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quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Mundo de Jack & Rose


Só mesmo o fato de ser casado com a diretora Rebecca Miller para justificar a presença de um ator como Daniel Day-Lewis num projeto equivocado e redundante como este.
Rebecca, que também é filha do dramaturgo Arthur Miller, também dirigiu a igualmente insossa comédia romântica “O Plano de Maggie”, de 2016. Comparando os dois trabalhos –de natureza e pretensões bem diferentes –pode-se perceber que ela tem certo interesse em relacionamentos que as circunstâncias tornam pouco usuais.
É sobre isso, essencialmente que trata este filme aqui (e se era a intenção falar de alguma outra coisa, isso se perdeu na realização).
Jack (Daniel Day-Lewis) mora com a filha Rose (Camilla Belle) numa ilha em algum ponto da Costa Oeste dos EUA. O ano é 1986, e logo notamos que Jack é o que restou de uma comunidade alternativa surgida a partir dos preceitos da contracultura dos anos 1960.
Eles vivem isolados, exceto com ocasionais intervenções de um empreendedor que constrói um conjunto de casas pré-fabricadas no limite de sua propriedade –e que Jack trata de enxotar com tiros de espingarda!
A filha Rose não tem qualquer conexão com o mundo, mas Jack sabe que, com a chegada de sua adolescência, ela precisa ter contato com outras pessoas, sobretudo, depois que a saúde de Jack começa a deteriorar em vista de seu estado físico –Jack não tem mais muito tempo.
Com isso em mente, ele convida Kathleen (Catherine Keener), sua namorada, para morar com eles. Ela leva a tiracolo os filhos, o sensível e hesitante Rodney (Ryan McDonald) e o desleixado Thaddius (Paul Dano, que fez “Sangue Negro” com Day-Lewis).
A reação de Rose à presença súbita desses estranhos em sua casa é tudo menos harmoniosa.
Ao tentar falar sobre inúmeras facetas do comportamento humano –e ostentar sensibilidade em cada uma delas –o filme de Rebecca se perde na incapacidade de ilustrar ao expectador qual é seu cerne de fato.
Não chega a ser surpresa que a sua sustentação para os lapsos que assola o filme seja a formidável presença de Day-Lewis (bem ladeado por Camilla Belle e por Catherine Keener), um grande ator que, como aqui, ocasionalmente acontece de dedicar mais empenho e afinco do que o filme merece.

domingo, 21 de maio de 2017

Demônio de Neon

Incompreendido: Essa talvez seja a definição mais adequada para o novo trabalho do diretor Nicolas Winding Refn que, cada vez mais confortável no rótulo de autor, fez uma de suas mais desafiadoras obras para o público.
“Demônio de Neon” começa acompanhando os passos da misteriosa e intrigante Jesse (Elle Fanning, ostentando um sex-appeal que ela já sinalizava em seus trabalhos com idade mais tenra como “Uma Lugar Qualquer” e “Super 8”).
Sem família e sem eira nem beira, Jesse quer destacar-se como modelo profissional no competitivo ambiente de Los Angeles e, de fato, sua beleza genuína e incomum não tarda a lhe proporcionar oportunidades, assim como também atrai a inveja de duas colegas (Bella Heathcote e Abbey Lee) e interesse da maquiadora Ruby (Jena Malone) que, combinados, representarão certo perigo para ela.
É um conto aflitivo, frio e visualmente exuberante este que Winding Refn compôs. Sua câmera e sua paleta de cores parecem incorporar (ou ao menos sugerir) os aspectos mais horrendos do ser humano, em curiosa oposição à beleza acachapante e opressora que predomina nas imagens. Assim sendo, ele inicia sua narrativa atento aos ressentimentos mundanos de ordem mais íntima facilmente ocultos através das aparências, mas gradualmente atinge atos inquietantes que aproximam esta obra, de fato, de um filme de terror (incluindo aí o canibalismo!) –embora ele nunca deixe de ser incategorizável.
Esse jogo de imagens e antíteses justapostas se evidencia no começo, quando as duas primeiras cenas de diálogo mais relevantes se sucedem, ambas, numa justaposição de reflexos de espelhos.
O que se segue a partir daí é uma sucessão de momentos transcorridos numa dimensão abstrata através da qual o diretor colhe imagens de absurdo alegórico e composição minimalista e refinada, extraindo constante estranheza: De aspecto metafórico, sobretudo, parecem ser as cenas ocorridas no motel onde Jesse se hospeda –um puma surge do nada do apartamento dela (!!!) –ocasionadas pela presença ameaçadora e invasiva de um gerente pernicioso e diabólico (Keanu Reeves, surpreendendo num papel sombrio e perigoso).
É verdade que Elle Fanning, talentosa, carismática e graciosa, sustenta sozinha grande parte do filme, e é verdade também que esse é um de seus grandes problemas, visto que a guinada radical, inesperada, macabra e anti-climática que ocorre em seus vinte minutos finais deixa de lado a protagonista (no que pode, ou não, ser uma referência de Winding Refn à “O Eclipse”, de Michelangelo Antonioni) para transcorrer em cenas de tom quase aleatório, até minguar num final estranho e inconcluso.
Se Winding Refn experimentou, em seus dois projetos anteriores a aclamação (com o magnífico “Drive”) e a indiferença (com o mediano “Só Os Deuses Perdoam”), com este “Demônio de Neon” ele descobriu uma incompreensão extrema da parte de público e crítica, ultrajados com o retrato superficial e rancoroso que ele faz do mundo fashion. Esses hiperlativos, somados à obra profundamente desigual que este filme é, fazem dele o mais absoluto cult-movie de sua carreira.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Contato

“Vocês humanos são uma espécie interessante, uma mistura incomum; são capazes de sonhos tão lindos e de pesadelos tão horríveis.”
A cena que abre “Contato” já é arrebatadora: A câmera sai do planeta Terra enquanto podemos ouvir música e, logo mais, transmissões radiofônicas envolvendo fatos do século XX. A medida que essas transmissões se convertem em ruídos (e, por fim, em silêncio), vamos deixando para trás todo o Sistema Solar, depois toda a Via Lactea e finalmente o Universo, para então a câmera sair de dentro da pupila de Jena Malone que interpreta, na infância, a personagem que será de Jodie Foster durante todo o restante do filme.
Ela é Ellie Arroway, cujo fascínio pelas estrelas –e pela possibilidade de vida inteligente em meio a elas –a levou a tornar-se astrônoma na vida adulta. Em prol dessa ideologia, Ellie sacrificou até mesmo sua ambição profissional, que ela sempre disputou com o prepotente David Drumlin (Tom Skerrit): Ela não apenas negligencia seu romance com o teólogo Palmer Ross (Matthew McConaughey), que depois de torna conselheiro espiritual na Casabranca, como termina monitorando sons captados no espaço em uma base de gigantescas antenas no México.
Tudo muda, contudo, na noite em que ela capta sinais de vida inteligente vindos de algum lugar da estrela Veja –são informações numéricas, cifradas e que, mais tarde, revelarão também como construir uma nave a ser ocupada por um único ser humano.
A situação levanta questionamentos de ordem mundial e, sobretudo, cria uma disputa para se encontrar a pessoa ideal a representar a Humanidade, e entre seus candidatos estão Ellie e Drumlin.
Adaptado de um livro escrito pelo falecido e renomado astrônomo Carl Sagan (o célebre apresentador da série “Cosmos”), este filme realizado com extremo cuidado e precisão por Robert Zemeckis (empregando aqui, com ainda mais propriedade, todos os méritos técnicos e artísticos que o levaram a ganhar o Oscar por “Forrest Gump”) traz a mesma visão imbuída de humanismo, poesia e fascínio sobre a Humanidade e o Universo que Sagan discorreu, em ensaios, livros e em sua série, ao longo de toda a vida.
Os poucos detratores que esta obra magnífica pode encontrar poderiam argumentar que sua última meia hora é pontuada por argumentos mais abstratos do que cartesianos, mas o otimismo, a esperança e a fé no futuro (e em nós mesmos) têm por definição a imprecisão de crer no que ainda está por vir, e é difícil conter e emoção quando uma mensagem assim tão poderosa é entregue por meio de uma interpretação tão emocionante e emocionada como a de Jodie Foster.
Um filme para ver e rever sempre.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Animais Noturnos

Elegância é a palavra chave no cinema de Tom Ford. A elegância que já impregnava cada detalhe em cena de sua auspiciosa estréia, “Direito de Amar”, continua a ditar o visual acachapante e lindo deste seu novo e notável trabalho.
Todavia, como atestam as desconcertantes cenas iniciais, existe espaço também, nesse esmero visual, para a feiúra: Em enquadramentos milimetricamente bem escolhidos e bem iluminados, mulheres velhas, gordas e nuas dançam em câmera lenta diante de uma câmera que parece fetichizá-las.
O grotesco, como veremos mais a frente, será um tópico que o filme de Ford perseguirá durante toda sua duração –e seu contraponto com a beleza gráfica, e com o curioso dado de que ela não trás plena felicidade, é um dos estranhos questionamentos que ele levanta.
Amy Adams, em toda sua beleza e excelência, é Suzan, curadora de um museu de arte moderna em Los Angeles. Ela se ressente pelo fato de sua vida e seu casamento de aparências não lhe proporcionarem satisfação: Isso não a deixa dormir.
Ela já havia sido casada antes, com Edward (Jake Gyllenhaal, que interpreta também o protagonista na história dentro da história), um escritor que ela deixou há dezenove anos.
Uma noite, Suzan recebe uma encomenda: Um manuscrito de um livro que Edward escreveu em sua homenagem.
Ela começa a leitura (cada vez mais obsessiva) do tal livro cuja trama guarda, de forma alegórica, uma inesperada ressonância com o matrimônio que tiveram. Não fosse a direção refinada de Ford, essa trama serviria também, à uma típica produção exploitation dos anos 1970: Família composta pelo marido (Gyllenhaal), pela esposa (Isla Fisher) e pela filha adolescente atravessa os desertos do centro-oeste americano à noite.
Tentam ultrapassar um carro ocupado por desordeiros liderados pelo ameaçador Ray (Aaron Taylor-Johnson), mas acabam arrumando encrenca com o grupo. Eles fazem seu carro parar e, após uma discussão extremamente tensa, carregam a mulher e a filha para outro lugar, deixando o marido à pé na estrada.
Com a ajuda de um policial (Michael Shannon) ele as procura dando início a uma escalada de momentos trágicos.
A condução vai assim contrabalançando essa trama árdua, violenta e desesperadora, com o dia a dia de Suzan e suas memórias ocasionais e elípticas da relação que teve com Edward, deixando que quaisquer analogias que sejam estabelecidas entre essas três linhas narrativas fiquem por conta do expectador.
Uma obra que justapõe as percepções da violência reprimida e/ou extravasada, os diferentes âmbitos de mundo em que elas se deflagram, e as conseqüências disso tudo no íntimo dos personagens, narrada com enorme perícia.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Donnie Darko

Tentar discorrer sobre “Donnie Darko” é um desafio para qualquer mente sã. O filme de Richard Kelly é um conto lisérgico sobre as armadilhas da mente e sobre as possibilidades infinitas entre a dicotomia de realidades alternativas, além de ser uma obra que supera as expectativas de seu próprio criador: Kelly até tentou reproduzir algo que tivesse a mesma aura enigmática de “Donnie Darko” dirigindo e roteirizando o bem mais endinheirado “Southland Tales-O Fim do Mundo”, com um resultado frustrante.
Ao que parece, o culto em torno de um filme é algo sobre o qual nada nem ninguém tem exato controle; e nisso está incluída a suposta qualidade artística da obra (que neste caso aqui é estratosférica!).
O jovem Donnie Darko (o surpreendente Jake Gyllenhaal), protagonista da história, é um sonâmbulo que tem a sorte de escapar de ser esmagado por uma turbina de avião que cai e destrói seu quarto (o quê hipoteticamente –na teoria de muitos expectadores –o arremessa num universo paralelo!). 
A partir de então, ele passa a ter visões de um estranho e assustador coelho que revela a quantidade de dias que faltam para o mundo se acabar (três) e lhe instrui a cometer atos de vandalismos por toda a cidade (Seriam então as intervenções de personagens oriundos desse universo tangente e que, ao identificar a anomalia, o visitante –Donnie, no caso –adquirem características sobrenaturais que serão necessárias para que o desequilíbrio seja corrigido).
Seu relacionamento com uma garota (Jena Malone) é um dos elementos que permeiam de mistério esta trama desafiadora que leva o espectador através de acontecimentos por vezes inexplicáveis. 
Cult absoluto, “Donnie Darko” é um filme de baixo orçamento que surgiu do nada e pegou o público e a crítica de surpresa com uma miscelânea das mais curiosas, uma mistura de “filme de David Lynch” (e como tal, onírico e repleto de dúvidas insolúveis), histórias de heróis em quadrinhos (entre tantas referências, há o nome do protagonista com iniciais que se repetem) e um clima sci-fi estranhamente atemporal (com músicas do Tears For Fears e outras referências aos anos 1980).
Em tempo: “Donnie Darko” ganhou uma continuação das mais desnecessárias anos depois, “S. Darko-Um Conto de Donnie Darko”, sem a participação de Richard Kelly e sem o ator Jake Gyllenhaal, focada na irmã mais jovem de Donnie, Samantha, que no filme original é pouco mais que uma figurante. Uma perda de tempo...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sucker Punch - Mundo Surreal

Como se mostrou habitual em seu cinema, o prólogo de “Sucker Punch” é de um virtuosismo que poucos diretores, além de Zack Snyder, são capazes de compor na tela –e o restante do filme que lhe segue não desmerece seu impacto.
Uma espécie de “Alice No País das Maravilhas” de abordagem em altíssima voltagem cinética e do ponto de vista dos lunáticos –e absolutamente pouco indicado à crianças –seu filme acompanha subjetivamente (mas, não do ponto de vista que inicialmente o expectador imagina) os percalços trágicos vividos por Babydoll (uma tentadora Emily Browning), vítima de abuso de seu padrasto e condenada por uma tentativa de assassinato do mesmo. A garota é enviada para um tenebroso hospício onde, junto das demais internas, planeja escapar. 
Ela tem três dias para elaborar seu plano, que é quando o cirurgião aparecerá para fazer-lhe uma lobotomia. Nesse tempo as jovens se empenham em obter a chave-mestra, um isqueiro para provocar um incêndio, e o mapa do local (fundamentais para sua fuga). 
Em cada empreitada, porém, suas mentes saem da realidade e vislumbram mundos fantásticos com samurais gigantes, zumbis nazistas, robôs, dragões e alienígenas (!).
Tudo isso pode ter, ou não, uma espécie de conexão com o desenlace final de sua busca por liberdade. 
O diretor Zack Snyder elabora um passeio vertiginoso por um mundo de sonhos nesse trabalho autoral amparado por seu estilo visual único onde ele reafirma o diretor que é: Um artesão absolutamente antenado com o que há de mais pragmático e iconoclasta na cultura pop. Tanto arrojo culmina numa cena finalmente inesperadamente emocionante –talvez a mais genuinamente emocionante cena de toda a carreira de Zack Snyder!
O resultado é intrigante, desigual e cult.