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domingo, 24 de maio de 2026

A Hora do Mal


 Ao lado do anterior “Noites Brutais”, este “A Hora do Mal” inscreve o diretor Zach Cregger (produtor de outro filme de terror do ano de 2025, o bom “Acompanhante Perfeita”) entre os mais geniais estetas do terror na atualidade –o que ele nos entrega aqui é uma obra que compreende as dinâmicas de uma narrativa e as emprega para contar (e muito bem) uma história construída com zelo e maneirismo, brilhantemente inclusa naquela característica categoria onde os contos assim relatados têm a peculiar capacidade para nos envolver e nos amedrontar em igual  medida.

O subúrbio de Maybrook, na Pensilvânia, viveu (como relata a pueril narração em off do início) um caso singular na misteriosa noite em que 17 crianças despareceram sem deixar vestígios. Elas apenas levantaram de suas camas às 2:17 da madrugada (como atestaram as câmeras de segurança de algumas das casas) e simplesmente saíram correndo pela noite, com os braços abertos (numa possível alusão à Kim Phuc Phan, a menina vista pelo mundo todo em filmagens dos anos 1960, ao ser uma das vítimas atingidas por napalm durante a Guerra do Vietnam), para não mais serem vistas.

O caso alarma a comunidade e intriga as autoridades, e na esteira desse mistério, o diretor Zach Cregger fragmenta seu filme em seis personagens específicos que assumem certo protagonismo (cada um nomeando um dos capítulos que compõem o filme) e cujas trajetórias particulares acabam gradualmente elucidando um mistério que em princípio aparentava ser insolúvel.

A primeira é “Justine” (interpretada por Julia Garner, a Surfista Prateada de “Quarteto Fantástico-Primeiros Passos”), obviamente, a professora dos alunos que desapareceram –sim, as 17 crianças eram todos alunos de uma mesma sala de aula! e que, por conta da mórbida coincidência, torna-se a principal suspeita do desaparecimento aos olhos da comunidade e dos pais aflitos.

Logo depois vem “Archer” (Josh Brolin, também um dos produtores executivos), pai indignado de um dos meninos desaparecidos disposto a mover uma investigação por conta própria –e passar por cima de quem for preciso para descobrir a verdade.

O terceiro é “Paul” (Alden Ehrenreich), policial do distrito outrora romanticamente envolvido com a própria Justine, agora, entretanto, casado, às voltas com seus próprios problemas e confusões: Além de ex-alcóolatra é um policial relativamente destemperado o que acirra seus ânimos perante do Chefe de Polícia (seu sogro ainda por cima!).

O quarto é “Anthony” (Austin Abrams, da série “Euphoria”, quase irreconhecível) sem-teto e viciado local, cujo hábito ilícito de invadir propriedades atrás de pequenos furtos o fará ser o primeiro a descobrir o real paradeiro das crianças, e a tentar tomar alguma atitude de olho na gorda recompensa de 50.000 dólares oferecida pelos pais.

Em quinto lugar vem “Marcus” (Benedict Wong, de “Doutor Estranho”) o diretor homossexual da escola, o primeiro a deparar-se com a grande personagem do filme, a horrivelmente peculiar e perversamente exótica Tia Gladys (vivida primorosamente pela veterana Amy Madigan, ganhadora do Oscar 2026 de Melhor Atriz Coadjuvante), que traz consigo todas as respostas (e todos os spoilers) da trama.

O sexto e último protagonista (e, logo, aquele cujo enredo preenche todas as lacunas) é “Alex” (o pequeno Cary Christopher), o 18º aluno da classe de Justine, exatamente o único que, por motivos nebulosos, não desapareceu junto com os demais.

Concebendo uma narrativa plural amparada nesses múltiplos personagens (e manipulando a tensão e o suspense justamente a partir de tudo aquilo que o público não sabe), o diretor Zach Cregger dá a oportunidade de vermos as pontas soltas do enredo irem gradualmente se amarando, com requinte inconteste, e elabora uma das obras-primas do terror dos últimos anos, oferecendo ao expectador um trabalho seguro, sólido, objetivo e feito com rara primazia dentro do gênero.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

O Urso do Pó Branco


 O cinema de entretenimento às vezes encontra caminhos tortuosos para chegar ao seu público, e com isso, ocorre de surgir na ribalta produções de origem um tanto incomum. “Cocaine Bear”, dirigido pela atriz Elizabeth Banks é um desses casos. Inspirado numa história real –e, por isso mesmo, encarado com alguma seriedade por alguns que lhe foram conferir –o filme em si abre mão de seu realismo para se fazer uma tremenda homenagem aos filmes slasher dos anos 1980 (época em que a trama se passa), à mescla desigual entre terror e comédia (o chamado ‘terrir’) e ao cinema B em geral, vez ou outra, fonte de obras inusitadas que desafiam a crença do expectador pelo simples absurdo de sua proposta. Em sua carreira como atriz, Banks trabalhou com Sam Raimi (na “Trilogia Homem-Aranha”) e com James Gunn (em “Seres Rastejantes”), entre vários outros diretores –entretanto, é essencialmente a influência desses dois que parece guiar as noções narrativas que ela demonstra aqui. A lembrar que Elizabeth Banks também já havia dirigido um reboot de “As Panteras”.

De Sam Raimi, ela empresta a percepção de gênero, o slasher, no qual a contagem de corpos vem a ser a estrutura que compõe a história (ainda que os personagens bolados para serem basicamente as vítimas do urso sejam elaborados num viés de comédia), e também o apreço por jump scares (tão abundantes em obras como “Evil Dead”); já de James Gunn, ela pega a concepção debochada com a qual molda núcleos inteiros de personagens norteados por uma certa galhofa, porém, inseridos num contexto que não deixar de ter tensão.

Na história real da qual o filme se baseia, um piloto de aeroplano que trafica droga para os EUA (uma característica non-sense do tráfico de drogas nos anos 1980, retratada no filme “Feito Na América”) pensa estar sendo seguido pela polícia e se livra de vários malotes de cocaína  enquanto sobrevoava o Parque Florestal de Chattahoochee-Oconee, na Geórgia, antes dele próprio pular do avião e perder a vida (!). Na realidade, os malotes encontrados e consumidos pelo urso (na verdade, uma ursa) levaram o animal a ter uma overdose sendo encontrado dias depois pela polícia –o animal, hoje, pode ser visto pelo público, empalhado no Kentucky Fun Mall. Para muito além dessa ocorrência curiosa que se espalhou de boca em boca pelos EUA na época, a diretora Elizabeth Banks imaginou todo um filme no qual o urso, enlouquecido pelos efeitos da droga, libera sua fúria contra diversos personagens humanos que inadvertidamente cruzam seu caminho.

E aí entra a sacada bastante inspirada do filme, em não levar-se a sério e construir personagens que são basicamente caricaturas divertidas as quais se acompanha com certo prazer sádico suas idas e vindas, a escapar (ou não) das garras do urso ensandecido. Temos assim os dois comparsas de traficantes Daveed (O’Shea Jackson Jr., de “Straight Outta Compton”) e Eddie (Alden Ehrenreich), instruídos pelo chefão Syd (o falecido Ray Liotta, a quem o filme é dedicado) a recuperar os malotes perdidos a fim de minimizar seu prejuízo; as duas crianças Dee Dee (Brooklyn Prince, de “Projeto Flórida”) e Henry (Christian Convery, da série “Sweeth Tooth”), numa tentativa travessa de cabular aula; a mãe de Dee Dee (Keri Russell) no encalço dos dois; os obtusos guardas-florestais Liz (Margo Martindale, de “Secretariat” e “Menina de Ouro”) e Peter (Jesse Tyler Fergunson, da série “Modern Family”), e os policias Bob (Isaiah Witlock, de “A Última Noite”) e Reba (Ayoola Smart), cada qual ao seu jeito, tentando procurar as drogas extraviadas. Juntam-se a eles também os destrambelhados paramédicos Beth (Kahyun Kim) e Tom (Scott Seiss) –protagonistas de uma sequência insana de perseguição à bordo de uma ambulância! –e um grupo de marginais. Todos esses personagens acabam servindo de fio condutor à trama, na simplicidade atroz de sua proposta: Não é segredo para ninguém que a maioria deles serve de carne para abate ao urso protagonista. E tão mais válidas são suas participações quanto mais tresloucadas e memoráveis forem suas mortes. E nesse sentido, elas realmente são –Elizabeth Banks fez bem seu dever de casa e incorpora maravilhosamente bem o espírito de produção trash (embora o filme, com um orçamento razoável de 35 milhões de dólares e um CGI satisfatório da fera alucinada não seja, deveras, uma produção trash) em sequências sucessivas que unem mortes de incontida sanguinolência macabra com um humor irreprimível inerente ao fato de ser um urso surtado de tanta droga a praticar essas atrocidades: Como quando ele salta alucinadamente de uma árvore para outra escolhendo entre capturar o menino Henry ou o idiota Peter –termina escolhendo este último, pois ele chafurdou, minutos antes, num monte espalhado de cocaína (!); ou quando invade o Q.G. dos Guardas-Florestais e a afobada Liz desfere tiros com sua arma que acertam os marginais que se refugiavam ali, ao invés do urso (!?); ou o encontro entre o policial Bob e os traficantes Daveed e Eddie num gazebo onde acham vários malotes perdidos e após uma troca de tiros hilária (que rende um par de dedos decepados à Daveed!) são encontrados pelo urso, que acaba desmaiando sobre Eddie, quase esmagando-o (!).

São várias as situações concebidas pela diretora Banks onde um humor imprevisto se choca com a sensação de perigo proporcionada pelo urso alucinado, e é necessário compreender integralmente que isso faz parte da diversão, a forma descontraída, reverente e descompromissada com a qual ela rememora uma característica já não tão comum nas obras de entretenimento de hoje em dia. Por isso mesmo, muito de “Cocaine Bear” –não só a reconstituição de época enfatizada nos figurinos e na trilha sonora –remete à década de 1980, não apenas como referência, mas como evocação. É quase como se “Cocaine Bear” FOSSE uma realização daquele período de fato. O que não deixa de ser uma oportunidade para lembrar o quando o entretenimento já foi inacreditável e divertidamente inconsequente.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Han Solo - Uma História Star Wars


De um modo geral, “Han Solo” foi vítima de uma escolha ingrata em sua data de lançamento (logo após o fenômeno “Vingadores-Guerra Infinita” e com poucos dias de diferença do igualmente fenomenal “Deadpool 2”!) e de uma campanha de marketing bastante relapsa em relação aos bons trabalhos feitos com títulos anteriores da mesma saga; some-se a isso um excesso de expectativa (normal em qualquer obra oriunda dessa franquia) e eis que ele arcou com o ingrato título de Produção Mais Fraca Desde A Retomada de Star Wars Pela Disney.
De longe, o mais problemático de seus projetos, “Han Solo” passou por uma tumultuada troca de diretores (sai os escolhidos iniciais, Phil Lord e Chris Miller, da animação “Uma Aventura Lego”, e entra no lugar o veterano Ron Howard), uma sucessão de refilmagens e várias incertezas com relação ao seu astro, Alden Ehrenreich que herdou a complicada tarefa de substituir o quase insubstituível Harrison Ford no papel do contrabandista Han Solo ainda jovem, no início de uma jornada (finalmente contada neste filme) que terminaria o colocando ao lado de Luke Skywalker e Léia Organa contra as forças do Império Galáctico.
Desconsiderando todos esses aspectos e focando unicamente no filme do qual esse esforço resultou, é possível afirmar sem equívocos que “Han Solo” é uma obra completamente injustiçada.
Divertido, impulsionado por um ritmo que jamais se acomoda e satisfatórios na maioria de seus aspectos, ele acompanha com notável desembaraço a trajetória de seu protagonista Han (Ehrenreich, que não compromete o resultado e encabeça o filme com serenidade) inicialmente um jovem suburbano num planeta nos confins do universo que sonha partir para as estrelas ao lado da amada Qi’ra (a deliciosa Emilia Clarke). Um contratempo de última hora os separa e Han (que ganha a alcunha 'Solo' de um oficial de imigração) vai parar em outro planeta onde submete-se a um insano treinamento para oficial do Império Galáctico e acaba encontrando aquele que virá a ser seu grande amigo e aliado, Chewbacca (incorporado por Joonas Suotamo e não pelo veterano Peter Mayhew como nos filmes clássicos).
A partir desse encontro e de uma descoberta quase acidental de uma parceria certeira para escapar das enrascadas, Han Solo e Chewie unem-se ao duvidoso time de assaltantes espaciais de Beckett (Woody Harrelson) que embora lhes sirva de mentor, deixa bem claro não ser nada confiável.
As referências aos antigos faroestes vislumbradas por George Lucas nos filmes originais aparecem na cena de roubo de uma espécie de trem espacial, onde uma série de atropelas acontecem e os personagens acabam levados à presença do grande vilão do filme personificado por Paul Bettany (o Visão de “Guerra Infinita”), e inesperadamente à um reencontro entre Han e Qi’ra.
Ao longo desse percurso e a partir dele, o roteiro escrito por Lawrence Kasdan molda o que é quase uma trama de origem enquanto vai preenchendo lacunas a respeito de inúmeros elementos que integram as peculiaridades do personagem Han Solo; sendo o mais ostensivo deles, a aparição do ótimo Donald Glover no papel bem administrado de Lando Calrissian (marcante o suficiente para não passar despercebido, equilibrado o bastante para não se destacar mais que os protagonistas) e a introdução da icônica nave Millenium Falcon e as razões devidamente esboçadas para fazer com que Han Solo passasse a pilotá-la.
Comparar “Han Solo” com o derivado anterior da saga –o assombroso e brilhante “Rogue One” –é injusto por inúmeras razões (e sob qualquer prisma isso acaba desfavorável à “Han Solo”), mas ainda assim é um filme que entrega diversão, escapismo e efeitos visuais magníficos do início ao fim; a proposta, afinal, que sempre tornou todos os filmes “Star Wars” tão sedutores ao público.
E uma de suas últimas cenas reserva ainda a aparição de um dos mais festejados (e sub-aproveitados) vilões que a franquia já teve –se essa cena representa somente um ‘fan-service’ vazio ou terá futuramente repercussões é difícil dizer.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Segredos de Sangue

Eu já havia mencionado antes a grande influência de Shakespeare na obra do sul-coreano Chan Wook Park, a “Trilogia da Vingança”.
Em sua estréia no cinema norte-americano, essa influência se estreita ainda mais: “Segredos de Sangue” faz toda uma referência à “Hamlet” em seu ponto de partida.
Como o famoso protagonista de Shakespeare, a jovem India Stoker (Mia Wasikowska, tornando apática a personagem) perde o pai na mesma ocasião em que ‘ganha’ um tio –Charlie (Matthew Goode, sem o carisma necessário), irmão mais novo de seu pai, de quem ela nunca tinha ouvido falar, aparece no funeral sem mais nem menos.
Flertando com sua mãe (Nicole Kidman, num papel mais ostensivo do que relevante) e cheio de justificativas pouco convincentes para as inúmeras perguntas que sua simples presença desperta, ele inspira em India desconfiança absoluta.
“Há algo de podre no reino da Dinamarca!” é a impressão que nos passa a atmosfera de tensão e suspeita levantada por Wook Park, com o auxílio de seu hábil diretor de fotografia, Chung Hoon Chung.
Eles concebem cenas milimetricamente pensadas e executadas que, embora saltem aos olhos pela excelência técnica, não alcançam o nível de genialidade das obras que Wook Park entregou na Coréia do Sul. E não ajuda o fato de que Mia Wasikowska, assim como em “A Colina Escarlate”, torna a interpretar uma protagonista fraca e desinteressante.
No que tange à sondagem sádica e minimalista da condição humana, Wook Park continua talentoso e hábil, e o roteiro escrito pelo ator Wentworth Miller (astro da série de TV “Prison Break”) corresponde com eficácia ao seu estilo convertendo esse conto shakesperiano em um afiado estudo da psicopatia.

Só ficou faltando uma atriz principal vibrante e um entendimento maior do diretor pelo ambiente estrangeiro no qual construiu sua história. Talvez por isso, em seu projeto seguinte, “A Criada”, Wook Park tenha compensado esses lapsos com larga folga fazendo assim uma obra-prima.

sábado, 17 de setembro de 2016

Ave, César!

O cinema da Velha Hollywood já estava presente há algum tempo nos trabalhos dos Irmãos Coen: Prova disso é o enigmático “Barton Fink-Delírios de Hollywood” e o divertidíssimo “E Aí, Meu Irmão Cadê Você?” (cujo título foi tirado do filme dentro do filme da trama do clássico “Contrastes Humanos”).
Nunca porém eles haviam emergido de forma tão abrangente nesse retrato como o fazem aqui, e sua especulação a respeito daquela Hollywood, hoje já folclórica, vem todo permeada por sua ironia típica, não raro cruel, e seu senso de observação intrínseco de uma genial simplicidade.
As várias e absurdas tramas que passeiam por todo o filme têm como elo de ligação o produtor Fred Mannix (Josh Brolin, colaborador freqüente dos Coen em trabalhos como o antológico “Onde Os Fracos Não Têm Vez” e o excelente “Bravura Indômita”, mas tão arraigado no papel que você nem lembrará disso). O trabalho dele, além de coordenar os aspectos da produção dos simultâneos filmes realizados pela Capital Pictures Studios, é também conter os egos –e as encrencas quase surreais –que surgem da relação nem sempre profissional entre os astros fúteis e mimados e os diretores e vários técnicos envolvidos nos filmes.
Há o astro de faroestes (Alden Ehrenreich, hilariante) que, após consolidar sua carreira nos papéis exclusivamente físicos de cowboy, migra para os filmes mais dramáticos, com resultados catastróficos, para desespero de seu afeminado diretor (Ralph Fiennes); a atriz especializada em filmes aquáticos (Scarlett Johansson, linda como sempre em papel claramente inspirado em Esther Williams), que precisa providenciar um rápido casamento arranjado a fim de atenuar o possível escândalo por uma gravidez inesperada; e –dentre todos o quê toma mais tempo da narrativa –o astro de um proeminente épico bíblico (George Clooney, interpretando o que deve ser uma caricatura de Richard Burton), que acaba seqüestrado por um grupo de lesados intelectuais comunistas, na verdade, todos roteiristas amargurados com o sistema hollywoodiano de então, que não lhes dava o devido valor.
Todas essas questões, tramas paralelas e personagens ganham uma estranha abordagem na qual os Coen enfatizam o humor nonsense na mesma proporção que o drama humano embutidos nas circunstâncias.
O resultado é de uma sofisticação que beira a inacessibilidade, um problema que, se pararmos para avaliar, sempre ronda as obras desiguais desses talentosos realizadores.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Um Lugar Qualquer

Ah, Sofia Coppola... dona de um estilo de filmar tão íntimo e delicado, tão atento aos pequenos detalhes que passam despercebidos em meio ao transcorrer corriqueiro da vida, e tão diferenciado do tom épico normalmente associado ao seu pai, Francis Ford.
Sofia busca capturar impressões. Suas cenas traduzem a percepção fugaz e etérea de momentos em transe, de instantes contemplativos que se transformam em alguma coisa mais indefinível. Essa indefinição é o que fascina Sofia, e ela vem, às vezes, do próprio tédio, da tristeza, do deslocamento. Disso tudo e de mais um pouco.
Unindo todas essas impressões, ela cria cenas que conduzem sua narrativa e contam sua história.
Havia uma busca paulatina por esse estilo em “As Virgens Suicidas”. Busca, essa, que foi amplamente feliz, consumada e bem-sucedida em “Encontros e Desencontros”.
Esse estilo se expressa até mesmo num trabalho menos autoral –feito muito mais à sombra do pai (e daquilo que o pai dela esperava) –em “Maria Antonieta”.
Quando chegamos, portanto, em seu quarto trabalho como diretora, “Um Lugar Qualquer” (Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 2010), percebemos Sofia completamente consciente da cineasta que é, e da voz que encontrou (e do quê deseja dizer com ela).
Não à toa é com “Encontros e Desencontros” que as similaridades deste filme se estreitam mais. Como naquela obra, temos um ator –neste caso mais jovem e ainda com sucesso –Johnny Marco (Stephen Dorf, longe de ser tão brilhante quanto Bill Murray), cuja alienada existência de badalação e futilidade lhe rouba toda a perspectiva de uma felicidade real, embora ele nem mesmo se dê conta disso.
Faíscas de um despertar desse vazio parecem surgir quando ele recebe a visita de sua filha pré-adolescente, Cleo (a encantadora Elle Fanning).
É não focar-se nela, e em seu pertinente drama de abandono e indiferença (com o qual, não duvido, Sofia deve ter forte identificação), o grande erro do filme: O foco é sempre Johnny Marco e sua imersão naquela vida de artista famoso com ampla margem para o tédio e o questionamento existencial.
Sofia fez, aqui, uma escolha: Sua intenção foi tentar repetir o sucesso de sua obra-prima, “Encontros...” ao invés de optar em ser fiel a si mesma, e nomear protagonista a única personagem que realmente lhe representava.
Do jeito que está, este filme singelo e algo alternativo funciona toda vez que Elle Fanning entra em cena. E como ela é uma coadjuvante, negligenciada por sua diretora tanto quanto por seus pais, isso não é o bastante.