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terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Viajantes - Instinto e Desejo


 “Voyagers” é um filme cheio de boas intenções. O que, em geral, define o cinema do diretor Neil Burger, um bom realizador de obras promissoras como “Sem Limites” e “O Ilusionista”, mas que sempre carecem de algo frequentemente incategorizável para se tornarem grande cinema de fato. Talvez seja o detalhe de que, em todos os casos (inclusive o de “Voyagers”), hajam sempre obras cinematográficas muito melhores e mais reconhecidas com as quais a comparação sempre se faz desfavorável.

“Voyagers” parte de uma premissa que lembra “Interestelar” na qual, devido às complicações de sempre, o planeta Terra não mais suporta a vida. A Humanidade, logo, deve procurar refúgio nas estrelas, e um grande êxodo, rumo a um longínquo planeta habitável tem início. A ideia é simples, ainda que espartana e, à sua maneira, cruel: Numa viagem interespacial de cerca de 80 anos, estima-se que somente a terceira geração da tripulação original estará viva para testemunhar a chegada dos humanos a esse novo lar. Ou seja, os tripulantes enviados daqui da Terra dificilmente estarão vivos para ver isso acontecer.

A partir dessas considerações, toda uma nova geração de crianças é concebida. Eles aprendem desde cedo a lidar com a tecnologia, a trabalhar em equipe, e a sentir familiaridade no ambiente recluso, impessoal e estéril de uma nave espacial. O único adulto a voluntariar-se a partir com eles é Richard (Colin Farrell). Durante algum tempo (anos, na verdade!), a viagem segue harmoniosa pelos confins siderais, até que a tripulação (que, à propósito, recebia uma deliberada receita química de inibidores para seus impulsos sexuais e comportamentais mais agressivos) atinge a idade adolescente.

Um deles, Christopher (Tye Sheridan, de “Árvore da Vida” e “Jogador Nº 1”) descobre o misterioso composto químico que lhes é servido diariamente e, junto de seu melhor amigo, Zac (Fionn Whitehead, de “Dunkirk”) decide parar de tomar a fim de ver o que irá acontecer. Logo, Christopher e Zac descobrem sua libido até então adormecida –e partilham ambos de um forte desejo por Sela (Lily Rose-Depp, filha do astro Johnny Depp com a cantora francesa Vanessa Paradis) –e têm seus instintos pessoais desenvolvidos: Christopher descobre sua predisposição para a liderança, enquanto que Zac deixa aflorar uma injustificada agressividade latente.

Quando Richard acaba morrendo em um acidente cercado de circunstâncias nebulosas (algumas apontando até para um possível envolvimento de Zac), o grupo que resta na nave (de jovens adolescentes responsáveis pela viabilidade de todo o plano até a chegada ao planeta, dentro de algumas décadas) se divide entre duas lideranças bem distintas: De um lado o comando racional e civilizado de Christopher, disposto a manter as regras estipuladas por Richard até o fim; do outro, as propostas questionadoras de Zac, cuja iniciativa seduz seus seguidores ao focar na comida (que eles controlam) e não na manutenção dos sistemas operacionais (que ele vê como um trabalho pelo qual nenhum deles teve o direito de escolha).

Christopher, portanto, representa os deveres necessários e fundamentais, e sua liderança aponta às responsabilidades nada satisfatórias, mas essenciais à sobrevivência; enquanto que Zac, é a força da natureza que conclama os demais à seguirem seus instintos, comendo quando tiveram fome, matando e agredindo quando tiverem ódio. Logo, a adesão dos membros tripulantes à um ou a outro grupo leva a uma polarização da jovem tripulação, e consequentemente, ao caos e ao enfrentamento.

Não é preciso muita perspicácia para perceber que, à partir daí, a obra de Neil Burger se mostra uma repaginação do clássico “O Senhor das Moscas”, de William Golding, já adaptado para o cinema em 1963 e 1990, com uma transposição para a ficção científica. Como naquele aclamado trabalho, o filme de Burger observa as tendências de gradual barbárie que contamina os discursos humanos a medida que as vozes mais poderosas de comando à lembrar as conveniências da ética e da moral vão minguando. Uma pena que, talvez pelo ambiente obrigatoriamente confinado, imutável e asséptico do qual o filme nunca sai, talvez pela pouca experiência dramática do elenco jovem predominante ao longo de toda a duração, o filme de Burger rapidamente se torna disperso, quase enfadonho (sequer a promessa de certo erotismo, presente exclusivamente em seus posteres promocionais, chega a se concretizar) mesmo diante da tensão que cresce conforme os ânimos se afunilam.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

X-Men Fênix Negra


 “Fênix Negra” é, em vários aspectos, o fim de uma era: É o fim dos X-Men como eles foram conhecidos até aqui no âmbito cinematográfico, ou pelo menos, o fim da reinvenção promovida em 2011 por “X-Men Primeira Classe”. É também, a produção que marca a última realização dos Estúdios Fox em torno desses personagens que até então a produtora possuía –as negociações que levaram a Disney a adquirir todo o espólio intelectual da Fox e terminaram levando os direitos dos mutantes de volta para a Marvel Studios estavam em curso enquanto “X-Men Fênix Negra” se achava em produção.

Como resultado, este trabalho –o trabalho de estréia, como diretor, do roteirista mais prolífico desta franquia, Simon Kinberg –já veio prejudicado por uma expectativa bastante negativa, e pelo demérito de abordar uma mitologia já, digamos, moribunda: Os personagens de qualquer modo sofreriam um novo reboot no novo estúdio, e até mesmo Hugh Jackman, o representante maior dessa fase dos mutantes em seu auge, já havia se despedido de seu personagem, Wolverine, em “Logan”.

O fato do filme desagradar público e crítica foi somente a cereja no topo desse bolo pra lá de indigesto que muitos foram obrigados a engolir. Mas, por trás de todos esses revezes tremendamente desfavoráveis, a pergunta crucial que fica é: O filme, afinal, é ruim de fato?

Para muitos é um despropósito discutir esses méritos, visto que quando chegou aos cinemas, “Fênix Negra”, por todas as razões já citadas, tinha perdido sua relevância. Entretanto, a verdade é que não... o filme de Simon Kinberg não é tão ruim assim, não!

Também passa longe de igualar a qualidade pulsante de “Primeira Classe”, o melhor filme de toda franquia, ou mesmo a maestria sempre austera de “Dias de Um Futuro Esquecido”, que manteve um nível considerável de qualidade, mas certamente evita muitos dos equívocos estapafúrdios presentes em “Apocalypse”, por exemplo.

Na pior das hipóteses, o roteiro (também escrito por Kinberg) trabalha os elementos com absoluta desenvoltura e familiaridade –tão habituado ele está com o material envolvendo os mutantes que seu manejo é algo que ele faz com serenidade.

No prólogo, temos uma bem-feita cena de acidente, onde uma ainda jovem Jean Grey perde os pais durante um uso inadvertido de seus poderes (cena esta que contradiz algumas circunstâncias nas quais essa mesma personagem foi introduzida no filme anterior, “Apocalypse”). Corta para a atualidade –ou os anos 1980 ou 90 na cronologia incerta da série... –quando Jean (agora interpretada pela gatíssima Sophie Turner, de “Game Of Thrones”) é uma das alunas da Escola Charles Xavier Para Jovens Super-Dotados, e integra, ao lado de Mística (Jennifer Lawrence), Ciclope, seu namorado (Tye Sheridan), Mercúrio (Evan Peters), Noturno (Kodi Smith-McPhee), Tempestade (Alexandra Ship) e Fera (Nicholas Hoult), o grupo conhecido como X-Men, uma espécie de equipe composta de mutantes, disponibilizados por Charles Xavier (James McAvoy), durante as mais variadas emergências a fim de preservar uma boa imagem do povo mutante perante as pessoas normais.

Numa ocasião surge, portanto, uma emergência mais complicada que o habitual: Um ônibus espacial sofre uma avaria e fica à deriva no espaço à mercê do que parece ser uma tempestade de energia solar. À bordo de seu avançado avião high-tech, o Pássaro Negro, os X-Men partem para o salvamento, e quando as coisas se complicam de verdade, os poderes de Jean se revelam fundamentais: Ele consegue proteger a todos, mas é assolada pela estranha radiação que dela parece se apoderar.

Jean, no entanto, sobrevive. Mas, ao voltar para a Terra, uma energia perigosa e imprevisível começa a se apoderar de sua vontade, potencializando e amplificando seus poderes (a telepatia dela sobrepuja a do Prof. Xavier) e ressaltando seus sentimentos negativos em relação à rejeição e ao abandono. Com isso, Jean volta-se contra Xavier e os X-Men e, no processo, descobre-se poderosa o bastante para superar a todos .

Ao mesmo tempo, criaturas alienígenas descem à Terra em busca de Jean, ou melhor, em busca do poder que ela absorveu –e que, em todo universo, parece ser a única criatura capaz de suportá-lo. Liderando esses seres estranhos e muito pouco esboçados ao longo do filme está Vuk, que assume com obviedades o papel de vilã da história (e para a qual a normalmente competente Jessica Chastain entrega uma atuação fria, caricata e apática).

No meio desse entrave, Eric, ou melhor Magneto (Michael Fassbender), assume uma posição mais ambígua: Embora tenha superado seu antagonismo com Charles Xavier –cuja relação oscilava em amizade e rivalidade ao longo dos filmes –ele não concorda de todo com sua postura, embora também não tenha intenção de aliar-se à Vuk e suas inclinações genocidas.

Com essa premissa e com seus ricos personagens justapostos, o roteiro de Kinberg faz o que sempre foi feito em toda franquia; explora suas dinâmicas humanas, ao mesmo tempo em que nunca perde o foco de suas habilidades sobrehumanas. E uma de suas notáveis qualidades é não perder-se em meio à tanta diversidade: Muitas são as cenas, sobretudo, em sua segunda metade, onde vários personagens com poderes diversos estão em conflito, e todos são empregados, de modo geral, com intensidade, coerência e coesão. Pode não parecer nada, mas essa é uma falha muito fácil de se cometer ao se orquestrar um filme sobre super-humanos com tantos poderes distintos entre si. E nela, “Fênix Negra” não cai.

Os maiores problemas que afligem o filme de Simon Kinberg são, na verdade, dois: O primeiro, o fato de Kinberg ter tanta inexperiência como diretor; Nas mãos dele, cenas que tinham tudo para serem antológicas, perdem seu potencial por pequenos detalhes irrisórios, e às vezes, por um tratamento involuntariamente displicente. E, meu Deus, que direção de atores péssima! –ele consegue desperdiçar talentos incontestes como os de Lawrence, McAvoy, Fassbender e Chastain!!

O segundo é o evidente fato dele aqui tentar adaptar o mais famoso dentre todos os arcos narrativos dos X-Men nos quadrinhos, a “Saga da Fênix” –já aproveitada, também sem sucesso, no irregular “X-Men O Confronto Final” –listada, por muitos, entre as melhores HQs de todos os tempos. Se, pelo menos, “Fênix Negra” se sai melhor do que “O Confronto Final” no cômputo geral, ele se obriga a abandonar aspectos empregados naquele filme, e constrói uma pálida versão de elementos que nos quadrinhos eram exuberantes e intensos, resultando assistível, ainda que imperfeito.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Amor Bandido

Terceiro filme do diretor Jeff Nichols, “Mud” é antecedido por “Separados Pelo Sangue” e “O Abrigo”. Todos são dotados de um forte senso comunitário e de uma predisposição em avaliar as características idiossincráticas e comportamentais de uma região, com ênfase nos Sul dos EUA.
Muito interessa a Nichols as criaturas tão sonhadoras quanto defeituosas geradas em determinado contexto da América –e todos os seus trabalhos até aqui dedicam seu tempo em focar nas consequências de suas escolhas e de seus objetivos.
Aqui, a câmera de Nichols acompanha Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland), dois garotos que passam seu tempo percorrendo as regiões desoladas dos rios que singram o Mississipi, onde moram.
Numa dessas idas e vindas, eles encontram um barco abandonado, e dentro dele, refugiando-se, acham Mud (Matthew McConaughey), um rapaz crescido também naquela região que lhes pede ajuda. Ao longo dos dias que se seguem, eles lhe levam comida e outros itens, enquanto Mud lhes conta histórias, não necessariamente verdadeiras, sobre como foi parar lá, e como de lá planeja sair junto com a mulher que é o amor de sua vida, Junniper (Reese Witherspoon, que curiosamente nunca chega a se encontrar em cena com McConaughey).
Existem homens misteriosos por perto, a tentar rastrear Mud com propósitos vingativos, assim como a polícia.
Trazido pelo rio, como qualquer outro artefato que lhe desperta maior ou menor fascínio, Mud é, aos olhos de Ellis, uma senha para o conhecimento de um mundo adulto onde se encontram elementos intrigantes –como as relações assim consumadas com o sexo oposto –e outros nem tão satisfatórios assim –o relacionamento já em frangalhos de seu pai (Ray McKinnon, de “Um Sonho Possível” e “Ford Vs Ferrari”) e sua mãe (Sarah Paulson, de “Virada No Jogo”) e o próprio histórico criminoso de Mud.
Bom diretor, Jeff Nichols mantém um excelente nível com este trabalho notável, onde as particularidades inerentes ao drama e ao suspense caminham juntas na consolidação gradual de algumas metáforas bem pontuadas em sua narrativa –o barco que Mud vai recuperando pouco a pouco com a ajuda dos meninos ou o iminente desmantelamento da casa onde a família de Ellis mora, num alegórico rito de crescimento que atravessa o filme, impregnado pela sensação de que a qualquer momento algo terrível pode acontecer.
Essa excelência garante que o emprego dos simbolismos não sobrecarregue o filme tornando “Mud” ao mesmo tempo um suspense sobre os caminhos tortuosos da vida (ganhando ares de ação policial e até mesmo faroeste em seu clímax), um drama do ponto de vista de um garoto onde os relacionamentos adultos em foco jamais encontram um ponto de equilíbrio e uma história de aprendizado e amadurecimento sobre a aceitação das desventuras inevitáveis.
É também mais um exemplo da surpreendente evolução ocorrida na carreira de Mathew McConaughey que, como o personagem-título Mud, entrega uma atuação no mínimo formidável.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Jogador Nº 1

Talvez só fosse possível mesmo que Steven Spielberg dirigisse este filme: Da forma como está, “Jogador Nº 1” é um caldeirão tão amplo e diversificado de referências à cultura pop (a exemplo do livro escrito por Ernest Cline que o inspirou) que somente alguém com a influência de Spielberg conseguiria uma aprovação para todos os personagens, itens e menções que proliferam em cena –este é um daqueles filmes que podemos ver quatro, cinco vezes, e em todas notar um elemento novo, uma outra informação visual.
Com toda sua atenção aos detalhes voltada para a cultura pop do final do século XX e início do século XIX, o “Jogador Nº 1” tem, contudo, sua trama ambientada num denso e detalhado futuro, o ano de 2045, quando a humanidade, cuja desigualdade entre ricos e pobres atingiu um extremo ainda mais superlativo que o dos dias de hoje, escolheu parar de importar-se com seus problemas e emergir coletivamente num mundo virtual chamado “Oásis” –uma espécie de “Matrix” à qual seus usuários se perdem de muito bom grado.
“Oásis”, porém, não é um mundo que replica a realidade do nosso, muito pelo contrário: É um lugar de cenários assombrosos e impossíveis (concebidos com singular noção de espetáculo pela direção de fotografia de Janusz Kaminski) no qual todos podem ser e ter aquilo que quiserem, criando avatares para si mesmos onde são fortes, hábeis e belos na medida proporcional de sua própria vontade, e onde conseguem obter utensílios tão preciosos e inacreditáveis como ter o DeLorean da Trilogia “De Volta Para OFuturo” como carro de corrida, a ‘granada santa’ de “Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado”, a arma giratória do filme “Krull”, ou uma carcaça de robô idêntica ao do “Gigante de Ferro” –e estas são só algumas das referências intensas e simultâneas que se atropelam em cena!
Prova de que a caracterização futurista de Ernest Cline, e agora do diretor Spielberg obedece a uma natureza tão nostálgica quanto referencial é que sua trama guarda bem disfarçados elementos de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”: Como naquele clássico, o grande e cultuado proprietário criador do “Oásis”, o lendário James Halliday (vivido por aquele que Spielberg elegeu seu mais recente ator-assinatura, Mark Rylance, vencedor do Oscar por “Ponte dos Espiões”) faleceu sem deixar herdeiros que cuidem (e usufruem) daquela que, sem sombras de dúvida, é a maior e mais lucrativa empresa do planeta Terra.
No entanto, Halliday tinha um plano: Antes de morrer, ele deixou um ‘easter egg’ escondido em algum lugar das imensidões incalculáveis do “Oásis”. Aquele que tiver a sorte de achá-lo, após uma enigmática trilha de pistas que se iniciam com uma chave, será dono de tudo. Entretanto, cinco anos depois, absolutamente ninguém chegou sequer perto de encontrar uma pista de onde tal tesouro está.
Isso até o jovem e inteligente Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-Men Apocalypse” e “Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi”), na forma de seu avatar, Parcival, descobrir um meio de obter a primeira chave (dentre três) graças à improvável dica encontrada por acaso num dos incontáveis vídeos digitais deixados por Halliday –com isso, ele ganha a primeira chave numa corrida que envolve a moto icônica de “Akira”, o veículo de “Christine-O Carro Assassino”, o batmóvel da série do “Batman” dos anos 1960 e tem, em sua perigosa fase final, o gorila gigantesco de “King Kong”.
Se antes Watts era só mais um jovem usuário do “Oásis” em meio à tantos, essa descoberta fez de seu avatar, uma verdadeira celebridade. Ele agora é o ‘Jogador N° 1’ –e tal privilégio agora faz dele inesperado alvo de Ártemis, o avatar de uma garota que há muito Watts queria conhecer (e que é interpretada pela gracinha Olívia Cooke, de “Eu, Você e A Garota Que Vai Morrer”), além de também colocá-lo no radar de Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, de “Rogue One”), atual chefe corporativo da tentacular “Ioi”, uma organização que não vai medir esforços (e nem escrúpulos) para ganhar tal torneio e se tornar proprietário de todo o “Oásis”.
Além de exercer sua técnica brilhante ostentada em praticamente todos os seus grandes filmes e visivelmente aprimorada ao longo de suas décadas de experiência, Spielberg tem a chance, em “Jogador N° 1”, de extravasar toda sua faceta de cinéfilo (normalmente, mais contida que a de Martin Scorsese, por exemplo), e nerd: Saltam na tela detalhes que remetem a jogos de videogames, músicas dos anos 1980, desenhos animados e filmes, muitos filmes: São visíveis, em inúmeros momentos, citações implícitas ou explícitas de “Indiana Jones”, “O Senhor das Feras”, “Alien-O 8º Passageiro”, “Superman-O Filme”, “As Aventuras de Buckaroo Banzai”, “Os Embalos de Sábado À Noite”, o assassino Jason de “Sexta-Feira 13”, o Freddy Krueger de “A Hora do Pesadelo”, o Chucky de “Brinquedo Assassino” e “Godzilla” –ou mais necessariamente o “Mecha-Godzilla”!
Nada, contudo, se compara à homenagem extraordinária que ele presta –em meio à uma seqüência inteira –ao seu grande amigo Stanley Kubrick e à “O Iluminado”, cujas cenas o filme recria com exatidão embasbacante; só faltou mesmo uma participação de Jack Nicholson!
Spielberg, após uma sucessão de trabalhos de orientação mais séria, criou a maior e mais eletrizante sucessão de referências já acumuladas no cinema, e que dificilmente será superada nos próximos anos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Últimos Dias No Deserto

  Filho do célebre escritor Gabriel Garcia Marques, o diretor Rodrigo Garcia demonstrou pouco, em cinema, da inclinação autoral que definiu e consagrou seu pai na literatura.
  Mesmo este “Últimos Dias No Deserto”, que apresenta um caráter artístico muito mais acentuado que seus trabalhos anteriores, o mediano suspense “Passageiros” e os dramáticos “Destinos Ligados”, “Albert Noobs” e “Coisas Que Você Pode Dizer Só De Olhar Para Ela”, ainda preserva elementos de forte convencionalismo. Sua filmografia, como se pode avaliar é bastante conciliatória e burocrática, sem arroubos criativos, mas ocasionalmente digna de atenção.
   Características que resumem bem este trabalho.
  “Útimos Dias...” se debruça sobre um trecho nebuloso da trajetória de Jesus Cristo –chamado, quando muito, de Yeshua –(interpretado com astúcia e solenidade por Ewan McGregor) quando este se auto-exila no deserto para um solitário período de penitência e meditação, e lá deve superar as tentações físicas, ilustradas em diálogos que mantém com Satã (interpretado pelo próprio Ewan McGregor, numa jogada bastante curiosa da narrativa).
   Tal segmento da Bíblia é breve e vago em informações, por isso, a produção, na ânsia de conceber uma premissa que alcançasse a duração mínima de uma hora e meia introduziu novos personagens que incorporam, de diferentes maneiras, as ponderações de Cristo.
Assim, ele cruza com uma família que sobrevive de forma árdua no deserto. São eles, o pai (Ciáran Hinds), severo ainda que obstinadamente centrado, a mãe (Ayelet Zurer) fragilizada física e emocionalmente por uma doença, e o filho (Ty Sheridan), desejoso de conhecer Jerusalém e o mundo para além do deserto.
   A sobrevivência é penosa e dilacerante, tanto que leva o jovem a indagar-se do porque seu pai dedicar-se tanto a ela. O pai se ressente justamente por essa distância ideológica com o pensamento do filho, mas mantém-se incapaz de compreendê-lo, enquanto a mãe agoniza com a possibilidade da morte iminente.
   A presença de Cristo pode desequilibrar essa dolorosa dinâmica –como incita o tempo todo Satã –ou, ele pode tentar encontrar um desfecho minimamente plausível e benevolente.
   Essa aridez de circunstâncias –ressaltada ainda mais na encenação sofrida, poeirenta e sufocante –imprime ao filme um ritmo e uma atmosfera que o deixam difícil de ser acompanhado por um público mais afoito à narrativas ágeis.
   Certamente, este não é um espetáculo de empuxo narrativo como “A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese, nem mesmo um exercício de virtuosismo brilhante como “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, ambos trabalhos geniais que se debruçam sobre as etapas mais conhecidas da história de Jesus, mas compartilha com eles uma visão mais próxima e humana de Cristo, onde vislumbramos suas dúvidas, temores e questionamentos de ordem mais íntima.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi

Os mortos-vivos estão na moda.
Se antes, nos tempos em que George Romero gozava da imagem de autor transgressivo, eles eram um subgênero quase marginal em relação à produção dos grandes estúdios e, sobretudo, quando comparados aos monstrengos mais clássicos do terror, hoje, eles estão em todo o lugar: Séries de TV (“The Walking Dead”), superproduções (“Guerra Mundial Z”), refilmagens celebradas (“Madrugada dos Mortos”), e até as inevitáveis paródias, categoria na qual este descompromissado “Como Sobreviver A Um Ataque Zumbi” se insere.
Ben (Tye Sheridan, que apareceu em grandes filmes como “A Árvore da Vida”, “Amor Bandido”, e ainda é o novo ciclope em “X-Men-Apocalypse”), Carter (Logan Miller) e Augie (Joey Morgan) são três escoteiros. Os dois primeiros já começam a perceber que esse detalhe lhes tira a chance de ganhar pontos entre as garotas –normalmente atraídas pelos caras que preferem não pagar mico –mas, o terceiro deles, o gordinho Augie, não só adora o grupo de escotismo como vê nele a melhor maneira de manter unido o trio de amigos de infância.
Ben e Carter planejam se ausentar da cerimônia de “formatura” dos escoteiros para ir a uma badalada festa na mesma noite em que uma infestação de zumbis eclode na cidade. E, talvez, no mundo inteiro!
Aliados à uma sensual stripper (a bela Sarah Dumont), que acaba fazendo as vezes de irmã mais velha, eles decidem tentar salvar o máximo de pessoas possível.
Tal e qual Columbus (o protagonista do divertidíssimo “Zumbilândia”) os jovens escoteiros possuem então, inadvertidamente, os recursos necessários para sobreviver ao apocalypse zumbi, ainda que essas mesmas características tenham sido ironicamente a razão para seus problemas de adequação social –é o gênero dos mortos-vivos, uma vez mais, servindo a uma espirituosa observação acerca das ambigüidades da sociedade e do ser humano, ainda que essa observação, neste caso, padeça de um tratamento mais elaborado.
Falta ao diretor Christopher Landon diversos predicados para conduzir de acordo este trabalho –ele não imprime humor aos momentos que deveriam ser engraçados; não convence num clima que deveria ser sensual (a cena em que a stripper tenta ensinar Ben a beijar); não dá ritmo aos momentos de ação; e não valoriza os momentos em que os zumbis aparecem, seja com uma genuína atmosfera de filme de terror (algo que “Todo Mundo Quase Morto”, por exemplo, faz maravilhosamente bem), seja dando a necessária ênfase ao trabalho de maquiagem (que aqui deixa a desejar mesmo em comparação aos exemplares mais pífios).
Ainda assim, um trabalho que poderá agradar os menos exigentes –no caso, aqueles que estiverem esperando um misto de filme de terror B, com comédias adolescentes (bem) descerebradas.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

X-Men Apocalypse

Uma cena emblemática: Os jovens saem de um cinema após uma sessão de “O Retorno de Jedi” –o filme-sensação do ano, então 1983 –e já estão a discorrer sobre sua qualidade.
“O melhor é ‘O Império Contra-Ataca’” comenta a garota chamada Jubileu.
“Tudo começou com o primeiro filme” diz Scott, o Ciclope (Ty Sheridan) “não haveriam continuações se não fosse o primeiro filme!”
Até que Jean Grey (Sophie Turner) faz uma afirmação categórica:
“Vamos, pelo menos, concordar que o último filme é o pior da trilogia!”
Talvez, uma piada interna da produção, talvez, um acaso carregado de sarcasmo, porém o quê a personagem diz se aplica ao filme no qual estão presentes, “X-Men Apocalypse”.
Dizer que ele é o mais fraco da trilogia iniciada em “Primeira Classe” (cuja austeridade e noção de ritmo do diretor Mathew Vaughn, permanecem a fazer dele o melhor dentre todos os filmes da série) e continuada em “Dias de Um Futuro Esquecido”, contudo, não é desmerecê-lo: “Apocalypse” ainda é um divertimento de qualidade, com interessantes predicados, o problema é que Bryan Singer se despiu de muitos elementos que davam equilíbrio ao conceito e tornavam os X-men tão singulares entre a infinidade de super-heróis que começam a abarrotar as salas de cinema.
Passaram-se dez anos desde os acontecimentos do filme anterior (parece ser uma espécie de tradição nessa nova versão dos mutantes que seus filmes se passem com uma década de intervalo entre um e outro, embora seu elenco principal não demonstre nenhum sinal de envelhecimento), e a Escola Para Jovens Superdotados do Prof. Charles Xavier recebe a cada dia novos alunos, como o novato Scott, que descobriu a pouco as rajadas devastadoras que saem sem controle de seus olhos, ou a instável Jean, cujo poder de telepatia e telecinese parece esconder uma ameaça maior dentro dela.
Dos antigos companheiros de Xavier, Raven, ou Mística (Jennifer Lawrence, catalizando parte das atenções da trama), se encontra pelo mundo, ajudando mutantes à sua própria maneira: É assim que ela chega até o jovem Kurt Wagner, ou Noturno (Kodi Smit-McPhee, tão bom quanto sua versão mais velha vista em “X-Men 2”), um teleportador de corpo azul.
Já, Eric, ou Magneto (Michael Fassbender, em uma bela interpretação) após os eventos pregressos, refugiou-se na Polônia onde buscou começar vida nova.
Todas essas trajetórias colidem quando um mutante ancestral, o milenar En Sabah Nur, ou Apocalypse (Oscar Isaac, cuja atuação esmerada não escapa ao tom canhestro desse tipo de personagem bidimensional), desperta no Oriente Médio, trazendo consigo sua determinada ânsia para varrer os humanos da face da terra.
Com uma habilidade que lhe é inerente, Bryan Singer, concebeu esse recomeço da série “X-Men”, antecipando e, por vezes, alterando os eventos da série original, não apenas enfatizando a pertinente questão do preconceito, mas atrelando a trama de cada filme à um evento histórico ocorrido em cada década respectiva; se em “Primeira Classe” havia o sensacional aproveitamento da crise dos mísseis de Cuba, e “Dias de Um Futuro Esquecido” foi hábil em utilizar como cerne narrativo o final da Guerra do Vietnam, a década de 1980, na qual se ambienta “Apocalypse” não possui nenhum acontecimento histórico importante a ser abordado; e esse é só um dos problemas enfrentados pelo filme.
Ao eleger, o onipotente e cartunesco Apocalypse como seu vilão principal, Singer também desproveu seu filme de um de seus mais encantadores trunfos: As motivações e ideologias, tão pertinentes e atuais, que norteiam seus personagens, inclusive seus vilões, o quê valorizava a trama e suscitava uma discussão sempre interessante.
Não há, porém, muito o que comentar sobre Apocalypse em si: Ele é um vilão somente. Quer a destruição, e cabe aos heróis aplacá-lo, o quê reduz o filme de Singer a um mero filme de ação onde os bons combatem os maus, e as áreas cinzas da personalidade dos adversários são deixadas de lado.
Claro que, mesmo no comando das cenas de ação, Singer continua um artesão de admirável apuro e requinte visual, embora seu uso de efeitos visuais (bastante imodesto na comparação com os enxutos filmes anteriores) fique excessivo na parte final, assim como seu exorbitante hábito de dilatar o tempo além da conta nos momentos de suspense (que já havia ficado provado em “Superman-O Retorno” ser um de seus defeitos).

Talvez, o grande problema de “Apocalypse” seja a condição na qual chega aos cinemas (como terceiro e mais simplório de uma trilogia na qual os dois capítulos anteriores, sobretudo o primeiro, foram magistrais), e também o timing com o qual isso se dá (depois de um mediano “Batman Vs Superman” e de um espetacular “Capitão América-Guerra Civil”, quando uma parte do público e boa parte da crítica já começa a falar sobre a defasagem de superheróis nas salas de cinema). 

domingo, 23 de agosto de 2015

A Árvore da Vida

A minha relação com esse filme sempre foi um pouco complicada. Na primeira vez que o assisti, eu detestei. Achei o trabalho do diretor Terence Mallick (cujo "Além da Linha Vermelha" eu não havia gostado muito uns anos antes) um bocado pretensioso, seu senso de narrativa submetia muitas vezes o expectador à uma experiência extenuante ao adotar um arco narrativo -lá pela metade do filme -completamente distinto daquele que elaborava até então, e sua lentidão, aliada às inúmeras cenas de sentido metafísico e à sucessão de momentos abstratos transformava sua obra num desafio à vontade de assisti-lo.
Mas, algumas coisas não queriam me sair da cabeça, como por exemplo, a personagem interessante de Jessica Chastain, e a maneira como ela é retratada ao longo de todo o filme, além de muitos momentos que me intrigavam e conferiam ao filme uma rara beleza, difícil de ignorar. Assim, resolvi assistir mais uma vez.
Hoje, posso dizer que, na época, minha mente ainda não havia alcançado a mente do artista. E a minha confissão só não é mais frustrante porquê acredito que muitos foram os que passaram o mesmo que eu.
De início, "A Árvore da Vida" não é realmente um filme fácil.
Ele se resume, falando grosseiramente, a uma série de fragmentos da vida, mostrados numa sucessão por vezes estranha de acontecimentos: O crescimento e a educação de três irmãos nos EUA, agravado pelo amor incondicional da mãe (Jessica Chastain) e pela agressividade reprimida (e repressora) do pai (Brad Pitt), que se reflete, mais tarde, na propensão para violência do filho mais velho.
Numa segunda linha narrativa, o menino, já adulto (e interpretado por Sean Penn), se vê assombrado por suas memórias de infância, em especial, as do irmão do meio, cujo destino trágico nunca é devidamente esclarecido pelo filme.
Já, numa terceira linha de narração, uma tênue analogia relaciona esses fatos com o surgimento da vida na Terra, numa sequência cuja única referência possível é "2001 - Uma Odisséia no Espaço" de Kubrick.
"A Árvore da Vida" é, portanto, como uma pintura: Está exposta para a apreciação, e cabe a cada observador extrair dela uma sensação, um significado, a partir de suas próprias e particulares interpretações. Ainda que seu silêncio (e o de seu autor) confiram perturbadora dúvida acerca de sua intenção.
Não há como penetrar na mente do recluso Terence Mallick para tentar fazê-lo dizer o quê ele pretendia com "A Árvore da Vida", e talvez, sua resposta acabasse sendo muito vaga mesmo...
Mas, do ponto de vista cinematográfico, ele é espetacular.
O modo como é trabalhada a imagem torna este poema visual um dos mais emblemáticos exemplos de arrojo técnico do início deste século. E um filme que sobrevive, e muito bem, a uma comparação tão explícita ao quintessencial "2001" (e acredite, os paralelos são inúmeros!) não deve jamais ser desprezado.
A atriz Jessica Chastain lembra demais Liv Ullmann (atriz recorrente em inúmeros trabalhos de Ingmar Bergman), e como os personagens dela, o de Jessica é submetida a uma poderosa carga de dor emocional numa aparente referência que jamais saberemos se foi proposital ou não.

Hoje, posso dizer que incluiria "A Árvore da Vida" sem pestanejar, entre os 100 melhores filmes que já vi. Além de seu mistério, e de sua fascinante riqueza cinematográfica, ele é aquele tipo de filme que se transforma a cada nova revisão (pode-se perceber, uma vez ou outra, as nítidas referências religiosas, as tintas autobiográficas do próprio Mallick, ou os detalhes de sua visão do fim do mundo...), de maneira que ele não apenas é um único filme, mas vários, aprisionados e encapsulados numa só obra.