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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A Morte Lhe Cai Bem


 Dos inúmeros apadrinhados de Steven Spielberg, cujos filmes ele produziu na década de 1980, certamente o melhor deles foi Robert Zemeckis. E, tal e qual seu mentor, Zemeckis sempre soube ousar acrescentando doses inusitadas de dramaticidade, humor negro ou até suspense, nas obras abertamente festivas e comerciais que realizava.

Mais do que um trabalho equilibrado e completo, “A Morte Lhe Cai Bem” representa um esforço em agregar gêneros distintos numa filmografia que, naquele 1992 de então, começava a ficar restrita a um tipo de gênero aos ohos do público: Zemeckis havia feito a “Trilogia De Volta Para O Futuro” e o sucesso “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, praticamente aventuras (ainda que brilhantes) voltadas ao público infanto-juvenil. Vale lembrar que o próprio Spielberg, na mesma época, esforçava-se para livrar dessa mesma pecha, iniciando as filmagens de seu “A Lista de Schindler”.

Causando certo desconcerto ao público já na escolha de seus protagonistas, “A Morte Lhe Cai Bem” une três astros vindos de diferentes vibrações cinematográficas: A consagrada, versátil e magnífica Meryl Streep, o carismático e competente Bruce Willis (normalmente atrelado à filmes de ação) e a divertida e ocasionalmente histriônica Goldie Hawn (normalmente atrelada, por sua vez, à comédias românticas). E “A Morte Lhe Cai Bem” não é um filme de ação, não é uma comédia romântica, e certamente, também não nenhum projeto sério, no qual Meryl Streep costumava ser vista.

Meryl vive Madeline Ashton, vaidosa estrela hollywoodiana pouco a pouco sentindo os primeiros e indesejados efeitos da passagem do tempo (a lembrar um pouco a Norma Desmond de “Crepúsculo dos Deuses”). Casada com Ernest Menville (personagem de Willis), um renomado cirurgião plástico, Madeline vê os avanços, sobre seu cobiçado marido, de Helen Sharp (personagem de Goldie), sua rival da juventude, cujo retorno, de pronto, surpreende à Madeline e à todos: Helen não envelheceu um único dia desde a última vez que se viram. E sua juventude, sua pele impecável e seu corpo todo no lugar chama a atenção de Ernest ressentido não só das futilidades de Madeline como também do visível avanço do tempo sobre sua aparência.

Numa noite em que se descobre particularmente inconsolável, Madeline recebe a dica de uma misteriosa pessoa capaz de ajudá-la, e assim, encontra a feiticeira interpretada por Isabella Rosselini (tão linda e sexy que é de se lamentar que não tenha maior tempo de cena). Em linhas gerais, ela conta à Madeline sua longa trajetória na qual ajudou, no último século (!), algumas atrizes à continuar brilhando na ribalta com sua juventude preservada.

Madeline topa o acordo na mesma hora e, ao provar um elixir, tem sua beleza magicamente restaurada; Não sem uma advertência: “Cuide bem de seu corpo. Você continuará com ele por um bom tempo!”

Na comédia impiedosa de humor negro que realiza, é óbvio que não será isso que o diretor Zemeckis deixará acontecer. Já mancomunado com Helen para livrar-se de Madeline, o Dr. Menville tenta matá-la jogando-a da escada, e eis a grande surpresa: Madeline não pode mais morrer!

Mesmo com seu pescoço quebrado ostentando uma hedionda fratura (a maquiagem é prodigiosa, e os efeitos visuais ganharam o Oscar 1993), Madeline permanece viva (!), o elixir, ao que tudo indica, lhe deu vida eterna, a despeito das intempéries sofridas por seu corpo.

Ao tentar retribuir o ‘favor’ à Helen, dando-lhe um tiro de espingarda no peito (humor negro, lembre-se...),Madeline tem outra revelação: Helen também fez o tal pacto com a feiticeira (o que explica seu retorno jovem e impecável) e, como Madeline, não pode ser morta; a despeito do buraco assombroso que o tiro de espingarda lhe deu (!). Agora, Ernest deve usar de seus conhecimentos cirúrgicos para ajudar Madeline e Helen, lhes preservando a pele, impedindo seu corpo de revelar os efeitos da deterioração, e disfarçando os indícios de suas chagas mortais. Em suma, ele é, para sempre, uma espécie de escravo das duas.

Conduzindo este conto sobre vaidades levadas aos extremos improváveis do sobrenatural, Zemeckis extrai muito de sua reflexão, atmosfera, ritmo e lógica, da pertinente referência à cultuada série “Além da Imaginação” –e tão influente essa série é, dentro da sua orientação criativa, que Robert Zemeckis (ao lado do próprio Steven Spielberg) capitaneou um dos episódios de outra série, “Histórias Maravilhosas”, construída exatamente nos moldes daquela.

Usando e abusando de efeitos visuais na manutenção de seu humor –a visão de Meryl, com seu pescoço desconjuntado, e de Goldie, com uma cratera em seu peito, são incríveis! –“A Morte Lhe Cai Bem” deliberadamente recorre a ecos de Alfred Hitchcock para levar sua premissa divertidamente ácida e despreocupada às últimas consequências. Como cinema, ele não é nada demais (e essa despretensão parece estar em seus objetivos), contudo, certamente ele consegue entreter com sua inusitada trama sobre a imortalidade posta à prova por pura imaturidade de suas protagonistas, e com sua reflexão sobre as imprevistas consequências da combinação catastrófica entre vida eterna e futilidade, também ela, eterna!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Febre de Juventude


 Em meados da década de 1960, o mundo e a cultura pop foram tomados de assaltado por um fenômeno conhecido como os Beatles! Parte daquela geração –e, portanto, conhecedores profundos da euforia e do entusiasmo que caracterizava aqueles jovens –o roteirista Bob Gale, o diretor Robert Zemeckis e o produtor Steven Spielberg tiveram, no final dos anos 1970, a ideia de empregar tal ideia num filme de época que retratava a juventude da década anterior justamente numa vibração que a fazia tão singular; e aos olhos dos expectadores, tão paradoxalmente universal.

“Febre de Juventude” assim sendo relata a histórica apresentação dos Beatles no Ed Sullivan Show, em Nova York, na noite de 9 de fevereiro de 1964, marcando a primeira apresentação do grupo em território norte-americano, tudo isso pelos olhos de seus personagens protagonistas, um grupo de jovens amigos moradores de Nova Jersey.

As garotas Grace (Theresa Saldana) e Rosie (Wendy Jo Seperber) não poderiam ser mais aficcionadas por Beatles –o que faz delas verdadeiras enciclopédias histéricas e ambulantes sobre a banda. Amiga delas, Pam (Nancy Allen, atriz dos primeiros filmes de Brian De Palma) quer valorizar mais o noivado que os ídolos –sem, porém, muita convicção. As três têm uma ideia de como adentrar o Hotel Plaza e chegar até o famoso quarteto: A bordo de uma limusine, único tipo de veículo que não é revistado por policiais. Entra em cena, portanto, o jovem Larry (Marc McClure, o Jimmy Olsen de “Superman-O Filme”), interessado em Grace e que, por conta disso, providencia uma das limusines de aluguel de seu pai para fazer as vontades da garota. Todos eles, mais Janis (Susan Kendall Newman) e o revoltado Tony (Bobby Di Cicco), dois jovens dissonantes que não gostam dos Beatles, seguem rumo à Nova York.

Outros personagens, mais a frente, se somam à eles: O algo esquisitão Richard (Eddie Deezen, de “1941-Uma Guerra Muito Louca”), funcionário do hotel que aquartelou-se clandestinamente num dos apartamentos vagos para poder organizar um meio de encontrar seus ídolos, e o garotinho Peter (Christian Juttner), cujo corte de cabelo aos moldes do grupo –comprido para os padrões conservadores de então –é fonte de desgosto para seu pai (Read Morgan) que, por isso, confiscou suas entradas para o cobiçado show.

Com muito bom humor, a narrativa de Zemeckis explora a histeria divertida das fãs que se aglomeram em frente ao Hotel Plaza e promovem as maiores maluquices justificadas por sua devoção: Como comprar pedaços de lençóis supostamente usados por John, Paul, Ringo e George; gritar a plenos pulmões por qualquer indícios das estrelas (até mesmo por um espanador na janela, confundido com um dos cabeludos!) e tentar penetrar o cerco cerrado da polícia feito ao redor do hotel.

É claro que as protagonistas fazem exatamente isso; e o filme acompanha as idas e vindas farsescas delas, às voltas com as facetas ridículas e absurdas de sua adoração –e Zemeckis, diga-se, vale-se dessa premissa orbital em torno das figuras icônicas da música para brincar com sua presença (ou ausência) o tempo todo; John, Paul, Ringo e George (que, sensatamente não são interpretados por sósias escalados) aparecem em cenas documentais espertamente conectadas à narrativa, ou em elipses que indicam que eles estão ali –personificados, quando muito, por dublês –mas, nunca deixam de conceber ao quarteto de Liverpool uma aura mística. Uma sinergia que, em parte, reflete a graciosidade com a qual Zemeckis promove o desfile de figuras históricas americanas em “Forrest Gump”.

Com o tempo, “Febre de Juventude” em sua nostalgia pulsante e vívida, e sua diversão ingênua e saborosa tornou-se um daqueles clássicos da sessão da tarde, idolatrados por gerações de cinéfilos ocasionais que o assistiram na TV durante os anos 1980 e 90, entretanto, sua característica mais marcante talvez tenha sido a descoberta da sintonia empolgante e produtiva entre seus realizadores, Zemeckis na direção, Gale no roteiro e Spielberg na produção; o resultado disso foi que novos (e ainda melhores) projetos afloraram ao longo dos anos, culminando numa das mais vibrantes realizações da década de 1980, quiçá de todo o cinema: O brilhante “De Volta Para O Futuro”.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Os Espíritos

O próprio Peter Jackson é o primeiro a admitir que “Os Espíritos” representa um importante papel transitório em sua carreira, de um cineasta independente recluso aos filmes de terror de baixo orçamento à um diretor aclamado e reconhecido por seu trabalho magistral no épico “O Senhor dos Anéis”.
Lançado em 1995, “Os Espíritos” foi assim sua última experiência no nicho do ‘terrir’ –o terror com altas doses de humor –que pontuou todo o início de sua filmografia; embora seja, na comparação com obras como “Trash-Náusea Total” e “Fome Animal” uma produção de escopo mais considerável.
Quem tem, portanto, o mérito de primeiro ter percebido o talento do diretor neo-zelandês e lhe dado uma oportunidade mais vultuosa –orçamento com direito a mais variedade de efeitos visuais (numa época ainda embrionária do advento dos efeitos computadorizados), elenco com pelo menos um astro hollywoodiano (Michael J. Fox) –é o também diretor Robert Zemeckis, que aqui assumiu a produção e fez deste projeto um reencontro indireto com o astro de seu “De Volta Para O Futuro”.
Michael J. Fox vive Frank Bannister, o herói –ou, talvez, o anti-herói –que, no roteiro rocambolesco bolado por Jackson e sua esposa Fran Wlash, é uma espécie de médium decadente; ele vai a sistemáticos enterros para oferecer seus serviços como vidente.
Contudo, engana-se quem pensa que Frank é um charlatão: Ele tem, sim, o dom de comunicar-se com os mortos (habilidade adquirida após o traumático assassinato da esposa, crime que ficou sem solução desde então), porém, ele usa tal dom de forma torpe; três fantasmas que ficaram ‘amigos’ seus, Cyrus (Chi McBride, de “O Terminal”), Stuart (Jim Fyfe) e o Juiz (John Astin, pai de Sean Astin) aprontam das suas em lugares previamente combinados, para então Frank aparecer, resolver o problema e ganhar sua grana.
É isso o que acontece, por exemplo, na casa de Lucy Lynskey (Trini Alvarado, de “Tudo Por Um Sonho”), na qual a cerca de seu marido, Ray (Peter Dobson), foi atingida pelo carro de Frank num acidente: Frank despacha os fantasmas para tocar o coreto, depois aparece oferecendo sua ajuda como compensação pela cerca quebrada.
Contudo, já ali, na casa de Lucy, Frank tem um indício da vindoura encrenca na qual se envolverá: No testa de Ray, surge inscrito um número que ninguém, exceto Frank, vê.
Com efeito, Ray aparece morto pouco depois, e Frank passa a enxergar o número em outras pessoas. O seu problema é que, em vez dessas circunstâncias levarem-no à solução dos assassinatos, elas o tornam o suspeito Nº 1 deles aos olhos do transtornado agente do FBI Milton Dammers (Jeffrey Combs, de “Re-Animator”), uma figura entre o patético e o ameaçador, oriunda de um tipo muito específico de humor praticado por Jackson e sua equipe.
Na verdade, todo o filme caminha numa linha de gênero indefinível: Ele tem uma premissa de terror que lhe orienta do início ao fim, com aparições assumidamente pavorosas, e momentos de incontida sanguinolência, ao mesmo tempo que se mostra cômico e divertido em inúmeras ocasiões –aspecto reiterado ainda pela presença sempre carismática do ótimo Michael J. Fox e de graciosas referências cinematográficas (“Nascido Para Matar”. “O Exorcista”) –além de contar com uma música à cargo de Danny Elfman que, a exemplo de seus trabalhos ao lado de Tim Burton, enfatiza o sarcasmo e o humor negro presente no material.
No entanto, certamente o que mais se destaca na execução do “Os Espíritos” é notar a forma comprometida e disposta com a qual Peter Jackson mergulha no manejo dos efeitos visuais, algo então pouco predominante em suas realizações, e o faz moldando cenas que, se não são um primor de acabamento, são bem indicativas de uma predisposição criativa para conceber sequência cheias de inteligência e inventividade. Jackson conta que o volume (inédito para seus padrões) de computadores exigido pelo filme durante a sua pós-produção o levou a planejar um projeto seguinte no qual pudesse dar uso para tantos computadores; logo, um filme de fantasia, com vários efeitos especiais.
Foi o começo de um caminho que o levaria a “O Senhor dos Anéis”, e inscreveria o nome de Peter Jackson na História do Cinema.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A Lenda de Beowulf

Depois do passo inicial dado pelo diretor Robert Zemeckis na confecção de um longa-metragem totalmente gerado a partir da tecnologia da captura de performance (resultando no natalino “O Expresso Polar”), o seu projeto seguinte nessa mesma esteira pareceu bem mais ambicioso: Elaborar o que seria a tradução cinematográfica definitiva para o poema épico sobre a lenda de Beowulf e Grendel –já adaptada em inúmeros filmes obscuros e, em geral, de qualidade B.
Soava promissor: Quais maluquices Zemeckis não seria capaz de engendrar na história uma vez que a captura de performance (como “Expresso Polar” deixou bem claro) prescindia de qualquer limitação humana?
Para amplificar ainda mais a expectativa do público, os roteiristas do projeto eram o quadrinista Neil Gaiman e o premiado Roger Avary (de nada menos que “Pulp Fiction-Tempo de Violência” e “Regras da Atração”).
Beowulf (vivido por Ray Winstone, com sua versão digital consideravelmente rejuvenescida) é um cavaleiro que singra a Europa do Século VIII no objetivo de criar uma fama quase mitológica para si mesmo, difundindo suas próprias histórias (algumas providencialmente exageradas de como venceu diversos monstros).
Nessa espécie de busca, Beowulf chega onde parece ser o objetivo para o qual foi talhado: Na Ilha de Sjaelland, próxima à cidade de Roskilde, na Dinamarca, ele tem conhecimento do temor experimentado pelo rei Hrothgar (Anthony Hopkins) e seu povoado, afrontados quase todas as noites por um monstro implacável conhecido como Grendel –no registro de inesperada humanização promovido pela percepção desigual dos roteiristas, Grendel, no entanto, não prima por ser ameaçador: Em seus momentos solitários, ele é mostrado padecendo de uma dor insuportável uma vez que sua sensível audição o torna selvagem ao menor barulho de festejos do local.
Quando o embate tão acalentado pela narrativa entre o cavaleiro e o monstro por fim acontece –pouco antes da primeira metade se encerrar –não é exatamente por Beowulf que o expectador torce; as opções estilísticas com as quais a trama é contada tanto enfatizam a vaidade arrogante e presunçosa de Beowulf como as características humanamente sofredoras de Grendel (que a propósito é interpretado com todos os cacoetes histriônicos por Crispin Glover).
Mortalmente dilacerado em sua luta com Beowulf, Grendel busca refúgio nas cavernas longíquas que lhe servem de casa, onde uma criatura de poder e maldade milenar responde a ele como sua mãe.
Depois que ele morre, a represália dela é macabra: Na noite em que os aldeões comemoram a destruição de Grendel, vários de seus moradores amanhecem trucidados e enforcados no salão de festas local.
Com o trono de Sjaelland como prêmio, e tendo a relíquia conhecida como Chifre de Ouro como garantia disso, Beowulf encara sozinho a erma jornada até a morada de Grendel disposto a dar cabo em definitivo de sua lendária mãe. Porém, o cavaleiro tem uma inesperada surpresa: A mãe de Grendel (chame-mos-na de Criatura) não é exatamente um monstro, ou um demônio, ou qualquer ser tenebroso que ele estivesse esperando; a Criatura se revela um ser sobrenatural, sim, e certamente perigoso, porém, nas formas sedutoras da atriz Angelina Jolie –que a captura de performance recria com perfeição facial e corporal em cena (inclusive com direito a uma reveladora nudez!).
 Ela seduz Beowulf fazendo com ele um acordo; ele lhe dá um filho (em troca de Grendel, aquele que dela tirou) assim como o Chifre de Ouro, e ela, por meio de seus poderes dá a ele força e vitalidade eternas –o que deixa subentendido que a Criatura outrora fez o mesmo acordo com o rei Hrothgar, e que Grendel seria então seu filho.
Os anos se passam com Beowulf, após o suicídio de Hrothgar, ocupando o posto de rei e desposando a mulher dele, a rainha Wealtheow (Robin Wright). Todavia, se antes Beowulf tinha contentamento e sede de vida, agora, ele ostenta um semblante amargo, resignado; se antes (quando Hrothgar ainda era o rei), seu desejo por Wealtheow era ardente, agora, a presença dela o constrange, em grande parte, porque Wealtheow dirige a ele o mesmo olhar de decepção que antes dirigia à Hrothgar.
Quando um jovem cavaleiro, quase inadvertidamente, encontra e rouba o Chifre de Ouro da caverna da Criatura, ela e Beowulf novamente entram em rota de colisão; afinal, com a relíquia roubada –e entregue nas mãos de Beowulf –a trégua está também rompida, e por conta disso, Beowulf terá de enfrentar o seu próprio filho com a Criatura (um transmorfo capaz de assumir a forma de dragão) a fim de proteger seu reino.
Essas tintas adultas que conferem um teor sombrio e fatalista à “Lenda de Beowulf” infelizmente não se refletem em acréscimos qualitativos ao resultado final; a sensação mais imediatamente perceptível é a do tremendo prejuízo que isso acarreta à empatia do protagonista e de sua conexão com o público –e está aí, o pequeno detalhe que compromete toda a bela carpintaria narrativa e o impecável aparato técnico e visual do filme: Todas as suas qualidades estão a serviço de um herói que não consegue despertar simpatia no expectador.
Comentários em torno do fato da captura de performance ser uma tecnologia que rapidamente se torna ultrapassada são assim redundantes (nesse sentido “O Expresso Polar” envelheceu, mas não perdeu seu encanto); seu grande pecado é justamente falhar na ausência de calor humano.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Vôo


Reconstituído com mais minúcia e fidelidade em “Sully-O Herói do Rio Hudson” (dirigido por Clint Eastwood, com Tom Hanks), o episódio em que a habilidade do veterano piloto salvou as vidas dos passageiros de um Boeing serviu de inspiração para este filme de Robert Zemeckis, lançado uns anos antes, onde ele regressou às narrativas mais realistas depois de quase uma década fazendo experiências em animações com captura de performance.
Aproveitando brilhantemente o fato de ser uma obra de ficção –e com esse expediente usar de suas ferramentas para surpreender o público –e basear-se apenas por alto no episódio real, “O Vôo” oferece, acima de tudo, uma oportunidade e tanto para Denzel Washington mostrar sua capacidade na plenitude de seu talento.
Ele é Whip Whitaker, um piloto já tão habituado ao seu compulsivo alcoolismo que tal vício lhe serve mais para ser socialmente desenvolto e profissionalmente destemido.
No acidente aéreo que ocupa os quinze minutos iniciais do filme –e que Robert Zemeckis elabora com virtuosismo acachapante –o vício etílico de Whip não surge como um problema, e nem o impede de fazer um pouso milagroso num campo aberto, salvando muitos passageiros quando todos podiam ter morrido.
Na verdade, se revela um problema mais tarde: Quando as investigações protocolares se iniciam, e a necessidade de um bode expiatório paira sobre corporações preocupadas como a construtora do avião, o alcoolismo de Whip, até então despercebido, ameaça torná-lo um alvo de severa punição. E alguns aliados como o amigo e consultor de vôo Charlie Anderson (Bruce Greenwood) e o relutante advogado Hugh Lang (Don Cheaddle) farão o possível para que os indícios do vício de Whip passem batidos no julgamento, a despeito do fato desconcertante de que o próprio Whip parece afundar cada vez mais nesse lamaçal.
Muito mais bem resolvido cinematograficamente, e bastante superior em termos de narrativa e realização do que “A Travessia”, o filme seguinte de Zemeckis, “O Vôo” talvez goze de tal posição em sua filmografia justamente por contar como seu ponto alto o fator humano (não somente Washington está magistral como também estão a linda Kelly Reilly, de “Sra. Henderson Apresenta”, e o grande John Goodman) na obra de um cineasta reconhecido pela atenção às vezes excessiva que ele dá às facetas técnicas de suas produções.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O Expresso Polar

Já tendo um Oscar debaixo do braço (por “Forrest Gump”) e feito, anos depois, pelo menos dois filmes bastante superiores ao seu consagrado trabalho (“Contato” e “Náufrago”), o diretor Robert Zemeckis parecia não ter mais nada a provar nem a si mesmo, nem a ninguém mais; deixou então que sua carreira entrasse numa espécie de ‘fase experimental’ onde explorou –por meio de alguns longas animados de qualidade claudicante –os limites da computação gráfica em substituição à encenação humana.
O primeiro –e talvez até hoje, melhor –filme dessa fase foi o natalino “Expresso Polar”, no qual Zemeckis contava com Tom Hanks, dublando e personificando pelos quatro dos personagens do filme, incluindo o cobrador do trem (que, de fato, tem suas feições recriadas), o fantasma descrente e o Papai Noel.
O livro de Chris Van Allsburg no qual se baseia, realmente era de uma linguagem cuja transição para cinema não seria satisfatória com uma filmagem em termos e condições normais: Zemeckis empregou uma técnica de captura de performance ainda sem arestas aparadas (ainda era a época do lançamento em cinemas de “O Senhor dos Anéis” que trazia o personagem Gollum, uma ressonante inovação nessa área) para materializar na tela as ilustrações da maneira fiel ao tom de gravura que o livro trazia.
É noite da Véspera do Natal quando um garotinho defronta-se com sua própria incredulidade e anseia por uma prova de que o Papai Noel realmente existe. Como ele pode morar no pólo norte (que os livros de ciência afirmam ser inabitável)? Como pode voar num trenó puxado por renas?
Perturbado por essas dúvidas, ele assiste, com desconfiança, a execução dos rituais natalinos domésticos (a meia na lareira, o leite com os biscoitos deixados para o bom velhinho) e vai dormir. Entretanto, durante a noite para sua surpresa, um imenso trem expresso para em frente a sua casa (onde antes sequer havia trilhos!).  E o cobrador o recebe com a promessa de levá-lo, junto de outras crianças, ao pólo norte, suposto lar do famoso velhinho. Ele embarca trajado em seus pijamas, como também estão trajadas de pijamas as inúmeras outras crianças que ocupam o vagão. No curso dessa viagem, ele faz amizades, enfrenta perigos e ainda conhece um fantasma, uma espécie de personificação de todas as suas dúvidas.
No entrecho final, como prometido, o Expresso Polar os levará à morada do Papai Noel, habitada por elfos pequeninos e irrequietos que nunca param de trabalhar, e o garotinho irá encontrar um equilíbrio otimista e tocante entre suas certezas e suas crenças.
Ao valer-se da inovadora técnica da captura de performance –que, nota-se, ainda seria muito aprimorada até funcionar a contento –Robert Zemeckis realiza uma série de seqüências que seriam humanamente impossíveis de serem encenadas, com direitos a números musicais e movimentos/enquadramentos de câmera inacreditáveis.
Tecnicamente, “O Expresso Polar” é uma obra datada, até mesmo pela disposição em ser apenas um passo, em meio a toda uma caminhada, rumo à uma evolução tecnológica constante e exponencial; seu grande apelo, porém –provavelmente o acerto de Zemeckis neste trabalho –é sua mensagem humanista de esperança traduzida com bastante propriedade num filme infantil e enternecedor.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Forrest Gump - O Contador de Histórias

“A vida é como uma caixa de chocolates. Você nunca sabe o que pode encontrar lá dentro.”
Desde sempre um realizador hábil, no sentido de que entregava obras de apelo essencialmente comercial, mas válidas do ponto de vista artístico (e filmes como a trilogia “De Volta Para O Futuro”, “Carros Usados”, “Uma Cilada Para Roger Rabbit” e “A Morte Lhe Cai Bem” estão aí para provar isso), Robert Zemeckis sempre foi o discípulo que melhor espelhou seu mentor, Steven Spielberg.
Foi, portanto, uma manobra providencial do destino que levou Zemeckis a conquistar o Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor exatamente um ano depois de Spielberg o tê-lo feito com “A Lista deSchindler”.
Entretanto, existem diferenças extremas entre “A Lista...” e o filme que consagrou Zemeckis, “Forrest Gump”, inclusive no teor realista que o primeiro ostenta, e que o segundo utiliza de maneira mais maleável.
No fundo, no fundo, “Forrest Gump”, o filme, assim como o livro de Winston Groom que o inspirou, é uma grande brincadeira na qual seu personagem principal, Forrest, um rapaz norte-americano de Q.I. baixo se cruza com várias personalidades históricas do século XX e participa de momentos-chave da história norte-americana.
Após a linda cena que abre o filme –onde a câmera cheia de virtuosismos de Zemeckis acompanha uma pena a pairar no ar –na qual o protagonista, como o sub-título bem sugere, começa a contar sua história, somos assim apresentados à Forrest Gump (Tom Hanks, conseguindo interpretar um idiota com inteligência e sensibilidade) ainda em sua infância, quando sofre de dificuldade para andar, e cresce no estado do Alabama, incentivado pela mãe (Sally Field) a jamais se desanimar com as adversidades da vida.
Movido por um misto de inocência, ignorância e determinação, ele vai, já adulto, lutar na guerra do Vietnam –ao lado do amigo Bubba (Mykelti Williamson) e do irascível e rude Tenente Dan (o excelente Gary Sinise), dois personagens fundamentais em sua trajetória –e retorna condecorado herói. Torna-se, mais tarde, milionário num barco pesqueiro de camarões, vira campeão mundial de ping-pong no Japão e mobiliza multidões de pessoas quando decide cruzar os EUA apenas porque "deu vontade de correr".
Sua prioridade, contudo, ao longo dessa curiosa jornada parece ser sempre voltar para casa e, se possível, para junto de seu grande amor, Jenny (Robin Wright).
Meio remetendo à premissa de poderosa identificação já trabalhada no semi-clássico “Muito Além do Jardim” (onde vemos o cidadão comum e de intelecto limitado prevalecer sobre a elite) mesclada à idéia básica do filme de Woody Allen, “Zelig” (a mostrar seu protagonista indo e vindo em diversas situações onde se cruza com famosas celebridades de seu tempo), o filme de Zemeckis, a rigor, não entregava nada de novo, mas propunha um passatempo em forma de fábula divertidíssimo, bem contado e bem executado que capturou o coração do público e emocionou os críticos.
E isso, para a Academia de Artes Cinematográficas, foi mais que suficiente.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Náufrago

Embora tenham levado seus prêmios Oscars por “Forrest Gump-O Contador de Histórias”, para muitos o melhor trabalho que o diretor Robert Zemeckis e o astro Tom Hanks entregaram juntos foi “Náufrago”. E o filme, em uma revisão, faz jus a essa expectativa revelando que o tempo não interferiu na qualidade refinada de seu roteiro e, em especial, na atuação surpreendente em termos físicos e expressivos de Tom Hanks.
Para dar realismo ao aspecto de seu personagem –que passa quatro anos isolado em uma ilha deserta –Hanks e a produção embarcaram numa idéia audaciosa: As filmagens tiveram um intervalo de exatamente um ano (!) para que o ator pudesse emagrecer o suficiente para o papel (além de deixar barba e cabelo crescerem), o quê em cena causa um tremendo contraste entre a fisionomia dele antes do naufrágio, quando ainda vivia em civilização e depois de toda a odisséia transcorrida.
O roteiro também, escrito por William Broyles Jr. (roteirista de “Apollo 13”), evita com elegância e inteligência diversas situações clichê de filmes sobre náufragos: Chuck Noland (personagem de Hanks) é um homem essencialmente urbanizado –funcionário da Fedex, ele vive em função do relógio e de sua boca saem constantes observações acerca da necessidade moderna de sincronia profissional.
Nem mesmo sua noiva (Helen Hunt, de “Melhor É Impossível”) escapa de tal meticulosidade.
Após um acidente aéreo (numa seqüência que dá ótima idéia do virtuosismo técnico que Zemeckis possui para com efeitos visuais) ocorrido no meio do oceano, porém, Chuck descobre ser o único sobrevivente em uma pequena ilha deserta, longe de tudo e de todos. E aí, o homem civilizado deve aprender a conter a própria ansiedade, a perplexidade trazida pela solidão, e a comodidade herdada da vida civilizada para simplesmente não morrer.
A narrativa de Zemeckis vale-se dessas circunstâncias não para elaborar mais um filme de aventura como tantos outros, mas para penetrar nas convulsões da mente desse personagem: Magnífico exemplo dessa postura é a “amizade” que Chuck estabelece com uma bola de vôlei à qual dá o nome de Wilson (!), na qual ele faz o desenho de um rosto usando o próprio sangue –o roteiro é primordial na maneira como constrói esses elementos, mas nenhum deles teria eficácia não fosse a fenomenal interpretação de Tom Hanks, que carrega sozinho quase o filme inteiro.
A espera de Chuck por um possível resgate vai se esvaindo a medida que os anos passam, assim como suas tentativas de deixar a ilha são  complicadas pelo mar bravio –os recifes pontiagudos impedem a travessia com uma mera jangada.
Após quatro anos preso naquela ilha, Chuck descobre por acaso uma maneira de sair e regressar para a civilização. E aí, o filme de Zemeckis engata uma nova marcha ao confrontar o personagem de Hanks –já transfigurado pelo assombroso emagrecimento experimentado pelo ator –com o seu retorno à civilização e à uma vida da qual há quatro anos ele perdera o contato.
O diretor planta inúmeros indícios sobre essa jornada pessoal que ele narra –e a qual termina conduzindo até um final pleno de intimismo e simbolismo que deve deixar muitos expectadores coçando a cabeça –e evita bravamente quaisquer tentativas de manipular o público: Não há sentimentalismo fácil, nem cenas heróicas ou mesmo óbvias para o gênero que trabalha (até mesmo a trilha sonora só começa a tocar depois que o personagem sai da ilha, quando o filme já passou de sua metade!).
Há, sim, o grande trabalho de Tom Hanks, e o extremo apuro técnico de seu diretor na reconstituição dessa incrível situação-limite.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Aliados

O diretor Robert Zemeckis parece se esbaldar com a possibilidade de emular uma narrativa à moda antiga, a homenagear neste trabalho o profundamente merecedor de homenagem, “Casablanca”. Uma vibração clássica, de um fascínio pelo charme emanado dos filmes de antigamente (a despeito do apreço que ele sempre demonstrou por tecnologia de ponta), se percebe em muitas das suas obras, mas somente aqui ele pode recriar uma produção realmente naqueles moldes.
“Aliados” expressa um carinho imenso, além de uma forte vontade de irmanar-se aos filmes de espionagem dos anos 1940 e 50, onde a Segunda Guerra Mundial proporcionava uma narrativa despida de ambigüidades, justapondo mocinhos e vilões de forma genuína, embalada na envolvente roupagem de romantismo e espionagem aventuresca –é todo um cinema assim que Zemeckis resgata com a história dos espiões Max e Marianne.
Ele (Brad Pitt, em adequada composição de época, fazendo lembrar alguns astros do passado), um oficial canadense à serviço da contra-inteligência britânica. Ela (Marion Cottilard, com sua beleza acachapante e seu talento afiado), uma espiã francesa cuja competência e eficiência em missões de campo já lhe renderam relativa fama.
Os dois se conhecem durante uma arriscada missão para eliminar um membro da alta cúpula nazista, quando se disfarçam como um casal apaixonado. Contra todos os indicativos e recomendações –e num desenlace tão inevitável quanto incontornável, tendo em cena os atrativos hiperlativos de Brad Pitt e Marion Cottilard –eles se apaixonam e, após terminada a missão, quando cada um deveria seguir um caminho e nunca mais ouvir falar um do outro, eles resolvem se casar.
A felicidade dura um ano –tempo de sobra para o nascimento de uma filha e o estabelecimento de uma agradável vida doméstica –até que os superiores de Max identificam indícios que apontam Marianne como uma possível espiã trabalhando para os alemães.
É a dúvida em torno da possível culpa de Marianne (sustentada por uma atuação preciosa e minimalista de Marion) que irá alimentar grande parte da narrativa de suspense que Zemeckis conduzirá daí até o final.
Nem parece o mesmo Robert Zemeckis que, em meados da década passada, recebeu críticas por seu cinema deixar de lado o elemento humano para se concentrar em avanços digitais (devido à irregularidade de obras como “O Expresso Polar”, “A Lenda de Beowulf” e “Os Fantasmas de Scrooge”): É no carisma de Brad Pitt e na competência de Marion Cotillard que todo o filme, apesar do ocasional virtuosismo do diretor em uma ou outra cena, se ampara, construindo sua atmosfera de suspense (que em muito também deve aos trabalhos de Hitchcock) em torno da prorrogação contínua da aflição sem resposta dele (seria a esposa uma espiã?) e da presença charmosa e intoxicante dela (estaria a personagem de Marion, em sua beleza desestabilizadora e sua promessa de amor genuíno, ocultando uma femme fatale?).
Como num bom thriller de espionagem de antigamente, o diretor Zemeckis compreende quais são as molas que fornecem o empuxo para as ações e motivações de seus personagens e manipula esses elementos com grande serenidade e perspicácia.
Seu trabalho acaba sendo quase reverencial tamanho é o apreço pelo tipo de cinema que emula, mas se não é sua técnica capaz de tornar o filme memorável, ele tem ao menos um casal central que cataliza as atenções do público.

sábado, 19 de agosto de 2017

Uma Cilada Para Roger Rabbit

A idéia de uma fusão entre animação e live-action sempre foi um objetivo dos Estúdios Disney –Quem não lembra das cenas de “A Canção do Sul”, de 1946, ou a seqüência envolvendo os pingüins animados em “Mary Poppins”? –mas, havia todo um empecilho técnico limitando esse intento: A animação destoava da realidade simplesmente porque haviam barreiras evidentes que separavam as duas linguagens; e dizer isso soa antiquado nos dias de hoje, quando a computação gráfica oferece a cada ano novas inovações em forma de longas animados.
Poucas inovações técnicas, contudo, tiveram uma ressonância tão poderosa quanto “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, de 1988, que prometeu (e cumpriu!) uma união sem precedentes de atores reais e personagens animados em cena.
Isso só foi possível graças à junção da Disney com o produtor Steven Spielberg, detentor de vastos recursos no campo dos efeitos visuais, graças a sua amizade de longa data com George Lucas, o dono da Industrial Light & Magic, a empresa responsável pela magia que se testemunha na tela.
Para dirigir essa junção entre desenho e filme (e ciente de que tal junção precisaria ter a especificação de uma narrativa que englobasse o dinamismo natural das animações à encenação real) Spielberg chamou seu apadrinhado, Robert Zemeckis (que tinha dirigido para o próprio Spielberg o sucesso “De Volta Para O Futuro” e teve de adiar em três anos as filmagens das duas continuações para concretizar este projeto).
Zemeckis deu a condução narrativa e a percepção ideal para que os efeitos visuais complexos que colocavam desenhos e atores lado a lado transcorressem com naturalidade em cena. A história, também ela, contribuía para essa experiência sensorial: Numa brilhante sacada de metalinguagem, Hollywood, nos anos 1930, é uma indústria que produz desenhos animados (os chamados cartoons) da mesma forma que produzia filmes; os personagens animados são astros que se comportam longe das câmeras que maneira quase sempre distinta do que são em frente à elas –e esse retrato fantasioso mas não despido de lógica e observação aproveita para lançar mão de pontas luxuosas de verdadeiros astros animados como Pateta, Betty Boop (numa cena em que relata ao protagonista seu problema de desemprego, já que é um desenho em preto & branco, e agora eles só eram feitos à cores), Pato Donald e, numa cena considerada histórica, um encontro entre Mickey Mouse e o Coelho Pernalonga (cedido pela Warner sob a condição de que aparecesse durante o mesmo tempo de cena que o Mickey!).

Um dos grandes astros dos estúdios daquele período é o coelho Roger Rabbit.
Mas, como muitos astros de carne e osso daquele mesmo período, Roger tem um casamento cujas atribulações dão dor de cabeça aos produtores; sua esposa é, também ela, uma animação, no entanto, não há nada do histrionismo e da fanfarronice que sobra em Roger –trata-se da inacreditavelmente sexy Jessica Rabbit.
Sobra para o protagonista do filme, o detetive particular Eddie Valiant (o ótimo Bob Hoskin, se esbaldando com um divertido retrato de um herói de film noir e com a pantomina exigida pela sua interação com as dezenas de personagens animados) fazer assim um trabalhinho sujo: Tirar fotos que flagrem um instante de adultério de Jessica com um provável amante.
Contudo, o tal amante, dono das terras onde fica a tal cidade dos desenhos, Toontown, aparece morto e as circunstâncias tornam Roger Rabbit, que desapareceu, o suspeito número 1. Em sua mentalidade algo non-sense de cartoon, Roger procura pelo próprio Valiant para lhe ajudar: Já que foi ele quem o colocou nessa encrenca!
Na verdade, tudo é uma conspiração cheia de segredos e reviravoltas que podem impressionar quem espera um filme leve (embora ele o seja) com uma trama simplória: “Roger Rabbit” aposta alto na inteligência do público, mesmo aquele que assiste produções censura livre, e oferece muito o que ver à platéia adulta também –são inúmeras as referências ao cinema noir (grande homenageado do filme) e outras tantas aos desenhos da Era de Ouro de Hollywood, aqueles que os pequenos certamente não tinham idade para ter visto.
Tudo, porém, fica redundante diante do assombro que é a interação perfeita e espantosa dos cartoons com os atores reais: Um misto de arrojada animação com computação gráfica (que à época ainda era uma ferramenta bastante experimental) dá às imagens animadas um formato tridimensional que lhes confere textura e saliência, tal e qual os personagens de carne e osso; a partir daí, são incessantes as cenas sensacionais que o diretor Zemeckis entrega uma a uma.
“Roger Rabbit” não foi o primeiro filme a buscar tal efeito –os já mencionados “A Canção do Sul” e “Mary Poppins” são prova disso, além de inúmeras outras tentativas menos expressivas –e certamente não foi o último –a ele seguiu-se, nas décadas seguintes, os irregulares “Space Jam-O Jogo do Século” (que reunia o jogador de basquete Michael Jordan e o Pernalonga), “Looney Tunes-De Volta À Ação”, de Joe Dante, e até mesmo o italiano e malicioso “Volere, Volare”, de Maurizio Nichetti –mas a realização conjunta de Steven Spielberg e dos Estúdios Disney, capitaneada por Robert Zemeckis, entrou para a história do cinema como o mais perfeito exemplo de um efeito visual que hoje pode parecer antiquado, mas continua traduzindo brilhantemente a máxima de “sonho tornado realidade”.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Contato

“Vocês humanos são uma espécie interessante, uma mistura incomum; são capazes de sonhos tão lindos e de pesadelos tão horríveis.”
A cena que abre “Contato” já é arrebatadora: A câmera sai do planeta Terra enquanto podemos ouvir música e, logo mais, transmissões radiofônicas envolvendo fatos do século XX. A medida que essas transmissões se convertem em ruídos (e, por fim, em silêncio), vamos deixando para trás todo o Sistema Solar, depois toda a Via Lactea e finalmente o Universo, para então a câmera sair de dentro da pupila de Jena Malone que interpreta, na infância, a personagem que será de Jodie Foster durante todo o restante do filme.
Ela é Ellie Arroway, cujo fascínio pelas estrelas –e pela possibilidade de vida inteligente em meio a elas –a levou a tornar-se astrônoma na vida adulta. Em prol dessa ideologia, Ellie sacrificou até mesmo sua ambição profissional, que ela sempre disputou com o prepotente David Drumlin (Tom Skerrit): Ela não apenas negligencia seu romance com o teólogo Palmer Ross (Matthew McConaughey), que depois de torna conselheiro espiritual na Casabranca, como termina monitorando sons captados no espaço em uma base de gigantescas antenas no México.
Tudo muda, contudo, na noite em que ela capta sinais de vida inteligente vindos de algum lugar da estrela Veja –são informações numéricas, cifradas e que, mais tarde, revelarão também como construir uma nave a ser ocupada por um único ser humano.
A situação levanta questionamentos de ordem mundial e, sobretudo, cria uma disputa para se encontrar a pessoa ideal a representar a Humanidade, e entre seus candidatos estão Ellie e Drumlin.
Adaptado de um livro escrito pelo falecido e renomado astrônomo Carl Sagan (o célebre apresentador da série “Cosmos”), este filme realizado com extremo cuidado e precisão por Robert Zemeckis (empregando aqui, com ainda mais propriedade, todos os méritos técnicos e artísticos que o levaram a ganhar o Oscar por “Forrest Gump”) traz a mesma visão imbuída de humanismo, poesia e fascínio sobre a Humanidade e o Universo que Sagan discorreu, em ensaios, livros e em sua série, ao longo de toda a vida.
Os poucos detratores que esta obra magnífica pode encontrar poderiam argumentar que sua última meia hora é pontuada por argumentos mais abstratos do que cartesianos, mas o otimismo, a esperança e a fé no futuro (e em nós mesmos) têm por definição a imprecisão de crer no que ainda está por vir, e é difícil conter e emoção quando uma mensagem assim tão poderosa é entregue por meio de uma interpretação tão emocionante e emocionada como a de Jodie Foster.
Um filme para ver e rever sempre.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

De Volta Para O Futuro - Trilogia

Quem era criança ou adolescente por volta dos anos 1980, dificilmente deixa de incluir “De Volta Para O Futuro” –senão todos os três filmes, ao menos, o primeiro e mais sensacional deles –em sua lista de melhores filmes.
É uma daquelas obras que marcou toda uma geração.
Não à toa, há um apelo irresistível na história do jovem Marty McFly (Michael J. Fox, perfeito), um típico adolescente em pleno ano de 1985 que embarca por acaso numa máquina do tempo travestida de um carro modelo DeLorean, e acaba voltando vinte anos no tempo, em 1965, onde tem um encontro com seu pai (Crispin Glover) e sua mãe (Lea Thompson), então adolescentes como ele, e sem querer coloca em risco sua própria existência futura. Para colocar todas as coisas em seu devido lugar sem mudar o curso da história e ainda conseguir um meio de retornar para sua época ele conta com a ajuda do amalucado inventor da máquina do tempo, Dr. Emmett Brown (Christopher Loyd, impagável).
Produzida por Steven Spielberg e dirigida por Robert Zemeckis, esta inventiva aventura enfrentou inusitados contratempos até ganhar as telas: Seu protagonista, originalmente o ator Eric Stolz foi substituído por Michael J. Fox mesmo já tendo realizado quase metade das cenas; o roteiro era reescrito dia a dia, com as filmagens em curso, havendo um momento em que o formato imaginado para a máquina do tempo era, até mesmo, uma geladeira (!).
Nada disso impediu que o filme obtivesse larga aprovação de público que transformou ele, nos anos seguintes, numa das mais marcantes e queridas referências do cinema para histórias de viagem no tempo.

A idéia de Zemeckis e dos produtores era retomar o segundo filme tão logo foi terminado o primeiro (e no que diz respeito às cenas que intercalam os dois filmes isso realmente foi feito), mas logo após o sucesso do primeiro filme, o diretor Zemeckis foi convidado pelo mesmo produtor, Steven Spielberg, para capitanear um projeto de alto grau de ineditismo no cinema: A arrojada junção de desenho animado e filme chamada “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, o quê promoveu um intervalo de quase cinco anos entre o primeiro e o segundo (embora, eles tenham compensado isso filmando este e o terceiro simultaneamente).
A única baixa decorrente desse ocorrido foi a da bela atriz Claudia Wells, que interpretava a namoradinha do protagonista, e nas seqüências foi substituída por Elizabeth Shue (basta reparar como eles tiveram de refazer toda a cena que encerra “De Volta Para O Futuro 1” e inicia “De Volta Para O Futuro 2” só por causa da troca de atrizes).
Desta vez, Marty McFly, acompanha seu amigo, o Doutor Emmett Brown, numa viagem no tempo, em direção ao futuro. Mas lá, por alguns minutos a máquina do tempo lhes é roubada pelo vilanesco Biff. Quando retornam à sua época presente, o ano de 1985, tudo está transformado numa realidade alternativa onde Biff achou um meio de tornar-se milionário, e arruinou a vida não só da família de Marty, como de toda a cidade. Para corrigir as coisas eles terão de voltar ao ano de 1965, onde tudo parece ter começado. Sobre esta continuação eletrizante e rocambolesca de "De Volta Para O Futuro" uns dirão que é confuso no modo como se relaciona com o filme anterior, outros que é inegavelmente divertido.
Ambos os casos são verdade, embora a descontração contagiante que consegue suscitar no expectador deixe tais detalhes em segundo plano.

Após o final aberto do filme anterior, que deixou a trama praticamente engatilhada para o terceiro filme, lançado poucos meses depois (algo que, por incrível que possa parecer, o cinema comercial norte-americano só ousou fazer novamente em 2003, com as duas continuações de “Matrix”, “Reloaded e Revolutions”), reencontramos Marty McFly ainda preso no ano de 1965. Agora, ele deve encontrar a máquina do tempo e voltar para 1985, mas antes disso precisa voltar na época do Velho Oeste, por volta de 1885, onde seu amigo Emmett Brown se estabeleceu e, ao que tudo indica, está enfrentando problemas, devido à sua inesperada atração por uma graciosa professora (Mary Steenburgen, realmente encantadora), o que o leva a entrar em atrito com o fora-da-lei Mad Dog Morgan (Thomas F. Wilson, que fez também o papel do vilão Biff, nos dois filmes anteriores).
Essa mudança radical de atmosfera e ambientação pode ter contribuído para fazer deste o filme mais fraco da trilogia, ainda assim é uma aventura que esbanja bom humor e criatividade.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Travessia

Se neste “A Travessia” o diretor Robert Zemeckis logrou fazer uma experiência sensorial para seu público, então, certamente a sensação mais objetizada é a da vertigem. Todas as escolhas parecem levar à essa finalidade, desde os conflitos presentes em sua dramaturgia, até o uso propriamente dito dos efeitos digitais, o que Zemeckis executa, aliás, como um mestre. 
O resultado pode não ser tão certeiro como em “O Vôo”, afinal, aqui ele não dispõe de um craque como Denzel Washington, nem tampouco o roteiro consegue ter todo aquele polimento e excelência de seu trabalho anterior, mas ainda assim, Zemeckis entrega uma obra bela e plena cheia de significados e de boas intenções. 
Há de se levar em conta o tom de fábula que ele emprega no ínicio, e que dali até o final, irá soar desnecessário ao expectador (talvez, como forma de imolar certos aspectos lúdicos do cinema francês, o quê, à propósito, os franceses o sabem fazer muito melhor...), para contar a história do jovem Phillipe Petit (o bom Joseph Gordon-Levitt), que desde cedo pegou gosto pelas apresentações acrobáticas de rua e que o levou a uma desafiadora travessia na corda bamba da catedral de Notre Dame, culminando no plano ousado de atravessar, dessa mesma forma, as recém-inauguradas torres do World Trade Center. 
Toda a história que Zemeckis quer contar converge para esse momento, e tão claro isso fica, que muito do que se passa antes dos genuinamente sensacionais vinte minutos finais, parece uma mera distração, seja a presença sempre notável de Ben Kingsley como o mentor Papa Rudy, seja a gaita primeira parte onde se tenta ensaiar uma quase biografia de Petit, seja o entrecho central, tomado pelos preparativos sempre precários para realizar o audacioso plano. No final, depois de tanta elaboração ao armar o cenário para seu ato principal, Zemeckis entrega a cena na qual tanto suspense fez para chegar, e ela aparece com todos os predicados e recursos que se poderia dispor, firmando-se como uma bela homenagem de seu diretor Robert Zemeckis ao ato travesso de Petti como uma reafirmação da arte, e principalmente, à cidade de Nova York. Os movimentos de câmera e os efeitos em 3D colocam o expectador ali, sob aquela corda bamba, com todas as intensas sensações de vertigem à que se tem direito, e nesse sentido, o êxito do diretor acaba sendo completo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Algumas previsões para o Oscar 2016...

Curioso notar que, com sua alardeada previsibilidade, parece que faltam surpresas na cerimônia do Oscar. Quando o vencedor é anunciado é sempre em um clima de "já sabia...".
É curioso também notar que, horas antes do mesmo anúncio, não é tão fácil assim apontar os verdadeiros ganhadores (prova disso são os bolões de apostas que não são vencidos por todo mundo).
Pela minha experiência, nesta época do ano, nós provavelmente, já ouvimos falar do filme que sairá com a cobiçada estatueta em mãos: Nessa mesma época, em 2014, já se falava de "Birdman", assim como em 2013, já havia algum murmúrio sobre "12 Anos de Escravidão". Ninguém, porém, sabia que seriam exatamente ESSES filmes que ganhariam o Oscar...
Dessa forma, com esse espírito especulativo, vou falar de alguns filmes ainda vindouros, que têm algumas chances, na minha humilde opinião, de disputar o prêmio.
Selecionei cinco, embora hajam muitos mais:

The Hatefull Eight

Quentin Tarantino. Esse nome já explica muito do hipe que já se forma em torno desse filme.Não é pra menos. Os dois últimos trabalhos de Tarantino figuraram entre os indicados ao Oscar, e "Django Livre" venceu os de Ator Coadjuvante, para Christoph Watz, e de roteiro original! Aqui, Tarantino volta a fazer western, com uma trama que resgata muitos elementos de seu sensacional filme de estréia, "Cães de Aluguel". Na história, acompanhamos oito estranhos, isolados em uma cabana no meio de uma nevasca nas montanhas. Um deles, não é quem diz ser, e o caçador de recompensas, interpretado por Kurt Russel não pretende deixar que esse traidor em potencial, colabore na fuga de sua prisioneira, interpretada com fúria por Jennifer Jason Leight.
O trailer, lançado na última semana, é pra animar qualquer um, e a data de lançamento (Natal deste ano) coloca o filme em um momento estratégico para ser lembrado pelos membros da Academia.

Divertida Mente

Já com presença garantida em toda e qualquer lista dos melhores filmes do ano por qualquer pessoa com bom senso, o novo e genial trabalho da Pixar é, talvez, a aposta mais garantida desta pequena lista.
Deve ganhar o Oscar de Melhor Longa de Animação, mas a exemplo dos sensacionais "Toy Story 3" e "Up - Altas Aventuras", deve figurar também entre os indicados a Melhor Filme.
O motivo para isso é bem simples: A Pixar, uma vez mais, conseguiu criar uma obra prima da animação com a magnífica história de uma garotinha, cuja mente é guiada por cinco distintas emoções (Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo) que ganham representações brilhantes. A própria geografia do cérebro humano criada na animação é algo digna, no mínimo, de aplausos.
Isso sem falar nas mais emocionantes sequências do ano, até agora.

A Travessia

Faz tempo desde que o diretor Robert Zemeckis ganhou seu Oscar (com "Forrest Gump" num já distante 1994!), de lá para cá, ele enveredou pela tecnologia de captura de perfomance, criando animações como "Expresso Polar", "A Lenda de Beowulf" e "Os Fantasmas de Scrooge" que não chegaram a causar muita celeuma. Seu retorno aos filmes com atores de verdade seu deu com o elogiado "O Vôo".
Este ano, Zemeckis surge com um projeto que parece ser certeiro: A história romanceada de Phillip Petit, equilibrista francês que, no fim dos anos 1970, início dos anos 1980, empreendeu uma tentativa clandestina de cruzar, numa corda bamba, o World Trade Center, na época, os edifícios mais altos do mundo.
A mesma história foi relatada no magistral documentário "O Equilibrista", que à propósito, ganhou o Oscar da categoria em 2008.
Ao lado do ator Joseph Gordon Levitt, como Petit (papel que pode ajudá-lo a emplacar sua primeira indicação), o diretor Zemeckis tem tudo para fazer uma obra espetacular com sua habilidade em manipular efeitos especiais em 3D.

Perdido em Marte

O mais arriscado dos meus palpites, "Perdido em Marte", ou "The Martian" é adaptado de um livro escrito por Andy Weir cuja história surpreende do início ao fim. Uma mistura muito bem urdida de "Gravidade", "Apollo 13" e "Náufrago", o filme conta a jornada até inacreditável, mas ancorada em verdades científicas perfeitamente plausíveis, de Mark Whatney (Matt Damon), que acidentalmente, é deixado para trás por seus companheiros, que o dão como morto, numa missão em Marte. Ao longo do tempo que se segue, o astronauta Mark deve usar de sua inventividade para fazer com que o oxigênio, a comida, a água e a energia que dispõe em quantias limitadas, não acabem antes de encontrar uma solução para seu apuro.
A direção desta trama fascinante ficou a cargo de Ridley Scott, que quando quer sempre entrega um filmaço, sobretudo quando cisca no terreno da ficção científica, vide seus seminais "Alien" e "Blade Runner".

Joy - O Nome do Sucesso 

Por último, mas não menos importante, uma das barbadas no próximo Oscar. Também com estréia agendada para o fim do ano, este filme trás, além da direção de David O' Russel (cujos três últimos trabalhos foram todos indicados ao Oscar!) a presença da fantástica Jennifer Lawrence (presença assídua nos filmes de O' Russel) como Joy Mangano, uma personagem real, cujo talento para invenção a tornou uma milionária, numa época em que as mulheres tinham de lutar ainda mais para conseguir seu espaço.
Não só o filme aparece como certo em muitas apostas do vindouro Oscar, como Jennifer Lawrence é dada como certa na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz, que ela já ganhou, é bom lembrar, por "O Lado Bom da Vida", um filme também dirigido por O' Russel.