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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

A Pantera Cor-de-Rosa


 Tudo, no que diz respeito a Hollywood, está aberto à reciclagem, ao reaproveitamento. Nenhum sucesso é sagrado demais para que, na geração seguinte, não seja refeito, repaginado e refilmado –em alguns casos, poucos anos são necessários para esse processo se iniciar.

No caso de “A Pantera Cor-de-Rosa”, tornado memorável graças ao talento ímpar de Peter Sellers e do traquejo em comédia do diretor Blake Edwards, era mesmo uma questão de tempo –após a morte de Peter Sellers, ocasionada durante as gravações de “A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa”, até mesmo tentou-se, na década de 1990, reiniciar a franquia (quando essas iniciativas eram ainda raras no cinema comercial e, portanto, não havia muita experiência em saber como fazer) com o desastroso “O Filho da Pantera Cor-de-Rosa”, estrelado pelo mais inadequado impossível Roberto Benigni.

Mais uma década se passou, então, para que os estúdios de Hollywood por fim criassem coragem para uma nova empreitada. Desta vez, a distância de tempo a separar a nova versão da impecável série com Peter Sellers proporcionava um reboot de fato: Diferente de “O Filho...” que nada mais é que uma continuação das mais mambembes, o novo “Pantera Cor-de-Rosa”, de 2006, começa tudo do zero, reapresentando para toda uma nova geração de expectadores o personagem icônico do Inspetor Clouseau, agora vivido com empenho sobrehumano por Steve Martin.

Martin já era uma comediante em relativa atividade na época de Peter Sellers –os próprios extras do DVD dos filmes antigos flagram ele, num certo momento, enaltecendo o trabalho de Sellers –e sua recriação do Inspetor Clouseau esbarra numa inescapável homenagem, comprometida pelo fato de que, submetendo-se à comparação com o original, seu saldo sempre será negativo.

A trama, mais redonda que o filme original –no qual, sabe-se, muito do protagonismo de Clouseau e do humor certeiro foi encontrado gradualmente e ao custo de muito improviso –mostra o assassinato de um ídolo do futebol francês (ponta de Jason Statham) seguido do sumiço do diamante “Pantera Cor-de-Rosa”, o mcguffin que batiza e movimenta o enredo de todo o filme. Crimes misteriosos tornados notórios pelo escrutínio da mídia, o assassinato e o roubo –relacionados um ao outro por uma série de pistas –representam, assim, um desafio para a boa reputação da Scotland Yard, a polícia francesa. O Comissário Dreyfus (o sempre ótimo Kevin Kline), ávido pelo agrado dos holofotes e pela própria ascensão profissional, requisita então os conhecimentos do Inspetor Jacques Clouseau. No entanto, Closeau vive numa outra realidade, tamanha é sua falta de noção (!): Ele acredita-se um estrategista brilhante, um detetive de apurados instintos para detalhes que ninguém mais percebe e uma mente privilegiada capaz de deduções intrincadas e certeiras e, embora hajam alguns coadjuvantes que até partilhem dessa mesma impressão, não é nada disso; Clouseau é, sim, atrapalhado, desastrado, equivocado e passível das mais estapafúrdias conclusões.

A medida que as investigações avançam –contando com o auxílio do hábil e íntegro policial francês vivido por Jean Reno e pela deslumbrada assistente interpretada por Emily Mortimer –novos elementos são adicionados ao caldo intrincado da investigação, que a tornam ainda mais complexa: A sensual, nada confiável e complicadamente apaixonante cantora vivida por Beyoncé, sempre envolvida com vários suspeitos que sistematicamente vão morrendo (!); os vilanescos mercadores de diamantes relacionados a este e àquele personagem; o envolvimento do Serviço Secreto na forma do enigmático agente secreto 006 (Clive Owen, numa piadinha que na prática tem menos graça do que na teoria) e muitos outros.

Diretor de filmes com conteúdo para toda família (e digno de plena confiança da parte do astro Steve Martin que ele dirigiu em “Doze É Demais”), Shawn Levy conduz o filme enfatizando a trama policial com certa formulação genérica, um ensinamento deixado, diga-se, pelo próprio Blake Edwards, muitos anos antes: Todo o filme é escrito, concebido e planejado com suposta seriedade –e sob essa orientação a grande maioria do elenco de apoio se comporta –apenas seu caótico personagem principal emula a comédia que o filme realmente é; ele é quem deflagra as confusões, quem estrela as piadinhas e, por sua mera presença inusitada, converte o que seria normal num palco para o humor.

Funcionava às mil maravilhas quando Blake Edwards tinha Peter Selers, mas, Shawn Levy não apenas não é Edwards –ele não parece ser capaz de encontrar a essência do gracejo com a mesma facilidade e espontaneidade –como também não tem Sellers: No papel de Clouseau, Steve Martin dedica aqui um esforço visível. Ele pega características antológicas do personagem e as potencializa, mas seu humor parece pueril e não universal, sua presença é estranha e não extraordinária, seus improvisos são irritantes e não hilariantes, e suas estripulias evidenciam uma frequente falta de timing, seja do roteiro, da direção, ou dele próprio.

Não chega a ser uma catástrofe –expectadores, sobretudo, aqueles menos conscientes do trabalho de Sellers e Edwards, podem até se divertirem –mas, é brutalmente falho em igualar o brilho da comédia emblemática que se dispõe a recriar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Te Amarei Até Te Matar


 Dentre os diversos e variados filmes entregues pelo diretor e roteirista Lawrence Kasdan entre os anos 1980 e 90 –todos com um elenco estelar que normalmente se repetia –“Te Amarei Até Te Matar” é aquele com as características mais autorais, uma comédia transbordante de humor negro, inspirada, por sua vez, num fato real (!), tão inacreditável que só poderia ser plausível mesmo sob a alegação de que se baseava na realidade.

Dono de uma pizzaria na Pensilvânia, o ítalo-americano Joey Boca (Kevin Kline, no personagem mais sarcástico de sua carreira depois de “Um Peixe Chamado Wanda”) se acha o dono do mundo: Mete forças o tempo todo com a sogra enfezada, Nadja (Joan Plowright), inferniza os empregados, em especial, o humilde Devo (River Phoenix) e trai abertamente a esposa, Rosalie (Tracey Ullman).

Quando Rosalie descobre o adultério, com efeito, não lhe faltam conselheiros caprichosos –Nadja e Devo (este, secretamente apaixonado por ela) –para lhe incitar a vingar-se. Sem poder se divorciar (entre os católicos isso é inadmissível), a saída que resta é dar cabo do marido mulherengo, afinal, estando morto, Joey beneficia muito mais a todos do que estando vivo.

Ao lado de Devo e Nadja –dois comparsas dos mais destrambelhados que se pode imaginar –Rosalie dá inicio a um meticuloso plano de vingança, que inicialmente inclui matar Joey envenenado (!).

Contudo, isso não dá certo (teria o veneno deixado de funcionar?) e o grupo recorre a, digamos, “profissionais”: Entra em cena a dupla de pretensos ‘assassinos de aluguel’, formada pelos maconheiros Harlan e Marlon (William Hurt e Keanu Reeves, ambos impagáveis), tão lesados e fora da realidade que, em momento algum do filme, sabem onde estão (!).

Após um início claudicante, onde o roteiro assume ares burocráticos para estabelecer motivações –algo que revela a disposição acadêmica de Kasdan –“Te Amarei Até Te Matar” não tarda a enveredar por meio do filme que enfim queria ser, desenvolvendo sua trama toda ao longo de uma única madrugada, com idas e vindas, trapalhadas, surpresas e reviravoltas que emulam um senso de humor macabro, muito adequado a um Alfred Hitchcock, temperado, porém, com um viés ácido que só começaria a ser de fato experimentado no cinema da década de 1990.

O elenco fenomenal faz maravilhas –os maconheiros vividos por Keanu Reeves e William Hurt simplesmente roubam as cenas; Kasdan extrai muito comicidade de intérpretes normalmente atrelados a atuações mais sérias, caso de Phoenix, Plowright e Ullman (embora esta tivesse feito trabalhos com Mel Brooks e John Walters); e Kevin Kline oferece toda a solidez e sustentação à trama, compondo um protagonista em torno do qual todos os objetivos circundam –e o filme, com seu misto incomum e inusitado de comédia, suspense e fatalismo, se não consegue divertir plenamente todos os públicos (pois seu humor é deveras peculiar e particular para chegar a tal abrangência), ao menos se mostra envolvente, curioso e instigante na análise descontraída e hilária das falhas humanas que nos impelem ao delito, e das inesperadas intrigas da vida doméstica.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Silverado


 Nos anos 1980, o diretor e roteirista Lawrence Kasdan passeou pelos mais diversos gêneros a fim de saciar sua ‘fome’ por cinema. Certamente, entre as opções, não poderia faltar o faroeste, algo que ele realizou em 1985, após “Corpos Ardentes” e “O Reencontro”, concebendo “Silverado”. A visão do gênero partilhada por Kasdan e por seu irmão Mark (colaborador dele no roteiro), contudo, não tinha quaisquer reflexos das ramificações do faroeste de então –os spaghetti, feitos na Europa ou os revisionistas, feitos nos EUA mesmo –na verdade, sua visão não tinha sequer as questões e considerações subliminares das obras de John Ford e Howard Hawks: O moleque ávido e entusiasmado por faroeste que Kasdan foi um dia fomentou nele uma necessidade de realizar um filme norteado tão somente por seu senso de aventura. E essa decisão permeia e define “Silverado” do início ao fim.

A primeira cena, habilidosa nos quesitos técnicos dispostos pela produção, mostra Emmett, o protagonista de Scott Glenn, num barraco escuro e fechado, a trocar tiros com inimigos escondidos do lado de fora. Encerrada a breve cena –com a morte de seus oponentes –Emmett sai porta afora, seguido pela câmera em movimento, num take que remete deliberadamente à clássica introdução de “Rastros de Ódio”.

E está então estabelecido tudo o que o filme de Kasdan vai ser (e o que não vai ser): Um faroeste de tintas tão românticas quanto heróicas, imbuído do clima de matinê dos faroestes de antigamente –antes que o gênero ganhasse elementos existenciais, e profundas análises de cunho histórico ou até metalinguístico. Assim, na sequência, Emmett cruza-se com o outro protagonista do filme (tão ou até mais importante que ele), Paden, personagem vivido pelo sempre carismático Kevin Kline. Ele surge só de ceroulas largado no deserto e, ao receber auxílio de Emmett, logo estabelecem a parceria que haverá de perdurar por todo o filme.

Emmett vai até a cidadezinha de Turley, onde encontra o irmão caçula, Jake (Kevin Costner, num personagem mais descontraído do que de costume) em apuros com as autoridades locais. Escapando por um triz do xerife (vivido por John Cleese), graças à ajuda do pistoleiro negro Mal Johnson (Danny Glover), os quatro decidem rumar para a cidade de Silverado, onde mora da irmã de Emmett e Jake, e para onde ele pretende ir, uma vez que saiu há pouco da cadeia onde esteve por cinco anos.

Entretanto, nesse caminho, complicações usuais do faroeste os perseguem: Eles resolvem auxiliar uma caravana com o mesmo destino deles –em meio à qual se encontra a personagem sub-aproveitada da bela Rosanna Arquette –cujos ocupantes tiveram seu dinheiro roubado. No decurso de inúmeras idas e vindas, todos chegam em Silverado, somente para descobrir os verdadeiros problemas que lá os esperam; e que são essenciais ao plot: Para Emmett e Jake, o filho do homem que Emmett matou (morte pela qual pagou com a prisão), tem um plano de vingança pronto para ser posto em prática; para Mal, cujo o pai, Ezra (Joe Seneca) passa poucas e boas para sustentar a terra da família, e a irmã Rae (Lynn Whitfield) tem de prostituir-se no saloon local, estão reservados os mesmos perigosos aborrecimentos que alguém tentando enfrentar a discriminação e a injustiça deve encarar; e para Paden, cujo xerife local, o desonesto Cobb (Brian Dennehy) coloca sob suas asas assim que chega a Silverado, resta um difícil dilema: Ajudar os novos amigos, indo contra um homem que a ele se aliou, ou omitir-se de todas as terríveis ciladas para eles preparadas.

A resposta para isso não é nenhuma surpresa: A força de “Silverado” não está na subversão de narrativas clássicas desse gênero, mas no reencontro ávido e apaixonado com esses expedientes, no clima épico imediatamente reconhecível de quando tais momentos estão se aproximando e, nesse sentido, “Silverado” não deseja, em momento algum decepcionar seu público –aquele tipo de expectador que almeja encontrar um faroeste descomplicado, onde mocinhos e bandidos são definidos com características absolutamente reconhecíveis, e seus empates –ilustrados com pompa e circunstância dramática –seguem os rituais de praxe que emolduram grandes momentos da Velha Hollywood.

Em sua evoção do que o gênero tem de mais clássico, “Silverado” não deixa de encontrar pequenos lapsos que se fazem mais evidentes conforme o tempo foi passando. Seu maior defeito é a tremenda falta de profundidade em relação aos enredos individuais de cada personagem, um problema bastante razoável para um filme que se divide entre tantos protagonistas e almeja dar uma sub-trama a cada um.

A despeito disso, “Silverado” segue sendo aquilo que dele seu realizador queria mesmo fazer: Um entretenimento à moda antiga, amparado no carisma palpitante de seus astros, no charme trivial e anacrônico do gênero que homenageia, nas inúmeras cenas inconfundíveis que o compõem (as cavalgadas em panorâmicas paisagens americanas; os duelos à céu aberto) e na oposição dos homens bravos que se elevam contra o mau-caratismo e a vilania, e os desregrados corruptos de uma terra sem lei que os enfrentam.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Bela e A Fera

A iniciativa dos Estúdios Disney de conceber versões em live-action de suas animações sempre esbarrou num problema: O fato de algumas dessas obras serem produções louvadas pelo público e, não raro, criações cinematográficas irretocáveis.
Mal essa tendência havia se tornado lucrativa –com os sucessos de “Alice No País das Maravilhas”, de Tim Burton, “Malévola”, de Robert Stromberg (com Angelina Jolie), “Cinderella”, de Kenneth Branagh, e “Mogli-O Menino Lobo”, de Jon Favreau –e a Disney já resolveu segurar o touro pelos chifres e adaptar uma de suas mais aclamadas obras: O desenho animado que, entre outras honrarias, foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, “A Bela e A Fera”.
O escolhido para a empreitada foi o diretor Bill Condon que, diante do dilema criativo entre recriar fielmente a animação (realizando assim um trabalho sem alma) e executar uma obra dotada de sua própria inspiração e inventividade, saiu-se com uma alternativa sábia e travessa: “A Bela e A Fera”, o filme, se ampara, sim, na tão elogiada animação –até porque fãs e apreciadores se ressentiriam se fugisse muito de sua fonte –mas, ele se baseia também, em muitas de suas pontuações narrativas, na bem-sucedida adaptação teatral para os palcos da Broadway.
A dica já se acha no prólogo: Diferente dos vitrais que sugerem o prenúncio da trama na animação, a encenação mostra a festa onde o príncipe em questão (Dan Stevens, magnífica escolha) rejeita o pedido de ajuda de uma mendiga para descobrir que ela era uma feiticeira.
Indignada com o desprezo dele por sua aparência, ela o amaldiçoa: Transforma-o em monstro e todos os súditos de seu castelo nos móveis que o decoram. Para quebrar tal maldição, somente se ele conseguir fazer com que alguém apaixone-se por ele, a despeito de sua forma bestial.
Entra em cena, então, a mocinha Bela (Emma Watson, que deve ter aceitado este papel musical pelo arrependimento de ter recusado a proposta para estrelar “La La Land-Cantando Estações”).
Moradora de uma aldeia francesa, Bela é recebida com estranhamento pelos demais moradores, incomodados por sua independência, sua articulação e inteligência. Contudo, sua grande beleza (ainda que Emma não seja tão bela assim quanto o papel pede), não passa despercebida de Gaston (Luke Evans), o mais bonito e disputado (e arrogante!) rapagão local, que a quer como esposa de qualquer jeito.
Bela vem a se encontrar com Fera quando o pai dela, Maurice (Kevin Kline), perde-se numa viagem, indo parar inadvertidamente no castelo da Fera; e acaba seu prisioneiro.
Mais tarde, ao descobrir as atribulações do pai, Bela propõe uma troca e, agora, será ela quem Fera terá como prisioneira.
Entretanto, os demais personagens que orbitam esse par improvável (como são improváveis todos os pares de desenlaces românticos da ficção) haverão de contribuir para tornar este um romance, entre eles, o candelabro Lumiére (voz de Ewan McGregor), o relógio Cogsworth (voz de Ian McKellen, com quem o diretor Condon fez o premiado “Deuses e Monstros”), o bule de chá Madame Samovar (voz de Emma Thompson) e vários outros.
Ignorando a restrição que a obrigatória proximidade visual e narrativa para com a animação lhe impõe, o diretor Condon aproveita as ferramentas técnicas à sua disposição para transformar “A Bela e A Fera” num espetáculo de cores à exemplo do que foi a própria animação em sua época. Os recursos digitais, empregados de forma imodesta, podem fascinar alguns expectadores por sua extravagância e seu espalhafato, e incomodar outros por sua demasia e gratuidade –e o roteiro de Stephen Chobski (diretor de “As Vantagens de Ser Invisível”, também com Emma Watson, e de “Extraordinário”) não tem maiores justificativas para seu uso, embora possua o ligeiro mérito de tentar se afastar das obviedades em relação à animação ao usar de artifícios mais ou menos perceptíveis como alternância de cenas, a transferência de determinados diálogos para outros personagens e o acréscimo de prolongamentos de cena (que ora funciona, ora fica lamentável).
Como é o caso na maioria dos live-actions da Disney, o melhor meio de apreciar as qualidades deste “A Bela e A Fera” é desencanar de uma comparação constante com a animação; algo que só irá desfavorecer e sabotar o próprio filme.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Grand Canyon - Ansiedade de Uma Geração

Indicado ao Oscar 1991 de Melhor Roteiro Original (tendo perdido para “Thelma & Louise”) e também premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim daquele ano, “Grand Canyon” é o típico exemplar do ‘esemble drama’ –uma trama ramificada entre os diversos personagens de um elenco numeroso.
O seu diretor, Lawrence Kasdan, que já havia trabalhado muito bem com esse conceito em “O Reencontro”, molda seu filme com a artificialidade de alguém que, num ponto culminante da carreira, atingiu uma fase de reconhecimento na qual seu único esforço era permanecer relevante. Como o tema de “Grand Canyon” é –mais em termos existenciais do que práticos –o preconceito racial nos EUA (e, nesse sentido, o Grand Canyon é uma metáfora de inúmeras aplicações), a crítica procurou não repudiar o filme que transita tranqüilo entre seus interesses e suas intenções, jamais sendo genial, mas nunca dando razões, nos seus cento e trinta e quatro minutos de duração, para o expectador arrepender-se de tê-lo assistido.
O ponto de partida de “Grand Canyon” se dá com o personagem que mais próximo chega de ser seu protagonista de fato: O advogado Mack vivido pelo simpaticíssimo Kevin Kline (um dos mais assíduos atores do diretor Kasdan).
Mack vê seu carro enguiçado num gueto de gangues barra-pesada e, quando está prestes a encrencar-se de fato com um desses grupos é acudido pelo motorista de guincho Simon (o ótimo Danny Glover) que, por ser também negro, encontra um diálogo franco e apaziguador com os instáveis maus elementos.
A partir desse encontro casual entre Mack e Simon –que, desde então, se esforçam na construção de uma amizade que se sobreponha ao abismo social –a narrativa do filme se desenrola ao sintetizar as crises deles e de outros personagens a eles relacionados.
Do lado de Mack, há o caso mal resolvido com a linda secretária Dee (Mary-Louise Parker, que tem uma breve cena de nudez!); a reviravolta experimentada pelo seu amigo, o produtor hollywoodiano Davis (Steve Martin, num inusitado papel sério) que, de esteta da violência em suas obras se torna reflexivo e idealista após ser vítima de um atentado –para então, regressar ao cinismo de sempre após ter passado os estágios do trauma; o dilema de Claire (a magnífica Mary McDonnell, de “Dança Com Lobos”), e esposa de Mack, indecisa entre adotar ou não uma criança que foi abandonada ao lado de sua casa.
Do lado de Simon, existe o envolvimento com Jane (Alfre Woodard) proporcionado pelo contato com o próprio Mack, além de inúmeros flagrantes da urgência e do dia-a-dia brutal na selva urbana.
É um belo trabalho na orquestração de dramas pessoais e na condução de uma narrativa envolvente que resvala somente na excessiva obviedade de sua proposta –mastigada, explicada e reiterada até demais ao longo do filme –e, sobretudo, no redundante fato de que Kasdan dramatiza crises urbanas infinitamente mais amenas do que aquelas que o público conhece (e que ainda viria a conhecer) muito melhor que seus personagens confortáveis e bem-postos de Primeiro Mundo.

Chaplin

Durante muito tempo o cinema flertou com uma possibilidade inevitável: Um filme sobre a vida do intrépido Charles Chaplin –realizador que pode ser considerado uma das poucas figuras históricas que ilustra o próprio cinema.
Veio a ser o diretor Richard Attenborough (de "Gandhi"), amigo pessoal da família Chaplin, quem assumiu esse acalentado projeto, esforçando-se em concentrar, num riquíssimo filme de cento e quarenta e oito minutos, os aspectos de uma vida desigual que renderia fácil uma dezena de filmes –para tanto, ele inspirou-se em “My Life”, a autobiografia de Charles Chaplin (há cenas nas quais o personagem fictício, interpretado por Anthony Hopkins, rememora a trajetória dele para a realização da obra) e na biografia “Chaplin, His Life And Art”, escrita pelo pesquisador David Robinson.
A estrutura narrativa do filme assim dá ênfase ao fato de que o caminho trilhado por Chaplin é paralelo ao do próprio cinema no século XX, pontuada, no entanto, pelas influências –sejam elas inspiradoras ou destrutivas –das mulheres que passaram pela vida do protagonista.
Dessa forma, Attenborough inicia seu filme ainda na infância pobre repleta de correrias e privações em Londres, em meio à qual os realizadores acreditam estar a gênese para as motivações e o comportamento que Charles apresentou ao longo da vida; em especial, o caráter lúdico que deu a seus filmes.
Quando o filme avança para mostrar Charles em sua juventude –em meio às apresentações nos palcos de valdeville londrinos –é quando somos introduzidos ao ator extraordinário que dá vida à Charles Chaplin: Robert Downey Jr. (hoje, unanimemente conhecido como intérprete do “Homem de Ferro”) que foi merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator por este trabalho.
O talento irrestrito de Charles não tarda a levá-lo a migrar para a América, onde é contratado como figurante pelo produtor Mack Sennett (Dan Aykroyd), entretanto, a criatividade pulsante e independente de Charles o leva a trilhar um caminho próprio como realizador (bem como à criação de seu mais célebre e simbólico personagem, Carlitos, o vagabundo) culminando em sua consagração como gênio do cinema na América, onde criou filmes que alegraram e emocionaram milhões.
O terço final do filme mostra a textura inusitadamente política apontada nas atitudes de Charles como quando se recusou a aderir ao cinema falado, e a celeuma levantada até mesmo à revelia dele quando lançou o maravilhoso “O Grande Ditador”. Fatos que estranhamente lhe renderam amigos e inimigos –sendo os mais insidiosos e marcantes o promotor Joseph Scott (James Woods) e o chefe do FBI, J. Edgar Hoover (Kevin Dunn), que o investigaram, caluniaram e perseguiram até obter sua extradição dos EUA, em 1952.
Para só voltar vinte anos depois, quando recebeu um Oscar honorário na breve e emocionante seqüência que encerra o filme.
Como mencionado acima, as companheiras de Charles definem muito de quem ele se torna e dos rumos que sua vida toma: O primeiro (e relativamente trágico) amor, a bailarina Hetty Kelly vivida por Moira Kelly; a primeira mulher Mildred Harris (Milla Jovovich, não somente antes da franquia “Resident Evil” como antes até mesmo de “O Quinto Elemento”); a atriz Paulette Goddard (Diane Lane) que também se envolveu com ele; a problemática Joan Barry (Nancy Travis); e a última esposa Oona (novamente interpretada por Moira Kelly, num recurso que proporciona à trama uma espécie de circularidade afetiva).
Se a direção de Attenborough, ainda que cheia de propriedade, não escapa de um tom solene e deslumbrado, o seu filme é emoldurado numa brilhante atuação de Robert Downey Jr, que confere humanidade, solidez e ares genuinamente comoventes à um personagem desafiador e intimidante para qualquer ator.

sábado, 17 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1989

Curioso o fato de que, na última cerimônia realizada na década de 1980, o grande vencedor (o drama sobre autismo “RainMan”) tenha sido o menos festejado dos indicados; também pudera, concorrendo com obras esplêndidas como “Mississipi em Chamas” (na opinião de muitos especialistas, o filme que deveria ter sido premiado), “O Turista Acidental”, “Uma Secretária de Futuro” e “Ligações Perigosas”, essa conclusão era inevitável.
Que o diga Steven Spielberg, cujo roteiro de “Rain Man” –também ele premiado –ele recusou-se a dirigir.
Por esse filme, aliás, Dustin Hoffman levou seu segundo Oscar de Melhor Ator (sob alegações, de novo, de que o prêmio deveria ter ficado com Gene Hackman, por “Mississipi...”), enquanto que Jodie Foster, por “Acusados”, arrebatou o prêmio das mãos de pelo menos duas concorrentes de peso: As sensacionais Melanie Griffith (por “Uma Secretária de Futuro”) e Sigourney Weaver (por “Nas Montanhas dos Gorilas”).
Entre os coadjuvantes, Kevin Kline levou a única estatueta conferida ao ótimo “Um Peixe Chamado Wanda” e Geena Davis, mais que merecida por “O Turista Acidental”, superou os bons trabalhos de Sigourney Weaver –indicada em duas categorias num mesmo ano! –e Joan Cusack, as duas concorrendo por “Uma Secretária de Futuro”.
A despeito disso tudo, o filme mais inovador do ano, a fusão primorosa entre live-action e animação chamada “Uma Cilada ParaRoger Rabbit” reinou nas categorias técnicas.

MELHOR FILME
"Rain Man"

MELHOR DIREÇÃO
"Rain Man", Barry Levinson

MELHOR ATRIZ
Jodie Foster, "Acusados"

MELHOR ATOR
Dustin Hoffman, "Rain Man"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Geena Davis, "O Turista Acidental"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kevin Kline, "Um Peixe Chamado Wanda"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Mississipi em Chamas"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Pelle-O Conquistador" (Dinamarca)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Uma Cilada Para Roger Rabbit"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Uma Cilada Para Roger Rabbit"

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"Ligações Perigosas"

MELHOR SOM
"Bird"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Rebelião em Milagro"

MELHOR TRILHA SONORA
“Rebelião em Milagro"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Let The River Run", de "Uma Secretária de Futuro"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Rain Man"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Ligações Perigosas"

MELHOR MONTAGEM
"Uma Cilada Para Roger Rabbit"

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A Escolha de Sofia

Acho que Meryl Streep já acumulou mais de vinte indicações ao Oscar –dessas, ganhou três –entretanto, por mais sensacionais que sejam os trabalhos pelos quais ela é lembrada nos últimos anos (como o divertido “O Diabo Veste Prada” ou “A Dama de Ferro”), nenhum, absolutamente nenhum deles se compara àquele que considero o melhor trabalho de toda sua carreira: A atuação nunca menos que primordial que ela entrega em “A Escolha de Sofia”.
Por ela, Meryl venceu o Oscar de Melhor Atriz em 1983, derrotando inclusive o fenomenal trabalho de Julie Andrews em “Victor ou Victoria”.
É muito justo.
A Sofia Zawistowska de Meryl Streep, no filme, é alguém que conhecemos aos poucos. A narrativa se inicia pelo ponto de vista do jovem Stingo (Peter MacNicol), um típico jovem em busca do sucesso como escritor que muito lembra o protagonista de “Pergunte Ao Pó”, livro e filme. No ano de 1947, Stingo, jovem e pouco conhecedor de todas as vastidões do mundo se muda para uma hospedaria no bairro do Brooklyn, em Nova York, em busca de sossego para escrever um livro baseado no pouco que conhece a fundo: Sua própria vida.
Os moradores do andar de cima são um casal cujo relacionamento parece turbulento: Sofia, uma imigrante polonesa que passou pelos campos de concentração em Auschwitz, e Nathan (o sempre ótimo Kevin Kline), um judeu eufórico, carismático, fascinante e passional.
Stingo se torna grande amigo deles e vê uma nova e esplendorosa janela para o mundo se abrir. A medida que o filme avança, o diretor (também roteirista) Alan J. Pakula flerta com as possibilidades do filme: O título e sua primeira parte fazem supor que irá se tratar de um triângulo amoroso –e a ‘escolha de Sofia’, por assim dizer, será entre um dos dois homens, já que Stingo não tarda a deixar-se enamorar por ela; e tão cativante, minuciosa e autêntica é a composição de Meryl que entendemos plenamente o porque disso –aliás, a caracterização que ela faz aqui, uma das mais admiráveis do cinema, deve ter sido a inspiração para Jessica Chastain em “O Zoológico de Varsóvia”, os mesmos trejeitos no sotaque, a mesma modulação de voz.
Embora narrador do filme e certamente os olhos do público, Stingo é, de fato, um expectador de toda a história na maior parte do tempo. Ele testemunha, inicialmente passivo, as atitudes bipolares de Nathan em relação a Sofia e à ele próprio (num momento, é carinhoso, apaixonado e leal, no outro, tem rompantes injustificáveis de desconfiança e de agressividade), no entanto, apesar de no decorrer do filme, Stingo enxergar em si mesmo um companheiro mais merecedor de Sofia do que o próprio Nathan, algo sempre impele Sofia de volta para ele. Ela precisa de Nathan. E Nathan precisa dela.
Sofia (como ficará claro na brilhante e detalhada atuação de Meryl) sofreu tanto que não tem vontade de viver. É Nathan, com sua sede de vida, que consegue restituir nela uma capacidade real de sorrir e de seguir em frente.
E Nathan vê sua loucura interior ser aplacada somente pelo amor incondicional de Sofia.
Aos poucos, conforme a amizade com Stingo se aprofunda, tanto Sofia quanto Nathan terão os segredos que ocultam um do outro revelados.
Nathan é esquizofrênico e Sofia... bem, Sofia é, neste filme poderosamente comovente, um caso completamente à parte.
Quando a narrativa mergulha em suas próprias revelações e o filme regressa ao período da ocupação nazista à Polônia, somos pouco a pouco informados dos detalhes da vida pregressa de Sofia, na qual ela tinha um marido (que logo morreu) e um casalzinho de filhos. É aí, quando Sofia confidencia o acontecimento para Stingo num quarto de hotel onde ele se declara para ela, que descobrimos, afinal, do que realmente se trata a ‘escolha de Sofia’, naquela que deve ser uma das mais tristes cenas do cinema –são cinqüenta e cinco segundos absolutamente dolorosos!
Apesar de não trazer a mesma análise moral e histórica do livro de William Styron no qual se baseia, este belo trabalho do diretor Pakula (talvez, o melhor dele), se impõe como um dos grandes retratos já moldados sobre as conseqüências do nazismo, abrilhantado e engrandecido pela presença sem igual de Meryl Streep cujo talento consegue criar uma série de momentos contundentes que ficarão por muito tempo na memória.

sábado, 19 de agosto de 2017

Última Viagem A Vegas

Um filme que reúne Morgan Freeman, Kevin Kline, Robert De Niro e Michael Douglas, além de Mary Steenburgen não deve ser jamais subestimado, ainda que seja tendência, sobretudo da crítica, subestimar tudo o que o diretor Jon Turteltaub (de filmes insípidos e inofensivos como a comédia romântica “Enquanto Você Dormia”, o drama “Fenômeno” e a aventura com Nicolas Cage “A Lenda do Tesouro Perdido”) acabe fazendo.
Ele alcança aqui um objetivo bem gracioso (ainda que longe de ser memorável) que deve satisfazer plenamente o público, embora certamente esse mérito não pertença a ele.
A trama fala sobre o reencontro de um grupo de amigos, inseparáveis na juventude, mas que, passados cinqüenta e oito anos, estão envelhecidos e dispersos. Há Sam (Kevin Kline, talvez o melhor em cena) que reage com o máximo de bom-humor possível –ainda que temperado de alguma amargura –ao fato de precisar ir com mais freqüência do que gostaria às clínicas, consultórios e hospitais; já Archie (Morgan Freeman, divertidíssimo), por sua vez, mal sai de casa sempre sob a vigilância neurótica preocupada e opressora do filho; e Paddy (Robert De Niro com uma imutável cara de rabugento) que, desde a viuvez, mantém-se enclausurado e sozinho em seu apartamento, evitando até mesmo a solidariedade das vizinhas. Há algum tempo sem se ver, eles são reunidos por Billy (Michael Douglas) o mais em visível crise de meia idade de todos que vai se casar com uma deliciosa jovem de trinta e dois anos (e tal fato serve de motivo para constante chacota dos outros) e deseja realizar uma despedida de solteiro fenomenal ao lado de todos eles em Las Vegas.
Uma vez lá a idéia é reviver, na medida do possível, a glória das farras de juventude e aproveitar a diversão (e as mulheres, as bebidas, as músicas) que a cidade de neon tem a oferecer. É claro que eventualmente, eles vão se deparar com suas inevitáveis limitações, com o fato de que o mundo mudou (e ficou mais cínico, mais desrespeitoso) desde que deixaram as festas para trás, e com circunstâncias que colocarão em teste sua própria amizade.
Não faltará também uma formosa cantora de palco (vivida com charme incontornável por Mary Steenburgen) que balançará as convicções de Billy com relação ao seu vindouro casamento e cuja afeição ele disputará com Paddy; uma situação que remete à um triângulo amoroso que ambos viveram na juventude.
É um argumento simples –e simples se mantém até o fim, com as mesmas guinadas previsíveis em seu humor e em seu drama –mas que serve ao propósito de colocar esses sensacionais atores lado a lado em situações que eles e sua verve de grandes intérpretes se encarregam de tornarem deliciosas.
Uma receita que não havia muito como dar errado.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tempestade de Gelo

Após brilhantes trabalhos em Taiwan ("Banquete de Casamento" e "Comer, Beber, Viver") e ainda mais brilhantes e celebrados trabalhos já nos EUA (o ótimo "Razão e Sensibilidade") o chinês Ang Lee, imediatamente antes da consagração com o assombroso épico "O Tigre e O Dragão", realizou aqui um perspicaz, competente e fluido estudo do comportamento sexual de uma época que, estranha e injustamente, não é muito lembrado em meio à suas tantas e excelentes obras.
Como em alguns de seus primeiros e elogiados trabalhos em Taiwan, a família é o inusitado foco da discussão quase impiedosa que ele levanta e, embora o sexo esteja presente e onipresente, a direção de Lee nunca se permite explícita ou deselegante preferindo o caminho da sugestão e do subtexto dramático.
É o ano de 1973. Num subúrbio de New Canaan, em Connecticut, EUA, as câmeras de Lee acompanham a história de várias famílias que vivenciarão diversas experiências diferentes movidas em grande parte pela ideologia vigente do período, que começava a transformar os comportamentos e atitudes, promovendo mudanças na sociedade. Ben (Kevin Kline) é casado com Elena (Joan Allen, ótima), mas tem como amante Janey (Sigourney Weaver).
Já, Elena se vê perplexa com os novos hábitos –que pendem espantosamente para a promiscuidade –de seu grupo de amizade, que culminam numa festa com conseqüências desastrosas.
Eles têm um casal de filhos, cada qual com seus próprios conflitos de ordem sexual e psicológica (ainda que insistam em esconder essas pulsões na forma de eventuais inconformismos políticos): Paul (Tobey Maguire) nutre uma atração por uma garota da universidade (Katie Holmes), mas tem de cuidar-se com um colega traiçoeiro que adora dormir com todas as garotas pelas quais ele se apaixona; Wendy (Cristina Ricci) adere cada vez mais à cleptomania enquanto realiza jogos de sedução com os dois filhos do vizinho, o introspectivo Sandy (Adam Hann-Byrd) e o questionador Mikey (Elijah Wood).
É curiosamente a analogia com uma família de super-heróis (o Quarteto Fantástico, na revista em quadrinhos que o personagem de Maguire lê na cena inicial) que dá o estopim para que uma série de flashbacks visitem um e outro personagem, tecendo uma objetiva, delicada e brilhante teia que registra tais comportamentos, e se propõe, despida de preconceitos e soluções fáceis, à avaliá-los e, quem sabe, extrair deles algum ensinamento: Troca de casais, perda de controle dos filhos, bebida. São os temas que entram em pauta de maneira sublime na sempre competente narrativa de Ang Lee.