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domingo, 14 de janeiro de 2024

O Dossiê Pelicano


 A jovem estudante de Direito Darby Shaw (Julia Roberts) na ânsia de investigar o assassinato estranhamente simultâneo de dois juízes da Suprema Corte dos EUA em Washington (um deles interpretado pelo veterano Hume Cronyn, numa breve participação) deduz que esbarrou numa terrível verdade a ser encoberta de qualquer maneira por pessoas inescrupulosas e bem posicionadas nas esferas do poder: Na tentativa de silenciá-la, os criminosos, sem querer acabam matando o professor, enlace romântico e mentor dela, Thomas Callahan (Sam Shepard). Perseguida por pessoas dispostas a interromper suas investigações e neutralizar suas descobertas a qualquer custo, Darby se refugia nos subúrbios de Nova Orleans, e conta com a ajuda do jornalista investigativo Gray Grantham (Denzel Washington).

Na esteira do sucesso avassalador de “Uma Linda Mulher”, a estrela Julia Roberts seguiu fazendo o que se espera de jovens talentos em ascensão: Realizou filmes destinados a exclusivamente agradar seu público –se tais filmes tinham qualidade ou não, isso era uma questão que nunca pareceu prioridade nas decisões curiosas dos estúdios hollywoodianos. Ele protagonizou o suspense algo vulgar “Dormindo Com O Inimigo”, em 1991, e nesse mesmo ano, apareceu no meloso, romântico e superficial “Tudo Por Amor”. O passo seguinte era marcar presença num projeto mais ambicioso, capaz de colocar Julia sob as lentes de um diretor, senão grande, ao menos, renomado –Alan J. Pakula –e deixá-la, lado a lado, de outros grandes nomes do cinema, o que inclui, além do sempre eficiente Denzel, as presenças ocasionalmente aproveitadas de Sam Shepard, Stanley Tucci, John Heard, William Atherton, John Lithgow e Robert Culp (como Presidente dos EUA).

Embora protagonistas, Julia Roberts e Denzel Washington não formam um par romântico –a Hollywood implicitamente segregada de então dificilmente permitiria um casal formado por atores de etnias distintas (algo que seria aceito, e até encorajado, hoje). Assim, pode-se até pegar a dica: Composto de aspectos de dizem muito sobre o cinema comercial de seu tempo, “O Dossiê Pelicano” é feito de tendências específicas que visavam atender a demanda do público, termina sendo um veículo morno para a estrela em franca ascensão de Julia Roberts e um reaproveitamento requentado –ainda que com base no enredo original extraído do livro de John Grisham –da narrativa pulsante que o mesmo diretor Alan Pakula empregou em “A Trama” nos anos 1970; os ganchos e expedientes de roteiro são, senão os mesmos, muitíssimo parecidos!

A única diferença é o tempo em que foram realizados: Nos anos 1970, pela liberdade criativa com a qual realizadores mais jovens tateavam um novo cinema comercial (e pelas tendências autorais que emergiam na época), Pakula soube orquestrar em “A Trama” (além de outros longa-metragens) uma obra urgente e pulsante; já, em 1993, o mesmo diretor, do alto de uma carreira experiente e já sem fôlego para ousar, concebeu um trabalho com aspectos similares, sem no entanto qualquer indício de atrevimento ou inovação.

A única ousadia de “O Dossiê Pelicano”, se é que isso conta, é ser um filme mediano, quando tinha tudo para ser excelente.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Frances


 Há em “Frances”, do diretor Graeme Clifford, uma densidade que o faz incontornavelmente deprimente, contudo, não havia, de fato, como evitar tal sensação diante da trajetória tão singular –e hoje profundamente alarmante e inacreditável –da atriz norte-americana Frances Farmer, cuja inadequação aos padrões de conduta de sua época (meados dos anos 1930 e 40) a levaram a sofrer pressões de tal forma severas que a levaram à loucura.

Mas, vamos por partes. Nascida na cidade de Seattle, ainda no início da década de 1930, Fances Elena Farmer (vivida do início ao fim pelo minimalismo impecável de Jessica Lange), aos 16 anos, choca a sociedade local com uma dissertação na qual ela questiona a existência de Deus. Já ali, Frances exibia as posturas avançadas que viriam, nos anos por vir, a lhe cobrar um alto preço: Questionadora para com a religião cegamente devota –não era necessariamente atéia, mas bastante ferrenha em relação às suas dúvidas cristãs –e inclinada ao comunismo, como fica bem claro com a longeva amizade que nutre, ao longo da vida, com o jornalista de esquerda Harry York (Sam Shepard, casado com Jessica na vida real).

Logo, Seattle se torna pequena demais para Frances que, após revelar-se promissora em peças teatrais locais e atrever-se numa viagem à Rússia, acaba obtendo um contrato de exclusividade com a Paramount Pictures, onde o filme “Meu Filho É Meu Rival” a converte em uma estrela –e, nesse processo, ao casar-se com o também ator Dick Steele (Christopher Pennock), Frances inicia uma sucessão de relacionamentos mal-fadados.

Farta do esquema hollywoodiano de produção –onde as atrizes não tinham qualquer interferência na qualidade do material, servindo de mero adereço às produções –Frances busca desafios profissionais mais estimulantes em Nova York, na Broadway, onde uma peça de cunho profundamente filosófico e artístico lhe desperta as atenções. Ela termina também na cama do autor do script, o dramaturgo Clifford Odets (Jeffrey DeMunn, de “Cidadão X”), só para ser descartada quando os homens não mais precisam dela: Quando a peça atinge inquestionável sucesso de público, em grande parte devido ao seu status de estrela cinematográfica, os produtores a substituem, durante os preparativos para a apresentação em Londres, por outra protagonista, e Clifford a rejeita com um grosseiro bilhete anunciando a chegada de sua esposa.

Relutante, Frances regressa para Hollywood, onde as coisas agora mudaram: Sua predileção pelo teatro, em detrimento às produções de cinema, fizeram desgostoso o todo-poderoso chefe da Paramount Pictures (Allan Rich, de “Quero Dizer Que Te Amo”) que, ao lado da crítica insidiosa Louella Parsons, coloca toda Los Angeles contra Frances. Exaurida pelo ambiente tóxico, Frances –que, até então, começa a demonstrar certo grau de alcoolismo devido à tumultuadas filmagens realizadas à contra-gosto no México –começa a ter seus primeiros surtos de ansiedade, o que a leva a ser internada numa clínica psiquiátrica pela mãe (Kim Stanley, de “Os Eleitos”, também com Shepard no elenco).

Será só o começo de seu pesadelo.

Os médicos se recusam a liberá-la para uma vida normal e saudável –em parte, pela boa repercussão que a presença de uma estrela de cinema internada proporciona à clínica, em parte, pela insistência negativista da mãe –mesmo diante de indícios pertinentes vindos da própria Frances de que ela é mentalmente sã. Quando finalmente sai –não sem antes tentar uma fuga, auxiliada pela única pessoa que continua ao seu lado em todos os percalços, Harry York –ela é deixada aos cuidados da mãe, tendo sua autonomia como adulta legalmente suspensa.

Contudo, a mãe de Frances (no roteiro romantizado escrito por Eric Bergren, Christopher De Vore e Nicholas Kazan, este também roteirista de “O Reverso da Fortuna”) revela-se menos alguém preocupada com o bem-estar da própria filha, e mais um indivíduo disposto a enxergar nela as aspirações que almejou para si: A despeito da vontade cada vez maior de Frances afastar-se por completo do sufocante e pernicioso sistema de Hollywood (mostrado no filme como um universo abusivo e dissimulado), sua mãe lhe dá somente duas alternativas; ou regressa de uma vez por todas à vida de atriz famosa, ou retorna para as clínicas psiquiátricas. A medida que os atritos se sucedem –pois, Frances se recusa veementemente a viver uma vida que não quer para si –as instituições nas quais é enviada por sua mãe, com todos os aparatos legais, vão se tornando cada vez mais precárias e degradantes, em sequências lúgubres e consternadoras que certamente inspiraram Jane Campion em “Um Anjo Em Minha Mesa”. Num dos últimos sanatórios, Frances era estuprada por quem pagasse mais aos enfermeiros pela chance de fazer sexo com uma estrela de cinema (!). Até que, por fim, Frances é submetida a uma lobotomia!

Um retrato impiedoso das circunstâncias arcaicas de tempos mais remotos –sejam os tratamentos psiquiátricos atrozes e os especialistas da área desprovidos de qualquer tato para com os pacientes; sejam os meandros corrosivos e absolutamente tendenciosos da impressa e dos bastidores da fama –“Frances”, mesmo que pesado e amargo, ainda é mais ameno que a triste história real na qual se inspira. Mesmo assim, o filme não seria nem metade do que é não fosse a presença primorosa de Jessica Lange no papel principal: Ela foi indicada ao Oscar 1983 de Melhor Atriz onde concorreu com Julie Andrews (“Victor Ou Victória”), Debra Winger (“A Força do Destino”) e Sissi Spacek (“Missing-O Desaparecido”), e perdeu para Meryl Streep por “A Escolha de Sofia”. Prova de que, não fosse aquele trabalho descomunal de Meryl, ela teria ganhado em qualquer outra edição, é que, no mesmo ano, Jessica foi premiada com o Oscar de Melhor Coadjuvante por “Tootsie”, provavelmente uma compensação por parte da Academia.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Crimes do Coração


 Baseada na peça teatral “Crimes Of The Heart”, da dramaturga Beth Henley, a trama que conduz o filme realizado pelo australiano Bruce Beresford tem como elemento particular as idiossincrasias flagradas em seus personagens por meio do texto cheio de peculiaridade e estranheza.

Esse retrato rico em excentricidade de uma família do Sul dos EUA se incumbe basicamente de girar em torno das três irmãs Magrath, reunidas debaixo do mesmo teto após algum tempo separadas –tempo este que só ressaltou suas insondáveis diferenças: Lenny (Diane Keaton), a mais velha e mais acomodada se ressente pelo excesso de responsabilidade para com seu avô doente (Hurd Hatfield, de “Profissão: Ladrão”), o que a manteve presa e estagnada numa cidadezinha que não lhe reservava nem marido, nem futuro e nem felicidade; Babe (Sissy Spacek), a mais jovem, vive equilibrando-se na própria instabilidade o que a leva a contratempos calorosos como a tentativa de assassinato do próprio marido (pelo qual ela se vê na iminência de um lamentável julgamento) e um caso de adultério com um rapaz negro (e sendo ali o segregado sul dos EUA, a repercussão de tal caso resvala em perigo real); por fim, Meggy (Jessica Lange), a irmã do meio, a tempos ausente de casa na busca ainda infrutífera de seu sonho em virar estrela –fracasso este que não a impede de distribuir histórias inventadas por toda a vizinhança, inclusive para o apaixonado Doc (Sam Sheppard, marido de Jessica na vida real), também ele um homem casado.

Os temperamentos bastante distintos das três irmãs –e, não rato, conflituosos uns com os outros –encontram quase um único ponto da equilíbrio: O pesar impronunciável que o suicídio da mãe provocou em cada uma delas.

Ambientado quase todo no cenário do belo casarão da família delas –embora o filme escape, para efeitos de transposição cinematográfica, para um ou outro ambiente diferente em algumas cenas adaptadas –o trabalho de Beresford, como praticamente todos os filmes entregues por ele, segue seu estilo austero, privilegiando a beleza poética de pequenos detalhes banais do dia-a-dia (o assoprar de velas de um bolo de ainversário; a colheita de algumas frutas maduras; a contemplação do entardecer), o que provoca uma curiosa contração no humor peculiar e no excentrismo comportamental do texto original, fazendo tais características diluírem até quase desaparecerem.

Se o filme prende o expectador até o fim –tarefa que não é cumprida com toda a unanimidade do público –é pelo empenho e pela capacidade esplêndida do trio sensacional de atrizes reunidas: Alternando humores, richas, nervos acirrados, alegrias e tristezas, Keaton, Lange e Spacek estão formidáveis cada qual em seu papel, valorizando uma obra construída essencialmente para a dinâmica do palco, onde o elenco é, por definição, sua majestade.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Amor Bandido

Terceiro filme do diretor Jeff Nichols, “Mud” é antecedido por “Separados Pelo Sangue” e “O Abrigo”. Todos são dotados de um forte senso comunitário e de uma predisposição em avaliar as características idiossincráticas e comportamentais de uma região, com ênfase nos Sul dos EUA.
Muito interessa a Nichols as criaturas tão sonhadoras quanto defeituosas geradas em determinado contexto da América –e todos os seus trabalhos até aqui dedicam seu tempo em focar nas consequências de suas escolhas e de seus objetivos.
Aqui, a câmera de Nichols acompanha Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland), dois garotos que passam seu tempo percorrendo as regiões desoladas dos rios que singram o Mississipi, onde moram.
Numa dessas idas e vindas, eles encontram um barco abandonado, e dentro dele, refugiando-se, acham Mud (Matthew McConaughey), um rapaz crescido também naquela região que lhes pede ajuda. Ao longo dos dias que se seguem, eles lhe levam comida e outros itens, enquanto Mud lhes conta histórias, não necessariamente verdadeiras, sobre como foi parar lá, e como de lá planeja sair junto com a mulher que é o amor de sua vida, Junniper (Reese Witherspoon, que curiosamente nunca chega a se encontrar em cena com McConaughey).
Existem homens misteriosos por perto, a tentar rastrear Mud com propósitos vingativos, assim como a polícia.
Trazido pelo rio, como qualquer outro artefato que lhe desperta maior ou menor fascínio, Mud é, aos olhos de Ellis, uma senha para o conhecimento de um mundo adulto onde se encontram elementos intrigantes –como as relações assim consumadas com o sexo oposto –e outros nem tão satisfatórios assim –o relacionamento já em frangalhos de seu pai (Ray McKinnon, de “Um Sonho Possível” e “Ford Vs Ferrari”) e sua mãe (Sarah Paulson, de “Virada No Jogo”) e o próprio histórico criminoso de Mud.
Bom diretor, Jeff Nichols mantém um excelente nível com este trabalho notável, onde as particularidades inerentes ao drama e ao suspense caminham juntas na consolidação gradual de algumas metáforas bem pontuadas em sua narrativa –o barco que Mud vai recuperando pouco a pouco com a ajuda dos meninos ou o iminente desmantelamento da casa onde a família de Ellis mora, num alegórico rito de crescimento que atravessa o filme, impregnado pela sensação de que a qualquer momento algo terrível pode acontecer.
Essa excelência garante que o emprego dos simbolismos não sobrecarregue o filme tornando “Mud” ao mesmo tempo um suspense sobre os caminhos tortuosos da vida (ganhando ares de ação policial e até mesmo faroeste em seu clímax), um drama do ponto de vista de um garoto onde os relacionamentos adultos em foco jamais encontram um ponto de equilíbrio e uma história de aprendizado e amadurecimento sobre a aceitação das desventuras inevitáveis.
É também mais um exemplo da surpreendente evolução ocorrida na carreira de Mathew McConaughey que, como o personagem-título Mud, entrega uma atuação no mínimo formidável.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A Menina e O Porquinho


Na década de 2000, uma adaptação em live-action do livro infantil de E.B. White (antes adaptado numa cultuada, porém ultrapassada animação nos anos 1980) fazia sentido por duas razões específicas: Na primeira, para aproveitar a mescla entre a história cativante e edificante e os notáveis efeitos visuais que conferiam expressão aos animais (fórmula que levou “Babe-O Porquinho Atrapalhado” a se tornar um fenômeno de público e crítica na década anterior); e na segunda, para realizar um veículo genuíno e válido para a mais assídua estrela-mirim de Hollywood naquele período, Dakota Fanning –hoje, talvez o público até reconheça melhor a irmã mais nova dela, a bela Elle Fanning.
Na história descobrimos que a menina Fern (Dakota, cuja personagem ganha um peso maior nesta versão justamente para enfatizar sua presença) salva o filhotinho de porco Wilbur de ser sacrificado: Ele é o mais raquítico de uma ninhada.
Fern se compromete de cuidar e tratar dele, mas quando as aulas se iniciam precisa deixá-lo no celeiro junto dos outros animais. É quando a história clássica, como ela é conhecida, começa de fato: Wilbur faz amizade com todos –entre os quais, o filme ostenta um elenco estelar de vozes famosas como Steve Buscemi, Robert Redford, Oprah Winfrey, Kathy Bates e John Cleese –e compartilha seu temor de virar presunto; sendo um ‘porco da primavera’, como todos falam, ele provavelmente não chegará vivo para ver a neve do inverno.
Entre esses animais uma em especial será essencial para o sucesso na jornada de Wilbur: A aranha Charlotte (para quem a voz de Julia Roberts empresta tocante sensibilidade) que dedica-se assim a construir uma teia na qual escreve palavras específicas (“Um porco e tanto”, “Brilhante”, “Humilde”, e assim por diante) para definir Wilbur. Tal acontecimento é recebido com assombro pela população, mas como ocorre com toda notícia, seu efeito passa com a lembrança, e Charlotte precisa elaborar um novo plano para que os humanos valorizem Wilbur o suficiente a ponto de não considerá-lo para o abate.
Uma mensagem positiva e válida para o público a que se propõe –o infantil –cujo desfecho contém uma imprevista manobra de tristeza que eleva suas ingênuas considerações existenciais e torna este filme razoável e gracioso um pouquinho mais memorável.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Passa longe de ser um faroeste nos moldes convencionais este trabalho do diretor Andrew Dominik, passa longe, até mesmo de ser um exemplar do faroeste revisionista surgido entre as décadas de 1960 e 70: O quê Dominik propõe aqui é uma observação distanciada de personagem por meio de uma encenação potencializada em suas propriedades cênicas –um elenco fantástico, uma fotografia sedutora –através da qual a índole de um personagem que nunca se deixa capturar revela-se o mistério insolúvel que, em seu drama, ele contempla.
Nesse sentido, há uma proximidade –não, porém, muito declarada –com a narrativa tortuosamente dúbia cheia de desvios labirínticos de “Cidadão Kane”.
Conhecido fora-da-lei e renegado ex-soldado durante a guerra de secessão, Jesse James era um bandido lendário nos EUA, nos meados de 1890. Fascinado por esse mito, o jovem e titubeante Robert Ford se junta ao seu bando seguindo os passos de seu irmão, Charlie. Mas o cerco cada vez mais apertado das autoridades no encalço de James, e o valor elevado da recompensa por sua captura acirram seu ânimo e o temor de ser traído, conduzindo ele e os homens de seu bando à um jogo de tensão, suspeitas e traições que tenta, por meio deste filme esclarecer as razões de sua morte.
Brad Pitt compõe com empenho sua interpretação de um Jesse James vulnerável em sua paranóia, embora a grande presença seja mesmo a do ótimo Casey Affleck, neste trabalho hermético e contemplativo.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Cinzas No Paraíso

Pouco antes de desaparecer por cerca de vinte anos –e retomar a atividade cinematográfica com “Além da Linha Vermelha”, de 1999 –o diretor Terence Malick entregou este “Cinzas No Paraíso” –ou “Dias de Paraíso”, tradução do título original como intitulam em alguns lugares –um arrojo de experimentação visual que inevitavelmente sagrou-se com o Oscar de Melhor Fotografia.
Como em todos os trabalhos de Malick, as imagens são mesmo espetaculares acrescentando poder dramático à trama que ele conta.
O problema é justamente sua história padecer de alguns aspectos de folhetim que facilmente entediam o expectador: Década de 1930. Grande Depressão Norte-Americana. Fugitivos de uma vida inclemente, Bill (Richard Gere), sua namorada Abby (Brooke Adams) e sua irmã menor (Linda Marz) chegam a uma fazenda de trigo onde decidem trabalhar na temporada da colheita, contando a todos que são irmãos a fim de evitar perguntas –por uma razão nunca devidamente esclarecida no nebuloso roteiro.
Durante esse período, o debilitado proprietário da fazenda (Sam Shepard) encanta-se por Abby e a pede em casamento. Julgando que ele logo morrerá, Bill aconselha-a a aceitar o pedido para que possam enriquecer herdando a propriedade. Mas, na contramão de seus planos o rapaz enfermo não morre, e a convivência que transcorre para além da prevista temporada vai acirrando as relações –aos poucos, o fazendeiro vai se dando conta de que Bill a Abby não são irmãos como afirmam ser –deixando claro que esse triângulo amoroso não se sustentará por muito tempo.
No segundo filme de sua carreira, o autoral diretor Terence Malick, parece ainda disposto a especular as angústias subconscientes da América, como no anterior “Terra de Ninguém”, porém aqui numa ótica mais elaborada (e, no fim das contas, menos eficaz) onde ele justapõe numa mesma premissa os conceitos de luta de classes, as conseqüências quase metafísicas da mentira e da dissimulação e os esboços primários de uma família disfuncional, tudo filmado com luz natural e com cenas majoritariamente externas (o cinema de Malick parece se dedicar à sublinhar a insignificância do homem diante da grandiosidade da natureza), resultando num filme onde a trama por vezes se mostra subserviente às imagens.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os Eleitos - Onde O Futuro Começa

Após um início quase lúdico, onde podem ser vistos registrados os duros percalços da tentativa (bem-sucedida) do piloto aéreo Chuck Yeager (Sam Sheppard) em quebrar a barreira do som em 1947, este épico do diretor Philip Kaufman adota uma irônica narrativa hiper-realista (com notável aproveitamento de imagens documentais da época em sua edição) para acompanhar os primórdios tortuosos –e inacreditavelmente precários –do Programa Mercury, a primeira iniciativa norte-americana na Corrida Espacial disputada com os russos, e que levou (após uma longa bateria de testes sobre-humanos) alguns dos primeiros astronautas ao espaço, culminando com a seleção de sete homens predispostos a serem os primeiros americanos a aventurar-se para além do planeta.
Eram eles: Donald Slayton (Scott Paulin), Scott Carpenter (Charles Frank), Walter Schirra (Lance Henriksen), Alan Sheppard (Scott Glenn), enviado na primeira espaçonave a decolar com um cidadão americano em direção ao espaço, Gus Grisson (Fred Ward), piloto do vôo seguinte, John Glenn (Ed Harris), o primeiro a realizar um vôo espacial tripulado, e Gordon Cooper (Dennis Quaid), o último vôo solitário em órbita ao planeta, que marcou o encerramento do Programa Mercury em 1963, substituído pelo Programa Apollo.
Apesar do exuberante aparato técnico –que poderia perfeitamente ter sido sobrepujado por filmes que vieram depois, como “Apollo 13”, mas, não foi –o grande achado deste filme belíssimo é a maneira à um só tempo terna e sarcástica com que consegue elaborar um amplo painel do quê foi a Corrida Espacial Norte-Americana, com ênfase em percalços humanos e mundanos, vaidades, disputas e expectativas; inclusive jogando uma luz justa e emocionante sobre as esposas e famílias dos astronautas, e suas aflições íntimas dos mais diferentes níveis (como a esposa de John Glenn, que recusava-se a dar entrevistas para indignação da mídia que desconhecia o fato dela ser gaga!).
Há ainda espaço para as manobras políticas freqüentemente mesquinhas e tacanhas –as duas participações do então vice-presidente Lyndon B. Johnson (Donald Moffat) são tão patéticas quanto memoráveis! –para os engenheiros e operários da NASA e suas inúmeras deliberações e confusões e até mesmo para os funcionários encarregados do marketing, insuflados e ao mesmo tempo perplexos com sua extenuante disputa velada com os russos.
Por isso, e pela decisão genial em conceder carinho a cada uma dessas facetas do filme, esta produção maravilhosa atinge três horas de duração –que, eu lhe garanto, vão passar como se fosse uma brisa!
Phillip Kaufman faz uma bela síntese entre a mitologia altiva e reluzente que cerca os astronautas –em muitos aspectos, igualados aos cowboys do Velho Oeste –e as perplexidades do homem comum, num trabalho pontuado por divertido humanismo e irrestrita excelência técnica.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Falcão Negro Em Perigo

Sempre dispostos a querer vestir a carapuça de “xerifes do mundo”, os americanos são historicamente acostumados a se envolver em assuntos que dizem respeito à ONU.
Não é incomum haver atritos e conflitos, e não é incomum que alguns desses conflitos resultem em traumas que ganham registro perene em seu histórico bélico.
É em um desses casos que se baseia a trama de “Falcão Negro em Perigo” no qual, apesar de seus inegáveis méritos, o cinema americano parece uma vez mais servir à um exercício distorcido de patriotismo e exaltação deturpada de valores.
Ridley Scott conta com ênfase e primor técnico como um grupo de soldados de elite norte-americanos, as Forças Delta e Ranger, em uma missão da ONU na Somália devastada por uma guerra civil nos anos 1990 iniciaram uma arriscada operação que os colocou em meio ao caos urbano da cidade de Mogadício, ocupada por ferozes milícias locais. A missão tornou-se catastrófica quando um dos helicópteros de apoio, o Falcão Negro, foi derrubado na praça central, logo seguido por outro.
Nesse ponto, a sucessão de cenas de combate impostas por Scott, com uma noção primorosa e particular de ritmo, já é atordoante.
Indefesos e encurralados, os soldados precisaram ser resgatados pelas tropas remanescentes antes que virassem alvos de uma carnificina, prolongando uma batalha angustiante e sangrenta por cerca de 10 horas.
Como virou uma espécie de modismo naqueles anos subseqüentes, todo diretor que se aventurava a fazer um filme de guerra seguia, à risca e descaradamente, os passos de Steven Spielberg e seu antológico “Resgate do Soldado Ryan”, e com Ridley Scott não foi muito diferente, ainda que, sempre um magnífico diretor, ele encontrou nesta brutal e espetacular história real, uma forma de entregar um trabalho, também ele, dotado de brilho e autenticidade próprios.

Pode-se assim descrever “Falcão Negro em Perigo” como a meia hora inicial de "Resgate do Soldado Ryan" potencializada num filme de duas horas de duração.