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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Apocalypse Now Redux

Lançado no Festival de Cannes de 2001, durante o advento das ‘versões especiais do diretor’ de filmes em DVD, “Apocalypse Now Redux” representava um novo e diferenciado corte de Francis Ford Coppola em relação à sua obra-prima lançada em 1979.
O “Apocalypse Now” que todos conheciam, e que não tardou a converter-se numa marco fundamental do cinema, era um cópia bruta, despida de cenas que, segundo Coppola, acrescentavam novas camadas à trama; dessa forma, esta versão “Redux” era inusitadamente acrescida por quase uma hora de material inédito que, segundo o próprio Coppola, tinha o mérito de tornar mais ágil o material.
O filme que começa é o mesmo e magistral de sempre: Ao som apoteótico e apropriadamente dramático de “The End”, do The Doors, somos apresentados ao Capitão Willard (Martin Sheen) e às suas neuroses –no Vietnam, ele anseia por voltar para casa; quando em casa, ele sente falta da guerra.
Logo, ele recebe uma missão para ocupar sua mente transtornada: Deve subir um rio até adentrar o Camboja a bordo de um barco militar, infiltrado entre a tripulação, e uma vez lá eliminar o mítico Coronel Kurtz (Marlon Brando), um oficial extremamente graduado que enlouqueceu em regiões muito distantes da civilização, e lá montou um império particular.
As primeiras diferenças em relação ao filme original surgem logo após a espetacular cena do bombardeio ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, quando Willard (um personagem sem expressões de sarcasmo na outra versão) convence os soldados a roubarem a prancha de surf do megalomaníaco oficial interpretado por Robert Duvall. Na sequência, a cena do show das coelhinhas da Playboy ganha um formidável e aprofundado acréscimo quando Willard e os outros recrutas reencontram as garotas num acampamento militar decadente transformado praticamente em prostíbulo.
Contudo, o trecho que realmente justifica a existência desta versão “Redux” é mesmo o imenso bloco de quase uma hora de duração, lá pelo início do terço final, onde Willard encontra uma fazenda mantida por militares franceses em pleno Vietnam –cena apelidada pelo diretor de “Fantasmas de Buñuel” –onde os protagonistas encontram personagens aprisionados pela própria irredutibilidade de sua ideologia.
O interlúdio de Willard com a bela moradora do lugar (Aurore Clément, de “Paris, Texas”) introduz uma inesperada dose de erotismo na ópera bélica de Coppola.
Todo seu trecho final, entretanto, manteve-se intocado (prova de que realmente não havia como tornar melhor e mais antológica toda aquela passagem), quando Willard e o que sobrou de sua tripulação, triturados pela loucura, chegam ao extremo de não-civilização onde reina Kurtz, ameaçador e icônico como só um monstro como Marlon Brando seria capaz de interpretar.
Concebido como uma livre adaptação do livro “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad –transpondo da ambientação da África colonial do Século XIX para a Guerra do Vietnam –o filme de Coppola é uma surreal jornada de pesadelo filosófico, materializada após dois anos infernais de filmagens caóticas. A versão original e oficial até então conhecida era de uma perfeição e de um assombro que dificilmente uma nova releitura seria capaz de ombrear; e, de fato, “Redux” embora fascine por trazer novos adendos à uma narrativa tão hipnótica não consegue retocar o que já era irretocável –as cenas novas esticam consideravelmente a experiência afetando-lhe o ritmo, que na versão original transcorria com exatidão e fluidez.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sayonara

Os primeiros takes de “Sayonara” deixam evidente a intenção do diretor Joshua Logan (de “Férias de Amor”) em agregar algo da narrativa característica do cinema japonês, objetivo que ele vai gradativamente abandonando a medida que o roteiro de seu drama acomoda cada vez mais predicados e expedientes hollywoodianos.
“Sayonara” se passa na Guerra da Coréia, uma década após os eventos da Segunda Guerra Mundial. O habilidoso aviador, major Lloyd ‘Ace’ Gruver (Marlon Brandon, no auge de seu estrelato) é despachado para o Japão por intermédio de seu mentor, o General Webster (Kent Smith), que está a poucos passos de ser também seu sogro: Gruver está em processo de noivar com a filha dele, Eillen (Patricia Owens).
Nesse ínterim, Gruver deveria convencer outro militar, também ele enviado ao Japão, a desistir de seu casamento com uma japonesa, prática vista com maus olhos pelo Exército Americano –no entanto, tudo o que Gruver consegue é que Joe Kelly (Red Buttoms) se torne seu amigo e acabe convidando-o como padrinho de seu casamento com Katsumi (Miyoshi Umeki).
No Japão, Gruver se depara com a forte segregação imposta pelo Exército Americano (então em ocupação no país) que reprime completamente o envolvimento de soldados americanos com cidadãs japonesas; exemplo disso não só é o matrimônio de Kelly e Katsumi, mas também as casuais tentativas do capitão Mike Bailey (James Garner) em sair com uma dançarina.
É ao lado de Mike que Gruver, durante um dos atritos em seu relacionamento morno e impessoal com Eillen, conhece as Dançarinas de Matsubayashi, e encanta-se por sua estrela principal, a radiante Hana-Ogi (Miiko Taka).
Gruver sente por ela um arrebatamento que sua noiva jamais lhe despertou nem mesmo em sentido figurado.
Nas semanas seguintes, esforça-se por chamar-lhe a atenção: As Dançarinas de Matsubayashi, em especial as protagonistas de suas peças como Hana-Ogi, recebem vigilância cerrada o que as torna quase inacessíveis.
Todavia, Kelly e Katsumi são amigos de Hana-Ogi, e conseguem arquitetar um encontro dela com Gruver em sua residência, permitindo assim que a paixão se concretize.
Sem pressa e atento a todos os minimalismos dramáticos de seu competentíssimo elenco, o diretor Joshua Logan não se furta de narrar uma história de amor com seus elementos clássicos a impor barreiras aos apaixonados. Aqui, a memória recente de Segunda Guerra Mundial leva Hana-Ogi inicialmente a rejeitar Gruver, pois seu pai foi vítima das bombas atômicas; depois, quando ela se rende ao amor, é a própria condição existencial das nações, ainda a enxergar-se como inimigos de guerra que os separam –o exército, na forma de seus oficiais, tenta o possível para impedi-los de se amar.
Não só Gruver e Hana-Ogi, diga-se: Também Kelly e Katsumi sofrem com essa imposição e, num tratamento bem mais breve, testemunhamos vislumbres de Eillen, afastando-se de Gruver e enamorando-se pela sensibilidade de um ator de teatro kabuki, Nakamura, vivido com delicadeza por Ricardo Montalban (que, longe de ser japonês, adquire essa etnia graças à pesada maquiagem).
Diretor de origens teatrais, Joshua Logan trata sua obra enfatizando o melodrama no preciosismo das boas atuações (Red Buttoms e Miyoshi Umeki ganharam ambos os Oscar 1958 de Melhores Coadjuvantes) e construindo situações que se seguem com naturalidade sobrepujando a exigência da considerável duração. Expectadores mais familiarizados com a cultura japonesa irão identificar algumas irregularidades na reconstituição do filme, entretanto, mais do que sua eficácia na caracterização, seu grande mérito é mesmo ser uma das primeiras superproduções a revelar aspectos do Oriente (culturais, inclusive) às plateias ocidentais.
Para tanto, a edição emprega ritmos simultâneos que expõem os diversos rituais que integram vários dos eventos triviais japoneses com uma alternância irregular –ora é pausado e contemplativo; ora, cadenciado e ininterrupto –essas características desiguais inicialmente tornam peculiar o resultado, mas o filme como um todo logo adquire equilíbrio conquistando o envolvimento e a empatia do expectador.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A Ilha do Dr. Moreau

No mesmo ano em que o clássico da ficção científica escrito por H. G. Wells, em 1896, completava seu centenário, ela ganhava também sua terceira versão cinematográfica, e por assim dizer, a mais ambiciosa de todas.
Não que as outras (lançadas em 1933 e 1977) não tivessem suas intenções de largo alcance artístico: É necessário um certo espírito visionário para compreender a abraçar as imbricações presentes naquela trama sobre um cientista que, ao manipular o DNA animal e humano, e conceber monstros, acaba brincando de deus.
Todavia, a obra de 1996, dirigida por John Frankenheimer trazia propósitos imodestos à sua premissa –já então consagrada como uma das grandes obras literárias do gênero –que não apareciam com tanta ênfase nas adaptações anteriores, tão mais inclinadas à simplicidade macabra do mero terror.
A começar pela ostensiva escalação de Marlon Brando para viver o insano cientista, uma manobra que talvez quisesse estreitar os laços entre este filme e o quintessencial “Apocalypse Now” –não só os dois personagens recebem de Brando um tratamento um pouco parecido no registro da psicopatia, mas também a própria encenação proposta pela direção (com texturas da vida na selva evidenciadas em seus detalhes e suas cores), cria um clima não necessariamente similar, mas, intencionalmente similar.
Isso porque em muitos aspectos “A Ilha do Dr. Moreau” resulta sofrível quando poderia ser memorável, bizarro quando poderia ser original e involuntariamente cômico quando poderia ser intenso. Isso se deve aos diversos problemas de produção enfrentados pelo diretor Frankenheimer durante a realização do projeto, incluindo aí o sempre difícil esforço de colocar nos eixos o complicado temperamento de Brando.
Quando a trama se inicia, o seu Dr. Moreau se vê pressionado por ativistas, chocados com os métodos sem critério com os quais ele realiza experiências em animais. Moreau deixa Londres e isola-se numa ilha no Pacífico Sul onde passa a projetar uma nova raça de predadores implacáveis.
O roteiro ligeiramente bipolar escrito por Richard Stanley (diretor do cult “Hardware-O Destruidor do Futuro”) e Ron Hutchinson revê alguns ângulos distintos da trama até introduzir o protagonista de fato, Edward Douglas (David Thewlis), um piloto de avião que cai na ilha e é resgatado pelo lunático Dr. Montgomery (Val Kilmer, numa vibe alucinada semelhante à de Brando), um neurocirurgião que auxilia o Dr. Moreau em suas experiências.
A partir daí, como nas versões anteriores, o filme acompanha a gradativa consciência de Douglas acerca do cenário de pesadelo que configura a ilha; e suas encrencas são intensificadas quando ele passa a fazer parte dos planos do próprio Dr. Moreau.
Contando com o lendário Stan Winston no departamento de maquiagem, o filme de Frankenheimer tem a chance de exibir os mais realistas e detalhados mutantes dentre todas as versões do livro no cinema, no entanto, algo em sua unidade visual não soa harmonioso; pelo contrário, na atmosfera, nas opções estéticas e na orientação da fotografia, “A Ilha do Dr. Moreau” é caótico e desleixado, passando uma desagradável impressão ao expectador. Existem alguns apreciadores que consideram o bom trabalho de Frankenheimer obtido à luz de tantos contratempos de produção, mas eles não são muitos.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1955


Ainda que tecnicamente perfeito em todos os seus aspectos, “Sindicato de Ladrões” teve sua controversa vitória na cerimônia de 1955 por razões que iam muito além do filme que ele era –e diziam mais à tudo aquilo que ele representava: Em primeiro lugar, era uma bem-sucedida tentativa de implantação, no cinema, do método interpretativo de Strasberg (que sempre teve em Marlon Brandon um de seus intérpretes mais simbólicos) e em segundo, servia como uma contundente e mal disfarçada metáfora do próprio diretor Elia Kazan acerca das circunstâncias em que se deu a sua delação de vários colegas artistas envolvidos com o comunismo no Comitê de Assuntos Anti-Americanos.
Tivesse ou não a Academia intenção de apoiar a posição ideológica de Kazan, “Sindicato de Ladrões” sagrou-se com sete prêmios (incluindo Melhor Diretor, Melhor Ator para Brandon e Melhor Atriz Coadjuvante para Eva Marie Saint), superando competidores como “Amar É Sofrer” (que deu o Oscar de Melhor Atriz à maravilhosa Grace Kelly), “A Fonte dos Desejos”, o sensacional “A Nave da Revolta” e o musical de Stanley Donen “Sete Noivas Para Sete Irmãos”.

MELHOR FILME
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR DIREÇÃO
"Sindicato de Ladrões", Elia Kazan

MELHOR ATOR
Marlon Brando, "Sindicato de Ladrões"

MELHOR ATRIZ
Grace Kelly, "Amar É Sofrer"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edmond O’ Brien, "A Condessa Descalça"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Eva Marie Saint, "Sindicato de Ladrões"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"As Portas do Inferno" (Japão)

MELHOR ROTEIRO
"Amar É Sofrer"

MELHOR HISTÓRIA ORIGINAL
"A Lança Partida"

MELHOR HISTÓRIA & ROTEIRO
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"A Fonte dos Desejos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"20.000 Léguas Submarinas"

MELHOR MONTAGEM
"Sindicato de Ladrões"

MELHOR SOM
"Música e Lágrimas"

MELHOR TRILHA SONORA MUSICAL
“Sete Noivas Para Sete Irmãos"

MELHOR TRILHA SONORA DRAMA
"Um Fio de Esperança"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Three Coins In The Fountain", de "A Fonte dos Desejos"

MELHOR FIGURINO P&B
"Sabrina"

MELHOR FIGURINO CORES
"As Portas do Inferno"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"20.000 Léguas Submarinas"

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Sindicato de Ladrões


É perfeitamente nítida a intenção do diretor Elia Kazan em “Sindicato de Ladrões”, uma vez que temos o conhecimento de que ele delatou diversos colegas associados ao comunismo durante a Caça Às Bruxas capitaneada pelo Senador Joseph McCarthy: Na trama que narra (e na forma como a narra) o ato da delação ganha um viés de heroísmo e de nobreza.
A despeito desse detalhe algo controverso não há como negar a excelência técnica e artística da obra realizada aqui.
No ápice de um primor interpretativo que sempre foi relacionado a ele, Marlon Brando interpreta Terry Malloy, jovem trabalhador do cais portuário de Nova York.
Há um status quo ali ao qual o melindroso Terry não tem tantos escrupulosos em se adaptar: Já na primeira cena, ele está de conluio com os sindicalistas do cais do porto. Um delator em potencial precisa ser silenciado e, embora acreditasse que iriam apenas intimidá-lo, Terry contribui para que seja atraído até o telhado do prédio de onde termina sendo jogado.
No cais do porto, as coisas são assim: É preciso calar-se ante os mandos e desmandos do líder do sindicato, o tentacular Johnny Camarada (Lee J. Cobb, de “12 Homens e Uma Sentença”), que enriquece a base de propinas, enquanto controla os estivadores determinando aqueles que trabalham ou não (seus privilegiados).
Em suma, praticamente uma máfia.
Na parábola que constitui a premissa, Elia Kazan estabelece esse cais do porto diretamente como a Hollywood daqueles anos 1950, onde os envolvidos com o comunismo se viam às margens da Lei –com efeito, Kazan também acaba relacionando os estóicos agentes da Comissão de Crimes Portuários aos funcionários do Comitê de Assuntos Anti-Americanos. E a si mesmo, com o protagonista Terry Malloy.
Afinal, Malloy (que muito deve de sua inclinação dúbia ao irmão mais velho envolvido com o sindicato, vivido por Rod Steiger) acaba se apaixonando pela belíssima Edie (Eva Marie Saint, maravilhosa), irmã do rapaz assassinado e impregnada de indignação com a situação no cais, da qual também seu pai é vítima. Aliada ao discurso libertador e moralista do padre Barry (Karl Malden), a iniciativa de Edie aos poucos vence a relutância de Terry que se convence de denunciar os crimes de seus comparsas sindicalistas.
Definindo com exatidão a linha que separa o legal do ilegal, Kazan parece reiterar até para si mesmo o ônus que acarreta as decisões que abraçam a Lei: Após a delação, durante o último terço do filme, Terry sofre vendo seus companheiros estivadores lhe virando as costas. Ele termina por confrontar o próprio Johnny Camarada e, após um dilacerante embate físico, tem de provar a todos que pode liderar um cais livre de corrupção, se mantendo em pé, mesmo que esteja tão debilitado a ponto de desmaiar –a magnífica cena final, da árdua caminhada até o depósito representa para Kazan a suprema e definitiva metáfora do artista que se mantem exercendo sua arte diante do descrédito acarretado pela delação dos colegas de trabalho.
E apesar dessa sua auto-justificada ideologia, o diretor foi competente o bastante para realizar um filme que se sustenta maravilhosamente bem sem quaisquer desses fatores subliminares: Impressiona o fato, por exemplo, de Kazan ser um diretor oriundo do teatro quando aqui ele constrói uma narrativa tão primorosamente cinematográfica –não falta à “Sindicato de Ladrões” a dose exata de ação, suspense e dramaturgia que o fazem, do início ao fim, uma obra tão memorável.

sábado, 14 de julho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1973


Eram tempos tumultuados esses dos anos 1970. Na cerimônia de 1973, em um dos mais polêmicos episódios do Oscar, o ator premiado, o grande Marlon Brando, por “O Poderoso Chefão”, recusou-se a comparecer à festa e a receber a estatueta, mandando em seu lugar uma atriz vestida de índia: Brando recusou o prêmio em sinal de protesto contra o tratamento dado aos indígenas pelos EUA.
Uma das poucas vezes em que ouviu-se vaias na cerimônia.
A primeira parte do grande épico de Coppola foi o grande vencedor da noite, mas até que sua premiação foi relativamente contida –levou três estatuetas –nem sequer a de diretor ficou com ele, sendo vencida por Bob Fosse e seu estupendo “Cabaret” –a estrela do filme, Liza Minnelli e seu coadjuvante o ótimo Joel Gey também ficaram cada um com seus Oscar.
Contudo, a grande curiosidade desse ano foi a premiação, na categoria de Trilha Sonora Original para “Luzes da Ribalta”, de Charles Chaplin, produzido em 1952 (!).
Explica-se: Em seu ano de produção, “Luzes da Ribalta” foi lançado apenas na Europa –em meados dos anos 1950, Chaplin era um dos artistas perseguidos pelo Macarthismo, tendo seus trabalhos banidos de solo americano. Dessa forma, seu filme só foi lançado nos EUA vinte anos depois; e segundo os critérios empregados pela Academia, se tornando premiável no ano de seu lançamento.

MELHOR FILME
"O Poderoso Chefão"

MELHOR DIREÇÃO
"Cabaret", Bob Fosse

MELHOR ATRIZ
Liza Minnelli, "Cabaret"

MELHOR ATOR
Marlon Brando, "O Poderoso Chefão"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Eileen Eckart, "Liberdade Para As Borboletas"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Joel Grey, "Cabaret"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Cabaret"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Discreto Charme da Burguesia" (França)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"O Destino do Poseidon"

MELHOR FIGURINO
"Viagens Com Minha Tia"

MELHOR SOM
"Cabaret"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Cabaret"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Luzes da Ribalta"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Cabaret"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Morning After", de "O Destino do Poseidon"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"O Candidato"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Poderoso Chefão"

MELHOR MONTAGEM
"Cabaret"

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Superman - O Filme

Décadas antes das adaptações de histórias em quadrinhos virarem febre em Hollywood, houve um projeto –hoje, envolvido em merecida roupagem lendário –visto como algo arriscado: A intenção do produtor Ilya Salkind, em levar para as telas, ainda no fim dos anos 1970, uma versão cinematográfica do Superman.
Esse objetivo esbarrava num obstáculo técnico: Como mostrar, com absoluto realismo o personagem voando pelos céus?
A despeito desse problema –um pouco parecido com a dúvida ocasionada décadas depois, de como fariam, o Homem-Aranha se balançar em prédios de modo plausível, no filme de Sam Raimi –Salkind fez dessa expectativa uma das maiores armas do marketing da produção; a frase “Você vai acreditar que o homem pode voar!” foi muito difundida naquele período.
Tudo deu certo porque o produtor escolheu o diretor Richard Donner para o projeto. E Donner, conhecedor dos meandros cinematográficos, cercou-se de um time de primeira em frente e atrás das câmeras: Em especial, o diretor de fotografia de “2001-Uma Odisséia No Espaço”, Geoffrey Unsworth, a trilha sonora de John Williams (imediatamente transformada num ícone), e o roteiro de Mario Puzo (o mesmo de “O Poderoso Chefão”).
O grande acerto de Donner, contudo, foi no elenco –não somente nas presenças incrivelmente renomadas, como Gene Hackman ou Valerie Perrine, mas, acima de tudo, na escolha audaz e inigualável do inglês Christopher Reeve para viver o personagem principal.
O resultado: Uma versão que dificilmente será superada.
Ignorado pelas autoridades maiores de seu planeta Krypton, o cientista Jor-El (Marlon Brando, como sempre espetacular) alerta-os em vão de que o sol vermelho em torno do qual orbitam está prestes a explodir levando Krypton com ele.
Decidido a salvar a vida de seu único filho, o pequeno Kal-El, mesmo que em sacrifício da sua própria vida e a de sua esposa, Lara (Susannah York), Jor-El o coloca numa nave e o envia a um planeta chamado Terra, no qual os intensos estudos de Jor-El revelaram que o organismo de Kal-El cresceria forte, quase indestrutível, devido aos raios de seu sol amarelo.
Após a destruição de Krypton –uma cena filmada com extrema propriedade e valor artístico –e a longa jornada através do espaço sideral, o bebê kriptoniano enfim chega à Terra, onde é adotado pelo casal de fazendeiros, Jonathan (Glenn Ford) e Martha Kent (Phyllis Thaxter), que não têm filhos. Anos depois, já adulto e com o nome de Clark Kent (vivido nesta fase por Jeff East), ele parte para viajar o mundo e descobrir quem é, tendo como única pista um fragmento de cristal vindo de seu mundo. Isso o leva ao pólo norte onde é criada a Fortaleza da Solidão –uma espécie de templo tecnológico nos moldes das estruturas que existiam em Kripton, dentro do qual depoimentos e mensagens deixadas por seu pai, Jor-El, elucidam toda sua origem.
Clark (finalmente interpretado por Christopher Reeve, a personificação definitiva do personagem) então passa a morar em Metrópolis, sob a identidade de um pacato (e excessivamente aparvalhado) repórter do Planeta Diário, enquanto ocasionalmente assume a identidade de Superman, como o protetor maior do planeta que o acolheu, usando para isso seus assombrosos poderes kriptonianos, como a capacidade de voar, a invulnerabilidade e a superforça.
Não bastasse o cuidado assombroso com que moldou a história, o diretor Donner pontuou seu filme com momentos absolutamente antológicos que se sucedem quase sem parar: A destruição assombrosa de Krypton; a corrida do herói, ainda adolescente, para alcançar o trem; a primeira e espetacular aparição no salvamento do helicóptero em queda livre; a entrevista algo íntima com Louis Lane (Margot Kidder), impregnada de romantismo; a angustiante cena com a krytonita; o extraordinário salvamento de um trem –onde o herói serve de ponte no lugar dos trilhos caídos –e muitos outros!
É até possível aceitar o ator Henry Cavill como a mais nova personificação do herói, mas ele dificilmente conseguirá convencer as gerações que puderam ver Christopher Reeve voar.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Poderoso Chefão

É de um gesto objetivo tão sucinto e incisivo que Francis Ford Coppola inicia sua obra que até hoje impressiona: Um ator que sequer terá muito peso na narrativa por vir inicia um monólogo imerso em sombras –o fator de real importância ao filme não é aquele que fala, mas o seu ouvinte: Don Vito Corleone, vivido com um repertório primoroso de maneirismos estudados por Marlon Brando.
Está aí, no silêncio contemplativo de Don Vito, a pista de Coppola: Este não é um filme de ação, não é um filme policial, não é nem mesmo um filme de gangster no sentido do quê a platéia está acostumada (pelo menos as platéias dos anos 1970, que receberam estarrecidas este trabalho); “O Poderoso Chefão” é, sim, uma obra composta por sutilezas, debruçada sobre as guinadas emocionais sofridas por uma família, e assim tratada por seu realizador –claro que, sendo Coppola um tremendo admirador da arte de Akira Kurosawa, não falta ao seu trabalho ação, ritmo brilhantemente calculado e seqüências de violência, mas tudo isso serve ao princípio primordial da dramaturgia, da história que se dedica a esmiuçar os personagens.
Há Don Vito, a figura patriarcal que representa uma liderança quase que icônica nos negócios da família, cuja maneira sensata de conduzir suas ligações com o crime organizado já não encontra tanta ressonância nas parcerias que surgem nesses novos tempos; o quê leva Don Vito aos outros dois grandes personagens do filme: Seus filhos, Sonny e Michael.
Sonny (interpretado com som e fúria por James Caan) é o primogênito. Consciente de ser o herdeiro direto, Sonny tem todos os pré-requisitos para preencher a sucessão ao pai: É explosivo, truculento, rígido e implacável, exatamente como os novos tempos pedem.
Michael (na atuação antológica de Al Pacino), o caçula, é o seu perfeito oposto: Ex-combatente de guerra, Michael não deseja mais atribulações para sua vida –e nem o pai deseja para ele –tudo, em seu comportamento, sugere alguém que planeja sossegar para o resto de seus dias.
Mas, a única coisa previsível da vida é que ela é imprevisível: Como numa ópera de ironia poderosamente dramática, será Michael, e não Sonny, quem irá galgar os degraus da Família Corleone em direção ao topo de sua hierarquia.
Nessa trajetória épica desenhada por Coppola, outros personagens essenciais surgirão: Freddo (John Cazale), o irmão do meio, passivo e acanhado; Kay Adams (Diane Keaton), a namorada de Michael com características convulsivas da nova mulher moderna; Connie (Tália Shire, irmã de Coppola), a filha de Don Vito, vítima de um marido violento –no casamento da qual o filme se inicia –e, Tom Haggen (Robert Duvall), dedicado filho adotivo que assume funções secretariais para o pai.
A vida e as atribulações violentas dessa família mudará drasticamente o destino reservado a todos eles.
Embora seja em si uma obra incomum e até revisionista, na comparação com tudo o que veio antes e tudo o que veio depois dele no gênero (incluindo os exemplares que tentaram, em vão, imitá-lo) este magistral trabalho de Francis Ford Coppola é, até hoje, o representante quintessencial do "filme-gangster". Obra-prima.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Último Tango Em Paris

Talvez, a obra-prima de Bernardo Bertolucci, este trabalho, em várias instâncias pertence ao seu tempo: Os anos 1970, quando um filme libertário e controverso podia encontrar respaldo, reconhecimento, e recursos para se deixar existir, quando a arte era vista de outra forma, e não haviam abismos a separar o cinema comercial do cinema autoral, e um astro do calibre de Marlon Brando era capaz de comparecer num projeto dessa audácia, ao mesmo tempo em que marcava presença numa obra como “O Poderoso Chefão”.
O sexo era um tema muito perseguido por Bertolucci naqueles tempos, visto o modo como esse fator surgia com importância e pertinência em trabalhos como “La Luna” e “O Conformista”, talvez uma tênue herança de seu conterrâneo, o transgressivo Píer Paolo Passolini, que ele sempre afirmou ser um de seus mentores.
Na trama que Bertolucci desnubla sem intenção de entregar todos os detalhes (e deixar campo aberto à sugestão), encontramos o personagem de Brando, nas ruas de Paris, entregue a uma angústia sem fim –sua esposa, descobriremos mais tarde, se suicidou. Seu caminho cruza por acaso com o de Jeanne (uma angelical Maria Schneider), uma jovem cujo relacionamento algo superficial com o noivo a leva a experimentar um vazio existencial muito parecido. Os dois se encontram num apartamento vago e logo identificam –sem trocar maiores informações –a angústia um do outro. A conseqüência disso é o sexo que irão praticar compulsivamente nas semanas seguintes, estabelecendo uma condição por meio da qual não irão revelar seus nomes, mas se manterão disponíveis para o extravasamento de instintos primais mútuos: O quê inclui a famigerada “cena da manteiga”, na qual, enquanto declama um contextualmente hediondo discurso sobre as normas da família, Brando utiliza um naco de manteiga como lubrificante anal durante a sodomia de uma aflita Maria Schneider.
Mas, na gramática pouco realista que dialoga a situação estabelecida pelos amantes, essas sublimações do sentimento há de mudar –sobretudo, no que tange ao personagem de Brando, que altera algumas de suas convicções até o final (e, por conseqüência, o faz também com a personagem de Schneider).
Catalisador dessa mudança, é o momento em que eles tentam uma desastrosa e anárquica tentativa de interação com outras pessoas, numa caótica dança de tango.
A sedução, e o mistério que a fazia fascinante começam a se desvanecer ali e conduzem os personagens à cena atroz que encerra o filme, envolta na música primordial, lasciva e hipnótica de Gato Barbieri, quando os protagonistas do filme voltam, cada um, à condição de seus respectivos pares: Marlon Brando, tal como sua esposa, morre; e Maria Schneider aceita a mentira que é seu noivado, ensaiando como contará uma nova mentira ao explicar o cadáver em seu apartamento.
Um momento, entre tantos, que ilustram o estado de graça em que se achava o apuro artístico de Bertolucci, e que ele soube executar neste filme como ninguém.

domingo, 8 de novembro de 2015

Apocalypse Now

As selvas cambojanas ilustram bem o caráter pernicioso na alegoria de Coppola: Elas têm poder de contaminar a própria psiquê humana, e nela encontrar a corrosiva neurose que tanto parece lhe interessar. 
O diretor de “O Poderoso Chefão” foi buscar em Joseph Conrad, e seu “Hearts Of Darkness” a idéia para seu filme sobre a Guerra do Vietnam, e deixou refletidos e registrados na tela todos os percalços de dificuldades sobrehumanas que enfrentou para tornar seu delírio real: e tudo, absolutamente tudo, em “Apocalypse Now” é um delírio. Da acachapante técnica cinematográfica que seu diretor emprega para compor cenas de incontornável força (como o início irônico e carregado de significado ao som de The End, do The Doors), à detalhes subliminares que ganharão força conforme o filme for visto e revisto (os camarões estranhamente relacionados  à voz espectral de Marlon Brando que ecoa de um gravador durante a tensa cena do jantar; o sangue que escorre da mão de Martin Sheen em sua primeira aparição; as cartas de baralho do capitão surtado de Robert Duvall). 
Se há um filme no cinema que materializa a loucura e suas mais circunspectas implicações, é este daqui. E parece ser de uma exatidão inquestionável a forma com que Coppola relaciona a guerra (não apenas a do Vietnam, mas todas as guerras) à loucura. E tão poderosa é essa alegoria que ela remete a cenas de um pesadelo subconsciente, com ecos de um Inferno de Dante se fazendo ouvir em diversos e inacreditáveis momentos. Enumerar as seqüências mais memoráveis é um trabalho complicado e repleto de armadilhas (eles se sucedem tantos, um a um, que é preciso tomar cuidado para não acabar enumerando todas as cenas do filme): O ataque de helicópteros ao som da “Cavalgada das Valquírias”; a aparição inesperada de um trigre; o show das coelhinhas da Playboy; a cena aterradora de Martin Sheen emergindo do rio. 
Talvez, o momento primordial seja mesmo a aparição de Marlon Brando, onde o círculo se completa, com a revelação de uma loucura essencial e pura, partindo de um princípio próprio e pessoal de mundo, e não pautado pela guerra, como tudo que vínhamos vendo até então. Como tudo o mais, ele está errado. Mas é, por sua pequena noção de revolução, que ele será punido, e não por qualquer atrocidade que por ventura tenha praticado; isso o filme já vinha mostrando aos borbotões. 
Na visão a um só tempo cru e surreal de Francis Ford Coppola, a insanidade, a guerra e o genocídio são ecos indeléveis (e mesmo assim poéticos) de um mal que marca a existência perene da raça humana: Aquele que jaz em seus próprios corações.