A concepção do desenho animado “He-Man e Os Mestres do Universo” já é uma história bastante difundida na cultura pop – a de que a Mattel (empresa fabricante de “Barbie”) recusou a proposta (que mais tarde se provou milionária) de um certo George Lucas para fazer uma linha de brinquedos baseada em seu filme “Star Wars”. Com o sucesso da concorrência, a Mattel correu atrás do prejuízo tentando lançar sua própria linha de brinquedos infanto-juvenis baseado numa obra de fantasia. A ideia de fazer isso com “Conan” (personagem que vinha fazendo sucesso com o filme live-action de 1982) não vingou porque o personagem era desde a gênese deveras violento para crianças pequenas, contudo, executivos notaram que bastava mudar a cor do cabelo do personagem principal (alterado do preto para o loiro, causando um ligeiro estranhamento em contraste com a pele bronzeada) e havia toda uma linha inédita e original de brinquedos.
Sem uma obra prévia de introduzisse o conceito
para as crianças consumidoras do brinquedo, a Mattel produziu breves histórias
em quadrinhos que acompanhavam os bonecos a fim de lhes proporcionar um background, no entanto, logo seguiu-se a
ideia de produzir toda uma série de animação (a cargo da produtora Filmation)
que se encarregasse de mostrar ao público-alvo toda a mitologia concebida a
partir dos bonecos – uma prática que, dado o estrondoso sucesso, tornou-se
regra mercadológica nos anos 1980.
A fim de contornar as críticas – que apontavam
o desenho como uma mera propaganda de marketing estendida, visando apenas
divulgar um produto – os produtores acrescentaram, ao fim de cada episódio de “He-Man
e Os Mestres do Universo”, uma breve mensagem moral.
E o resto, para você que tem por volta de seus
40 e tantos anos, é História.
Toda essa volta é para contextualizar as
circunstâncias inusitadas por meio das quais surgiu uma das obras mais
emblemáticas para quem foi criança nos anos 1980, e que culminou no filme “Mestre
do Universo” lançado agora em 2026.
Não foi a primeira adaptação cinematográfica, é
bom dizer: Lançado em 1987, pela produtora picareta Cannon Films, “Mestres do
Universo” trazia Dolph Lundgreen escalado como He-Man numa trama cujo
baixo-orçamento não permitia fidelidade absoluta ao desenho animado (uma mescla
exultante entre fantasia e ficção científica) e que acabava adotando como ambientação
um subúrbio qualquer de Nova York (!). Apesar dos lapsos imensos de produção,
esse filme, hoje, é lembrado com carinho como uma espécie de ‘prazer culposo’.
Mas, vamos falar do filme de 2026.
Nele, o planeta Etérnia – lar dos personagens e
palco dos embates entre o Bem e o Mal – surge materializado por efeitos
especiais de ponta. O reino governado pelo rei Randor (James Purefoy) e pela
rainha Marlena (Charlotte Riley, de “No Coração do Mar”) que, diga-se, veio da
Terra, é detentor do lendário Castelo de Greyskull, cujos poderes encontram-se
depositados na Espada do Poder, a ser empunhada, segundo a sábia Feiticeira (Morena
Baccarin) por seu vindouro campeão. Todavia, surgem as forças do Mal
manifestadas no perverso Esqueleto (Jared Leto) que ataca o reino, aprisiona o
rei e a rainha, e ainda oprime todo o povo, almejando tomar para si os poderes
de Greyskull. Isso só não acontece porque o príncipe Adam, ainda uma criança,
sob a orientação da Feiticeira, é enviado junto da espada para o planeta Terra,
outrora lar de sua mãe.
Mas, Adam acaba perdendo a espada (sua conexão
com o mundo de Etérnia), levando cerca de quinze anos para reencontrá-la – e então,
após esse salto temporal, já vemos Adam vivido por Nicholas Galitzine (de “Uma Ideia de Você”), o novo intérprete do personagem.
Embora essa primeira parte forneça uma
apresentação simbólica e tenha uma função narrativa de origem para dar o pontapé
inicial no enredo, muitos fãs torceram o nariz para essa ambientação na Terra,
recordando das escolhas um tanto equivocadas do filme de 1987 (ainda que isso
também abra espaço para uma divertida participação especial do próprio Dolph
Lundgreen em pessoa). Contudo, o trecho da Terra é rápido, elíptico até
(atropela até algumas informações importantes que podia ter fornecido do tempo
em que Adam ficou por aqui) e, quando menos se espera, o expectador já foi
devidamente arremessado de volta à Etérnia: Ao finalmente reencontrar sua
espada, Adam consegue trazer seus aliados para a Terra – na verdade, é Teela (a
maravilhosa brasileira Camila Mendes), sua amiga de infância, quem vem lhe
resgatar – e seus adversários também – ele é perseguido pelo bestial Homem-Fera!
Em Etérnia, Adam – que ainda está a se adaptar
aos poderes assim descobertos da espada – reencontra os guerreiros dos quais se
recordava na infância – personagens característicos e clássicos da animação
como o pai de Teela, Mentor (o sempre sensacional Idris Elba), Fisto (Jóhannes
Haukur, de “Atômica”), Aríete (Jon Xue Zhang), Mekaneck (James Wilkinson) e
Roboto (voz de Kristen Wiig) – que formam agora, uma resistência contra as
forças do Esqueleto. Não demora muito para Adam finalmente descobrir os meios que
a Espada do Poder tem para convertê-lo no poderoso He-Man (esse nome só é
revelado no desfecho) e fazer dele o tão aguardado Campeão de Etérnia, a fim de
livrar o povo do Esqueleto.
Desde exibições-testes preliminares já havia
surgido o comentário sobre a imensa semelhança deste projeto com “Thor-Ragnarok”
– e a similaridade, de fato, não parece ser por acaso, ela parece ser
proposital: Desde o colorido característico e nada sombrio dos efeitos visuais,
figurinos e direção de arte, passando pela trilha sonora que, entre outras
coisas, traz o guitarrista Brian May (do “Queen”!), até o próprio roteiro que não
economiza em referências e na famosa e apetecível fórmula de muita ação e
aventura mesclada ao humor inofensivo e ocasional (ainda que algumas piadas
revelem um duplo sentido), tudo nesta produção evoca o filme de Taika Waititi
em particular, e o estilo da Marvel Studios em geral.
A direção de Travis Knight (de “Bumblebee”) se
baseia integralmente na animação clássica da década de 1980 (com algumas poucas
menções às reinvenções que o próprio desenho sofreu ao longo dos anos) e
investe de ponta a ponta em nostalgia, buscando uma modernização por meio da
identificação e humanidade dos personagens, trazendo elementos motivacionais em
voga como empatia e sinergia (não à toa, o herói na Terra trabalhava no setor
de Recursos Humanos!). Até mesmo o vilão Esqueleto é representativo de uma
maldade translúcida, sem preocupações com um aprofundamento que lhe desvirtue
uma certa galhofa inerente ao personagem.

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