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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestres do Universo


 A concepção do desenho animado “He-Man e Os Mestres do Universo” já é uma história bastante difundida na cultura pop – a de que a Mattel (empresa fabricante de “Barbie”) recusou a proposta (que mais tarde se provou milionária) de um certo George Lucas para fazer uma linha de brinquedos baseada em seu filme “Star Wars”. Com o sucesso da concorrência, a Mattel correu atrás do prejuízo tentando lançar sua própria linha de brinquedos infanto-juvenis baseado numa obra de fantasia. A ideia de fazer isso com “Conan” (personagem que vinha fazendo sucesso com o filme live-action de 1982) não vingou porque o personagem era desde a gênese deveras violento para crianças pequenas, contudo, executivos notaram que bastava mudar a cor do cabelo do personagem principal (alterado do preto para o loiro, causando um ligeiro estranhamento em contraste com a pele bronzeada) e havia toda uma linha inédita e original de brinquedos.

Sem uma obra prévia de introduzisse o conceito para as crianças consumidoras do brinquedo, a Mattel produziu breves histórias em quadrinhos que acompanhavam os bonecos a fim de lhes proporcionar um background, no entanto, logo seguiu-se a ideia de produzir toda uma série de animação (a cargo da produtora Filmation) que se encarregasse de mostrar ao público-alvo toda a mitologia concebida a partir dos bonecos – uma prática que, dado o estrondoso sucesso, tornou-se regra mercadológica nos anos 1980.

A fim de contornar as críticas – que apontavam o desenho como uma mera propaganda de marketing estendida, visando apenas divulgar um produto – os produtores acrescentaram, ao fim de cada episódio de “He-Man e Os Mestres do Universo”, uma breve mensagem moral.

E o resto, para você que tem por volta de seus 40 e tantos anos, é História.

Toda essa volta é para contextualizar as circunstâncias inusitadas por meio das quais surgiu uma das obras mais emblemáticas para quem foi criança nos anos 1980, e que culminou no filme “Mestre do Universo” lançado agora em 2026.

Não foi a primeira adaptação cinematográfica, é bom dizer: Lançado em 1987, pela produtora picareta Cannon Films, “Mestres do Universo” trazia Dolph Lundgreen escalado como He-Man numa trama cujo baixo-orçamento não permitia fidelidade absoluta ao desenho animado (uma mescla exultante entre fantasia e ficção científica) e que acabava adotando como ambientação um subúrbio qualquer de Nova York (!). Apesar dos lapsos imensos de produção, esse filme, hoje, é lembrado com carinho como uma espécie de ‘prazer culposo’.

Mas, vamos falar do filme de 2026.

Nele, o planeta Etérnia – lar dos personagens e palco dos embates entre o Bem e o Mal – surge materializado por efeitos especiais de ponta. O reino governado pelo rei Randor (James Purefoy) e pela rainha Marlena (Charlotte Riley, de “No Coração do Mar”) que, diga-se, veio da Terra, é detentor do lendário Castelo de Greyskull, cujos poderes encontram-se depositados na Espada do Poder, a ser empunhada, segundo a sábia Feiticeira (Morena Baccarin) por seu vindouro campeão. Todavia, surgem as forças do Mal manifestadas no perverso Esqueleto (Jared Leto) que ataca o reino, aprisiona o rei e a rainha, e ainda oprime todo o povo, almejando tomar para si os poderes de Greyskull. Isso só não acontece porque o príncipe Adam, ainda uma criança, sob a orientação da Feiticeira, é enviado junto da espada para o planeta Terra, outrora lar de sua mãe.

Mas, Adam acaba perdendo a espada (sua conexão com o mundo de Etérnia), levando cerca de quinze anos para reencontrá-la – e então, após esse salto temporal, já vemos Adam vivido por Nicholas Galitzine (de “Uma Ideia de Você”), o novo intérprete do personagem.

Embora essa primeira parte forneça uma apresentação simbólica e tenha uma função narrativa de origem para dar o pontapé inicial no enredo, muitos fãs torceram o nariz para essa ambientação na Terra, recordando das escolhas um tanto equivocadas do filme de 1987 (ainda que isso também abra espaço para uma divertida participação especial do próprio Dolph Lundgreen em pessoa). Contudo, o trecho da Terra é rápido, elíptico até (atropela até algumas informações importantes que podia ter fornecido do tempo em que Adam ficou por aqui) e, quando menos se espera, o expectador já foi devidamente arremessado de volta à Etérnia: Ao finalmente reencontrar sua espada, Adam consegue trazer seus aliados para a Terra – na verdade, é Teela (a maravilhosa brasileira Camila Mendes), sua amiga de infância, quem vem lhe resgatar – e seus adversários também – ele é perseguido pelo bestial Homem-Fera!

Em Etérnia, Adam – que ainda está a se adaptar aos poderes assim descobertos da espada – reencontra os guerreiros dos quais se recordava na infância – personagens característicos e clássicos da animação como o pai de Teela, Mentor (o sempre sensacional Idris Elba), Fisto (Jóhannes Haukur, de “Atômica”), Aríete (Jon Xue Zhang), Mekaneck (James Wilkinson) e Roboto (voz de Kristen Wiig) – que formam agora, uma resistência contra as forças do Esqueleto. Não demora muito para Adam finalmente descobrir os meios que a Espada do Poder tem para convertê-lo no poderoso He-Man (esse nome só é revelado no desfecho) e fazer dele o tão aguardado Campeão de Etérnia, a fim de livrar o povo do Esqueleto.

Desde exibições-testes preliminares já havia surgido o comentário sobre a imensa semelhança deste projeto com “Thor-Ragnarok” – e a similaridade, de fato, não parece ser por acaso, ela parece ser proposital: Desde o colorido característico e nada sombrio dos efeitos visuais, figurinos e direção de arte, passando pela trilha sonora que, entre outras coisas, traz o guitarrista Brian May (do “Queen”!), até o próprio roteiro que não economiza em referências e na famosa e apetecível fórmula de muita ação e aventura mesclada ao humor inofensivo e ocasional (ainda que algumas piadas revelem um duplo sentido), tudo nesta produção evoca o filme de Taika Waititi em particular, e o estilo da Marvel Studios em geral.

A direção de Travis Knight (de “Bumblebee”) se baseia integralmente na animação clássica da década de 1980 (com algumas poucas menções às reinvenções que o próprio desenho sofreu ao longo dos anos) e investe de ponta a ponta em nostalgia, buscando uma modernização por meio da identificação e humanidade dos personagens, trazendo elementos motivacionais em voga como empatia e sinergia (não à toa, o herói na Terra trabalhava no setor de Recursos Humanos!). Até mesmo o vilão Esqueleto é representativo de uma maldade translúcida, sem preocupações com um aprofundamento que lhe desvirtue uma certa galhofa inerente ao personagem.

Em resumo, “Mestres do Universo” é uma obra recheada de boas intenções, personagens pra lá de carismáticos e uma mitologia tão atraente quanto mirabolante (ainda que, com isso, pese a mão em alguns momentos de drama ou de comédia), seu sucesso comercial – notadamente almejado no estilo um pouco pedante que evoca – pode abrir as portas para toda uma nova franquia nas telas de cinema (com desdobramentos sugeridos, inclusive, numa de suas três cenas pós-créditos). Um trabalho feito com coração, mas, não sem um mal disfarçado planejamento mercadológico, aliás, exatamente como o desenho animado que lhe deu origem.

sábado, 1 de abril de 2023

O Menino, A Toupeira, A Raposa e O Cavalo


 O grande vencedor do Oscar 2023 de Melhor Curta-Metragem de Animação é de uma delicadeza sem fim. Ele conta a história de uma criança, um garotinho (na voz de Jude Coward Nicoll) que surge numa planície tomada pela neve. Ele não tem casa e esse é o desejo que habita seu coração, como ele bem relata a uma pequena toupeira (voz de Tom Hollander) que logo aparece (os personagens do filme podem, todos, conversar entre si). Unidos em sua solidão, os dois dividem impressões abstratas e se tornam amigos.

Aos poucos, um terceiro indivíduo surge para rondá-los, é a Raposa (voz de Idris Elba), arredia, desconfiada, beligerante, no entanto, ao ficar presa numa armadilha, ela descobre que a Toupeira e o Menino são seus amigos e estão ali para ajudá-la. Ela passa a segui-los, incapaz de expressar seus bons sentimentos com tanta espontaneidade quanto os outros, embora tais sentimentos estejam lá –na concepção generosa, esperançosa e carregada de espirituosidade dos realizadores, nenhum ser da Criação é maldoso em sua essência.

Em sua peregrinação pela floresta do mundo, os três terminam encontrando o Cavalo (voz de Gabriel Byrne) a contribuir com sua altivez para o núcleo familiar que muito aos poucos eles parecem compor. O Cavalo, contudo, guarda uma grande e maravilhosa surpresa.

Dirigido por Charlie Mackesy e Peter Baynton, o curta traz algumas mensagens morais de grande simplicidade e expostas com incontornável transparência no arquétipo imediatamente relacionável de seus quatro protagonistas –e disso, tira toda sua força. Na dinâmica que constroem, os personagens expoem diferentes vulnerabilidades, todas acalentadas com gentileza e empatia pelos demais. O Menino é carente e quer morar em uma casa, mas, entre os amigos que descobriu nenhuma concepção de lar haverá de ser mais poderosa que a presença deles; a Toupeira se vê pequeno diante da vastidão do mundo à sua volta, mas, seus companheiros lhe deixam clara a diferença que ele faz; a Raposa é relutante, fechada e temerosa, mas compreende melhor que qualquer um a tenacidade para atravessar os revezes da vida e aguentar firme; e o Cavalo se sente só na inveja que teme despertar em seus pares, mas encontra nos outros três uma família que lhe oferece apoio e compreensão.

Feito de inesgotável amor incondicional, o filme de Mackesy e Baynton faz muito lembrar as lições preciosas deixadas pelo escritor Antoine de Saint-Exupéry em sua obra-prima literária “O Pequeno Príncipe” (e é baseado, também ele, num livro, lançado em 2019, pelo próprio Mackesy), contando, inclusive, com um fenomenal e característico aparato visual que transforma cada frame animado em um quadro de encanto sem igual, nesta obra de imensa qualidade, grandeza e humanismo.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Esquadrão Suicida


 Os percalços que levaram às telas esta nova versão de O Esquadrão Suicida são um exemplo das voltas que o mundo dá: Sucesso de público e fracasso de crítica (um fenômeno muito mais comum do que pode parecer), “Esquadrão Suicida”, dirigido por David Ayer, foi um dos muitos filmes que comprometeram a viabilidade do Universo Compartilhado da DC Comics almejado pela Warner Studios.

Era consenso geral que o trabalho de Ayer foi incapaz de capturar o sarcasmo necessário aos personagens –um grupo de heróis formado por vilões –o que transformou o filme numa sucessão de incoerências e frustrações, longe da intenção inicial de fazer dele uma espécie “Guardiões da Galáxia” da Distinta Concorrência. Contudo, quis o destino que James Gunn, justamente o cérebro por trás da originalidade palpitante daquele filme da Marvel Studios, ficasse em maus lençóis com os executivos da Disney devido ao aparecimento de twits polêmicos que ele escrevera muitos anos atrás. Demitido (por pouco tempo, já que foi recontratado), James Gunn ficou assim disponível para ser recrutado pela própria Warner Bros, que não pestanejou diante da oportunidade de ciscar no terreno do vizinho.

E assim, Gunn incumbiu-se de dirigir e roteirizar um novo “Esquadrão Suicida” que a um só tempo é continuação, reinvenção, derivado e reformulação do filme anterior (a única modificação no título é o acréscimo do artigo “O”). Sob muitos aspectos, ele deixa aquele filme completamente de lado para alçar voo próprio diante das possibilidades instigantes que descobre. Roteirista e diretor brilhante (anos-luz à frente de David Ayer, diga-se), James Gunn é um conhecedor intrínseco de histórias em quadrinhos, logo, ele compreende o contexto, a proposta e a dinâmica dos personagens reunidos em “O Esquadrão Suicida” de uma forma que David Ayer jamais conseguirá. E, como diretor, possuir também uma apurada percepção de cinema também ajuda muito.

Arrojado que só, “O Esquadrão Suicida” já começa num enquadramento de câmera absolutamente audacioso, mostrando Savant (Michael Rooker), um prisioneiro que, nos moldes dos personagens do filme anterior, é recrutado pela impiedosa Amanda Waller (Viola Davis que aqui não rouba a cena porque simplesmente todos estão sensacionais) para integrar o Esquadrão Suicida –um grupo de força-tarefa cujos membros, na falta de heróis superpoderosos, são escolhidos entre os vilões mesmo.

Único personagem minimamente nobre entre eles é o Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), oriundo do filme anterior –também são de lá o ardiloso Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e, claro, a doce e psicótica Arlequina, personagem que, à essa altura, a australiana Margot Robbie já tornou tão antológica quanto indissociável dela própria.

O grupo é despachado para a republiqueta sul-americana de Corto Maltese (nome que, em si, já representa uma das muitas e sensacionais referências plantadas por Gunn na trama) para um missão algo nebulosa e, logo na chegada, são atacados. E eis que a obra de Gunn revela, já aí, toda a coragem, habilidade e excelência que faltou no outro filme: Salvo Rick Flag e Arlequina todos os outros personagens acabam mortos –até mesmo o personagem de Michael Rooker, até então sugerido pela narrativa como os olhos do público!

É só o começo, literalmente –tudo isso ocorre antes mesmo dos créditos iniciais!

Em “O Esquadrão Suicida”, mais que qualquer coisa, James Gunn exercita sua capacidade de se fazer imprevisível. O andamento da trama, as mortes que se sucederão ou não, e a guinada de roteiro seguinte são elementos que dificilmente os expectadores serão capazes de prever.

Um pouco longe dali, um segundo grupo também foi recrutado e enviado, grupo este composto pelo Sanguinário (o ótimo Idris Elba), o Pacificador (John Cena, de "Bumblebee", cada vez melhor), o Homem-Bolinhas (David Dastmalchian, de “Homem-Formiga”), a Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) e o simultaneamente fofo e amedrontador Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone).

Com habilidade insuspeita, o diretor James Gunn conduz a trama alternando esses dois grupos a medida que vai revelando algumas surpresas referentes à missão incumbida. Isso permite à Gunn explorar o termo ‘suicida’ presente em seu título –o desapego com que o diretor descarta muitos personagens ao longo do filme acrescenta um toque inesperado de suspense às situações de perigo –e operar com uma liberdade que não usufruía nem mesmo na Marvel Studios –produtora de filmes bem comportados, para todos os públicos, muito diferentes deste daqui onde Gunn enche a boca de seus personagens com impropérios e palavrões, pisa no acelerador no quesito da violência e emprega sanguinolência num nível similar somente ao que ele havia feito na produtora Troma em seu início de carreira.

De fato, “O Esquadrão Suicida” tem tudo isso; ação, violência, pancadaria, tiros e mortes, mas, é também um filme cheio de poesia: Na concepção irretocável em termos de um maior requinte cinematográfico, na escolha sublime e primordial das músicas que integram a trilha sonora (milagre que ele já havia executado em “Guardões da Galáxia”), na construção finalmente apropriada, ácida e vibrante dos personagens politicamente incorretos que tem em mãos, James Gunn finalmente mostra como fazer um filme de verdade com o Esquadrão Suicida, e de quebra entrega uma das melhores produções baseadas em histórias em quadrinhos de todos os tempos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Cats

 


Virou uma unanimidade, quando do lançamento da versão cinematográfica de “Cats”, o ato de desprezar o filme como uma equivocada adaptação da lendária peça musical da Broadway de autoria de Andrew Loyd Webber. Críticos e público escarneceram a obra como uma afronta ao bom gosto, um lapso absoluto e injustificável, um sofrimento de cento e dez minutos ao qual o expectador era submetido.

A verdade talvez seja que “Cats”, o filme, pertence a uma categoria inusitada e complicada de realização cinematográfica: Um filme para apreciações particulares, cujo amar ou odiar, está imensamente relacionado ao momento, e ao estado de espírito, ao qual cada expectador chegou nele –e certamente, a ida ao cinema, quando era um lançamento rondado até por expectativas de indicações ao Oscar, não era a circunstância mais apropriada.

Passado o tempo, a revisão de “Cats” sob a pecha de filme incompreendido, de produção mal-fadada e indiscutivelmente estranha, adquire certa compaixão do público, e –ouso dizer –haverá, sim, até quem possa apreciá-lo.

Num cenário de beco londrino agigantado –onde já ficam em evidência os vultuosos recursos do diretor Hooper –vemos bailarinos travestidos como gatos –em caracterizações que vão muito além do mero figurino teatral e que simulam uma controversa (e até sexualizada) realidade animal (repare nos interessantes movimentos digitais de suas orelhas!). Esse grupo de gatos de rua, auto-intitulados Jellicle Cats já na primeira música, recebe uma forasteira: Trata-se de Victoria (a bailarina Francesca Hayward), deixada no beco dentro de um saco de pano.

Delicada e bem-cuidada, Victoria se inteira da estranha rotina do lugar: Eis que ela chegou exatamente na aguardada noite em que, uma vez por ano, os Jellicle Cats testemunham um gato de rua ser escolhido para ascender ao Paraíso dos Gatos –um lugar essencial à simbologia fantasiosa da trama.

No decorrer daquela noite, Victoria –cujo fato de ser uma espécie de novidade no beco desperta o interesse de todos os tipos –conhece os inúmeros pretendentes à essa sublime dádiva: Jennyanydots (Rebel Wilson), uma gorda e hedonista gata de apartamento; Bustopher Jones (James Corden), apelidado ‘Gato de Polainas’, um felino glutão e bonachão dedicado a vasculhar latas de lixo atrás de comida; Gus (Ian McKellen), um velho gato sonhador cujo passado de aplaudidas apresentações a muito ficou para trás; Skimbleshanks (Steven McRae), gato sapateador e morador da estação de trem; e Grizabella (Jennifer Hudson) outrora uma gata de estimação de socialite, cujas más escolhas à levaram a viver nas ruas, menosprezada até mesmo por seus pares.

Além deles, Victoria conhece também a benevolente Madame Deuteronomy (Judi Dench), a gata que escolherá o graciado da noite. o bondoso mágico Mr. Mistoffelees (Laurie Davidson), os gêmeos ladrões Mungojerrie e Rumpleteazer (Danny Collins e Naoimh Morgan), o intratável gato malandro e conquistador Rum Tum Tugger (Jason Derulo), e o perverso Macavity (o magnífico Idris Elba), gato cheio de truques (mágicos, inclusive!) que almeja valer-se de seus aliados (a gata hipnótica e exuberante Bombalurina vivida pela cantora Taylor Swift e o feroz e maltratado gatão Growltiger interpretado por Ray Winstone) para tirar da jogada todos os seus concorrentes e forçar Madame Deuteronomy a escolhê-lo para ir ao Paraíso dos Gatos.

De uma linguagem toda própria já nos palcos –onde a humanização de personagens felinos era apenas o princípio de sua proposta lúdica –“Cats”, nesta transposição cinematográfica, recebeu do diretor Tom Hooper um tratamento efusivo, radical e corajoso. Não apenas a caracterização de seus personagens é um gesto que gera amor e ódio em proporções elevadas conforme o público, mas todas as suas escolhas (câmera na mão em diversas sequências musicais; ponto eletrônico com captação de som real durante as canções) depõem a favor desse conceito incontido, despido de pudor.

Como fez em “Os Miseráveis”, Tom Hooper opta pelo arrebatamento, pela emoção irrestrita a embriagar a plateia, entretanto, naquela ocasião, ele tinha os talentos de Hugh Jackman e Anne Hathaway como terreno sólido onde caminhar, aqui ele encontra mais instabilidade.

Nessa ênfase resoluta –e, a sua maneira, generosa –que faz de suas encantadoras qualidades tanto quanto de seus gritantes defeitos, “Cats” é um trabalho que se presta ao escrutínio, embora insista na brilhante iniciativa de sempre fazer com que a luz refletida na tela leve o público a lugares mágicos, cheios de assombro e emoções às vezes cafonas, para neles descobrir-se afetado pela arte.

Polêmico em seu resultado final qualitativo, “Cats” é, para uns, um lixo, para outros, uma maravilha. Para mim, é um filme repleto de graça e beleza, plenamente capaz de cativar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Alma Perdida


 Assim como “O Invisível”, “Blade Trinity” e um ou outro trabalho, o terror “Alma Perdida” é exemplar em mostrar o quanto David Goyer é um roteirista habilidoso em justaposição a um medíocre diretor.

O conceito é, no mínimo, instigante: Embora haja uma visível referência à “O Exorcista”, o roteiro de Goyer passeia com uma bem construída escalada de sustos por outras inspirações do gênero –como casas mal-assombradas e afins –e elabora detalhes interessantes de sua trama, sempre com impecável consciência de ritmo e clímax. Entretanto, em cada cena pulsa uma incômoda incapacidade para extrair do elenco a emoção adequada (apesar da presença de talentos inquestionáveis como Gary Oldman e Idris Elba), e uma ocasional evidência na qual se percebe que ele não sabe o que fazer com uma produção tão endinheirada; em suma, uma direção cheia de limitações.

Acompanhamos assim a jovem Casey (Odette Yustman, de “Cloverfield-Monstro”) que descobre-se, de repente, perseguida por uma assombração: Um garotinho tenebroso –aparentemente denominado Jumby –que lhe prega sobressaltos nas mais inesperadas situações; e nesse sentido, o filme não consegue definir a sensação de medo ao expectador, exceto pelos habituais jumpscares (os sustos súbitos e abruptos que acometem a todo e qualquer terror genérico).

Investigando a fonte de seus tormentos, Casey descobre que teve um irmão gêmeo, morto enquanto ainda estava na barriga da mãe, e que, de uma certa forma, é esse espírito, imbuído de maldade, que agora quer atormentá-la, procurando um meio de passar do mundo dos mortos para os vivos.

Para o filme que é, e que vemos durante toda a duração –com seus prós e contras bem estabelecidos –“Alma Perdida” poderia perfeitamente contentar-se com essa descrição, visto que jamais consegue ir além do comum em sua capacidade de assustar, mas o roteiro de Goyer insiste em introduzir novos elementos que vão desde reminiscências históricas que remetem ao Holocausto, detalhes que mesclam assombrações relativamente católicas às crenças judaicas, e sutis indícios de um mal de proporções cósmicas.

Essa curiosa megalomania conceitual –que em nada ajuda o filme a engrandecer –leva ao ritual de exorcismo do terço final que, embora adornado de detalhes inventivos e diferenciados, nada pode fazer contra a mesmice resfolegante que predomina.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Extermínio 2

Para a continuação de seu ‘filme de zumbis que não são exatamente zumbis’, “Extermínio”, o diretor Danny Boyle abriu mão da cadeira de diretor para só ocupar a função de produtor executivo. Ainda assim, foi criterioso na escolha de seu substituto: O espanhol Juan Carlos Fresnadillo, realizador de um excelente trabalho em “Intacto”.
E “Extermínio 2”, de fato, revela inteligência promissora para uma continuação: Seu prólogo nos leva num refúgio dividido por meia-dúzia de pessoas, entre eles, Don (Robert Carlyle, presença ironicamente comum nos filmes de Boyle) e Alice (Catherine McCormack, de “Coração Valente” e “A Sombra do Vampiro”), casal que será pivô da trama em torno da qual este segundo filme se movimenta.
Tal e qual o filme anterior –e como todos os filmes e séries de zumbi que se prezam –o grupo se esconde numa casa dos infectados que devastaram a Grã-Bretanha.
Algo, porém, dá errado e, na necessidade de fuga que segue, podemos ver enfatizadas as características um tanto egoístas e acovardadas de Don, que não pestaneja ao deixar a própria esposa à mercê dos infectados para salvar a própria pele.
Findo o prólogo, somos assim informados do contexto em que a continuação se passa: Após os eventos do primeiro filme, todos os infectados pelo vírus morreram de fome nas semanas seguintes; logo depois, as Forças-Armadas dos EUA interviram ocupando Londres e montando uma zona de segurança a fim de dar início ao processo de recuperação da cidade.
É nesse cenário, 28 semanas depois (“28 weeks later” o título original), que os jovens Tammy (a lindíssima Imogen Poots) e Andy (Mackintosh Muggleton) chegam à Londres, vindos de uma excursão que, por sorte, os afastou do ponto crítico da epidemia.
Lá, está o pai deles os esperando, e qual não é a surpresa quando descobrimos que o pai é Don, que conseguiu chegar em Londres e juntou-se aos refugiados da zona de segurança.
Tudo parece bem e todos parecem em segurança.
Mas, Tammy e Andy não estão satisfeitos com a vaga explicação de Don para o paradeiro de sua mãe, e –numa manobra típica de personagens de filme de terror que deflagram toda a confusão com seus atos impensados –os dois fogem da barreira de contenção para a área de perigo; onde revemos os cenários característicos do primeiro filme, com bairros londrinos completamente desertos flagrados numa impressionante desolação.
As duas crianças, para surpresa de todos (até de Don), reencontram sua mãe (!) que continua viva apesar do ataque dos infectados.
A explicação: Quando é trazida à zona de segurança, a especialista em epidemiologia Oficial Ross (Rose Byrne) descobre que Alice tem uma raríssima imunidade ao vírus, o que pode ser a chave para uma cura.
Contudo, ela ainda tem o vírus em seu organismo e, quando se reencontra com Don, acaba infectando-o trazendo a praga que assolou o primeiro filme para dentro da zona de segurança.
Quando é iniciado o protocolo do Código Vermelho já é tarde demais: Os infectados já tomaram todo o Centro Médico e de lá para o restante do complexo.
Resta à Oficial Ross tentar proteger Tammy e Andy, prováveis portadores da cura, com o auxílio do Sgt. Doyle (Jeremy Renner, antes da consagração por “Guerra Ao Terror” e de virar o Gavião Arqueiro da Marvel), levando-os a um lugar seguros onde poderão ser resgatados.
Não tão referencial ao cinema de George Romero como o primeiro filme –tendo aproveitado dele somente o princípio básico de não repetir os protagonistas nas continuações de seus filmes de zumbi –este “Extermínio 2” apresenta um notável ponto de partida, recusando-se a ser um mero prosseguimento do filme anterior, construindo uma nova premissa de fato, e ainda fornecendo novos aspectos a esse mundo pós-apocalíptico antes esboçado. Ele só não consegue se fazer tão antológico quando o original em sua relevância porque seu roteiro insiste numa nem sempre apropriada valorização de um infectado específico (Don, o pai das crianças) como o ‘grande vilão do filme’, o que confere à um zumbi –uma criatura, por definição acéfala, irracional e incontrolável –uma série de atos e comportamentos mais inteligíveis que, quando se acumulam até o final, despertam alguma descrença no expectador.
Mas é um problema bem pequeno numa continuação que prima por se mostrar tão envolvente, arrojada e eletrizante quanto sua ótima produção original.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Círculo de Fogo

Não confundir este filme com o épico de guerra realizado por Jean-Jacques Annaud em 2001.
Após a aclamação mundial experimentada por “Labirinto do Fauno”, o mexicano Guilhermo Del Toro realizou esta ambiciosa tentativa de saltar do cinema artístico para o comercial empregando elementos que, em tese, eram infalíveis junto ao público: Embates monumentais entre monstros (uma especialidade de Del Toro como todas as suas realizações são capazes de comprovar) e robôs gigantes, numa obra que não fazia questão nenhuma de esconder sua influência completa em obras oriundas da cultura pop japonesa.
A mitologia que Del Toro criou em torno desse conceito tão simples, por sua vez, não tinha nada de modesta: Em algum momento do futuro, a Humanidade se vê assolada por ataques sistemáticos de monstros gigantescos, chamados ‘Kaijus’, saídos de uma falha no Oceano Pacífico conhecida por “Pacific Rim” –o título original do filme, à propósito –e, em seu enfrentamento da calamidade, surgem os ‘Jaeggers’, robôs equivalentes aos ‘Kaijus’ em suas agigantadas proporções e, por isso mesmo, capazes de se opor a eles e proteger as cidades costeiras, alvos iniciais na sua invasão antes do resto do mundo.
Seguem-se embates ferozes.
Com o passar dos anos, o Projeto Jaegger se torna um orgão de recrutas como a marinha ou a aeronáutica –a diferença é que os operadores dos ‘Jaeggers’ precisam encontrar um parceiro (ou parceira) de raciocínio absolutamente compatível. Os ‘Jaeggers’, máquinas imensuráveis controladas mentalmente por seus usuários, têm programação deveras pesada para e mente de um único piloto, necessitando de dois para que os comandos mentais não subjuguem a mente de uma só pessoa.
De volta à ativa após a perda de seu co-piloto e melhor amigo, o controlador de ‘Jaegger’, Raleight Becket (Charlie Hunnam) escolhe entre tantos  candidatos, a jovem Mako Mori (Rinko Kikuchi), sobrevivente de um ataque de ‘Kaiju’, para pilotar com ele seu ‘Jaegger’.
Isso ocorre bem a tempo: As pesquisas desengonçadas e um tanto intuitivas dos cientistas Newton Geiszler e Hermman Gottlieb (Charlie Day e Burn Gorman, dois alívios cômicos pra lá de forçados!) apontam que uma incursão de ‘Kaijus’ sem precedentes está prestes a acontecer, com monstros em número muito maior que antes e em tamanhos ainda mais assombrosos.
Comparado com diretores como Joss Whedon e Zack Snyder, que em anos imediatamente pregressos também entregaram filmes que, cada qual ao seu estilo, ofereciam cenas hipnóticas e retumbantes de destruição (“Os Vingadores” e “Homem de Aço”, respectivamente), o diretor Guilhermo Del Toro foi mais acarinhado pela crítica por sua postura dramaticamente mais centrada de tais sequências, o que não significa que deveras ele tenha alcançado alguma perfeição com “Círculo de Fogo”: Se Del Toro é (e, de fato, sempre foi) um esteta dotado de refinada percepção visual para com o espetáculo que rege (e “Círculo de Fogo” é um exemplar vibrante dessa sua faceta), ele também acredita ocasionalmente que tal assombro basta para fazer de sua obra um grande filme em si, e parece se esquecer (deliberadamente até em alguns momentos) que roteiro e personagens precisam caminhar num acabamento igualmente harmonioso para que tudo funcione.
Pois, “Círculo de Fogo” tem um roteiro que, se constrói com zelo e esmero o universo específico dentro do qual sua trama irá desenvolver-se, ao mesmo tempo avança com desleixo e até uma sucessão de clichês nas situações que determinam seu arco narrativo (parece até que Del Toro abraça essa visão unilateral e convencionalista de cinema); e seus personagens, ainda que muitos deles sejam dotados de carisma e interpretados por atores capazes e admiráveis (sendo Idris Elba, talvez, seu exemplo mais salutar), carecem de motivações reais e plausíveis, preenchendo suas trajetórias com momentos quase constrangedores de tão mal planejados (caso do lapso desmedido que ocorre à personagem de Rinko Kikuchi quando entra pela primeira vez num ‘Jaegger’).
É uma aventura possível de ser apreciada, sobretudo, pelos expectadores que se focarem em seu espetacular aparato técnico e visual, pois no que diz respeito a todo o resto (dramaturgia, história e caracterização), Del Toro mostrou-se bastante descuidado e indiferente, indícios da confiança desmesurada que ele certamente nutria pelo material.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Depois Daquela Montanha


Algo da primazia de “Náufrago”, da situação cuidadosamente arquitetada de “No Limite” (aquele com Anthony Hopkins e Alec Baldwin) e da observação virtuosística dos revezes de “Vivos” –há um pouco de cada uma dessas obras neste “Depois Daquela Montanha”.
Atento às lições deixadas por artesãos competentes antes dele, o diretor Hany Abu-Assad (do memorável “Paradise Now”) procura enfatizar o fator humano diante da luta pela sobrevivência.
O magnífico Idris Elba é Ben. A sensacional Kate Winslet é Alex.
Ela está de casamento marcado. Ele é cirurgião e precisa estar em Baltimore para uma cirurgia de emergência.
Ainda assim, ambos estão impedidos de honrar seus compromissos no aeroporto com todos os vôos cancelados em que se encontram.
Mesmo que, para Alex, Ben seja um completo desconhecido, ela lhe propõe um acordo: Dividirem o custo do frete de um pequeno aeroplano cujo piloto (Beau Bridges) pode levá-los através das montanhas até onde precisam chegar para seguir seus próprios rumos.
Durante a travessia, o imprevisto acontece: O piloto sofre um derrame. O avião cai –numa seqüência elaborada em planos de câmera que deixariam Robert Zemeckis orgulhoso.
Alex e Ben estão, portanto, perdidos na imensidão gelada.
Correspondendo a inúmeros artifícios de histórias de sobreviventes, “Depois Daquela Montanha” oferece, como diferencial, a dinâmica entre seus personagens, tornada mais palpável graças aos primorosos intérpretes que deles se encarregam.
Ferida, Alex depende integralmente dos conhecimentos médicos de Ben, além de sua mera presença ali. Vindo da amargura de um casamento em frangalhos, Ben se ressente das mudanças, e como conseqüência disso, sua intenção é permanecer no local da queda até que a ajuda apareça.
Alex, não. Ela é irrequieta, obstinada e, não raro, teimosa. Mesmo debilitada quer se locomover, contrariando as recomendações de Ben.
São duas personalidades até bem distintas que se chocam.
Em algum momento, Ben precisará compreender a necessidade de evoluir; evoluir do lugar em que está para outro, onde a sobrevivência é, afinal, possível. Evoluir do estado de resignação pelo casamento que deu errado e reconhecer que deve seguir em frente.
A própria Alex deve, também ela, compreender as imperfeições de si mesma e perceber o quanto sua intransigência, na situação-limite em que estão, ameaça sua vida e a de Ben.
É inevitável, diante do isolamento e do contraponto constante de suas índoles a que o filme expõe que Ben e Alex, em algum momento, experimentem um afeto mais intenso um pelo outro.
E o filme de Hany Abu-Assad se torna o que sinalizava ser desde o princípio: Um romance.
É esse aspecto que a narrativa deixa prosseguir em sua última parte, quando após duras penas e já regressados à civilização, Ben e Alex voltam as suas respectivas vidas, sob a sombra latente do efeito que um provocou no outro.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Thor - Ragnarok

A Marvel Studios sempre naquela rotina de entregar ótimos filmes de entretenimento baseados em seus heróis de histórias em quadrinhos vive em um tênue equilíbrio. De um lado os detratores afirmam que sua escala de produção impede que diretores mais autorais expressem sua personalidade nas obras, do outro –quando a própria Marvel busca corresponder a essas críticas –eles reclamam que os filmes descaracterizam seus heróis; ataque dirigido, por exemplo, à “Homem de Ferro 3”.
É bem provável que este sensacional “Thor-Ragnarok” encontre ressalvas desse tipo, visto que ele de fato promove uma desconstrução do personagem Thor.
Carregando a alguns anos a ingrata pecha de protagonista de alguns dos mais fracos filmes da Marvel Studios –e, realmente, tanto “Thor”, de Kenneth Brannagh, quando “Thor-O Mundo Sombrio”, de Alan Taylor, estão entre os mais formulaicos –isso se refletiu fazendo de Thor, em meio às reuniões de todos os heróis nos filmes dos Vingadores, um dos personagens cujos elementos e cujo intérprete (o eficiente Chris Hemsworth) foram menos explorados.
Mas, a Marvel tinha plena consciência de que estava mudando as coisas quando chamou Taika Waititi para a direção deste terceiro filme solo do personagem.
Esperto, objetivo, capaz e perspicaz, Waititi de início –de início mesmo, já nos quinze primeiros minutos! –estabelece algumas mudanças profundas na abordagem que diferem seu filme dos anteriores. A primeira delas e mais pertinente, que define o filme a partir daqui: Na qualidade de protagonista, Thor é também tornado pelo roteiro e pela direção o personagem mais interessante em cena (Tom Hiddleston, como Loki, continua excelente, mas ele já não mais rouba a cena, pelo simples fato de que ele não é central à premissa).
A segunda: O humor –dono de um senso de humor tão irresistível quanto peculiar, Waititi encoraja o improviso e a descontração de seu elenco, evidenciando com isso o impecável timing cômico até então não aproveitado de Chris Hemsworth, e aproximando o tom de seu filme muito daquela deliciosa e divertida sensação de matinê que James Gunn soube imprimir ao seu “Guardiõesda Galáxia”. Até mesmo a concepção visual desses dois filmes, a partir de um determinado momento ganha similaridades.
A terceira diz respeito à própria habilidade de Waititi como diretor, e ela surge em momentos nos quais muitos o subestimavam, como as magníficas seqüências de ação já no início, quando vemos Thor, numa espécie de cruzada investigativa pelo universo, desde que ele se prestou a essa tarefa no final de “Vingadores-A Era de Ultron”.
Isso explica porque ele se manteve tanto tempo ausente de Asgard. Quando retorna o que ele encontra –como pôde ser visto ao fim de “Mundo Sombrio” –é Loki comandando Asgard no lugar que seria de Odin (Anthony Hopkins).
Uma rápida vinda à Terra (que abre espaço para uma participação sensacional de Benedict Cumberbath como “Doutor Estranho”) e eles encontram Odin exilado, temeroso do retorno de Hella, a deusa da morte (a bela e veemente Cate Blanchett), o quê pode deflagrar o Ragnarok, ou fim do mundo, em Asgard.
Em seu primeiro embate com Hella, Thor é exilado no planeta Sakar, de onde passará boa parte do filme tentando partir. E aí começam os esforços de Waititi em promover a tal da desconstrução do personagem. Thor perde seu poderoso martelo Mjolnir (isso não é spoiler, pois já é visto num dos trailers), tem suas longas madeixas cortadas e seu figurino radicalmente alterado, e isso não é nada perto do que se passará em Asgard até o final do filme –até chegar lá, todas as características do personagem que em muito o definiam (e tidas antes por intransformáveis) assim como sua mitologia de modo geral, terão sido chacoalhadas de modo irreversível por Waititi.
Como o grande diretor que é, ele aproveita cada instante desse processo para moldar cenas antológicas: Em Asgard, uma divertidíssima encenação teatral de eventos de “O Mundo Sombrio” coloca numa mesma participação Matt Damon e Sam Neil (!). Em Sakar, após ser capturado por Valkiria (a fabulosa Tessa Thompson), Thor deve se provar valoroso como gladiador aos olhos do Grão Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e derrotar seu campeão que é, ninguém mais ninguém menos do que o Hulk –que recebe uma breve e eficiente explicação para seu desfecho nebuloso em “A Era de Ultron”.
A participação do Hulk –assim como de Bruce Banner que Mark Ruffalo interpreta de forma igualmente brilhante –é das mais suculentas em todos os filmes da Marvel: O gigante verde é essencial à narrativa contribuindo não só para as espetaculares cenas de ação, mas para a trama também, e ainda protagoniza a primeira cena de nudez da Marvel Studios (!).
Em outras palavras, eis um filme que exemplifica com propriedade a disposição da Marvel em criar cinema de verdade e entretenimento de primeira a partir de seus produtos.
Divertido, espetacular e, por que não, mágico.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Prometheus

A idéia até que não era ruim: Dar um prólogo ao clássico “Alien” que explicasse as eternamente nebulosas circunstâncias em que a tripulação da nave Nostromo encontrou aquela nave alienígena destruída (com sua própria tripulação aparentemente aniquilada) e apinhada por ovas de alguma forma de vida alienígena –forma de vida esta que revela-se, mais tarde, o grande pesadelo dos personagens a medida que vai se metamorfoseando em uma máquina orgânica de matar. Melhor ainda se tal prólogo tiver também o mesmo diretor do filme original, Ridley Scott, cujo refinamento técnico fez falta, pelo menos, no último filme da série, o equivocado “Alien-A Ressureição”.
Deveras, a idéia era muito boa –e teria ela rendido um filme também muito bom se tivesse continuado nesse rumo. Porém, em algum momento da realização de “Prometheus”, essa premissa básica sofreu uma ligeira transformação; e penso que grande responsável por isso seja o roteirista, Damon Lindelof (famoso pelos intrincados roteiros da série “Lost”), chamado para trabalhar a versão final do roteiro: A sugestão de Lindelof para Scott foi alterar bruscamente o esboço básico da trama –que deveria terminar rigorosamente no ponto em que o “Alien”, de 1979, começava, tendo unido todas as pontas soltas –e, a partir daí, dar início a uma nova série de filmes, uma nova franquia. Por isso, elementos (oriundos certamente da primeira versão do roteiro) que parecem levar o filme a encaixar tão bem numa explicação de detalhes vistos no “Alien” original, são deixados gradativamente de lado conforme “Prometheus” vai enveredando por um novo (e estranho) caminho, afastando-se de sua proposta e adotando princípios que soam tão pretensiosos e ambiciosos (um das características negativas do trabalho de Lindelof) quanto equivocados e lamentáveis.
Após um prólogo solene no qual Scott sugere que a origem da vida na Terra pode ter sido a conseqüência acidental de uma tentativa de suicídio alienígena (pretensão, como se pode ver...), passamos então a acompanhar, já no ano 2093, a nave Prometheus cuja tripulação cruza o espaço em busca da pista para a origem da vida.
A bordo dela, um seleto grupo de pesquisadores –entre os quais a cientista Elizabeth Shaw (a sueca Noomi Rapace, da versão original de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”), além de outros personagens interpretados por um elenco que só um grande diretor como Scott é capaz de reunir –ruma a um planeta cujas coordenadas são achadas em diversos quadros arqueológicos encontrados na Terra. Eles crêem que a pista pode levá-los à raça alienígena (denominada ‘Engenheiros’) que originou a humanidade. Ao chegar no planeta, porém, e ao iniciar suas investigações, eles deparam-se com perigos que não puderam prever: Especialmente o andróide David (um bom trabalho de Michael Fassbender) revela-se de uma cruel ambigüidade moral para com seus colegas humanos –ele dá início às ocorrências trágicas ao tentar inocular um dos tripulantes com um hospedeiro alienígena para ser levado à Terra; sem falar que, a partir de determinado ponto, quando o roteiro já tiver se perdido em suas pretensões, David se mostrará também o gancho de um inesperado plot que, além de não acrescentar absolutamente nada ao filme, lhe tira muito da credibilidade.
Assim, o retorno de Ridley Scott ao gênero de ficção científica neste prelúdio de "Alien" (ambientando a trama cerca de 30 anos antes do filme original) confere à produção grande esplendor visual, mas, sua inclinação algo autoral e pouco disposta a arremates narrativos acaba deixando o filme até com mais perguntas do que respostas.
Falta à “Prometheus”, sobretudo, a coerência e a simplicidade que faziam de "Alien" uma experiência única.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Thor

A Marvel Studios foi só cuidados quando moldou as versões cinematográficas de seus personagens; um dos mais complicados era certamente Thor, uma vez que ele representava também a introdução de todo um contexto mitológico e fantástico em contraponto à tecnologia que definia a essência do Homem de Ferro, o único personagem até então a ganhar, não um, mas dois filmes.
Foi com muita perspicácia que a Marvel agradou fãs e críticos fazendo a inusitada escolha do ator Kenneth Brannagh para dirigir este filme.
Famoso pela opulência e suntuosidade de suas adaptações de Shakespeare para as telas de cinema (como “Henrique V” e “Hamlet”), Brannagh adotou uma postura um pouco similar em sua abordagem para o mundo fantasioso de Asgard: Havia necessidade de uma percepção teatral, imprescindivelmente artística, para fazer com que um mundo novo (e os personagens que nele habitavam) não soasse fora de contexto.
Filho do todo poderoso Odin (Anthony Hopkins), senhor de Asgard, Thor (Chris Hemsworth, uma ótima escolha), o deus do trovão não se contenta em herdar o trono de seu pai. Ele quer também provar seu valor como guerreiro, no que é encorajado por seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston, sensacional no papel), o deus da trapaça. Suas artimanhas levam Thor a desobedecer Odin e, no atrito entre pai e filho, Thor é exilado no planeta Terra, sem poderes, sem seu martelo, Mjolnir, e sem permissão para retornar a Asgard. Aqui na Terra, entretanto, Thor aprenderá a humildade, o valor da vida, e outras lições (incluindo o amor por uma terráquea, a astrônoma Jane Foster, vivida por Natalie Portman, recém-saída de “Cisne Negro”) que uma vez mais o tornarão digno de seu vasto poder.
É uma adaptação requintada e descontraída de um personagem da Marvel que termina por representar outras facetas do Universo Marvel que, vale lembrar, ainda estava criando corpo naquela época (meados de 2011). Na cronologia de histórias do estúdio, este filme é antecedido por “Homem de Ferro 2” (com o qual a trama se interliga graças à sua cena pós-crédito e ao personagem do Agente Coulson) e sucedido pelo primeiro filme solo do Capitão América –ambos já traziam pistas bastante significativas a respeito da trama do ainda vindouro filme que viria a reunir os Vingadores.

sábado, 10 de setembro de 2016

Star Trek - Sem Fronteiras

Quando resolveu assumir a direção de “Star Wars-O Despertar da Força”, J.J. Abrahams deixou uma lacuna incômoda para muitos fãs de outra franquia: Quem seria o diretor que conduziria, com a mesma excelência dele, a terceira parte da renovada “Star Trek”?
O escolhido foi Justin Lin, que revitalizou muito da franquia “Velozes e Furiosos” quando assumiu a série a partir da parte 4. Entretanto, era natural que um realizador oriundo de um produto tão diferente (e, para alguns, bem mais vulgar) despertasse desconfiança.
Os detratores antecipados queimaram a língua: Justin Lin (contando, é bem verdade, com o sensacional roteiro do ator Simon Pegg) fez o que é, até aqui, o melhor filme de toda a saga!
Ainda na metade da “missão de cinco anos” (iniciada ao fim do filme anterior), o Capitão James Kirk (Chris Pine, revelando-se perfeito no papel) e sua tripulação da nave U.S.S. Enterprise chegam aos limites conhecidos da Federação Interplanetária, na base espacial de Yorktown (um primor de cenário espacial concebido pelos mais arrojados efeitos visuais em colaboração com uma imaginativa direção de arte).
Para além dessa estação, uma missão arriscada os aguarda: Um resgate num planeta desconhecido onde as hordas do beligerante Krall (Idris Elba, uma bela adição aos vilões memoráveis da saga) prepararam uma cilada, e aguardam com um plano sinistro para destruir Yorktown e, em breve, toda a Federação.

Primoroso do ponto de vista do roteiro e da direção (Lin consegue obter alguns enquadramentos insanos que são um verdadeiro deleite para a apreciação nas telas de cinema), o filme ainda acrescenta uma nova personagem (a sensual alienígena Jaylah, interpretada por Sofia Boutella), tão plena de carisma e de graça, que desde já anseio para que esteja nos próximos filmes!