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quinta-feira, 11 de abril de 2024

O Casamento do Meu Melhor Amigo


 Ainda na década de 1990, a carreira da estrela Julia Roberts, então a rainha das comédias românticas da época, havia estagnado –filmes insossos e repetitivos, e tentativas pouco eficazes de fazer cinema sério, começavam a fazer o público se cansar de sua bela imagem. Foi então que o diretor australiano P.J. Hogan (realizador da pérola “O Casamento de Muriel”) conseguiu revitalizar seu estrelado ao escalar Julia para o papel principal neste pequeno conto de comicidade e engenhosidade onde –pasmem –ela faz o papel de vilã (!). O roteiro, assinado por Ronald Bass (roteirista de “O Clube da Felicidade e da Sorte” e “Rain Man”), é segundo ele próprio inspirado numa ideia que teve ao presenciar uma linda e espetacular cerimônia de casamento de amigos pessoais: Ele imaginou uma personagem disposta a estragar todo aquele evento estupendo!

Para que tal premissa, a um só tempo graciosa e ferina, funcionasse, o diretor Hogan lançou mão de elementos notáveis e surpreendentes que fogem do conceito de uma mera comédia romântica (embora, em sua simplicidade, esta produção seja uma) e agregam características de cinema de verdade –e a primeira delas é seu elenco: Na personagem de Julianne Potter, uma crítica gastronômica ciente de que está numa idade onde já deveria ter achado o homem de sua vida, Julia Roberts revela-se perfeita, engraçada e vulnerável; um equilíbrio preciso entre a ternura de outras personagens que ela já interpretou e uma predisposição para cometer estratagemas e intrigas mesquinhos que, por incrível que pareça, não fazem o público detestá-la. Também está perfeito Dermot Mulroney como Michael, o melhor amigo de Julianne e aquele a quem ela começa a enxerga, um pouco tardiamente, como a pessoa que pode, sim, ser o homem de sua vida. Tardiamente, porque Michael entra em contato com ela justamente para que seja madrinha de seu casamento iminente com a doce Kimberly (a maravilhosa Cameron Diaz, ainda uma revelação no cinema tendo feito “O Máskara” três anos antes).  Contudo, ninguém desse pessoal rouba mais a cena deste filme do que George, o charmoso, sensato e ocasionalmente perplexo amigo homossexual de Julianne (interpretado de maneira sensacional por Rupert Everett) que, lá pelas tantas, acaba tendo que fingir ser namorado dela (!). Afinal, Julianne aceita o convite do casamento entre Michael e Kimberly disposta a estar por perto durante todos os eventos que antecedem as celebrações e aproveitar a oportunidade para elaborar todos os planos possíveis para acabar com a cerimônia, certa de que é ela quem pode fazer Michael feliz.

A fim de adornar com um certo alto-astral a vilania que pontua muita da narrativa e das ações tomadas pela protagonista, o diretor Hogan se vale de um repertório esfuziante de músicas de Dionne Warwick (em especial, “I Say A Little Prayer” cantada numa cena antológica) tal e qual ele fez em “O Casamento de Muriel”, com músicas do ABBA.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Todos Menos Você


 Numa época em que comédias românticas já não são uma constante no circuito comercial, “Todos Menos Você” parece exalar um estranho desconforto por pertencer a esse gênero outrora tão difundido –e olha que o diretor, Will Gluck, pode ser enxergado como um especialista tendo realizado “A Mentira” e “Amizade Colorida”.

A verdade é que as intenções deste projeto aparentam ser unir os elementos de gênero que tanto fizeram sucesso no passado (com obras simbólicas como “Quatro Casamentos e Um Funeral”) com aspectos sociais da atualidade, como a representatividade e o vocabulário idiossincrático da modernidade, e executar uma espécie de releitura de William Shakespeare para a nova geração, uma vez que o roteiro é vagamente inspirado na farsa romântica “Muito Barulho Por Nada” –todavia, muito pouco do texto, do subtexto ou da meticulosidade do Bardo se manteve na adaptação. O resultado é um filme bastante desajeitado, convicto em relação a certos valores românticos que podem soar antiquados ao público jovem, e insistente numa comédia hesitante, ora disposta a ousar, ora restrita ao inofensivo.

O casalzinho em potencial, Ben e Bea (Glenn Powell e Sydney Sweeney, em ótima sintonia), têm obviamente todos os motivos do mundo para se estranharem; assim que se conhecem, até experimentam uma química promissora juntos, mas uma sucessão de mal-entendidos deixa um gosto amargo em seu primeiro e único encontro. Alguns meses depois, porém, o destino conspira colocando-os numa mesma festa de casamento: A irmão de Bea, Halle (Hadley Robinson, de “Adoráveis Mulheres”), vai se casar com Claudia (Alexandra Shipp, de “X-Men Apocalypse”), cujo irmão, Pete (o rapper GaTa), vem a ser o melhor amigo de Ben. O casamento será na Austrália, lar da família de Claudia, e portanto, todos os convidados serão recepcionados na casa do pai da noiva (Bryan Brown), incluindo Ben e Bea.

Temendo que a indisposição entre os dois estrague o clima de comemoração geral, os demais convidados –agindo mais como coadjuvantes conscientes desse romance do que convidados de um casamento normal –tentam intervir, e a emenda sai muito pior que o soneto: Inicialmente, procuram fazê-los gostar um do outro, o que só piora as coisas, em seguida, providenciam a presença da ex-namorada de Ben, Margareth (a modelo Charlee Fraser), agora namorando um surfista desmiolado (Joe Davidson), e do ex-namorado de Bea, o ainda apaixonado Jonathan (Darren Barnet).

A fim de livrarem-se dessa espécie de marcação cerrada de todos os demais, Ben e Bea resolvem que irão fingir, de fato, se darem bem. Melhor: eles irão fingir que estão tendo um flerte durante das festividades de casamento, o que talvez A) proporcione a Ben uma chance de reatar com Margareth e B) convença Jonathan a largar de uma vez do pé de Bea.

É claro que, na cartilha um tanto quanto maniqueísta das comédias românticas (e aqui, o maniqueísmo, por razões inúmeras se mostra ainda mais evidente e inverossímil) esses arranjos e as situações nascidas a partir dele irão levar os dois jovens e belos protagonistas a perceber que, a despeitos de suas picuinhas, se amam de verdade.

Àqueles expectadores mais exigentes, menos interessados nos reflexos condicionados de um gênero popular como a comédia romântica, “Todos Menos Você” terá um apelo nada eficaz e servirá como um verdadeiro teste de paciência: As circunstâncias esboçadas no roteiro fogem demais da realidade para se deixar convencer por grande parte do enredo do filme, e o turbilhão de referências que a narrativa traz (toda a ambientação do casamento remete aos clássicos do gênero “O Casamento do Meu Melhor Amigo” e “Muito Bem Acompanhada” que, por sinal, têm ambos o ator Dermot Mulroney, que também faz parte do elenco aqui) pouco faz, no fim das contas, para torná-la atraente de fato para aqueles que não sejam os já aficcionados.

O que resta à “Todos Menos Você” é o encanto natural e genuíno exalado por Sydney Sweeney (também ela atuando como produtora executiva) e a revelação relativamente satisfatória de uma veia cômica no galã e candidato à astro Glenn Powell, de “Top Gun-Maverick” e “Estrelas Além do Tempo”.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Um Sonho, Dois Amores


 É bastante curioso notarmos neste filme (datado de 1993) que a pouco conhecida Samantha Mathis (de “Psicopata Americano”) tem como coadjuvante uma ainda jovem Sandra Bullock –“Velocidade Máxima” e “Enquanto Você Dormia” seriam realizados nos anos seguintes, e só então, Sandra se tornaria uma estrela, o que explica, porque aqui é Samantha quem ganha o protagonismo –mas, já se percebe com facilidade, na capacidade quase espontânea de Sandra roubar todas as cenas, que ela ainda iria longe. Entretanto, “The Thing Called Love” se destaca também por outras duas razões: Uma, seu diretor, Peter Bogdanovich, foi uma grande promessa em meados dos anos 1970 –época da Nova Hollywood –e seu filme é permeado por uma certa desilusão, característica de um diretor bastante tarimbado no manejo de narrativas dramáticas, cujo estilo nunca se mostrou de todo palatável. E a outra, seu astro, River Phoenix, que faleceria de overdose naquele mesmo ano de 1993, fazendo deste o seu último trabalho.

O mundo dá mesmo muitas voltas: River Phoenix era um grande amigo pessoal de Keanu Reeves, e os dois fizeram juntos, poucos anos antes, “Garotos de Programa”, de Gus Van Sant; já, Keanu e Sandra se encontraram no ano seguinte, 1994, em “Velocidade Máxima”, e fariam juntos ainda “A Casa do Lago”, em 2006.

Mas, voltemos ao filme: A jovem nova-iorquina Miranda Presley (Samantha Mathis, bela, ainda que limitada) sonha em ser cantora de música country e, como tantos outros, decide pegar a estrada e perseguir seu sonho em Nashville, onde espera se tornar uma estrela. Lá, ela descobre o Bluebird Cafe, um bar local conhecido por revelar em seu palco inúmeros talentos musicais, contudo, devido à um atraso, Miranda não tem a oportunidade de se apresentar, tendo de se contentar com a ocupação de garçonete, chance de emprego oferecida pela dona do lugar, Lucy (K.T. Oslin). Nas semanas que se seguem, ela conhece novos forasteiros, também eles em busca de seu lugar no céu da fama: James Wright (River Phoenix), do Texas, Kyle Davidson (Dermot Mulroney) e Billy (Anthony Clark), vindos de Connecticut, e Linda Lue Linden (Sandra, um alívio cômico inebriante), do Alabama. Unidos por sua desilusão em comum (nenhum deles consegue qualquer resultado positivo nas disputadas audições), eles se tornam amigos, ainda que Miranda, com o tempo, acabe no meio de uma espécie de competição amorosa entre James e Kyle.

Para além de um filme romântico e musical banal, a obra de Bogdanovich acompanha esses personagens ao longo dos anos, registrando, ao som reflexivo da música country, a gradual transformação de seus sentimentos, sejam eles de amor ou de amizade, e revelando as tortuosas vicissitudes sofridas pelos relacionamentos a medida que a vida, enfim, se sucede.

Bonito e melancólico (característica enfatizada pelos arranjos das músicas), "The Thing Called Love" é um trabalho hoje esquecido de Peter Bogdanovich, no qual seu olhar agridoce e lírico sobre as mazelas espirituais e sentimentais de uma geração desiludida muito faz lembrar seu magistral "A Última Sessão de Cinema"; como naquela obra, Bogdanovich não se furta em expor seu lado cinéfilo ao evocar a narrativa reflexiva e austera de John Ford, cuja referência mais marcante se dá na cena em que os personagens assistem ao brilhante (e igualmente desiludido) “O Homem Que Matou O Facínora”.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Invasão Secreta


 Há uma quebra de paradigma promovida pela Marvel Studios na minissérie “Invasão Secreta” –uma pena que essa quebra não tivesse se refletido em aumento de qualidade para o material: Adaptado de um aclamado arco em forma de saga nos quadrinhos, “Invasão Secreta” prometia emoções impactantes aos fãs. Como nas HQs, a Terra seria palco de uma silenciosa infiltração dos alienígenas transmorfos skrulls cujo plano seria o de usarem de suas habilidades para assumir, sem que os personagens principais (e o próprio público) soubessem, o lugar de algumas figuras conhecidas da Marvel, alguns deles, ocupando importante papel de influência junto ao governo norte-americano, promovendo assim uma série de mau-entendidos diplomáticos e conflitos governamentais que levariam à guerra e à extinção da Humanidade. Também, finalmente veríamos o magnífico Samuel L. Jackson e seu personagem, o agente Nick Fury, assumindo um papel protagonista que ele andava merecendo desde, pelo menos, sua aparição em “Vingadores”.

Ao menos, uma dessas promessas se cumpriu: De fato, é Nick Fury o grande personagem principal aqui, infelizmente, ele surge combalido, desanimado, desmotivado e, durante muito tempo, incapaz de se equiparar ao grande espião que havia sido antes, fruto das desilusões experimentadas pelos revezes das últimas décadas, incluindo o ‘Blip’ promovido por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –os realizadores, devem ter julgado que seria um diferencial interessante explorar uma faceta mais decadente de um personagem conhecido por sua astúcia, entretanto, do modo como é mostrado insistentemente na série, esse aspecto do personagem nunca soa válido dentro da narrativa servindo mais para engessá-la do que para torná-la melhor. Nesse sentido, é infinitamente mais vibrante prestar atenção na personagem de Olivia Colman, Sonya Falsworth, que surpreende o expectador e alguns dos personagens ao seu redor sempre que aparece, ao mostrar-se um passo afrente de todos os demais –uma característica que outrora pertenceu à Nick Fury.

“Invasão Secreta” tem início quando alguns agentes aleatórios da CIA conseguem identificar um skrull infiltrado entre agentes de campo que deveriam ser supostamente bem informados: Morto por Maria Hill (Colbie Smulders) e pelo skrull aliado Talos (Ben Mendhelson), o skrull espião havia assumido a identidade do Ag. Everett Ross (Martin Freeman) –a última vez em que vimos o que seria o verdadeiro Ross, ele estava, na verdade, refugiado em Wakanda, após os eventos de “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”. Isso traz Nick Fury de volta à Terra, interrompendo um auto-exílio que, sabemos, já ocorreu há anos –pois, pelo menos, o Nick Fury de “Homem-Aranha Longe de Casa” sabemos ter sido ‘personificado’ por Talos. Esses agentes identificaram um problema preocupante: Os skrulls, agora não mais liderados por Talos, mas por um jovem líder extremista chamado Gravik (Kingsley Ben-Adir, de “Barbie”) desejam usar de operativos disfarçados em cargos fundamentais nos governos dos EUA e do Reino Unido para fomentar uma série de ataques que levarão os Estados Unidos e a Rússia à Terceira Guerra Mundial, aniquilando a Humanidade e deixando o planeta livre para a ocupação skrull. Não somente isso, mas, como logo fica evidente em episódios posteriores, Gravik também quer garantir-se quanto à eventual interferência dos grandes super-heróis do panteão da Marvel –embora estranhamente nenhum deles jamais dê as caras nesta minissérie... –adquirindo vestígios genéticos de alguns vingadores e levando seus soldados à ganhar seus poderes, convertendo-os em superskrulls!

Dirigida por Ali Selim com uma deliberada (e equivocada) predisposição para a lentidão em detrimento da ação (normalmente uma especialidade da Marvel) e em prol de um suposto suspense (uma promessa de tensão que jamais se concretiza de fato), “Invasão Secreta” avança ao longo de seus seis episódios numa atmosfera e num ritmo que, estranhamente, sugerem, o tempo todo, a chegada iminente de um clímax que justifique todo o investimento do público em sua premissa titubeante, em seus personagens pouco envolventes e em suas soluções de roteiro nada originais –não lembra nem um pouco o sopro renovado de entusiasmo narrativo presente nas obras dos dez primeiros anos da Marvel Studios –mas, termina realmente se revelando burocrático, genérico, redundante e trivial. É de se lamentar quando uma minissérie –especialmente uma cercada de tantas possibilidades promissoras como esta –tem, como elemento que mais despertou interesse de discussão nos expectadores, a sua aflitiva abertura feita por Inteligência Artificial.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

As Confissões de Schmidt


 O foco do cinema de Alexander Payne está no corriqueiro, no medíocre e no banal. De sua pena enquanto roteirista e de suas lentes enquanto diretor, as histórias que brotam sempre se voltam a uma espécie peculiar de norte-americano, aquele que, contrariando a promessa do american way of life, não sagrou-se um vencedor de sucesso. Ele reflete sobre essa inescapável condição –a de que, se alguém venceu, paradoxalmente, deve também existir alguém que teve de perder –no âmbito estudantil em “Eleição” e na seara das discussões midiáticas envolvendo o aborto nos anos 1990 em “Ruth Em Questão”. Sua verve ainda abordou, mais tarde, os relacionamentos sob o prisma do consumo alcoólico (“Sideways”), as crises inevitáveis de auto-estima mesmo em um cenário pleno de vivacidade como o Hawaí (“Os Descendentes”) e a jornada sem esperança, sem ânimo e sem cor de uma idosa (“Nebraska”). No centro de cada uma dessas narrativas, as pessoas norte-americanos que contradizem a máxima da Terra das Oportunidades e que, em geral, são varridas para baixo do tapete.

Ponto de virada na compreensão e na aceitação pessoal desse estilo, “As Confissões de Schmidt” é uma luxuosa observação sobre as amarguras prosaicas e nada extraordinárias de um americano sozinho, convencional e comum que, num gesto de pura ironia, vem a ser interpretado pelo pra lá de extraordinário Jack Nicholson.

Adentrando na trama no exato último dia de trabalho, na iminência da aposentadoria, Warren Schmidt sempre foi o tipo de funcionário que aguardava, entediado os ponteiros do relógio atingirem o local certo para bater seu ponto. Em casa, as regras domésticas eram ditadas por sua esposa, com quem era casado à muito tempo.

Em questão de pouco tempo, Schmidt é privado de tudo isso –ao aposentar-se, ele não tem mais um relógio para lhe impor os horários de ir e vir; e, ao enviuvar, ele já não tem uma esposa que lhe diga o que e como fazer. No melancólico roteiro de Payne, a liberdade de Schmidt para uma série de coisas começa não sem antes a consciência do que teve de perder para chegar ali. Sem algo ao qual se agarrar, sem um motivador para suas ações resta à Schmidt procurar pelo único resquício de sua família, a filha Jeannie (Hope Davis, de “Anti-Herói Americano”) que está de casamento marcado com o insosso caipira Randall (Dermot Mulroney) e que, na idealização de Schmidt, é a única pessoa que lhe entenderá e lhe fará companhia para o resto da vida.

Parte road-movie, parte drama de costumes, parte comédia dramática, “As Confissões de Schmidt” exibe uma desolação existencial tão pungente que seus esforços cômicos por vezes se neutralizam na trajetória pontuada de desânimos, fracassos e equívocos de seu protagonista. Schmitd só não é um personagem mais deprimente porque Jack Nicholson consegue nele imprimir um senso de humor subliminar que o torna envolvente, e porque a fauna de coadjuvantes que o cercam estão ou bem dirigidos (caso de Hope Davis e Mulroney) ou muito bem representados (caso da marcante participação de Kathy Bates). Ainda assim, é necessário adentrar este introspectivo conto sobre a intoxicante mediocridade da vida com o espírito preparado para o tom sempre denso e comiserativo de seu realizador.

sexta-feira, 18 de março de 2022

O Guardião de Memórias


 Um daqueles livros que, de tempos em tempos, caem nas graças do público leitor e viram fenômeno, “O Guardião de Memórias”, após influenciar um sem-fim de obras melodramáticas (incluindo telenovelas brasileiras!), ganhou uma adaptação pelas mãos do diretor Mick Jackson; de uma filmografia tão eclética quanto oscilante, com trabalhos como “O Guarda-Costas”, “Vulcano-A Fúria”, “L.A. Story” e “Ao Vivo de Bagdá”.

Nas mãos dele, a obra literária de Kim Edwards ganhou uma versão audio-visual efetiva, honesta, cheia de imperfeições, mas consciente de seu poder  de agradar o público ao qual se dirige desde que, na manutenção de seu drama, as cordas certas fossem puxadas.

Nele, há uma palpável predisposição para evocar os trabalhos do diretor Douglas Sirk, o mestre do melodrama norte-americano, tais como “Imitação da Vida”, “Sublime Obsessão” e “Tudo O Que O Céu Permite”. Na noite de 1964 em que Norah (a belíssima Gretchen Mol) dá à luz aos seus filhos gêmeos, uma série de acontecimentos definem para sempre a vida de todos os personagens ali envolvidos: Seu marido –que à propósito era médico ortopedista –David (Dermot Mulroney, de “Muito Bem Acompanhada”) e a enfermeira Caroline Gill (Emily Watson) se encontram sozinhos no pronto-socorro, fazendo com que apenas os dois tivessem ciência de que dentre o casal de gêmeos que acabara de nascer, Paul e Phoebe, a menina havia nascida com Síndrome de Down. Atormentado pela lembrança da irmã deficiente que morreu aos 12 anos, destruindo com isso a alegria de viver de sua mãe, David toma uma decisão extrema: À revelia de Norah, que desmaiou durante o parto e não ficou sabendo de nada, David orienta Caroline para que entregue a menina, naquela mesma noite, à uma casa de abrigo. Entretanto, Caroline segue sua consciência que não permite que ela deixe uma inocente criança recém-nascida num lugar precário e terrível. Ela passa a cuidar da criança como se fosse sua mãe. Paralelamente, David –que tem uma ligeira noção de que a filha seguiu viva e criada por Caroline em algum lugar dos EUA –leva Norah a acreditar que a filha morreu ainda no parto, crente que isso basta para que a esposa siga em frente.

Contudo, não é bem isso que acontece: Nos anos que se seguem, a medida que a narrativa retrata a trajetória das duas famílias, Caroline se envolve com um solícito caminhoneiro conforme luta arduamente pelos direitos de Phoebe estudar em escolas de crianças normais, enquanto que David e Norah (donos de um tempo mais considerável de tela) testemunham seu casamento sofrer graves abalos, iniciados pelo alcoolismo dela –originado justamente do fato de não superar a falta desesperadora da filha –seguido da negligência de David tanto na questão matrimonial (na angústia de guardar consigo um segredo tão atroz, ele passa a isolar-se de Norah que, carente, passa a procurar o amor nos braços de outros homens), quanto parental (David não aceita, a medida que Paul vai crescendo, a aptidão dele para a música, exigindo que o filho siga a carreira médica como ele).

Por meio de uma câmera fotográfica que recebe de presente, e na qual descobre sua verdadeira paixão, David registra as fotos da história de sua família –esse é, pois, o “Guardião de Memórias” –e, aos poucos, descobre o paradeiro de Caroline e Phoebe, capturando em fotos, também o destino da própria filha.

Apaixonado por arquétipos e paradigmas cinematográficos, o diretor Mick Jackson persegue, em seus projetos, os elementos que enfatizam este ou aquele gênero, e os explora com um entusiasmo e uma paixão que, não obstante as falhas pontuais e eventuais de seu estilo, acabam contagiando o expectador. “O Guardião de Memórias” representa para ele uma oportunidade de emular Sirk, John Dahl, Frank Borzage, Edmund Goulding, King Vidor e outros diretores expressivos do melodrama. Como eles, Jackson enfatiza as emoções amargas –ainda que a direção de atores ocasionalmente se revele escorregadia –e inflama as situações dramáticas no enredo, focando em mazelas cotidianas –sendo aqui a circunstância adversa dos portadores de Síndrome de Down, ainda que tratada com superficialidade. O grande mérito de seu trabalho, para além do afago no público exclusivo dessa categoria, está no hábil afastamento em ceder ao óbvio, não transformando o personagem de David num mero vilão sem sentimentos, mas valendo-se das propriedades de sua premissa para justificar, contextualizar e (ao menos tentar) compreender as motivações de seus terríveis atos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Muito Bem Acompanhada


Um dos astros do ótimo “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, o ator Dermot Mulroney deve gostar muito de comédias românticas ambientadas em casamentos: Este novo filme do qual é protagonista dialoga de forma interessante com aquele do qual ele participou nos anos 1990.
Aqui ele é Nick Mercer, um acompanhante de mulheres solitárias que é recrutado pela desesperada Kate (Debra Messing) para escapar de uma saia justa: Convidada para o casamento da irmã (Amy Adams), a ser realizado em Londres, Kate não deseja parecer, aos olhos da família, a fracassada que pensa ser –ela quer chegar se sobressaindo à mediocridade e ostentar o namorado mais vistoso, charmoso e apropriado possível; é aí que entra Nick e sua disponibilidade remunerada.
Quando o casal aporta no meio da numerosa e tumultuada família –sem o devido tempo para conhecer um ao outro –as coisas começam a se complicar: Não apenas se somam as neuroses absurdas dos familiares de Kate (a acidez indiscreta da mãe, o rancor mal disfarçado da irmã), como também revelações acerca de Jeffrey (Jeremy Sheffield), o ex-noivo de Kate (e razão principal para que ele chegasse ali acompanhada de alguém...) e, por sinal, padrinho do casamento, vêem à tona para complicar tudo ainda mais.
Nesse interim, Nick e Kate tornam nebulosas as regras que os definem como acompanhante e sua cliente, e começam a vislumbrar o envolvimento de uma relação de verdade.
Como quase toda comédia romântica, inevitavelmente assolado por uma ou outra cena que irá saturar a paciência do expectador, o filme, em sua ingenuidade, até consegue se mostrar gracioso graças à química do casal central: Não só Dermot Mulroney tira de letra as exigências de um papel ostensivo, mas que ao mesmo tempo exige carisma para conquistar a torcida do expectador, como, acima de tudo, Debra Messing cativa com seu registro sem afetações nem exageros das aflições românticas de uma jovem mulher moderna.
Não há como escapar do que fato de que, no visual de cartão-postal que evoca, no romantismo etéreo que impõem a todos os seus desdobramentos e na condução adocicada de sua situação central, o filme dá um corpo divertido e descontraído à uma quase fantasia masculina: A do príncipe encantado, digamos assim, que aparece para salvar o dia de uma solteirona e ainda deixar as outras mortas de inveja dela.
Por esse ângulo, seu resultado simpático é muito mais válido do que o fetichista “Cinquenta Tons de Cinza”.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Depois Daquela Montanha


Algo da primazia de “Náufrago”, da situação cuidadosamente arquitetada de “No Limite” (aquele com Anthony Hopkins e Alec Baldwin) e da observação virtuosística dos revezes de “Vivos” –há um pouco de cada uma dessas obras neste “Depois Daquela Montanha”.
Atento às lições deixadas por artesãos competentes antes dele, o diretor Hany Abu-Assad (do memorável “Paradise Now”) procura enfatizar o fator humano diante da luta pela sobrevivência.
O magnífico Idris Elba é Ben. A sensacional Kate Winslet é Alex.
Ela está de casamento marcado. Ele é cirurgião e precisa estar em Baltimore para uma cirurgia de emergência.
Ainda assim, ambos estão impedidos de honrar seus compromissos no aeroporto com todos os vôos cancelados em que se encontram.
Mesmo que, para Alex, Ben seja um completo desconhecido, ela lhe propõe um acordo: Dividirem o custo do frete de um pequeno aeroplano cujo piloto (Beau Bridges) pode levá-los através das montanhas até onde precisam chegar para seguir seus próprios rumos.
Durante a travessia, o imprevisto acontece: O piloto sofre um derrame. O avião cai –numa seqüência elaborada em planos de câmera que deixariam Robert Zemeckis orgulhoso.
Alex e Ben estão, portanto, perdidos na imensidão gelada.
Correspondendo a inúmeros artifícios de histórias de sobreviventes, “Depois Daquela Montanha” oferece, como diferencial, a dinâmica entre seus personagens, tornada mais palpável graças aos primorosos intérpretes que deles se encarregam.
Ferida, Alex depende integralmente dos conhecimentos médicos de Ben, além de sua mera presença ali. Vindo da amargura de um casamento em frangalhos, Ben se ressente das mudanças, e como conseqüência disso, sua intenção é permanecer no local da queda até que a ajuda apareça.
Alex, não. Ela é irrequieta, obstinada e, não raro, teimosa. Mesmo debilitada quer se locomover, contrariando as recomendações de Ben.
São duas personalidades até bem distintas que se chocam.
Em algum momento, Ben precisará compreender a necessidade de evoluir; evoluir do lugar em que está para outro, onde a sobrevivência é, afinal, possível. Evoluir do estado de resignação pelo casamento que deu errado e reconhecer que deve seguir em frente.
A própria Alex deve, também ela, compreender as imperfeições de si mesma e perceber o quanto sua intransigência, na situação-limite em que estão, ameaça sua vida e a de Ben.
É inevitável, diante do isolamento e do contraponto constante de suas índoles a que o filme expõe que Ben e Alex, em algum momento, experimentem um afeto mais intenso um pelo outro.
E o filme de Hany Abu-Assad se torna o que sinalizava ser desde o princípio: Um romance.
É esse aspecto que a narrativa deixa prosseguir em sua última parte, quando após duras penas e já regressados à civilização, Ben e Alex voltam as suas respectivas vidas, sob a sombra latente do efeito que um provocou no outro.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Construindo Uma Carreira

Embora quase sempre talentoso, o cineasta John Hugues costumava construir alguns de seus filmes em cima de fórmulas. Se dava sucesso, não havia porque não ir lá e repetir o feito, afinal. E, após “Curtindo A Vida Adoidado” –talvez, seu melhor trabalho –no qual ele não só teve êxito como também criou um dos mais sensacionais personagens adolescentes do cinema (o Ferris Bueler, de Matthew Broderick), eis que Hugues resolve se arriscar a fazer outro grande personagem, tentando lançar outro nome entre os jovens atores do período.
O personagem em questão era Jim Dodge e o ator que o vivia, o então jovem Frank Whaley (de “The Doors” e pouca coisa mais expressiva depois disso). Jim Dodge é um protagonista sonhador e petulante até nas bravatas que dele declama sobre si mesmo, em relação ao que (supostamente) vai fazer e ao que (dissimuladamente) já fez. O que ele diz de si é inverso à sua realidade medíocre: Jim trabalha sozinho como uma espécie de vigia noturno numa loja de departamentos.
É, de fato, um personagem construído nos moldes de Ferris Bueler (e, como ele, cheio de planos, do atrevimento da juventude e de um idealizado encanto que essas características inspirariam no público), mas, ao contrário de Bueler, não há toda essa empatia em Jim; e isso é culpa tanto da insuficiência do ator que o interpreta quanto do roteiro indeciso e do filme algo equivocado a que ele pertence –que, diga-se, é dirigido por Bryan Gordon, mas quem manda mesmo é John Hugues, atuando como produtor e como roteirista.
Pois, como em “Curtindo A Vida...”, Hugues coloca esse personagem numa situação específica, ilustrativa de um período de tempo também específico: Ao lado da patricinha Josie (Jennifer Connelly, a razão pela qual fui atrás do filme), Jim acaba confinado dentro da loja de departamentos onde trabalha. Ele só sairá de lá ao amanhecer (passa a noite toda lá dentro desfrutando de todo o tipo de utensílios), e como ela fugiu de casa e ali se escondeu (a cena em que ela constrange o pai é muito bem feita por Jennifer, ainda que roteirizada com um pouco de nonsense), ambos terão a companhia um do outro durante toda a noite –as portas são fechadas e só são abertas de manhã.
E assim, como também fez –numa orientação mais dramática –em “O Clube dos Cinco”, Hugues contrapõe as duas personalidades jovens: O rapaz de classe média baixa, mas cheio de ímpeto e sonhos e a garota de classe alta, linda, desejada e popular, mas imbuída de insuspeita atitude constestadora.
É óbvio que, também, o diretor não deixará de aproveitar a oportunidade para esboçar ali um romance, daqueles adoráveis aos olhos dos jovens dos anos 1980, onde uma mulher deslumbrante e impossível (Josie) se torna acessível para um cara normal e possível (Jim).
Se a intenção era lançar algumas luzes sobre Frank Whaley da forma como ocorre com Matthew Broderick, o efeito sofre um reverso aqui: É Jennifer Connelly quem rouba a cena de todo o filme, quase sem o menor esforço.
Além disso, Hugues introduz também uma dupla de ladrões apalermados que invadem a loja (os irmãos na vida real Kieran e Dermot Mulroney) e se tornam eventuais e engraçadinhos antagonistas do casal –são uma espécie de experiência inicial para a adorável dupla de ladrões que Hugues criou, anos depois, para “Esqueceram de Mim”.
Da forma como é, este “Career Opportunities” –o título original é de sua exibição na ‘sessão da tarde’ uma vez que jamais foi lançado em cinema ou homevideo no Brasil –une assim uma série de inspirações e idéias de John Hugues (como num inventário), as quais ele empregou com mais criatividade e talento em outros filmes.
Mas, Jennifer Connelly vale cada minuto!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Procura-Se Um Amor Que Goste de Cachorros

Um dos inúmeros filmes que a deliciosa Diane Lane fez após obter uma espécie de status tardio de estrela com sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Infidelidade”, esta simpática comédia romântica segue à risca todos os ingredientes inerentes ao gênero –para o bem e para o mal.
Lá está o improvável casal romântico interpretado por Diane, sua beleza madura (e nem por isso menos jovial e encantadora) e seu domínio descontraído de cena, e por John Cusack, também ele muito simpático, transparecendo uma maneira algo desleixada de envelhecer.
Lá está também a premissa que os une de modo providencialmente improvável e que efetivamente os fará se apaixonar: As duas irmãs de Sarah (Diane), convictas de que os oito meses que contam de sua separação já extrapolaram sua duração (até mesmo seu pai, vivido pelo fabuloso Christopher Plummer já se virou nesse ínterim), resolvem fazer um perfil falso para ela em um site de encontros, o quê a leva ao casual Jake (Cusack), também ele preocupado com a solteirice crônica que parece estar definindo sua vida.
Jake, porém, tem parâmetros difíceis de serem alcançados por sua “mulher ideal” –um deles, gostar (ou no mínimo conhecer) o filme “Doutor Jivago”! –além disso, o primeiro encontro com Sarah não foi dos mais promissores. E ela tem outro pretendente em vista, o charmoso e disponível Bob (Dermot Mulroney), pai de uma de suas alunas (Sarah é professora pré-escolar).
De situação em situação (algumas menos engraçadas do que seus realizadores gostariam que fossem) o roteiro escrito pelo diretor Gary David Goldberg oscila entre as evidências claras e pontuais de que Sarah e Jake foram feitos um para o outro, e as circunstâncias mundanas e eventuais que os afastam –como numa típica comédia romântica...
Tão natural e deliberada é essa imbricação despretensiosa ao gênero que ele realiza, na cara de pau, a mais manjada das referências: O depoimento ao final, extraído de “Harry &Sally-Feitos Um Para O Outro”, onde o casal apaixonado esmiúça os detalhes de como se conheceram.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Segredos de Sangue

Eu já havia mencionado antes a grande influência de Shakespeare na obra do sul-coreano Chan Wook Park, a “Trilogia da Vingança”.
Em sua estréia no cinema norte-americano, essa influência se estreita ainda mais: “Segredos de Sangue” faz toda uma referência à “Hamlet” em seu ponto de partida.
Como o famoso protagonista de Shakespeare, a jovem India Stoker (Mia Wasikowska, tornando apática a personagem) perde o pai na mesma ocasião em que ‘ganha’ um tio –Charlie (Matthew Goode, sem o carisma necessário), irmão mais novo de seu pai, de quem ela nunca tinha ouvido falar, aparece no funeral sem mais nem menos.
Flertando com sua mãe (Nicole Kidman, num papel mais ostensivo do que relevante) e cheio de justificativas pouco convincentes para as inúmeras perguntas que sua simples presença desperta, ele inspira em India desconfiança absoluta.
“Há algo de podre no reino da Dinamarca!” é a impressão que nos passa a atmosfera de tensão e suspeita levantada por Wook Park, com o auxílio de seu hábil diretor de fotografia, Chung Hoon Chung.
Eles concebem cenas milimetricamente pensadas e executadas que, embora saltem aos olhos pela excelência técnica, não alcançam o nível de genialidade das obras que Wook Park entregou na Coréia do Sul. E não ajuda o fato de que Mia Wasikowska, assim como em “A Colina Escarlate”, torna a interpretar uma protagonista fraca e desinteressante.
No que tange à sondagem sádica e minimalista da condição humana, Wook Park continua talentoso e hábil, e o roteiro escrito pelo ator Wentworth Miller (astro da série de TV “Prison Break”) corresponde com eficácia ao seu estilo convertendo esse conto shakesperiano em um afiado estudo da psicopatia.

Só ficou faltando uma atriz principal vibrante e um entendimento maior do diretor pelo ambiente estrangeiro no qual construiu sua história. Talvez por isso, em seu projeto seguinte, “A Criada”, Wook Park tenha compensado esses lapsos com larga folga fazendo assim uma obra-prima.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Jolene

Infelizmente inédito no Brasil, este bom trabalho de Dan Ireland (mais conhecido por “A Whole Wide World”, uma semibiografia do escritor Robert E. Howard, também inédita por aqui), destaca-se por ser uma interessante adaptação de um conto de E.L. Doctorow (o mesmo escritor de “Na Época do Ragtime”), e por ser, real e de fato, o filme que revelou Jessica Chastain. Ainda que o estrelato, todos concordem, ela obteve a partir de “A Árvore da Vida”.
“Jolene” é quase uma crônica da vida classe média da América, pelos olhos de uma jovem que experimenta fases bastante distintas da vida. No início ela casa-se com um jovem ingênuo, que representa uma vida convencional, mas o trai com o próprio tio e acaba expulsa de casa. Partindo pela estrada afora, Jolene se envolve em inúmeras encrencas e com inúmeros namorados: Vai parar até mesmo em um presídio feminino, onde cai nas graças de uma das guardas da prisão, para depois tentar reconstruir a vida trabalhando como stripper; casando com um gangster (Chazz Palminteri, uma das muitas participações especialíssimas do filme); conhecendo um rapaz que aparentemente é o homem de sua vida –e do qual tem um filho –mas, que revela-se, com o tempo, um marido violento.
A impressão que temos é que, cada vez que se recupera de mais uma rasteira da vida, Jolene se depara com novas atribulações e tristezas.
O tipo de personagem, portanto, que nas mãos de um atriz capaz rende um trabalho todo ele memorável e singular (como aconteceu aqui, com a maravilhosa Jessica, e como aconteceu também em “Noites de Cabíria” com Giulietta Masina, ou em “Piaf-Um Hino Ao Amor” com Marion Cotillard, ou em “Duas Mulheres” com Sophia Loren, só para citar alguns exemplos), mas em mãos erradas e de talento insuficiente, podem afundar um filme (e essa é uma lista que tenho preguiça de elaborar).
Um dos méritos de “Jolene” é ter sido, por algum tempo, o único filme agraciado com cenas de nudez de Jessica Chastain, isso pelo menos até ser lançando o ótimo “Os Infratores” –e sem contar com “Wilde Salomé”, o primeiro filme do qual ela participou, que traz uma cena de topless, mas que nunca foi lançado, apenas exibido em festivais.

A despeito do fato mundano dela aparecer nua no filme, é o talento de Jessica que pulsa a cada cena, fazendo de “Jolene” uma bela oportunidade para testemunhar uma atriz bela e talentosa revelar-se e ascender, e com isso, levar todo um filme junto com ela.