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segunda-feira, 2 de março de 2020

Estão Todos Bem

Se há um hábito lamentável entre os expectadores norte-americanos –herdado, inclusive, pelas novas gerações de expectadores brasileiros –é a preguiça de assistir filmes legendados: Essa tem sido a principal justificativa dos estúdios hollywoodianos para fazerem refilmagens absolutamente desnecessárias de grandes obras estrangeiras.
Aqui, a bola da vez é o belíssimo drama familiar italiano “Estamos Todos Bem” que Giuseppe Tornatore concebeu, no início dos anos 1990, com toda sua habilidade singular para evidenciar, sem pieguice ou exagero, as alegrias e tristezas inerentes às relações –e de quebra ainda trazia um trabalho arrebatador à frente das câmeras de Marcello Mastroianni.
O escolhido para tal tarefa é o diretor e roteirista inglês Kirk Jones que fez a comédia “A Fortuna de Ned” e o infantil “Nanny McPhee”, e depois ainda faria “O Que Esperar Quando Você Está Esperando” e “Casamento Grego 2” –o tipo de diretor, como se pode ver, que produtores adoram: De estilo ameno, suave a ponto de ser sonolento, sem atrevimentos autorais e especialista em produções descontraídas e inofensivas.
E “Estão Todos Bem” é tão inofensivo que chega quase a ser nulo.
Se o filme italiano tinha Mastroianni, o norte-americano tem Robert De Niro.
Ele interpreta Frank Goode, viúvo recente cuja única ocupação real que agora preenche seus dias de aposentado é a expectativa pela chegada dos quatro filhos adultos (no original eram cinco), todos moradores de outras cidades.
Entretanto, os rebentos não vêem o visitar e, aborrecido com esse distanciamento da família –fato que sua esposa em vida nunca permitiu que se concretizasse –ele decide fazer uma série de visitas-surpresa, viajando até as moradias de um por um.
O primeiro é o artista David, de quem ele não vê nem a cor: Sumiu do apartamento onde morava em Nova York e ninguém sabe dele –e, por meio de diálogos paralelos entre os filhos, notamos que algo não acabou bem!
Em seguida, Frank vai para Chicago visitar Amy (Kate Beckinsale) que trabalha numa agência de publicidade, mora numa bela casa, tem um marido exemplar e um filho modelo.
Ou não –não passam despercebidos de Frank, indícios de que a vida perfeita que Amy deseja exibir a ele pode ser uma fachada com a qual esconde os próprios fracassos aos olhos do pai.
O mesmo se repetirá com os outros filhos: Robert (Sam Rockwell), que mora em Denver, não é o maestro de orquestra que afirmava, mas apenas um mero percussionista; e Rosie (Drew Barrymore), moradora de Las Vegas, diz ter um belo apartamento (é emprestado de um amigo) e uma vida feliz, quando na verdade tem um filho que esconde do pai, bem como suas opções sexuais.
O grande problema do filme, enquanto narrativa, é uma certa esquizofrenia crônica em negar e ao mesmo tempo aceitar sua fonte original –o filme maravilhoso de Tornatore. Nem é a comparação ingrata que as nuances sucintas de De Niro sofrem perante a espetacular atuação de Mastroianni, ou o estilo ‘sessão da tarde’ que a inclinação de Kirk Jones ao melodrama provoca em justaposição ao lirismo embriagante de Tornatore: Seu maior problema é desdobrar-se em subterfúgios para afastar-se ao máximo da semelhança com o filme italiano (com alterações pontuais em alguns aspectos da trama, aliadas a um senso mais atenuado, e mais americano, de dramaticidade), e no momento seguinte, incorporar inúmeros esforços para imitá-lo (com diferenças mínimas e pouco convincentes em sequências-chaves que se repetem de modo praticamente igual, e sobretudo, na trilha sonora de Dario Marianelli, que reprisa na cara dura muitos acordes da melodia de Ennio Morricone).
No trabalho de marketing para o lançamento daquele ano (2010) e até mesmo em entrevistas e making-off, tentou-se ocultar de todas as formas que esta era uma refilmagem de um clássico italiano da década de 1990, e é bem provável que tivessem havido muitos expectadores que não tenham ficado sabendo dessa informação de fato, mas o trabalho do operário-padrão Kirk Jones padece de um sentimento de inferioridade tamanho frente à beleza reflexiva da obra original, que mal precisamos assistí-la para compreender a imensa redundância que assombra esta produção do início ao fim.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Jojo Rabbit

Existem artifícios inusitados e tocantes dos quais o diretor Taika Waititi lança mão para fazer aqui um filme de guerra que durante sua maior parte do tempo não quer parecer um filme de guerra.
Seu pequeno herói (e personagem título) é Jojo Betzler (o notável Roman Griffin Davis), um jovem alemão de 12 anos de idade, ávido por integrar a juventude hitlerista naquela época em que corre a Segunda Guerra Mundial –tanto que o amigo imaginário de Jojo é um Adolph Hitler transfigurado pelos rompantes pueris do próprio Jojo (surgindo em cena personificado com equilíbrio refinado entre sátira, paródia e crítica demolidora pelo diretor Waititi).
Na colônia de férias para onde vai –da qual se ocupa a primeira hora de filme –Jojo consegue apenas ser apelidado de Coelho: apenas porque relutou em matar um.
Na tentativa subsequente de mostrar coragem, ele acaba com uma granada explodindo em sua cara (!) e volta para casa.
Todavia, algo está diferente. Como ele vai aos poucos descobrir, sua mãe Rose (Scarlett Johansson, inspiradíssima) contornou as perdas do pai e da irmã mais velha de Jojo (ambos perecidos na guerra) escondendo no sotão a menina judia Elsa Korr (Thomasin McKenzie).
Um dilema ocorre então ao pequeno protagonista –e dele nascem as dinâmicas que determinam o filme: Jojo finge para a mãe que nada sabe –e deve reavaliar assim o próprio nacionalismo cego, manifestado na forma de chiliques homéricos de seu amigo imaginário. A mãe finge para Jojo que tudo está como era antes (numa atuação rica em camadas de Johansson que coloca a situação de “A Vida É Bela”, um pouco similar, no chinelo!). E enquanto nada se resolve, e a guerra corre solta na Europa –mostrada em pequenos indícios recheados de ironia –Jojo vai galgando a curiosidade despertada pela refugiada em seu sotão, e descobre que, por trás do preconceito que a lavagem cerebral do nazismo o ensinou a ter, os judeus são seres humanos dotados de beleza, inteligência, força e encantamento –características que gradualmente o fazem descobrir-se enamorado por Elsa.
Durante a temporada de premiações –que culminou com o filme conquistando o Oscar 2020 de Melhor Roteiro Adaptado –“Jojo Rabbit” ocupou o centro de um debate da crítica sobre ser ou não apropriado um filme de comédia ambientar-se e contextualizar-se no traumático episódio histórico da Segunda Guerra Mundial.
Realizado com o mesmo equilíbrio e parcimônia demonstrados em trabalhos nunca menos que ótimos, como “O Que Fazemos Nas Sombras”, “A Incrível Aventura de Rick Baker” e o comercial “Thor-Ragnarok”, o filme realizado por Waititi prova que sim, é perfeitamente apropriado ambientar uma comédia na Segunda Grande Guerra, inclusive, no coração da própria Alemanha nazista desde que, como aqui, o bom senso de seu realizador trabalhe em constante sintonia com seu ímpeto criativo.
“Jojo Rabbit” abraça assim todas as condições da divertida comédia que é; porque nesse terreno Taika Waititi se revela um gênio inconteste; porque assim ele põe à mesa, com muito humor, as cartas inesperadas que farão seu filme poderosamente contundente; e porque quando “Jojo Rabbit” por fim tiver incorporado suas inevitáveis tintas dramáticas –absolutamente inerentes na premissa que possui –toda essa leveza que as antecipou fez com que as defesas do expectador fossem desarmadas preparando-o para o seu impactante terço final.
Não, Waititi não esquece que sua obra é um filme de guerra, e como tal, ele não poupa os personagens e, portanto, o expectador de descobrirem as consequências atrozes de se viver sob a ameaça do conflito.
“Jojo Rabbit” tem uma condução bela, engraçada e lúdica rumo a uma constatação amarga e necessária, um filme que diverte, emociona e nos faz pensar.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Três Anúncios Para Um Crime


O grande trabalho de Martin McDonagh promove a convergência de diversos gêneros harmonizados pela boa condução de um elenco primoroso: Passeia-se do drama genuíno e não raro pesado à comédia de intenções satíricas para com as autoridades e os discursos de empostação intransigente, chegando até o suspense e o gênero policial de investigação.
Dessa maneira, muitos foram os críticos que enxergaram nessa largueza de detalhes uma caricatura que contradizia as propostas sérias que a premissa inicialmente cultivava.
Quando um filme é bom demais, ele padece pelas prerrogativas exigentes de alguns expectadores para que ele seja, de fato, bom; esse problema se dá, com mais freqüência, com as obras indicadas ao Oscar, caso de “Três Anúncios Para Um Crime”, cujos prêmios de Melhor Ator Coadjuvante (para Sam Rockwell) e Melhor Atriz (para Frances McDormand), ele venceu.
Frances é Mildred Hayes, mãe de uma filha estuprada e morta na cidadezinha de Ebbing, no Missouri, cujo crime ainda não se solucionou: Depois de sete meses, o caso emperrou na incapacidade da polícia local.
Mildred, então, toma uma decisão radical: Resolve alugar três outdoors –localizados num trecho pouco movimentado da rodovia –e neles divulga três mensagens contundentes de apelo crítico à polícia.
A repercussão é fervorosa, em grande parte, porque o xerife, Will Willoughby (Woody Harrelson), além de ser uma figura querida na cidade, está padecendo de câncer no pâncreas. Ninguém se mostra favorável à Mildred; nem seu filho Robbie (Lucas Hedge, de “Manchester ÀBeira-Mar”) que trata o luto pela irmã silenciosamente; nem seu violento ex-marido, Charlie (John Hawkes); nem mesmo Welby, o jovem que lhe alugou os outdoors (interpretado por Caleb Landry Jones) e que, com isso, ganhou a antipatia de toda força policial; e muito menos do racista, impulsivo e irresponsável policial Dixon (Sam Rockwell), cujas atitudes encrenqueiras passam longe de espelhar o que se espera de um policial.
Se há, na trama que centraliza Mildred, algum potencial para o melodrama e para a comiseração, o roteiro primoroso de McDonagh e, em especial, a atuação estupenda, implacável e poderosa de Frances McDormand não permitem que aconteça: Essencial em uma galeria de ótimos e magníficos personagens, Mildred é a força que movimenta todos os núcleos, mesmo àqueles aos quais ela não parece incluída.
E o filme de McDonagh ainda esbanja perspicácia e inteligência ao brindar o expectador com sucessivas dinâmicas distintas e deliciosas de se acompanhar: A camaradagem cheia de graça, perplexidade e alguma tensão entre Dixon e Willoughby; a dor impronunciável que intoxica os momentos entre Mildred e Robbie; a violência ridícula que pontua os encontros entre Mildred e Charlie; a implicância potencialmente letal que surge quando Dixon se encontra com Welby e que, aos poucos, adquire inesperado afeto.
Nenhuma delas, contudo, supera, a relação de distância, antagonismo e incompreensão abissal que define os momentos que Mildred e Dixon dividem juntos, mas que, paulatinamente vão se modificando para uma das parcerias mais sensacionais do cinema recente, e que promove, no personagem de Sam Rockwell, uma sutil e brilhante metamorfose.
Diante de um filme tão bom, tão singularmente interessante e notável, parece irrelevante a discussão do quão realista ele se mostra em relação a ideologias de posturas políticas –o quê parte da crítica até andou fazendo –mas, mesmo assim, Martin McDonagh soube manter a sensatez com seu corajoso final, no qual se arrisca a contrariar as expectativas do público com um desfecho transitório onde ele se atreve a espelhar os anseios que cada expectador haverá de ter, em seus próprios termos.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 2018

A cerimônia que comemorou os noventa anos da maior premiação do cinema foi marcada pela celebração das mudanças proporcionadas pelas denúncias de assédio que afloraram ano passado, e pela exigência de uma indústria mais saudável e justa.
As gafes históricas transcorridas no ano anterior também pareceram assombrar a cerimônia, lembradas pelo apresentador Jimmy Kimmell com algumas piadas nervosas, e com um zelo redobrado no anúncio da categoria principal; realizado pela mesma dupla do ano passado, Warren Beatty e Faye Dunaway.
Talvez um reflexo disso, a entrega dos prêmios se mostrou mais inesperada e sensata do que o normal.
Houve mais democracia –quase todos os indicados levaram uma ou outra estatueta –e algumas surpresas bem-vindas, como o Oscar de Melhor Roteiro Original para “Corra!”.
A divisão de opiniões que tomou os críticos nas últimas semanas afetou o desempenho do até então favorito “Três Anúncios Para Um Crime” que acabou ficando com os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante, para Sam Rockwell, e de Melhor Atriz, para Frances McDormand –dona do discurso mais poderoso e arrebatador da noite!
Com isso, “A Forma de Água”, de Guillermo Del Toro, se tornou o primeiro filme de fantasia a levar os Oscars principais (Melhor Filme e Melhor Diretor) desde “O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei”. Aliás, desde 2012, a Academia não premiava um mesmo filme com esses dois Oscars.
Além do absoluto e merecido reconhecimento à Gary Oldman (Melhor Ator por “O Destino de Uma Nação”) sobrou espaço para conferir três estatuetas à “Dunkirk” e duas para “Blade Runner 2049” –incluindo a de Melhor Fotografia, a primeira conquistada pelo veterano Roger Deakins.

MELHOR FILME
"A Forma da Água"

MELHOR DIREÇÃO
"A Forma da Água", Guillermo Del Toro

MELHOR ATRIZ
Frances McDormand, "Três Anúncios Para Um Crime"

MELHOR ATOR
Gary Oldman, "O Destino de Uma Nação"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney, "Eu, Tonya"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sam Rockwell, "Três Anúncios Para Um Crime"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Blade Runner 2049"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Icarus"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Heaven Is A Traffic Jam On The 405"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Uma Mulher Fantástica" (Chile)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Dunkirk"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"Blade Runner 2049"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Destino de Uma Nação"

MELHOR FIGURINO
"Trama Fantasma"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Dunkirk"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"A Forma da Água"

MELHOR TRILHA SONORA
“A Forma da Água"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Remember Me", de "Viva-A Vida É Uma Festa"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Corra!"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Me Chame Pelo Seu Nome"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Viva-A Vida É Uma Festa"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Dear Basketball"

MELHOR EDIÇÃO
"Dunkirk"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"The Silent Child”

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sete Psicopatas e Um Shih Tzu

Diretor de “Três Anúncios Para Um Crime”, um dos grandes favoritos ao Oscar 2018, Martin McDonagh tem, como se pode constatar por este trabalho, um apreço pelo humor negro. E como todo autor a lidar com um estilo que aprecia, ele o exerce com habilidade insuspeita: “Sete Psicoapatas e Um Shih Tzu” une comédia e sordidez humana num viés de cinismo que dá sabor à narrativa algo multifacetada que ele oferece.
Seu protagonista numa brincadeira de metalinguagem que aos poucos vai ficando clara é Marty, um reflexo do próprio Martin McDonagh, diretor e roteirista (interpretado por Colin Farrel, chapa do diretor com quem antes fez “Na Mira do Chefe”). Envolvido com a bela e impaciente Kaya (Abbie Cornish), Marty é um roteirista hesitante –tem uma idéia para um roteiro que vai pouco além do título –“Seven Psychopaths”, o título original –e aos poucos vai elaborando os personagens: O 1º é uma mulher que, na cena indicativa e significativa que abre o filme, extermina a sangue frio dois assassinos de aluguel; o 2º é um quacre (Harry Dean Stanton), pai desolado de uma garota morta que persegue o assassino dela mesmo depois que este paga uma sentença de anos e se regenera após a prisão.
Aos poucos a realidade vai invadindo a premissa fictícia: O melhor amigo de Marty, o destrambelhado Billy (o ótimo Sam Rockwell que está no elenco de “Três Anúncios Para Um Crime”) trabalha num negócio ilícito e picareta com Hans (Christopher Walken); eles ‘sequestram’ cães de pessoas ricas e os devolvem depois que é anunciada uma recompensa, para assim dividirem o dinheiro; pois o 3º psicopata é justamente Charlie Costello (Woody Harrelson, também ele presente em “Três Anúncios...”), o gangster irascível dono do cachorrinho que a perplexa Sharice (uma breve ponta de Gaborey Sidibe, de “Preciosa”) perdeu –cachorro este levado pelos ‘seqüestradores’.
O 4º psicopata é um vietnamita que tem por obsessão vestir-se de padre e chacinar norte-americanos (!) e que terá apenas um sentido reflexivo no final.
O 5º psicopata, que se apresenta à Marty respondendo a um anúncio colocado num jornal por Billy, é Zach (o lendário Tom Waits) e sua namorada Maggie –seria ela então o 6º psicopata –que juntos resolveram viajar os EUA matando serial killers (deram cabo, inclusive do Zodíaco!), mas vieram a se separar.
O caldo da trama elaborada por McDonagh engrossa quando as pontas soltas começam surpreendentemente a se juntar: O rastro de vingança de Charlie em busca de seu cachorro seqüestrado (da raça shih tzu) leva a morte da esposa de Hans e, por conta disso, Billy –revelando-se o 7º psicopata –mata sua namorada Angela (a linda Olga Kurylenko) que, à propósito, era o 1º psicopata mencionado no início.
À medida que a narrativa se afunila em seus quarenta minutos finais (que se estendem desnecessariamente), a metaliguagem proposta pelo diretor se mostra ainda mais intensa e notável, bem como algumas surpresas que ele guarda na manga e a influência nítida de Tarantino e seu “Pulp Fiction” –algo inevitável em toda uma geração de cineastas americanos.
“Sete Psicopatas e Um Shih Tzu” é uma obra de um jovem autor habilidoso e antenado com as características contumazes do cinema urgente feito na atualidade, tem suas fragilidades, é bem verdade (e elas respondem, sobretudo, pela sua incapacidade em ser mais objetivo com seu enredo, resultando numa primeira metade sensacional e numa segunda enrolada), mas é revelador de um talento que, cedo ou tarde, entregaria algo realmente extraordinário.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Passa longe de ser um faroeste nos moldes convencionais este trabalho do diretor Andrew Dominik, passa longe, até mesmo de ser um exemplar do faroeste revisionista surgido entre as décadas de 1960 e 70: O quê Dominik propõe aqui é uma observação distanciada de personagem por meio de uma encenação potencializada em suas propriedades cênicas –um elenco fantástico, uma fotografia sedutora –através da qual a índole de um personagem que nunca se deixa capturar revela-se o mistério insolúvel que, em seu drama, ele contempla.
Nesse sentido, há uma proximidade –não, porém, muito declarada –com a narrativa tortuosamente dúbia cheia de desvios labirínticos de “Cidadão Kane”.
Conhecido fora-da-lei e renegado ex-soldado durante a guerra de secessão, Jesse James era um bandido lendário nos EUA, nos meados de 1890. Fascinado por esse mito, o jovem e titubeante Robert Ford se junta ao seu bando seguindo os passos de seu irmão, Charlie. Mas o cerco cada vez mais apertado das autoridades no encalço de James, e o valor elevado da recompensa por sua captura acirram seu ânimo e o temor de ser traído, conduzindo ele e os homens de seu bando à um jogo de tensão, suspeitas e traições que tenta, por meio deste filme esclarecer as razões de sua morte.
Brad Pitt compõe com empenho sua interpretação de um Jesse James vulnerável em sua paranóia, embora a grande presença seja mesmo a do ótimo Casey Affleck, neste trabalho hermético e contemplativo.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

À Espera de Um Milagre

O fato de ter entregado, já em seu primeiro filme, uma das grandes obras do cinema com “Um Sonho de Liberdade” foi, de certa maneira, um fantasma que assombrou a carreira do diretor Frank Darabont: Isso estabeleceu para todos os seus trabalhos posteriores um patamar altíssimo e injusto com o qual serem comparados.
E Darabont certamente sentiu essa pressão, prova disso é que seu filme imediatamente seguinte partilhava de várias características em comum com aquela que é (e que sempre vai ser) sua obra-prima: “À Espera de Um Milagre” era, também ele, adaptado de uma obra de Stephen King –que, ao contrário de “Um Sonho de Liberdade” flerta mais abertamente com seus artifícios sobrenaturais –e também tinha como ambientação as paredes opressoras de uma prisão no Maine, desta vez, o corredor da morte ou, como os próprios presos costumam chamar “a milha verde” –como o título original “The Green Mile”.
Darabont ainda adicionou à mistura a presença protagonista de Tom Hanks, mas (embora o filme seja muito querido por uma boa parcela do público) ele não chega nem perto de se equiparar a altíssima qualidade de “Um Sonho de Liberdade”.
Mas, é um belo filme.
Desta vez, deixando o ponto de vista dos prisioneiros para adotar o dos guardas carcerários (Tom Hanks interpreta o papel de chefe deles, como logo é informado no início, quando um flashback começa a resgatar a história), o filme de Darabont registra a rotina dos guardas que trabalharam no corredor da morte nos anos 1930. Eles vivem a atroz rotina de conviver com os condenados à cadeira elétrica, uns ironicamente dóceis e afáveis, outros, psicóticos e estranhos. O grupo de guardas (que além de Hanks, inclui David Morse, Barry Peper, de “O Resgate do Soldado Ryan”, Jeffrey DeMunn, de “Cidadão X” e Doug Hutchison, ator que teve uma breve e memorável presença na série “Arquivo X”) tem uma série de comportamentos e atitudes específicas por meio das quais conseguem conviver (com os prisioneiros, inclusive) numa certa harmonia diante do peso mórbido e obscuro da natureza daquele trabalho.
Há, portanto, uma novidade desestabilizadora quando eles recebem John Coffey, um gigantesco prisioneiro (Michael Clarke Duncan, um achado) condenado à cadeira elétrica pelo brutal assassinato de duas meninas. O novo detento, entretanto (apesar do tamanho descomunal) em nada parece um criminoso; Coffey tem o comportamento amável, tímido e por vezes diz ter medo do escuro.
No entanto, o quê o chefe da carceragem, um tanto perplexo, logo descobrirá, é que Coffey é um anjo de Deus na Terra, e que tem os dons de curar os males das pessoas, incluindo o câncer que consome a vida da benevolente esposa do diretor da prisão (James Cronwell). Mas, Coffey está condenado à morte.
É então um dilema existencial e tanto que o filme de Darabont propõe ao personagem de Hanks –e, por conseqüência, devido à insuspeita capacidade do ator em obter identificação, ao expectador também: Permitir que um anjo capaz curar muitos males com suas habilidades seja morto pelas leis corruptíveis dos homens ou tentar algo para salvá-lo? Mesmo que ele próprio esteja disposto à encarar o corredor da morte; na interpretação emotiva e emocionada de Clarke Duncan, Coffey é como uma criança ferida em sua inocência, ávida por regressar para o céu onde não precisará testemunhar a crueldade diária dos homens aqui na terra.
Por isso, por sua pouco econômica carga dramática e por sua capacidade invulgar de, por vezes, levar os expectadores às lágrimas, “À Espera de Um Milagre” é, apesar do lugar secundário que ocupa na filmografia de Darabont, um melodrama celebrado.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Homem de Ferro 2

Em time que está ganhando, não se mexe, certo?
Com essa idéia em mente, a Marvel Studios, após o estrondoso sucesso de público e crítica de “Homem de Ferro” optou por lançar, dois anos depois, a continuação desse trabalho.
Alternativas não faltavam –na época, exceto pelo Incrível Hulk que ganhou uma nova versão com Edward Norton em 2008, nem Capitão América, nem Thor tinham seus próprios filmes –mas, a Marvel resolveu não arriscar e chamou mais uma vez Jon Favreau para a direção. Liderando o elenco, retornava Robert Downey Jr. garantindo ao filme sua interpretação irrepreensível como o protagonista Tony Stark.
Uma curiosidade: O intérprete de James Rhodes do filme anterior, Terence Howard, não voltou para a seqüência, e em seu lugar foi chamado o ótimo Don Cheaddle que assumiu o personagem e, até o momento, já viveu Rhodes em quatro filmes.
Após ter revelado sua identidade secreta como Homem de Ferro no final do filme anterior, o milionário Tony Stark enfrenta diversos tipos de pressões: Alçado à condição de celebridade ele é pressionado pelo governo à compartilhar a arrojada tecnologia da armadura, no que são apoiados pelo melhor amigo de Stark, o Coronel James Rodhes; ao mesmo tempo, seu ferimento no coração, herdado do ataque do primeiro filme requer uma fonte de energia constante para não matá-lo.
Enquanto isso, um rancoroso inimigo nutre planos de vingança contra o Homem de Ferro: ele é Ivan Danko (Mickey Rourke, uma presença luxuosa), cientista russo que, aliado ao inescrupuloso empresário Justin Hammer (Sam Rockwell), planeja recriar a armadura usando-a para o mal.
Fica perceptível, em muitos momentos, um relativo cansaço do diretor Favreau, pelo fato de estar mais uma vez lidando com os mesmos elementos que tão bem empregou no primeiro filme: Muitas cenas soam quase como uma repetição disfarçada de algo que ele já havia feito antes, embora não faltem momentos bastante divertidos a este trabalho, amparado num roteiro ocasionalmente cômico de Justin Theroux –com quem Downey Jr. havia trabalho em “Trovão Tropical”. Mais do que dar uma continuidade de fato à história de Tony Stark, este filme tem por objetivo, enquanto narrativa, estender os detalhes acerca do Universo Marvel. Para tanto, sua riqueza de detalhes diversas vezes relega a trama a um segundo plano –o quê é fonte de críticas para este filme em especial até hoje –enquanto exibe um gancho explícito para o vindouro filme do Thor (habilmente retomado nessa produção) na forma do personagem do Agente Coulson (Clark Gregg), bem como a aparição bem mais estendida e intensa de Nick Fury (Samuel L. Jackson, que no filme anterior surgiu somente numa cena pós-créditos) e, sobretudo, a esplêndida presença da Viúva Negra (Scarlet Johansson).