personificação considerada, até hoje, imbatível).
Batman, como se pode perceber, é um mero coadjuvante diante de personagens tão exuberantes.

Batman Eternamente
Para Tim Burton, dois filmes bastaram. Após “Batman-O Retorno”, o máximo que ele se dispôs a aproximar-se do novo projeto envolvendo o personagem foi na função de produtor executivo. O diretor escolhido para substituí-lo, sabe-se lá porque, foi Joel Schumacher: Talvez tenha sido o estilo rebuscado e sombrio que ele demonstrou em “Linha Mortal”, similar ao de Burton (embora, Schumacher nunca tenha preservado qualquer estilo ao longo de seus filmes), ou o fato de ser um típico de diretor padrão, ideal para trabalhar sob contrato.
Com ele no comando, o filme imediatamente ganhou nova roupagem e um novo intérprete: Val Kilmer, cujo excesso de sisudez e as madeixas castanhas claras não ajudaram muito a ser visto como uma escolha melhor do que Keaton.
Também o orçamento inflado da nova produção deixava claro o quanto Batman, enquanto produto corporativo, significava para o estúdio: Não foram poupadas despesas, inclusive no que diz respeito ao elenco milionário –Nicole Kidman (começando uma auspiciosa escalada ao estrelato graças ao lançamento de “Um Sonho Sem Limites” naquele mesmo ano) como o par romântico do herói (sendo que as menções às anteriores Vicky Vale e Mulher-Gato foram completamente ignoradas); Tommy Lee Jones como o pra lá de caricato vilão Duas-Caras (chega a ser covarde e absurdo comparar esta versão ao bem construído Duas-Caras de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”); Jim Carey como Charada (papel que ele tirou do anteriormente cotado Robin Willians); e Chris O’ Donnell surgindo pela primeira vez como Robin, o parceiro do herói deixado de lado nos dois filmes anteriores.
Aqui, Batman se vê diante do desafio de um novo chefão do crime, o antigo promotor Harvey Dent transformado no vilão Duas-Caras. Paralelo ao surgimento de um novo vilão, o Charada, o acrobata Dick Graysson perde toda sua família, encontrando um lar na mansão Wayne onde passa a auxiliar Bruce Wayne, o Batman, como seu fiel parceiro, o Robin.

Batman & Robin
E foi assim, com o relativo êxito do filme anterior que chegamos no quarto e famigerado filme do Batman, o segundo sob o comando de Joel Schumacher, onde ele teve liberdade para fazer a “sua” visão do Batman, deixando de lado qualquer realismo ou interiorização sombria, e com isso soterrando a série no cinema, até que a reformulação radical de Nolan viesse para salvar o personagem.
A trama acompanha o surgimento dos vilões Sr. Frio (Arnold Schwarzenegger) e Hera Venenosa (uma deslocadíssima Uma Thurman) –há também a aparição de Bane “interpretado” pelo brutamontes insípido e inexpressivo Jeep Swenson, o que reduz o personagem à um mordomo truculento, longe do significado imposto por Tom Hardy ao personagem em “Batman-O Cavaleirodas Trevas Ressurge” enquanto pequenas desavenças minam o relacionamento entre Batman (agora George Clooney no lugar de Val Kilmer...) e Robin (Chris O’ Donnell, cada vez mais irritante no papel), dando oportunidade para a origem de uma nova heroína, Batgirl (Alicia Silverstone, inadequada como atriz, num personagem absolutamente disfuncional, desnecessário, redundante e introduzido de forma descuidada).
O fato de não manter Val Kilmer como Batman/Bruce Wayne em seu filme seguinte já indicava uma certa irregularidade da parte de Schumacher na forma com que ele via o projeto, mas ninguém imaginava que suas idéias conduziriam a uma obra tão escandalosamente catastrófica quanto foi este “Batman & Robin”, um filme tão equivocado, tão absurdo em seu desleixo e ruindade que no making of (disponível na edição em DVD do filme) pode-se conferir o próprio diretor pedindo desculpas pelo trabalho que realizou (!).
Uma sucessão de cenas absolutamente vergonhosas: Os novos e alardeados trajes dos heróis que já contavam antes com ridículos mamilos salientes, aqui ganham cores berrantes como o roxo (no caso de Batman!) e o vermelho escarlate (no caso de Robin), além de uma iluminação de neon com muito rosa, verde a alaranjado (!); o leilão pelo corpo de Hera Venenosa, onde Batman e Robin iniciam uma imatura discussão encerrada de forma patética com o ‘bat-cartão de crédito’ (“Nunca saia da caverna sem ele!”); o Sr. Frio de Arnold Schwarzenegger usando pantufas de ursinho polar e regendo um coro entre seus capangas.
É espantoso notar que o elenco, de Schwarzenegger à Clooney, passando por todos os outros atores, abraçou a proposta do diretor e assume suas presepadas sem aparentar constrangimento.
Como se não bastasse esse erro crasso de tom, o filme ainda se revela sofrível em termos cinematográficos: Dentre todos os filmes feitos sobre o Batman, este é aquele que mais o negligencia, colocando-o em segundo e até terceiro plano (e olha que essa era uma crítica freqüentemente dirigida aos títulos anteriores).

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Fantasma da Ópera

Bom diretor Joel Schumacher nunca foi mesmo, mas houve um tempo que ele foi um bocado bem sucedido em enganar os estúdios, parte da crítica e parte do público a esse respeito –mais ou menos o período que abrange a década de 1990, que ele iniciou fazendo dois daqueles que são, até hoje, alguns de seus mais satisfatórios trabalhos (os bons “Linha Mortal” e “Um Dia de Fúria”) e que ele terminou sob uma oscilante consagração proporcionada pelo claudicante “Batman Eternamente”, logo seguido do vazio e burocrático (mas inexplicavelmente, bastante amado por alguns admiradores) “Tempo de Matar” –aquele com Sandra Bullock e que revelou Matthew McConaughey... –para, então lançar o catastrófico “Batman & Robin” (tido como um dos piores filmes de toda a História, e com méritos!), e toda e qualquer consideração que ele tinha como cineasta ir pelos ares.
Desde então, Schumacher passou as décadas seguintes buscando uma espécie de redenção, experimentando com todos os gêneros –mas, principalmente procurando um afastamento do esquema hollywoodiano dos grandes estúdios, através de produções de baixo orçamento e maior liberdade criativa como o policial “Oito Milímetros”, o drama de guerra “Tigerland”, o suspense “Por Um Fio”, o drama “Ninguém É Perfeito”, e por aí vai.
Todos passam longe de ser aquele absurdo mal-filmado que manchou sua carreira (exceto “Em Má Companhia”, de 2002, com Anthony Hopkins e Chris Rock, esse é ruim mesmo!), mas nenhum deles revela-se uma obra capaz de resgatar-lhe qualquer moral como realizador.
Ao longo desses anos em que buscou provar sua competência aos outros (e talvez a si mesmo), veio a ser a esplêndida adaptação da peça musical de Andrew Loyd Webber que provavelmente revelou-se o melhor filme de sua irregular carreira –e ironicamente, um dos poucos casos de superprodução que ele realizou para um grande estúdio.
Entretanto, “O Fantasma da Ópera” pulsa de um ímpeto artístico sobrepujando as tendências comerciais, o quê remete muito àqueles grandes trabalhos feitos à moda antiga.
Cantora do coral da famosa ópera de Budapeste, Christine (a inebriante Emmy Rossum) sonha em tornar-se estrela e diva, e também ser reconhecida por seu talento, no que é auxiliada por um admirador das sombras, o misterioso "fantasma da ópera" (Gerard Butler, anos antes da consagração com “300”, mas já ostentando carisma), a quem ela dá inocentemente a alcunha de "anjo da música".
Mas o "fantasma" (na realidade um homem desfigurado que aprendeu na rejeição do mundo exterior a manipular os bastidores como um ilusionista e fez dos túneis e passagens secretas da ópera, o seu reino) deseja que em troca dessa consagração Christine lhe dê seu amor, o quê aparentemente ela já prometeu a um jovem amor da infância (Patrick Wilson que, apesar dos esforços, não se sai muito bem no embate com Butler).
Musicado, com imensa lealdade em abraçar por completo um gênero que já não é mais moda, imodesto em suas três horas de duração, e plenamente confiante no deslumbre visual que seus altos valores de produção conferem (figurinos, cenários e direção de fotografia são de um primor sem fim) é um filme que pede pela entrega irrestrita do público, tal e qual uma grande história de amor. A grande diferença é que Joel Schumacher desta vez –talvez, fruto das pra lá de mal-sucedidas experiências do passado –não ludibria o expectador com um equívoco: Ele faz em “O Fantasma da Ópera” aquilo que promete, amparado em méritos reais e não em imbecilidades; Emmy Rossum é charmosa de verdade, como também é de verdade a voz modulada e poderosa que ela demonstra nas músicas (ela realmente estudou canto); Gerard Butler é um grande protagonista, viril, dilacerado e ao mesmo tempo cativante e sórdido. São escolhas que transformam o filme em um deleite para além da exuberância óbvia que teria um projeto assim.
Depois disso, Schumacher ficou três anos sem filmar, entregou o mediano terror “Número 23”, e mais alguns outros exemplares sem expressão, atualmente, dedica-se a alguns trabalhos de TV.