Mostrando postagens com marcador Michael Clarke Duncan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Michael Clarke Duncan. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de junho de 2024

A Última Tempestade


 Unir Peter Greenaway e William Shakespeare numa mesma obra é, em si, uma ideia curiosa e promissora; e “A Última Tempestade” prova, em sua originalidade e em sua vasta audácia audio-visual, que podem existir limites ainda não testados na linguagem cinematográfica. Concebido a partir da peça “A Tempestade”, de Shakespeare, o roteiro em cima do qual Greenaway dedica seu inconformismo técnico e artístico, conta a história de Próspero (o grande John Gielgud), o Duque de Milão, então deposto de seu título e banido para uma ilha remota na qual tem tão somente a companhia da filha Miranda (Isabelle Basco) e de sua vasta e rara biblioteca. Lá, Próspero começa a narrar –não sem uma forte intervenção pessoal e particular nos eventos como eles são recordados –os percalços que o levaram àquele lugar.

Lançado em 1991 –no auge do movimento conhecido como Novo Cinema Britânico, prolífico em obras desafiadoras como “Orlando-A Mulher Imortal” –“A Última Tempestade” não apenas é uma das obras mais radicais daquela vertente, como foi também a mais radical e pessoal até então perpetrada pelo diretor Peter Greenaway; isso numa filmografia que até então abarcava títulos como “Afogando Em Números” e “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e OAmante”!

O que testemunhamos se concretizar na tela é algo por vezes desafiador a uma tentativa de categorização: Uma peça de teatro, desenvolvida, como tal, em um grande a abrangente palco, porém, convertida em um formato palpitante, pulsante e cinematográfico por desconcertantes recursos de video e de computação gráfica que distorcem e corrompem a imagem –a exemplo do próprio Próspero que, em sua vaidade ferida, distorce e corrompe a própria narrativa. Dentro dessa verdadeiro orgia visual, os atores dispostos em cena parecem se mover numa coreografia ensaiada e cronometrada, como numa dança onde todos obedecem o ritmo da música, contudo aqui, eles obedecem as vontades do protagonista/narrador: Em sua compreensão instintiva e certeira da obra do bardo, o diretor Greenaway entendeu o quão Shakespeare depositou muito de si mesmo em Próspero ao escrever “A Tempestade” –se Shakespeare é Próspero, então ele concebe a seu protagonista o poder que nenhum outro personagem tem: O de interferir, para o bem e para o mal, no destino de todos. É por isso que, em sua narração altamente erudita e literária, Próspero (cujo ator, John Gielgud, diga-se, faz a voz de todos os outros personagens também!) todos em cena se submetem aos seus planos e às suas vontades.

Indício poderoso dessa contundente transfiguração, é título original –“Próspero’s Books” –nos quais o autor reafirmar serem estas as impressões únicas e exclusivamente de seu personagem principal sobre tudo; e nessa onipotência metafísica assim concedida ao seu protagonista, Greenaway de moldar cenas assombrosas em seu desvario pictório, seu erotismo iconoclasta e sua transmutação plástica.

Uma mescla de pretensões indissociáveis entre a influência artística renascentista (uma obsessão de Greenaway) e a mais moderna tecnologia audio-visual da época, “A Última Tempestade” honra com propriedade estonteante a orientação primal do cinema de Peter Greenaway onde as imagens se transformam, se sobrepõem ou se completam diante do olhar atônito do público.

Desnecessário dizer que se trata de uma obra para públicos muito específicos –aqueles poucos predispostos a absorver uma experiência sensorial tão rica em detalhes e referências que certas cenas exigem atenção redobrada, acumulando mais detalhes, pistas e informações que um vislumbre meramente casual é capaz de exercer.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Planeta dos Macacos


 Em algum momento, no largo espaço de tempo entre os filmes iniciados pelo clássico “Planeta dos Macacos”, de 1968 (cujo último exemplar, “A Batalha do Planeta dos Macacos”, foi lançado em 1973) e a nova e aclamada trilogia ‘estrelada’ por Andy Serkis como um símio digital –cujo capítulo final foi o excelente “O Planeta dos Macacos-A Guerra” –os estúdios da Fox tentaram realizar uma refilmagem do filme que iniciou toda essa mitologia.

A verdade é que durante muito tempo a Fox acarinhou um novo projeto –datam ao longo de toda a década de 1990 relatos de um contrato envolvendo o astro Arnold Shcwarzenegger no papel que antes havia sido de Charlton Heston. Como costuma ocorrer com produções endinheiradas demais e que envolvem agendas de astros requisitados, o novo “Planeta dos Macacos” não somente sofreu inúmeros atrasos como transformou-se radicalmente a medida que se revezavam diretores e atores principais em seu comando.

O filme que por fim chegou às telas de cinema naquele já longínquo ano 2000 aparentava ser quase uma repaginação do original com Charlton Heston –onde ele vive um astronauta que cai num planeta Terra povoado por macacos evoluídos –entretanto, mudanças que dizem respeito às mentes criativas por trás do projeto, converteram a aventura espacial em outra coisa; algo que, visto hoje e desprovido de qualquer continuidade que lhe amarrasse as pontas soltas, soa ainda mais incoerente do que em sua época.

Na direção –que, por muito tempo, cogitou-se James Cameron e Oliver Stone em suas especulações –quem disse sim ao estúdio acabou sendo o esteta Tim Burton que, num lance até surpreendente, construiu um filme de aventura, convencional e genérico em suas características autorais. Este “Planeta dos Macacos” é um dos trabalhos em que menos se percebe a assinatura visual de Burton, inconfundível em projetos como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”.

No papel protagonista do astronauta Leo Davidson, entra Mark Whalberg, uma escolha que parece absolutamente aleatória. Seguindo os passos do filme original, Davidson vive numa estação espacial em órbita de um vortex. Um dos macacos adestrados do lugar, chamado Pericles, é despachado numa nave e acidentalmente acaba sugado pelo vortex, levando Davidson à segui-lo a fim de resgatar o pobre animal, contudo, por uma série de tortuosas viagens no tempo (mais ainda tortuosas pela trama pouco convincente que originam), ele cai num planeta onde o macaco Pericles em questão caiu séculos antes dele (!), e a partir desse macaco, o patriarca, digamos assim, toda uma sociedade de macacos aflorou e se desenvolveu convertendo os humanos em seus escravos.

Uma trama muito semelhante à do primeiro filme que, no entanto, troca sua objetiva ficção científica por uma embromação pretensamente intrincada.

Ainda assim, é no planeta dos macacos, propriamente dito, que o filme de Burton revela suas duas maiores forças: A primeira –se é que depois de tanto tempo isso vem a importar –é a prodigiosa maquiagem, como tinha que ser, onde a parcela do elenco encarregada de personificar os símios tem seus rostos transformados pela autenticidade animal. Se a maquiagem já era um fator de assombro no clássico de 1968, aqui, neste filme de 2001, à cargo do mago das próteses Rick Baker (de “Um Lobisomem Americano em Londres”). ela é espantosa, convertendo rostos famosos, como Helena Bonhan Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Kris Kristofferson, Cary Hiroyuki-Tagawa e até mesmo o próprio Charlton Heston (numa ponta referencial e especial) em perfeitos símios; e ainda assim, tal arrojo já soava anacrônico naquela época –naquele ano, ele perdeu o Oscar de Melhor Maquiagem (ao qual nem foi indicado!) para “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” –justificando a mudança de ênfase, da maquiagem para os efeitos realísticos da captura de performance na tentativa seguinte, e mais bem-sucedida, de retomar a franquia.

O segundo grande trunfo do filme de Burton, termina sendo seu formidável vilão, o General Thade interpretado por Tim Roth, compreensivelmente irreconhecível debaixo de tanta maquiagem, mas cujo talento ainda foi capaz de moldar um antagonista complexo, raivoso, ameaçador e plenamente convincente na pele de um macaco autoritário, agressivo e déspota. O tirano, enfim, que captura Davidson junto dos outros humanos, sem dar-se conta de que será ele e seus conhecimentos extraordinários de humano evoluído, que iniciará uma insurreição onde os humanos tentarão escapar do jugo dos macacos.

É o General Thade, inclusive, o responsável pelo desfecho desconcertante, enigmático e francamente incompreensível do longa, elaborado claramente para competir em choque e surpresa com a revelação clássica na qual o planeta dos macacos é o Planeta Terra ao mostrar a cena desoladora da Estátua da Liberdade destroçada: Ao fim, Davidson usa de sua nave para partir desse novo planeta dos macacos (que NÃO era a Terra!) e volta ao nosso planeta, incerto quanto aos rumos que suas estripulias temporais efetuaram no futuro. Ao aterrissar, ele se depara com um mundo moderno (cai, por exemplo, em plena Washington dos dias atuais), entretanto, não são os humanos quem habitam esse mundo; são os macacos! Na última cena, pouco antes do filme de Burton nos abandonar sem quaisquer explicações plausíveis para o que aconteceu (sem nenhuma mesmo, visto que qualquer continuação que, por ventura, viesse a fornecer tal explicação jamais foi realizada), vemos a estátua de Abraham Lincoln no Lincoln Memorial, numa versão símia, e ali, quem está nela é o próprio General Thade.

Hoje, há quem aprecie o “Planeta dos Macacos” de Tim Burton –como há quem aprecie toda e qualquer obra que adquire algumas décadas de existência a medida que os expectadores aprendem, com o tempo, a focar nos seus pontos positivos que, neste caso, são as cenas de ação (elemento curioso para se destacar num filme de Burton), seu senso de aventura, suas características técnicas bem empregadas e a formidável tensão proporcionada por seu antagonista. Ainda que as analogias fornecidas pelo trabalho de Burton –e que sempre foram os objetivos subliminares desse brilhante conceito –tenham aqui soado mais caricatas do que alegóricas.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Demolidor - O Homem Sem Medo


 Estrelado por Ben Affleck e por Jennifer Garner antes de terem se tornado um casal (e depois se separado...), “Demolidor-O Homem Sem Medo”, apesar de lançado num não tão longínquo 2003, é um filme que, pode-se dizer, pertence a uma outra época. Não havia ainda a Marvel Studios e seu universo compartilhado –o todo poderoso produtor da Marvel hoje, Kevin Feigi, comparece numa modesta função de produtor executivo –e certamente, não havia a aclamada série da Netflix, “Demolidor”, estrelada por Charlie Cox, com a qual o personagem é mais merecidamente relacionado. Mais até: Não existia ainda uma fórmula específica para adaptar histórias em quadrinhos para o cinema com garantia de êxito e integridade artística; haviam sido lançados, poucos anos antes, o “X-Men” de Brian Singer, e o “Homem-Aranha”, de Sam Raimi; “X-Men 2” e “Hulk”, de Ang Lee, seriam lançados naquele mesmo ano.

Por sinal, é o primeiro filme do Homem-Aranha de Raimi que exerce curiosa influência sobre este trabalho do diretor Mark Steven Johnson (de “Quando Em Roma”): Bastante relacionado com o aracnídeo nos quadrinhos por também possuir virtudes acrobáticas, o Demolidor ganhou, depois do imenso sucesso do filme estrelado por Tobey Maguire, uma injeção de orçamento dos Estúdios Fox para que fossem turbinados seus efeitos especiais onde era visto balançando pelos prédios de Nova York, além de um upgrade nas lutas de artes marciais cuja influência, por sua vez, vinha de “Matrix” e de “O Tigre e O Dragão” –até então, o projeto era encarado como uma produção de baixo-orçamento e, por conta disso, dotada de uma classificação mais flexível que o fazia propício a ter doses mais generosas de violência.

O resultado é que “Demolidor”, inclusive por conta do amadorismo vez ou outra flagrante de seu diretor, mal se equilibra entre a obra mais transgressiva que queria ser e a realização mais pretensiosa que passou a almejar.

Nessas condições somos apresentados a Matt Murdock, rapaz que, num breve flashback que domina os primeiros trinta minutos de filme, é visto perdendo a visão num acidente radioativo ainda criança (interpretado então por Scott Terra, de “Malditas Aranhas”). Entretanto, ele ganha, no processo, habilidades sobre-humanas: Sentidos ampliados que o permitem compensar a cegueira com uma percepção sem igual, onde pode até mesmo ler as emoções alheias ao ouvir os batimentos cardíacos (!).

Com a morte de seu pai, um boxeador do bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen, pelas mãos de gangsters inescrupulosos, Murdock divide sua vida adulta em duas ocupações: Como advogado formado, ele atende de dia clientes oprimidos pelos empresários à frente de sua firma onde tem como sócio o fanfarrão Foggy Nelson (vivido por Jon Favreau, o diretor do primeiro “Homem de Ferro” alguns anos depois). Já à noite, Murdock (que, à propósito, ostenta a musculatura e a pose de galã de Ben Affleck) esconde sua identidade por trás da máscara do vigilante Demolidor, para caçar os bandidos que a justiça meramente não foi capaz de punir, valendo-se de suas habilidades incomuns.

Em algum momento, tanto Matt Murdock, o advogado, quanto Demolidor, o vigilante, chamam a atenção do insidioso Wilson Fisk, o Rei do Crime (interpretado pelo saudoso Michael Clarke Duncan, chapa de Ben Affleck desde que fizeram juntos “Armaggedon”) que coloca no encalço deles –sem inicialmente saber que são a mesma pessoa –o assassino de aluguel conhecido como Mercenário (o ótimo Colin Farrell, então começando a chamar a atenção de Hollywood).

Contudo, o que vira mesmo o mundo do Demolidor de ponta-cabeça é quando Murdock se envolve com a instável Elektra Natchos (Jennifer Garner, recém-saída da série “Aliás-Codinome Perigo”) que, embora enamorada dele nutre um desejo de vingança por seu alter-ego, Demolidor, crente de que foi ele quem matou seu pai.

Ávido por adaptar diversos pontos antológicos da trajetória do Demolidor dos quadrinhos, todos concebidos pela mente genial do roteirista Frank Miller –e, de fato, essas passagens estão todas lá! –o filme de Mark Steven Johnson exibe um roteiro precipitado, inclinado a várias redundâncias que alcançam os momentos almejados sem no entanto elaborá-los com mais primazia; exatamente o oposto do que os quadrinhos conseguiam fazer.

Há potencial pleno e constante em “Demolidor”, e ele é sistematicamente sabotado pela pouca solidez de sua direção, que entrega momentos bastante simplórios, contaminados por diversas opiniões divergentes que foram moldando a produção: De um lado, os executivos da Marvel e sua intenção de preservar o personagem dos quadrinhos (e nesse sentido, a manutenção do fidelíssimo traje do herói é digna de aplausos), de outro, a limitada capacidade do diretor em manter suas convicções e a vontade dos produtores em esculpir um filme de sucesso com concessões mais genéricas de narrativa convencional. Como dito no início, “Demolidor-O Homem Sem Medo” pertence a uma outra época. É difícil hoje assisti-lo sem relacionar seu resultado mambembe e claudicante com a excelência à toda prova das três primorosas temporadas da série da Netflix –na qual não apenas Charlie Cox é um Matt Murdock/Demolidor impecável, como também Vincent D’Onofrio entrega uma atuação insuperável como Rei do Crime –e, mesmo à época, o filme não era nenhuma obra-prima sendo apreciado por uma parcela do público mais como uma espécia de ‘prazer culposo’, um trabalho imperfeito cujos lapsos descabidos acrescentavam divertimento ao todo.

Hoje, todo mundo parece ter superado “Demolidor”: O Estúdio Fox (que já nem existe mais, tendo sido comprado pela Disney) lançou uma ‘versão do diretor’ em DVD (que enfatizava aspectos mais soturnos de algumas sub-tramas e enxugava certas redundâncias) e, anos mais tarde, produziu “Elektra”, um derivado de qualidade discutível focado na personagem de Jennifer Garner; Ben Affleck, embora tivesse certa esperança de uma continuação naqueles anos, desencanou e agora é mais lembrado como intérprete do Batman no mais recente “Liga da Justiça” (embora, também isso, não tenho dado muito certo); a Marvel, agora consolidada como estúdio, tem os direitos do Demolidor mais uma vez, e os fãs aguardam a qualquer momento por uma nova adaptação, talvez estrelada pelo bom Charlie Cox; já, Mark Steven Johnson realizou depois “Motoqueiro Fantasma”, com Nicolas Cage, além do outros projetos que só confirmaram sua falta de talento.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Armageddon

Quando foi lançado no final da década de 1990, a trama de “Armageddon” mostrou-se um primor do absurdo: Perfuradores de petróleo norte-americanos eram selecionados para uma missão espacial (!) onde teriam de introduzir uma bomba nuclear num asteróide prestes a colidir com a Terra (!).
O filme, na verdade, representava uma espécie de reafirmação do estilo extravagante do diretor Michael Bay que havia entregado pérolas inacreditáveis da ação ininterrupta em “Bad Boys” e “A Rocha”, mas criou seu verdadeiro cartão de visitas aqui.
Bruce Wiilis, num papel que parece moldado para ele, é Harry Stamper, líder de uma equipe texana de perfuração –e tal equipe inclui figuras como Steve Buscemi, Michael Clarke Duncan, Ben Affleck, Will Patton e Owen Wilson.
Veja bem: Dizer qe Bruce Willis foi moldado para o papel, deveras, não significa que ele entrega uma boa atuação –fator que passa longe das obras de Michael Bay –significa, na realidade, que o papel foi pensado e escrito para ele; e à ele se encaixa em suas canastrices e limitações dramáticas.
O governo dos EUA identifica o grande asteróide que, sem sombra de dúvidas, colocará fim à vida no planeta Terra, e põe em prática um plano para salvar a raça humana: Enviar uma equipe ao espaço, com escalas entre diversas estações internacionais para chegar em tempo ao meteoro e nele implantar uma bomba capaz de reduzi-lo a fragmentos menores –mas, que ainda proporcionam as insanas sequências de destruição do filme.
Os homens selecionados para tal missão terminam sendo o grupo peculiar e grosseiro de Stamper que, nas inserções cômicas inapropriadas que também caracterizam o estilo de Bay, não se adequam de modo algum ao bom senso esperado dos astronautas.
Como o destino da humanidade depende deles –como se não existissem no planeta Terra alternativas melhores do que os norte-americanos! –o programa espacial os aceita mesmo assim; e lá vão eles em direção do espaço, aprontar lá as mesmas presepadas que aprontam na Terra: Heróis de ação, supinos, irônicos e patriotas, que passam todo o filme enfrentando os perigos indizíveis e improváveis do espaço –além da truculência e falta de visão dos militares (é claro!) capazes de pôr em risco a missão e a vida na Terra porque são obtusos o bastante para insistir nas próprias ideias fixas.
Uma obra irredutível nos altos níveis de decibéis que se propõe a entregar, “Armageddon” representou, com seus ostensivos clichês, o cinema comercial em estado bruto, em contraponto a um cinema mais autoral que, naquele ano de 1998, começou a aflorar no circuito comercial: De repente, obras barulhentas como esta começaram a dar espaço para trabalhos construídos com inteligência (como o suspense “Irresistível Paixão”) ou sensibilidade (o inesperado sucesso de bilheteria “Encantador de Cavalos”). Entretanto, o público afoito de filmes de ação ao qual se dirigia ficou satisfeito (e até hoje ainda se satisfaz) com essa receita tão formulaica, da qual Michael Bay costuma ser um dos mais célebres manejadores.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A Ilha

Antes de ter seu nome atrelado à série cinematográfico em live-action dos “Transformers”, o diretor Michael Bay estava muito bem cuidado de seus projetos individuais.
Estava longe do reconhecimento de um James Cameron, era bem verdade, mas o público sempre abalizava trabalhos comerciais como “Armageddon”, “Bad Boys” e até mesmo “Pearl Harbor” –mesmo que seus detratores não economizassem nas críticas.
“A Ilha” representa assim uma tentativa de experimentar novos gêneros (a ficção científica distópica, neste caso) que nunca seguiu em frente –logo depois, ele foi convidado, pelo produtor Steven Spielberg, a dirigir o primeiro filme dos robôs que se transformam em carros.
A trama guarda ecos de “THX 1138”, de George Lucas, assim como de diversos outros filmes sobre um mundo futurista condicionado nos quais, na maioria das vezes, o realizador almeja uma discussão reflexiva acerca de algum tópico. Esse, contudo, não parece ser o objetivo de Bay, ou pelo menos, deixa de ser seu objetivo tão logo as perseguições e explosões inerentes ao seu cinema contaminam a tela.
Tudo começa num enorme complexo onde pessoas que lá vivem reclusas integram uma sociedade estética e estéril, com proibição do contato físico e da diferenciação –e nesse ponto, o roteiro já se debruça em cima da referência a inúmeros trabalhos como o já citado “THX 1138”, “Gattaca-A Experiência Genética”, “Fuga do Século 23” e outros.
Naquele lugar constituído de vidros e superfícies esterilizadas, onde as máquinas ultramodernas dizem o quê fazer, como comer e como proceder, todos têm como único divertimento a espera de uma loteria que sorteia ocasionalmente indivíduos a serem enviados à "Ilha", o último lugar do planeta ainda livre da radioatividade (que, segundo a história que lhes é paulatinamente contada, devastou todo o mundo exterior).
É aí que surge sintomaticamente o personagem questionador, na forma de Lincoln Six-Echo (Ewan McGregor), que dará o ponto de partida às transformações. Melhor amigo da linda Jordan Two-Delta (Scarlett Johansson, na crista da onda devido ao recente “Encontros de Desencontros” e à “Match Point” de Woody Allen, lançado naquele mesmo ano), ele se mostra insatisfeito ao ter de seguir ordens de computadores que controlam sua saúde física, mental e alimentar.
À esse ímpeto de inconformismo com o estado das coisas logo se seguem pequenos atos de contravenção –como escapar ora ou outra para os níveis superiores, habitados por trabalhadores sujos como James McCord (Steve Buscemi, um dos coadjuvantes preferidos de Bay) para conversar –quando então ele começa a descobrir muito mais do que deveria: Todos eles estão sendo ludibriados, e sua sociedade é monitorada por uma empresa que cria uma ilusão para enganá-los. Todos eles são, na verdade, clones de pessoas do mundo lá fora.
Ao lado de Jordan, Lincoln inicia uma audaz, acidental e inacreditavelmente bem sucedida fuga do lugar e, completamente desinformados do mundo exterior, são perseguidos por agentes de contenção liderados por Albert Laurent (Djimon Hounsou, um grande ator, em geral, sub-aproveitado).
É então a partir desse ponto que “A Ilha” deixa de ser a notável ficção científica que ameaçava ser, para tornar-se algo inerente ao tipo de produção que Michael Bay dirige: Um filme descerebrado de ação, com direito até mesmo aos habituais lapsos de inverossimilhanças de quando a tal ação se desdobra com tamanha empolgação que às vezes despreza a lógica.
O fato de Michael Bay, aqui, arriscar-se em um filme amparado numa história mais complexa lhe conta alguns pontos, ainda que esse objetivo seja claramente abandonado a partir de sua metade –fazendo-o parecer que toda a premissa interessante não era outra coisa senão um pretexto para a pirotecnia.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

À Espera de Um Milagre

O fato de ter entregado, já em seu primeiro filme, uma das grandes obras do cinema com “Um Sonho de Liberdade” foi, de certa maneira, um fantasma que assombrou a carreira do diretor Frank Darabont: Isso estabeleceu para todos os seus trabalhos posteriores um patamar altíssimo e injusto com o qual serem comparados.
E Darabont certamente sentiu essa pressão, prova disso é que seu filme imediatamente seguinte partilhava de várias características em comum com aquela que é (e que sempre vai ser) sua obra-prima: “À Espera de Um Milagre” era, também ele, adaptado de uma obra de Stephen King –que, ao contrário de “Um Sonho de Liberdade” flerta mais abertamente com seus artifícios sobrenaturais –e também tinha como ambientação as paredes opressoras de uma prisão no Maine, desta vez, o corredor da morte ou, como os próprios presos costumam chamar “a milha verde” –como o título original “The Green Mile”.
Darabont ainda adicionou à mistura a presença protagonista de Tom Hanks, mas (embora o filme seja muito querido por uma boa parcela do público) ele não chega nem perto de se equiparar a altíssima qualidade de “Um Sonho de Liberdade”.
Mas, é um belo filme.
Desta vez, deixando o ponto de vista dos prisioneiros para adotar o dos guardas carcerários (Tom Hanks interpreta o papel de chefe deles, como logo é informado no início, quando um flashback começa a resgatar a história), o filme de Darabont registra a rotina dos guardas que trabalharam no corredor da morte nos anos 1930. Eles vivem a atroz rotina de conviver com os condenados à cadeira elétrica, uns ironicamente dóceis e afáveis, outros, psicóticos e estranhos. O grupo de guardas (que além de Hanks, inclui David Morse, Barry Peper, de “O Resgate do Soldado Ryan”, Jeffrey DeMunn, de “Cidadão X” e Doug Hutchison, ator que teve uma breve e memorável presença na série “Arquivo X”) tem uma série de comportamentos e atitudes específicas por meio das quais conseguem conviver (com os prisioneiros, inclusive) numa certa harmonia diante do peso mórbido e obscuro da natureza daquele trabalho.
Há, portanto, uma novidade desestabilizadora quando eles recebem John Coffey, um gigantesco prisioneiro (Michael Clarke Duncan, um achado) condenado à cadeira elétrica pelo brutal assassinato de duas meninas. O novo detento, entretanto (apesar do tamanho descomunal) em nada parece um criminoso; Coffey tem o comportamento amável, tímido e por vezes diz ter medo do escuro.
No entanto, o quê o chefe da carceragem, um tanto perplexo, logo descobrirá, é que Coffey é um anjo de Deus na Terra, e que tem os dons de curar os males das pessoas, incluindo o câncer que consome a vida da benevolente esposa do diretor da prisão (James Cronwell). Mas, Coffey está condenado à morte.
É então um dilema existencial e tanto que o filme de Darabont propõe ao personagem de Hanks –e, por conseqüência, devido à insuspeita capacidade do ator em obter identificação, ao expectador também: Permitir que um anjo capaz curar muitos males com suas habilidades seja morto pelas leis corruptíveis dos homens ou tentar algo para salvá-lo? Mesmo que ele próprio esteja disposto à encarar o corredor da morte; na interpretação emotiva e emocionada de Clarke Duncan, Coffey é como uma criança ferida em sua inocência, ávida por regressar para o céu onde não precisará testemunhar a crueldade diária dos homens aqui na terra.
Por isso, por sua pouco econômica carga dramática e por sua capacidade invulgar de, por vezes, levar os expectadores às lágrimas, “À Espera de Um Milagre” é, apesar do lugar secundário que ocupa na filmografia de Darabont, um melodrama celebrado.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sin City - A Cidade do Pecado

Por incrível que possa parecer, em 2005, ainda não se tinha aquela proliferação de adaptações de histórias em quadrinhos que vemos no circuito comercial de cinema atual –claro, haviam os filme do Batman (no caso, “Batman Begins”, primeiro filme da aclamada trilogia de Christopher Nolan, foi lançado naquele ano), haviam os filmes do Homem-Aranha (a primeira trilogia, de Sam Raimi, estava no segundo exemplar) e haviam os filmes dos X-Men (o terceiro, ainda com o elenco original e antes da reformulação em “Primeira Classe”, sairia só no ano seguinte), além de uma ou outra adaptação.
Ou seja, em 2005, além de não terem se consolidado como uma tendência do mercado, as adaptações de HQ, ainda tateavam em busca da linguagem ideal por meio da qual as narrativas da nona arte seriam transpostas para a sétima.
Êxito já tinha sido obtido, certamente, mas muita coisa ainda estaria por vir –a Marvel Studios só lançaria “Homem de Ferro” e iniciaria a construção de sua supremacia em 2008.
Nesse sentido –no de explorar possibilidades oferecidas nos quadrinhos que ampliassem a experiência cinematográfica em si –uma das mais notáveis produções a surgir em 2005 foi, sem sombra de dúvidas, “Sin City-A Cidade do Pecado”, de Robert Rodrigues e Frank Miller.
E não foi para menos...
A idéia no projeto de Rodrigues era adaptar três histórias extraídas da graphic-novel em preto e branco escrita e ilustrada por Frank Miller, uma coletânea de histórias de crime ao estilo pulp e noir, e que a despeito de serem quadrinhos, ignoravam os super-heróis.
Rodrigues foi ambicioso: Sua intenção era moldar uma adaptação absolutamente fiel em termos visuais e narrativos, capturando a opção estética das páginas (cujos desenhos apresentam um emprego ímpar do “chiaroscuro”). Era uma intenção de tal maneira definitiva que sequer há créditos, no filme, de montagem e direção de fotografia –em lugar disso, aparece nos créditos iniciais apenas “filmado e montado por Robert Rogrigues”.
Na primeira história, "Cidade do Pecado", o bruta-montes Marv (Mickey Rourke, fabuloso) jura vingança aos assassinos da única mulher na vida que teve coragem de fazer amor com ele, a enigmática garota de programa Goldie (a estonteante Jamie King).
Em seus percalços em busca dessa vingança –e de um mínimo de significado para o assassinato de Goldie –ele se depara com uma conspiração que envolve os políticos graúdos de Basin City, assim como um de seus mais respeitados sacerdotes e um jovem e estranho canibal. Isso tudo enquanto luta com os fantasmas ilusórios (e enganadores) de sua própria esquizofrenia.
Na segunda, "A Grande Matança", um mal-entendido protagonizado pelo foragido Dwight (Clive Owen), pela prostituta Gale (Rosário Dawson, vulcânica) e pela pequena ninja Miho (a ágil e surpreendente Devon Aoki) pode por em risco uma trégua milenar mantida entre os policiais e os moradores de um bairro chamado Cidade Velha.
Na terceira, "O Assassino Amarelo", acompanhamos o policial Hartigan (Bruce Willis, num papel perfeito para ele) que sacrifica sua vida, sua carreira e seu casamento para proteger a garotinha Nancy de um perverso assassino e maníaco sexual (Nick Stahl, fantástico) cujo fato de ser filho de um senador o torna blindado aos olhos da lei. Após tentar praticar justiça com as próprias mãos –e de amargar quinze anos na cadeia por isso –Hartigan deve encontrar Nancy (agora vivida pela bela Jéssica Alba) e salvá-la das garras desse psicopata.
Assim sendo, com essas três emblemáticas premissas (nada menos do que três contos extraídos da graphic-novel e escolhidos a dedo), Rodrigues concebeu essa transposição literal (em tom, enquadramento de câmera, e paleta de cores) do sensacional e inovador trabalho do quadrinista Frank Miller, que à propósito foi convidado a dividir com Rodrigues o crédito de direção: Mais uma prova do objetivo estóico de Rodrigues em manter-se completamente fiel à fonte de inspiração, uma postura em geral ignorada por outros realizadores.

Em tempo: Melhor amigo de Quentin Tarantino, Robert Rodrigues convidou-o para dirigir uma única cena do filme; trata-se da tensa, dúbia e surreal conversa banhada por luzes estroboscópicas entre Clive Owen e o personagem de Benicio Del Toro dentro de um carro em movimento.