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sábado, 4 de julho de 2020

Sede de Sangue

Durante a década de 2000, após entregar a brilhante terceira parte de sua “Trilogia da Vingança” com “Lady Vingança”, o diretor Chan-Wook Park se lançou a uma formidável experimentação de gêneros e sub-gêneros, e em algum momento lhe ocorreu fazer um filme de vampiros; o resultado é este desigual, denso e notável “Sede de Sangue”, no qual Park reinventa alguns aspectos da mitologia vampira, obedece alguns paradigmas apenas para evidenciar sua paixão pelo conceito e aproveita realmente para compor infindáveis reflexões de ordem alegórica que sempre foram a grande razão de ser da maioria das histórias e filmes (os melhores, pelo menos) sobre o chupadores de sangue.
Interpretado pelo sempre competente Song Kang-Ho (o formidável protagonista do premiadíssimo “Parasita”), o padre Hyun é o abnegado protagonista de “Sede de Sangue”.
Tão disposto a mergulhar nas renúncias inapeláveis de sua fé ele está que chega ao extremo de oferecer-se como cobaia numa experiência movida por médicos voluntários em busca da cura de uma violenta doença. Como todos os demais que receberam o vírus a fim de servir para os testes que poderiam salvar vidas, o padre Hyun é dado como morto quando os efeitos nocivos começam a destruir seu organismo, entretanto, uma inesperada transfusão de sangue desconhecido opera o que muitos passarão a considerar um milagre: O padre Hyun volta à vida.
Contudo, não se trata de um fenômeno tão santo quanto os crédulos acreditam: Ele foi, na verdade, infectado por sangue vampiro, tornando-se um deles.
Já no ponto de partida de sua premissa, portanto, o filme de Chan-Wook Park, honrando a singularidade criativa de seu realizador, se mostra extraordinário para um filme de vampiro; não apenas seu personagem principal é um prato cheio de contradições a serem exploradas (um padre convertido em vampiro!) como o meio com que isso se dá é todo incomum (nunca ficamos sabendo de quem é o sangue que o torna um vampiro).
Em sua nova existência, o padre Hyun faz o possível para equilibrar a moralidade católica de não afrontar vidas humanas com a necessidade urgente de se sustentar pelo sangue –quando ele não o faz, os efeitos da peste voltam com força total! –assim, ele busca por suicidas, solidários doadores de sangue e, em especial, a contribuição de um paciente em coma num hospital de caridade, cujo sangue ele suga todas as noites.
Com o tempo, o padre encontra uma família que conheceu durante a juventude que consiste da mãe, do filho e da filha adotiva. A dinâmica entre eles –inusitada como compete a um filme sul-coreano –é a seguinte: A mãe (a veterana Kim Hae-Sook) é perdulária e condescendente ao extremo com o filho mimado e imaturo, Kang-Woo (Shin Ha-Kyun, de “Mr. Vingança”), que está doente de câncer; já a filha adotiva Tae-Ju (a belíssima Kim Ok-Bin, de “A Vilã”) ao crescer, tornou-se esposa do rapaz, apenas para dar continuidade ao seu ingrato papel de capacho e empregada da família que a adotou.
O padre Hyun, passando a conviver com eles, passa também a nutrir certa empatia pelo sofrimento de Tae-Ju, no entanto, a vida de vampiro e as constantes e inevitáveis concessões ao desejo –inerentes à existência de um vampiro –o fazem suscetível à atração sexual que passa a nutrir por ela.
Em algum momento, Tae-Ju descobre que Hyun é um vampiro, tornando-se amante dele mesmo assim –e aqui testemunhamos a habilidade com que Chan Wook Park constrói ousadas cenas de sexo, integradas de forma crucial à narrativa, nunca gratuitas, mas também longe de serem leves, amenas ou veladas; talento que ele extrapolou no genial “A Criada”.
Durante um tempo considerável de sua duração –que alguns expectadores mais afoitos vão considerar demasiado –o diretor dedica-se a observar com evidente satisfação, os percalços dessa convivência do padre Hyun –que depois de um tempo até deixa de ser padre –com Tae-Ju e seus parentes, inicialmente mantendo um caso secreto, mais logo armando o assassinato de Kang-Woo, e o domínio completo da circunstância doméstica pelos amantes depois que a mãe se torna catatônica e vegetativa; e durante todo esse tempo, Tae-Ju não para de infernizar Hyun para que ele a transforme também numa vampira.
O quê demora um bom tempo para acontecer, mas acontece: Todavia, Tae-Ju se revela uma criatura selvagem, sanguinária e infinitamente mais desdenhosa para com as vidas humanas de suas vítimas do que Hyun jamais foi.
É, acima de tudo, tal divergência que leva os dois em direção à um trágico desfecho.
Detratores de limitada percepção irão se apressar (como de fato se apressaram) em dizer que “Sede de Sangue” não é tão brilhante nem tão inovador quanto os exemplares da “Trilogia da Vingança” de Chan-Wook Park, e nem foi esse, deveras, seu objetivo: Ao abraçar o sub-gênero dos vampiros, e dizer sim a todos os clichês que definem esses seres mitológicos, a intenção do diretor foi versar, na medida do possível, sobre os tópicos da fé cristã em oposição ao malefício natural de descobrir-se um ser macabro e sobre as aglutinações imprevisíveis a envolver a necessidade de sangue e a embriaguez do sexo.
Amparando sua incrível história no manejo inteligente e reflexivo desses conceitos, “Sede de Sangue” é um dos mais astutos e perpicazes filmes de vampiros das últimas décadas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Lady Vingança

Deve ter sido uma tarefa complicada igualar o feito extraordinário de realizar uma grande obra para finalizar sua magistral Trilogia da Vingança tendo como capítulos predecessores os fabulosos “Mr. Vingança” e “Old Boy”, contudo, o diretor Chan-Wook Park o faz acrescentando uma reflexão que soa inédita nos capítulos anteriores.
Se no primeiro filme, a vingança era um fardo, e no segundo, um objetivo, no terceiro, Chan-Wook Park faz dela uma alternativa.
Quando a ainda jovem Geum-Ja (Lee Young-Ae) sai da prisão, onde esteve encarcerada por treze anos sob acusação de assassinato de um garotinho, ela surpreende a todos com uma súbita mudança de comportamento: Da jovem bondosa e solícita que ela se mostrou na prisão, Geum-Ja se revela agora fria, determinada e implacável.
Há um propósito ali que a narrativa de Chan-Wook Park não faz questão de esclarecer de imediato: Ele vai desfraldando os acontecimentos à medida que a trama evolui, seja rumo no que acontecerá, seja rumo naquilo que aconteceu.
Certamente, Geum-Ja foi presa por um crime que não cometeu –no entanto, ela não se sente tão inocente assim em relação a ele. Sua intenção, simplificando as coisas como elas são dispostas no filme, é encontrar o verdadeiro assassino (vivido por Choi Min-Sik, protagonista de “Old Boy”, num papel parecido com seu personagem em “Eu Vi O Diabo”).
Também esse processo não se dá no ritmo e na condução a que estamos acostumados em outros filmes –o diretor se detêm em outros detalhes, levando o encontro com o assassino a acontecer de forma até bem rápida.
É o processo árduo e transformador da vingança em si o grande cerne de “Lady Vingança”: Ao encontrar o psicopata, Geum-Ja descobre outras crianças das quais ele também deu cabo e, num insólito trecho final, reúne os pais em uma casa abandonada para debaterem e resolverem o que fazer: Entregá-lo à polícia para que a justiça (e a lei) seja cumprida, ou devolver na mesma moeda (com sangue e agressão) o mesmo sofrimento que ele infligiu em suas vítimas?
A resposta não tarda, mas o roteiro a entrega com uma capacidade singular de aprofundar questionamentos tão peculiar na cinema sul-coreano.
O esmero visual também característico de Chan-Wook Park comparece aqui numa intensidade notável: Abraçando a tendência das câmeras digitais iniciada por alguns cineastas no início dos anos 2000, ele reserva a seu filme um visual um pouco mais precário de videotape, mas compensa esse detalhe explorando todas as possibilidades de manipulação da imagem criando uma narrativa visualmente digressiva cujos frames são preenchidos por informações a todo o minuto.
Consciente da trilogia esplêndida que com este filme encerra, Park dispõe ao longo de todo o filme inúmeras participações especiais de atores das obras anteriores, como Song Kang-Ho e Shin Ha-Kyun, a dupla antagonista de “Mr. Vingança”, que surgem como dois capangas do assassino; Byeong-Ok Kim (o braço-direito albino do vilão em “Old Boy”) no papel do padre perplexo com a mudança de atitude da protagonista; Oh Dal-Su (dono do hotel-prisão no mesmo “Old Boy”) como o padeiro que emprega Geum-Ja; assim como Kang Hye-Jung (a mocinha de “Old Boy”) numa rápida aparição como âncora de telejornal, e Yoo Ji-Tae (o antagonista daquele filme) num momento delirante onde a heroína enxerga o menino assassinado já crescido.
No elaborado desfecho positivo que resguarda à sua protagonista, “Lady Vingança” também representa uma espécie de evolução na empatia de Chan-Wook Park por seus personagens –em “Mr. Vinçança”, ele foi impiedoso e implacável; em “Old Boy”, apesar de um final até feliz, ele não deixou de espumar um sarcasmo perverso, entretanto, aqui, em “Lady Vingança”, ele enfim se permite narrar um conto onde a redenção é, apesar de tudo, possível.
Um gênio que encontra aqui o amor por seus próprios personagens.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Old Boy

No brilhante capítulo do meio de sua Trilogia da Vingança, Chan-Wook Park entrega um protagonista arremessado num conto mirabolante de improbabilidades extraordinárias, no entanto, tão bem executadas por seu roteiro que a premissa algo absurda não somente soa envolvente como também reflexiva.
Esse protagonista é Oh Dae-Su (o grande ator Choi Min-Sik). No ritmo febril imposto por Chan-Wook Park mal temos tempo de vislumbrar o cidadão cheio de vícios e defeitos que Oh Dae-Su é (ele vai parar numa delegacia por assediar uma moça na rua, e lá, puxa briga até mesmo com os policiais), e ele já é capturado misteriosamente dando início ao seu incomum calvário.
Seja lá quem for a pessoa que o sequestrou, ele prendeu Oh Dae-Su num quarto de hotel barato, dentro do qual ele não tem outra escolha senão ver os quinze anos que se passam (!).
Ele não tem escolha literalmente: Se tenta se matar, estranhos prontamente o atendem; gases o fazem dormir e, quando acorda, suas unhas e cabelos estão feitos. Há uma televisão que fica sempre ligada –da qual ele assiste o noticiário onde descobre que sua esposa foi morta (sendo ele o principal suspeito) e sua filha entregue à adoção.
E assim, sem maiores informações acerca de seu captor, Oh Dae-Su vê quinze anos se passarem enquanto nutre um ódio descomunal do misterioso indivíduo que destruiu sua vida, numa primorosa referência à outro grande conto sobre o empuxo tóxico da vingança, “O Conde de Monte Cristo” –que inclusive será citado explicitamente mais tarde.
Uma tênue esperança de escapar começa a se desenhar (ele começou a desmontar os tijolos de uma das paredes e crê que em um mês será capaz de transpô-la) quando subitamente ele é libertado dentre de uma maleta no alto de um prédio qualquer de Seul.
Ele não faz ideia de quem fez isso com ele. Do porque o prendeu e nem porque resolveu o soltar –questões que serão fundamentais no desenrolar da trama –mas, Oh Dae-Su está disposto a dedicar cada minuto para descobrir.
Avançar na explicação dos desdobramentos de “Old Boy” ameaça invadir aqueles tópicos da narrativa cuja revelação pode comprometer o impacto do que é contado –e, nesse sentido, o trabalho de Chan-Wook Park é tão visceral quanto esplêndido.
Ele dá um visível salto de sofisticação em relação à crueza mais perceptível do anterior “Mr. Vingança” enquanto lança mão de uma vastidão maior de recursos para construir um filme de visual ainda mais elaborado (seus criativos enquadramentos elípticos ganham aqui um sem-fim de novos incrementos, além de uma montagem cheia de inventividade) amparado numa trama absolutamente espantosa: O plot twist do final é de uma manobra tão corajosa, radical e perversa que se tornou lendário!

Mr. Vingança

Quando submetida a uma revisão, a cultuada Trilogia da Vingança de Chan-Wook Park apenas faz crescer na concepção cinematográfica o brilhantismo singular que todas essas três obras ostentam.
É um exercício masoquista tentar dizer qual delas é a melhor, ainda que muitos sejam aqueles que apontam o primeiro filme, o genial “Mr. Vingança”, como dono de tal honraria.
Não é à toa.
Por tratar-se do primeiro exemplar de um projeto do qual não se teria ideia da repercussão, e por esse mesmo motivo encontrar seu realizador ainda jovem no princípio ávido de uma admirável carreira, percebe-se em “Mr. Vingança”, ao menos em sua revisão, as limitações orçamentárias que desaparecem progressivamente nos filmes seguintes. E percebe-se mais ainda o quanto Chan-Wook Park lança mão de uma criatividade constante e pulsante, presente praticamente em cada fotograma, para encobrir esse baixo orçamento com uma narrativa que hipnotiza do início ao fim.
Por meio dessa genialidade insuspeita somos apresentados à Ryu (Shin Ha-Kyun), um jovem e proletário surdo-mudo cujo maior objetivo na vida é poder ajudar a irmã (Lim Ji-Eun), que, convalescida, precisa de um rim com urgência, uma vez que ele próprio não é compatível para a doação.
Em vez disso, Ryu tenta outra manobra: Vender um rim seu em troca de um que tenha o sangue compatível para a irmã.
No entanto, os aproveitadores com quem negocia levam o dinheiro que ele juntou (dez milhões) e seu rim, deixando-o ainda mais lesado.
Pior: Um doador surge logo em seguida, mas desta vez os dois irmãos não têm mais o dinheiro que pagaria a operação.
A saída parece ser ilícita: Raptar a filha do homem que despediu Ryu dias antes. Os ricos têm dinheiro de sobra, pensam ele e sua namorada, Cha Yeong-Mi (Bae Du Na). A criança não sofrerá mal algum enquanto estiver com eles, e o dinheiro, no fim das contas, é para uma causa justa.
Todavia, é aí que o brilhantismo presente no roteiro e na direção começa a comparecer com doses maciças de ironia e tragicomédia envolvendo essas trajetórias humanas, não somente de Ryu, sua irmã e Cha, mas também do empresário Park Dong-Jin (Kang-Ho Song, ator presente em grandes trabalhos sul-coreanos), o pai da criança raptada, cuja estatura dentro da trama, a partir daqui começa a crescer consideravelmente.
Ignorante do sequestro (a quem ele contou somente que a criança ficou com eles porque os pais sofreram um acidente) a irmã de Ryu, ao descobrir que serviu de pretexto a um crime, se suicida.
Ao tentar enterrar a irmã –mesmo com o dinheiro do sequestro já em mãos –Ryu inadvertidamente leva à criança à beira de um rio onde acaba se afogando; colocando assim um pai inconsolável e vingativo em seu encalço e no de Cha.
Nesse interim, o próprio Ryu também tratará de rastrear os criminosos que roubaram o rim e o dinheiro. O fluxo de cada uma dessas tramas conduzirá a um banho de sangue.
O mais intrincado dos três filmes da Trilogia da Vingança –e por isso mesmo imensamente fascinante –“Mr. Vingança” se encerra, como não poderia deixar de ser, com um agridoce sentimento dúbio: Deixa um gosto deliberadamente amargo devido à desolação macabra que chega a impor aos seus personagens, mas também um assombro de estupefata admiração pelo primor irrestrito na obra que seu realizador entrega.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Segredos de Sangue

Eu já havia mencionado antes a grande influência de Shakespeare na obra do sul-coreano Chan Wook Park, a “Trilogia da Vingança”.
Em sua estréia no cinema norte-americano, essa influência se estreita ainda mais: “Segredos de Sangue” faz toda uma referência à “Hamlet” em seu ponto de partida.
Como o famoso protagonista de Shakespeare, a jovem India Stoker (Mia Wasikowska, tornando apática a personagem) perde o pai na mesma ocasião em que ‘ganha’ um tio –Charlie (Matthew Goode, sem o carisma necessário), irmão mais novo de seu pai, de quem ela nunca tinha ouvido falar, aparece no funeral sem mais nem menos.
Flertando com sua mãe (Nicole Kidman, num papel mais ostensivo do que relevante) e cheio de justificativas pouco convincentes para as inúmeras perguntas que sua simples presença desperta, ele inspira em India desconfiança absoluta.
“Há algo de podre no reino da Dinamarca!” é a impressão que nos passa a atmosfera de tensão e suspeita levantada por Wook Park, com o auxílio de seu hábil diretor de fotografia, Chung Hoon Chung.
Eles concebem cenas milimetricamente pensadas e executadas que, embora saltem aos olhos pela excelência técnica, não alcançam o nível de genialidade das obras que Wook Park entregou na Coréia do Sul. E não ajuda o fato de que Mia Wasikowska, assim como em “A Colina Escarlate”, torna a interpretar uma protagonista fraca e desinteressante.
No que tange à sondagem sádica e minimalista da condição humana, Wook Park continua talentoso e hábil, e o roteiro escrito pelo ator Wentworth Miller (astro da série de TV “Prison Break”) corresponde com eficácia ao seu estilo convertendo esse conto shakesperiano em um afiado estudo da psicopatia.

Só ficou faltando uma atriz principal vibrante e um entendimento maior do diretor pelo ambiente estrangeiro no qual construiu sua história. Talvez por isso, em seu projeto seguinte, “A Criada”, Wook Park tenha compensado esses lapsos com larga folga fazendo assim uma obra-prima.

terça-feira, 9 de maio de 2017

A Criada

Há algo de shakespeariano na construção irrepreensível, seja técnica, seja artística, da obra-prima sólida e antológica que é a “Trilogia da Vingança” (composta pelos filmes “Senhor Vingança”, “Old Boy” e “Lady Vingança”) perpetrada pelo diretor sul-coreano Chan Wook Park.
Se Shakespeare era a aplicação daquele trabalho, em “A Criada” essa inspiração parece vir das obras libidinosas, não raro impiedosas e imprevistas do Marquês De Sade.
Ainda que –sendo este um daqueles trabalhos onde qualquer informação compromete o desenrolar surpreendente da trama –essa característica não apareça de imediato.
O que se percebe, sim, tão logo as câmeras registram os primeiros segundos de filme, é a habilidade extraordinária do diretor Chan Wook Park em particular (e dos cineastas sul-coreanos em geral): Sequer há a necessidade que o filme lance mão de intertítulos explicativos que dêem noção de tempo, contexto e lugar à história –eles o fazem através da construção da cena, pontuada por detalhes essenciais e pertinentes. Dessa forma pode-se notar que essa é a Coréia do Sul da década de 1930, em meio à ocupação japonesa e à iminência da Segunda Guerra Mundial.
Jovem pobre de um pobre vilarejo, a ansiosamente esperta Sooke (Kim Tae Ri) aceita um cargo de criada numa longínqua mansão de propriedade de uma jovem milionária japonesa, a inicialmente angelical Lady Hideko (Kim Min Hee). Sooke está lá, porém, para ser cúmplice num golpe planejado por um vigarista (Ha Jung Woo): Ganhar a confiança da patroa e incitá-la num romance com ele, que finge ser um aristocrata japonês chamado Conde Fujikawa. Uma vez desposando-a (e herdando assim sua fortuna), ele afirma que a colocará num hospício e fugirá com Sooke.
As personagens das duas mulheres –e seus pontos de vista magnificamente reordenados ao longo da narrativa –deixam claro a dor e a submissão de viver num mundo dominado por homens, à mercê dos desvios masculinos mais grotescos.
O inesperado começa a interferir nos rumos convencionais da trama quando a patroa e a criada começam a desenvolver uma relação sexual, intensa e recíproca –o quê leva este esplêndido trabalho a rivalizar (ou quem sabe até superar!) em voltagem erótica as cenas de sexo também surpreendentes dos já lendários “Cidade dos Sonhos” e “Azul É A Cor Mais Quente”.
Audacioso como poucos, Chan Wook Park cria um filme praticamente inquestionável em todos os seus aspectos. Da estrutura não linear e repleta de revelações e reviravoltas desconcertantes de seu roteiro, passando pela concepção delicada, minuciosa e criteriosa de todos os seus personagens (com ênfase nas duas maravilhosas protagonistas), até praticamente todos os quesitos de ordem técnica (figurino, direção de arte, fotografia e trilha sonora), o quê ele fez ganha o mais irrevogável mérito de ser chamado ‘aula de cinema’.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Zona de Risco

O inferno, como diz o ditado, está cheio de boas intenções. É desse princípio moral que parte este conto sensacional vindo da Coréia do Sul e, para variar, carregado de inventividade e do mesmo primor que o diretor Chow Wook Park já havia esbanjado na celebrada “Trilogia da Vingança”.
Somos introduzidos à história, de início, como um mistério de aspectos insolúveis: Num trecho da fronteira entre a Coréia do Norte e a Coréia do Sul tão estreito quanto uma rua, um incidente envolvendo quatro soldados (três deles do norte e um do sul) que terminou com dois deles mortos, torna ainda mais delicada a tênue trégua entre os dois lados.
A fim de demonstrar transparência na apuração dos fatos, a CSNN (Congressão Supervisora das Nações Neutras) envia uma jovem oficial de descendência coreana para investigar o acontecimento, auxiliada por um oficial suíço. A elucidação de tudo o que de fato aconteceu naquela noite fatídica, entretanto, ganha contornos desconcertantes a medida que a inesperada verdade começa a vir à tona.
Essa extraordinária fusão de destreza narrativa com a ironia e a sensibilidade aguda na manipulação dos meandros políticos faz parecer uma mescla desigual de Irmãos Coen com Costa-Gravas.

Chow Wook Park parece questionar o porquê dos homens (não apenas os coreanos) criarem pretextos para se dividirem e se hostilizarem, quando poderiam ser amigos, irmãos, e com esse ímpeto, ele entrega uma profunda demonstração de humanismo, feita de maneira eletrizante, como só os arrojados cineastas sul-coreanos sabem fazer.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A Trilogia Sul - Coreana da Vingança


Concebida por Chon Wook Park, um dos mais prestigiados diretores sul-coreanos (e não há como superestimar esse título!), essa trilogia, embora ainda desconhecida do grande público, é composta por três verdadeiros clássicos modernos. Três contos, surpreendentes e corrosivos, com tramas e personagens diferentes, mas unidos por um único tema: A necessidade humana, por assim dizer, por vingança.
Senhor Vingança
O primeiro filme, lançado no fim da década de 1990, é para muitos, o melhor de todos; o quê é algo no mínimo impressionante de se afirmar!
Ele conta a genial e intrincada história de um casal de irmãos (o rapaz é surdo-mudo), que diante de uma desesperadora situação financeira, decidem por em prática um gaiato plano que consiste em seqüestrar a filha pequena de um homem de negócios para obter o dinheiro do resgate.
Entretanto, as coisas dão terrivelmente errado a partir do momento em que a objetividade é nublada por fatores humanos como o arrependimento, o desleixo e a covardia.
O filme numa das diversas guinadas geniais que a trama assume (e elas são muitas!) conta, a partir de um determinado ponto, a história daquele homem de negócios (vivido pelo grande ator Song Kang-Ho), e de como a angústia de perder a filha o transforma.
Aliás, a tragédia, em “Senhor Vingança” surge como um agente transformador de todos os personagens, o que paulatinamente ocorre com todo o filme (uma mudança brusca de inesperada de cerne narrativo e de atmosfera) e revelar mais corre o risco de desprover muito das surpresas brilhantes que as reviravoltas reservam. É de um prazer indescritível acompanhar a técnica primorosa com a qual o diretor Wook Park conduz as linhas narrativas que se cruzam e se fundem, num dos melhores thrillers do cinema.
Old Boy
O segundo filme, e o mais conhecido também, foi aclamado em Cannes pelo próprio Quentin Tarantino em pessoa: Nada mais justo para aquele que é merecidamente um dos melhores filmes da década de 2000.
A história: Oh-Dae-Su quer vingança! Certo dia, ele é sequestrado e aprisionado num quarto de hotel. Sua única companhia, além das quatro paredes, é uma televisão que fica ligada o tempo todo. Seus captores apenas lhe dão comida, remédios e cortam-lhe cabelos e unhas, sem nunca se mostrarem. Dessa forma se passam 15 anos, enquanto Oh-Dae-Su se consome de ódio por não saber quem ou por que fizeram isso a ele. Quando é subitamente libertado, seu objetivo de vida passa a ser a descoberta da razão do homem que lhe fez isso. Por quê? Com qual propósito?
Vagamente inspirado em "O Conde de Monte Cristo" (o protagonista alimentado pela vingança), o diretor Park constrói uma trama erguida sobre elementos cinematograficamente mirabolantes, mas amparada em soluções narrativas tão sólidas que chegam a soar perfeitas em seu roteiro.
Absurdamente sensacional, “Old Boy” caiu nas graças do público do mundo todo, sem que muitos soubessem, na época, que ele era o capítulo do meio de uma trilogia, e serviu como uma bela amostra do novo cinema sul-coreano, pródigo em projetos pouco usuais e de grande originalidade. Para se ter uma idéia, até refilmagem norte-americana ele ganhou (embora seja, no mínimo, constrangedor comparar esta obra magnífica com aquele equívoco...). Atenção para o criativo senso visual de Chon Wook Park –ainda mais elaborado do que no magistral capítulo anterior –neste profundo, sarcástico e algo pervertido estudo sobre o ato da vingança.
Cenas memoráveis: A luta espetacular (e magistralmente filmada) de Oh-Dae-Su contra toda uma gangue de jovens rapazes transcorridas num corredor apertado, com a câmera posicionada num ângulo surpreendente (ela parece estar dentro da parede e o enquadramento emula assim um videogame de luta dos anos 1980) e ainda feita num único take (!); a drástica, corajosa e até hoje inacreditável revelação final que dá um novo viés à motivação do vilão e à jornada do herói, que aliás, perde completamente o chão nesse desfecho (sensação que ele compartilha com o expectador).
Lady Vingança
O terceiro, e último filme é também aquele onde Chon Wook Park se permite uma reflexão mais aprofundada sobre os mecanismos da psicose
Por esse caráter questionador do ato inerente da desforra, a heroína do filme é também a única personagem principal na trilogia que tem alguma perspectiva de final feliz.
Aqui, Wook Park nos leva a acompanhar os passos da primeira protagonista feminina da trilogia (embora dizer isso possa ser injusto com a irmã do surdo-mudo do primeiro filme...), uma mulher acusada e condenada por um crime que não cometeu. Após cumprir sua pena e ver-se em liberdade, seu objetivo é ir atrás do psicopata responsável por seu encarceramento, que inclusive lhe privou de anos de convívio com sua filha.
Dentre todos, “Lady Vingança” é o menos eletrizante (e desde já, ocupa o mais injusto dos papéis sendo o último filme, e o mais passível de comparação com os espetaculares capítulos anteriores), mas é também o que mais se propõe a discutir a natureza maligna, ou catártica, da vingança. Afinal, é ou não a vingança um elemento que nos iguala ao monstro que pretendemos confrontar?

Colocados em perspectiva e justapostas, essas questões formam, ao longo de toda a trilogia, o real objetivo de Chon Wook Park: Vislumbrar as tramóias impecáveis do destino e, a partir do fluxo irreversível das ações de causa e efeito, entender quem somos, e o quê nos tornamos diante de revezes de incalculável crueldade.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

10 Melhores Adaptações de Histórias Em Quadrinhos Fora do Eixo Marvel/DC Comics

WATCHMEN
Numa realidade paralela, o mundo de 1985 é completamente diferente daquele que conhecemos devido à influencia direta de vigilantes mascarados no dia-a-dia das pessoas normais. Os EUA, ainda presididos por Richard Nixon estão a beira de uma guerra nuclear, e os vigilantes, agora aposentados começam a aparecer assassinados pelo que parece ser uma conspiração. Os desdobramentos desses fatos levam diretamente a decisão da própria guerra,e do destino final dos heróis mascarados, sobretudo o onipotente Dr. Manhatan.
Esplêndida obra de ficção científica e histórica, adaptado da quintessencial graphic-novel escrita por Alan Moore, e até hoje tida como um dos grandes trabalhos das HQs.
O trabalho de adaptação é igualmente brilhante, seja no elenco, no roteiro ou na direção.
KICK ASS
O nerd Dave Lizewski passa seus dias se perguntando porquê todo mundo quer ser Paris Hilton e ninguém quer ser o Homem-Aranha.
Com esse estado de espírito, ele decide ser o primeiro super-herói do mundo real, veste uma roupa colante colorida e sai para a rua a fim de dar porrada na bandidagem. Quebra quase todos os ossos do corpo na primeira tentativa... e vira um verdadeiro fenômeno do youtube, na segunda!
Na sua cola, surgem outros personagens incomuns como o solícito (e duas caras) Red Mist, e principalmente a violenta dupla de vigilantes, Big Daddy e Hit Girl.
A partir dos quadrinhos escritos por Mark Millar, o diretor Matthew Vaughn elaborou um dos mais divertidos, eufóricos e surpreendentes filmes de ação dos últimos anos.
300
Na Grécia Antiga, a cidade de guerreiros de Sparta recebe a nefasta notícia de que hordas monumentais do imperador Xerxes, vindas da Pérsia, virão invadir seu continente pelo estreito das Termópilas. Sozinho em sua cruzada, o rei espartano, Leonidas, conduz trezentos soldados selecionados a fim de executar uma estratégia arriscada: valer-se da geografia afunilada das Termópilas para minimizar sua desvantagem numérica enquanto esmagam sistematicamente legião após legião de seus inimigos.
O diretor Zack Snyder (que depois viria a fazer "Watchmen") recria a pulsante e hipnótica graphic-novel de Frank Miller valendo-se das mesmas paletas de cores e enquadramentos desiguais que lhe davam tanta personalidade.
BATALHA REAL
Num futuro próximo, o governo japonês se vê diante de um impasse. O aumento cada vez maior da incidência de adolescentes, maioria esmagadora da população. Para controlar isso é aprovado o Programa de Sobrevivência Batalha Real, segundo o qual, uma classe de 40 alunos é levada a uma ilha onde recebem mapas, roupas, mantimentos, armas e uma espécie de bomba presa como coleira aos seus pescoços. Ao fim de três dias as bombas explodirão matando a todos, a não ser que sobre apenas um.
Assim, os amigos terão que se matar uns aos outros num jogo complicado de resistência e sorte. Cult japonês do final da década de 90 e influência para infindáveis filmes posteriores. É um prodígio de ritmo e originalidade.
V DE VINGANÇA
Já resenhada aqui, a adaptação da magnífica obra de crítica política de Alan Moore, escrita pelos irmãos Wachowsky e dirigida com surpreendente segurança pelo novato James McTeiger, foi uma das grandes surpresas cinematográficas do ano de 2005.
SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO
Apaixonado repentinamente pela misteriosa e charmosa Ramona Flowers, Scott Pilgrim não economiza artifícios para conquistá-la (chega a ponto de fazer uma encomenda aleatória na Amazon -onde ela trabalha como entregadora -apenas para vê-la baterà sua porta).
A tarefa, contudo, não é fácil: Para conseguir ser seu namorado, Scott deve enfrentar os sete ex-namorados malignos que Ramona teve e, como num videogame, cada um é mais poderoso que o anterior.
A HQ de Bryan O'Malley (assim como este filme cheio de inventividade e sentimento que saiu dela) é uma brilhante transfiguração dos novos tempos, onde a vida é dividida em fases como num jogo de videogame.
SIN CITY - CIDADE DO PECADO
Três histórias extraídas das sórdidas revistas em quadrinhos noir escritas e ilustradas pelo mestre Frank Miller, ganham tradução cinematográfica literal (e à época inovadora!) do diretor Robert Rodriguez: "Cidade do Pecado" acompanhamos a trajetória de Marv, brutamontes que, em retribuição à única verdadeira noite de amor que já teve, irá caçar os assassinos de seu objeto do desejo, a stripper assassinada Goldie.
"A Grande Matança" coloca o misterioso Dwight às voltas com um mal-entendido capaz por um fim à uma trégua milenar entre os policiais e as protitutas da Cidade Velha.
E "O Assassino Amarelo" mostra o duro sacrifício do íntegro policial Hartigan, que vê sua vida e carreira serem destruídas para poder proteger uma garotinha de um psicótico.
AZUL É A COR MAIS QUENTE
A jovem Adele sente uma inesperada atração por Emma, garota militante, artista e atraente, que ostenta inusitadas madeixas azuis.
Opondo-se contra família, amigos e sociedade em geral, Adele inicia um romance com ela, que atravessará, ao longo dos anos em que estarão juntas, uma série de provações e mudanças.
Outra obra já resenhada por aqui.
KINGSMAN - SERVIÇO SECRETO
Eggsy não tem muita expectativa de sucesso. Morador do gueto, orfão de pai, e constantemente acuado pelo perverso padrasto, ele recebe uma proposta que pode mudar tudo: integrar o rigoroso treinamento para ser um agente da Kingsman, uma agência ultra-secreta, da qual seu pai já foi um agente (e que, inclusive, morreu em uma missão).
Mais uma vez uma HQ carregada de espirituosidade de Mark Millar, e mais uma vez, a direção sempre precisa de Matthew Vaughn. Não tinha como dar errado.
OLD BOY
Oh Dae Soo quer vingança. Mais do que isso, ele quer saber por quê! Há quinze anos, ele foi trancafiado, sem qualquer explicação num quarto vagabundo de hotel, onde passou todo esse tempo alimentando um ódio irracional contra seus captores. No processo, perdeu toda a família. Ao ser libertado (também sem qualquer explicação) ele decide fazer de seu objetivo de vida descobrir quem fez aquilo com ele. E vingar-se da forma mais cruel e dolorosa que puder conceber.
O grande diretor Chon Wook Park foi buscar, para fazer o capítulo do meio de sua prestigiada "trilogia da vingança", inspiração na HQ homônima, e fez com ela um filme poderoso, perverso e profundo sobre os anseios e pulsões do ser humano.
Um jovem clássico.