Mostrando postagens com marcador Tim Burton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tim Burton. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de setembro de 2024

Os Fantasmas Ainda Se Divertem


 Existem complicações inerentes ao fato de se tentar realizar uma continuação de um cult-movie: Primeiro, porque muito provavelmente, as razões que o tornaram cult vão além da mera competência técnica e artística, sendo mais uma conjunção de fatores favoráveis e incomuns; segundo, porque muitas vezes, tal produção pertence à um tempo (anos 1980, no caso) e à um contexto que não se pode reproduzir espontaneamente; e terceiro, porque cult-movies costumam ser encontrados por seu público de uma forma que dificilmente acaba se repetindo.

Embora pertinentes, essas questões se tornam menores diante deste brilhante “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, e tudo isso graças ao nome de Tim Burton atrás das câmeras –ele, que jamais abriu mão de seu estilo ao longo de quase quarenta anos de carreira, entendeu que somente preservando os mesmos elementos que em 1988 fizeram a originalidade palpitante do divertidíssimo “Os Fantasmas Se Divertem” seria possível conceber uma continuação digna e sólida.

E –vejam só! –ele de fato conseguiu: O novo “Beetlejuice” começa mostrando a rotina da personagem de Winona Ryder, Lydia Deetz, que no filme original era uma adolescente: Agora, atriz e personagem estão na idade madura, Lydia possui um programa de TV que, de maneira sensacionalista, explora as capacidades sensitivas que ele descobriu no primeiro filme. Sua filha, Astrid (Jenna Ortega) tem a mesma idade que Lydia tinha na época do filme anterior, no entanto, diferente da mãe, ela faz lá seus esforços para se adaptar –o que leva mãe e filha a terem seus eventuais conflitos, principalmente, porque Astrid não acredita nos dons sobrenaturais da mãe (se ela pode comunicar-se com os mortos, conclui a jovem, então por que nunca conseguiu estabelecer contato com o falecido pai de Astrid?) e disso se ressente. Um acontecimento inesperado acaba por reunir as três gerações de mulheres da Família Deetz –Astrid, a filha, Lydia, a mãe, e Delia (Catherine O’Hara) a madrasta de Lydia –na mesma casa do filme original: Charles, pai de Lydia e marido de Delia, morreu de forma um tanto caricata num acidente de avião (mostrado em animação stop-motion) e seu funeral se sucede na mesma casa, na cidadezinha de Winter River, em que os eventos anteriores ocorreram. O roteiro até que engenhoso de Miles Millar e Alfred Gough consegue assim justificar uma espécie de ausência do personagem outrora vivido por Jeffrey Jones (de “Curtindo A Vida Adoidado”) sem precisar descartá-lo pela força das circunstâncias (em 2002, ele foi judicialmente incriminado de pornografia infantil).

Mas, é claro que, uma vez que toda essa trupe reaparece em Winter River, a estrela principal haveria de dar as caras também: Beetlejuice, a assombração de aluguel, vivido de maneira impagável por Michael Keaton, volta mais uma vez para tumultuar a rotina dos Deetz. Ou não... quando Astrid se mete numa encrenca de proporções literalmente sobrenaturais, Lydia não tem outra escolha senão chamar aquele que ela tentava evitar à todo o custo desde que chegaram –ela pede ajuda ao próprio Beetlejuice que, obviamente, tem lá o seu preço a cobrar: Com uma ex-esposa maligna e sugadora de almas à solta, Delores (interpretada pela italiana Monica Bellucci, atual namorada de Burton) responsável inclusive pela morte de Beetlejuice uns seiscentos anos atrás (!), ele precisa forjar com Lydia o mesmo pacto do primeiro filme, no qual, ao casar-se com ela, ele poderia voltar ao mundo dos vivos. No encalço de Beetlejuice, de Delores e de todo esse pessoal, está ainda Wolf Jackson (Willem Dafoe, hilário) um ator morto, tão convicto do personagem que morreu interpretando que, mesmo no além, ainda age como um detetive –e é obedecido por subalternos como se fosse um!

Tim Burton está, portanto, afiadíssimo em “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, levando todos esses personagens, e muitos outros mais à interagir incessantemente numa trama de idas e vindas vertiginosas, possivelmente, a melhor mescla de comédia pastelão e homenagem macabra ao terror que Burton conseguiu urgir nas últimas décadas.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Wandinha - 1ª Temporada


 Desde os primórdios, a cultura pop sempre teve o hábito de canibalizar a si mesma. Podemos tomar como exemplo esta série de sucesso da Netflix: Os personagens da “Família Addams” foram introduzidos ao mundo pela primeira vez, por seu criador, o cartunista Charles Samuel Addams em 1932 na revista The New Yorker, depois migraram para outras mídias –quadrinhos, animações televisivas, séries live-actions de TV –até chegarem aos cinemas, primeiramente, em um filme de 1977, não muito bem-sucedido, e no longa-metragem de 1991, maravilhosamente bem-realizado pelo diretor Barry Sonnenfeld, tanto que logo ganhou uma continuação em 1993. De lá pra cá, outras versões se seguiram, inclusive uma recente animação, mas é, de longe, com os dois longa-metragens de Barry Sonnenfeld que esta série mais dialoga em termos de estilo e narrativa.

Para a direção (pelo menos, da maior parte de seus oito episódios) foi recrutado o esteta Tim Burton que, convenhamos, sempre foi a pessoa mais adequada para lidar com o material: Sua identidade visual, com pendor apaixonado pelo sombrio e por elementos que remetem ao Halloween, e seu gosto indiscutível por criaturas oriundas do horror fantástico caem como uma luva à proposta da série.

Nos filmes, a garota Wandinha Addams (lá, coadjuvante, aqui, por uma astuciosa manobra a fim de atrair o público adolescente, protagonista) era interpretada, com bastante propriedade por Christina Ricci (dona, aqui, de um papel de considerável destaque), na série concebida pela Netflix, quem assume o papel de Wandinha é a jovem Jenna Ortega, que embora tenha 20 anos vive uma personagem com 16 anos de idade; nos filmes, Christina Ricci viveu Wandinha (ou Wednesday, no original) com 11 anos (em 1991) e 13 (em 1993), todavia, aqui na série, a faixa etária da personagem foi elevada na intenção de tornar propício toda sorte de narrativa jovem a envolver até mesmo flertes românticos e outras peculiaridades –é, afinal, a cultura pop canibalizando a si mesma como comentado acima.

Do alto das celeumas eventuais da adolescência –ainda mais problemáticas devido à sua inclinação radical à morbidez, ao comportamento gótico e sombrio, e à uma atitude incontornavelmente antissocial –Wandinha Addams, filha mais velha do casal Gomez e Mortícia Addams (Luis Gusmán e Catherine Zeta-Jones, ambos pontas luxuosíssimas) é despachada da escola convencional em que estudava –na qual, ao vingar-se de um bullying sofrido pelo irmão, jogou piranhas na piscina dos atletas de natação (!) –para a pouco ortodoxa Nevermore High School, lugar frequentado exclusivamente por indivíduos assim chamados ‘excluídos’ justamente por possuírem, todos, alguma particularidade macabra com um pé no sobrenatural.

Uma vez lá –e absolutamente à contra-gosto –Wandinha ensaia uma tentativa de se adaptar ao lugar; o que inclui sessões de terapia com a psicóloga local Dra. Kinbott (Riki Lindhome, de “A Troca”) e a marcação cerrada da diretora Weems (Gwendoline Christie, de “Jogos Vorazes-A Esperança”). Contudo, a razão pela qual Wandinha termina realmente ficando é o fato de inesperadas mortes começarem a se suceder nas redondezas. Aparentemente há um monstro à solta, e os preconceituosos da região, entre os quais, o próprio xerife local (Jamie McShane, de “Garota Exemplar”), estão ávidos por apontar os dedos na direção dos estudantes de Nevermore. Cabe, portanto, à Wandinha a tarefa de empregar suas habilidades dedutivas e seu raciocínio lógico –únicas características que a fazem demonstrar um mínimo de interesse na interação humana –para desvendar esse mistério e descobrir quem está por trás das ações do monstro e porque.

No decurso dessa investigação a la Scooby-Doo, Wandinha acaba também esbarrando em inevitáveis dilemas de natureza adolescente como as idas e vindas na sua amizade com a colega de quarto Enid (Emma Myers), a interação, ora cheia de camaradagem, ora carregada de antagonismo, com os demais ‘excluídos’; e o inusitado triângulo amoroso entre ela, o hesitante Xavier (Percy Hynes White) e o filho do xerife, Tyler (Hunter Doohan). Outros personagens, diretamente relacionados às criações de Charles Samuel Addams que também marcam presença são Mãozinha (um prodígio dos efeitos visuais da série) e o Tio Chico (Fred Armisen, de “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”), fazendo participação especial em um dos episódios.

Unindo habilmente o teor macabro com o humor negro –mescla tão habitual e orgânica na obra de Burton –a série não esconde o direcionamento convicto às platéias mais jovens, às quais certamente não incomodarão as pouco apropriadas inserções de romance juvenil e drama adolescente na narrativa. Se na maior parte do tempo tudo em “Wandinha” flui com desenvoltura e relativa graça, isso se dá, em grande medida, ao ótimo trabalho do elenco em geral e de Jenna Ortega em particular, tirando de letra uma atuação à qual, por muito tempo esteve associada a própria Christina Ricci como uma intérprete perfeita: A Wandinha de Jenna Ortega entrega o mesmo desdém soturno pelas balbuciantes nuances da interação humana, aparentando uma flagrante inexpressividade, mas, abrilhantada por uma atuação que não deixa de evidenciar ao expectador as sutis mudanças internas de humor da personagem e, no que pode ser visto quase como um milagre, mesmo diante de uma perene apatia, conquistar o público com um insuspeito carisma.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Planeta dos Macacos


 Em algum momento, no largo espaço de tempo entre os filmes iniciados pelo clássico “Planeta dos Macacos”, de 1968 (cujo último exemplar, “A Batalha do Planeta dos Macacos”, foi lançado em 1973) e a nova e aclamada trilogia ‘estrelada’ por Andy Serkis como um símio digital –cujo capítulo final foi o excelente “O Planeta dos Macacos-A Guerra” –os estúdios da Fox tentaram realizar uma refilmagem do filme que iniciou toda essa mitologia.

A verdade é que durante muito tempo a Fox acarinhou um novo projeto –datam ao longo de toda a década de 1990 relatos de um contrato envolvendo o astro Arnold Shcwarzenegger no papel que antes havia sido de Charlton Heston. Como costuma ocorrer com produções endinheiradas demais e que envolvem agendas de astros requisitados, o novo “Planeta dos Macacos” não somente sofreu inúmeros atrasos como transformou-se radicalmente a medida que se revezavam diretores e atores principais em seu comando.

O filme que por fim chegou às telas de cinema naquele já longínquo ano 2000 aparentava ser quase uma repaginação do original com Charlton Heston –onde ele vive um astronauta que cai num planeta Terra povoado por macacos evoluídos –entretanto, mudanças que dizem respeito às mentes criativas por trás do projeto, converteram a aventura espacial em outra coisa; algo que, visto hoje e desprovido de qualquer continuidade que lhe amarrasse as pontas soltas, soa ainda mais incoerente do que em sua época.

Na direção –que, por muito tempo, cogitou-se James Cameron e Oliver Stone em suas especulações –quem disse sim ao estúdio acabou sendo o esteta Tim Burton que, num lance até surpreendente, construiu um filme de aventura, convencional e genérico em suas características autorais. Este “Planeta dos Macacos” é um dos trabalhos em que menos se percebe a assinatura visual de Burton, inconfundível em projetos como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”.

No papel protagonista do astronauta Leo Davidson, entra Mark Whalberg, uma escolha que parece absolutamente aleatória. Seguindo os passos do filme original, Davidson vive numa estação espacial em órbita de um vortex. Um dos macacos adestrados do lugar, chamado Pericles, é despachado numa nave e acidentalmente acaba sugado pelo vortex, levando Davidson à segui-lo a fim de resgatar o pobre animal, contudo, por uma série de tortuosas viagens no tempo (mais ainda tortuosas pela trama pouco convincente que originam), ele cai num planeta onde o macaco Pericles em questão caiu séculos antes dele (!), e a partir desse macaco, o patriarca, digamos assim, toda uma sociedade de macacos aflorou e se desenvolveu convertendo os humanos em seus escravos.

Uma trama muito semelhante à do primeiro filme que, no entanto, troca sua objetiva ficção científica por uma embromação pretensamente intrincada.

Ainda assim, é no planeta dos macacos, propriamente dito, que o filme de Burton revela suas duas maiores forças: A primeira –se é que depois de tanto tempo isso vem a importar –é a prodigiosa maquiagem, como tinha que ser, onde a parcela do elenco encarregada de personificar os símios tem seus rostos transformados pela autenticidade animal. Se a maquiagem já era um fator de assombro no clássico de 1968, aqui, neste filme de 2001, à cargo do mago das próteses Rick Baker (de “Um Lobisomem Americano em Londres”). ela é espantosa, convertendo rostos famosos, como Helena Bonhan Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Kris Kristofferson, Cary Hiroyuki-Tagawa e até mesmo o próprio Charlton Heston (numa ponta referencial e especial) em perfeitos símios; e ainda assim, tal arrojo já soava anacrônico naquela época –naquele ano, ele perdeu o Oscar de Melhor Maquiagem (ao qual nem foi indicado!) para “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” –justificando a mudança de ênfase, da maquiagem para os efeitos realísticos da captura de performance na tentativa seguinte, e mais bem-sucedida, de retomar a franquia.

O segundo grande trunfo do filme de Burton, termina sendo seu formidável vilão, o General Thade interpretado por Tim Roth, compreensivelmente irreconhecível debaixo de tanta maquiagem, mas cujo talento ainda foi capaz de moldar um antagonista complexo, raivoso, ameaçador e plenamente convincente na pele de um macaco autoritário, agressivo e déspota. O tirano, enfim, que captura Davidson junto dos outros humanos, sem dar-se conta de que será ele e seus conhecimentos extraordinários de humano evoluído, que iniciará uma insurreição onde os humanos tentarão escapar do jugo dos macacos.

É o General Thade, inclusive, o responsável pelo desfecho desconcertante, enigmático e francamente incompreensível do longa, elaborado claramente para competir em choque e surpresa com a revelação clássica na qual o planeta dos macacos é o Planeta Terra ao mostrar a cena desoladora da Estátua da Liberdade destroçada: Ao fim, Davidson usa de sua nave para partir desse novo planeta dos macacos (que NÃO era a Terra!) e volta ao nosso planeta, incerto quanto aos rumos que suas estripulias temporais efetuaram no futuro. Ao aterrissar, ele se depara com um mundo moderno (cai, por exemplo, em plena Washington dos dias atuais), entretanto, não são os humanos quem habitam esse mundo; são os macacos! Na última cena, pouco antes do filme de Burton nos abandonar sem quaisquer explicações plausíveis para o que aconteceu (sem nenhuma mesmo, visto que qualquer continuação que, por ventura, viesse a fornecer tal explicação jamais foi realizada), vemos a estátua de Abraham Lincoln no Lincoln Memorial, numa versão símia, e ali, quem está nela é o próprio General Thade.

Hoje, há quem aprecie o “Planeta dos Macacos” de Tim Burton –como há quem aprecie toda e qualquer obra que adquire algumas décadas de existência a medida que os expectadores aprendem, com o tempo, a focar nos seus pontos positivos que, neste caso, são as cenas de ação (elemento curioso para se destacar num filme de Burton), seu senso de aventura, suas características técnicas bem empregadas e a formidável tensão proporcionada por seu antagonista. Ainda que as analogias fornecidas pelo trabalho de Burton –e que sempre foram os objetivos subliminares desse brilhante conceito –tenham aqui soado mais caricatas do que alegóricas.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas


 O que é a memória? Certamente, no âmbito do cinema, essa pergunta encontra as mais ambíguas respostas. Para Federico Fellini, em seu antológico “Amarcord”, a memória é um filtro através do qual a nostalgia e o romantismo modificam o passado. Já, para Tim Burton, ou mais especificamente para seu protagonista em “Peixe Grande”, a memória é uma via de mão dupla por onde transcorrem verdades e mentiras a confundir até mesmo as convicções do próprio narrador. Com efeito, é em tais memórias –ou nas histórias contadas na qualidade de memórias –que “Peixe Grande” se transfigura, em termos reconhecidamente visuais, num filme de Tim Burton de fato; no mais, a narrativa discreta e austera emula, antes disso, um filme mais convencional e pé no chão, distinguindo estilisticamente o que é conto do que é fato.

Essa tentativa de separar o joio do trigo começa com o já idoso Edward Bloom (o sensacional Albert Finney), um contador de histórias nato –são notórias as narrações de suas aventuras malucas, entre as quais, aquela na qual pescou um peixe de tamanho descomunal.

Seu ouvinte mais desconfiado é e sempre foi seu filho William (Billy Crudup). Com idade adulta, William dá um basta nas historietas do pai –e na pressuposição de que, sendo elas mentiras, então ele nunca o conheceu de fato –e sai de casa.

Eles se reencontram anos depois, quando Edward fica doente, levando o filho a voltar ao convívio com o pai. Contudo, agora William quer descobrir a verdade por trás de todas aquelas histórias fantásticas. E é aí –no regresso ao passado idealizado –que “Peixe Grande” dá asas aos delírios de seu diretor.

No passado, acompanhamos Edward (vivido na aventureira juventude por Ewan McGregor) em suas peripécias pelos EUA, quando era vendedor itinerante, ofício que permitiu-o viajar e descobrir preciosidades como uma cidade escondida dentro de um pântano; um circo administrado por um lobisomen (Danny De Vitto); e o amor de sua vida (vivido por Allison Lohman, quando moça, e pela bela Jessica Lange, na idade avançada).

É nessa dicotomia visual entre a história que aconteceu e a história como ela foi contada que residem não só os grandes méritos artísticos e estéticos do filme de Burton, como também suas mais profundas reflexões: O passado, transmutado por uma vasta imaginação, se torna assim um sonho; e não é o sonho, afinal, bem mais agradável que a árdua e decepcionante vida real?

É essa a pergunta que, em dado ponto, o filme de Burton parece fazer ao público: Há algum mal em temperar os acontecimentos medíocres de outrora com uma melodia e uma poesia que os converte em pura fascinação? Que crime há nisso?

A narrativa de Tim Burton desvencilha-se habilmente do fato de que enaltece o ato da mentira com um filme visualmente sedutor, e uma trama sobre o resgate da relação pai e filho cujas propriedades tem o genuíno poder de encantar o expectador.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Tim Burton é um autor cuja percepção de espetáculo vai na contra-mão do óbvio. Ainda que compreenda o que gere o cinema comercial –seus filmes mais acessíveis, como “Batman” ou a refilmagem de “O Planeta dos Macacos”, não se isentam de ação formulaica e formatos narrativos pré-estabelecidos –suas obras, sobretudo, as mais pessoais, trazem sempre os elementos nos quais ele enxerga particular fascínio; e que não correspondem a um paladar considerado convencional.
“Sweeney Todd” é, talvez, a obra na qual isso se percebe com mais radicalismo.
Baseado numa peça musical de autoria de Stephen Sondheim, inspirada por sua vez no livro homônimo publicado por Thomas Peckett Prest, em 1846, o filme é ambientado no Século XIX e inicia-se quando o soturno ex-barbeiro Benjamin Baker regressa à sua Londres-natal após quinze anos enclausurado na cadeia.
Baker é um personagem sombrio a quem o astro Johnny Depp (na sua quinta colaboração com o diretor) confere entusiasmo e interesse inquestionáveis –como Burton, ele é fascinado pelo bizarro, pelo tortuoso e pelo estranho, e ambos dedicaram muito de suas carreiras a perseguir personagens e histórias que refletissem essa fascinação.
Baker, descobrimos, é um alma torturada pelos rumos trágicos de seu passado: Outrora um barbeiro feliz, casado e apaixonado com esposa e filha pequena, Baker foi acusado de um crime que não cometeu e trancafiado numa prisão, apenas para que o autor de todo seu tormento, o invejoso Juiz Turpin (o saudoso Alan Rickman), pudesse desposar de sua esposa (Laura Michelle Kelly), seu objeto de desejo desde sempre.
Quinze anos depois, sua esposa está morta –envenenou-se, dizem –e sua filha, Johanna (Jayne Wisener), agora uma jovem mulher, é a protegida do Juiz, e a medida que sua formosura se consolida, torna-se também, ela própria, o novo objeto de desejo dele.
Munido assim de outra identidade –ele agora se chama Sweeney Todd –o desafortunado protagonista reabre seu salão de barbearia na miserável Rua Fleet, bem em acima da loja de tortas da Sra. Lovett (Helena Bonham Carter, esposa de Burton) que amarga a pobreza porque suas tortas não atraem freguesia.
Sweeney Todd, entretanto, não deseja meramente voltar a ser um barbeiro: Ele quer encontrar um meio para vingar-se do Juiz Turpin, e isso toma cada pensamento seu.
Esses desenlaces, explicações e motivações até ocupam certo espaço na narrativa de Burton, mas ele não lhes dá maior atenção: Todo seu empenho está dedicado nas engrenagens que transformarão Baker em Sweeney Todd, ou seja, em um autêntico arquétipo de um filme de terror: Com sua nova identidade, ele passa a assassinar sistematicamente seus clientes, cortando-lhes a garganta com suas navalhas afiadas. E a essa metamorfose, Burton não faz nem mesmo questão de acrescentar realismo –como na peça da qual se inspira, “Sweeney Todd” é, apesar de suas nada disfarçadas facetas macabras, um musical (!).
Canção após canção, “Sweeney Todd” conduz assim o público através dessa miscelânea disfuncional de gêneros: Acompanhamos um musical de fato –assolado, inclusive, pelo grande problema de muitos musicais, onde a narrativa praticamente é interrompida durante os números de música para só seguir em frente depois que eles acabam –com intervenções de uma sub-trama de romance –o jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower) se apaixona por Johanna a ponto de querer livrá-la do juiz, seu captor –mas, o que confere textura ao filme é o sarcasmo rasgado presente nos desdobramentos que cercam Todd e a Sra. Lovett, seus personagens principais; Numa combinação que coloca claramente qualquer bom-senso de lado, o barbeiro ganha a cumplicidade de sua locatária para matar indiscriminadamente enquanto ela usa a carne fresca dos cadáveres de suas vítimas para rechear suas tortas. Condimento misterioso que transforma sua loja num súbito sucesso gastronômico.
Há esse viés de divertimento presente em toda obra de Burton, onde ele estranhamente compartilha um insuspeito prazer em acompanhar circunstâncias tão tenebrosas. E, com isso, está em jogo também o elemento mais diferencial de sua filmografia, algo que sempre impede suas obras de serem filmes de terror com todas as letras: Uma percepção artística, dotada de humor negro, pantomina, teatralidade e até certa idealização, na qual o horror, a escuridão e a morte ganham contornos quase lúdicos, como numa brincadeira infantil.
Burton é assim, a eterna criança que brinca com seus próprios pesadelos ao invés de nutrir medo deles.
É possível, no entanto, afirmar que, ao contrário de realizações singulares como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Ed Wood”, “Os Fantasmas Se Divertem” e sua obra-prima “Edward-Mãos de Tesoura”, aqui Burton perdeu um pouco a mão: Os elementos violentos e sanguinolentos se intensificam tanto que é difícil afirmar a qual público “Sweeney Todd” se dirige –e tal público se torna mais difícil de ser encontrado diante do fato de que ele é também um musical.
A despeito do poder avassalador das imagens –a concepção visual é um fator no qual Burton só melhora –“Sweeney Todd” nunca tenta evitar os rumos profundamente fatalistas em sua trama que conduzem a um final amargo mesclando ironia, tragédia e esquartejamento.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Dumbo

Um dos responsáveis pela inauguração do filão de adaptações em live-action dos clássicos animados da Disney, com “Alice No País das Maravilhas”, o diretor Tim Burton retorna ao, vamos dizer, sub-gênero que ajudou a criar com esta versão com atores de carne e osso de “Dumbo”.
Ao contrário de produções que tentaram revisionar obras consagradas mas ainda relativamente contemporrâneas, como “A Bela e A Fera” e os posteriores “Aladdin” e “O Rei Leão”, Burton sabiamente optou por revisitar um trabalho do passado –como também o fez Jon Favreau em “Mogli-O Menino Lobo", talvez, o melhor filme dessa categoria até então –beneficiando sua realização não somente com a repaginação técnica da trama e de suas sequências assim reproduzidas e resgatadas, mas agregando valores culturais que não estavam em voga na época da animação original –datada de 1941 –como, por exemplo, o politicamente correto: O “Dumbo” original é notório, entre outras coisas, por uma representação de cunho desprezivelmente racista observada na caracterização de um grupo de corvos.
Tal e qual em ambos os casos (desenho e filme), Dumbo é o filhote de elefante completamente rejeitado pelo dono do Circo Medici (Danny De Vito) no qual nasceu e ao qual pertence. O motivo: O filhote tem imensas orelhas nas quais vive tropeçando ao caminhar.
As primeiras mudanças no filme de Burton –bastante necessárias –surgem já no núcleo de protagonistas: A animação tinha, quando muito, humanos inexpressivos e pouco relevantes à história. Aqui, é pelo olhos das duas crianças, a menina Milly (Nico Parker) e o garoto Joe (Finley Hobbins), que vemos a trajetória de Dumbo se desenvolver.
Os dois são filhos de Holt Farrier (Colin Farrell), outrora um astro do circo como cowboy e domador de cavalos, mas relegado a função de cuidador de elefantes após voltar mutilado –sem um dos braços –da Primeira Guerra Mundial.
É essa família quem adota Dumbo quando todos os outros mais, incluindo o Sr. Medici, tentam livrar-se dele e afasta-lo de sua mãe.
Entretanto, Milly e Joe descobrem uma particularidade em Dumbo: Suas grandes orelhas permitem a ele a capacidade inesperada de voar!
E eis que o filme de Burton, numa estrutura narrativa mais bem resolvida diante da fonte original, toma a deliberada decisão de começar de fato onde a animação terminava: No original, Dumbo descobria só perto do fim o dom de voar e sua transformação em estrela no circo representa assim a redenção alcançada por meio do sucesso.
Já aqui, atingir o estrelato significa, para o elefantinho, o início de suas desventuras. A fama singular de um elefante que voa atrai para perto do Sr. Medici alguém infinitamente mais ambicioso e inescrupuloso, o Sr V.A. Vandemere (Michael Keaton, minimalista em sua vilania), proprietário de um circo de última geração, luxuoso e sofisticado –quase uma espécie de versão sombria de Walt Disney. Ele enreda o Sr. Medici em suas artimanhas e inclui Dumbo em seu próprio espetáculo a fim de ve-lo num número acrobático com sua esposa, a malabarista Colette (a francesa Eva Green, presente nos últimos três filmes de Burton).
Para garantir que tal achado não escape de suas garras, Vandemere pretende afastar Dumbo de sua mãe definitivamente, nem que para isso tenha de sacrificar o animal.
É pois o reencontro de Dumbo com sua mãe, e posteriormente a fuga dos dois para um lugar livre e natural, o objetivo enquanto final feliz da narrativa, algo que não era sequer esboçado na animação de 1941, mas era visto como imprescindível neste filme pelo público ainda durante sua pré-produção; e o diretor Burton, ao lado do roteirista Ehren Kruger (de “Transformers 2-A Vingança dos Derrotados”) foram de encontro à essas expectativas ecológicas.
Um trabalho de encher os olhos em função dos vastos efeitos visuais –aspecto no qual as adaptações em live-action dos clássicos da Disney parecem encontrar seu ponto forte e principal –e embevecido de decisões narrativas que recolocam a trama no elefantinho de orelhas grandes em um novo e certamente mais válido contexto para as novas gerações, “Dumbo”, no conformismo de exibir seu vistoso aparato técnico, é uma produção onde Tim Burton faz aquilo que se espera dele em termos estéticos –e isso já pode ser visto como êxito –embora falhe ao atingir picos de intensidade e de genialidade e nem tampouco alcance o patamar de reconhecimento artístico à época conquistado pelas animações que a Disney agora quer reformular.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

9 - A Salvação


Indicado ao Oscar 2006 de Melhor Curta-Metragem de Animação, o jovem diretor Shane Acker ganhou inesperados entusiastas de sua obra –os diretores Timur Bekmanbetov (de “Guardiões da Noite”) e Tim Burton –que se apresentaram a ele, como produtores dispostos a viabilizar uma expansão de seu trabalho em forma de um longa-metragem de animação.
Assim surgiu este curioso e notável “9-A Salvação”, lançado em 2009.
Corajosamente contrariando a proposta do curta –cuja trama se desenvolve se diálogos baseada em gesto e pantomina –o longa agrega vozes de atores famosos aos seus personagens o quê atribui a cada um deles as características humanas e particulares de seus dubladores.
O protagonista 9 (voz de Elijah Wood) é, como todos os outros, uma mescla de boneco de brinquedo com andróide. Sua lembrança é de acordar num laboratório em meio a um mundo devastado.
E a recriação desse mundo –uma espécie de universo cyberpunk pós-apocalíptico retrô –sinaliza mais à percepção dos adultos que à das crianças: A narrativa de Shane Acker não esconde o fatalismo e as consequências contundentes da guerra.
No contexto em que o curioso robozinho está inserido, o mundo –numa cronologia situada provavelmente nos anos 1940 –sucumbiu por completo à guerra. Os homens projetaram armas (inclusive biológicas) com tanto afinco para combater uns aos outros que, em algum momento, esses maquinários adquiriam autonomia e se voltaram contra os humanos.
O mundo no qual o pequenino 9 acorda já não tem mais seres humanos –quando muito, são cadáveres que surgem corajosamente em meio aos escombros sem fim.
Logo, 9 descobre outros andróides como ele: O primeiro a encontrar é o sábio 2 (voz de Matin Landau), em seguida, ele conhece toda uma comunidade controlada pelo paranóico e irritadiço 1 (voz de Christopher Plummer) sob o jugo truculento de seu braço-direito 8 (Fred Tatasciore) e os delírios inexplicáveis de 6 (voz de Crispin Glover).
Quando 2 é capturado por uma das tenebrosas máquinas de destruição que patrulham a terra, 9 parte ao lado de 5 (voz de John C. Reilly) para salvá-lo. Acaba descobrindo os renegados restantes de sua espécie: A corajosa e intrépida 7 (voz de Jennifer Connelly) e os inteligentes ainda que ininteligíveis 3 e 4.
Junto as informações que cada um tem –e buscando sempre escapar do encalço mortal da grande máquina que os persegue –os pequenos andróides tentam elucidar o grande mistério de sua origem e de como isso pode representar a última esperança para a Terra num plano elaborado pelo cientista que os criou.
Uma alternativa bastante interessante às animações genéricas, festivas e pueris, carregada de um estilo incomum e bem administrado.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Os Fantasmas Se Divertem

À época da realização deste filme, Tim Burton ainda não havia experimentado o auge mercadológico da indústria (como em “Batman”), o ápice criativo de seu estilo (como em “Edward-Mãos de Tesoura” ou “Ed Wood”), e nem adquirido qualquer experiência como cineasta que, para o bem e para o mal, converteu seu estilo também numa espécie de fórmula (como em “Sombras da Noite” ou “O Lar das Crianças Peculiares”).
Em “Os Fantasmas Se Divertem” temos, portanto, um Tim Burton em estado puro no que tange à sua conexão com o moleque de 12 anos fascinados por monstros e filmes de terror que ele declaradamente sempre usou como inspiração.
Neste filme podemos conferir Burton tateando a narrativa em busca de uma voz, e por isso ele tenta de tudo (e exagera em tudo): Quando precisa de comédia, ele elabora cenas rasgantes de tão hilárias –a seqüência do jantar musical é, por isso mesmo, inesquecível! –quando precisa do tom macabro e cartunesco que ele tanto adora, ele entrega momentos de um absurdo inacreditável, muitos deles a cargo de um irrequieto e incontrolável Michael Keaton no papel do vilão-título Beetlejuice (nem dá para acreditar ser este o mesmo ator que apenas um ano depois o próprio Burton chamaria para viver o sisudo e elegante herói de “Batman”).
Beetlejuice é, por assim dizer, uma espécie de assombração de aluguel; ele dispõe seus serviços tenebrosos aos fantasmas inexperientes que desejam enxotar os vivos de suas antigas residências.
É o caso de Barbara e Adam Maitland (Geena Davis e Alec Baldwin), um jovem e adorável casal que, por ironia do destino, veio a sofrer um acidente de carro em uma ponte (ao qual Burton dá todas as características de um acidente de desenho animado) e, falecidos, se tornaram fantasmas da casa que antes moravam.
Um ano depois, a casa recebe novos moradores, os Deetz, e Beetlejuice surge assim como uma opção para que possam aterrorizá-los e ficar com a casa novamente para eles.
Mas, o casal Deetz (interpretado por Catherine O’ Hara, de “Esqueceram de Mim” e Jeffrey Jones, de “Curtindo A Vida Adoidado” e “Amadeus”) tem uma filha, a desajustada, gótica, porém, encantadora Lydia (Winona Ryder, num papel que, a despeito de ser feminino, remete ao próprio Burton), que termina se afeiçoando aos dois fantasmas –talvez, justamente por sua pouca adequação com os vivos.
Se existe a possibilidade dessa premissa soar dramática e sombria, isso ocorre apenas na teoria: “Os Fantasmas Se Divertem” mesmo que abraçando por completo todas as suas nuances macabras é uma comédia assumida e deslavada, onde seu realizador nitidamente se sente plenamente a vontade na retratação do fantasioso e original mundo dos mortos e algo deslocado quando registra o mundo dos vivos –e por isso mesmo, recebe dele tão pouca atenção.
Em meados dos anos 1980, tão inovadora deve ter sido essa postura enquanto gênero e enquanto cinema que muitos não souberam o que achar do filme –e como costuma ocorrer em casos peculiares assim, ele logo virou um cult.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Ed Wood

Dando continuidade ao seu propósito como cineasta de enaltecer o obscuro e o indesejado, Tim Burton optou, nesta segunda colaboração com Johnny Depp (o primeiro foi o sensacional “Edward-Mãos de Tesouras”) uma fonte inesperada: Nada de criaturas fantásticas ou seres macabros, nada de histórias fantasiosas ou tramas sobrenaturais, o tema deste filme é a vida e a carreira daquele considerado o “pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood –isso, pelo menos, até Tommy Wiseau tirar o posto de Pior Filme de Todos os Tempos de seu “Plan 9 From The Other Space” com “The Room”, mas essa é outra história...
Edward Davis Wood Jr. (vivido com maneirismo e brilho por Depp) é, como todo profissional apaixonado por seu ofício, um entusiasta. Tamanha é sua paixão que, nos percalços para conseguir realizar um filme, Wood não se dá conta da qualidade rasteira do que produz –isso para ele parece ser o de menos. E é o de menos também para o diretor Burton e para o roteiro escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski (que depois escreveriam também o ótimo “O Povo Contra Larry Flint”): Em seu relato, ganha destaque a fauna exótica e notável –e plenamente identificável com as criaturas estranhas pelas quais Burton nutre admiração –de colaboradores que Ed Wood reúne ao seu redor, que contribuem à frente e atrás das câmeras para realizar seus filmes, mas também agem como uma família disfuncional com suas peculiaridades e manias.
Entre eles, está o outrora astro Bela Lugosi, em fase decadente (personificado com irônica sensibilidade por Martin Landau, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que se torna uma presença constante em alguns dos trabalhos de Wood.
Acima de tudo, o filme é uma oportunidade para observar Burton, cujo registro cinematográfico quase sempre prima pelo fantasioso, narrar acontecimentos reais e ainda mais impregnados pela afeição em comum da metalinguagem –nesse sentido, apesar do inusitado da afirmação, “Ed Wood” é como se fosse o seu “8 e ½“: São hilárias as cenas em que Ed Wood executa suas filmagens displicentes (como quando um ator, atacado em cena pelo que deveria ser um monstro tentacular, tem de movimentar os tentáculos com suas próprias mãos), ou os erros crassos que entravam mesmo assim nos filmes (quando George Steele, um de seus atores, muito grande para interpretar um morto-vivo que sai do túmulo, entala no caixão; ele pede ajuda e dois contra-regras vão lá segurar seus braços enquanto Wood ordena ao câmera que “Continue filmando! Continue filmando!”), as descobertas das manias cada vez mais excêntricas (o hábito de vestir-se de mulher que culminou na realização de “Glenn Or Glenda”, e a resignada aceitação da esposa, vivida por Patrícia Arquette, a mais esse desvio) e até a breve cena em que ele troca uma idéia com Orson Welles (Vincent D’Onofrio), o que lhe dá motivação e inspiração para fazer o seu próprio “Cidadão Kane”; justamente o Pior Filme de Todos Os Tempos, “Plan 9 From The Outher Space” –que Wood realizou com energia e fôlego, completamente ignorante da ruindade atroz de sua produção.
Bem no fundo, Tim Burton parece se identificar com Ed Wood exatamente nisso: No fato incontornável de que o criador apaixonado não consegue quantificar o amor de seus expectadores, somente o seu próprio, durante o ato de criação.

Daí o fato de “Ed Wood” ser filmado em um belíssimo preto & branco –não há, afinal, meio-termo na concepção de uma arte como o cinema, cujo combustível é, quase sempre, o amor incondicional de seus artesões.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Na terceira parceria do incomum ator Johnny Depp com o estiloso diretor Tim Burton (antecedida por “Edward-Mãos de Tesouras” e “Ed Wood”), o foco do projeto foi uma antiga história de terror norte-americana, muito mais lembrada pelo público por um irregular curta-metragem da Disney exibido com freqüência durante o Halloween.
Todavia, o que o roteiro de Andrew Kevin Walker (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) propunha, era uma quase reinvenção da trama conhecida, para fins mais práticos: Nele, o famoso protagonista Ichabod Crane (Johnny Depp, deitando e rolando com o papel) é um astuto, porém covarde oficial de policia de Nova York –enquanto que na animação, fidelíssima à história clássica, Crane é um mero professor.
Se a ocupação muda, de certa maneira o personagem não: Na atuação minimalista e de trejeitos estudados de Depp, Ichabod Crane é, acima de tudo, um homem da ciência, daí o fato até plausível de suas investigações, mergulhadas em métodos científicos, irritarem seus superiores de arcaica mentalidade do final do Século XVIII. Como forma de propor-lhe um verdadeiro teste a fim de constatar a eficiência dos métodos de Crane, ele é então enviado à Província de Sleepy Hollow. Lá, várias mortes ocorridas (inclusive a que abre o filme numa breve participação de Martin Landau) são atribuídas a um fantasmagórico cavaleiro sem cabeça (interpretado pelo ator Christopher Walken, mas incorporado, na maior parte das cenas físicas pelo habilidoso dublê Ray Park).
Descrente, ainda que assustado (e a covardia é uma característica que, por vezes o define), o oficial Crane conduz sua investigação disposto a esclarecer o caso munido de lógica e ciência. Mas, ele cai nas malhas de uma trama rocambolesca que vai muito além da simples premissa de assombração embutida no conto e se alastra até conluios realizados entre membros da alta sociedade de Sleepy Hollow e descobre, estarrecido, que o cavaleiro sem cabeça é real, embora no final das contas, seja usado como executor de outro, e ainda misterioso, vilão.
Como ocorre em todos os exemplares de sua filmografia, Tim Burton usa seu senso formal para a construção de cenas primorosas e captura aqui uma essência específica de um elemento do seu passado responsável pela sua formação como cineasta: Em “Cavaleiro Sem Cabeça”, esse elemento responde pelos filmes sofisticados e ligeiramente irreais concebidos pelos estúdios da Hammer (Christopher Lee, um dos grandes astros desse estúdio, aparece numa ilustre ponta no início, tendo, a partir deste filme, marcado presença em praticamente todos os trabalhos de Burton). Um dos muitos aspectos aos quais Burton paga tributo –e esta obra é repleta de maravilhosos elementos visuais –é a característica peculiar daqueles filmes onde a direção de arte e a iluminação criavam uma atmosfera de tal forma etérea que não se podia distinguir o dia da noite. Ao lado de seus competentes colaboradores, Tim Burton realiza assim um filme de encher os olhos –a fotografia de Emmanuel Lubezki, o desenho de produção de Rick Heinrichs, bem como a trilha sonora de Danny Elfman, todos aspectos impecáveis que transformam este filme numa gratificante experiência cinematográfica.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Edward - Mãos de Tesouras

Era uma vez um menininho que se sentia incompleto. Seu aspecto algo soturno o tornava desajustado em meio às pessoas normais, e seus dons artísticos despertavam fascínio em alguns e desconfiança em outros. O nome desse menininho era Tim Burton.
Quando cresceu, ele aprendeu a expressar as inquietações de ser diferente através da arte que adotou como sua, o cinema, e assim surgiram filmes pessoais e peculiares como o curta-metragem “Frankenweenie” e o longa “Os Fantasmas Se Divertem”.
Após o imenso êxito que ele obteve com sua adaptação de “Batman”, em 1989, ele conseguiu viabilização dos estúdios para criar uma história que há muito tempo estava em seu coração.
Essa história se chamava “Edward-Mãos de Tesouras”.
Era sobre um rapaz construído de maneira artificial (no melhor estilo “Frankenstein”, um dos filmes prediletos do jovem Burton) por um velho inventor (Vincent Price, numa atuação tocante) que, por ironia do destino, morre antes de finalizá-lo: Exatamente quando estava prestes a substituir as tesouras afiadas que lhe serviam de mãos, por mãos humanas de verdade.
O rapaz, Edward (um jovem Johnny Depp que agarra o papel com unhas e dentes), fica então sozinho naquele castelo no alto de uma montanha, até que surge Peggy (a maravilhosa Dianne Wiest), uma vendedora da Avon que se compadece de sua solidão e o leva para sua casa.
Vivendo em sociedade, Edward atravessa por fases previsíveis: Primeiro é recebido com a euforia do ineditismo com que são tratadas as novidades, mas, depois, passa a sofrer a maledicência típica daqueles que não compreendem o diferente.
Depois de se apaixonar pela filha de Peggy, Kim (Winona Ryder, belíssima) e de ser enganado pelas mentiras do namorado dela (um vilanesco Anthony Michael Hall), ele passa a ser perseguido.
Tim Burton permite que as emoções muito pessoais –fruto de experiências que ele mesmo deve ter vivido –transpareçam em seu registro algo melancólico desse comportamento preconceituoso e mesquinho que o ser humano não raro adquire em coletividade, mas ele o faz com um senso de humor contagiante e um lirismo que afasta qualquer impressão de rancor deste seu trabalho, talvez o melhor de sua carreira.
Com “Edward-Mãos de Tesouras”, Tim Burton, afinal, encontrou a si mesmo: A partir deste filme ele enfim consolidou o estilo que já tateava com expressão em seus trabalhos anteriores e que seria a pedra fundamental para a escolha de praticamente todos os seus projetos daqui por diante; um estilo que se reflete numa forte identidade visual, obtida, sobretudo, graças aos hiperlativos valores na direção de fotografia de Stefan Czapsky, na direção de arte de Bo Welch, e na emocionante trilha sonora de Danny Elfman, provavelmente a melhor de sua carreira. Foi aqui, também que ele conheceu aquele que pode ser considerado seu ator-fetiche, Johnny Depp, aquele que melhor incorporou o alter-ego, e as expectativas autorais que saíram da mente de Burton, em filmes diversos como “Ed Wood”, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Sweeney Todd-O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” e tantos outros.
Como é sintomático em sua carreira, Burton conduz o filme à um desfecho que homenageia os filmes de monstro de antigamente que ele tanto amou, onde a criatura (Edward) era sempre vista sendo perseguida pelos moradores da aldeia até seu solitário castelo. Mas, “Edward-Mãos de Tesoura” é também um conto de fadas, e Burton não deixa que ele termine numa nota de consternação –ao fim, descobrimos que Edward é o grande responsável por criar a neve, numa forma de celebrar o mundo que ele conheceu (e no qual descobriu o amor), mas, para o qual não é seguro voltar.
Como Burton, sua criação é o artista, enfim, que expressa suas angústias e felicidades através de sua arte, e consegue o feito de embelezar um pouquinho mais o mundo com ela.

domingo, 23 de abril de 2017

Batman no Cinema

Batman
Por muito tempo, o cinema tateou na busca por uma conciliação narrativa com a linguagem dos quadrinhos. Essa busca é bastante ilustrativa quando olhamos a seqüência de filmes protagonizados pelo Batman, que ganhou, na opinião de muitos, sua personificação cinematográfica definitiva com Christian Bale, na Trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.
Bem antes disso, o público e a crítica (na verdade, bem mais o público do que a crítica) deixou-se encantar pela primeira versão cinematográfica do herói, concebida por Tim Burton e estrelada por Michael Keaton.
De um estilo peculiar e personalíssimo, Burton tinha uma visão eclética do projeto conceitual: Ao mesmo tempo em que ele via uma apropriada atmosfera sombria a relacionar-se diretamente com o personagem e o mundo que o cerca (a obscura e corrupta Gotham City) o que passou a influenciar até mesmo os quadrinhos dali por diante, embora o próprio filme de Burton deva muito à reformulação do personagem promovida na graphic novel “Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller –ele também tinha uma certa displicência para com a figura do próprio herói (visto como nitidamente desinteressante em sua narrativa) o que priorizou, neste primeiro filme, o antagonista Coringa interpretado com som e fúria por Jack Nicholson.
O vigilante sombrio e amargurado Batman (cuja origem acaba sendo pouco mais que uma recordação, longe do trabalho cuidadoso feito em "Batman Begins") torna-se quase um detalhe em meio à trama que acompanha Jack Napier (Nicholson) e a traição sofrida por seu mentor, o líder do crime organizado de Gotham City, Carl Grisson (Jack Palance), o quê leva Napier à mergulhar acidentalmente num tonel de ácido, de onde emerge já transformado no maluco homicida Coringa.
Para o Coringa, depois de matar Grisson, o controle de Gotham agora só encontra obstáculo mesmo no Batman, cuja identidade secreta, o milionário Bruce Wayne, está às voltas de um relutante romance com a repórter Vicky Vale (Kim Basinger, esplêndida), dedicada, por sua vez, a descobrir a real identidade do herói mascarado.
Um sucesso exorbitante, menos por seus valores cinematográficos e mais por sua campanha maciça de marketing, “Batman” revelou o inesperado pendor comercial de Tim Burton e uma sutil predisposição dele em deixar de lado os aspectos mais marcantes de seu estilo em função de uma colaboração com um produto de estúdio, o quê ele voltaria a fazer, anos mais tarde, na refilmagem/reinvenção de “Planeta dos Macacos”, de 2001.

Batman-O Retorno
O êxito arrebatador do filme de Burton deixava claro que, à ele, brevemente uma continuação se seguiria. Se teria Tim Burton mais uma vez na direção, aí a história era outra (Burton não ficou satisfeito com o controle criativo limitado que teve no primeiro filme, e o diretor de arte, Anton Furst, ganhador do único Oscar recebido pelo filme, era muito cotado para assumir a direção da seqüência, antes de falecer).
O estúdio terminou concluindo que não valia a pena mudar a equipe e manteve Burton dirigindo o novo filme e Michael Keaton o estrelando –embora muitos questionassem sua adequação ao papel.
Tal e qual o primeiro “Batman”, neste novo filme Burton tornou a manifestar seu fascínio pelos desajustados e seu indisfarçável carinho pelo monstruoso –ou seja, pelos vilões –centrando todo o interesse da narrativa desta vez, na origem pontuada por abandono e detalhes grotescos de Oswald Cobblepot, ou melhor, o Pingüim (Danny De Vito, irreconhecível debaixo da densa maquiagem) e, principalmente, na trajetória envolvente de Celina Kyle, secretária do empresário Max Shreck (Christopher Walken, num personagem cujo nome remete ao ator célebre por interpretar o vampiro no clássico “Nosferatu”, de Murnau) cuja descoberta dos negócios ilícitos do patrão leva Celina a uma transformação radical, tornando-se a ambígua e sensacional Mulher-Gato (que ganhou, nas formas e nas expressões de Michelle Pfeifer uma personificação considerada, até hoje, imbatível).
Batman, como se pode perceber, é um mero coadjuvante diante de personagens tão exuberantes.

Batman Eternamente
Para Tim Burton, dois filmes bastaram. Após “Batman-O Retorno”, o máximo que ele se dispôs a aproximar-se do novo projeto envolvendo o personagem foi na função de produtor executivo. O diretor escolhido para substituí-lo, sabe-se lá porque, foi Joel Schumacher: Talvez tenha sido o estilo rebuscado e sombrio que ele demonstrou em “Linha Mortal”, similar ao de Burton (embora, Schumacher nunca tenha preservado qualquer estilo ao longo de seus filmes), ou o fato de ser um típico de diretor padrão, ideal para trabalhar sob contrato.
Com ele no comando, o filme imediatamente ganhou nova roupagem e um novo intérprete: Val Kilmer, cujo excesso de sisudez e as madeixas castanhas claras não ajudaram muito a ser visto como uma escolha melhor do que Keaton.
Também o orçamento inflado da nova produção deixava claro o quanto Batman, enquanto produto corporativo, significava para o estúdio: Não foram poupadas despesas, inclusive no que diz respeito ao elenco milionário –Nicole Kidman (começando uma auspiciosa escalada ao estrelato graças ao lançamento de “Um Sonho Sem Limites” naquele mesmo ano) como o par romântico do herói (sendo que as menções às anteriores Vicky Vale e Mulher-Gato foram completamente ignoradas); Tommy Lee Jones como o pra lá de caricato vilão Duas-Caras (chega a ser covarde e absurdo comparar esta versão ao bem construído Duas-Caras de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”); Jim Carey como Charada (papel que ele tirou do anteriormente cotado Robin Willians); e Chris O’ Donnell surgindo pela primeira vez como Robin, o parceiro do herói deixado de lado nos dois filmes anteriores.
Aqui, Batman se vê diante do desafio de um novo chefão do crime, o antigo promotor Harvey Dent transformado no vilão Duas-Caras. Paralelo ao surgimento de um novo vilão, o Charada, o acrobata Dick Graysson perde toda sua família, encontrando um lar na mansão Wayne onde passa a auxiliar Bruce Wayne, o Batman, como seu fiel parceiro, o Robin.

Batman & Robin
E foi assim, com o relativo êxito do filme anterior que chegamos no quarto e famigerado filme do Batman, o segundo sob o comando de Joel Schumacher, onde ele teve liberdade para fazer a “sua” visão do Batman, deixando de lado qualquer realismo ou interiorização sombria, e com isso soterrando a série no cinema, até que a reformulação radical de Nolan viesse para salvar o personagem.
A trama acompanha o surgimento dos vilões Sr. Frio (Arnold Schwarzenegger) e Hera Venenosa (uma deslocadíssima Uma Thurman) –há também a aparição de Bane “interpretado” pelo brutamontes insípido e inexpressivo Jeep Swenson, o que reduz o personagem à um mordomo truculento, longe do significado imposto por Tom Hardy ao personagem em “Batman-O Cavaleirodas Trevas Ressurge” enquanto pequenas desavenças minam o relacionamento entre Batman (agora George Clooney no lugar de Val Kilmer...) e Robin (Chris O’ Donnell, cada vez mais irritante no papel), dando oportunidade para a origem de uma nova heroína, Batgirl (Alicia Silverstone, inadequada como atriz, num personagem absolutamente disfuncional, desnecessário, redundante e introduzido de forma descuidada).
O fato de não manter Val Kilmer como Batman/Bruce Wayne em seu filme seguinte já indicava uma certa irregularidade da parte de Schumacher na forma com que ele via o projeto, mas ninguém imaginava que suas idéias conduziriam a uma obra tão escandalosamente catastrófica quanto foi este “Batman & Robin”, um filme tão equivocado, tão absurdo em seu desleixo e ruindade que no making of (disponível na edição em DVD do filme) pode-se conferir o próprio diretor pedindo desculpas pelo trabalho que realizou (!).
Uma sucessão de cenas absolutamente vergonhosas: Os novos e alardeados trajes dos heróis que já contavam antes com ridículos mamilos salientes, aqui ganham cores berrantes como o roxo (no caso de Batman!) e o vermelho escarlate (no caso de Robin), além de uma iluminação de neon com muito rosa, verde a alaranjado (!); o leilão pelo corpo de Hera Venenosa, onde Batman e Robin iniciam uma imatura discussão encerrada de forma patética com o ‘bat-cartão de crédito’ (“Nunca saia da caverna sem ele!”); o Sr. Frio de Arnold Schwarzenegger usando pantufas de ursinho polar e regendo um coro entre seus capangas.
É espantoso notar que o elenco, de Schwarzenegger à Clooney, passando por todos os outros atores, abraçou a proposta do diretor e assume suas presepadas sem aparentar constrangimento.
Como se não bastasse esse erro crasso de tom, o filme ainda se revela sofrível em termos cinematográficos: Dentre todos os filmes feitos sobre o Batman, este é aquele que mais o negligencia, colocando-o em segundo e até terceiro plano (e olha que essa era uma crítica freqüentemente dirigida aos títulos anteriores).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Alice No País das Maravilhas No Cinema

Existe algo de perene e universal no conto “Alice No País das Maravilhas” que o faz não somente continuar atual e pertinente na memória de sucessivas gerações de crianças, como também servir de forte referência para inúmeros outros trabalhos que a ele devem muito de sua premissa básica, como a animação japonesa “A Viagem de Chihiro”, de Haya Myazaki (um grande entusiasta da obra de Lewis Carroll) e o clássico “Labirinto-A Magia do Tempo”.
As influências e adaptações propriamente ditas remetem à obras de todas as gerações, realizadas desde os primórdios do cinema e que totalizam mais de cem títulos (!), aqui, uma modesta lista que inclui as mais emblemáticas delas:

Alice No País das Maravilhas (1932)
A terceira adaptação cinematográfica do conto (sendo a segunda em versão falada) foi executada pela Paramount Pictures, uma produção de grande orçamento à época tirou proveito da comemoração do centenário de Lewis Carroll, celebrado naquele mesmo ano.
Dirigido por Norman McLeod, é um trabalho que envelheceu muito mal (embora hajam relatos de que mesmo naquela época tenha sido mal recebido), e suas escolhas estéticas (os figurinos portentosos e a maquiagem cartunesca escondem os célebres rostos do elenco que contam com grandes astros do período como Gary Cooper e Cary Grant) aliadas ao ritmo lento prejudicam muito a apreciação do material que, de fato, dispõe de grandes valores de produção. A direção parece contentar-se com um registro numa linguagem de teatro filmado que engessa a encenação e remove qualquer elemento na história que pudesse cativar o público –haveriam ainda muitos anos de experiência para o cinema comercial dos estúdios assimilar uma capacidade técnica e artística aprazível para conquistar as platéias.

Alice No País das Maravilhas (1949)
Houve também, pouco antes da versão da Disney –para muitos a versão definitiva –um filme francês que aproveitou o conto clássico e dele concebeu uma obra musical (característica compartilhada por muitas adaptações que vieram depois), talvez, como forma de ilustrar cenicamente os lapsos de insanidade propostos no livro e atribuídos a seus personagens.
A direção de Dallas Bower confere uma relativa solenidade teatral à encenação das peripécias de Alice (a bela Carol Marsh), numa engessada postura estética que seria virada de pernas para o ar dois anos depois, quando fosse lançada a animação da Disney.

Alice No País das Maravilhas (1951)
Embora mal-sucedido, é inegável que muitos elementos visuais e referenciais do filme de Norman McLeod foram utilizados por Walt Disney neste seu longa-metragem animado, a mais famosa provavelmente dentre todas as adaptações já feitas da obra de Carroll.
Criança educada nos modorrentos ambientes de uma Inglaterra vitoriana, a pequena Alice, durante um bucólico passeio no parque, resolve seguir um coelho branco, de comportamento intrigante. A criatura, sempre atrasada para alguma coisa, a conduz por um mundo esquisito e diferente, onde ela cruza-se com um chapeleiro maluco, a tomar chá de forma anárquica junto de uma lebre igualmente aloprada; uma lagarta bonachona e fumante que parece se mover e se expressar em slow motion; uma psicótica rainha de copas, obcecada em tirar a cabeça daqueles que lhe desagradam; e muitos outros.
E é aqui, onde surge uma das cenas mais terrivelmente inesquecíveis da minha memória afetiva cinéfila particular: É impossível não ficar chocado com os desdobramentos traumáticos da seqüência conhecida por “A Morsa e O Carpinteiro”, inclusive por que, em se tratando de uma obra de Walt Disney, não é esperado que a animação faça jus ao fatalismo inesperado desse segmento. E ele o faz –esse é, para mim, um dos momentos mais verdadeiramente horripilantes desse desenho!
Muitos vêem nesse filme uma analogia aos delírios lisérgicos de alucinógenos dos anos 1960 de então, não obstante a essa proposital ou não referência à contracultura (e ela faz um enorme sentido!), os Estúdios Disney realmente entregam aqui seu mais psicodélico trabalho.

Alice In Wonderland (1966)
Uma obra britânica (como também o era a primeira adaptação, uma curta-metragem em live-action, ainda na época do cinema mudo, em 1933), este “Alice...” foi dirigido por Jonathan Miller, contava com um elenco bastante conhecido (John Gielgud como Mock Turtle, Peter Sellers como Rei de Copas e por aí vai) e fazia parte de uma série inglesa que explorava contos clássicos –se for levar em conta todas as produções também televisivas sobre Alice, esta lista ficaria grande demais, por isso colocarei apenas esta como uma espécie de “representante” das obras feitas para TV, e porque esta versão tem uma característica bastante interessante.
Aqui, a Alice, interpretada pela jovem Anne-Marie Mallik, difere das outras em face do ressaltado tom sombrio com o qual reage aos acontecimentos; tanto que chega quase a oprimir alguns dos coadjuvantes! É uma Alice mais selvagem, mais difícil, o quê contribui para a visão pouco ortodoxa do diretor: Em vários momentos, Miller quer transformar sua obra num filme de terror (auxiliado pela extremamente lúgubre fotografia em preto e branco), inclusive mantendo a humanidade de muitos personagens –não há maquiagem ou figurino que transforma o elenco em criaturas surreais, por exemplo, o quê lhe confere amedrontadora discrição –porém, as ocasionais inserções de absurdo –inerentes ao conto de Carroll –transformam este trabalho quase num precursor dos filmes estranhos, enigmáticos e assustadoramente oníricos de David Lynch.

Alice’s Adventures In Wonderland (1972)
Outra obra inglesa, desta vez um musical cuja narrativa parece estabelecer um vínculo artístico entre este filme e o clássico de 1939, “O Mágico de Oz”, são muitas as similaridades, sobretudo na tentativa de atribuir pequenas narrativas e motivações aos personagens coadjuvantes que orbitam Alice, no prólogo que estabelece uma situação mais distinta (e que vale-se de um ator vivendo o próprio Lewis Carroll), num aproveitamento algo irregular do segundo livro (“Alice Através do Espelho”) e ,sobretudo, na inserção de seqüências cantaroladas pelos intérpretes –embora esse recurso apareça, aqui, com certa timidez.
Este filme ganhou o prêmio BAFTA de Melhor Figurino e Melhor Direção de Fotografia.
Curiosidade: Peter Sellers, que no filme de 1966 fez o Rei de Copas, neste daqui interpreta a Lebre de Março!

Alice No País das Maravilhas Eróticas (1976)
Uma hora teria de acontecer: Eis que uma versão pornográfica (e musical!) foi realizada do conto de Lewis Carroll –é claro que, sendo assim, não há como avaliar este filme da mesma forma que é feito com obras convencionais de cinema.
Há nele uma atmosfera de libertinagem e psicodelismo muito típica da década de 1970 –fazendo-o remeter em muitos momentos o clássico “Garganta Profunda” –no papel de Alice, a atriz Kristine DeBell se mostra desinibida em cenas que reinterpretam as segundas intenções presentes na obra –são inúmeras, por exemplo, as cenas de lesbianismo deste filme. Vale lembrar que Lewis Carroll, e seu conto clássico, sempre foram vistos por um prisma reprovador: Ele alimentou por muito tempo um desejo ardente pela menina chamada Alice (menor de idade, diga-se) que veio a desposar e teria o inspirado a criar a personagem e suas histórias, fato que atribui uma natureza de pedofilia na forma com que muitos vêem o livro.
Todavia, as atrizes deste filme (e protagonistas de muitas cenas de nudez e sexo explícito), são todas perfeitamente maiores de idade.
É claro que houveram muitas outras versões eróticas de “Alice...” –incluindo uma estrelada por Sasha Grey –mas, vamos nos ater somente à esta...

Alice Ou A Última Fuga (1977)
Vem da França uma das mais interessantes e diversificadas versões do clássico.
O diretor Claude Chabrol deposita aqui muitas de suas inquietações existenciais de nível íntimo (muito parecido com o que certamente Lewis Carroll um dia fez com seu livro), ao transpor a trama para um contexto de tal forma radical que muitos não enxergam nele uma adaptação –nem tampouco uma relação com o material.
Mas, atentemos aos pequenos detalhes: A curvilínea e excitante Sylvia Kristel (em alta com o sucesso de “Emmanuelle”, mas justamente por isso tentando projetos insólitos como este a fim de escapar da enorme sombra daquele personagem) interpreta uma personagem chamada Alice Carroll (!).
Quando o filme se inicia ela abandona o marido (seria ele o próprio Lewis Carroll, e essa protagonista, na visão idiossincrática de Chabrol, a Alice original que inspirou o conto, a atuar numa versão alternativa?), e abandona também a vida matrimonial burguesa que tinha fugindo de carro por uma estrada afora. Isso a leva até um estranho hotel a beira de estrada onde ela se vê obriga a pernoitar quando seu carro enguiça –na verdade, apenas estraga o limpador de pára-brisa.
Os personagens e situações surreais, com os quais ela irá se cruzar, agregam uma relação ocasionalmente sutil com o livro de Lewis Carroll, embora o estranhamento da premissa e, em especial, do clima suscitado (que lembra uma síntese irregular entre Buñuel e Hitchcock) tenha diretamente a ver com “Alice No País das Maravilhas”.
Ah, sim: Os fãs não precisam ficar decepcionados, o filme tem, de fato, uma belíssima cena de nudez de Sylvia Kristel!

O Estranho Mundo de Alice (1982)
A década de 1980 foi prolífica em trabalhos que buscaram capturar a característica ímpar de dramaticidade macabra da obra de Lewis Carroll. Lá surgiram obras como este inusitado musical, quase um média-metragem (apenas oitenta e dois minutos de duração), que já era raro na época das fitas de VHS.
Nele, Alice é uma jovem que desmaia num parque ao ver um homem prestes a ser baleado. Ao despertar, ela é acudida pelo mesmo homem. À medida que o filme avança, ele revela-se uma figura estranha que, ao longo dos dias cruza-se com ela de forma aparentemente casual, não deixando, contudo, de assediá-la.
Falho em relação à sua coreografia (e a outros quesitos no que tange ao gênero musical) esta modernização do conto, transposta para um ambiente urbano, possui elementos ora curiosos e originais (Susannah York como a Rainha de Copas e Jean-Pierre Cassel como o Coelho Branco), ora tolos e equivocados (um tom entre o sombrio e o fatalista, e a descontração do musical que nunca se harmoniza de fato).

Alice (1988)
Uma realização tcheca, dirigida por Jan Svankmajer, esta é uma das obras mais desiguais à abordar o conto de Carroll –especializado em animação, Svankmajer cerca sua protagonista, a pequena Kristyna Kohoutová, por efeitos práticos animados em stop-motion, que dão uma atmosfera de surreal estranhamento e opressão, extremamente apropriada à natureza distorcida que o trabalho de Carroll sempre demonstrou em relação aos outros contos de fadas clássicos. Para tornar a experiência ainda mais intrigante e desconcertante, o diretor Svankmajer quebra a linguagem narrativa (difícil dizer se é deliberado ou se é fruto de uma certa inexperiência) com inserções inusitadas e inesperadas que desestabilizam o sossego do expectador. Inevitavelmente, um cult-movie com todas as letras!

Alice No País das Maravilhas (1999)
A década de 1990 se encerrou dando sua própria contribuição ao roll de adaptações de Lewis Carroll com esta obra de Nick Willing que tem lá seus méritos: Ele quebra algumas das convenções que surgiram referentes à adaptações a partir da animação da Disney, como por exemplo, a Alice predominantemente loira –a intérprete aqui é a menina de cabelos escuros, Tina Majorino, uma das estrelas-mirins do período, mas que marcou presença em produções problemáticas como “Waterworld-O Segredo das Águas”.
O elenco, por sinal, é um espetáculo à parte: Whoopi Goldberg como o Gato Sorrdente, Ben Kingsley como a Lagarta, Gene Wilder como Mock Turtle, Christopher Loyd como o Cavaleiro Branco, Martin Short como o Chapeleiro Maluco, Miranda Richardson como a Rainha de Copas, Peter Ustinov como a Morsa e Peter Postlethwaite como o carpinteiro (!).
A seu favor, este filme tem um ritmo dinâmico imposto pela direção e uma considerável fidelidade ao livro que o distingue entre as adaptações, contra ele o fato de ser disperso e exceder as duas horas de duração.

Alice No País das Maravilhas (2010)
Se o “Alice...” de Walt Disney é considerada a versão mais famosa do conto, para os expectadores jovens, isso não chega a ser verdade: A maioria deles reconhece com muito mais facilidade esta nova versão, dirigida por Tim Burton, com seu astro-fetiche, Johnny Depp (no papel de um esquizofrênico Chapeleiro Maluco), que pegou carona na onda de filmes em 3D, inaugurada por “Avatar” no ano anterior, e cuja boa bilheteria praticamente deu o estopim às versões live-action dos clássicos animados da Disney, o quê levou à realização de “Malévola”, “Cinderella”, “Mogli-O Menino Lobo” e outros.
Ao contrário dessas produções que o sucederam este filme é, de uma certa forma, uma espécie de continuação do clássico animado Disney, onde Burton abandona a animação para conceber uma encenação real povoada por efeitos visuais de última geração –e francamente capazes de encher os olhos! Seu pecado, contudo, é (para o espanto de quem esperava um filme de Tim Burton nos moldes de seus trabalhos sombrios da primeira fase de sua carreira) a suavização dos elementos sombrios que conferiam personalidade ao conto, e a conseqüente distorção de muitos conceitos embutidos nos personagens (que foram muito mais respeitados por obras anteriores que não tinham o mesmo requinte desta daqui), o quê aproxima este novo “Alice...” do convencionalismo de outros contos de fadas já adaptados para o cinema.
Dessa forma, encontramos Alice crescida (interpretada com alguma ênfase por Mia Wasikowska), quase uma mulher, quando está prestes a responder a um pedido de casamento de um pretendente desajeitado que mal conhece. Durante a constrangedora cerimônia em que seria anunciado o seu noivado, a moça persegue, intrigada, um coelho branco pelo jardim, e acaba por atravessar um portal que a leva ao inusitado País das Maravilhas, povoado por criaturas nunca menos que estranhas como o Chapeleiro Maluco, o Gato Sorridente, e outros. Todos seres que ela julgava ter visto em sonhos que a assombravam desde pequena, quando na verdade, ela já havia estado lá a muito tempo atrás. A chegada de Alice é recebida como um sinal de que a insurreição desses personagens contra a tirânica Rainha Vermelha (obcecada em arrancar a cabeça de todos os seus desafetos) pode estar próxima do fim.
Na frustrante reinterpretação de Burton (muito mais desanimadora do que de fato parece), a loucura atribuída aos personagens desmiolados de Carroll nada mais é do que um ímpeto revolucionário contra o sistema vigente –e o diretor coroa sua descaracterização dos conceitos de Lewis Carroll encerrando seu filme com uma batalha campal no pior estilo “Crônicas de Nárnia”.