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domingo, 7 de abril de 2024

10 Histórias em Quadrinhos que poderiam render grandes filmes - Parte 2


 Fun Home-Uma Tragicomédia Em Quadrinhos –As recordações um tanto dolorosas da quadrinista Alison Bechdel que cresceu numa família disfuncional onde seu próprio pai, Bruce Bechdel, era professor e homossexual enrustido. Centralizando a figura dele numa trama que oscila entre o humor e o drama, Bechdel reflete a descoberta de sua própria homossexualidade anos depois, numa trama construída de primor, personalidade e detalhes preciosos.

Em 2014, a narrativa de “Fun Home” foi convertida em uma peça musical na Broadway, recebendo fartos elogios, não muito tempo depois, foi noticiado que o astro Jake Gyllenhaal havia acertado para ser produtor e protagonista (no papel de Bruce) de uma adaptação cinematográfica –quem sabe um filme de “Fun Home” não esteja próximo?


Sgt. Rock –
Personagem extremamente realista, inserido num contexto também ele realista, o Sgt. Rock comanda um destacamento de soldados numa fria e inóspita missão na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O roteiro e os desenhos de Joe Kubert, responsável pela icônica graphic-novel “A Profecia”, com esse personagem, transformam o que tinha tudo para ser uma trama genérica num envolvente e brilhante drama de suspense, perfeita para ser traduzida numa versão cinematográfica.


A Casta dos Metabarões –
O diretor, escritor, poeta, dramaturgo e exotérico (!) Alejandro Jodorowsky demorou a se livrar do fantasma de “Duna”, a superprodução que planejou e jamais realizou. Dentre as obras que acabaram sendo realizadas com ideias inicialmente concebidas para “Duna”, Jodorowsky escreveu a HQ “O Incal”, até hoje uma das mais prestigiadas do segmento, e este derivado, “A Casta dos Metabarões”, focado num personagem secundário, mas, infinitamente fascinante que surge naquela trama. Num enredo épico, nos mais diversos sentidos, o texto complexo, simbolista e audacioso de Jodorowsky conta a história de várias gerações dos Metabarões e sua relação com outras casas de nobreza da galáxia a medida que se envolvem em guerras nas estrelas que não têm absolutamente nada da ingenuidade de George Lucas.


Nascido No Campo de Batalha –
Depois que os direitos autorais do personagem Conan, O Bárbaro foram para a editora Dark Horse (isso depois de pertencerem à Marvel Comics décadas antes), muitos dos clássicos contos de Robert E. Howard com esse personagem ganharam nova roupagem, porém, uma história de origem nunca havia sido devidamente contada, até o renomado roteirista Kurt Busiek arregaçar as mangas. Mesmo os filmes já realizados para cinema não chegavam a esboçar esse aspecto do personagem –o “Conan” de 1982, com Arnold Schwarzenegger, porque se diferenciava muito dos contos de Howard, e o “Conan” de 2011, com Jason Momoa, porque era, deveras, uma catástrofe! –sendo assim, Busiek e o artista Greg Ruth, com base em inúmeros elementos, menções, referências e pistas deixadas pelo próprio Robert E. Howard compuseram uma perfeita e incontestável (além de emocionante) história de origem que merece ser adaptada tão logo algum estúdio resolva levar novamente esse grande personagem para o cinema.


Ranxerox –
Uma das mais curiosas e pulsantes histórias em quadrinhos já concebidas, “Ranxerox”, do italiano Stefano Tamburini pegava carona na atitude raivosa do Movimento Punk dos anos 1980 para moldar um mundo escatológico, sensual e satírico de ficção científica. Alguns podem alegar que “Ranxerox” já ganhou uma espécie de adaptação cinematográfica: Muito se alardeou que “O Profissional”, de Luc Besson, era uma adaptação disfarçada de “Ranxerox”, contudo, trata-se de uma obra que, queira ou não, carecia de respaldo oficial dos criadores e também (por isso mesmo) modificava inúmeros aspectos da premissa e dos personagens –e os fãs de quadrinhos sempre querem fidelidade absoluta!

Dessa forma, seria sensacional ter, por exemplo, Ron Perlman (isso enquanto ele ainda tem idade, claro) interpretando o personagem principal, Ranxerox, um ciborgue de baixo custo num futuro caótico que procura servir às maluquices e caprichos de Lubna, uma ninfeta endiabrada.


Liberty Meadows –
Desenhar belas mulheres é uma especialidade do ilustrador Frank Cho, entretanto, ele quis provar, com a graphic novel “Liberty Meadows” que seu talento ia muito além disso. Embora seja protagonizado por uma veterinária extremamente deliciosa (a encantadora Brandy), a trama de “Liberty Meadows” foca mesmo no humor e na alegoria da crítica social ao trazer personagens que são bichinhos fofinhos –e lembram até alguns personagens da Disney num primeiro momento –mas que surgem assolados pelos mais variados vícios e neuroses muito humanos como a hipocondria, a ansiedade e o stress cotidiano.

E antes que você me pergunte se teria como fazer um longa-metragem real com tantos personagens animais, fique sabendo que isso não é nenhuma novidade, visto os avanços no campo da computação gráfica o que permitiu a realização de filmes como “Sonic” ou o live-action de “O Rei Leão".


Habibi –
Embora seja magistral, “Retalhos” –do qual eu falei na lista anterior –não é a obra-prima do escritor e ilustrador Craig Thompson; essa honra, por incrível que possa parecer, cabe ao seu trabalho seguinte, este arrebatador, doloroso e genial “Habibi”.

Um épico avassalador e distinto que acompanha as trajetórias ora paralelas, ora cruzadas, da jovem Dodola e do garoto Zam, ambos órfãos numa inclemente sociedade do Oriente Médio. Oscilando entre os estágios de tempo em que a história de amor entre eles se desdobra –a fuga da vida de escravos, ainda quando eram crianças; o amadurecimento, quase lúdico, isolados num deserto, quando os primeiros choques com a dura realidade da vida começam a assombrar suas vidas; a separação e as reviravoltas imprevisíveis e inacreditáveis que ameaçam afastá-los para todo o sempre; e lá pelas tantas, uma improvável chance de reencontro –estão as histórias que Dodola, uma contadora de histórias nata, vai relatando e que transformam “Habibi” num monumento dos quadrinhos.

Até hoje nenhuma obra de Craig Thompson –nem mesmo o primordial “Retalhos” –foi adaptada para cinema. Certamente, “Habibi” com sua trama fortíssima de denúncia dos abusos sociais a que mulheres, crianças e pobres são submetidos em sociedades mais retrógradas renderia um trabalho que suscitaria muitos debates nas redes sociais de hoje.


Verão Índio –
Muito apreciado, sobretudo nos nichos de quadrinhos eróticos, o italiano Milo Manara foi um dos poucos que conseguiu vencer essa barreira graças à qualidade inconteste de sua arte –ele chegou até mesmo a desenhar uma revista dos “X-Men”! Para muitos, seu trabalho mais adulto e despido da pornografia redundante que fez sua fama (embora haja, sim, algum resquício de erotismo) é “Verão Índio” que mergulha principalmente na colonização européia das indomadas pradarias norte-americanas quando ainda eram de domínio de irredutíveis tribos nativas. A trama poderia até lembrar um faroeste dos anos 1940, mas Milo Manara e seu roteirista Hugo Pratt (criador do clássico “Corto Maltese”) proporcionam uma desmistificadora visão européia à esses elementos, transformando “Verão Índio” numa obra singular.


Camelot 3000 –
Uma das mais brilhantes sagas de quadrinhos dos anos 1980, “Camelot 3000” foi escrita por Mike W. Barr e desenhada por Brian Bolland (o mesmo de “Batman-A Piada Mortal”), autores ingleses que sabiam muito bem o que estavam fazendo quando retomaram a história da Lenda do Rei Arthur levando ele e todo seu séquito de lendários personagens coadjuvantes (o mago Merlin, o cavaleiro Lancelot, a rainha Guinevere e outros) a despertar em pleno Século XXI a fim de deter uma invasão alienígena ao planeta Terra comandada pela própria feiticeira Morgana Le Fay.

Desde o filmaço “Excalibur”, de John Boorman, também da década de 1980, nenhum diretor ou estúdio foi capaz de recontar com pompa e circunstância (e qualidade) a Lenda do Rei Arthur novamente, quem sabe não seja hora de alguém perceber o enorme potencial cinematográfico desta HQ?


Hard Boiled-À Queima Roupa –
Houve um tempo em que Frank Miller (assim como Alan Moore) era um autor incansável, criando uma obra memorável atrás da outra em ritmo de pasteleiro (!). Concebido no início dos anos 1990, “Hard Boiled” era uma ficção científica anárquica, similar ao que já vinha sendo feito nas página da audaciosa revista “Heavy Metal”, sua premissa se desenrolava na mente de Carl Seltz (personagem cuja aparência faz lembrar Daniel Graig), marido e pai exemplar no ano de 2029 (está quase perto...); ou seria na mente de Nixon, um cobrador às voltas com implantes de memória em seu cérebro que podem, ou não, serem responsáveis pelo surto homicida no qual ele converteu a cidade em um matadouro; ou mais, seria no banco de memória da Unidade Quatro, o mais avançado modelo de robô já feito, tão avançado que poderia ostentar simulações de lembranças humanas –ou seria, isso tudo, também um implante de memória do próprio Nixon? Ou do próprio Carl? Aliás, não seriam eles e Unidade Quatro um mesmo indivíduo cibernético?

Pegando carona no ebuliente gênero cyberpunk que havia tomada de assalto a literatura na década anterior, e antecipando muitas ousadias narrativas que os quadrinhos só viriam a assimilar anos mais tarde, Miller constrói uma sucessão de cenas de ação raivosas, surreais e inacreditáveis, cortesia da identidade visual singular do ilustrador Geof Darrow. Em 2007, em meio ao sucesso de “300”, “Hard Boiled” foi uma das inúmeras obras de Miller cogitadas para uma adaptação para cinemas, certamente, os realizadores logo esbarraram na complexidade incontornável de seu argumento.

domingo, 24 de setembro de 2023

O Ladrão de Sonhos


 Antes do bem-sucedido “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, não havia tanto pendor comercial no estilo do diretor Jean-Pierre Jeunet; ele mais lembrava (ao lado de seu colaborador, Marc Caro) uma espécie de Terry Gillian francês: Um esteta ácido, de visual tremendamente rebuscado e arrojado, atento, na construção de seus personagens, às minúcias inesperadas do ser humano, interessado em tramas que não se encaixavam harmoniosamente em nenhum gênero específico (aqui, a fantasia suplanta até a ficção científica conferindo à tudo um clima de pesadelo) e não se destinava à nenhum público de faixa etária pré-determinada; em suma, um realizador de cult-movies. Dentre suas obras, o duoDelicatessen” e “O Ladrão de Sonhos” permeou toda a década de 1990 como uma realização desigual lendária, fruto de um autor original e singular. Hoje, sobretudo, “O Ladrão de Sonhos” é uma produção rara: Não se acha com facilidade em streaming nenhum, não passa com frequência em absolutamente nenhum canal aberto ou fechado, e já houve quem murmurasse, na internet, que ele sequer existiu.

Na trama inusitadamente intrincada que as imagens acachapantes vão nos descortinando, conhecemos Krank (o exótico ator Daniel Emilfork), o ‘ladrão de sonhos’ do título, e sua bizarra família: O irmão Irvin (voz do grande Jean-Louis Trintignant) reduzido apenas ao cérebro (!?) e às crises homéricas de enxaqueca (!!), a irmã anã e manipuladora Martha (Mireille Mossé, de “Swimming Pool-À Beira da Piscina”) e o ‘sobrinho’, multiplicado em uma dúzia de clones (todos eles vividos pelo ator Dominique Pinon, presente em todas as obras de Jeunet) que servem a todos como empregados. Toda essa trupe estranha e disfuncional habitada um reduto, a lembrar uma plataforma, em pleno mar. De lá, Krank envia outros asseclas, integrantes de uma sociedade secreta de ciclopes (e personagens tão intrigantes quanto todos os outros), que sequestram na calada da noite crianças, levando-as aos punhados para o esconderijo de Krank.

Acontece que Krank é incapaz de sonhar, e essa deficiência o faz envelhecer precocemente –essa velhice prematura é enfatizada pelo rosto do ator Emilfork, um dos mais esquisitos já mostrados nas telas de cinema dos anos 1990 –a fim de deter essa mal-fadada sina, ele vale-se da parafernália tecnológica e steampunk que inventa em sua fortaleza e, por meio de uma máquina, extrai o sonho das crianças que vai mantendo como prisioneiros. O sonho, ou melhor, a capacidade de sonhar, mesmo que pesadelos soturnos (como atesta a primeira cena, um pavoroso vislumbre do lado assustador do Natal), é o que permite se manter jovem, reza a cartilha deste conto perverso e lúgubre perpetrado por Jean-Pierre Jeunet.

Entretanto, não é apenas isso: Há toda uma mecânica em torno desse acordo feito pelo recluso Krank e seus sinistros familiares. As crianças de rua que sistematicamente desaparecem em Paris (um ambiente, ele próprio, de sonho, retratado como se não houvessem maiores distinções entre o dia e a noite), são levadas pelos ciclopes, mas arregimentadas e, depois, negociadas, por duas maquiavélicas irmãs siamesas (Geneviéve Brunet e Odile Mallet), controladoras de um orfanato, que usam as crianças como mercadoria e ocasionalmente valem-se dos serviços de Marcello (Jean-Claude Dreyfus, de “Todas As Manhãs do Mundo”), um ex-adestrador de pulgas (!), cujas criaturas ainda lhe servem.

Quando o garotinho Denree (o pequeno Joseph Lucien) é levado pelos ciclopes, seu único amigo, o grandalhão ex-homem forte do circo e ex-caçador de baleias One (Ron Perlman) resolve seguir seu encalço ou morrer tentando. Ele encontra um grupo de crianças de rua e conquista a ajuda e, digamos, a afetividade da menina Miette (a fascinante Judith Vittet) para tentar descobrir, à duras penas, o destino estranho e ingrato dado à Denree e tantas outras crianças.

Um assombro visual que, por sua pouca predisposição comercial, passou injustamente batido por público e crítica naqueles anos 1990 de então, “O Ladrão de Sonhos” guarda em si um desigual anacronismo: É vanguardista e até hoje arrojado em suas poderosas imagens (a fotografia é de Darius Khondji, que depois moldou as sequências de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”; os efeitos visuais, impecáveis, são à cargo de Pitof, que anos depois dirigiu “Vidocq-O Mito”; e os magníficos figurinos são assinados pela lenda Jean Paul Gaultier), e curiosamente, traz elementos em sua trama e em seus desdobramentos que o fazem inadequado até mesmo ao seu próprio período –afirmar que sua ambientação surreal é demasiada sombria para crianças seria redundância; “O Ladrão de Sonhos” é pontuado de fatalismo, pessimismo e subversão em níveis que podem atingir até mesmo a sensibilidade de alguns expectadores adultos, sem falar na relação construída pelo roteiro entre One e Miette que nitidamente flerta com a pedofilia (!).

Dizer que essas são características inerentes à época a que esta obra pertenceu seria equivocado: “O Ladrão de Sonhos” é tão incrivelmente incomum, em todas essas facetas e circunstâncias, que ele poderia desconcertar em qualquer momento ou local que tivesse surgido. A despeito de seu encanto obscuro, de sua realização brilhantemente visual e do viés singular de sua narrativa, é uma grande ironia que, onde e quando isso ocorreu, a incompreensão sofrida por ele tenha sido tanta que hoje poucos o conheçam.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima


 Há quem se pergunte se ainda há espaço para a inteligência no atual cinema comercial moderno. Na ânsia por encontrar uma resposta positiva, o diretor e roteirista Adam McKay se firmou nos últimos anos como um autor singular, capaz de capturar complexidade, loquacidade, atualidade e urgência num caldeirão bem-humorado e contundente em refletir os percalços do mundo real. Dessa predisposição surgiu o clássico moderno “A Grande Aposta”, o engajado “Vice” e este “Não Olhe Para Cima”.

Anunciado como a maior superprodução bancada pela Netflix até então –e tal ambição se reflete em cena com os nomes estupendos que abarrotam seu elenco estelar –o filme de McKay era, em si, uma alegoria crítica ao descaso ostentado por alguns líderes mundiais ao aquecimento global. Porém, sua produção –iniciada nos últimos meses de 2019 –precisou ser interrompida com a chegada da pandemia de 2020, sendo retomada em 2021, deixando o filme pronto para ser lançado nos últimos meses desse ano. Essas circunstâncias, é correto afirmar, modificaram de tal forma a percepção de público e crítica do filme que “Não Olhe Para Cima” se tornou algo que, em princípio, nem seu realizador previa: Uma observação pertinente, ácida e implacável das facetas mesquinhas e calculistas do negacionismo, e também, uma horripilante constatação de todas as celeumas que empurram a humanidade rumo ao seu fim.

A começar essa narrativa hilariamente angustiante, temos a jovem Dra. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) cuja descoberta, de um cometa em rota de colisão com a Terra é compartilhada com seu professor, o Dr. Randall Mindy (Leonardo Dicaprio). Seguindo o raciocínio lógico, Randall e Kate tentam avisar as autoridades desse perigo à raça humana, entretanto, raciocínio lógico é algo que, deveras, não faz parte da cartilha de quase nenhum dos outros personagens que orbitam seus protagonistas e –o que é pior! –alguns deles habitando esferas políticas de fundamental liderança mundial. Como é o caso da presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep, numa clara alusão à Donald Trump.

É desconcertante toda a sequência em que Randall e Kate tentam, à duras penas, uma audiência na Casa Branca, e são recebidos com descrédito estarrecedor e indulgência alarmante pela Chefe de Estado e seu filho, Jason (Jonah Hill que personifica bem as facetas mais assombrosamente amorais e revoltantes do nepotismo). Em suma, eis o mote em torno do qual “Não Olhe Para Cima” gira: O fato de que, mesmo estando o fim do mundo e seus indícios escancarados à sua frente, muitas são as pessoas que escolhem não crer em sua existência. Trata-se de McKay, como o genuíno autor que é, se voltando para um fenômeno bastante inusitado e preocupante nos tempos digitais de hoje; a pós-verdade –as pessoas já não ligam mais para a verdade, para os fatos e as informações, elas preferem escolher a narrativa que mais lhes agrada, com a qual mais simpatizam, e a defendem com unhas e dentes.

É assim que Randall e Kate, com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan, de “Confronto No Pavilhão 99”), conseguem pouco mais que tornarem-se memes na internet (!), após tentarem, em vão, alertar a população por meio do alienado e midiático programa de TV apresentado pelos histriônicos apresentadores vividos por Tyler Perry e Cate Blanchett. A verdade só começa a ser aceita –talvez, um tanto quanto tarde demais –quando as eleições vindouras apontam um prognóstico pessimista para a reeleição de Orlean, o que a obriga, junto de todos os seus senadores e conselheiros, a recorrer a uma manobra populista, financiando uma missão para desviar a rota do cometa. E mesmo aí, no que aparenta ser o rumo natural de todo o filme-catástrofe ao estilo “Armageddon” –o que enganosamente a obra de McKay parece ser –“Não Olhe Para Cima” continua subvertendo: Surge o empresário, inovador e avoado Peter Isherwell (Mark Rylance, hábil em personagens que despertam certa injúria no público) que, na qualidade de financiador principal da campanha (leia-se, manda nela mais que a própria presidente), tem a ideia de jerico de desistir da tentativa de destruir o cometa e, ao invés disso, aproveitar o vasto contingente mineral que é a sua constituição, para com aquilo ter um estoque infinito de matéria-prima para confeccionar seus celulares.

São inúmeros os absurdos que “Não Olhe Para Cima” enfileira, um após o outro, dentro do contexto que se propõe, e eles só não espantam mais do que o fato de que, em grande medida, tudo reflete, e com bastante exatidão, ideologias em voga nos tempos polarizados de hoje. A alfinetada ao conservadorismo, à extrema-direita e ao escrutínio midiático culturalmente questionável é bastante evidente –e certamente Mckay valeu-se do intervalo forçado da pandemia para aproximar seu roteiro ainda mais da deplorável condição política da atualidade –mas, “Não Olhe Para Cima” se propõe a uma reflexão muito mais relevante e válida: Do quanto se perdeu, em compreensão e empatia, nas nossas relações humanas com a chegada de ferramentas digitais que só fizeram nos alienar ainda mais enquanto sociedade.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Monster Hunter


 Chamam estilo quando um diretor insiste numa mesma miríade de elementos, filme após filme, de tal forma contínua e apegada que o reconhecimento de tais elementos na narrativa evoca de imediato seu nome e suas obras.

Entretanto, o que o diretor Paul W.S. Anderson faz em “Monster Hunter” vai muito além de propriamente estilo; ele replica de forma quase indiscreta as características que pôs em prática ao longo da “Saga Resident Evil”, dando de ombros para qualquer impressão de repetição que este novo trabalho poderia suscitar (e que de fato suscita). Como “Resident Evil”, “Monster Hunter” é extraído de um jogo de videogame, onde une-se com mirabolância vertiginosa expedientes gráficos do terror (zumbis anabolizados lá; monstros gigantes aqui), e como lá essas ferramentas estão a serviço de uma direção menos interessada ao conteúdo e mais ao formado arrojado e nunca acomodado. Ah, sim, e como lá, a estrela é também Milla Jovovich.

Na cena que abre “Monster Hunter” vemos um navio do que aparenta ser um mundo alienígena, afinal, a despeito da caracterização à la “Piratas do Caribe”, tal navio singra as areias de um deserto, e não as águas de um mar (!), capitaneado por Ron Perlman (a ostentar um ridículo corte de cabelo). Despida de esclarecimento, e praticamente  sem background até quase o trecho final do filme, essa cena mostra o personagem do astro tailandês Tony Jaa ficando extraviado no deserto –o detalhe verdadeiramente relevante ao plot embora, na salada visual de tudo que ali acontece, isso seja uma das últimas coisas que o expectador vai perceber.

Finalmente, somos então apresentados à Natalie Artemis, personagem de Jovovich, uma militar norte-americana em missão em algum deserto do Oriente Médio, no nosso mundo. Embora a direção de Anderson, em seus maneirismos usuais, passe a ideia de que todo o grupo de soldados que a acompanha serão importantes ao plot –afinal, perde-se um tempo lascado com cenas de interação entre eles a mostrar sua camaradagem e os ‘laços entre soldados’ –não tarda à narrativa livrar-se de todos: Colhidos numa súbita e misteriosa tempestade de areia, o grupo da Comandante Artemis atravessa um portal que os joga em outro mundo (!), o mesmo mundo visto na estranha cena inicial.

Lá, descobrimos, monstros gigantescos espreitam em cada duna. Duas espécies são imediatamente distinguíveis: Umas aranhas gigantes que saem à noite, quando a luz solar não as ameaça (criatura que parece decalcada dos seres vistos no cult “Eclipse Mortal”); e os Diablos, seres rastejantes que se ocultam submersas nas areias, tal e qual os monstrengos do clássico B “O Ataque dos Vermes Malditos”.

Tendo todos os soldados sob seu comando exterminados, Artemis tem de unir-se ao esquisito caçador, um misto de guerreiro pós-apocalíptico e indígena extra-terrestre (e personagem deixado à deriva no prólogo) para conseguirem sobreviver.

Sem qualquer preocupação em ater-se à trama para além do fato de reordenar os mesmos conceitos do videogame (revelando até mais fidelidade aqui do que demonstrou em “Resident Evil”), o diretor Anderson se satisfaz em registrar um situação de corre-corre e sobrevivência a envolver apenas esses dois personagens. Algum fio de história começa a ser esboçado já nos quarenta minutos finais, quando o núcleo de personagens (mal) introduzido na cena inicial (incluindo os personagens de Ron Perlman e até da brasileira Nanda Costa) reaparece, contando à Artemis sua derradeira missão contra um dragão que representa o maior desafio naquele mundo apinhado de monstros.

Quando a “Saga Resident Evil” chegou ao fim com o lançamento cheio de pompa e circunstância de “Resident Evil-Capítulo Final” imaginava-se que os envolvidos seguiriam em frente: Milla Jovovich experimentaria outros desafios como atriz, enquanto o diretor Anderson (que, à propósito, é também marido dela) testaria sua capacidade em novos projetos. “Monster Hunter” é um indício de que, se “Resident Evil” chegou ao fim, dificilmente isso foi por iniciativa da atriz e do diretor: Tão similar ele é, em sua proposta, seu visual e seu resultado técnico como um todo, que a semelhança chega às raias do constrangedor, seja em suas qualidades como em seus defeitos.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Círculo de Fogo

Não confundir este filme com o épico de guerra realizado por Jean-Jacques Annaud em 2001.
Após a aclamação mundial experimentada por “Labirinto do Fauno”, o mexicano Guilhermo Del Toro realizou esta ambiciosa tentativa de saltar do cinema artístico para o comercial empregando elementos que, em tese, eram infalíveis junto ao público: Embates monumentais entre monstros (uma especialidade de Del Toro como todas as suas realizações são capazes de comprovar) e robôs gigantes, numa obra que não fazia questão nenhuma de esconder sua influência completa em obras oriundas da cultura pop japonesa.
A mitologia que Del Toro criou em torno desse conceito tão simples, por sua vez, não tinha nada de modesta: Em algum momento do futuro, a Humanidade se vê assolada por ataques sistemáticos de monstros gigantescos, chamados ‘Kaijus’, saídos de uma falha no Oceano Pacífico conhecida por “Pacific Rim” –o título original do filme, à propósito –e, em seu enfrentamento da calamidade, surgem os ‘Jaeggers’, robôs equivalentes aos ‘Kaijus’ em suas agigantadas proporções e, por isso mesmo, capazes de se opor a eles e proteger as cidades costeiras, alvos iniciais na sua invasão antes do resto do mundo.
Seguem-se embates ferozes.
Com o passar dos anos, o Projeto Jaegger se torna um orgão de recrutas como a marinha ou a aeronáutica –a diferença é que os operadores dos ‘Jaeggers’ precisam encontrar um parceiro (ou parceira) de raciocínio absolutamente compatível. Os ‘Jaeggers’, máquinas imensuráveis controladas mentalmente por seus usuários, têm programação deveras pesada para e mente de um único piloto, necessitando de dois para que os comandos mentais não subjuguem a mente de uma só pessoa.
De volta à ativa após a perda de seu co-piloto e melhor amigo, o controlador de ‘Jaegger’, Raleight Becket (Charlie Hunnam) escolhe entre tantos  candidatos, a jovem Mako Mori (Rinko Kikuchi), sobrevivente de um ataque de ‘Kaiju’, para pilotar com ele seu ‘Jaegger’.
Isso ocorre bem a tempo: As pesquisas desengonçadas e um tanto intuitivas dos cientistas Newton Geiszler e Hermman Gottlieb (Charlie Day e Burn Gorman, dois alívios cômicos pra lá de forçados!) apontam que uma incursão de ‘Kaijus’ sem precedentes está prestes a acontecer, com monstros em número muito maior que antes e em tamanhos ainda mais assombrosos.
Comparado com diretores como Joss Whedon e Zack Snyder, que em anos imediatamente pregressos também entregaram filmes que, cada qual ao seu estilo, ofereciam cenas hipnóticas e retumbantes de destruição (“Os Vingadores” e “Homem de Aço”, respectivamente), o diretor Guilhermo Del Toro foi mais acarinhado pela crítica por sua postura dramaticamente mais centrada de tais sequências, o que não significa que deveras ele tenha alcançado alguma perfeição com “Círculo de Fogo”: Se Del Toro é (e, de fato, sempre foi) um esteta dotado de refinada percepção visual para com o espetáculo que rege (e “Círculo de Fogo” é um exemplar vibrante dessa sua faceta), ele também acredita ocasionalmente que tal assombro basta para fazer de sua obra um grande filme em si, e parece se esquecer (deliberadamente até em alguns momentos) que roteiro e personagens precisam caminhar num acabamento igualmente harmonioso para que tudo funcione.
Pois, “Círculo de Fogo” tem um roteiro que, se constrói com zelo e esmero o universo específico dentro do qual sua trama irá desenvolver-se, ao mesmo tempo avança com desleixo e até uma sucessão de clichês nas situações que determinam seu arco narrativo (parece até que Del Toro abraça essa visão unilateral e convencionalista de cinema); e seus personagens, ainda que muitos deles sejam dotados de carisma e interpretados por atores capazes e admiráveis (sendo Idris Elba, talvez, seu exemplo mais salutar), carecem de motivações reais e plausíveis, preenchendo suas trajetórias com momentos quase constrangedores de tão mal planejados (caso do lapso desmedido que ocorre à personagem de Rinko Kikuchi quando entra pela primeira vez num ‘Jaegger’).
É uma aventura possível de ser apreciada, sobretudo, pelos expectadores que se focarem em seu espetacular aparato técnico e visual, pois no que diz respeito a todo o resto (dramaturgia, história e caracterização), Del Toro mostrou-se bastante descuidado e indiferente, indícios da confiança desmesurada que ele certamente nutria pelo material.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Conan - O Bárbaro

Parecia absurdo (e realmente era) que um filme memorável e bem-sucedido como “Conan-O Bárbaro”, de 1982, tivesse se restringido apenas a uma pífia continuação (“Conan-O Destruidor”, de 1984, além de “Guerreiro de Fogo”, um derivado muito do sem-vergonha...).
A indústria até tentou compensar esse lapso (tardiamente, é bem verdade) fazendo uma espécie de refilmagem em 2011. Melhor dizendo: Fazendo uma nova versão do personagem, extraído de uma série de quadrinhos da Marvel dos anos 1970, por sua vez, inspirados nos contos escritos na década de 1930, pelo autor Robert E. Howard.
De fato, o personagem Conan, o Bárbaro, é tão rico, marcante e antológico que é de se admirar a pouca atenção dada a ele na cultura pop recente.
Parecia que, em 2011, isso estava prestes a ser compensado. A produção tinha no comando o diretor especialista em videoclips, Marcus Nispel que, se havia feito um trabalho entre o medíocre e o constrangedor no reboot de “Sexta-Feira 13” e no épico “Desbravadores”, ao menos havia entregado algo minimamente interessante na nova versão de “O Massacre da Serra Elétrica”.
No papel principal outra boa notícia: Fora escalado o samoano Jason Momoa (que então havia se destacado num papel menor na série “Game Of Thrones”) e, embora Conan fosse um personagem intrinsecamente relacionado à Arnold Schwarzenegger, as reações à escalação de Momoa foram bastante positivas pela adequação de sua fisionomia ao personagem, sobretudo, às suas caracterizações nos quadrinhos.
A expectativa, porém, é sempre uma faca de dois gumes, e o filme que Nispel entregou naquele ano não equiparava o que alguns fãs dele esperavam; compará-lo com a ótima realização de John Millis, de 1982, então, era uma covardia.
Numa variação até razoável do que está nas HQs, no filme original e do que é esboçado nos livros, a origem do personagem –que ocupa os primeiros vinte minutos –se dá pelo massacre de seu povo, os cimérios, perpetrado pelas tropas do maníaco Khalar Zym (o normalmente competente Stephen Lang, aqui afetado), grande vilão da trama que praticamente substitui, sem o mesmo peso dramático, o Thulsa Doom, de James Earl Jones, no filme de 82.
Conan, então um menino na ocasião, que inclusive teve o pai (Ron Perlman) assassinado –numa sequência feita para ser original, mas que resulta ridícula –passa o resto da vida em busca de vingança.
Anos depois (e já então personificado pela presença bastante impressionante de Jason Momoa), Conan finalmente encontra uma pista de Khalar Zym e parte em seu encalço; descobre assim que o vilão passou as últimas décadas dedicado a encontrar um artefato místico, algo que pode arremessar toda a Era Hiborana (o mundo imaginado por Robert E. Howard onde as aventuras de Conan se passam) num reino de trevas.
Para cada boa decisão tomada pelo filme, há um lapso que o compromete. Exemplo: Se foi bastante positivo manter-se mais fiel às características originais do personagem do que no filme de 82 –um bárbaro selvagem, porém, astuto e articulado na comparação ao guerreiro taciturno de Schwarzenegger –o filme de Nispel ao mesmo tempo comete equívocos grotescos e ginasianos ao coloca-lo em situações risíveis como o forçado enlace amoroso com a jovem indefesa Tamara (Rachel Nichols, interpretando sem um pingo de boa vontade).
Outro: Se por um lado a direção de Nispel capricha no quesito visual (uma de suas especialidades, vide seu currículo), incluindo o aproveitamento da tecnologia 3D (o sucesso “Avatar”, com o próprio Stephen Lang no elenco, havia pegado o mundo de assalto há apenas dois anos), por outro, seu roteiro é incapaz de conceber sequências tão extraordinariamente memoráveis como aquelas que o filme de 82 entrega simultaneamente –todas extraídas das HQs do personagem –o diálogo sobre o Enigma do Aço; a sequência da Grande Roda da Dor; a cena da crucificação e outras.
Além disso, na ânsia por sagrar-se um sucesso de bilheteria –e ser assim acessível a uma plateia de faixa etária o mais ampla possível –o filme padece de uma auto-censura que o despe de todas as singularidades do filme original, como sua audaciosa inclinação para a nudez, para uma sexualidade e uma sanguinolência que soavam (e ainda soam) incomuns nos filmes comerciais de aventura. Algumas cenas até embrincam nessa direção desvanecendo em clichês muito antes de algum resultado válido aparecer na tela.
O filme de 2011, tão promissor que era na oportunidade de recolocar nos cinemas um personagem que merecia e merece a evidência da qual desfrutam hoje ícones como James Bond ou Indiana Jones, padeceu perante um diretor que não soube manter a solidez narrativa de seu filme, e principalmente um roteiro que revelou incompetência absurda ao desperdiçar os conceitos e elementos riquíssimos que tinha a sua disposição.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A Ilha do Dr. Moreau

No mesmo ano em que o clássico da ficção científica escrito por H. G. Wells, em 1896, completava seu centenário, ela ganhava também sua terceira versão cinematográfica, e por assim dizer, a mais ambiciosa de todas.
Não que as outras (lançadas em 1933 e 1977) não tivessem suas intenções de largo alcance artístico: É necessário um certo espírito visionário para compreender a abraçar as imbricações presentes naquela trama sobre um cientista que, ao manipular o DNA animal e humano, e conceber monstros, acaba brincando de deus.
Todavia, a obra de 1996, dirigida por John Frankenheimer trazia propósitos imodestos à sua premissa –já então consagrada como uma das grandes obras literárias do gênero –que não apareciam com tanta ênfase nas adaptações anteriores, tão mais inclinadas à simplicidade macabra do mero terror.
A começar pela ostensiva escalação de Marlon Brando para viver o insano cientista, uma manobra que talvez quisesse estreitar os laços entre este filme e o quintessencial “Apocalypse Now” –não só os dois personagens recebem de Brando um tratamento um pouco parecido no registro da psicopatia, mas também a própria encenação proposta pela direção (com texturas da vida na selva evidenciadas em seus detalhes e suas cores), cria um clima não necessariamente similar, mas, intencionalmente similar.
Isso porque em muitos aspectos “A Ilha do Dr. Moreau” resulta sofrível quando poderia ser memorável, bizarro quando poderia ser original e involuntariamente cômico quando poderia ser intenso. Isso se deve aos diversos problemas de produção enfrentados pelo diretor Frankenheimer durante a realização do projeto, incluindo aí o sempre difícil esforço de colocar nos eixos o complicado temperamento de Brando.
Quando a trama se inicia, o seu Dr. Moreau se vê pressionado por ativistas, chocados com os métodos sem critério com os quais ele realiza experiências em animais. Moreau deixa Londres e isola-se numa ilha no Pacífico Sul onde passa a projetar uma nova raça de predadores implacáveis.
O roteiro ligeiramente bipolar escrito por Richard Stanley (diretor do cult “Hardware-O Destruidor do Futuro”) e Ron Hutchinson revê alguns ângulos distintos da trama até introduzir o protagonista de fato, Edward Douglas (David Thewlis), um piloto de avião que cai na ilha e é resgatado pelo lunático Dr. Montgomery (Val Kilmer, numa vibe alucinada semelhante à de Brando), um neurocirurgião que auxilia o Dr. Moreau em suas experiências.
A partir daí, como nas versões anteriores, o filme acompanha a gradativa consciência de Douglas acerca do cenário de pesadelo que configura a ilha; e suas encrencas são intensificadas quando ele passa a fazer parte dos planos do próprio Dr. Moreau.
Contando com o lendário Stan Winston no departamento de maquiagem, o filme de Frankenheimer tem a chance de exibir os mais realistas e detalhados mutantes dentre todas as versões do livro no cinema, no entanto, algo em sua unidade visual não soa harmonioso; pelo contrário, na atmosfera, nas opções estéticas e na orientação da fotografia, “A Ilha do Dr. Moreau” é caótico e desleixado, passando uma desagradável impressão ao expectador. Existem alguns apreciadores que consideram o bom trabalho de Frankenheimer obtido à luz de tantos contratempos de produção, mas eles não são muitos.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Alien - A Ressurreição

Inesperada continuação de "Alien 3",já que a tenente Helen Ripley morre no final daquele filme. Aqui, ela desperta algumas centenas de anos depois, clonada no futuro. Mas junto com ela, foi clonado também o alien que a usava como hospedeiro.
Os belos trabalhos realizados pelos outros diretores nos filmes anteriores sofrem um ligeiro abalo com a entrada do francês Jean Pierre Jenaut (que ao lado de seu colaborador Marc Caro realizou "Delicatessen" e "Ladrões de Sonhos", obras extremamente surreais e de orientação artística e, anos mais tarde, dirigiu o grande sucesso francês “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”). Na visão de Jenaut, a saga efetivamente amedrontadora e essencialmente sombria dos aliens ganha um viés de aventura intergaláctica, enfatizada na presença de uma trupe de “piratas espaciais” com sua superficial diversidade e senso de humor plural –e pensar que o estúdio se mostrou tão avesso ao bom resultado da direção de David Fincher no filme anterior.
Jenaut impõe uma atmosfera simbólica diferente de toda a orientação obedecida pelos filmes anteriores, onde os aliens aparecem expostos em planos definidos de detalhes e sob uma iluminação minimalista (ao contrário da predominante escuridão dos outros filmes) em uma trama repleta de personagens esquisitos e cheios de segredos –sem contar que é o primeiro deles onde Sigourney Weaver (aqui ainda creditada como produtora) não aparece com sua habitual excelência como Ripley, muitas vezes soando até caricata e exagerada.

O filme ainda mantém o alto padrão técnico da saga, mas perde, e muito, para os outros.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A Guerra do Fogo

Toda uma nova linguagem gestual e corporal teve de ser criada a fim de materializar este audaz projeto do diretor Jean-Jacques Annaud (em estado de graça naqueles idos dos anos 1980) que visualizou –e concretizou –o primeiro épico antropológico pré-histórico com absoluto rigor cinematográfico e realismo histórico.
E pode-se dizer que ele permanece, mais de trinta e cinco anos depois, um exemplo único na história do cinema: Filmes anteriores como “Mil Anos Antes de Cristo”, ou a sátira italiana “Grunt” não tinham qualquer relevância factual, e filmes subseqüentes como “A Tribo da Caverna do Urso”, não ostentavam a mesma excelência técnica e artística ou, como o mais recente “10.000 Anos Antes de Cristo”, afundavam na própria inverossimilhança.
Ambientado na “Aurora do Homem” –subtítulo da primeira parte de “2001-Uma Odisséia No Espaço”, que talvez tenha inspirado este filme, ainda que ele tenha sido adaptado do livro de J.H. Rosny –a obra de Annaud inicia-se quando uma tribo de neandertais, cuja manutenção do precioso fogo que acendia suas fogueiras à noite consistia em nunca de fato apagá-lo, é atacada.
Ao se reagrupar mais tarde, eles dão-se conta de que a chama que lhes provinha luz e calor se extinguiu, e enviam três de seus integrantes (Everett McGill, Ron Perlman e Nicholas Kadi) numa jornada em busca de uma chama similar. O caminho lhes conduz a tribos de truculência e violência muito mais intensificadas, e à um grupo de mulheres mais evoluídas, entre as quais uma delas (Rae Dawn Chong) passa a acompanhá-los.
Ao longo dessa trajetória épica, eles descobrirão, entre outras coisas, novos meios de lutar (e de matar), aprenderão a manifestação do riso e, por fim, o conhecimento da criação do fogo.
Merecidíssimo vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem, um épico espetacular em seus próprios e originais termos.

sábado, 23 de abril de 2016

O Nome da Rosa

"Aqui jaz a raiz de todos os crimes."
Um dos filmes mais louvados dos anos 80 vem a ser também um dos livros mais louvados do século XX. Não é à toa.
Tudo neste fenomenal “O Nome da Rosa” é fascinante. Desde seu diretor (um Jean Jacques Annaud em estado de graça que cinco anos antes entregou o brilhante “A Guerra do Fogo”), passando por seu elenco extraordinário (onde destaca-se um Sean Connery inspiradíssimo, ainda que sua escolha tenha criado certa polêmica entre os adoradores do livro; mas temos também o sempre ótimo F. Murray Abrahams, e um surpreendente Roy Pearlman, colaborador até bastante habitual de Annaud), e sua ambientação a um só tempo desigual, enigmática e envolvente.
E sua história, então? Que narrativa! Uma síntese de suspense de investigação, história de terror, reflexão sobre a religião e reconstituição de época em meio a Inquisição da Idade Média.
Durante este período negro, acompanhamos o monge franciscano Guilherme de Baskerville (e a referência à Sherlock Holmes e às tramas detetivescas de Arthur Conan Doyle não é nem um pouco coincidente), junto de seu fiel aprendiz, Adso, quando chegam a uma abadia italiana. Lá, um crime sem muitas explicações foi perpetrado, e os padres do lugar anseiam por uma solução urgente para o temor que contamina a todos, afinal, uma reunião de diversos representantes de facções da Igreja Católica está para ser realizada por lá.
 Verdade seja dita que muito da fantástica história concebida pela mente genial de Umberto Eco precisou ficar de fora, sendo preservado o básico da trama investigativa, entretanto, o roteiro continua despertando inúmeras questões que persistem mesmo depois do filme ter se encerrado. Uma delas: qual é o significado de seu título?

domingo, 1 de novembro de 2015

Drive

Dublê de corridas cinematográficas de dia e piloto de fugas criminosas a noite, jovem motorista vive sua vida alheio àqueles que estão ao seu redor. Sua bela vizinha e seu filho pequeno são quem começam a romper essa curiosa blindagem que parece separá-lo do resto do mundo. Mas as coisas mudam.
Antes encarcerado, o marido da jovem consegue liberdade e trás consigo problemas perigosos que a ameaçam e ao menino também.
Agora, o "Garoto" (que é como chamam o motorista- quando o chamam) deve valer-se de habilidade e astúcia se quiser protegê-los. Desse modo, sua jornada contra a escória humana (e de certa forma, em direção à escória humana) o transfigura no mais trágico dos personagens: Em nome do amor que sente por ela, ele acaba por tornar-se um assassino, cujos atos, o diretor Nicholas Winding Refn (do notável "Guerreiro Silencioso") trata de reprovar por meio de peculiares comentários que ele parece fazer das cenas que elabora: na ausência de uma trilha sonora que lhes dê embasamento (embora a trilha musical, por assim dizer seja retro e espetacular!); na decisão cheia de bravura de não fazer deste um filme genérico da ação; e no modo quase cirúrgico com que extrai qualquer resquício de heroísmo ao mostrar as cenas do “Garoto” eliminando bandidos com desconcertante riqueza de detalhes sádicos, e ainda deixando muito claro a transformação nociva que essas atitudes gradativamente operam em sua persona.
Para tanto, o diretor conta com uma atuação rica e criteriosa de Ryan Gosling, cujos trejeitos que ele dá ao seu protagonista anônimo não são meros cacoetes, mas sinais de identificação e reconhecimento, amostras de uma personalidade que vemos se transformar.
Winding Refn aproveita também para homenagear elementos do cinema americano que vão dos faroestes de Clint Eastwood à brutalidade de Quentin Tarantino, ainda que ao fim, o filme adquira percepções metafísicas que remetem ao seu próprio cinema, e (de novo) à “Guerreiro Silencioso”.
Todavia, não há como negar: é por “Drive” que ele haverá de ser por um longo tempo lembrado.