sábado, 6 de junho de 2026

Bugonia


 Sem jamais abandonar um estilo idiossincrático de moldar obras desiguais, desconfortáveis, quase sempre perturbadoras (característica que fez chamar a atenção para si no cinema de sua Grécia-natal), o diretor Yorgos Lanthimos conseguiu conquistar a colaboração de improváveis aliados (como a estrela Emma Stone, aqui na quarta parceria com o diretor) e uma parcela do público e da crítica que sempre parecem entusiasmados com mais um novo atrevimento do mesmo realizador de “A Favorita”.

Etimologicamente falando, o título de “Bugonia” surgiu das expressões gregas, Boures (boi) e Góné (geração), significando a geração, o surgimento de insetos como moscas ou abelhas a partir de uma carcaça de boi em decomposição.

“Bugonia”, em princípio, parece se debruçar sobre um absurdo sem precedentes: Os primos Teddy Gatz (o ótimo Jesse Plemmons) e Don (o ator autista Aidan Delbis) são a própria personificação de norte-americanos alienados; creem em teorias da conspiração e tem recursos e disponibilidade para pôr algumas de suas sandices em prática. Teddy passa seu tempo livre cuidando de abelhas como apicultor (atenção a este detalhe!) e também trabalha como operário numa empresa do conglomerado farmacêutico Auxolith. Ele acredita piamente que a CEO, Michele Fuller (Emma Stone), é uma alienígena enviada à Terra com um plano contundente para capitanear uma invasão gradual e insidiosa.

Seu plano é, portanto, sequestra-la, com o auxílio de Don, (e sua convicção para isso é tanta que chegam a ingerir um castrador químico para que não sejam afetados pela presença feminina da refém!) e durante o cárcere extrair dela (nem que seja sob tortura!) os meios para teleportar-se à sua nave-mãe (!), onde haverão de encontrar um meio de sabotar a invasão alienígena (!!). O enredo, em sua descrição, parece pertencer à uma comédia de ficção científica ou algo minimamente próximo disso, entretanto, a direção de Yorgos Lanthimos o transforma em algo completamente diferente.

Refilmado e reimaginado a partir do filme sul-coreano “Save The Planet Green” (ou “Jigureul Jikyeora!”, no idioma original), lançado em 2003 (este, sim, uma comédia de ficção científica de fato, infinitamente menos sombrio e pessimista que este daqui), “Bugonia” reflete sobre os indivíduos de índole escorregadia e de convicções questionáveis que surgem a partir de sociedades cujos valores entram numa espécie de apatia. Logo, é uma habilmente disfarçada reflexão sobre as arestas não aparadas dessa América de Trump que Lanthimos nos entrega.

Os realizadores de “Save The Planet Green” (jamais lançado aqui no Brasil, infelizmente) afirmaram que tiveram a ideia do enredo básico ao assistirem o filme “Louca Obsessão”, o que os deixou insatisfeitos devido à falta de profundidade explorada na personagem da sequestradora; em “Save The Planet Green”, eles tomaram a decisão de conceber um roteiro sob o ponto de vista torpe do próprio sequestrador. Isso, aliado à uma notícia da internet (onde uma teoria da conspiração cogitava a possibilidade do astro Leonardo Dicaprio ser um alienígena!) rendeu a ideia que, por fim, se tornou “Save The Planet Green”.

No entanto, se naquele filme, os realizadores sul-coreanos fizeram uma alucinada comédia de humor negro, aqui, em “Bugonia”, o diretor Lanthimos tece uma obra de conotações mais desafiadoras: Ele justapõe personagens brilhantemente bem escritos (a CEO implacável ainda que paradoxalmente indefesa de Emma Stone e o sequestrador ignorante de Jesse Plemmons potencialmente perigoso justamente por sua ignorância) num duelo de convicções e num constante e mutável jogo de negociação entre verdade, determinação e duplicidade.

O desfecho de “Bugonia”, com seu desconcertante plot twist reforça a observação impiedosa que Yorgos Lanthimos sempre fez da condição humana: Se, como na crença da Antiguidade, a raça humana emergiu das carcaças de outra espécie assim neutralizada (os dinossauros), através do fenômeno da Bugonia, de novo isso torna a acontecer, agora, com a raça humana, moribunda em seus conceitos falhos e no fato de que plantou as sementes para a própria auto-destruição, originando talvez uma nova forma de vida, dando continuidade ao ciclo.

Ainda que altamente irônico e cruel, esse talvez seja o mais perto de algum otimismo que o diretor Yorgos Lanthimos seja capaz de chegar.

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