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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Queima de Arquivo


 A carreira do astro Arnold Schwarzenegger havia chegado num ponto de estagnação na segunda metade da década de 1990. Astro absoluto do cinema de ação nas bilheterias –como atestavam produções como “Exterminador do Futuro 2” e “True Lies” –ao lado, talvez, de Sylvester Stallone, ele havia atingido uma espécie de ‘topo do Olimpo cinematográfico’. A necessidade de reinventar-se (e de, portanto, parar de repetir-se) levou-o a flertar com a política já na década de 2000, como é mostrado no formidável documentário “Arnold”.

Contudo, ainda naquele período, meados de 1995, Schwarzenegger ainda fazia filmes. E após mais sucessos do que fracassos (basicamente o grande exemplar, nesse caso, é “O Último Grande Herói”), havia uma espécie de ‘fórmula’ que Arnold involuntariamente havia criado para si, e que ninguém mais era capaz de imitar: Filmes de ação pancadaria, mas com insuspeito requinte cinematográfico (à cargo normalmente de bons diretores que entendiam do riscado como James Cameron e John McTiernam), tramas simplificadas sempre voltadas à criação do personagem que Arnold interpretaria e do contexto quase sempre mirabolante que o envolve, e bordões, muitos bordões –que, quando funcionavam, tornavam-se memoráveis na exótica voz do astro, tais como “I’ll be back!” e “Hasta la vista, baby!”, ambos da Saga “Exterminador do Futuro”.

Lançado em 1996, “Queima de Arquivo” preenchia cada um desses pré-requisitos: Era dirigido por Chuck Russell (que, pouco tempo antes, surpreendeu o público com o ótimo “O Máskara”), e trazia um personagem John Krugger que combinava feito uma luva com o perfil de Schwarzenegger; Agente especial da agência governamental conhecida como WitSec (uma silga para Witness Security Program), Krugger é um perito na sua especialidade –devidamente esboçada na cena inicial; Sempre que uma testemunha crucial de um julgamento movido contra poderosos influentes se vê ameaçada, Krugger é acionado a fim de proporcionar à pessoa a proteção que autoridades normais não seriam capazes. Uma espécie de Programa de Proteção à Testemunha aprimorado.

Na WitSec, Krugger é, de longe, o agente mais bem-sucedido, o mais eficaz e o mais incorruptível –características que dão uma bela massagem de ego no astro Schwarzenegger –no entanto, sua mais desafiadora missão ainda virá, quando a executiva Lee Cullen (a belíssima cantora, modelo e atriz Vanessa Williams), com o auxílio algo claudicante do FBI, tentará incriminar seus empregadores, fabricantes de armas que estão fornecendo armamento high-tech para inimigos dos EUA. Protegida com extremo desleixo pelo FBI, e ameaçada de morte por seus antigos patrões, Lee se torna ainda mais importante para o caso quando as provas levantadas contra a empresa armamentista são destruídas, restando somente as cópias de tais documentos feitas pela própria Lee, capazes de incriminar a todos. Ela então é imediatamente encaminhada para John Krugger que, nesta missão, terá de não só valer-se de toda sua perícia para fazer Lee escapar de seus algozes com vida –algozes estes que terão, à sua disposição, inclusive, toda a parafernália futurista de armamento que a empresa para a qual trabalham produz! –como também precisará enfrentar a corrupção dentro da própria WitSec, uma vez que agora o outrora mentor de Krugger, Robert Deguerin (o veterano James Caan), se encontra também na folha de pagamento dos poderosos em julgamento.

A direção inventiva de Chuck Russell e o carisma inabalável de Arnold Schwarzenegger –aliado à presença sensual de Vanessa Williams que, curiosamente, não engata com ele qualquer vínculo amoroso –até que disfarçam o fato de que “Queima de Arquivo”, a toda hora, luta contra sua própria tendência recorrente de ser uma produção genérica –eles criaram um personagem, John Krugger, cujo background até sinaliza com toda uma mitologia a ser expandida e explorada em possíveis continuações (que nunca vieram), conceberam cenas de ação projetadas para constar na galeria das mais memoráveis do cinema-pipoca do período (as duas mais notáveis certamente são o audacioso salto quase sem para-quedas de um jato 727 em pleno voo e o tiroteio de armas futuristas no zoológico do Central Park, com crocodilos à solta), e ainda bolaram até um bordão um pouco bobinho (“Sorria, você foi apagado!”) dito por Arnold nos trailers, mas no filme falado apenas por um figurante... –nada disso, entretanto, conseguiu fazer com que “Queima de Arquivo” se destacasse em meio à filmografia de Schwarzenegger, pontuada de produções de ação relevantes de verdade, nem tampouco fazê-lo sobressair-se nas bilheterias daquela temporada.

Em tempo: No ano de 2022, ainda sob as circunstâncias nefastas da pandemia, foi produzido e lançado uma espécie de remake, “Queima de Arquivo-Regenerado”, estrelado por Dominic Sherwood, cuja única utilidade foi provar que este filme de 1996 era, de fato, um bom e satisfatório entretenimento diante da catástrofe que foi sua refilmagem.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Força de Um Passado

Diretor de “Suzie e Os Baker Boys”, o também roteirista Steve Kloves não obteve aqui o mesmo equilíbrio de sua realização anterior, deixado transparecer uma indecisão de ritmo e de gênero a contaminar os elementos que poderiam fazer deste um bom trabalho.
Ele reúne os atores Dennis Quaid e Meg Ryan –então, casados na vida real –após ambos terem participado, anos antes, de “Viagem Insólita”, de joe Dante, e “Morto Ao Chegar”, de Rocky Morton e Annabel Jankel. Eles interpretam (sobretudo, Quaid) personagens intimistas que fazem a alegria de atores em geral, mas que encontram certa dificuldade em estabelecer empatia com o expectador –e é aí que começam os problemas de “A Força de Um Passado”.
No prólogo tenso e relativamente lento, vemos uma família abrigar, na calada da noite, um menino perdido. As intenções do garoto, no entanto, se revelam quando ele destranca a porta para o próprio pai, um bandido, poder roubar a casa.
Porém, uma tragédia acontece e o homem termina matando toda a família: O pai, a mãe e um menino, deixando vivo apenas o bebê.
Para uma cena que determinará os rumos dramático tomados pela trama e por seus personagens –o que, de fato, vem a acontecer –tal prólogo carece de impacto, revelando-se enfadonho.
Eventualmente, num salto no tempo reencontramos aquele garoto, Arliss (agora vivido por Dennis Quaid), vivendo como fornecedor de utensílios para máquinas de bar ao longo das pradarias do desolado centro-oeste norte-americano. E o diretor Kloves não encontra muito o que fazer senão transformar este em um road-movie.
E numa espécie de romance também: Arliss encontra-se com Kay (Meg Ryan, ainda ostentando uma seriedade que sua carreira perdeu quando virou ‘rainha das comédias românticas’), uma moça envolvida em alguns apuros: Teve seu dinheiro roubado, obrigando-se a fazer, bêbada, um show de strip-tease (!).
Com a ajuda relutante de Arliss, Kay consegue voltar para sua cidade apenas para terminar de uma vez o casamento catastrófico com o marido inconveniente e trapaceiro.
E, à medida que o relacionamento entre os dois se intensifica –sem que o filme deixe exatamente claro se é disso que ele quer falar –ficamos nos perguntando quando, afinal, a cena trágica do início, irá começar a interferir nos rumos da história.
Dá até para começar a pensar que a bebezinha sobrevivente pudesse ser a jovem Ginnie (Gwyneth Paltrow, num de seus primeiros papéis de cinema), com quem Arliss se cruza algumas vezes, e que vem a ser quem rouba o dinheiro de Kay.
Todavia, as pontas soltas começam a se juntar quando o pai de Arliss (o grande James Caan) reaparece, atrás da ajuda do filho. Ele e Ginnie formam agora uma dupla, diante da insistência do filho em seguir uma vida honesta depois de adulto.
E assim, o passado vem cobrar suas dívidas: Aos poucos, pai e filho descobrem que Kay, a mulher agora envolvida com Arliss, é na verdade aquele bebê que escapou com vida naquela noite. O que fez Arliss um dos cúmplices do assassinato de sua família e, certamente, um dos responsáveis pela guinada que sua vida deu –culpa que os discursos imorais de seu pai só vêm a potencializar ainda mais.
Embora pretensamente dramático, “A Força de Um Passado” não aprofunda completamente a circunstância de seus personagens justamente por preferir, em vez disso, esconder muitas das informações até a último instante acerca dos reais eventos a enlaça-los; e ainda que Quaid e Ryan sejam protagonistas carismáticos, eles depõem contra a própria simpatia que conseguem conquistar interpretando personagens fechados, taciturnos e circunspectos em suas dores internas.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Um Duende Em Nova York

Certamente, Will Ferrel é o sol cuja luz ilumina a razão de ser deste projeto –é em sua figura marcante, em sua energia cênica, e em seu humor convicto que se ampara toda a narrativa. Todavia, há que se dar, também, o devido crédito ao diretor Jon Favreau que, compreendendo esses aspectos, soube jogar luz ao seu protagonista, dando a ele palco amplo para suas peripécias mesmo que em detrimento de outros coadjuvantes.
No caso de alguém como Will Ferrel é assim que tem de ser: Tão catalizadora é sua presença, tão escancaradamente caricata é sua comédia que não soa apropriado tratar uma protagonista assim como alguém normal –ou mesmo, real –e, para tanto, a trama de “Um Duende Em Nova York” dosa o non-sense com perfeição.
Ferrel é Buddie, uma criança humana que, ainda bebê, encontrou inadvertidamente no saco do Papai Noel na noite de Natal (!), e terminou indo parar no Pólo Norte onde foi adotado por elfos.
Anos depois, apesar de sua desproporção evidente para com os demais, o ingênuo Buddie, mesmo adulto, ainda não se deu conta de que foi adotado (!).
Ao descobrir o fato, seu impulso é o de natural conhecer seu genitor –cuja pista ele tem uma foto –e que o próprio Papai Noel já informou que se encontra na lista dos ‘meninos maus’.
Seu pai é, na verdade, o empresário Walter (James Caan, sempre ótimo), para quem a ambição pesa muito mais que o altruísmo –e nota-se aí, na dinâmica pai e filho que se estabelece, a similaridade que o roteiro espertamente encontra com o clássico “Um Conto de Natal”, de Charles Dickens; o personagem do pai é, sob diversos ângulos, um réplica, portanto, de Ebenezer Scrooge e, como tal, terá seu cinismo e seu materialismo transfigurados ao longo da história, na descoberta de seu próprio espírito natalino e, aqui, de sua proximidade com o filho.
Sem pressa para percorrer esse arco nítido, e até previsível, mas não menos envolvente e válido, a direção de Jon Favreau aproveita para se esbaldar com o que o filme tem de mais original: Seu protagonista irreprimível, que Will Ferrel transforma num elemento desestabilizador em cada uma das cenas, em cada encontro com um novo personagem, como a jovem que potencialmente será seu interesse romântico (Zooey Deschanel); ou a madrasta que consegue ser mais terna e benevolente que o próprio pai (Mary Steenburgen).
Uma singela produção natalina e, ao mesmo tempo, um veículo para o estrelato do genial cômico Will Ferrel –ainda que seu humor seja com frequência peculiar –este filme beneficiou todos os envolvidos com um expressivo sucesso de bilheteria, o que possibilitou ao diretor Jon Favreau, mais tarde, assumir as rédeas da aventura “Zathura” (a tardia continuação de “Jumanji”) e em seguida de um projeto intitulado “Homem de Ferro”.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Louca Obsessão

A atriz Kathy Bates alterna momentos de insuspeita amabilidade com rompantes inesperados de fúria num interessante trabalho que em 1990 lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz.
A vilania inesperada de sua personagem é um dos trunfos desta interessantíssima adaptação de um conto de Stephen King, concebida pelo mesmo Rob Reiner que dirigiu o tão cultuado “Conta Comigo” –também de King.
A história é um pesadelo improvável, porém, não implausível como muitos que saem da mente de seu autor e que exploram muitos de seus temores íntimos. Só assim para explicar o imenso número de protagonistas que são, eles próprios, escritores, como o deste filme, Paul Sheldon (James Caan).
Ele tem o infortúnio de capotar seu carro quando voltava das montanhas com o manuscrito pronto de seu mais novo romance, e o infortúnio ainda maior de ser salvo por Annie (Kathy) uma ex-enfermeira moradora da região. De início, claro, isso não fica evidente, visto que Annie se declara sua fã número 1 –ela, inclusive, ama “Misery” exatamente a mesma saga literária cujo capítulo final ele acabou por escrever! –por isso que, debilitado pelo acidente e preso à cama da casa dela Paul, agradecido, permite que Annie leia seu novo livro. Contudo, a mulher transforma-se numa maluca psicótica ao perceber que ele matou justamente a protagonista Misery. Imobilizado numa cama e com as duas pernas quebradas, ele agora é alvo das torturas físicas e psicológicas que ela, cada vez mais insana, lhe inflige.
Antes que a escala de loucura e psicopatia dela se torne realmente prejudicial para sua vida, ele precisa planejar um meio de fugir.
Quem conhece o trabalho do diretor Reiner exclusivamente baseado em “Conta Comigo” ou na famosa comédia romântica “Harry & Sally-Feitos Um Para O Outro” pode até subestimar o filme que ele entrega aqui, porém, isso só dura até que a atmosfera de tensão realmente se inicie: Valendo-se de um minucioso e cuidadoso trabalho de câmera (o diretor de fotografia é Barry Sonnenfeld que depois se tornaria o bem-sucedido diretor de “A Família Adams” e “Homens de Preto”), o filme simula, por meio de cortes objetivos e econômicos e enquadramentos específicos, a condição restrita e imobilizada do vulnerável protagonista, cujos limitados recursos de que dispõe o tornam um verdadeiro prisioneiro da imprevisível ex-enfermeira.
Ajuda muito, o fato de Kathy Bates moldar uma das mais sensacionais vilãs de sua carreira e de James Caan, seu parceiro em cena, também estar muito bem nesta obra tensa, aflitiva e, por que não, divertida.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Dogville

As casas e os muros que compõem a cidadezinha chamada Dogville não são mais que riscos de giz traçados no chão e, no entanto, apesar dessa brutal e árida (e proposital) encenação os personagens, quando encontram uma porta, batem nela como se lá estivesse (o expectador ouve apenas o som oco da batida).
Esse cenário de divisões invisíveis para o público, mas perfeitamente presente para os personagens é a forma mais incisiva e desconcertante que o diretor Lars VonTrier encontrou para expor em seus filmes os níveis alarmantes a que podem chegar a crueldade e a hipocrisia humanas. É para Dogville, afinal, que vem a foragida Grace (Nicole Kidman, num trabalho primoroso) tentando despistar o pai (James Caan) um gangster, em plena Depressão Americana dos anos 1930.
Grace encontra refúgio em Dogville e, aparentemente, bons amigos: Todos mostram-se solícitos a ela, e lhe providenciam acomodação, alimento e, se for o caso, até ocupação –fascinada pela hospitalidade, Grace retribui sendo o mais prestativa possível.
Porém, quando a estadia de Grace por lá extrapola a curta validade das boas maneiras, os moradores, tão provincianos e sorridentes, começam a mostrar suas garras: Eles impõem normas abusivas e expressam desdém com freqüência cada vez maior, a ponto de Grace se converter, de uma visitante bem recebida a uma presença paulatinamente explorada e inferiorizada.
É apenas o começo: A partir de um determinado ponto, a dignidade humana de Grace passará a valer tão pouco para os cidadão de Dogville que ela será acorrentada como um cão e sucessivamente estuprada por todos aqueles que se dispuserem a fazê-lo.
Quando a situação de Grace tiver atingido níveis insuportáveis –e o filme suas quase três horas de duração –os cidadãos, num ato final de covardia e traição, terão entregue Grace, cativa, ao seu pai mafioso. Completamente ignorantes da retribuição que os espera.
Uma das obras responsáveis pela pecha de ‘persona non grata’ atribuída à Lars Von Trier (e que só cresceu com o passar dos anos e com o lançamento de novos e ainda mais perturbadores filmes), “Dogville” é um exercício de estilo indigesto, contundente e ultrajante –e certamente feito com o total propósito de ser assim –não só irmanando-se às outras realizações de Von Trier, como às obras também chocantes do famigerado Píer Paolo Passolini.

Em seu despudor, Von Trier investiga o potencial para a perversidade exploratória e para o descaso intolerável que há em todos nós –inclusive, nos tornando cúmplices da catártica, porém terrível chacina com a qual seu filme se encerra.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Poderoso Chefão

É de um gesto objetivo tão sucinto e incisivo que Francis Ford Coppola inicia sua obra que até hoje impressiona: Um ator que sequer terá muito peso na narrativa por vir inicia um monólogo imerso em sombras –o fator de real importância ao filme não é aquele que fala, mas o seu ouvinte: Don Vito Corleone, vivido com um repertório primoroso de maneirismos estudados por Marlon Brando.
Está aí, no silêncio contemplativo de Don Vito, a pista de Coppola: Este não é um filme de ação, não é um filme policial, não é nem mesmo um filme de gangster no sentido do quê a platéia está acostumada (pelo menos as platéias dos anos 1970, que receberam estarrecidas este trabalho); “O Poderoso Chefão” é, sim, uma obra composta por sutilezas, debruçada sobre as guinadas emocionais sofridas por uma família, e assim tratada por seu realizador –claro que, sendo Coppola um tremendo admirador da arte de Akira Kurosawa, não falta ao seu trabalho ação, ritmo brilhantemente calculado e seqüências de violência, mas tudo isso serve ao princípio primordial da dramaturgia, da história que se dedica a esmiuçar os personagens.
Há Don Vito, a figura patriarcal que representa uma liderança quase que icônica nos negócios da família, cuja maneira sensata de conduzir suas ligações com o crime organizado já não encontra tanta ressonância nas parcerias que surgem nesses novos tempos; o quê leva Don Vito aos outros dois grandes personagens do filme: Seus filhos, Sonny e Michael.
Sonny (interpretado com som e fúria por James Caan) é o primogênito. Consciente de ser o herdeiro direto, Sonny tem todos os pré-requisitos para preencher a sucessão ao pai: É explosivo, truculento, rígido e implacável, exatamente como os novos tempos pedem.
Michael (na atuação antológica de Al Pacino), o caçula, é o seu perfeito oposto: Ex-combatente de guerra, Michael não deseja mais atribulações para sua vida –e nem o pai deseja para ele –tudo, em seu comportamento, sugere alguém que planeja sossegar para o resto de seus dias.
Mas, a única coisa previsível da vida é que ela é imprevisível: Como numa ópera de ironia poderosamente dramática, será Michael, e não Sonny, quem irá galgar os degraus da Família Corleone em direção ao topo de sua hierarquia.
Nessa trajetória épica desenhada por Coppola, outros personagens essenciais surgirão: Freddo (John Cazale), o irmão do meio, passivo e acanhado; Kay Adams (Diane Keaton), a namorada de Michael com características convulsivas da nova mulher moderna; Connie (Tália Shire, irmã de Coppola), a filha de Don Vito, vítima de um marido violento –no casamento da qual o filme se inicia –e, Tom Haggen (Robert Duvall), dedicado filho adotivo que assume funções secretariais para o pai.
A vida e as atribulações violentas dessa família mudará drasticamente o destino reservado a todos eles.
Embora seja em si uma obra incomum e até revisionista, na comparação com tudo o que veio antes e tudo o que veio depois dele no gênero (incluindo os exemplares que tentaram, em vão, imitá-lo) este magistral trabalho de Francis Ford Coppola é, até hoje, o representante quintessencial do "filme-gangster". Obra-prima.

sábado, 17 de setembro de 2016

Profissão: Ladrão

Feito de todos os elementos que compõem um grande filme (um roteiro melindroso e afiado, um elenco notável e uma direção incisiva e pontual) este trabalho de Michael Mann é um vigoroso exemplo do magnífico cinema policial que ele sempre concebeu.
É um mundo soturno, ainda que provido de lógica sórdida, esse no qual ele introduz seu protagonista, Frank (James Caan, sensacional), imerso num profissionalismo por meio do qual ele é capaz de sobreviver na dura e ilícita condição de seu ofício de ladrão especializado em roubo de diamantes –um protagonista muito típico dos filmes de Mann.
Enquanto busca juntar fragmentos do que pode vir a ser uma vida normal –ele começa a sair com Jessie (Tuesday Weld), com quem logo almeja uma vida a dois; seu mentor, Okla (Willie Nelson), para quem Frank é um filho, deve ser libertado da prisão; e a possibilidade de ser pai, mesmo que por adoção, pode vir a tornar-se real –ele é assediado por um gangster (Robert Proski) para que não só realize um grande roubo de jóias, mas também se torne um de seus asseclas dali para frente.
Relutante, Frank concorda imaginando ser esse seu último trabalho, antes de mudar em definitivo de vida. Mas, seu contratante não pensa da mesma forma.
Há um instante em “Profissão: Ladrão” que dialoga diretamente com “Inimigos Públicos”, que Mann realizou vinte e oito anos depois (e que, pensando bem, também remete muito de seu “Fogo Contra Fogo”): O personagem de James Caan põe as cartas na mesa a respeito de seu modo de vida escuso para a personagem de Tuesday Weld, e que em face desse perigo,muito da embromação inerente aos relacionamentos convencionais não poderá existir na relação deles, se ela vier a se concretizar.
Ele também deixa claras suas reais intenções por ela.
É um registro parecido com o de John Dillinger (Johnny Depp), em “Inimigos...”, e da atmosfera de urgência que rodeia seu romance com Billie Franchette (Marion Cotillard). Isso não é, de maneira alguma, repetição –é a constatação de uma visão depurada da dicotomia entre as relações humanas e o mundo que as cerca, mantida, aperfeiçoada e cultivada ao longo de inúmeros filmes. E tão sólida e convicta é ela, que manifesta-se como o mais significativo estilo reduzido à sua essência: Como se pode comprovar nos trabalhos já mencionados, assim como também em “O Informante”, “Miami Vice” e no recente “Hacker”.
Dentre todos esses filmes, “Profissão: Ladrão” se destaca por ser relativamente um notável precursor de todos eles, e uma notável prova de que Mann manteve-se fiel à essa visão, além de ser um exercício contundente e convincente na questão de que, ao enredar-se –assim como a todos os aspectos de sua vida –de todas essas regras e códigos, como forma de preservar certa cautela e segurança, Frank está, no final das contas, coberto de razão.