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domingo, 9 de agosto de 2026

Predador - Terras Selvagens


 Durante muito tempo o público experimentou a sensação de que o clássico “O Predador”, de 1987, estrelado por Arnold Schwarzenegger e dirigido por John McTiernam, era de uma magia assim irreplicável: As suas continuações, derivados e reinvenções oscilavam entre obras honestas, porém, insuficientes (“Predador 2” e “Predadores”) e trabalhos absolutamente pífios (“O Predador”, de 2018, e “Alien X Predador”) e tão mais ridículos quando cediam à pretensão de superar o excelente filme original.

Em 2022, contudo, algo mudou; ao ser confiado ao jovem Dan Trachtenberg (do ótimo “Rua Cloverfield, 10”) a franquia finalmente mostrou o mesmo potencial de seu primeiro filme em “O Predador-A Caçada”, de lá para cá, dentro desse redescoberto universo, Trachtenberg entregou uma instigante obra de animação (“Predador-Assassino de Assassinos”) e, em seguida, o que talvez tenha sido sua mais ambiciosa cartada com este “Predador-Terras Selvagens”.

A primeira e surpreendente manobra do filme é a forma como escolhe, desta vez, o seu protagonista: Não mais um humano a ser confrontado com a famigerada espécie alienígena de caçadores interplanetários, agora, o personagem principal é Dek (vivido sob quilos de maquiagem pelo dublê Dimitrius Schuster-Koloamatangi), um espécime jovem dessa mesma raça de caçadores interplanetários! Num lance um tanto ousado, o filme de Trachtenberg converte o que antes era o antagonista (aparentemente, a regra implícita imutável de todos os filmes até aqui) no protagonista. No processo, essa alteração permite jogar alguma luz em elementos da franquia que sempre estiveram ocultos no mistério –os procedimentos na sociedade dos alienígenas Yautja, seus costumes e sua hierarquia (até mesmo uma linguagem foi concebida para servir como idioma Yautja ao longo de todo filme).

Filho mais jovem e mais fraco (lapso do qual é o tempo todo lembrado), Dek, sendo um membro da brutal raça dos Yautja tem somente uma escolha: Provar seu valor ou ser morto. Na realidade, não chega nem a ser muito uma escolha: Se dependesse de seu implacável pai, ele seria morto instantaneamente (!), é seu irmão mais velho, Kwei, quem sacrifica-se para que Dek consiga partir a bordo de uma nave para o planeta Genna, de onde só poderá voltar com um troféu que prove sua força –a cabeça de um monstro jamais caçado, o Kalisk.

O planeta Genna, no entanto, tem sua fauna e flora convertidas num emaranhado de armadilhas mortais –sendo o Kalisk apenas a mais ameaçadora de todas elas!

Mal conseguindo sobreviver às primeiras horas de sua chegada por lá, Dek encontra os restos mortais de uma androide chamada Thia (Elle Fanning), cuja metade do corpo da cintura para baixo –ela perdeu justamente num encontro com o Kalisk.

Thia é, por sinal, um autômato enviado pela empresa terrestre Weyland-Yutani (a mesma empresa que surge em “Alien X Predador”, em “Alien-Romulus”, na série “Alien-Earth” e em diversas outras produções dessas franquias) para explorar e coletar vários espécimes do planeta em geral, e o Kalisk em particular.

Ela e Dek estabelecem uma tênue parceria –ele a ajuda a encontrar o restante do seu corpo para ficar completa e ela o guia ao paradeiro do Kalisk –entretanto, o verdadeiro problema é mesmo Tessa, a androide ‘irmã’ de Thia (também ela interpretada por Elle Fanning, saindo-se maravilhosamente bem na composição de duas personagens de índoles opostas), de atitude fria, implacável e impiedosa que eliminará qualquer um em seu caminho para concluir a missão que lhe foi dada.

Promovendo uma ligeira desconstrução nos elementos já estabelecidos dessa série cinematográfica (mas, usando essa mesma desconstrução para enfatizar esses elementos e ainda trazer revelações curiosas sobre sua mitologia alienígena), “Terras Selvagens” ostenta o mesmo bom senso que norteou roteiro e direção dos dois projetos anteriores, embora tenham havido críticos detratores que não aprovaram a tentativa de fazer do próprio alienígena Yautja uma figura mais próxima, mais identificável (tirando, segundo eles, muito da atmosfera fascinante que cercava os personagens), os realizadores não deixaram de entregar uma vibrante aventura de ficção científica.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Compramos Um Zoológico


 Em algum momento depois da aclamação pra lá de merecida de “Quase Famosos”, o cinema de Cameron Crowe ameaçou sair dos trilhos. Esse curioso processo começou com a refilmagem de “Abra Los Ojos”, “Vanilla Sky”, e prosseguiu em excessos mais ou menos prejudiciais que apareceram em obras como “Tudo Acontece Em Elizabethtown”, de 2005, e “Compramos Um Zoológico”, de 2011, exatos seis anos depois –o intervalo se deu por Crowe dedicar esse tempo realizando o documentário “Pearl Jam 20 Twenty”.

Inspirado em uma história real, “Compramos Um Zoológico” é lisérgico na liberdade plena com que Crowe, diretor e roteirista (escrevendo em conjunto com Aline Brosh McKenna, roteirista de “O Diabo Veste Prada”), consegue imprimir na tela sua visão descolada, romântica e embriagante sobre o mundo, o amor e a vida.

É essa abordagem, exacerbada de alto astral, que Crowe confere à trajetória de Benjamin Mee (o sempre comprometido Matt Damon), um viúvo recente, mergulhado na auto-piedade de seu luto que recebe (muitas vezes até demais!) de todos os coadjuvantes a sua volta, indícios de que a vida é, sim, muito bela –sendo o mais expressivo deles o irmão interpretado pelo ótimo Thomas Alden Church.

Cedendo de uma forma um tanto torta às insistências de recomeçar, Mee, ao lado dos dois filhos, o adolescente Dylan (o apático Colin Ford) e a pequena Rosie (Maggie Elizabeth Jones), compra um zoológico depauperado e decadente em vias de ser fechado e resolve transformar sua recuperação numa espécie de cruzada pessoal à qual dedicar-se.

Para efeitos práticos do expediente da ficção, há nesse zoológico –dentre as inúmeras figuras peculiares em seu humor e sua galhofa pueril que Crowe tem por hábito criar –duas garotas, uma mais velha (vivida por Scarlett Johansson, ótima atriz que merecia uma personagem mais relevante) e uma mais jovem (vivida por Elle Fanning) que, sem maiores esforços para se disfarçar, lá estão posicionadas para ser o infalível interesse romântico, respectivamente, do protagonista Mee e de seu filho Dylan.

Desprovido do equilíbrio fascinante entre trama bem escrita, emoções austeramente calibradas e construção sensata de narrativa presente nas melhores obras de Crowe, “Compramos Um Zoológico” oscila entre desmedida ingenuidade e excessiva sacarose, em sequências que soam quase intoleráveis aos expectadores menos adeptos do romantismo muito particular exercido pelo diretor.

A questão bastante admirável no fato de ser inspirado num fato real, e ainda assim guardar elementos que flertam o tempo todo com o improvável e o mirabolante, acaba ficando para escanteio diante da atmosfera tão agridoce que ele imprime.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Quebra-Nozes


Clássico infantil assombrado pelo viés elitista e culto que sempre o envolveu, o “Quebra-Nozes” ganhou em 2010 do diretor Andrei Konchalovsky uma adaptação esmerada (empenhada, inclusive em preencher arestas então despercebidas de sua premissa; ganhando assim o sub-título “A História Não Contada”) e que não consegue escapar do entrave que normalmente faz dele algo inacessível: A erudição e as músicas clássicas que intervêm numa narrativa supostamente infantil.
As crianças não têm paciência com música clássica –daí o fato de “Fantasia”, de Walt Disney, ser normalmente mais apreciado pelo público adulto.
Konchalovsky até busca engendrar um meio que moldar tais músicas ao andamento natural do roteiro, mas, sua pouca experiência para com o melindroso gênero musical o trai: Os atores, no geral, não ocultam um ocasional constrangimento durante as cantorias; as músicas não resultam envolventes ou interessantes o bastante para justificar sua inserção nas passagens que se seguem; e o arranjo do desenho de som com a trilha sonora se revela frouxo e redundante.
Entretanto, o diretor também consegue agregar alguns valores positivos ao filme, o que contribui para um equilíbrio mais razoável no seu resultado final.
Na Áustria, a garota Mary (Elle Fanning, um dos acertos do filme) é sonhadora, no que recebe um paternal incentivo de seu Tio Albert (Nathan Lane), em contraponto à frieza indiferente –e ocasionalmente rude –do pai (Richard E. Grant).
Tio Albert, como ficará claro, não somente é um personagem catalisador da trama –a despeito de ser coadjuvante –como é, o próprio Albert Einstein (!), num arranjo que, embora divertido, não encontra maiores propósitos.
Ganhando de presente dele um boneco quebra-nozes, Mary se depara, na noite de Natal, com seu brinquedo vivo e falando (!), afirmando para ela que todas as coisas inanimadas estão, na realidade vivas, como seus brinquedos da casa de bonecas ou os adereços da árvore de Natal. Conduzida pelo Quebra-Nozes, a menina toma conhecimento de um reino cujo príncipe de direito foi transformado por maldição num boneco de madeira –o próprio Quebra-Nozes –e terminou destituído por um Rei Rato (John Turturro, impagável) com auxílio da feitiçaria de sua mãe (Frances de La Tour, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”).
A chegada de Mary ao reino simboliza a presença de alguém capaz de quebrar a maldição e dar novo rumo à disputa pelo reino.
Embora haja zelo no aspecto aventuresco da narrativa, o diretor encontra complicações no excesso de personagens (que ganham diálogo longos que isolam suas cenas uns dos outros) e na premissa algo intrincada acerca da tentativa dos “ratos” em tentar ocultar indícios de seu mundo na ‘realidade’, fazendo com que os minutos que passam drenem pouco a pouco a vontade do expectador em chegar ao fim.
Se esse aspecto narrativo se revela falho, a concepção de arte, com um desenho de produção quase cyberpunk, possui momentos inspirados que valorizam as cenas de ação em especial as transcorridas no clímax do filme, e acabam salvando um pouco da diversão.
Por isso mesmo, uma produção curiosa e desigual, fadada a ganhar cada vez mais obscuridade na memória cinéfila.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O Estranho Que Nós Amamos

Eu ainda não vi o filme clássico estrelado por Clint Eastwood e dirigido por Don Siegel, o que considero um grave lapso de minha parte: Isso torna impossível estabelecer, por enquanto, uma comparação entre os dois trabalhos, que acredito, devem ser contrastantes.
Avaliando o filme de Sofia Coppola por si só, é uma obra que reflete muito da própria diretora, seja tematicamente, seja esteticamente.
Como sempre, Sofia pegou um material e dele fez algo seu.
A trama começa com a pequena Amy (Oona Laurence) caminhando despreocupada por um bosque a colher cogumelos. O registro lúdico, a escolha criteriosa dos enquadramentos, o ritmo controlado –tudo já remete ao estilo já conhecido de Sofia onde ela privilegia a contemplação.
Esse estilo persiste e permanece ao longo do filme, quando Amy encontra, ferido e fraco, o Cabo John McBurney (Colin Farrell, no que eu deduzo ser uma escolha deliberadamente destoante em relação à Clint Eastwood no filme original).
O soldado –ianque e, portanto, vindo do lado inimigo –pede ajuda à menina que o leva à mansão, uma escola sulista para meninas administrada pela enérgica Srta. Martha Fansworth (Nicole Kidman, sempre competente) que recebe o enfermo com relutância, e uma empolgação mais bem disfarçada do que as demais. Lá cercado por sete mulheres –além da Srta. Fansworth e Amy, a professora Edwina Morrow (Kirsten Dunst, que foi dirigida por Sofia em “As Virgens Suicidas” e “Maria Antonieta”), e as jovens Alicia (Elle Fanning, dirigida por Sofia em “Um Lugar Qualquer”), Jane (Angourie Rice, de “Dois Caras Legais”), Emily (Emma Howad) e Mary (Adisson Riecke) –McBurney desperta um sentimento de euforia contida em geral, e reações mais distintas e particulares em cada uma.
Não tarda ao soldado, desejoso de ali permanecer, valer-se de um estratagema para seduzir, por assim dizer, cada uma delas: À Srta. Fansworth, ele proporciona adulação e reconhecimento por suas responsabilidades; à Edwina, ele deixa implícito aquilo que ela anseia (e em sua expressão amargurada concluiu que jamais teria), amor; à Alicia, e seus olhares lascivos de provocação, ele dá sutil encorajamento; à Jane e as meninas mais novas, ele provém elogios à suas virtudes e uma presença masculina para apreciarem.
O trabalho de Sofia, e sua inerente atenção às sutilezas, dá ênfase ao ponto de vista feminino –segundo consta, oposto do que ocorre no filme de Don Siegel –e, por conseqüência, isso muda bastante o filme. Muda sua proposta. Muda sua intenção. E, no fim, muda sua reflexão.
Sofia administra uma guinada ao deixar claras as conseqüências para McBurney –até então, bem-sucedido em prevalecer na alta conta das mulheres –quando, em sua ciranda psicológica na tentativa de satisfazer e manipular a todas, ele erra o passo e paga muito caro por isso.
Ao contrário do que Don Siegel parece fazer em seu filme –onde dizem, ele enfatiza o sofrimento de McBurney e potencializa o poder castrador da mulher –aqui, Sofia Coppola vilaniza o próprio McBurney por meio da metamorfose que as circunstâncias operam na situação e, assim sendo, ela se aproxima da aflição de suas protagonistas na hesitante tentativa de pôr em prática seu plano final.

domingo, 21 de maio de 2017

Demônio de Neon

Incompreendido: Essa talvez seja a definição mais adequada para o novo trabalho do diretor Nicolas Winding Refn que, cada vez mais confortável no rótulo de autor, fez uma de suas mais desafiadoras obras para o público.
“Demônio de Neon” começa acompanhando os passos da misteriosa e intrigante Jesse (Elle Fanning, ostentando um sex-appeal que ela já sinalizava em seus trabalhos com idade mais tenra como “Uma Lugar Qualquer” e “Super 8”).
Sem família e sem eira nem beira, Jesse quer destacar-se como modelo profissional no competitivo ambiente de Los Angeles e, de fato, sua beleza genuína e incomum não tarda a lhe proporcionar oportunidades, assim como também atrai a inveja de duas colegas (Bella Heathcote e Abbey Lee) e interesse da maquiadora Ruby (Jena Malone) que, combinados, representarão certo perigo para ela.
É um conto aflitivo, frio e visualmente exuberante este que Winding Refn compôs. Sua câmera e sua paleta de cores parecem incorporar (ou ao menos sugerir) os aspectos mais horrendos do ser humano, em curiosa oposição à beleza acachapante e opressora que predomina nas imagens. Assim sendo, ele inicia sua narrativa atento aos ressentimentos mundanos de ordem mais íntima facilmente ocultos através das aparências, mas gradualmente atinge atos inquietantes que aproximam esta obra, de fato, de um filme de terror (incluindo aí o canibalismo!) –embora ele nunca deixe de ser incategorizável.
Esse jogo de imagens e antíteses justapostas se evidencia no começo, quando as duas primeiras cenas de diálogo mais relevantes se sucedem, ambas, numa justaposição de reflexos de espelhos.
O que se segue a partir daí é uma sucessão de momentos transcorridos numa dimensão abstrata através da qual o diretor colhe imagens de absurdo alegórico e composição minimalista e refinada, extraindo constante estranheza: De aspecto metafórico, sobretudo, parecem ser as cenas ocorridas no motel onde Jesse se hospeda –um puma surge do nada do apartamento dela (!!!) –ocasionadas pela presença ameaçadora e invasiva de um gerente pernicioso e diabólico (Keanu Reeves, surpreendendo num papel sombrio e perigoso).
É verdade que Elle Fanning, talentosa, carismática e graciosa, sustenta sozinha grande parte do filme, e é verdade também que esse é um de seus grandes problemas, visto que a guinada radical, inesperada, macabra e anti-climática que ocorre em seus vinte minutos finais deixa de lado a protagonista (no que pode, ou não, ser uma referência de Winding Refn à “O Eclipse”, de Michelangelo Antonioni) para transcorrer em cenas de tom quase aleatório, até minguar num final estranho e inconcluso.
Se Winding Refn experimentou, em seus dois projetos anteriores a aclamação (com o magnífico “Drive”) e a indiferença (com o mediano “Só Os Deuses Perdoam”), com este “Demônio de Neon” ele descobriu uma incompreensão extrema da parte de público e crítica, ultrajados com o retrato superficial e rancoroso que ele faz do mundo fashion. Esses hiperlativos, somados à obra profundamente desigual que este filme é, fazem dele o mais absoluto cult-movie de sua carreira.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Trumbo - Lista Negra

Um daqueles trabalhos de se ampara quase que integralmente no primor de seu ator principal (e o magnífico Bryan Cranston é um suporte espetacular diga-se de passagem), esta obra, apesar de tudo, representa um salto e tanto de sofisticação para seu diretor, o possivelmente subestimado Jay Roach: Ele finalmente começa a fazer para o cinema a transição que havia feito na TV –e que lá rendeu-lhe larga consagração; exclusivamente televisivos foram o ótimo “Recontagem”, e o ainda melhor “Virada de Jogo”, com Julianne Morre.
Todas obras pertinentes e de postura séria, reveladoras de um diretor preocupado e atento aos meandros numerosos dos pormenores que compõem a política, e que afetam a vida do cidadão comum.
E no cinema, o quê Jay Roach fez?
Comédias rasteiras, divertidas é verdade, mas vulgares até, do porte de “Entrando Numa Fria” (aquele com Robert De Niro e Ben Stiller) ou “Os Candidatos” (com Will Ferrel).
Dava a impressão que Roach reservava sua faceta de cineasta mais sério, mais ambicioso e mais capaz para a TV.
Com “Trumbo” ele parece finalmente harmonizar essas duas metades distintas como realizador num longa-metragem cinematográfico. Há humor aqui também, mas é um humor empregado com minúcia e astúcia, feito mais para pontuar o andamento da narrativa e dela não fazer um desafio enfadonho ao expectador, assim como serve igualmente para salientar uma das muitas características notáveis de seu biografado.
Uma correção: “Trumbo” não é exatamente uma biografia.
Roach apropria-se do trecho mais significativo da vida do roteirista Dalton Trumbo, para com isso construir uma trama pulsante sobre o direito à liberdade de expressão: O período no qual, logo após ser contratado por um estúdio por um valor recorde, ele é incluído na famigerada ‘lista negra’ na Hollywood dos anos 1940, quando uma paranóia anticomunismo gerada a partir do fim da Segunda Guerra Mundial deu início à Guerra Fria e a uma chamada ‘caça às bruxas’ nos EUA.
Trumbo, comunista convicto e declarado, logo se torna persona non grata em Hollywood (sendo encarcerado, inclusive!) a despeito de seu talento sem igual como escritor e de sua considerável retidão moral como ser humano. Nessa condição, ele se vê obrigado a usar pseudônimos ou outras pessoas para assinar seus roteiros que, independente disso, conquistam grande sucesso chegando até a ganhar (em dois casos específicos: “A Princesa e O Plebeu” e “Arenas Sangrentas”), o Oscar da Categoria –os quais ele ficou anos se poder receber!
Esses percalços (cadeia, empobrecimento e árdua redenção), assim como os de sua família, são mostrados ao longo de décadas. Em meio à essa jornada, Roach não tem pudor em eleger Bryan Cranston como nosso condutor, plenamente consciente da sintonia incomum que ele conquista com o papel –não só é um trabalho de primorosa reconstituição gestual, como também é uma atuação brindada por trejeitos planejados e organizados com carinho e zelo, emoldurando assim as frases espirituosas e afiadas que ele dizia.
Felizmente, o elenco de apoio consegue refletir a competência de um protagonista tão bom (caso contrário, o filme padeceria de um incômodo desequilíbrio): Diane Lane, ainda linda e pontual, como sua esposa, Cleo; Elle Fanning, doce e expressiva, como sua filha, Nikola; Helen Mirren, britanicamente perversa como Hedda Hopper; Michael Stuhlbarg como Edward G. Robinson; Louis C.K. como Arlen Hird; e John Goodman como Frank King.
Agora é só aguardar e torcer para que este filme acertado, fluido e prazeroso seja apenas o primeiro de várias outras obras cinematográficas que venham a revelar o cineasta completo que é Jay Roach.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Um Lugar Qualquer

Ah, Sofia Coppola... dona de um estilo de filmar tão íntimo e delicado, tão atento aos pequenos detalhes que passam despercebidos em meio ao transcorrer corriqueiro da vida, e tão diferenciado do tom épico normalmente associado ao seu pai, Francis Ford.
Sofia busca capturar impressões. Suas cenas traduzem a percepção fugaz e etérea de momentos em transe, de instantes contemplativos que se transformam em alguma coisa mais indefinível. Essa indefinição é o que fascina Sofia, e ela vem, às vezes, do próprio tédio, da tristeza, do deslocamento. Disso tudo e de mais um pouco.
Unindo todas essas impressões, ela cria cenas que conduzem sua narrativa e contam sua história.
Havia uma busca paulatina por esse estilo em “As Virgens Suicidas”. Busca, essa, que foi amplamente feliz, consumada e bem-sucedida em “Encontros e Desencontros”.
Esse estilo se expressa até mesmo num trabalho menos autoral –feito muito mais à sombra do pai (e daquilo que o pai dela esperava) –em “Maria Antonieta”.
Quando chegamos, portanto, em seu quarto trabalho como diretora, “Um Lugar Qualquer” (Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 2010), percebemos Sofia completamente consciente da cineasta que é, e da voz que encontrou (e do quê deseja dizer com ela).
Não à toa é com “Encontros e Desencontros” que as similaridades deste filme se estreitam mais. Como naquela obra, temos um ator –neste caso mais jovem e ainda com sucesso –Johnny Marco (Stephen Dorf, longe de ser tão brilhante quanto Bill Murray), cuja alienada existência de badalação e futilidade lhe rouba toda a perspectiva de uma felicidade real, embora ele nem mesmo se dê conta disso.
Faíscas de um despertar desse vazio parecem surgir quando ele recebe a visita de sua filha pré-adolescente, Cleo (a encantadora Elle Fanning).
É não focar-se nela, e em seu pertinente drama de abandono e indiferença (com o qual, não duvido, Sofia deve ter forte identificação), o grande erro do filme: O foco é sempre Johnny Marco e sua imersão naquela vida de artista famoso com ampla margem para o tédio e o questionamento existencial.
Sofia fez, aqui, uma escolha: Sua intenção foi tentar repetir o sucesso de sua obra-prima, “Encontros...” ao invés de optar em ser fiel a si mesma, e nomear protagonista a única personagem que realmente lhe representava.
Do jeito que está, este filme singelo e algo alternativo funciona toda vez que Elle Fanning entra em cena. E como ela é uma coadjuvante, negligenciada por sua diretora tanto quanto por seus pais, isso não é o bastante.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O Curioso Caso de Benjamin Button

Existe um grupo seleto, e muito especial, de filmes que conseguem me levar às lágrimas a cada vez que eu os assisto. Entre eles, está “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Curiosamente, já vi muita gente torcer o nariz para este filme. A verdade é que o valor afetivo de um filme está no quanto ele significa para a pessoa que ali está assistindo. 
Dito isso, “Benjamin Button” é de uma beleza inebriante que eu reencontro toda a vez que o revejo. Não podia ser diferente nesta obra de David Fincher (desde sempre um de meus diretores prediletos) que assume o compromisso de calibrar à uma narrativa cinematográfica a inusitada sacada de um poema de F. Scott Fitzgerald: A história de um homem que nasce velho, e que ao longo da vida vai rejuvenescendo cada vez mais, seguindo assim o caminho inverso da condição humana. Dessa forma, enquanto as outras pessoas a sua volta ficam cada vez mais velhas, Benjamin fica cada vez mais jovem, e assim ele passa pela Segunda Guerra Mundial, pela chegada do homem a Lua, os anos 1960 e 1970. Sua história é descoberta no leito de um hospital por uma jovem que acompanha a doença da mãe em Nova Orleans, prestes a sofrer os efeitos do furacão Katrina. 
Colaboradores em filmes brilhantes e singulares do cinema (como “Seven-Os Sete Crimes Capitais” e “Clube da Luta”), Fincher e o astro Brad Pitt juntaram-se novamente para fazer um de seus mais desiguais trabalhos. Afinal, pouca coisa em seus primorosos trabalhos anteriores sinaliza uma obra tão emocionante, capaz de entrever as minúcias, os pequenos detalhes da vida, e a partir deles organizar todo um painel poético que deslumbra o expectador por pouco mais do que duas horas, um apanhado de imagens espetaculares feitas para preencher qualquer vazio da alma. 
Se "Seven" e "Clube da Luta" eram observações poderosas sobre as áreas lúgubres do subconsciente humano, “O Curioso Caso de Benjamin Button” é uma celebração ao fato de se estar vivo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Super 8

O filme de J. J. Abrahams está irmanado à todo um sub-gênero de outros filmes, como “Os Goonies” ou “E.T.-O Extraterrestre” que têm em Steven Spielberg seu realizador e representante maior (não à toa, ele aparece aqui como produtor executivo). 
“Super 8” é também a gratificante revelação do talento da doce Elle Fanning, fabulosa em diversas cenas que remetem à metalinguagem espirituosa que o filme quer abordar; e que termina sendo seu grande diferencial em relação aos filmes dos anos 1970 e 1980 que ele tanto referencia e reverencia. 
O ano é 1979. Quatro meses após a trágica morte da mãe, o jovem Joe Lamb (o adequado Joey Courtney) mantem uma relação de distância com o pai e de muita proximidade com seus quatro grandes amigos de infância, junto dos quais inocentemente está realizando um filminho curta-metragem com uma câmera super 8. À eles, junta-se a bela e inicialmente arredia Alice Daynard (Elle Fanning) que revela-se, como atriz, a peça que faltava para o filme ficar completo. Todas essas questões, porém, se transformam quando o grupo de jovens testemunha um espetacular acidente de trem, que parece libertar de seus vagões algo desconhecido e, ao que tudo indica, perigoso. 
Apesar da interessante trama envolvendo o alienígena (sim, este filme tem um!), e da mais interessante ainda envolvendo um recatado romance infanto-juvenil, este filme fascina pelos pequenos detalhes capturados com eficiência pelo diretor Abrahams, como o fato de viver uma infância sem traquinas tecnológicas como celulares ou internet; na qual para encontrar seu amigo, você efetivamente tinha que andar até a casa dele! São elementos que só podem ser devidamente capturados, ressaltados e idealizados por quem viveu e experimentou uma infância assim.
E é de extrema gentileza que J.J. Abrahams queira compartilhar tão boa sensação conosco. Melhor ainda, se ela vem emoldurada numa competente e empolgante aventura nostálgica.
Tudo leva a crer que o novo “Star Wars” está em excelentes mãos...