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sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Cova Rasa


 Foi o suspense “Cova Rasa” –mais do que “Trainspotting”, o bem-sucedido projeto posterior a envolver praticamente toda a mesma equipe –que de fato revelou ao mundo os talentos do diretor Danny Boyle e do ator Ewan McGregor, embora sua repercussão tenha sido, realmente, bem mais modesta. Realizado à imagem e semelhança das obras quintessenciais de Alfred Hitchcook, “Cova Rasa” tratava de tentar responder a uma circunstância muito comum às tramas do mestre do suspense: O que você faria se adquirisse uma mala cheia de dinheiro?

Conhecedor nato e entusiasmado das facetas pulsantes da ganância humana –de um modo ou de outro, todos os seus filmes giravam em torno da metamorfose moral acarretada pelo dinheiro –Danny Boyle confere uma resposta exercitando seu conhecimento de cinema (no qual ainda se percebe um êxtase juvenil), o inconformismo que o tornou reconhecido (o que proporciona ao filme um teor tremendamente ácido) e uma empolgação artística que, de modo geral, contorna todos os problemas e limitações de sua obra –e, como todo trabalho inicial, ela padece de diversos lapsos que, com o tempo, ele foi aprendendo a lapidar.

Dotados de uma arrogância e uma petulância tipíca dos jovens, os ingleses David (Christopher Eccleston), Alex (Ewan McGregor) e Juliet (Kerry Fox, de “Um Anjo Em Minha Mesa”) moram num apartamento no subúrbio de Londres com um quarto disponível. E estão dispostos a alugá-lo àquele que se enquadrar nas exigências do trio. Leia-se, que aparente ser, no mínimo, alguém cosmopolita como eles: A sucessão de entrevistas aos candidatos que se segue é temperada com o inclemente sarcasmo que eles dedicam à tudo e à todos.

E já ali, o diretor Boyle e o roteirista John Hodge acrescentam inteligentes observações subliminares de seus três protagonistas, sejam elas individualmente (David é reservado; Alex é eufórico; e Juliet, o ponto de equilíbrio), sejam coletivamente (são, afinal, um pequeno grupo que, tal e qual qualquer jovem, se presume unido, inseparável, invencível e de lealdade eterna uns com os outros). Até que então surge, enfim o candidato ideal: Um homem poucos anos mais velho, solteiro, sofisticado, de prosa convincente e postura impressionante. Alguém que imediatamente surpreende os jovens que, em sua soberba, julgavam-se incapazes de serem surpreendidos.

O filme impiedoso de Boyle tratará de provar o oposto: Quando passa a ocupar o quarto vago, o novo inquilino mal tem tempo de conviver com seus colegas e já aparece morto de overdose (!). Junto dele, uma mala carregada de dinheiro (!!).

Os três jovens em princípio vivenciam as fases habituais dessa situação: Ficam desconfiados, ponderam as possibilidades até obviamente se decidirem por ficar com toda a grana, ao que logo se segue um momento de júbilo.

É quando, na revelação gradual de todo o ônus, Danny Boyle vai desconstruindo com certo sadismo a fachada de soberba dos jovens ingleses: O dinheiro tem, claro, uma origem criminosa e não tardam a aparecerem indivíduos suspeitos no encalço dele. A surpresa, contudo, é o inesperado ímpeto de violência com o qual David rechaça os novos inimigos.

Descoberta sua propensão à violência, David não está mais disposto à ser a mesma ponta submissa do triângulo de antes e, um tanto impelido pela paranóia, passa a apresentar um comportamento cada vez mais estranho –refugia-se no sotão, de onde faz buracos que lhe dão visão de quase todo o apartamento, inclusive dos amigos nos quais já não confia tanto –até mesmo com relação à Juliet, com quem até havia ensaiado um pequeno flerte.

A tensão resultante modifica a dinâmica tão feliz, unida e leal do trio visto no início e Boyle acrescenta ao andamento rumo ao desfecho uma inclinação pontual de violência e sanguinolência que soa perfeitamente como uma continuidade natural ao estilo de Hitchcook, redefinido para uma novo cinema inglês que emergia naqueles anos 1990.

Se não era uma obra especialmente brilhante, “Cova Rasa” foi o início promissor para uma equipe (capitaneada por Boyle) que entregaria produções cada vez mais arrojadas e cinematograficamente superiores no futuro.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas


 O que é a memória? Certamente, no âmbito do cinema, essa pergunta encontra as mais ambíguas respostas. Para Federico Fellini, em seu antológico “Amarcord”, a memória é um filtro através do qual a nostalgia e o romantismo modificam o passado. Já, para Tim Burton, ou mais especificamente para seu protagonista em “Peixe Grande”, a memória é uma via de mão dupla por onde transcorrem verdades e mentiras a confundir até mesmo as convicções do próprio narrador. Com efeito, é em tais memórias –ou nas histórias contadas na qualidade de memórias –que “Peixe Grande” se transfigura, em termos reconhecidamente visuais, num filme de Tim Burton de fato; no mais, a narrativa discreta e austera emula, antes disso, um filme mais convencional e pé no chão, distinguindo estilisticamente o que é conto do que é fato.

Essa tentativa de separar o joio do trigo começa com o já idoso Edward Bloom (o sensacional Albert Finney), um contador de histórias nato –são notórias as narrações de suas aventuras malucas, entre as quais, aquela na qual pescou um peixe de tamanho descomunal.

Seu ouvinte mais desconfiado é e sempre foi seu filho William (Billy Crudup). Com idade adulta, William dá um basta nas historietas do pai –e na pressuposição de que, sendo elas mentiras, então ele nunca o conheceu de fato –e sai de casa.

Eles se reencontram anos depois, quando Edward fica doente, levando o filho a voltar ao convívio com o pai. Contudo, agora William quer descobrir a verdade por trás de todas aquelas histórias fantásticas. E é aí –no regresso ao passado idealizado –que “Peixe Grande” dá asas aos delírios de seu diretor.

No passado, acompanhamos Edward (vivido na aventureira juventude por Ewan McGregor) em suas peripécias pelos EUA, quando era vendedor itinerante, ofício que permitiu-o viajar e descobrir preciosidades como uma cidade escondida dentro de um pântano; um circo administrado por um lobisomen (Danny De Vitto); e o amor de sua vida (vivido por Allison Lohman, quando moça, e pela bela Jessica Lange, na idade avançada).

É nessa dicotomia visual entre a história que aconteceu e a história como ela foi contada que residem não só os grandes méritos artísticos e estéticos do filme de Burton, como também suas mais profundas reflexões: O passado, transmutado por uma vasta imaginação, se torna assim um sonho; e não é o sonho, afinal, bem mais agradável que a árdua e decepcionante vida real?

É essa a pergunta que, em dado ponto, o filme de Burton parece fazer ao público: Há algum mal em temperar os acontecimentos medíocres de outrora com uma melodia e uma poesia que os converte em pura fascinação? Que crime há nisso?

A narrativa de Tim Burton desvencilha-se habilmente do fato de que enaltece o ato da mentira com um filme visualmente sedutor, e uma trama sobre o resgate da relação pai e filho cujas propriedades tem o genuíno poder de encantar o expectador.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Doutor Sono

Dentre as inúmeras adaptações cinematográficas de Stephen King, “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, exerce um papel curioso: É abertamente repudiado por seu autor devido às liberdades drásticas tomadas por Kubrick em relação à obra original, ao mesmo tempo que é cultuado por cinéfilos do mundo todo como um dos grandes filmes de terror de todos os tempos.
Daí, portanto, a dificuldade na abordagem do diretor Mike Flanagan ao adaptar para cinema a sua continuação, “Doutor Sono” –continuação esta que, até há bem pouco tempo, pouca gente sabia que existia: Ser fiel ao trabalho de Stephen King, dando continuidade ao ‘seu’ “Iluminado” –cujo desfecho é completamente distinto do filme –ou manter-se próximo da obra de Kubrick?
Talvez por sua própria influência afetiva (não há dúvidas de que, por sua orientação no terror, Flanagan cresceu inspirado pelo filme), talvez pela lógica comercial (certamente, a grande maioria do público tem mais familiaridade com a história contada no filme que na do livro), Flanagan optou por fazer um filme que remete, em inúmeros sentidos ao trabalho primordial de Kubrick.
É, assim, com todo o sabor de continuação do filme de Stanley Kubrick (inclusive, com direito à referências explícitas, rimas visuais diretas, aproveitamento da trilha sonora e até de enquadramentos de câmera imediatamente relacionáveis), que o trabalho de Flanagan começa: Após os trágicos eventos no Hotel Overlook, o pequeno ‘iluminado’ Danny Torrance e sua mãe passam a morar na Flórida. Nos anos que se seguem, ele aprende a lidar com seu dom –que lhe permite ver seguidamente os fantasmas que o assombravam –o que não o impede de crescer transtornado. Com trinta e poucos anos, e já interpretado por Ewan McGregor que faz um excelente trabalho, Dan Torrance chega à cidadezinha de Frasier onde aparentemente encontra alguma paz em serviços comunitários e reuniões de abstêmicos.
Todavia, numa cadência pausada, paciente e minimalista que espelha a narrativa ampla e detalhada do livro de King, o filme (que, não à toa, atinge suas três horas de duração), desde seu início, acompanha outros personagens também: O grupo obscuro denominado o ‘Nó’; seres sobrenaturais e virtualmente imortais, cujos poderes e vida eterna são garantidos graças ao consumo constante do vapor que emana dos ‘iluminados’ quando morrem.
São como vampiros moldados dentro dessa mitologia concebida por Stephen King.
A líder deles, a mais poderosa e onisciente, é Rose (a sensacional Rebecca Ferguson, numa personagem cujo visual remete à falecida cantora do grupo “4 Non Blondes”, dos anos 1990) tão sedutora quando amedrontadora.
Sem pressa e sem intenção de evitar os inúmeros detalhes que povoam a premissa, o diretor Flanagan acompanha o protagonista e seus antagonistas por anos, numa introdução que se estende muito mais do que estamos habituados em cinema, quando então, é apresentada a personagem que fornece o gatilho real para a trama. A jovem Abra (Kyliegh Curran), uma das poucas ‘iluminadas’ –já que, por alguma razão, eles estão escasseando no mundo –detentora de um poder fenomenal; o que significa vapor mais que suficiente para saciar a fome que começa a levar os indivíduos do ‘Nó’.
Enquanto Rose tenta descobrir o encalço de Abra, ela estabelece um vínculo com Dan que achava ter deixado para trás os problemas acarretados por sua ‘iluminação’.
Contudo, Rose e o ‘Nó’ representam um perigo do qual ele terá de salvar Abra –e para confrontar Rose, ele precisa revisitar forças sobrenaturais que podem significar um perigo para ela também. Ou seja: Regressar até o Hotel Overlook, e submeter-se às mesmas assombrações (e memórias) de antes.
Nesse trecho final –quando nos transporta de volta à ambientação do filme original –o diretor Flanagan dá completa e absoluta vazão à sua admiração por Stanley Kubrick, emulando diversas sequências memoráveis de “O Iluminado”, com direito à recriação de algumas cenas –de forma até mais minimalista do que o próprio Steven Spielberg (amigo pessoal de Kubrick) já havia feito numa sequência de “Jogador Nº 1” –além da reescalação de novos atores para interpretar o também ‘iluminado’ Dick Hallorann (Carl Lumbly substituindo Scatman Crothers), a mãe Wendy Torrance (Alexandra Essoe substituindo Shelley Duvall) e até mesmo o pai Jack Torrance (Henry Thomas substituindo o insubstituível Jack Nicholson).
Uma carta de amor implícita à obra extraordinária de Stanley Kubrick, “Doutor Sono” usa de seus desdobramentos para, ao final, honrar seu autor, Stephen King, e manejar os elementos de forma à chegar até o desfecho que ele tinha, de fato, planejado para sua criação.
No final, o talento, o bom senso, e o profundo entendimento do gênero do diretor Mike Flanagan conseguiu respeitar e homenagear os dois gênios criativos por trás de “O Iluminado” –por mais que, durante um longo tempo, suas visões tivessem se mantido incompatíveis.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Aves de Rapina ou Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Esquadrão Suicida”, apesar da gorda bilheteria e de um absurdo Oscar de Melhor Maquiagem, carrega a pecha de ser a mais sofrível produção dentro do Universo Cinematográfico da DC Comics, que ainda assim realizou muitas obras irregulares.
Dele, é quase unanimidade que se salva a caracterização pulsante e irrequieta da belíssima Margot Robbie como a Arlequina, namorada do vilão Coringa e que incorpora praticamente uma versão dele de saias.
Assim, a Warner Studios, disposta a afastar-se dos elementos que deram errado e trilhar um caminho focado nos elementos que deram certo, bancou este novo filme que agora coloca a Arlequina sob a mira de todos os holofotes na esperança de que ela brilhe tanto quando o fez no filme anterior –e, com isso carregue todo um filme nas costas.
Aproveitando esse ensejo, esta espécie de ‘derivado’ –pois é tão deliberadamente distanciado temática e narrativamente de “Esquadrão Suicida” que sequer pode ser chamado de ‘continuação’ –começa, portanto, com Arlequina já separada do Coringa. A explicação é fornecida num prólogo animado que contorna muito bem as dúvidas e dilemas acerca de como mostrá-lo (ou não mostrá-lo) no filme.
Irritada ao constatar o fato de que toda a fama e bajulação que usufruía vinha de seu namoro com o vilão –e de que, sendo assim, sua própria periculosidade, e seu próprio gênio criminoso nada contavam –Arlequina resolve dar um basta e dedicar-se a uma espécie de emancipação.
É quanto entram em cena as outras personagens do filme e que, ao seu jeito, representam as peças do quebra-cabeça (ao lado de sua irreprimível protagonista) daquilo que sua diretora deseja contar: Conhecida por dirigir a pérola independente “Dead Pigs”, Cathy Chan assume as rédeas da produção não apenas superando com larga margem o trabalho de coordenar a ação, divertir com a história e entreter com o resultado final entregue por David Yates em “Esquadrão Suicida”, como também realiza aqui, na ênfase exultante de suas personagens e na elaboração moral e circunstancial de suas trajetórias, o que pode ser entendido quase como um manifesto feminista.
Temos, então, a Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell, ótima) que trabalha resignada como cantora de boate e motorista de um chefão do crime tentando inibir, na maioria das vezes, sua compaixão e solidariedade pelos indefesos. Há também Renee Motoya (a veterana Rosie Perez), a policial inteligente e perspicaz cujas inteligência e perspicácia, dentro da polícia de Gothan City, só serviram para beneficiar mais os homens que parasitaram seu trabalho do que ela própria; a misteriosa Caçadora (a sensacional Mary Elizabeth Winstead) que, por razões a serem esclarecidas mais tarde (num esperto jogo de informações executado pelo roteiro) está fazendo uma verdadeira chacina em membros bastante específicos da máfia de Gothan; e, por fim, a garotinha Cassandra Cain (Ella Jay Basco), adolescente de mãos ligeiras e ladra de carteiras que, ao afanar o item errado, coloca em seu encalço toda sorte de gansgters de Gothan –além de Arlequina e toda essa trupe mencionada acima!
O roteiro de “Aves de Rapina” é extraordinariamente travesso e inconformista: Refletindo a personalidade instável e alegremente esquizofrênica da Arlequina (que narra o próprio filme e quebra seguidamente a quarta parede a exemplo de “Deadpool”), as situações, construídas com inspiração por si só, se seguem num rompimento constante da linearidade como se fossem lembranças que se atropelam fora de ordem, numa narração que as embaralha para dar um aroma de reviravolta à algumas revelações.
Nele, nenhum personagem masculino chega ao final isento de falhas de caráter e de causar, de alguma maneira, mal às protagonistas.
O resultado é um filme ebuliente e colorido, assumidamente ‘girl-power’ e ocasionalmente maniqueísta, estrelado por uma personagem tão carismática e arrebatadora quanto a atriz que a interpreta, e que, junto com “Mulher Maravilha”, “Aquaman” e “Shazam!” restabelece muito da promessa de qualidade no que podem ser feito dos personagens da DC Comics daqui para frente.
O único problema é que, tão focado em sua própria estrela ele é (e Margot Robbie está realmente brilhante!) que o filme acaba negligenciando as suas outras personagens, todas igualmente ótimas (e igualmente interpretadas por atrizes fenomenais) que não ganham, porém, tanto espaço assim –se há alguém que consegue o milagre de se sobressair tão bem quanto Margot Robbie esse alguém é Ewan McGregor, dando exaltação e personalidade ao Máscara Negra, vilão da vez do filme, e personagem notadamente genérico nos quadrinhos a quem o ator consegue conferir graça e senso de ameça genuínos, tirando leite de pedra.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Bela e A Fera

A iniciativa dos Estúdios Disney de conceber versões em live-action de suas animações sempre esbarrou num problema: O fato de algumas dessas obras serem produções louvadas pelo público e, não raro, criações cinematográficas irretocáveis.
Mal essa tendência havia se tornado lucrativa –com os sucessos de “Alice No País das Maravilhas”, de Tim Burton, “Malévola”, de Robert Stromberg (com Angelina Jolie), “Cinderella”, de Kenneth Branagh, e “Mogli-O Menino Lobo”, de Jon Favreau –e a Disney já resolveu segurar o touro pelos chifres e adaptar uma de suas mais aclamadas obras: O desenho animado que, entre outras honrarias, foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, “A Bela e A Fera”.
O escolhido para a empreitada foi o diretor Bill Condon que, diante do dilema criativo entre recriar fielmente a animação (realizando assim um trabalho sem alma) e executar uma obra dotada de sua própria inspiração e inventividade, saiu-se com uma alternativa sábia e travessa: “A Bela e A Fera”, o filme, se ampara, sim, na tão elogiada animação –até porque fãs e apreciadores se ressentiriam se fugisse muito de sua fonte –mas, ele se baseia também, em muitas de suas pontuações narrativas, na bem-sucedida adaptação teatral para os palcos da Broadway.
A dica já se acha no prólogo: Diferente dos vitrais que sugerem o prenúncio da trama na animação, a encenação mostra a festa onde o príncipe em questão (Dan Stevens, magnífica escolha) rejeita o pedido de ajuda de uma mendiga para descobrir que ela era uma feiticeira.
Indignada com o desprezo dele por sua aparência, ela o amaldiçoa: Transforma-o em monstro e todos os súditos de seu castelo nos móveis que o decoram. Para quebrar tal maldição, somente se ele conseguir fazer com que alguém apaixone-se por ele, a despeito de sua forma bestial.
Entra em cena, então, a mocinha Bela (Emma Watson, que deve ter aceitado este papel musical pelo arrependimento de ter recusado a proposta para estrelar “La La Land-Cantando Estações”).
Moradora de uma aldeia francesa, Bela é recebida com estranhamento pelos demais moradores, incomodados por sua independência, sua articulação e inteligência. Contudo, sua grande beleza (ainda que Emma não seja tão bela assim quanto o papel pede), não passa despercebida de Gaston (Luke Evans), o mais bonito e disputado (e arrogante!) rapagão local, que a quer como esposa de qualquer jeito.
Bela vem a se encontrar com Fera quando o pai dela, Maurice (Kevin Kline), perde-se numa viagem, indo parar inadvertidamente no castelo da Fera; e acaba seu prisioneiro.
Mais tarde, ao descobrir as atribulações do pai, Bela propõe uma troca e, agora, será ela quem Fera terá como prisioneira.
Entretanto, os demais personagens que orbitam esse par improvável (como são improváveis todos os pares de desenlaces românticos da ficção) haverão de contribuir para tornar este um romance, entre eles, o candelabro Lumiére (voz de Ewan McGregor), o relógio Cogsworth (voz de Ian McKellen, com quem o diretor Condon fez o premiado “Deuses e Monstros”), o bule de chá Madame Samovar (voz de Emma Thompson) e vários outros.
Ignorando a restrição que a obrigatória proximidade visual e narrativa para com a animação lhe impõe, o diretor Condon aproveita as ferramentas técnicas à sua disposição para transformar “A Bela e A Fera” num espetáculo de cores à exemplo do que foi a própria animação em sua época. Os recursos digitais, empregados de forma imodesta, podem fascinar alguns expectadores por sua extravagância e seu espalhafato, e incomodar outros por sua demasia e gratuidade –e o roteiro de Stephen Chobski (diretor de “As Vantagens de Ser Invisível”, também com Emma Watson, e de “Extraordinário”) não tem maiores justificativas para seu uso, embora possua o ligeiro mérito de tentar se afastar das obviedades em relação à animação ao usar de artifícios mais ou menos perceptíveis como alternância de cenas, a transferência de determinados diálogos para outros personagens e o acréscimo de prolongamentos de cena (que ora funciona, ora fica lamentável).
Como é o caso na maioria dos live-actions da Disney, o melhor meio de apreciar as qualidades deste “A Bela e A Fera” é desencanar de uma comparação constante com a animação; algo que só irá desfavorecer e sabotar o próprio filme.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Sangue Jovem

Empenhado, o diretor e roteirista Julius Avery capricha no conto de traição e criminalidade do qual seu filme se ocupa: As caracterizações de seus atores, com suas feições de periculosidade e cara fechada, são esmeradas –mais do que suas atuações propriamente ditas, e seu trabalho tem aquele despojado refinamento do qual muitas vezes os filmes norte-americanos se beneficiam, mesmo aqueles de qualidade mais discutível.
Com uma apropriada câmera na mão a registrar o realismo de um cárcere sujo e brutal, acompanhamos a chegada do jovem J.R. (Brenton Thwaites, de “Piratas do Caribe-A Vingança de Salazar”) na prisão e suas tentativas em adaptar-se à perigosa rotina.
Entre perigos que espreitam a todo momento na forma de prisioneiros abusadores, ele conquista pouco a pouco a afeição do criminoso australiano Brendan Lynch (Ewan McGregor, sempre muito bom) que o protege até que sua pena de três meses se conclua –Brendan pegou uma pena de vinte anos!
Ao sair, portanto, J.R. tem uma dívida a pagar. E o processo por meio do qual irá quitá-la não tarda a se iniciar: J.R. participa da audaciosa fuga que consegue tirar Brendan de dentro da prisão e já se encontra incluso nos planos que ele tem, de assaltar com tremendo profissionalismo uma reserva de ouro em Melbourne.
No percurso desses acontecimentos, é possível flagrar a habilidade do diretor Julius Avery quanto ele consegue tornar palatável até mesmo uma sequência de ares inverossímeis como a fuga da prisão de segurança máxima –cheia de lances improváveis, mas encenada com austeridade o suficiente para convencer o expectador de sua viabilidade.
Avery lança mão da referência cinematográfica suprema para esse tipo de filme: O cinema suburbano, atento aos códigos de condutas criminais engendrado por Michael Mann. Seguindo essa cartilha, o diretor Avery estabelece as regras desse submundo ao qual J.R. aterriza meio inadvertidamente conduzido por Brendan, uma figura paterna na mesma proporção em que é também um agente corruptor e um rival –e nessa dinâmica há algo que remete à disputa entre pupilo e mentor observada no clássico “Rio Vermelho”.
E dentre todas as regras há uma que fica mais claro ao expectador que J.R. haverá de quebrar: A de que não se deve desejar a bela e desejável Tasha (a maravilhosa Alicia Vikander), garota imigrante que é uma espécie de bibelo-fetiche do contratante para o tal assalto, o ardiloso Sam (Jacek Koman).
Embora ostente Tasha como sendo sua amante, Sam não obteve nada com ela –e diante dessa descoberta, J.R. não resiste a sua atração correspondida, e estão assim estabelecidos os elementos que configuram o conflito.
Esses vínculos de frágil confiabilidade que conectam os personagens vão junto com eles na execução do tão elaborado assalto e é claro que contratempos, traições e reviravoltas irão se suceder, algumas não muito bem construídas pelo roteiro, soando desnecessárias e exageradas, e outras urgidas com a precisão de um apaixonado pelo gênero, com destaque para a esperta manobra final que justifica a ênfase na predisposição para jogos de xadrez observada no protagonista e dá um desenlace satisfatório à complexa e fascinante relação de ambiguidade entre J.R. e Brendan (valorizada também graças aos bons atores que os interpretam) permitindo ao filme um desfecho sólido e razoável.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Doutor Sono

Crítica do amigo Fabricio Gurski
Quando falamos dos melhores filmes de terror já feitos, sou capaz de apostar minha alma por um bom uísque, que de cada dez, oito irão mencionar “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, pois, se trata de uma das maiores obras da história do cinema, mesmo por muito anos gerando controvérsia (devido à alardeada insatisfação do autor Stephen King com o resultado final).
Além de chamar a atenção pela direção e pelo roteiro primoroso do ícone do cinema Stanley Kubrick e contar com o astro Jack Nicholson, se trata de uma história baseado em um livro de Stephen King (mestre do horror na literatura), então quando se pretende adaptar para cinema a continuação literária desse que é um dos filmes mais emblemáticos da história, o que fazer com a ansiedade?
Controlar e esperar.
Foi anunciado o diretor Mike Flanagan para continuação (criador cuidadoso da excelente série “A Maldição da Residência Hill” e diretor de “O Sono da Morte”) e as expectativas foram só aumentando até chegar o último fim de semana, quando fui  ao cinema conferir o exemplar; e lhe digo meus amigos: Sensacional! O cuidado de Flanagan se repete cena a cena, assim como em seus trabalhos anteriores, criando uma atmosfera fantasmagórica, misteriosa e assustadora, muito desse clima impresso pela edição minuciosa com inspiração na obra de Kubrick.
O elenco todo muito afinado, assim como já esperado pelo quilate dos selecionados –Ewan McGregor; Rebeca Ferguson; Kyliegh Curran; Carl Lumbly; Zahn McClarnon; Bruce Greenwood.
Cenas marcantes, lindas, pesadas e emocionantes numa coleção de homenagens e criatividade, que fazem uma continuação belíssima da obra prima “O Iluminado”.
Aposto com vocês que, assim como antecessor, vai criar muita controvérsia, mas acima de tudo, será um filme lembrado por muito tempo. Não é uma mera coincidência, sim Flanagan se dedicou a fazer um filme de terror digno da obra de King e Kubrick, e me emocionou!
Então aposto um bom uísque, que temos mais um grande filme adaptado da obra de Stephen King.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Jane Got A Gun

Uma mescla hesitante de faroeste e manifesto feminista, este projeto estrelado por Natalie Portman (também produtora) renderia uma obra certamente diferente se fosse mantida a diretora original, Lynne Ramsay de “O Romance de Movern Callar” e “Precisamos Falar Sobre OKevin”.
Ela foi substituída na última hora por Gavin O’ Connor (de “Guerreiro”, também com Joel Edgerton no elenco) e o resultado de seu trabalho –em parte pelo pouco propício fato de assumir uma realização às pressas e já em andamento –padece de originalidade, ainda que o roteiro, em sua versão básica, tenha circulado por anos em Hollywood como um dos seus grandes scripts jamais filmados.
Jane Ballard, a protagonista vivida por Natalie, é uma mulher sofrida, como normalmente o são as mulheres fadadas a viver e sobreviver no Velho Oeste. Seu marido é um certo Bill Hammond (Noah Emmerich, de “O Show de Truman”) que, já na cena inicial, chega ao seu longínquo rancho ferido por tiros de bala. Ele teve um encontro com o famigerado John Bishop (Ewan McGregor, fazendo mais uma vez um bom vilão depois do ótimo “Haywire”), cujo bando numeroso e perigoso (e que inclui participações de Rodrigo Santoro e Boyd Hoolbrook) virá logo em seu encalço.
Jane precisa, portanto, se preparar.
Ela busca auxílio com Dan Frost (Joel Edgerton, também um dos roteiristas do filme) que, de início reluta, ressentido por algo do qual ainda não temos informação, terminando mais tarde por concordar em proteger Jane.
Durante os preparativos para o conflito iminente e a consequente tensão da espera pela chegada desse momento, a narrativa é ocasionada por flashbacks designados para esclarecer os pormenores mais pessoais dessa história –e do porque Jane é central à ela: A dívida de vida e de gratidão que ela tem por Bill e que se estende para além de seu matrimônio; a intervenção sórdida e tentacular do inescrupuloso e ambicioso Bishop em seu passado;e a relação inicialmente amorosa, porém desafortunada que ela teve com Dan e que reserva, da parte de ambos, dolorosas revelações.
Há algo bastante interessante na estrutura com a qual a trama que envolve os personagens se apresenta ao expectador, com idas e vindas no tempo substituindo a linearidade tediosa por uma sucessiva e revitalizadora entrega de novas informações (incluindo uma ligeira reviravolta final), e certamente é muito curioso o manejo espirituoso do protagonismo de Jane Ballard em meio à uma trama definida por ombridade masculina e duelos irreversíveis, tal e qual clássicos insuspeitos do gênero como “Johnny Guitar” e “Era Uma Vez No Oeste”.
O grande problema de “Jane Got A Gun” –que aqui no Brasil, seguindo a orientação convencional que o filme acabou adquirindo, recebeu o título genérico de “Em Busca de Justiça” –é justamente a direção de Gavin O’ Connor, tão hábil em filmes de drama e outros gêneros, entretanto, mostrando-se aqui limitada ao absorver os códigos e as linguagens específicas do faroeste que rendeu obras notáveis nas mãos de artesões brilhantes como Quentin Tarantino (“Django Livre” e “Os Oito Odiados”) e os Irmãos Coen (“Bravura Indômita” e “A Balada de Buster Scruggs”) mas, que entregue a um talentoso operário padrão terminou um pouco aquém de sua promessa.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O Sonho de Cassandra


Sempre envolvente, esta obra pertence àquela segunda vertente de filmes que Woody Allen logrou ao longo de sua carreira, em contraponto às suas comédias sobre neuroses e relacionamentos humanos –aquelas realizações mais sérias de orientação quase hitchcockiana das quais o exemplar recente mais cultuado é provavelmente “Match Point-Ponto Final”.
Dele, “O Sonho de Cassandra” empresta também sua ambientação e cenário, Londres.
Os Irmãos Blaime, Ian e Terry (Ewan McGregor e Colin Farrel, intérpretes adequados) surgem na primeira cena cobiçando um barco ao qual, depois da compra, dão o nome de “Sonho de Cassandra” –a cobiça é apenas o primeiro dos pecados capitais que pontuam a trajetória dos protagonistas.
Há a vaidade –na soberba da mãe quando continuamente elogia o sucesso do irmão Howard (Tom Wilkinson), sobretudo, em comparação à mediocridade crônica do resto da família –a luxúria –quando Ian, que trabalha num modesto restaurante com o pai, almeja ambições maiores e, num reflexo disso, se envolve com uma atriz inglesa (Hayley Atwell), o que o obriga a manter as aparências de um luxo ostensivo –e a inveja –por meio da qual, Terry cede ao vício da jogatina que, no início, lhe permite mais dinheiro do que tem, mas depois, o leva a contrair um dívida alta e perigosa com inescrupulosos agiotas para desespero de sua esposa (Sally Hawkins).
A ira, de uma certa maneira, surge na figura do próprio Tio Howard, enxergado muitas vezes como a solução para a maioria dos problemas da família, devido à sua riqueza. Howard só tem um empecilho: Se consome de ódio por uma testemunha que pode entrega-lo a justiça por ações ilícitas –e que pode colocá-lo atrás das grades!
O acordo, em princípio, é simples: Ian e Terry poderão dar cabo do indivíduo (no caso, mata-lo), e assim Howard quitará a dívida de Terry, e irá investir em todos os planos grandiosos de Ian.
Eis, pois, o thriller hitchcockiano que Woody Allen monta amparado em paradigmas das tragédias clássicas, e que ruma da direção da ilusão do crime perfeito, cujos detalhes insistem em provar o oposto. De modo desengonçado, mas obstinado, Ian e Terry cometem o homicídio, apesar de todos os percalços agonizantes de quem nunca experimentou algo assim. Nos dias que se seguem, entretanto, a reação dos irmãos é diferente: O ambicioso Ian procura seguir sua vida, adequando-se cada vez mais ao meio de vida da namorada, enquanto que o proletário Terry se descobre consumido pela culpa –a memória do crime não lhe abandona em momento algum, atormentando-o e até mesmo tirando-lhe a sanidade.
Quando Terry começa a se tornar perigoso demais para os planos de Ian e do próprio Howard, uma atitude drástica é cogitada –e Ian pode ter de executá-la num mero passeio ao lado do irmão, a bordo do próprio “Sonho de Cassandra”.
O desenvolvimento da premissa, orientado por influências literárias e culturais que Woody Allen trabalha desde o início de sua carreira, pode soar anacrônico aos expectadores habituados com as obras de suspense com características mais modernas, no entanto, há extremo profissionalismo no modo com que é narrado este conto moral sobre escolhas éticas tão sombrias quanto irreversíveis.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Incendiário


Diretora colocada no radar das grandes bilheterias pela comédia romântica “O Diário de Bridget Jones”, Sharon Maguire tentou um vôo mais ambicioso com este “Incendiário”.
Embora seja (ou assim se pretenda) um drama contundente sobre o luto, a estrutura no fim das contas acaba até lembrando “Bridget Jones”: Como nele, há uma protagonista bem desenvolvida e fascinante (características que a embriagante Michelle Williams conserva intactas do início ao fim) e o foco narrativo, a despeito de todo o contexto, voltado para sua indecisão entre dois homens distintos. Aqui, no caso, o mulherengo, playboy e jornalista Jasper (Ewan McGregor) que contra muitas expectativas se mostra genuinamente apaixonado; e o amigo relutante, porém envolvente Terrence (Matthew MacFadyen).
Tudo o mais, entretanto, é deliberadamente diferente da comédia romântica que fez a fama de sua diretora: E esse radicalismo estilístico é tão abrupto, convicto e proposital que ela aqui parece quase renegá-lo.
Negligenciada pelo marido –que trabalha arduamente no esquadrão anti-bombas e anti-terrorismo inglês –e integralmente dedicada ao filho pequeno, a personagem de Michelle não deixa de aproveitar os ocasionais momentos de liberdade para ser tudo aquilo que ela não é: Uma mulher sedutora, sensual e promíscua.
E é assim que Jasper a encontra pela primeira vez. Sendo ambos vizinhos, a despeito da diferença de classe social, os encontros (menos de natureza romântica e muito mais de natureza sexual) se sucedem. No segundo deles, enquanto transam no sofá do bagunçado apartamento, uma tragédia oferece a grande e dramática guinada da trama: Um atentado ocorre no mesmo estádio em que o filho e o marido dela foram, vitimando milhares, eles incluso (e Jasper só não estava lá porque optou por ficar com ela!).
Viúva e sem o filho para cuidar, a personagem de Michelle mergulha num pesar indescritível que, em dado momento –não obstante os esforços de Jasper e Terrence em tentar lhe trazer conforto –ameaça roubar-lhe a sanidade.
Se há um elemento que impede o filme de Sharon Maguire de ceder por completo às mediocridades melodramáticas com as quais seu estilo parece flertar desde o começo é a presença perfeita e impecável de Michelle Williams que eleva o filme com uma atuação primorosa em seus mais íntimos pormenores.
Mas, uma grande atriz ainda não é capaz de fazer milagres: Sem um roteiro que esboce motivações plausíveis ou inteligíveis, e sem uma direção que conduza a narrativa com mais parcimônia e menos pieguice, tudo que ela pode fazer é valorizar as cenas dando dimensão plenamente humana à sua personagem (mérito que, numa intensidade um pouco mais baixa, McGregor e MacFadyen também dividem com ela).
É pois um elenco excelente e empenhado que Maguire reuniu a frente das câmeras, pena que ela não tinha um material verdadeiramente qualitativo e digno para fazer jus a ele.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Emma

Tão influente e de predicados tão universais e atemporais é o livro “Emma”, de Jane Austen, que ele inspirou um dos filmes adolescentes que viraram mania entre os jovens nos anos 1990: O romance colegial “As Patricinhas de Beverly Hills”, com Alicia Silverstone, dirigido por Amy Heckerling é declaradamente uma versão adolescente, norte-americana e burguesa de “Emma”. Também na literatura “Emma” serviu de molde para um sucesso: “O Diário de Bridget Jones” –mais tarde, também ele tornado filme –de Helen Fielding era, também ele, uma versão modernizada (e nada disfarçada) de “Emma”.
Com o interesse despertado pela fabulosa adaptação de “Razão e Sensibilidade”, conduzida por Ang Lee, em 1995, era questão de tempo até que “Emma” ganhasse, também ele, sua própria versão cinematográfica.
O resultado, embora não possua a precisão e o requinte de acabamento de "Razão e Sensibilidade", é uma obra elegante, saborosa e competente, características que o diretor Douglas McGrath deve em grande parte devido à escolha de Gwyneth Paltrow para o papel: Ela está muito melhor e mais adorável aqui do que em seu oscarizado “Shakespeare Apaixonado”.
No interior da Inglaterra, na cidade de Highbury, a bela e juvenil Emma Woodhouse tem como principal diversão o hábito de bancar cupido. Ela dá conselhos, elabora estratagemas e faz esforços para unir casais e acaba criando algumas confusões devido à imprevisibilidade emotiva e romântica dos corações humanos. Isso e mais uma série de outros contratempos por vezes a indispõem com o Sr. Knightley (Jeremy Northam, bem mais jovial e galante do que é sugerido no livro), um grande amigo de sua família e sempre atento a lhe dar um puxão de orelha quando suas boas intenções extravasam o limite do decoro ou do bom senso. Mas o quê Emma parece não se dar conta é que há muita afetividade nesse modo do Sr. Knightley de se portar e se importar com ela.
No decurso de seu amadurecimento existem outras coisas que Emma irá perceber: Que por trás do amplo conhecimento nos assuntos amorosos que ostenta para os outros, há uma jovem insegura e sozinha que teme, ela própria, em ter de lidar com os revezes da paixão.
Embora seja um dos mais prestigiados livros de Jane Austen, a adaptação de “Emma”, no objetivo bastante singelo que parece buscar, passa longe de corresponder à “grande obra-prima da escritora”, resultando numa graciosa comédia romântica de época, cujo mérito maior é sua protagonista que comanda as cenas com graça e suavidade.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A Ilha

Antes de ter seu nome atrelado à série cinematográfico em live-action dos “Transformers”, o diretor Michael Bay estava muito bem cuidado de seus projetos individuais.
Estava longe do reconhecimento de um James Cameron, era bem verdade, mas o público sempre abalizava trabalhos comerciais como “Armageddon”, “Bad Boys” e até mesmo “Pearl Harbor” –mesmo que seus detratores não economizassem nas críticas.
“A Ilha” representa assim uma tentativa de experimentar novos gêneros (a ficção científica distópica, neste caso) que nunca seguiu em frente –logo depois, ele foi convidado, pelo produtor Steven Spielberg, a dirigir o primeiro filme dos robôs que se transformam em carros.
A trama guarda ecos de “THX 1138”, de George Lucas, assim como de diversos outros filmes sobre um mundo futurista condicionado nos quais, na maioria das vezes, o realizador almeja uma discussão reflexiva acerca de algum tópico. Esse, contudo, não parece ser o objetivo de Bay, ou pelo menos, deixa de ser seu objetivo tão logo as perseguições e explosões inerentes ao seu cinema contaminam a tela.
Tudo começa num enorme complexo onde pessoas que lá vivem reclusas integram uma sociedade estética e estéril, com proibição do contato físico e da diferenciação –e nesse ponto, o roteiro já se debruça em cima da referência a inúmeros trabalhos como o já citado “THX 1138”, “Gattaca-A Experiência Genética”, “Fuga do Século 23” e outros.
Naquele lugar constituído de vidros e superfícies esterilizadas, onde as máquinas ultramodernas dizem o quê fazer, como comer e como proceder, todos têm como único divertimento a espera de uma loteria que sorteia ocasionalmente indivíduos a serem enviados à "Ilha", o último lugar do planeta ainda livre da radioatividade (que, segundo a história que lhes é paulatinamente contada, devastou todo o mundo exterior).
É aí que surge sintomaticamente o personagem questionador, na forma de Lincoln Six-Echo (Ewan McGregor), que dará o ponto de partida às transformações. Melhor amigo da linda Jordan Two-Delta (Scarlett Johansson, na crista da onda devido ao recente “Encontros de Desencontros” e à “Match Point” de Woody Allen, lançado naquele mesmo ano), ele se mostra insatisfeito ao ter de seguir ordens de computadores que controlam sua saúde física, mental e alimentar.
À esse ímpeto de inconformismo com o estado das coisas logo se seguem pequenos atos de contravenção –como escapar ora ou outra para os níveis superiores, habitados por trabalhadores sujos como James McCord (Steve Buscemi, um dos coadjuvantes preferidos de Bay) para conversar –quando então ele começa a descobrir muito mais do que deveria: Todos eles estão sendo ludibriados, e sua sociedade é monitorada por uma empresa que cria uma ilusão para enganá-los. Todos eles são, na verdade, clones de pessoas do mundo lá fora.
Ao lado de Jordan, Lincoln inicia uma audaz, acidental e inacreditavelmente bem sucedida fuga do lugar e, completamente desinformados do mundo exterior, são perseguidos por agentes de contenção liderados por Albert Laurent (Djimon Hounsou, um grande ator, em geral, sub-aproveitado).
É então a partir desse ponto que “A Ilha” deixa de ser a notável ficção científica que ameaçava ser, para tornar-se algo inerente ao tipo de produção que Michael Bay dirige: Um filme descerebrado de ação, com direito até mesmo aos habituais lapsos de inverossimilhanças de quando a tal ação se desdobra com tamanha empolgação que às vezes despreza a lógica.
O fato de Michael Bay, aqui, arriscar-se em um filme amparado numa história mais complexa lhe conta alguns pontos, ainda que esse objetivo seja claramente abandonado a partir de sua metade –fazendo-o parecer que toda a premissa interessante não era outra coisa senão um pretexto para a pirotecnia.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Moulin Rouge - Amor Em Vermelho

É necessário ir com um pé atrás em relação ao cinema discorrido pelo australiano Baz Luhrmann. Se por um lado, ele ostenta qualidade técnica e predisposição vulcânica para valorizar sua narrativa –às vezes, de todas as maneiras possíveis –por outro, ele é excessivo, exagerado em algumas escolhas, deliberadamente brega e berrante.
Não à toa, devido a essa verve passional é o amor e as ramificações de seus extremos, o grande tema de sua filmografia –como atestam os estilosos “O Amor Está No Ar” e “Romeu + Julietta” –e isso não poderia ser diferente naquele que é tido como seu maior trabalho, a tentativa contundente e caleidoscópica de modernizar o gênero musical chamada “Moulin Rouge”.
Antes de mais nada uma história de amor, “Moulin Rouge” é reverência de Baz Luhrmann à uma gênero –o musical –que sempre interferiu profundamente nas inclinações artísticas de todas as suas obras, mais ou menos como é o faroeste “Django Livre” para os títulos anteriores de Quentin Tarantino: O reconhecimento inevitável à uma influência evidente.
E a música, da forma como ele foi concebido, define “Moulin Rouge”.
A história que ele conta –se é que os detalhes mais específicos importam, mesmo àqueles que amam o filme –envolve o amor do pobre escritor Christian (Ewan McGregor, provando-se hábil e versátil) pela linda cortesã Satine (Nicole Kidman, um furacão em cena).
Como manda o figurino de tragédias românticas (às quais a trama busca irmanar-se), as circunstâncias depõem a favor do tormento do casal (e a química entre McGregor e Nicole funciona, realmente, às mil maravilhas): Eles são impedidos de seu amor já que Satine é o objeto de desejo do Duque de Monroth (Richard Roxburgh), o grande financiador de todo o clube parisiense onde ela é a estrela –e onde Christian ganha seu suado sustento escrevendo as peças que serão encenadas.
Para ficar próximo de Satine, Christian escreve a peça “Espetacular, Espetacular” que será encenada por toda a trupe de coadjuvantes solícitos que cercam os protagonistas, e que, não raro, se convertem em cupidos imperfeitos de seu amor, como o anão histriônico (e esta é uma palavra que se aplica em muitos casos do elenco) e fanfarrão vivido por John Leguizano, ou o mestre de cerimônias explosivo e selvagem interpretado por Jim Broadbent.
Para fazer toda essa premissa funcionar e avançar: Música.
Uma sacada inusitada à época, contudo, foi que Baz Luhrmann não recorreu à canções compostas especialmente para o filme, como aconteceria em qualquer outro caso.
“Moulin Rouge”, ao invés disso, pega o expectador de surpresa inserindo em encenações detalhadamente vitorianas, arranjos de músicas muito pertencentes ao século XX, como “Diamonds Dog”, “Like A Virgin”, “Nature Boy”, “Come What May”, “Lady Marmalade” e outras.
Se para muitos, esse recurso, empregado com o excesso de pompa e circunstância típico de Luhrmann, molda uma obra das mais arrebatadoras e emocionantes, para outros, o trabalho de Luhrmann passa da medida em diversos momentos, soando quase insuportável. É uma característica do diretor desde que ele começou a compor sua filmografia, e que ele aprimorou em termos técnicos e aprofundou em termos estéticos, dramaticamente, contudo, essa veia romântica algo histérica encontra resistência de boa parte da platéia.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

T2 - Trainspotting

Não deixa de ser um acontecimento cinematográfico o fato de Danny Boile, passados vinte anos, entregar para o mundo uma continuação de “Trainspotting”.
Disposto a honrar e respeitar tudo o que seu trabalho significou, ele não apenas trás de volta todo o elenco original, como também uma quantidade absurda de nomes na equipe técnica, desde o produtor Andrew MacDonald até o roteirista John Hodge.
E para aqueles que temiam uma possível redundância no ato de retomar trama e personagens, eis que Boyle conseguiu realizar mais uma vez uma obra sensacional: Se ela terá o mesmo status cult e a mesma relevância do filme original ainda não dá para saber, e francamente, não importa muito diante da satisfação imensa que proporciona.
É um prazer rever todos aqueles personagens: Mark Renton (Ewan McGregor) agora vive em Amsterdã, onde se estabeleceu depois que partiu com o dinheiro roubado de seus amigos. Um mal súbito, uma crise matrimonial e uma frustração profissional o levam a regressar para a cidade de Edimburgo, na Escócia, onde viveu dias tumultuados com os amigos durante a juventude –e desde o início, há uma inteligência e um arrojo singulares na forma com que Boyle registra esse regresso impregnado de alguma nostalgia e amplo vigor narrativo.
Seus amigos seguiram rumos previsíveis: Spud (Ewen Bremmer) tenta –e paulatinamente fracassa –uma reabilitação para conviver com a ex-mulher e o filho (ela uma rápida personagem em “Trainspotting”), mas a condição de viciado na qual esteve durante as últimas décadas o tornou incapaz de funcionar em sociedade; Sick Boy que atende agora pelo seu nome, Simon (Johnny Lee Miller), herdou um bar de sua família e amarga nele a baixíssima freqüência de clientes enquanto tenta ganhar por fora chantageando alguns clientes adúlteros como a ajuda de sua bela e jovem namorada Veronika (Anjela Nedyalkova); o vingativo Begbie (Robert Carlyle), que passou as últimas duas décadas sonhando em trucidar Renton, por sua vez está num presídio, onde alimenta intenções iminentes e imediatas de fuga –e que Renton se cuide quando ele o fizer!
Boyle não se esqueceu nem mesmo de Diane, a namoradinha colegial de Renton no primeiro filme (interpretada pela bela e eficiente Kelly MacDonald), que reaparece numa divertida ponta como advogada.
Assim sendo, o regresso de Renton lhe permite reatar os laços com o hesitante Simon (que de início não descarta fazê-lo vítima de uma de suas armações), e com o decadente Spud. A justaposição do passado com o presente onde a vida lhes confronta com diferentes espécies de derrocadas acaba levando os personagens a um novo rumo, que Boyle sabe muito bem tornar saboroso de acompanhar para o expectador.
Obedecendo algumas rápidas –e para muitos expectadores imperceptíveis –rimas visuais do filme anterior, Boyle valoriza, como lhe é natural, a grande esperteza presente em sua narrativa, evidenciando o quanto evoluiu como cineasta nos últimos vinte anos, mesmo já sendo ele muito bom em 1996! O retorno aos mesmos personagens lhe permite ofertar um leque amplo de emoções ao expectador: “T2” vai da divertimento genuíno e incontido à tensão inesperada e súbita, do humor estranhamente negro –e, pelo jeito, tipicamente escocês –ao improvável drama humano.
Um belo trabalho de Danny Boyle que consegue honrar um dos mais memoráveis títulos de sua filmografia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Últimos Dias No Deserto

  Filho do célebre escritor Gabriel Garcia Marques, o diretor Rodrigo Garcia demonstrou pouco, em cinema, da inclinação autoral que definiu e consagrou seu pai na literatura.
  Mesmo este “Últimos Dias No Deserto”, que apresenta um caráter artístico muito mais acentuado que seus trabalhos anteriores, o mediano suspense “Passageiros” e os dramáticos “Destinos Ligados”, “Albert Noobs” e “Coisas Que Você Pode Dizer Só De Olhar Para Ela”, ainda preserva elementos de forte convencionalismo. Sua filmografia, como se pode avaliar é bastante conciliatória e burocrática, sem arroubos criativos, mas ocasionalmente digna de atenção.
   Características que resumem bem este trabalho.
  “Útimos Dias...” se debruça sobre um trecho nebuloso da trajetória de Jesus Cristo –chamado, quando muito, de Yeshua –(interpretado com astúcia e solenidade por Ewan McGregor) quando este se auto-exila no deserto para um solitário período de penitência e meditação, e lá deve superar as tentações físicas, ilustradas em diálogos que mantém com Satã (interpretado pelo próprio Ewan McGregor, numa jogada bastante curiosa da narrativa).
   Tal segmento da Bíblia é breve e vago em informações, por isso, a produção, na ânsia de conceber uma premissa que alcançasse a duração mínima de uma hora e meia introduziu novos personagens que incorporam, de diferentes maneiras, as ponderações de Cristo.
Assim, ele cruza com uma família que sobrevive de forma árdua no deserto. São eles, o pai (Ciáran Hinds), severo ainda que obstinadamente centrado, a mãe (Ayelet Zurer) fragilizada física e emocionalmente por uma doença, e o filho (Ty Sheridan), desejoso de conhecer Jerusalém e o mundo para além do deserto.
   A sobrevivência é penosa e dilacerante, tanto que leva o jovem a indagar-se do porque seu pai dedicar-se tanto a ela. O pai se ressente justamente por essa distância ideológica com o pensamento do filho, mas mantém-se incapaz de compreendê-lo, enquanto a mãe agoniza com a possibilidade da morte iminente.
   A presença de Cristo pode desequilibrar essa dolorosa dinâmica –como incita o tempo todo Satã –ou, ele pode tentar encontrar um desfecho minimamente plausível e benevolente.
   Essa aridez de circunstâncias –ressaltada ainda mais na encenação sofrida, poeirenta e sufocante –imprime ao filme um ritmo e uma atmosfera que o deixam difícil de ser acompanhado por um público mais afoito à narrativas ágeis.
   Certamente, este não é um espetáculo de empuxo narrativo como “A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese, nem mesmo um exercício de virtuosismo brilhante como “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, ambos trabalhos geniais que se debruçam sobre as etapas mais conhecidas da história de Jesus, mas compartilha com eles uma visão mais próxima e humana de Cristo, onde vislumbramos suas dúvidas, temores e questionamentos de ordem mais íntima.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Trainspotting - Sem Limites

As influências sempre exerceram efeito particular nas obras de Danny Boyle de maneira individual: Em sua estréia, “Cova Rasa”, sua fonte era Alfred Hitchcock, na ficção “Sunshine-Alerta Solar”, eram as obras de Kubrick (“2001”) e Tarkoviski (“Solaris”), no filme que lhe deu o Oscar, “Quem Quer Ser Um Milionário?”, eram as produções indianas de “Bollywood”.
Na época de seu lançamento, 1996, até se alardeou que uma das influências de Boyle para “Trainspotting” seria “Laranja Mecânica”, de Kubrick, mas essa é uma afirmação redundante, não apenas pela considerável diferença entre a proposta desses dois filmes, como também pela originalidade salutar e a fascinante diversidade de idéias que há para se perceber na obra de Boyle, um retrato até então sem precedentes do universo dos viciados em drogas –talvez, a obra cinematográfica que tenha chegado mais perto de uma observação tão apurada e estilizada quanto a deste filme tenha sido somente (e olhe lá...) o audacioso “Drugstore Cowboy”, de Gus Van Sant, de 1989.
Passado nos anos 1990, “Trainspotting” acompanha a rotina de jovens drogados dos subúrbios da Escócia, com ênfase no ponto de vista do protagonista, Mark Renton (um inspirado Ewan McGregor). A turma de Renton é impagável: o mala-sem-alça e fã passional de Sean Connery, Sick Boy (Johnny Lee Miller); o esquisito, irrequieto e simpático Spud (Ewen Bremmer); o certinho Tommy (Kevin McKidd) e o psicótico Begbie (Robert Carlyle).
A trama inicia-se numa das muitas e inúteis tentativas de Renton em largar seu vício, mas ele só passa a levar tal atitude a sério quando tragédia irreversíveis de fato começam a pesar sobre ele e sobre seus amigos.
Um das grandes sacadas de Boyle e do roteiro de John Hodge foi isentar-se de julgamentos morais e retratar a condição do vício inicialmente de forma bastante subjetiva –há um momento em que Renton relata que o êxtase provocado pela droga é “melhor do que mil orgasmos!” –vale dizer que isso provocou enorme controvérsia quando do lançamento deste filme nos EUA. O que os moralistas conservadores não perceberam foi a diferença entre as ideologias do protagonista e do autor: Conforme avança sua narrativa sobre a vida de Renton, Danny Boyle desconstrói sua fascinação pelas drogas e sua convicção no êxtase feliz que elas proporcionam imprimindo uma espiral de tormento e dor de tal forma impiedosa e irônica que só encontra paralelo no inteligente senso de humor que ele aproveita para destilar –este foi, em inúmeros aspectos, um filme bem a frente de seu tempo.
É curioso perceber que, por isso mesmo, pouco a pouco “Transpotting” se firma também como um formidável registro do comportamento e da mentalidade geracional da década de 1990.

“Quem Quer Ser Um Milionário?” pode ter lhe dado o Oscar de Melhor Diretor, e ele pode ter feito muitos ótimos filmes depois disso, mas ainda é “Trainspotting” o grande trabalho da carreira de Danny Boyle.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Falcão Negro Em Perigo

Sempre dispostos a querer vestir a carapuça de “xerifes do mundo”, os americanos são historicamente acostumados a se envolver em assuntos que dizem respeito à ONU.
Não é incomum haver atritos e conflitos, e não é incomum que alguns desses conflitos resultem em traumas que ganham registro perene em seu histórico bélico.
É em um desses casos que se baseia a trama de “Falcão Negro em Perigo” no qual, apesar de seus inegáveis méritos, o cinema americano parece uma vez mais servir à um exercício distorcido de patriotismo e exaltação deturpada de valores.
Ridley Scott conta com ênfase e primor técnico como um grupo de soldados de elite norte-americanos, as Forças Delta e Ranger, em uma missão da ONU na Somália devastada por uma guerra civil nos anos 1990 iniciaram uma arriscada operação que os colocou em meio ao caos urbano da cidade de Mogadício, ocupada por ferozes milícias locais. A missão tornou-se catastrófica quando um dos helicópteros de apoio, o Falcão Negro, foi derrubado na praça central, logo seguido por outro.
Nesse ponto, a sucessão de cenas de combate impostas por Scott, com uma noção primorosa e particular de ritmo, já é atordoante.
Indefesos e encurralados, os soldados precisaram ser resgatados pelas tropas remanescentes antes que virassem alvos de uma carnificina, prolongando uma batalha angustiante e sangrenta por cerca de 10 horas.
Como virou uma espécie de modismo naqueles anos subseqüentes, todo diretor que se aventurava a fazer um filme de guerra seguia, à risca e descaradamente, os passos de Steven Spielberg e seu antológico “Resgate do Soldado Ryan”, e com Ridley Scott não foi muito diferente, ainda que, sempre um magnífico diretor, ele encontrou nesta brutal e espetacular história real, uma forma de entregar um trabalho, também ele, dotado de brilho e autenticidade próprios.

Pode-se assim descrever “Falcão Negro em Perigo” como a meia hora inicial de "Resgate do Soldado Ryan" potencializada num filme de duas horas de duração.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Star Wars - Episódio 3 - A Vingança dos Sith

Foi em 2005 que George Lucas lançou o Episódio 3, que amarrou em definitivo as pontas soltas de toda a saga concebida por ele, e que, por conta disso, foi o mais esperado de todos. Muitos eram os que tinham esperanças de que fosse, dentre os capítulos da nova trilogia, aquele que mais se aproximasse da “trilogia clássica”. 
Em parte, alguns foram recompensados: Este é, provavelmente, o melhor filme da nova trilogia. 
Outros, porém, não: Ele ainda padece de muitos problemas que acometeram os capítulos anteriores. 
As Guerras Clônicas transcorrem deixando profundas marcas em toda a galáxia. Os Jedi, numa manobra quase desesperada, estão prestes a encerrá-la ao caçar universo afora o hediondo e cibernético General Graivius. 
Mas a mente por trás de tudo,o Chanceler Palpatine, identidade do lorde de Sith, Darth Tyrannus, já tem outros planos: valer-se da fragilidade e desequilíbrio emocional do recém-consagrado jedi Anakin Skywalker, e convertê-lo para o lado negro da força. Feito isso, Palpatine terá nele um novo e poderosíssimo aprendiz, Darth Vader, que lhe proporcionará seu intento; converter a República Galáctica em seu Império. Único obstáculo no caminho de Palpatine e Darth Vader, os cavaleiros Jedi devem então ser eliminados, o que leva Vader e seu ex-mestre, Obi-Wan Kenobi, a um duelo devastador e que definirá os rumos da história.
Não há dúvida de que as tramas convergem para este derradeiro (e bastante sombrio) capítulo, e ele alcança relativo sucesso em amarrá-las, tornando coesa a trama de toda a saga como um todo. O grande problema é o gosto amargo que fica na boca ao pensarmos que quase toda uma trilogia de filmes foi desperdiçada, com argumentos bastante pífios, para concretizar esse objetivo.
George Lucas emoldurou seus novos "Star Wars" com toda a parafernália que  fazia o figurino de seus filmes inaugurais: E que passaram a definí-los desde então -a tecnologia de ponta com a qual se materializou imagens inacreditáveis de uma galáxia muito distante, seus personagens alienígenas e seus vastos e diversos lugares. Mas o mesmo George Lucas cometeu o erro de achar que esse era o cerne de "Star Wars" quando na verdade não passa de sua moldura. A trilogia terminou ausente de empatia com seu personagem principal -Anakin Skywalker -e desprovida da identificação poderosa que a "trilogia clássica" obteve em todos os âmbitos de seu tempo.
Uma lição preciosa que o diretor J.J. Abrahams, felizmente, soube aplicar com bom senso e primor irrestrito no fabuloso Episódio 7.