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quarta-feira, 11 de maio de 2022

As Confissões de Schmidt


 O foco do cinema de Alexander Payne está no corriqueiro, no medíocre e no banal. De sua pena enquanto roteirista e de suas lentes enquanto diretor, as histórias que brotam sempre se voltam a uma espécie peculiar de norte-americano, aquele que, contrariando a promessa do american way of life, não sagrou-se um vencedor de sucesso. Ele reflete sobre essa inescapável condição –a de que, se alguém venceu, paradoxalmente, deve também existir alguém que teve de perder –no âmbito estudantil em “Eleição” e na seara das discussões midiáticas envolvendo o aborto nos anos 1990 em “Ruth Em Questão”. Sua verve ainda abordou, mais tarde, os relacionamentos sob o prisma do consumo alcoólico (“Sideways”), as crises inevitáveis de auto-estima mesmo em um cenário pleno de vivacidade como o Hawaí (“Os Descendentes”) e a jornada sem esperança, sem ânimo e sem cor de uma idosa (“Nebraska”). No centro de cada uma dessas narrativas, as pessoas norte-americanos que contradizem a máxima da Terra das Oportunidades e que, em geral, são varridas para baixo do tapete.

Ponto de virada na compreensão e na aceitação pessoal desse estilo, “As Confissões de Schmidt” é uma luxuosa observação sobre as amarguras prosaicas e nada extraordinárias de um americano sozinho, convencional e comum que, num gesto de pura ironia, vem a ser interpretado pelo pra lá de extraordinário Jack Nicholson.

Adentrando na trama no exato último dia de trabalho, na iminência da aposentadoria, Warren Schmidt sempre foi o tipo de funcionário que aguardava, entediado os ponteiros do relógio atingirem o local certo para bater seu ponto. Em casa, as regras domésticas eram ditadas por sua esposa, com quem era casado à muito tempo.

Em questão de pouco tempo, Schmidt é privado de tudo isso –ao aposentar-se, ele não tem mais um relógio para lhe impor os horários de ir e vir; e, ao enviuvar, ele já não tem uma esposa que lhe diga o que e como fazer. No melancólico roteiro de Payne, a liberdade de Schmidt para uma série de coisas começa não sem antes a consciência do que teve de perder para chegar ali. Sem algo ao qual se agarrar, sem um motivador para suas ações resta à Schmidt procurar pelo único resquício de sua família, a filha Jeannie (Hope Davis, de “Anti-Herói Americano”) que está de casamento marcado com o insosso caipira Randall (Dermot Mulroney) e que, na idealização de Schmidt, é a única pessoa que lhe entenderá e lhe fará companhia para o resto da vida.

Parte road-movie, parte drama de costumes, parte comédia dramática, “As Confissões de Schmidt” exibe uma desolação existencial tão pungente que seus esforços cômicos por vezes se neutralizam na trajetória pontuada de desânimos, fracassos e equívocos de seu protagonista. Schmitd só não é um personagem mais deprimente porque Jack Nicholson consegue nele imprimir um senso de humor subliminar que o torna envolvente, e porque a fauna de coadjuvantes que o cercam estão ou bem dirigidos (caso de Hope Davis e Mulroney) ou muito bem representados (caso da marcante participação de Kathy Bates). Ainda assim, é necessário adentrar este introspectivo conto sobre a intoxicante mediocridade da vida com o espírito preparado para o tom sempre denso e comiserativo de seu realizador.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O Dia Em Que A Terra Parou


 Antes da impressão um tanto razoável de que o diretor Scott Derikson estava a adentrar território sagrado refilmando o clássico da ficção científica de 1951, é preciso lembrar que o filme original, dirigido então por Robert Wise, já é antigo o bastante para permitir uma repaginada bastante promissora, sobretudo no que tange aos seus aspectos técnicos; elemento sempre importante no gênero da ficção científica.

E Derikson ainda faz um esforçado dever de casa: Ele capricha no trabalho de condução e direção, ciente da oportunidade preciosa que ganhara (após o surpreendente sucesso de seu “O Exorcismo de Emily Rose”), e seu roteiro, para além da trama de simplicidade alegórica anti-belicista que definia o original, acrescenta elementos que se fazem pertinentes, especialmente na primeira parte, em que seu fôlego narrativo ainda se mostra ávido.

As coisas já começam interessantes no prólogo, a mostrar um alpinista (Keanu Reeves) tendo um contato imediato com um ser de outro mundo numa longínqua montanha gélida: Eis, portanto, a origem, por assim dizer, do corpo terreno do alienígena Klaatu.

Corta então para a atualidade, para a personagem da belíssima Jennifer Connelly, Dra. Benson, recrutada em seu próprio lar, na calada da noite e em circunstâncias nebulosas, para integrar um time de especialistas numa operação sem precedentes: Um objeto voador não identificado está vindo do espaço com rota fixada em Londres. E os indícios mais recentes, de desacelaração e manobra aérea, indicam que não é um meteoro ou um asteróide qualquer e sim uma nave tripulada.

É curioso como filmes envolvendo extraterrestres têm, na primeira parte de sua premissa, os momentos mais sugestivos e instigantes: Observe como a mesma coisa acaba acontecendo em “Independence Day”, do qual o filme de Derikson acaba, invariavelmente, pegando alguns elementos emprestados –a atmosfera iminentes de fim do mundo, o retrato algo clichê da relação cientistas/militares, a postura sempre relapsa das autoridades (representada aqui por uma pouco aproveitada Kathy Bates) e, certamente, a confiança desmesurada depositada nos efeitos visuais de ponta.

É logo em seguida, contudo, que o novo “O Dia Em Que A Terra Parou” mostra um de seus maiores trunfos: Quando, já na iminência do contato entre os humanos perplexos e os alienígenas visitantes, o ser do espaço se revela numa familiar aparência humana, interpretado assim por Keanu Reeves –sempre um bom ator que, pelo perfil camaleônico de toda sua filmografia e pela postura algo questionadora com que sempre guiou sua carreira, acaba caindo como uma luva no papel do alienígena Klaatu!

Pena que não demora muito –logo depois que Klaatu resolve fugir do confinamento onde as autoridades terrenas tentam colocá-lo, na companhia da Dra. Benson, o único humano sensato que achou pela frente –para o filme engatar uma marcha mais desanimadora, rumo a um sem-fim de cenas que estiveram em quase todas as obras do gênero a tratar de invasão alienígena nos últimos tempos: O poder incontrolável que ameaça toda a raça humana (na forma do robô Gort, sabiamente mantido em suas características memoráveis do filme anterior); a gradual descoberta do alienígena de que a humanidade merece, sim, ser poupada apesar de seus erros que comprometeram o ecossistema da Terra (o que responde pela demagógica participação de John Cleese); e até mesmo a relação um tanto forçada (certamente o aspecto mais enfadonho do filme) entre o alienígena e o garotinho, filho adotivo da Dra. Benson, vivido sem a menor inspiração por Jaden Smith, filho do próprio Will Smith.

Há menos inocência nesta refilmagem em comparação com o clássico antibélico de Robert Wise –o antigo “O Dia Em Que A Terra Parou” requer cumplicidade do expectador atual para ser devidamente compreendido e aproveitado –mas, a tensão política, a reflexão ecológica (uma conclusão bastante óbvia) e as imagens visualmente recauchutadas para uma nova geração não chegam a ser tão marcantes quanto o foram nos anos 1950; talvez nem seja culpa do filme mediano que Derikson entregou: Os expectadores de hoje em dia se habituaram a não se surpreender com nada e a se incomodar com tudo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Por Trás Daquele Beijo

 


Devido à sua fama de ‘rainha das comédias românticas’, sobretudo durante a década de 1990, a presença de Meg Ryan em inúmeros projetos ao longo de sua carreira costumava enganar os expectadores, levando-os a crer que a produção na qual ela comparecia se tratava sempre de um filme romântico agridoce com altas doses de humor, sentimentalismo e previsibilidade –e a própria Meg contribuía com isso fazendo filmes e mais filmes sem parar dentro desse sub-gênero.

“Por Trás Daquele Beijo” até guarda elementos que poderiam aproximá-lo de uma comédia romântica, embora já em sua campanha de marketing, lá pelos idos de 1992, tenha ficado claro tratar-se de algo diferenciado, instigante até. Adaptado de uma peça teatral de Craig Lucas, roteirizado por ele próprio (o que garante ao filme similaridades criativas incontestes com sua versão original), o filme dirigido por Norman René (realizador do célebre drama homossexual “Meu Querido Companheiro”, também escrito por Lucas) tem lá sua parcela de sacarose, sobretudo no clima de romance que prevalece no primeiro ato, mas possui propósitos bastante sólidos para as escolhas que toma e, se não chega a ser um grande filme, tem pelo menos o mérito de, ao lado do excelente “Cidade dos Anjos”, ser um título desigual e notável na filmografia de Meg Ryan.

Repetindo o mesmo papel que interpretou (e muito bem) nos palcos, Alec Baldwin vive Peter, jovem editor que, numa noite qualquer, conhece a garçonete Rita, personagem de Meg. Insone, beberrona, algo niilista, mas certamente encantadora, ela se revela fascinante o bastante para que ele a procure nos dias seguintes. Logo, eles engatam um namoro sério. Ele conhece os pais dela (vividos por Ned Beatty e Patty Duke), e marcam casamento.

A despeito desse trecho inicial enfadonho e longo –ainda que preenchido de informações que serão relevantes ao plot mais tarde –é durante o casamento de Peter e Rita que “Por Trás Daquele Beijo” oferece sua grande guinada: Durante a cerimônia, um velho penetra aparece (vivido por Sydney Walker). Ninguém o conhece e, antes de ser expulso da festa, ele pede apenas oportunidade de dar um beijo na noiva.

Eis que ao beijá-la, o velho troca de mente com Rita, que vai parar no corpo do idoso. Agora, a mente do homem velho habita o corpo da garota jovem e recém-casada com lua-de-mel marcada para a Jamaica. Entretanto, ao longo dos dias, Peter vai percebendo que a pessoa que está agora casada com ele, não é a mesma que ele namorou esse tempo todo: Rita não bebe mais, não tem mais problemas para dormir, agora quer ter filhos quando antes não queria, não possui mais as mesmas inclinações socialistas de antes, nem fala e age da forma como fazia (!). Embora o corpo ainda seja o mesmo, é outra pessoa quem agora o habita.

Um elemento curioso do roteiro é justamente não entregar isso de imediato, deixando que o expectador acompanhe a gradual e perplexa constatação do mesmo ponto de vista de Peter –o que desde já torna a minúcia desta resenha um emaranhado de spoilers; ainda que o filme já seja bastante antigo. O roteiro de Craig Lucas, com essa opção, valoriza assim os pequenos detalhes, as peculiaridades dos diálogos e a capacidade de seus intérpretes, como é usual numa peça de teatro.

Se há algo de sublime no fato do diretor René optar por uma narrativa menos cômica e mais dramática, por outro lado, o filme padece de uma preocupante lentidão, acarretada devido à expansão da trama em cenas que se alternam em diferentes ambientes a fim de agregar uma mobilidade cinematográfica à narrativa e não engessar a história nas restrições inerentes ao formato teatral.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Procura Insaciável

Milos Forman era um expoente do Movimento do Novo Cinema Tcheco quando teve, neste projeto, a oportunidade de filmar nos EUA –até porque, em sua Tchecoslováquia natal, as circunstâncias políticas estavam complicadas (para não dizer perigosas) para artistas de pensamento livre.
Com um co-produção que tinha inclusive o nome do francês Claude Berry (diretor de “Jean de Florette“ e “A Vingança de Manon”) envolvido, Formam estreou nos EUA fazendo um retrato de gerações despido de amarras formais e convencionais, o que pode ser visto como uma amostra notável e voluntariosa de seu estilo de direção.
“Procura Insaciável” até possui uma trama, esboçada com gracejo e traquinagem em meio às cenas de atmosfera quase documental que Formam registra com um apuro incomum de autenticidade; todos os atores dos jovens aos mais adultos interpretam com surpreendente naturalismo em frente à câmera.
É uma espécie de audição musical conduzida por hippies a cena em que o filme parece se iniciar. Paralelamente a essa cena –e intercalada a ela por toda sorte de artifícios e ideias casuais de edição –vemos os perplexos e trapalhões pais de uma adolescente descobrindo tardiamente que a filha deu uma escapadela de casa. A menina, compreendemos por meio da livre associação, está entre os hippies metidos à cantores.
Em seu pensamento evidentemente liberal –e amplificado em seu senso crítico pelo período da Nova Hollywood, pelo fantasma de Jean-Luc Godard (que a direção de Formam parece evocar em diversos momentos) e por um carinho bastante pessoal pela contracultura –o diretor se mostra incorrigivelmente contestador no retrato cômico que pinta dos pais.
A primeira cena do pai da garota (Buck Henry, de “Essa Pequena É Uma Parada” e “Short Cuts-Cenas da Vida”) é uma sessão de hipnotismo onde ele busca tentar parar de fumar. Ao lado da mãe (Lynn Carlin), ele é aquele tipo de adulto que costuma não notar o óbvio –dessa dinâmica, Formam extrai um humor muito peculiar, longe, no entanto, do vergonhoso.
A jovem, Jeannie Tyne (Linnea Heacock), até reaparece para de novo fugir tão logo as inevitáveis recriminações começam; e para piorar, seu pai, obtuso e desastrado, aparece completamente bêbado.
O filme de Milos Formam é, pois, uma busca ocasionada de um humor quase agridoce. Um olhar certamente condescendente com os jovens alternativos da época, e gracioso para com as tentativas patetas de seus pais em entender o que se passa –em dado momento, o pai e a mãe de Jeannie juntam-se a uma ridícula Associação de Pais de Filhos Perdidos, que nada mais fazem senão reunir-se com pomba e circunstância para avaliar a inutilidade de seus métodos –numa cena, um advogado aconselha (e põe em prática) os pais a fumar baseado a fim de compreender a mentalidade de seus filhos, a geração que o consome. A orientação técnica e didática de um usuário (Vincent  Schiavelli, ator de vários filmes de Formam interpretando com seu próprio nome) é tão cercada de seriedade que se torna hilária.
“Procura Insaciável” é uma obra de narrativa quase solta em seus propósitos e realização, um panorama até empático sobre duas gerações (dos pais e dos filhos) que, cada qual ao seu modo tiveram (ou não) que assimilar as mais contundentes mudanças comportamentais testemunhadas no Século XX e um experimento artístico revelador da compreensão de Milos Forman sobre a mecânica do cinema, não obstante seu resultado enquanto obra de consumo beirando o inacessível. Depois dele, Formam entregaria uma formidável sucessão de grandes trabalhos, inclusive os oscarizados “Um Estranho No Ninho” e “Amadeus”.
Reparem numa brevíssima ponta de Kathy Bates, muito antes da fama e do Oscar por “Louca Obsessão”, como uma das cantoras presentes nas audições.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Brincando Nos Campos do Senhor

Talvez o melhor trabalho de Hector Babenco, a adaptação do livro de Peter Mathiessen, realizada a quatro mãos com a inestimável contribuição do roteirista Jean-Claude Carriére (assíduo colaborador de Buñuel) encontra paralelos com “Dança Com Lobos” –desde a importância da preservação da cultura indígena até o escopo ambicioso e paisagístico –no entanto, sua repercussão infelizmente foi diametralmente oposta: Apesar da calorosa recepção da crítica, “Brincando Nos Campos do Senhor” amargou um retumbante fracasso de bilheteria.
O filme se inicia com o que já soa como um indicativo do apreço de Babenco enquanto contador de histórias: Uma colisão de personagens distintos no coração da selva amazônica. Dois deles são os soldados da fortuna, Wolf (Tom Waitts) e Lewis Moon (Tom Berenger), sua percepção mundana e cínica em choque com os ideais dos missionários Martin (Aidan Quinn) e Leslie (John Lithgow), casados com Hazel (Kathy Bates) e Andy (Daryl Hannah).
Ambos os casais embrenharam-se na selva a fim de levar o evangelho às tribos, alimentados por admiração mútua.
Todavia, Babenco não se detém nessa dinâmica, logo partindo para a circunstância mais fascinante de seu enredo. Desejosos de partir para a aventura seguinte, Wolf e Moon negociam o combustível de avião que necessitam com Guzman (José Dumont). Líder militar de região, ele precisa que os aventureiros encontrem um meio de expulsar a tribo de Boronai (Stênio Garcia, soberbo) do lugar em que estão: O jazigo de um veio de ouro.
Quando a necessidade da missão se choca com os propósitos da ética, Babenco resgata então a herança Cheyenne que Moon traz em seu sangue, e o mercenário deixa de lado suas escolhas duvidosas para se tornar, ele próprio, um dos índios.
Como em muitos de seus trabalhos, Babenco sedimenta aqui o caminho imprevisível entre aquilo que seus protagonistas creem ser e aquilo que, no fim das conta, eles se tornaram, saboreando cada uma das imbricações da metamorfose que observa.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A Menina e O Porquinho


Na década de 2000, uma adaptação em live-action do livro infantil de E.B. White (antes adaptado numa cultuada, porém ultrapassada animação nos anos 1980) fazia sentido por duas razões específicas: Na primeira, para aproveitar a mescla entre a história cativante e edificante e os notáveis efeitos visuais que conferiam expressão aos animais (fórmula que levou “Babe-O Porquinho Atrapalhado” a se tornar um fenômeno de público e crítica na década anterior); e na segunda, para realizar um veículo genuíno e válido para a mais assídua estrela-mirim de Hollywood naquele período, Dakota Fanning –hoje, talvez o público até reconheça melhor a irmã mais nova dela, a bela Elle Fanning.
Na história descobrimos que a menina Fern (Dakota, cuja personagem ganha um peso maior nesta versão justamente para enfatizar sua presença) salva o filhotinho de porco Wilbur de ser sacrificado: Ele é o mais raquítico de uma ninhada.
Fern se compromete de cuidar e tratar dele, mas quando as aulas se iniciam precisa deixá-lo no celeiro junto dos outros animais. É quando a história clássica, como ela é conhecida, começa de fato: Wilbur faz amizade com todos –entre os quais, o filme ostenta um elenco estelar de vozes famosas como Steve Buscemi, Robert Redford, Oprah Winfrey, Kathy Bates e John Cleese –e compartilha seu temor de virar presunto; sendo um ‘porco da primavera’, como todos falam, ele provavelmente não chegará vivo para ver a neve do inverno.
Entre esses animais uma em especial será essencial para o sucesso na jornada de Wilbur: A aranha Charlotte (para quem a voz de Julia Roberts empresta tocante sensibilidade) que dedica-se assim a construir uma teia na qual escreve palavras específicas (“Um porco e tanto”, “Brilhante”, “Humilde”, e assim por diante) para definir Wilbur. Tal acontecimento é recebido com assombro pela população, mas como ocorre com toda notícia, seu efeito passa com a lembrança, e Charlotte precisa elaborar um novo plano para que os humanos valorizem Wilbur o suficiente a ponto de não considerá-lo para o abate.
Uma mensagem positiva e válida para o público a que se propõe –o infantil –cujo desfecho contém uma imprevista manobra de tristeza que eleva suas ingênuas considerações existenciais e torna este filme razoável e gracioso um pouquinho mais memorável.

sábado, 3 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1991

Na noite em que a Academia de Artes Cinematográficas optou por celebrar os 100 anos de cinema (no resto do mundo essa data foi comemorada em 1994 por questões de concordância histórica), fazendo desta uma das mais belas cerimônias do Oscar de todos os tempos, o ator e diretor Kevin Costner viu sua consagração ao ter seu épico “Dança Com Lobos” premiado com sete estatuetas, vencendo concorrentes de renome como “O PoderosoChefão-Parte III” e, pelo menos, um francamente superior, “Os BonsCompanheiros”, de Martin Scorsese –agraciado somente com o prêmio de Ator Coadjuvante para Joe Pesci.
O prêmio de Melhor Ator foi vencido por Jeremy Irons por “O Reverso da Fortuna”, numa quase unânime constatação de que ele deveria tê-lo levado por “Gêmeos-Mórbida Semelhança”, de David Cronenberg,
O de Melhor Atriz foi conquistado por Kathy Bates, num gesto inesperado da Academia ao premiar um filme do gênero terror, “Louca Obsessão”.
E o de Atriz Coadjuvante foi uma barbada para Whoopi Goldberg vencendo um dos dois únicos prêmios para o festejado “Ghost-DoOutro Lado da Vida”.

MELHOR FILME
"Dança Com Lobos"

MELHOR DIREÇÃO
"Dança Com Lobos", Kevin Costner

MELHOR ATRIZ
Kathy Bates, "Louca Obsessão"

MELHOR ATOR
Jeremy Irons, "O Reverso da Fortuna"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Whoopi Goldberg, "Ghost-Do Outro Lado da Vida"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Joe Pesci, "Os Bons Companheiros"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Dança Com Lobos"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Viagem da Esperança" (Suíça)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"Cyrano de Bergerac"

MELHOR SOM
"Dança Com Lobos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Dick Tracy"

MELHOR TRILHA SONORA
"Dança Com Lobos"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Sooner or Later I Always Get My Man", de "Dick Tracy"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Ghost-Do Outro Lado da Vida"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Dança Com Lobos"

MELHOR MONTAGEM
"Dança Com Lobos"

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Louca Obsessão

A atriz Kathy Bates alterna momentos de insuspeita amabilidade com rompantes inesperados de fúria num interessante trabalho que em 1990 lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz.
A vilania inesperada de sua personagem é um dos trunfos desta interessantíssima adaptação de um conto de Stephen King, concebida pelo mesmo Rob Reiner que dirigiu o tão cultuado “Conta Comigo” –também de King.
A história é um pesadelo improvável, porém, não implausível como muitos que saem da mente de seu autor e que exploram muitos de seus temores íntimos. Só assim para explicar o imenso número de protagonistas que são, eles próprios, escritores, como o deste filme, Paul Sheldon (James Caan).
Ele tem o infortúnio de capotar seu carro quando voltava das montanhas com o manuscrito pronto de seu mais novo romance, e o infortúnio ainda maior de ser salvo por Annie (Kathy) uma ex-enfermeira moradora da região. De início, claro, isso não fica evidente, visto que Annie se declara sua fã número 1 –ela, inclusive, ama “Misery” exatamente a mesma saga literária cujo capítulo final ele acabou por escrever! –por isso que, debilitado pelo acidente e preso à cama da casa dela Paul, agradecido, permite que Annie leia seu novo livro. Contudo, a mulher transforma-se numa maluca psicótica ao perceber que ele matou justamente a protagonista Misery. Imobilizado numa cama e com as duas pernas quebradas, ele agora é alvo das torturas físicas e psicológicas que ela, cada vez mais insana, lhe inflige.
Antes que a escala de loucura e psicopatia dela se torne realmente prejudicial para sua vida, ele precisa planejar um meio de fugir.
Quem conhece o trabalho do diretor Reiner exclusivamente baseado em “Conta Comigo” ou na famosa comédia romântica “Harry & Sally-Feitos Um Para O Outro” pode até subestimar o filme que ele entrega aqui, porém, isso só dura até que a atmosfera de tensão realmente se inicie: Valendo-se de um minucioso e cuidadoso trabalho de câmera (o diretor de fotografia é Barry Sonnenfeld que depois se tornaria o bem-sucedido diretor de “A Família Adams” e “Homens de Preto”), o filme simula, por meio de cortes objetivos e econômicos e enquadramentos específicos, a condição restrita e imobilizada do vulnerável protagonista, cujos limitados recursos de que dispõe o tornam um verdadeiro prisioneiro da imprevisível ex-enfermeira.
Ajuda muito, o fato de Kathy Bates moldar uma das mais sensacionais vilãs de sua carreira e de James Caan, seu parceiro em cena, também estar muito bem nesta obra tensa, aflitiva e, por que não, divertida.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Titanic

Virou lenda a história de como a perseverança do diretor James Cameron levou à criação de um dos maiores sucessos que o cinema já conheceu.
Essa disposição de Cameron em ir paulatinamente além do que o cinema é capaz de materializar em termos técnicos –e do que os atores são capazes de fazer em termos práticos –já havia aparecido em filmes como “O Segredo do Abismo” (durante o qual surgiu a idéia para “Titanic”) ou “O Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final”, mas nunca havia se expressado com a convicção, e a tenacidade inigualáveis com as quais ele enfrentou neste projeto, as intempéries naturais, a descrença dos produtores, os contratempos eventuais de filmagens (e outros até bem mais singulares) e a própria limitação de seus colaboradores para moldar sua visão: Uma recriação suntuosa, realista e de proposta quase imersiva para a platéia no que tange à utilização de efeitos visuais, do trágico naufrágio do navio Titanic, ocorrido em 14 de abril de 1912 –recriação essa infinitamente mais arrojada e definitiva do que os limitados esforços vistos em filmes antigos, sendo até então o mais célebre o filme “Somente Deus Por Testemunha”.
Ciente do cinema de natureza clássica que estava abordando –diferente de seus outros trabalhos, mais voltados para ação e ficção científica –Cameron emoldurou os acontecimentos reais com uma trama fictícia, de sua autoria. Dessa forma somos apresentados, no início (que se passa em tempos atuais) à idosa Rose (a ótima Gloria Stuart), uma senhora nonagenária que apresenta-se à equipe de pesquisadores oceanógrafos de Brock Lovett (o sempre bom Bill Paxton) como uma das ocupantes do Titanic na trágica noite em que ele naufragou. Disposto a encontrar uma jóia preciosa perdida durante o naufrágio, Lovett e sua equipe ouvem atentamente quando Rose recorda-se de quando era uma jovem moça (interpretada, desta vez, pela linda e estonteante Kate Winslet) em 1912 e, ao lado do noivo que não amava (Billy Zane, apropriadamente canastrão) e da própria mãe (Frances Fisher) embarcou na fatídica viagem de inauguração do transatlântico Titanic. Durante a viagem, da Inglaterra até o porto de Nova York, ela conhece Jack Dawson um jovem artista pobretão (Leonardo Dicaprio, que deve seu estrelato à este filme) por quem acaba se apaixonando.
Mas, como hoje todo mundo bem sabe, o gigantesco navio colide com um iceberg antes de chegar ao seu destino tornando iminente seu naufrágio, e colocando em sérios perigos as vidas de Rose e Jack, assim como seu amor.
Não restam dúvidas de que os momentos verdadeiramente memoráveis do filme se encontram na segunda e exuberante metade de suas três horas de duração: O naufrágio mostrado em todos os seus detalhes poderosos e atrozes. Cameron vale-se além de tudo de um domínio prodigioso de suspense por meio do qual ele gradativamente intensifica a aflição e o desespero dos passageiros, que aos poucos se dão conta de que estão à beira de uma catástrofe e, no processo, enfileira cenas coletivas estupendas: A disputa cada vez mais desesperadora pelos poucos botes salva-vidas disponíveis; a poética seqüência em que os músicos integrantes de uma banda se recusam a se separar e decidem tocar música até o fim; a inclinação gradual e implacável de todo o navio (o quê corresponde à todo o cenário do filme inteiro!) levando centenas de figurantes a despencar nas águas geladas; o rompimento brutal do casco do Titanic –cena jamais mostrada nas outras reconstituições cinematográficas do naufrágio por ser até então considerada impraticável! –que leva milhares à morte; e a seqüência assombrosa em que o navio se encontra num ângulo de 90 graus, prestes a afundar em definitivo.
Apesar disso, a primeira metade do filme não é uma mera introdução prolongada; ela ilustra muito bem a capacidade de Cameron em construir personagens acima de tudo carismáticos. Prova disso é o sutil e divertido desabrochar da protagonista Rose –mais até do que a evolução de seu romance com Jack –de uma jovem indefesa e amargurada para uma mulher corajosa e convicta. Por conta de todos esses elementos, pode parecer banal hoje, falar a respeito de um filme que –conseqüência do estarrecedor fenômeno popular que se tornou –todo mundo conhece. No entanto, na época de seu lançamento, “Titanic” guardava, de fato, elementos inéditos no cinema hollywoodiano; o emprego que Cameron dava aos efeitos especiais (verdadeiramente assombrosos) era de uma habilidade extraordinária, assim como a forma vigorosa com que ele manipulou todas as facetas logísticas (e, sabe-se, complicadíssimas) dessa imensurável produção e, contra todas as previsões, dela extraiu um filme sólido, detalhado, belíssimo e emocionante –ainda me lembro das multidões saindo do cinema, como num processo quase ritual, em prantos. Essa inquestionável demonstração de competência certamente justificou a vitória de James Cameron na categoria de Melhor Diretor do Oscar 1997, provavelmente o mais merecido de seus prêmios, dentre os 11 que recebeu –igualando assim a hegemonia de uma marca histórica que o épico “Ben-Hur” mantinha há quase quarenta anos.
Por essa e por inúmeras outras razões, um feito técnico e artístico notável, e que dificilmente se repetirá.