domingo, 9 de agosto de 2026

Predador - Terras Selvagens


 Durante muito tempo o público experimentou a sensação de que o clássico “O Predador”, de 1987, estrelado por Arnold Schwarzenegger e dirigido por John McTiernam, era de uma magia assim irreplicável: As suas continuações, derivados e reinvenções oscilavam entre obras honestas, porém, insuficientes (“Predador 2” e “Predadores”) e trabalhos absolutamente pífios (“O Predador”, de 2018, e “Alien X Predador”) e tão mais ridículos quando cediam à pretensão de superar o excelente filme original.

Em 2022, contudo, algo mudou; ao ser confiado ao jovem Dan Trachtenberg (do ótimo “Rua Cloverfield, 10”) a franquia finalmente mostrou o mesmo potencial de seu primeiro filme em “O Predador-A Caçada”, de lá para cá, dentro desse redescoberto universo, Trachtenberg entregou uma instigante obra de animação (“Predador-Assassino de Assassinos”) e, em seguida, o que talvez tenha sido sua mais ambiciosa cartada com este “Predador-Terras Selvagens”.

A primeira e surpreendente manobra do filme é a forma como escolhe, desta vez, o seu protagonista: Não mais um humano a ser confrontado com a famigerada espécie alienígena de caçadores interplanetários, agora, o personagem principal é Dek (vivido sob quilos de maquiagem pelo dublê Dimitrius Schuster-Koloamatangi), um espécime jovem dessa mesma raça de caçadores interplanetários! Num lance um tanto ousado, o filme de Trachtenberg converte o que antes era o antagonista (aparentemente, a regra implícita imutável de todos os filmes até aqui) no protagonista. No processo, essa alteração permite jogar alguma luz em elementos da franquia que sempre estiveram ocultos no mistério –os procedimentos na sociedade dos alienígenas Yautja, seus costumes e sua hierarquia (até mesmo uma linguagem foi concebida para servir como idioma Yautja ao longo de todo filme).

Filho mais jovem e mais fraco (lapso do qual é o tempo todo lembrado), Dek, sendo um membro da brutal raça dos Yautja tem somente uma escolha: Provar seu valor ou ser morto. Na realidade, não chega nem a ser muito uma escolha: Se dependesse de seu implacável pai, ele seria morto instantaneamente (!), é seu irmão mais velho, Kwei, quem sacrifica-se para que Dek consiga partir a bordo de uma nave para o planeta Genna, de onde só poderá voltar com um troféu que prove sua força –a cabeça de um monstro jamais caçado, o Kalisk.

O planeta Genna, no entanto, tem sua fauna e flora convertidas num emaranhado de armadilhas mortais –sendo o Kalisk apenas a mais ameaçadora de todas elas!

Mal conseguindo sobreviver às primeiras horas de sua chegada por lá, Dek encontra os restos mortais de uma androide chamada Thia (Elle Fanning), cuja metade do corpo da cintura para baixo –ela perdeu justamente num encontro com o Kalisk.

Thia é, por sinal, um autômato enviado pela empresa terrestre Weyland-Yutani (a mesma empresa que surge em “Alien X Predador”, em “Alien-Romulus”, na série “Alien-Earth” e em diversas outras produções dessas franquias) para explorar e coletar vários espécimes do planeta em geral, e o Kalisk em particular.

Ela e Dek estabelecem uma tênue parceria –ele a ajuda a encontrar o restante do seu corpo para ficar completa e ela o guia ao paradeiro do Kalisk –entretanto, o verdadeiro problema é mesmo Tessa, a androide ‘irmã’ de Thia (também ela interpretada por Elle Fanning, saindo-se maravilhosamente bem na composição de duas personagens de índoles opostas), de atitude fria, implacável e impiedosa que eliminará qualquer um em seu caminho para concluir a missão que lhe foi dada.

Promovendo uma ligeira desconstrução nos elementos já estabelecidos dessa série cinematográfica (mas, usando essa mesma desconstrução para enfatizar esses elementos e ainda trazer revelações curiosas sobre sua mitologia alienígena), “Terras Selvagens” ostenta o mesmo bom senso que norteou roteiro e direção dos dois projetos anteriores, embora tenham havido críticos detratores que não aprovaram a tentativa de fazer do próprio alienígena Yautja uma figura mais próxima, mais identificável (tirando, segundo eles, muito da atmosfera fascinante que cercava os personagens), os realizadores não deixaram de entregar uma vibrante aventura de ficção científica.

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