Sem jamais abandonar um estilo idiossincrático de moldar obras desiguais, desconfortáveis, quase sempre perturbadoras (característica que fez chamar a atenção para si no cinema de sua Grécia-natal), o diretor Yorgos Lanthimos conseguiu conquistar a colaboração de improváveis aliados (como a estrela Emma Stone, aqui na quarta parceria com o diretor) e uma parcela do público e da crítica que sempre parecem entusiasmados com mais um novo atrevimento do mesmo realizador de “A Favorita”.
Etimologicamente falando, o título de “Bugonia”
surgiu das expressões gregas, Boures
(boi) e Góné (geração), significando
a geração, o surgimento de insetos como moscas ou abelhas a partir de uma
carcaça de boi em decomposição.
“Bugonia”, em princípio, parece se debruçar
sobre um absurdo sem precedentes: Os primos Teddy Gatz (o ótimo Jesse Plemmons)
e Don (o ator autista Aidan Delbis) são a própria personificação de
norte-americanos alienados; creem em teorias da conspiração e tem recursos e
disponibilidade para pôr algumas de suas sandices em prática. Teddy passa seu
tempo livre cuidando de abelhas como apicultor (atenção a este detalhe!) e
também trabalha como operário numa empresa do conglomerado farmacêutico
Auxolith. Ele acredita piamente que a CEO, Michele Fuller (Emma Stone), é uma
alienígena enviada à Terra com um plano contundente para capitanear uma invasão
gradual e insidiosa.
Seu plano é, portanto, sequestra-la, com o
auxílio de Don, (e sua convicção para isso é tanta que chegam a ingerir um
castrador químico para que não sejam afetados pela presença feminina da refém!)
e durante o cárcere extrair dela (nem que seja sob tortura!) os meios para
teleportar-se à sua nave-mãe (!), onde haverão de encontrar um meio de sabotar
a invasão alienígena (!!). O enredo, em sua descrição, parece pertencer à uma
comédia de ficção científica ou algo minimamente próximo disso, entretanto, a
direção de Yorgos Lanthimos o transforma em algo completamente diferente.
Refilmado e reimaginado a partir do filme
sul-coreano “Save The Planet Green” (ou “Jigureul Jikyeora!”, no idioma
original), lançado em 2003 (este, sim, uma comédia de ficção científica de
fato, infinitamente menos sombrio e pessimista que este daqui), “Bugonia”
reflete sobre os indivíduos de índole escorregadia e de convicções
questionáveis que surgem a partir de sociedades cujos valores entram numa
espécie de apatia. Logo, é uma habilmente disfarçada reflexão sobre as arestas
não aparadas dessa América de Trump que Lanthimos nos entrega.
Os realizadores de “Save The Planet Green”
(jamais lançado aqui no Brasil, infelizmente) afirmaram que tiveram a ideia do
enredo básico ao assistirem o filme “Louca Obsessão”, o que os deixou
insatisfeitos devido à falta de profundidade explorada na personagem da
sequestradora; em “Save The Planet Green”, eles tomaram a decisão de conceber
um roteiro sob o ponto de vista torpe do próprio sequestrador. Isso, aliado à
uma notícia da internet (onde uma teoria da conspiração cogitava a
possibilidade do astro Leonardo Dicaprio ser um alienígena!) rendeu a ideia
que, por fim, se tornou “Save The Planet Green”.
No entanto, se naquele filme, os realizadores
sul-coreanos fizeram uma alucinada comédia de humor negro, aqui, em “Bugonia”,
o diretor Lanthimos tece uma obra de conotações mais desafiadoras: Ele justapõe
personagens brilhantemente bem escritos (a CEO implacável ainda que
paradoxalmente indefesa de Emma Stone e o sequestrador ignorante de Jesse
Plemmons potencialmente perigoso justamente por sua ignorância) num duelo de
convicções e num constante e mutável jogo de negociação entre verdade,
determinação e duplicidade.
O desfecho de “Bugonia”, com seu desconcertante
plot twist reforça a observação
impiedosa que Yorgos Lanthimos sempre fez da condição humana: Se, como na
crença da Antiguidade, a raça humana emergiu das carcaças de outra espécie
assim neutralizada (os dinossauros), através do fenômeno da Bugonia, de novo
isso torna a acontecer, agora, com a raça humana, moribunda em seus conceitos
falhos e no fato de que plantou as sementes para a própria auto-destruição,
originando talvez uma nova forma de vida, dando continuidade ao ciclo.

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