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domingo, 16 de julho de 2023

A Proposta


 Reunir em cena os astros Sandra Bullock e Ryan Reynolds já é, em si, um trunfo comercialmente promissor: Carismáticos, engraçados e certamente atraentes, eles já representam um chamariz para ambos os públicos, masculino e feminino. A partir dessa consciência de escalação, percebemos que é preciso bem pouco para que “A Proposta” funcione. E é bem isso mesmo: O roteiro escrito por Pete Chiarell (roteirista padrão de Hollywood habituado a escrever para grandes e genéricas franquias) segue a fórmula usual das comédias românticas, a direção de Anne Fletcher se contenta em fornecer uma condução fluida às cenas e ocasionalmente lembra de envolver a tudo com uma fotografia de cartão-postal. A trama não tem nada de mais. A produção não tem nada de mais. Entretanto, eles têm Sandra Bullock e Ryan Reynolds em cena, e isso já segura o filme muito bem.

Sandra é Margaret Tate, uma executiva canadense, ferrenha funcionária de uma editora nova-iorquina de livros, vista por seus subalternos como uma versão literária da Miranda Prestley de “O Diabo Veste Prada” –a própria chefe infernal em pessoa!

E dentre seus subalternos, nenhum sente mais essas agruras na pele do que seu assistente Andrew Paxton (Ryan Reynolds), rapaz que busca, há três anos, galgar os degraus da hierarquia da empresa a fim de realizar seu sonho de virar editor.

O enredo do filme começa a tomar forma quando o roteiro pega ligeiramente emprestado o mote de um dos clássicos da comédia romântica, o maravilhoso “Green Card-Passaporte Para O Amor”: Margaret está para ser deportada para o Canadá (e, portanto, prestes a perder o emprego) quando os agentes da imigração detectam elementos irregulares em seu visto. A única forma de resolver prontamente esse problema é se casando. E eis que, do alto de sua incapacidade para levar em conta os problemas alheios, Margaret afirma para todos –seus chefes e seu fiscal de imigração –que está de casamento marcado com Andrew!!!

A ideia, para ela, soa simples: Eles se casam, legalizam sua situação em solo americano, uma vez que ao casar o cônjuge automaticamente adquire cidadania e, depois das coisas resolvidas, divorciam-se meses depois.

Todavia, há um problema, ou melhor, dois: O primeiro, é que Andrew não foi devidamente consultado sobre isso –e ele haverá de descontar os anos de maus tratos de Margaret por conta dessa nova situação. O segundo, que ninguém, exceto eles dois, devem saber desse arranjo; o que significa mentir até mesmo para a família dele. Com um fiscal da imigração (Denis O’Hare, de “A Legião Perdida”) no pé deles –casamentos de fachada são, muito provavelmente, uma prática comum para se burlar a lei –os dois devem convencê-lo numa entrevista realizada separadamente de que, como noivos, ambos conhecem minuciosamente a vida um do outro. Para Andrew a tarefa é simples; tão habituado ele está com as exigências de ordem pessoal de sua chefe que ele sabe desde sua preferência de café até as tatuagens que removeu no esteticista, contudo, para Margaret, Andrew é uma incógnita –alguém que, em três anos de convívio, ela sequer se preocupou em conhecer.

Para recuperar o tempo perdido e preparar-se para a entrevista, marcada para a segunda-feira, ela deve passar o fim de semana com ele, e aprender o máximo que puder. No entanto, Andrew está de viagem marcada para o Alasca (!?!) onde vive sua família, e onde se darão as festividades do aniversário de sua avó (a lendária Betty White).

É assim que, sob a necessidade de manter o disfarce de noivos perante todos –incluindo sua amável mãe (Mary Steenburgen) e seu desconfiado pai (Graig T. Nelson, de “Poltergeist”) –Andrew e Margaret arrumam as malas e seguem para o Alasca. Lá, entre algumas confusões e saias-justas, opera-se a inevitável mágica das comédias românticas: Margaret revela ser mais adorável e humana do que até então dera a entender, e começa a se afeiçoar genuinamente por Andrew que, por sua vez, mostra-se alguém mais interessante do que o mero capacho que ele aparentava ser.

“A Proposta” não é nenhuma obra-prima; muito dele é esquemático e forçado, inclusive algumas piadinhas fora de hora, e alguns de seus personagens são tão mal elaborados que chega a dar constrangimento (caso da ex-namoradinha vivida por Malin Ackerman, claramente uma personagem que não diz a que veio), além de que Sandra Bullock, linda, simpática e cativante que é, não consegue convencer ninguém, durante a primeira metade de filme, da personagem megera, intimidadora e calculista que supostamente seria. De memorável mesmo, talvez, seja uma breve cena de nudez que ela (maravilhosa!) compartilha com Ryan Reynolds.

Mas, esses são pecados menores numa comédia romântica que se encarrega de entregar ao público a dose de romance açucarado e humor inofensivo e transbordante que as comédias românticas em geral entregam –e nesse sentido, “A Proposta” é certeiro, até mesmo pelo fato de revelar abertamente o quanto Sandra e Ryan estão se divertindo a valer em cena com seus personagens, sejam eles bem escritos, bem dirigidos e bem aprofundados, ou não.

Em tempo (1): Não confundir este filme com o espetacular faroeste australiano de mesmo título nacional lançado em 2005, dirigido por John Hillcoat.

Em tempo (2): No ano de 2012, “A Proposta” ganhou uma refilmagem indiana, estrelada por Dileep e Mamta Mohandas, intitulada “My Boss”.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

As Viagens de Gulliver


 Em 1996, houve um esforço válido, ainda que não de todo bem sucedido, para transpor com fidelidade e minúcia, o clássico de Jonathan Swift para as telas. Estrelado pelo casal Ted Danson e Mary Steenburgen, e dirigido por Charles Sturridge (diretor inglês prolífico da TV e realizador de um dos segmentos do incompreendido “Ária”), “As Viagens de Gulliver” era uma minissérie que, aqui no Brasil, foi lançada em formato de filme numa versão integral (e quase interminável) de 179 minutos de duração.

A extensão garantiu a presença de todas as peripécias do protagonista (as quatro viagens relatadas no livro, quando a grande maioria das adaptações se restringe apenas às duas primeiras) em seus mais variados detalhes –algo que uma metragem de cinema dificilmente comportaria –entretanto, tal decisão também atribui ao filme um ritmo por vezes enfadonho de ser acompanhado.

Na primeira metade do Século XVIII, o viajante Lemuel Gulliver (Ted Danson, simpático, porém, ocasionalmente deslocado) retorna para junto de sua esposa, Mary (Mary Steenburgen, tão talentosa quanto encantadora) e do filho Tom (Tom Sturridge) que mal conheceu, após quase nove anos ausente. Nesse ínterim, a família de Gulliver viu-se sujeita à autoridade do vilanesco Dr. Bates (James Fox), bastante interessado em desposar Mary e assumir a posse da propriedade de Gulliver de uma vez por todas. Entretanto, o fato de Gulliver regressar não lhe tira os planos perversos da mente: Gulliver aparentemente voltou completamente pinel, delirando acerca de lugares absurdos e inacreditáveis que visitou –e, não raro, ostentando loucura de fato ao misturar lembranças com realidade.

Enquanto ele é mandado para um hospício, as memórias de suas viagens são descortinadas na narrativa por meio de flashbacks que se mesclam de forma um tanto confusa –e, muitas vezes, na intenção de ocultar certa limitação de orçamento da produção. Assim, testemunhamos o naufrágio (sugerido elipticamente) que leva Gulliver a ficar prisioneiro do pequeno povo de Lilliputh, para quem ele é um gigante –e cujo rei, imaturo e obtuso, é interpretado pelo grande Peter O’Toole. Ao fugir dos lilliputhianos após envolver-se em suas guerras, Gulliver novamente ganha os mares e acaba em Brobdingnag onde todos são, desta vez, gigantes (!), e ele um ser miniaturizado –neste país, a rainha surge vivida por Alfre Woodward, de “Capitão América-Guerra Civil”.

Levado por um gavião gigante após ficar um tempo aprisionado por lá, Gulliver acaba sendo resgatado pelos moradores de Laputa, a ilha voadora (conceito aproveitado por Hayao Myiazaki no genial “O Castelo No Céu”). Em Laputa, os moradores –todos homens –usufruem do privilégio de serem considerados gênios (embora fique claro que sejam intelectualmente desmazelados), e só pensam nas redundantes estratégias de guerra contra suas mulheres, que agora vivem em terra firme longe deles (!). Farto de ficar na insensatez desse fogo cruzado, Gulliver parte, já ávido por voltar ao lar, mas seu caminho cruza-se com o de um historiador-feiticeiro (Omar Shariff) que o mantém preso durante algum tempo para que seu sangue sirva à sua feitiçaria: Toda noite, ele embebeda Gulliver para extrair seu sangue e, com ele, trazer alguma personalidade histórica do passado por meio de seu espelho mágico e, com isso, registrar a História “direto da fonte”.

Na sua última fuga antes do regresso para casa, Gulliver ainda conhece uma comunidade de equinos inteligentes o bastante para se comunicar com ele –enquanto os humanos das redondezas são, eles sim, criaturas animalescas e irracionais.

Todos esses percalços se sucedem paralelos aos aborrecimentos presentes de Gulliver, nos quais tenta provar sua sanidade diante da vil sabotagem do Dr. Bates. O grande problema é que não há um trabalho mais esmerado no que tange ao ritmo e à narrativa desses desdobramentos assim conduzidos ao expectador, tornando quase um suplício acompanhar a sucessão aleatória e cansativa de tais sequências. Esse lapso acaba, inclusive, desperdiçando não só as pontas inúmeras do vasto e surpreendente elenco (que inclui além dos já citados, nomes como John Gielgud, Ned Beaty, Edward Fox, Geraldine Chaplin, Kristin Scott-Thomas e Warwick Davis), mas também banaliza o grande mérito da produção: A iniciativa de relatar na íntegra o livro sempre mutilado de Swift em outras ocasiões.

Por incrível que possa parecer, não são os momentos mais conhecidos –como em Lilliputh, em Brobdingnag, ou em Laputa –os mais envolventes do filme, mas sim os trechos em que Gulliver se vê em sua desventura doméstica, já que é neles que podemos apreciar a inebriante presença de Mary Steenburgen.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Nixon


 Como passou a ser sintomático em sua filmografia, Oliver Stone dedica um verdadeiro tour-de-force de três horas de duração para esmiuçar em detalhes até então inéditos mais uma faceta da história norte-americana nos anos 1960 e 70. E ele o faz num filme onde suas ideologias surgem conjugadas com sua poderosa habilidade para costurar impressões de uma realidade factual às conjecturas intrépidas da ficção (ou da mera especulação).

Centralizado na arrojada caracterização de Anthony Hopkins, o diretor Stone conta à sua maneira a história de Richard Nixon, adotando o que teria sido seu ponto de vista ao longo de muitos acontecimentos retumbantes da política americana na segunda metade do Século XX.

Como toca a um diretor audaz, Stone intercala sequências oriundas de diferentes trechos cronológicos –começa nos 18 meses pós-escândalo de Watergate, regressa à infância de Nixon nos anos 1920, e depois salta para a primeira eleição disputada em 1960 –e alterna, com seu conhecido repertório de experimentos visuais –filme colorido, preto & branco, e simulações de arquivos –um filme que se pretende instigante o tempo todo.

Com essa sua exuberância técnica, Stone parece tentar entender e vislumbrar o lado humano de Nixon, o mais controverso dos presidentes recentes dos EUA (ou aquele que teve a infelicidade de governar durante o período mais controverso de sua história), mas na verdade o que ele quer é tecer uma elaborada teia de intrincadas teorias conspiratórias, tão mirabolantes e carregadas de sordidez ficcional que se convertem num afresco cinematográfico sobre decadência e traições de um ponto em diante.

Filho do meio de uma família pobre do meio-oeste norte-americano, Richard Nixon cresceu influenciado pela tenacidade severa do pai e pelo tratamento humanamente suscetível da mãe (Mary Steenburgen); as mortes do irmão mais novo e do mais velho (de tuberculose) também tiveram poderoso efeito sobre seu caráter, transformando Nixon num homem disposto a encontrar todos os meios possíveis para sobrepujar suas desvantagens existenciais –que no caso dele, já durante a competitiva vida adulta em meio à política, se manifestaram como a alardeada falta de carisma, de afabilidade e beleza física, em comparação com seu contumaz adversário, John Kennedy.

A derrota para ele, nas eleições de 1960, é um golpe que chega a afetar a harmonia de seu casamento (com Pat, vivida por Joan Allen). Entretanto, o próprio Nixon ganha chances improváveis de governar os EUA –o que de fato acontece –depois que John Kennedy é assassinato em Dallas, e seu irmão, Bobby (adversário de Nixon nas eleições subsequentes), é também ele alvejado e morto no Hotel Ambassador, tempos depois –na narrativa de descarado teor alarmista de Oliver Stone, essas escandalosas teorias ganham ares de verdade documental quando é sugerido o envolvimento de Nixon em cada um desses atentados.

Durante a gestão de Nixon, Stone relata os percalços tumultuados de seu governo com ênfase nos trágicos desdobramentos da Guerra do Vietnam (um tema caro ao cinema do diretor), nas atitudes egocêntricas e contraditórias de seu protagonista (cuja paranóia o leva a duvidar de aliados genuínos como o Secretário de Estado Heny Kissinger, vivido por Paul Sorvino), e nos lances ambíguos que convertem o próprio Nixon naquilo que, em tese, ele desejava enfrentar: Um líder relapso, errático, incapaz de se opor à inevitabilidade atroz do sistema, e disposto a lançar mão de recursos cada vez mais escusos sob pretextos vazios –na verdade, essa premissa, a do personagem principal cuja pureza da ideologia se vê contaminada pela sordidez inapelável do mundo é, também, um tema muito caro ao cinema de Oliver Stone.

Do alto de sua nada modesta duração, “Nixon” é pois um épico de difícil assimilação, dedicado aos meandros mais mesquinhos e insidiosos a que pode se submeter o caráter humano, e imerso na caracterização mais vil dos bastidores (ainda que certamente ficcionais) da política norte-americana dos anos 1960 e 70.

A habilidade inconteste de Oliver Stone está aqui, como em outras obras corrosivas que realizou, a favor de uma narrativa que tão somente conscientiza o expectador de uma implacável inclinação para a maldade no ser humano; e essa sensação amarga não é amenizada nem mesmo pelo primor presente do início ao fim na atuação de Anthony Hopkins.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Um Duende Em Nova York

Certamente, Will Ferrel é o sol cuja luz ilumina a razão de ser deste projeto –é em sua figura marcante, em sua energia cênica, e em seu humor convicto que se ampara toda a narrativa. Todavia, há que se dar, também, o devido crédito ao diretor Jon Favreau que, compreendendo esses aspectos, soube jogar luz ao seu protagonista, dando a ele palco amplo para suas peripécias mesmo que em detrimento de outros coadjuvantes.
No caso de alguém como Will Ferrel é assim que tem de ser: Tão catalizadora é sua presença, tão escancaradamente caricata é sua comédia que não soa apropriado tratar uma protagonista assim como alguém normal –ou mesmo, real –e, para tanto, a trama de “Um Duende Em Nova York” dosa o non-sense com perfeição.
Ferrel é Buddie, uma criança humana que, ainda bebê, encontrou inadvertidamente no saco do Papai Noel na noite de Natal (!), e terminou indo parar no Pólo Norte onde foi adotado por elfos.
Anos depois, apesar de sua desproporção evidente para com os demais, o ingênuo Buddie, mesmo adulto, ainda não se deu conta de que foi adotado (!).
Ao descobrir o fato, seu impulso é o de natural conhecer seu genitor –cuja pista ele tem uma foto –e que o próprio Papai Noel já informou que se encontra na lista dos ‘meninos maus’.
Seu pai é, na verdade, o empresário Walter (James Caan, sempre ótimo), para quem a ambição pesa muito mais que o altruísmo –e nota-se aí, na dinâmica pai e filho que se estabelece, a similaridade que o roteiro espertamente encontra com o clássico “Um Conto de Natal”, de Charles Dickens; o personagem do pai é, sob diversos ângulos, um réplica, portanto, de Ebenezer Scrooge e, como tal, terá seu cinismo e seu materialismo transfigurados ao longo da história, na descoberta de seu próprio espírito natalino e, aqui, de sua proximidade com o filho.
Sem pressa para percorrer esse arco nítido, e até previsível, mas não menos envolvente e válido, a direção de Jon Favreau aproveita para se esbaldar com o que o filme tem de mais original: Seu protagonista irreprimível, que Will Ferrel transforma num elemento desestabilizador em cada uma das cenas, em cada encontro com um novo personagem, como a jovem que potencialmente será seu interesse romântico (Zooey Deschanel); ou a madrasta que consegue ser mais terna e benevolente que o próprio pai (Mary Steenburgen).
Uma singela produção natalina e, ao mesmo tempo, um veículo para o estrelato do genial cômico Will Ferrel –ainda que seu humor seja com frequência peculiar –este filme beneficiou todos os envolvidos com um expressivo sucesso de bilheteria, o que possibilitou ao diretor Jon Favreau, mais tarde, assumir as rédeas da aventura “Zathura” (a tardia continuação de “Jumanji”) e em seguida de um projeto intitulado “Homem de Ferro”.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Elvis & Anabelle - O Despertar de Um Amor


Talvez o dado mais notável de “Elvis & Anabelle” seja seu diretor de fotografia: O veterano, premiado e hoje já falecido Conrad Hall (que venceu o Oscar da categoria por “Beleza Americana”, entre outras ocasiões).
Realmente, mais do que seu roteiro abarrotado de situações forçosamente disfuncionais para um romance entre indivíduos incompatíveis; mais do que sua condução algo desanimada do diretor Will Geiger (que é também o roteirista), é a direção de fotografia, sempre construindo imagens sedutoras e encontrando os enquadramentos mais envolventes, que consegue extrair o máximo de potencial da narrativa.
Elvis Moreau (o jovem Max Minghella, filho do diretor Anthony Minghella, de “O Paciente Inglês”) é um jovem taciturno, anti-social e solitário. Mesmo as circunstâncias que o fazem ser assim não fogem muito do clichê: Ele mora e trabalha numa casa funerária, embalsamando com perícia obsessiva os cadáveres no lugar do pai já debilitado fisicamente (vivido de forma comovente por Joe Mantegna que havia tempos não dava as caras nas telas).
A outra ponta do inevitável par romântico da história é Anabelle Leigh (Blake Lively, na época em que ainda fazia o seriado “Gossip Girl”) cuja caracterização também tem lá sua própria dose de clichê: Anabelle é linda e, para tanto, frequenta concursos de beleza que a tornam popular na cidade e preenchem de orgulho sua mãe (Mary Steenburgen, muito bonita), outrora também uma miss.
Mas... ei! Anabelle se ressente dessa vida! Isso não a faz feliz.
Não que ela ou Elvis façam muito esforço para mudarem suas rotinas.
O que ameaça levar suas vidas a uma transformação é, na verdade, um acontecimento bastante arbitrário e até desonesto do roteiro: Na noite em que é coroada como vencedora do concurso Miss Texas, Anabelle cai morta (!).
Ou, pelo menos, é o que parece: Levada à funerária onde Elvis trabalha para que seja embalsamada, ela subitamente desperta –do que aparentemente foi um caso extremamente raro registrado pela ciência (em cujas explicações o filme tem pouquíssima intenção de se demorar).
O marasmo periga se abater sobre a narrativa novamente –um perigo que ronda o filme o tempo todo –até que sem razões muito claras, Anabelle resolve fugir de casa e ficar morando com Elvis e seu pai, tornando tudo, além de enfadonho, previsível.
“Elvis & Anabelle” é aquilo que parece: Um romance entre o jovem introspectivo e sisudo e a garota popular e inalcançável que as artimanhas da narrativa a farão ‘alcançável’, para então, lá pelas tantas, inventar um pretexto muito do mal explicado para eles tornarem a se afastar. Ainda que o roteiro e a direção façam malabarismos para não parecer que é bem isso –e mesmo nessa tentativa, ele falha!
Dessa forma, seu maior mérito –a direção de fotografia de Conrad Hall –acaba gerando um efeito colateral: Dono de imagens bem concebidas e com frequência encantadoras (ainda mais quando Blake Lively está em cena), o filme acaba atraindo o expectador por um suposto primor que no final das contas ele não tem.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador


Uma prova do quão tardio foi o Oscar de Melhor Ator vencido por Leonardo Dicaprio por “O Regresso” é sua atuação neste “Gilbert Grape-Aprendiz de Sonhador” que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar, como Melhor Ator Coadjuvante, aos quatorze anos –um trabalho surpreendente e inquestionavelmente digno do prêmio.
No papel do personagem-título, por sua vez, Johnny depp ostenta aquele carisma alternativo que fez dele um astro tão incomum nos anos 1990.
Gilbert vive numa cidadezinha chamada Endora capturada numa percepção tão intrínseca dos pormenores americanos que chega a surpreender o fato de que este é só o segundo filme feito pelo diretor sueco Lasse Halstrom nos EUA (o primeiro foi “Meu Querido Intruso”).
A família de Gilbert é uma coleção de figuras tão bizarras quanto deprimentes: Além de Arnie (Dicaprio) seu irmão deficiente mental, há também sua mãe (a inacreditável e comovente Darlene Cates) que uma série de desilusões transformou numa mulher tão obesa que sequer consegue (ou quer...) sair de dentro de casa. Sua irmã mais velha (Mary Kate Schellhardt) vive para cozinhar indefinidamente para ela, e sua irmã mais nova (Laura Harrington), na agressividade hormonal da adolescência, encena todos os clichês da apatia.
Gilbert tem relativa consciência de estar cercado por mediocridade por todos os lados, e disso não consegue escapar. Tem um caso desengonçado e nada frutífero com uma mulher casada (Mary Steenburgen, surpreendentemente sensual) e seus dois amigos (John C. Reilly e Crispin Glover) sonham cada qual em obter trabalho em uma rede de fast-food (melhor isso que os serviços redundantes a disposição) e com novas mortes entre os cidadãos (esse é funcionário na única e desolada funerária local).
O contraponto a essa falta de perspectiva do protagonista parece ser o relacionamento que aos poucos ele constrói com uma jovem forasteira (Juliette Lewis) que surge na cidade.
Mesmo isso, contudo, tem seus dias contados –seu romance só irá durar até que a avó dela encontre a peça defeituosa que fez seu trailer enguiçar para então seguir viagem.
“Gilbert Grape” nesse leque de frivolidade da vida contidiana fala sobre impressões tão universais quanto singulares; contrapõe a vergonha de Gilbert pela figura folclórica da mãe com seus esforços –quase convertidos em sacrifício –para ser um bom filho; e observa sua perplexidade contida pelo cenário idílico que o aprisiona.
Tão dispersas e volúveis parecem as temáticas do filme que se torna difícil palpitar sobre o quê Halstrom quer falar com exatidão; ele captura a rotina e os pequenos dramas familiares de Gilbert enumerando-os numa narrativa sedutora apesar de aparentar não levá-la a algum lugar –ainda que seu desfecho tenha uma concisão que amarra maravilhosamente bem os aspectos de sua premissa.
Ainda assim, é essa característica –a de ser notável, interessante e envolvente mesmo diante de imensa banalidade que ocupa seu cerne –o grande mérito deste filme.

sábado, 19 de maio de 2018

Os Vencedores do Oscar 1981

Ao observar as retrospectivas do Oscar, percebo que tenho uma tendência quase inconsciente de discordar da Academia. E a cerimônia de 1981 não é exceção: Em meio a tantos ótimos trabalhos (o drama de época “Tess”, de Roman Polanski; o notável “O Homem Elefante”, de David Lynch, e especialmente “Touro Indomável”, de Scorsese, que ao menos ficou com os prêmios de Melhor Ator, para Robert De Niro, e Melhor Montagem) foram premiar logo o filme de Robert Redford? Não que “Gente Como A Gente” seja uma obra ruim, mas ela se torna visivelmente tímida e pálida diante de seus magníficos concorrentes.
Na categoria de Melhor Atriz, Sissy Spacek arrebatou o prêmio com seu versátil trabalho em “O Destino Mudou Sua Vida”, derrotando concorrentes queridas do público como Gena Rowlands, por “Glória”, e Goldie Hawn, por “A Recruta Benjamin” –você não sabia que ela concorreu ao Oscar por este filme?!
Na categoria de Ator Coadjuvante, uma pequena injustiça, digamos assim: O jovem Timothy Hutton venceu o prêmio por “Gente Como A Gente”, sendo que ele é o personagem principal do filme (claro que na categoria principal, ele provavelmente jamais iria superar De Niro) tirando o prêmio de grandes atores como Joe Pesci (“Touro Indomável”), Jason Robards (“Melvin & Howard”) ou Michael O’ Keefe (“O Grande Santini-O Dom da Fúria”).
Ao menos, na categoria de Atriz Coadjuvante não houve discussão: Não havia como negar o prêmio à maravilhosa Mary Steenburgen, por “Melvin & Howard”.

MELHOR FILME
"Gente Como A Gente"

MELHOR DIREÇÃO
"Gente Como A Gente", Robert Redford

MELHOR ATRIZ
Sissy Spacek, "O Destino Mudou Sua Vida"

MELHOR ATOR
Robert De Niro, "Touro Indomável"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mary Steenburgen, "Melvin & Howard"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Timothy Hutton, "Gente Como A Gente"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Tess"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Moscou Não Acredita Em Lágrimas" (União Soviética)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR FIGURINO
"Tess"

MELHOR SOM
"Star Wars-Episódio 5-O Império Contra-Ataca"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Tess"

MELHOR TRILHA SONORA
“Fama"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Fame", de "Fama"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Melvin & Howard"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Gente Como A Gente"

MELHOR MONTAGEM
"Touro Indomável"

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Um Século Em 43 Minutos

Das mais inventivas ficções científicas feitas no fim dos anos 1970, este “Um Século em 43 Minutos” é uma rara oportunidade de conferir o ator Malcolm McDowell interpretando um herói (e ele não leva jeito pra coisa, ficando muito melhor em papéis corrosivos e venais como o rebelde submetido à experimentos de “Laranja Mecânica” e o déspota pervertido de “Calígula”), neste caso, o ilustre escritor, cientista e inventor H.G. Wells (!).
A trama é um delírio só, colocando Wells –e uma porção de referências às suas obras –contra ninguém menos que Jack, O Estripador (papel vivido por David Warner).
Tudo começa na Inglaterra vitoriana, obscurecida pelo temor popular provocado pelos crimes perpetrados por Jack, O Estripador, crimes estes que jamais foram solucionados.
A identidade de Jack, por sinal (mistério presente em praticamente todos os filmes feitos a respeito dele), é o que menos preocupa os realizadores: Eles revelam logo de cara quem supostamente ele foi, quando flagramos o personagem John Leslie Stevenson (Warner) indo à uma reunião de aristocratas logo após seu último crime.
A reunião envolve entre outros, H.G. Wells que apresenta aos convidados sua mais nova invenção, um aparelho ainda não testado capaz de viajar no tempo –feita à imagem e semelhança do aparelho visto em “A Máquina do Tempo”, clássico com Rod Taylor, inspirado num livro de Wells.
Quando Jack, o Estripador foge das autoridades usando a invenção, resta somente à Wells seguí-lo e tentar detê-lo. O Estripador fugiu para um século no futuro –que corresponde ao ano de 1979, época do lançamento do filme –e deu continuidade às suas atrocidades na cidade de São Francisco, onde ficou exposta a criação de Wells. Seriam, portanto, os crimes atribuídos ao Zodíaco os mesmos perpetrados por Jack, o Estripador, agora no presente?
A inventividade dessa premissa nem sempre encontra correspondente na condução do diretor Nicholas Meyer (mais conhecido por “Jornada Nas Estrelas-A Ira de Khan” e por “O Dia Seguinte”) que enfatiza aspectos redundantes na relação do perplexo e inquieto Wells com a jovem e graciosa Amy (Mary Steenburgen que, após este filme, foi casada durante um tempo com McDowell) e um drama desnecessário na sua perseguição ao assassino.
Para uma ficção científica escapista e assumidamente comercial sobrou seriedade e faltou descontração.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Na Época do Ragtime

Dentre os filmes feitos pelo diretor Milos Forman, este aqui se espreme entre a suntuosidade e imponência épica de “Amadeus” e a genialidade artística, bem como o senso de observação carregado de inconformismo de “Um Estranho No Ninho”. É hoje completamente desconhecido, mas digno de ser comparado às obras mais famosas de Forman.
“Ragtime” é uma colcha de retalhos sobre o modo de vida do começo do século XX, adaptando um romance de E.L. Doctorrow, e feito com a ironia e a precisão de um mestre, não lhe faltando, por exemplo, aquele equilíbrio raro em que o diretor obtém uma harmonia fascinante entre o carinho palpável por seus personagens e uma saudável distância do sentimentalismo fácil.
A narrativa paira pelas diversas tramas, deixando-se interessar por um ou outro momento onde é flagrado um instante de graça, um acontecimento mais dramático, ou outro de vibração mais tensa, e então, tornando a descortinar outra trama, e assim sucessivamente, elaborando um emaranhado delicioso de pequenas e espirituosas histórias.
Há o casal de alta classe que encontra um bebê deixado à porta da casa, esse casal –cujo núcleo de personagens nunca ganha nome na narrativa –é interpretado por James Olson e Mary Steenburgen, cujo irmão dela (Brad Dourif) encontra, ao acaso, uma atriz de filmes mudos, a exuberante e desmiolada Evelyn Nesbit (Elizabeth McGovern, de “Era Uma Vez Na América” que, por este trabalho, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante). Há também o imigrante judeu Delmas (Pat O’ Brien), recém-chegado à Nova York, sem dinheiro no bolso, mas disposto a fazer valer o sonho americano.
E o pianista negro Coalhouse Walker (Howard Rollins Jr. também indicado ao Oscar de Coadjuvante), vítima de uma revoltante injustiça. A partir desse ponto (quase na metade de sua duração), a condução de Forman parece então encontrar na história de Walker uma trama forte e relevante a qual pode eleger principal diante de todas as outras, e a narrativa ganha em força, denúncia social e tensão aquilo que ela tinha de sobra em graciosidade e divertimento.

Um filme extasiante dirigido com primor, escrito com talentosa minúcia e interpretado por um elenco homogêneo em sua excelência.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Philadelphia

De grande relevância em meados da década de 1990, o bem calibrado filme de tribunal do diretor Jonathan Demme, sua aguardada produção que sucedeu seu premiadíssimo “O Silêncio dos Inocentes”, teve a honra de ser recebido como a primeira grande produção de Hollywood à falar sobre a AIDS e a trazer um protagonista homossexual vítima de tal doença –papel que Tom Hanks encara com um fôlego dramático então inédito em sua carreira definida mais por comédias leves.
Um sinal de avanço da parte da indústria em relação às questões prioritárias da sociedade, sem dúvida, mas que também refletia uma lentidão da parte dessa mesma indústria: Entre a descoberta da doença e, por fim, seu registro (e, portanto, reconhecimento) por parte de Hollywood, se passou uma década –antes dele, outros filmes (estes, porém, independentes) que ousaram abordar a situação da AIDS foram o canadense “O Declínio do Império Americano”, de Denis Arckand (cuja trama não abordava a doença diretamente, mas trazia entre seus personagens um homossexual aidético), e o norte-americano “Meu Querido Companheiro”, de Norman René.
Hanks interpreta Andrew Beckett, jovem advogado gay de uma prestigiada firma da Philadelphia que descobre, no auge de sua carreira profissional, ser portador do vírus da AIDS. Logo, suas tentativas em ocultar esse detalhe de seus superiores (eles não sabem que é homossexual e nem que é soro positivo) se tornam inviáveis e ele é demitido.
Agora, Andrew deseja mover um processo contra os homens para quem trabalhou, e o único advogado a assumir sua causa é o relutante Joe Miller (Denzel Washington, sempre magistral), que durante o processo precisa rever também seus próprios preconceitos.
Como o julgamento se estende ao longo de anos, o filme acompanha também a gradativa deterioração física de Andrew acometida pela doença.
Sem qualquer intuito de mascarar o melodrama, o filme carrega todas as fraquezas que se espera de uma produção de estúdio ao abordar um tema difícil e complexo; é demagógico em seu registro da homossexualidade; gratuito em sua intenção velada de chocar; e unilateral na sua construção de personagens.
A despeito dessa relativa falta de vigor dramático, a condução minuciosa e tecnicamente exemplar do diretor Demme é hábil em desviar a atenção do expectador de seus lapsos, minimizando-os e enaltecendo tudo o que faz o filme realmente funcionar: A capacidade asséptica e real do diretor em construir cenas que emocionam, e o esforço brilhante de um elenco cem por cento eficaz, onde se destacam as atuações de Denzel Washington e Tom Hanks (que ganhou, por este filme, o primeiro dos dois Oscars consecutivos de Melhor Ator que recebeu).

sábado, 19 de agosto de 2017

Última Viagem A Vegas

Um filme que reúne Morgan Freeman, Kevin Kline, Robert De Niro e Michael Douglas, além de Mary Steenburgen não deve ser jamais subestimado, ainda que seja tendência, sobretudo da crítica, subestimar tudo o que o diretor Jon Turteltaub (de filmes insípidos e inofensivos como a comédia romântica “Enquanto Você Dormia”, o drama “Fenômeno” e a aventura com Nicolas Cage “A Lenda do Tesouro Perdido”) acabe fazendo.
Ele alcança aqui um objetivo bem gracioso (ainda que longe de ser memorável) que deve satisfazer plenamente o público, embora certamente esse mérito não pertença a ele.
A trama fala sobre o reencontro de um grupo de amigos, inseparáveis na juventude, mas que, passados cinqüenta e oito anos, estão envelhecidos e dispersos. Há Sam (Kevin Kline, talvez o melhor em cena) que reage com o máximo de bom-humor possível –ainda que temperado de alguma amargura –ao fato de precisar ir com mais freqüência do que gostaria às clínicas, consultórios e hospitais; já Archie (Morgan Freeman, divertidíssimo), por sua vez, mal sai de casa sempre sob a vigilância neurótica preocupada e opressora do filho; e Paddy (Robert De Niro com uma imutável cara de rabugento) que, desde a viuvez, mantém-se enclausurado e sozinho em seu apartamento, evitando até mesmo a solidariedade das vizinhas. Há algum tempo sem se ver, eles são reunidos por Billy (Michael Douglas) o mais em visível crise de meia idade de todos que vai se casar com uma deliciosa jovem de trinta e dois anos (e tal fato serve de motivo para constante chacota dos outros) e deseja realizar uma despedida de solteiro fenomenal ao lado de todos eles em Las Vegas.
Uma vez lá a idéia é reviver, na medida do possível, a glória das farras de juventude e aproveitar a diversão (e as mulheres, as bebidas, as músicas) que a cidade de neon tem a oferecer. É claro que eventualmente, eles vão se deparar com suas inevitáveis limitações, com o fato de que o mundo mudou (e ficou mais cínico, mais desrespeitoso) desde que deixaram as festas para trás, e com circunstâncias que colocarão em teste sua própria amizade.
Não faltará também uma formosa cantora de palco (vivida com charme incontornável por Mary Steenburgen) que balançará as convicções de Billy com relação ao seu vindouro casamento e cuja afeição ele disputará com Paddy; uma situação que remete à um triângulo amoroso que ambos viveram na juventude.
É um argumento simples –e simples se mantém até o fim, com as mesmas guinadas previsíveis em seu humor e em seu drama –mas que serve ao propósito de colocar esses sensacionais atores lado a lado em situações que eles e sua verve de grandes intérpretes se encarregam de tornarem deliciosas.
Uma receita que não havia muito como dar errado.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quase Irmãos

Não deixa de ser uma travessura do time de comediantes liderados por Judd Apatow (produtor do filme) este escracho protagonizado por Will Ferrel –ator cujos filmes fazem mais sucesso nos EUA, do que aqui no Brasil, certamente em função do seu humor muito característico e norte-americano.
Curioso notar que este é um trabalho de Adam McKay (que com Ferrel fez também o cultuado “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy”), antes de suas indicações ao Oscar por um filme, também de comédia, mas que revelava uma relevância impar assim como uma conscientização da atualidade que um trabalho como este jamais levaria a supor, o extraordinário “A Grande Aposta”.
Aqui, a idéia aparentemente é levar o conceito de caricatura à níveis extremos. Pois é, afinal de contas, uma caricatura o personagem Brennan, vivido por Will Ferrel que, do alto de seus quarenta anos de idade, ainda vive com a mãe, Nancy (a ainda muito bonita Mary Steenburgen). O mesmo calha de acontecer com Dale (John C. Reilly, perfeito contraponto de Ferrel), filho quarentão e infantil que ainda mora com Robert (Richard Jenkins), seu pai.
Do romance que brota do encontro entre pai de um e mãe do outro, surge a situação que coloca ambos como meio-irmãos e morando debaixo do mesmo teto.
À previsível indisposição inicial, logo se segue uma forte identificação (ocasionada pela birra em comum com o irmão mais novo de Brennan, interpretado de maneira bizarra por Adam Scott) o quê só deflagra ainda mais confusões: Dois homens inconseqüentes e imaturos, afinal, fazem o dobro de bagunça do que um só.
O diretor e roteirista McKay, no entanto, friza esses acontecimentos com ênfase num humor esculachado e adolescente, reflexo do comportamento dos protagonistas, que em nada busca atender a realidade. Deveras, não há qualquer intenção de um registro real, por exemplo, nos lampejos ninfomaníacos da cunhada de Brennan (Kathryn Hahn) para cima do desajeitado e indiferente Dale –e isso é proposital, tornando necessário que se entre no espírito para apreciar o filme.
Talvez, o grande problema seja que nem todos os atores se saiam bem com tal tipo de humor. Se Ferrel e Reilly abraçam por completo o ridículo (até mesmo grotesco) de sua situação, o mesmo não parece ocorrer com naturalidade em Kathryn Hahn ou em Adam Scott. No caso dos pais, o habitualmente ótimo Richard Jenkins nem sempre encontra em algumas cenas a serenidade ideal para reagir às presepadas dos personagens principais; por sua vez, Mary Steenburgen, mesmo que longe de qualquer rompante cômico, parece interpretar a única personagem capaz de preservar alguma coerência ao longo de todo o filme.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra

Assim como “O Casal Osterman”, de Sam Peckinpah, e “A Tocha de Zen”, de King Hu, este "Parenthood" é um daqueles casos de títulos nacionais equivocados que não dão a menor idéia do que será de fato a produção em si. Pior: Seu título sugere uma comédia rasgada e pastelão –impressão potencializada pela presença de Steve Martin –que o filme, no fim das contas, não é. O quê deve ter frustrado muitos expectadores mal informados que lhe foram conferir.
O trabalho do diretor Ron Howard (ainda nos anos 1980, antes da consagração com “Apollo 13” e “Uma Mente Brilhante”), contudo, é cheio de sutileza e inteligência, daquelas raras comédias agridoces que apelam à maturidade do público.
A começar pela estrutura do roteiro que compartilha a trama entre diversos personagens, todos membros de uma mesma família, os Buckman.
O protagonista, Gil (Steve Martin, admiravelmente contido), guarda um leve ressentimento da educação algo rude recebida de seu pai (o sensacional Jason Robards), e almeja uma proximidade de seus três filhos pequenos muito maior do que a que ele teve. Tudo, entretanto, atrapalha. Sejam as exigências profissionais, sejam as próprias crianças e seus eventuais problemas escolares e de adequação, o que leva Gil e sua esposa Karen (a cativante Mary Steenburgen) a questionar seus desempenhos como pais.
Do lado da irmã de Gil, Helen (Dianne Wiest, ótima) as coisas não estão muito mais simples: Divorciada, ela se vê perplexa –e, na maioria das vezes, sem saber o quê fazer –com o comportamento do filho pré-adolescente Garry (Joaquim Phoenix, ainda bem jovem, aqui assinando ainda como Leaf Phoenix) e as atitudes rebeldes da filha Julie (Martha Plimpton) que cismou de se envolver com um rapaz desajustado, Tod (Keanu Reeves, na fase “Bill & Ted”).
Já a irmã mais jovem, Susan (a bela Harley Kozak) tem um casamento cada vez mais asséptico com o metódico Nathan (Rick Moranis, apático), uma vez que ele se dedica menos ao relacionamento com a esposa e mais à educação pouco usual da filha pequena dos dois.
O próprio patriarca interpretado por Jason Robards tem lá seus problemas: O caçula Larry (Tom Hulce, de “Amadeus”) retornou para o seio da família e trouxe a tira-colo um filho pequeno que todos desconheciam –e que logo sobra para os avôs cuidarem –assim como diversas dívidas irresponsáveis obtidas em jogatina.
É um panorama feito com carinho das famílias norte-americanas, sempre às voltas com circunstâncias que caminham em direção à disfunção, nesse sentido, ele lembra uma pouco a obra-prima chinesa “As Coisas Simples da Vida”, de Edward Yang.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Melvin e Howard

Eis um filme sensacional! Tão sensacional que é possível perceber, muito antes de sua consagração com “O Silêncio dos Inocentes”, que o diretor Jonathan Demme já era excelente (por sinal, “O Silêncio dos Inocentes” é tão antológico que não notamos o quanto trata-se de um corpo estranho na filmografia de Demme marcada muito mais por comédias pouco usuais como esta daqui).
Partindo de uma inusitada e nebulosa história real, o filme fala sobre o possível encontro entre o pobretão Melvin Dummar (James Le Mat) e o recluso e excêntrico milionário Howard Hugues (Jason Robards que, por uma brevíssima aparição já foi capaz de concorrer ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), numa curiosa e pouco convencional estrutura de roteiro –em um filme comum, a trama giraria em torno das improváveis e potencialmente cômicas distinções entre personagens opostos, antagônicos até, mas no filme que Jonathan Demme se propôs a dirigir, o foco é, acima de tudo, a realidade: o personagem Howard Hugues, ainda que essencial e ressonante à premissa tem, quando muito, uns dez minutos de cena. Todo o resto da narrativa é dedicada à Melvin, o homem comum que se cruzou sem saber com uma das mais enigmáticas figuras do Século XX e, nesse breve instante, conseguiu gerar nele uma impressão tão marcante e genuína que foi lembrado por Hugues em seu testamento (!).
Até isso acontecer –surpreendentemente perto do fim, quando Demme já subverteu as expectativas de quem foi ver seu filme com base em alguma sinopse enganadora –toda a trama conduzida pelo roteirista Bo Goldman (merecido ganhador do Oscar) irá se concentrar nas condições sempre periclitantes da vida de Melvin, na árdua tentativa de equilibrar a crença inocente no sonho americano com a realidade frustrante que insiste em se expressar por todos os lados, na divertida relação com sua esposa Lynda (a maravilhosa Mary Steenburgeen fazendo valer plenamente seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) que, apesar do amor e da cumplicidade, cede às desilusões da vida e à inconseqüência do próprio Melvin.
Chega a ser uma surpresa ao expectador descobrir que a trama abrange vários anos, envelhecendo os personagens, confrontando-os com aspectos irreversíveis da vida e mostrando que, acima de tudo, apesar do humor afiado extraído, sobretudo, de um elenco hábil, e da graça e galhofa que o diretor Demme consegue extrair, esta é uma história supostamente baseada em fatos reais –o testamento, supostamente escrito a mão por Hugues deixando sua fortuna à Dummar foi aceito por alguns tribunais americanos, porém, rejeitado por tantos outros, levando o caso à uma conclusão indefinida.
Demme, portanto, permite que a realidade acabe interferindo em sua obra, dando a ela textura, razão de ser e ramificações de inúmeras interpretações sociológicas mesmo que isso jamais de sobreponha à diversão: Esta bela e imperfeita trajetória de indivíduos pertencentes à classe média baixa americana (e cuja amarga conclusão é que para sempre à ela irão pertencer) é, sim, uma reafirmação do compromisso de seu diretor com a autenticidade da vida real, mas é também uma comédia brilhante.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

De Volta Para O Futuro - Trilogia

Quem era criança ou adolescente por volta dos anos 1980, dificilmente deixa de incluir “De Volta Para O Futuro” –senão todos os três filmes, ao menos, o primeiro e mais sensacional deles –em sua lista de melhores filmes.
É uma daquelas obras que marcou toda uma geração.
Não à toa, há um apelo irresistível na história do jovem Marty McFly (Michael J. Fox, perfeito), um típico adolescente em pleno ano de 1985 que embarca por acaso numa máquina do tempo travestida de um carro modelo DeLorean, e acaba voltando vinte anos no tempo, em 1965, onde tem um encontro com seu pai (Crispin Glover) e sua mãe (Lea Thompson), então adolescentes como ele, e sem querer coloca em risco sua própria existência futura. Para colocar todas as coisas em seu devido lugar sem mudar o curso da história e ainda conseguir um meio de retornar para sua época ele conta com a ajuda do amalucado inventor da máquina do tempo, Dr. Emmett Brown (Christopher Loyd, impagável).
Produzida por Steven Spielberg e dirigida por Robert Zemeckis, esta inventiva aventura enfrentou inusitados contratempos até ganhar as telas: Seu protagonista, originalmente o ator Eric Stolz foi substituído por Michael J. Fox mesmo já tendo realizado quase metade das cenas; o roteiro era reescrito dia a dia, com as filmagens em curso, havendo um momento em que o formato imaginado para a máquina do tempo era, até mesmo, uma geladeira (!).
Nada disso impediu que o filme obtivesse larga aprovação de público que transformou ele, nos anos seguintes, numa das mais marcantes e queridas referências do cinema para histórias de viagem no tempo.

A idéia de Zemeckis e dos produtores era retomar o segundo filme tão logo foi terminado o primeiro (e no que diz respeito às cenas que intercalam os dois filmes isso realmente foi feito), mas logo após o sucesso do primeiro filme, o diretor Zemeckis foi convidado pelo mesmo produtor, Steven Spielberg, para capitanear um projeto de alto grau de ineditismo no cinema: A arrojada junção de desenho animado e filme chamada “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, o quê promoveu um intervalo de quase cinco anos entre o primeiro e o segundo (embora, eles tenham compensado isso filmando este e o terceiro simultaneamente).
A única baixa decorrente desse ocorrido foi a da bela atriz Claudia Wells, que interpretava a namoradinha do protagonista, e nas seqüências foi substituída por Elizabeth Shue (basta reparar como eles tiveram de refazer toda a cena que encerra “De Volta Para O Futuro 1” e inicia “De Volta Para O Futuro 2” só por causa da troca de atrizes).
Desta vez, Marty McFly, acompanha seu amigo, o Doutor Emmett Brown, numa viagem no tempo, em direção ao futuro. Mas lá, por alguns minutos a máquina do tempo lhes é roubada pelo vilanesco Biff. Quando retornam à sua época presente, o ano de 1985, tudo está transformado numa realidade alternativa onde Biff achou um meio de tornar-se milionário, e arruinou a vida não só da família de Marty, como de toda a cidade. Para corrigir as coisas eles terão de voltar ao ano de 1965, onde tudo parece ter começado. Sobre esta continuação eletrizante e rocambolesca de "De Volta Para O Futuro" uns dirão que é confuso no modo como se relaciona com o filme anterior, outros que é inegavelmente divertido.
Ambos os casos são verdade, embora a descontração contagiante que consegue suscitar no expectador deixe tais detalhes em segundo plano.

Após o final aberto do filme anterior, que deixou a trama praticamente engatilhada para o terceiro filme, lançado poucos meses depois (algo que, por incrível que possa parecer, o cinema comercial norte-americano só ousou fazer novamente em 2003, com as duas continuações de “Matrix”, “Reloaded e Revolutions”), reencontramos Marty McFly ainda preso no ano de 1965. Agora, ele deve encontrar a máquina do tempo e voltar para 1985, mas antes disso precisa voltar na época do Velho Oeste, por volta de 1885, onde seu amigo Emmett Brown se estabeleceu e, ao que tudo indica, está enfrentando problemas, devido à sua inesperada atração por uma graciosa professora (Mary Steenburgen, realmente encantadora), o que o leva a entrar em atrito com o fora-da-lei Mad Dog Morgan (Thomas F. Wilson, que fez também o papel do vilão Biff, nos dois filmes anteriores).
Essa mudança radical de atmosfera e ambientação pode ter contribuído para fazer deste o filme mais fraco da trilogia, ainda assim é uma aventura que esbanja bom humor e criatividade.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Histórias Cruzadas

A história contida no romance de Kathryn Stockett era praticamente um filme pedindo para ser feito, e isso culminou num projeto acarinhado por Hollywood com todo o cuidado do mundo –refletido, por exemplo, na escolha primordial das atrizes, uma das mais luminosas reuniões de talentos do cinema recente.
Para dirigir o filme, a escritora Stockett bateu o pé com a produtora Touchstone Pictures (a divisão de filmes mais adultos da Disney) e exigiu o nome de seu grande amigo Tate Taylor –que pode ser visto trabalhando como ator em “Inverno da Alma”.
Ainda que sem títulos mais vultuosos no currículo, Tate Taylor honrou a confiança nele depositada e entregou um trabalho plural, refinado, emocionante e atento às mais delicadas minúcias empregadas na narrativa múltipla; um trabalho que poderia facilmente resultar irregular e fora de tom, mas que demonstra um equilíbrio notável, inclusive na hábil dinâmica entre o humor e o drama.
Anos 1960. Nutrindo um sonho de tornar-se escritora, a jovem Skeeter (Emma Stone) –nascida e criada no município de Jackson, no Mississipi –decide escrever uma coletânea única; depoimentos reais (cheios de dor e vivacidade) de empregadas domésticas negras que, a exemplo das escravas do passado, recebem o mais inferior dos tratamentos de suas patroas brancas. 
Os principais depoimentos são de Aibeleen (Viola Davis), que cria com amor e dedicação a filhinha de uma obtusa dona de casa, a despeito da pessimista perspectiva de que as filha ficam sempre iguais às mães; e Minny (Octavia Spencer, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), a esperta doméstica de uma mulher racista e maldosa (Bryce Dallas Howard). 
Diante dos obstáculos evidentes (e nem tanto) de uma idéia assim, testemunhar a concretização de tal objetivo acaba sendo uma jornada fantástica.
Mais até do que um filme sobre racismo e sobre a luta pelos direitos civis, este impressionante trabalho de Tate Taylor é uma ode ao caráter, onde as lágrimas por vezes se tornam inevitáveis: Seu maior acerto é deixar sua linda história falar por si, e não fazer nada para desviar a atenção do grande brilho da produção: Suas atrizes maravilhosas. 
É um emotivo e não raro bem-humorado painel de tramas que abrange o sempre pertinente tema do racismo com um dos mais brilhantes elencos femininos já reunidos em filme: Emma Stone está adorável como sempre, Octavia Spencer e Jessica Chastain são geniais cada uma ao seu modo, mas a grande força da narrativa é Viola Davis.
Um filme de tocar o coração.