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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

John Wick 3 - Parabellum

O argumento um tanto elitista de alguns críticos de que o gênero de ação comporta uma qualidade inferior de cinema encontra uma fortíssima discordância nos filmes da série “John Wick”: Neles, há um senso apurado de narrativa e, por que não, uma carpintaria dramática que evidencia com simplicidade poderosa (mas, nem por isso superficial) os dilemas morais de seu protagonista, ao mesmo tempo que oferece um relevo fascinante onde personagens coadjuvantes e suas esboçadas tramas individuais se apresentam com a necessária informação administrada; isso tudo a serviço daquilo no qual o diretor Chad Starelski mostrou-se ser um mestre –as cenas de ação, de embate e de tiroteio mais bem coreografadas e surpreendentes dos últimos tempos!
Sim, pois nesse quesito, filme nenhum, por mais brilhante que seja, parece ser capaz de igualar “John Wick”.
Suas influências, caso não tenha ficado claro em uma infinidade de referências plantadas nas cenas, é a essência do cinema-mudo –embora imbuído de trilha sonora pulsante e apropriada, “John Wick” é construído sobre cenas que não precisam de diálogos para se expressar, nas quais o movimento dos corpos corresponde a um entendimento do fetiche e da sinergia inerente ao gênero de ação.
Exibindo aquela contundência e aquela objetividade que já o tornaram memorável, o filme começa exatamente no ponto em que o segundo, “Um Novo Dia Para Matar”, se encerrou: Com o lendário matador John Wick declarado ex-comungado pela Alta Cúpula de Assassinos, por ter quebrado as regras e assassinado um desafeto dentro das dependências do Hotel Continental, local considerado neutro onde ninguém deveria morrer.
Já nesse prólogo, o diretor Stahelski apresenta suas cartas na mesa, sendo a mais valiosa delas o seu astro, Keanu Reeves, cuja destreza corporal já havia ajudado a tornar os dois filmes anteriores antológicos.
Aqui, o personagem John Wick já é, para Reeves, um invólucro confortável, ao qual ele se adapta com tamanha rapidez que mal precisamos de preâmbulos, de explicações ou de pretextos para que sua via-crusis já se intensifique; com essas certezas, Stahelski já arremessa o protagonista e o expectador na tortuosa montanha russa que é seu filme, onde um inimigo espreita a cada esquina e uma luta mortal pode se desenvolver nos mais improváveis ambientes, seja uma silenciosa biblioteca (que cena!), seja um estábulo ou até mesmo uma perseguição subsequente envolvendo um dos cavalos e várias motocicletas (!).
O plano algo improvisado de John Wick para escapar com vida é pedir auxílio no Cinema Tarkovsky (uma referência constante nos filmes de Stahelski e de seu colaborador David Lelitch), onde ele poderá requisitar uma ajuda da diretora de um grupo de balé (Anjelica Huston), por meio da qual veremos um pouco de luz ser jogada sobre as origens bielo-russas do protagonista.
Em seguida, Wick consegue ir em direção à Casablanca –onde, para variar, outra cena magnífica se desenrola –e procura pela outrora aliada Sofia (Halle Berry), de quem pretende cobrar uma espécie de favor: Ajudá-lo a seguir deserto adentro e encontrar o lendário chefe da Alta Cúpula, Berrada (Saïd Taghmaoui, de “Mulher Maravilha”) a fim de negociar diretamente com a autoridade maior.
Entretanto, nesse interím, a Alta Cúpula despacha uma personagem tão fria quando desconcertante, a Juíza (Asia Kate Dillon), para mover uma represália a todos que ajudaram de alguma forma John Wick, como Winston (Ian McShane, de “Piratas do Caribe-Navegando Em Águas Misteriosas”), gerente do Continental que deu a ele uma hora de vantagem antes da validação da recompensa por sua cabeça; ou o rei de Bowery (Laurence Fishburne), cujo gesto de emprestar uma arma à John Wick deflagrou todo o caos que ganha corpo neste filme.
Consciente da musculatura mitológica que atribui à sua criação, o diretor Stahelski confronta seu herói com uma sucessão de guinadas de ordem tão filosófica quanto irônica –a maior delas, sendo a ideia de encerrar onde tudo começou, ou seja, no Hotel Continental, palco de uma das mais insanas sequências de ação do cinema moderno, trazendo como formidável antagonista, o hábil, leal e letal espadachim interpretado por Mark Dacascos.
São muitos os elementos memoráveis que “Parabellum” entrega em profusão (a eletrizante participação dos atores de “Operação Invasão” merece ser aplaudida de pé!), mas talvez, seu detalhe mais notável seja o equilíbrio com que todos eles estão amarrados do início ao fim –nada sobra e nada falta neste primor de realização, resultando num espetáculo de inuspeito refinamento entre ritmo, história e ação.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A Ilha do Dr. Moreau

No mesmo ano em que o clássico da ficção científica escrito por H. G. Wells, em 1896, completava seu centenário, ela ganhava também sua terceira versão cinematográfica, e por assim dizer, a mais ambiciosa de todas.
Não que as outras (lançadas em 1933 e 1977) não tivessem suas intenções de largo alcance artístico: É necessário um certo espírito visionário para compreender a abraçar as imbricações presentes naquela trama sobre um cientista que, ao manipular o DNA animal e humano, e conceber monstros, acaba brincando de deus.
Todavia, a obra de 1996, dirigida por John Frankenheimer trazia propósitos imodestos à sua premissa –já então consagrada como uma das grandes obras literárias do gênero –que não apareciam com tanta ênfase nas adaptações anteriores, tão mais inclinadas à simplicidade macabra do mero terror.
A começar pela ostensiva escalação de Marlon Brando para viver o insano cientista, uma manobra que talvez quisesse estreitar os laços entre este filme e o quintessencial “Apocalypse Now” –não só os dois personagens recebem de Brando um tratamento um pouco parecido no registro da psicopatia, mas também a própria encenação proposta pela direção (com texturas da vida na selva evidenciadas em seus detalhes e suas cores), cria um clima não necessariamente similar, mas, intencionalmente similar.
Isso porque em muitos aspectos “A Ilha do Dr. Moreau” resulta sofrível quando poderia ser memorável, bizarro quando poderia ser original e involuntariamente cômico quando poderia ser intenso. Isso se deve aos diversos problemas de produção enfrentados pelo diretor Frankenheimer durante a realização do projeto, incluindo aí o sempre difícil esforço de colocar nos eixos o complicado temperamento de Brando.
Quando a trama se inicia, o seu Dr. Moreau se vê pressionado por ativistas, chocados com os métodos sem critério com os quais ele realiza experiências em animais. Moreau deixa Londres e isola-se numa ilha no Pacífico Sul onde passa a projetar uma nova raça de predadores implacáveis.
O roteiro ligeiramente bipolar escrito por Richard Stanley (diretor do cult “Hardware-O Destruidor do Futuro”) e Ron Hutchinson revê alguns ângulos distintos da trama até introduzir o protagonista de fato, Edward Douglas (David Thewlis), um piloto de avião que cai na ilha e é resgatado pelo lunático Dr. Montgomery (Val Kilmer, numa vibe alucinada semelhante à de Brando), um neurocirurgião que auxilia o Dr. Moreau em suas experiências.
A partir daí, como nas versões anteriores, o filme acompanha a gradativa consciência de Douglas acerca do cenário de pesadelo que configura a ilha; e suas encrencas são intensificadas quando ele passa a fazer parte dos planos do próprio Dr. Moreau.
Contando com o lendário Stan Winston no departamento de maquiagem, o filme de Frankenheimer tem a chance de exibir os mais realistas e detalhados mutantes dentre todas as versões do livro no cinema, no entanto, algo em sua unidade visual não soa harmonioso; pelo contrário, na atmosfera, nas opções estéticas e na orientação da fotografia, “A Ilha do Dr. Moreau” é caótico e desleixado, passando uma desagradável impressão ao expectador. Existem alguns apreciadores que consideram o bom trabalho de Frankenheimer obtido à luz de tantos contratempos de produção, mas eles não são muitos.

sábado, 21 de maio de 2016

O Pacto dos Lobos

O grande Cult movie francês da década de 2000, a despeito de muitas obras realmente sensacionais que surgiram por lá naquela época, foi mesmo “O Pacto dos Lobos”.
Até então, mais conhecido como realizador de filmes de terror (inclusive em experiências nos EUA, onde fez um episódio da coletânea de terror B “Necronomicon”, adaptado de H.P. Lovecraft) e de filmes de ação, cujo o mais expressivo foi “O Combate-Lágrimas do Guerreiro” com Mark Dacascos, o diretor Christophe Gans deu uma bela surtada ao encarar um projeto extremamente desigual que misturava um sem número de ecléticas influências (artes marciais, ambientação vitoriana; montagem de videoclip; monstros ;e a colossal nudez da italiana Monica Bellucci), para contar uma história baseada, até certo ponto, em relatos tidos como verdadeiros, mas intrinsecamente lendários.
1764. A França do Século retrasado é assolada pelas lendas que correm a respeito de um animal monstruoso que ataca os camponeses de Gevaudan, um vilarejo ao Norte, despertando as superstições do povo e gerando um preocupante clamor popular que chega a incomodar a coroa.
Preocupado com todo o folclore alarmista que a história vai ganhando, o Rei envia um pesquisador aventureiro (Samuel Le Bihan) e seu companheiro índio (Mark Dacascos, em mais uma colaboração com Gans) para a região incumbidos de solucionar a situação. Mas a dupla esbarra em mistérios que remontam a natureza maldosa de sociedades secretas criadas na região e que se estendem até a política e o poder religioso, e que estão diretamente ligados à origem do monstro.
Entre muitos dos personagens que lá eles encontram estão a jovem e angelical aristocrata Mariane (Emilie Dequenne), o pé no saco François (Vincent Cassel) e a prostituta Sylvia (Monica Bellucci, uma das coisas mais memoráveis do filme).
Talvez, a premissa de “Pacto dos Lobos” até lembrasse, um pouco, muitos filmes hollywoodianos produzidos em solo americano, mas o tratamento e o modo com que o diretor Gans enxergava a história era totalmente incomum. Ele conseguiu que o produtor Samuel Hadida (associado à Richard Granpierre) bancassem a produção, viabilizando todos os seus delírios que, num estúdio americano, jamais encontrariam sinal verde.
Contudo, o que distingue “Pacto...” de tantos filmes sobre monstros, sobre artes marciais, ou sobre qualquer coisa com a qual o filme se pareça, é realmente a forma com que Gans aborda tudo. Suas referências são ainda mais audaciosas do que no já promissor “O Combate-Lágrimas do Guerreiro” (no qual ele parecia incorporar um John Woo ainda mais lírico e operístico), e vão desde “Tubarão” de Steven Spielberg (usado, sobretudo, na cena do primeiro ataque do monstro), passando por “Matrix” (as coreografias em câmera lenta), e até mesmo “O Nome da Rosa” (a natureza incomum do filme e de sua investigação).
O resultado é tão singular que chega a despertar uma certa estranheza no expectador, mas Gans conduz seu filme como um trabalho comercial, num ritmo frenético que deve ter deixado Luc Besson orgulhoso. É verdade que sua narrativa padece pelo excesso; a trama não somente contem ramificações excessivas e, em dado momento, intrincadas, como também o filme abusa de sua extensa duração. Mas existe tanta paixão na execução de “Pacto dos Lobos” que seus erros acabam sendo parte daquilo que o torna único. Seus defeitos são tão fundamentais às características que o definem quanto suas virtudes.

E parece ser apropriado que essa miscelânea de influências audazes renda um filme francês.