Mostrando postagens com marcador Woody Harrelson. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Woody Harrelson. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de março de 2023

Triângulo da Tristeza


 O título do filme de Ruben Östlund se refere à pequena área do rosto humano, entre as sobrancelhas, na qual os mais perspicazes conseguem ler as nossas emoções; e que, por isso mesmo, algumas profissões por necessidade ou por precaução visam buscar controlar. Entretanto, o título pouco passa da ideia do que de fato é este filme desigual, objetivo, analítico e extremamente inspirado.

Realizador também do ótimo “Força Maior”, Östlund, como naquela outra obra, entende as circunstâncias de conflito do ser humano, onde a necessidade de sobrevivência se colide com a fragilidade das aparências. Aqui, sem muita pressa, ele divide seu filme em blocos bem definidos, onde introduz seus protagonistas (no primeiro deles), um jovem casal de modelos às voltas com pequenas turbulências da convivência. Ainda assim, Carl (Harris Dickinson) e Yaya (a bela Charlbi Dean, falecida precocemente em 2022) se esforçam para ficarem juntos, ante todos os pequenos contratempos –a relativa predisposição dela para manipular as situações a seu favor; o peso da questão financeira na qual a profissão que dividem paga muito melhor ela do que ele;  a pretensa frieza dela para com relacionamentos (o deles, incluso) em oposição aos esforços declarados dele para formarem um par; e as pequenas disputas, inerentes a qualquer relação, onde um quer estar mais certo que o outro. Entre pequenas discussões que nunca levam a nada, eles fazem uma aposta: Que Carl fará com que Yaya sinta amor de verdade por ele.

Assim, “Triângulo da Tristeza” segue para sua segunda parte, “O Iate”, na qual os dois jovens protagonistas acabam num luxuoso cruzeiro em alto-mar e perdem um pouco de sua posição central na narrativa para dividir tempo de tela e importância de trama com vários outros personagens. Há, por exemplo, Paula (Vicki Berlin) gerente dos funcionários que compõem a tripulação, deveras solícita para com os apelos dos passageiros, instigante e autoritária para com as instruções dadas aos subalternos; Dimitri (Zlatok Buric), um comerciante russo que, diante da condição de novo-rico, se vale das regalias do dinheiro para exercitar impunemente seu desmazelo e suas grosserias; Jorma (Henrik Dorsin), passageiro solitário e rico, cuja carência social nem todo dinheiro do mundo consegue preencher; e Therese (Iris Berben), outrora vítima de um AVC, o que a tornou impossibilitada de falar, exceto por uma única frase (“In den Wolken”). O capitão do navio vem a ser o beberrão e pouco responsável Thomas (uma ponta de luxo de Woody Harrelson), de um comportamento de tal forma relapso que, logo, contamina o restante da tripulação. O que, entre jantares catastróficos, um temporal inesperado e piratas mais inesperados ainda, leva à terceira parte do filme, “A Ilha”.

Vitimados por um gaiato naufrágio, Carl, Yaya, Dimitri, Jorma, Therese e Paula acabam indo parar, junto de vários detritos do navio, no que parece ser uma ilha abandonada. Ao lado deles, está também um funcionário da casa de máquinas da embarcação (Jean-Christoph Folly), e a faxineira Abigail (Dolly De Leon). Contudo, uma vez na ilha, as coisas mudam drasticamente: Hábil, obstinada e sem firulas, Abigail logo se destaca entre os sobreviventes –sabe caçar, obter comida e preparar o fogo –e essas capacidades a colocam numa posição que outrora não possuía. Ela refuta os esforços vazios de Paula em preservar a mesma hierarquia (leia-se, proletariado servindo a elite) que antes existia no iate, e assume a liderança do grupo a ponto de tirar dos braços de Yaya o antes apaixonado Carl. Ser uma modelo bela e fútil de nada adianta no jogo de sobrevivência de uma ilha deserta, a não ser quando sua beleza, no caso de Carl, serve aos interesses da pessoa no topo da cadeia alimentar.

Com essa afiada reflexão, levada à cabo por um roteiro extremamente inteligente, ácido na comédia refinada que se presta a construir e primoroso na parcimônia incomum com que constrói pacientemente e sem a menor pressa seu plot, o filme de Östlund se diferencia maravilhosamente das tantas produções sobre náufragos numa ilha deserta às quais faz companhia nesse sub-gênero, inclusive, mantendo-se esperto e imprevisto até o seu desfecho de uma manobra a um só tempo inusitada, surpreendente e coerente, deixando o expectador com algumas piadas das quais rir e algumas ideias com as quais pensar.

segunda-feira, 14 de março de 2022

EDTV


 Comparado com o brilhante “O Show de Truman” à época de seu lançamento no fim da década de 1990 –e, de fato, guardando algumas semelhanças em seu ponto de partida –“EDTV” acaba se afastando um pouco de seu elogiado similar pela opção, redundante e mercadológica, de abraçar o conceito de comédia romântica a partir de sua segunda metade, e nele se acomodar.

Contudo, é um trabalho bastante simpático e fácil de se aproveitar, despido de pretensões artísticas e cinematográficas mais pedantes que passaram a ser um dos elementos mais criticados nas obras que o diretor Ron Howard passou a entregar na década seguinte, quando já gozava da aclamação obtida por seu projeto posterior, “Uma Mente Brilhante”.

EDTV” é em teoria uma sátira a moda dos reallity shows que dominaram a televisão algum tempo depois. Todavia, qualquer pretensão de acidez se esvai no excesso de boas intenções da narrativa –no fundo, no fundo, o que “EDTV” quer ser mesmo é um romance.

Seu protagonista, Ed (Matthew McConaughey) é um jovem de vinte e poucos anos que topou uma idéia maluca: ser filmado 24 horas por dia em sua rotina, seu relacionamento com a família e seus encontros com os amigos.

Por algum tempo, os tubarões da rede televisiva –exemplificados no personagem deliciosamente cretino do também diretor Rob Reiner –não têm nada em mãos senão um programa onde se sucedem besteiras banais com o protagonista cortando as unhas dos pés e jogando conversa fora com seus amigos; sem falar das intervenções ególatras de seu irmão (Woody Harrelson, hilário).

No entanto, antes que o breve interesse do público se saturasse, Ed acaba por se apaixonar pela namorada (Jenna Elfman) do próprio irmão exatamente durante o programa, o que –para azar dele e sorte da emissora –eleva os índices de audiências e as complicações da vida do rapaz.

“EDTV” vai do retrato gracioso de um programa improvável ao seu viés mais corrosivo, passando pelo relevo sentimental de uma comédia romântica sem necessariamente encontrar ali a sutileza da reflexão.

Apesar do desperdício da oportunidade, não se pode condená-lo por isso: Que mal há num filme querer tão somente agradar seu público?

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Venom - Tempo de Carnificina


 Desde a cena pós-crédito de “Venom” já ficou claro em torno do que giraria a sua continuação: O vindouro embate entre o anti-herói Venom (originado dos quadrinhos da Marvel onde foi um antagonista do Homem-Aranha) e um inimigo ainda pior, o Carnificina (também ele oriundo dos quadrinhos). Vivido por Woody Harrelson, o Carnificina, ou melhor, Cletus Kassidy, é o típico retrato histriônico que o cinema costuma fazer de um psicopata –irrequieto, impulsivo, irradiando periculosidade.

É esse assassino –introduzido num prólogo onde descobrimos o laço que o une à jovem e igualmente perigosa Shriek (Naomi Harris, de “Moonlight” e “Piratas do Caribe-No Fim do Mundo”) possuidora de superpoderes –quem Eddie Brock (Tom Hardy) vem a visitar, seja na mencionada cena pós-crédito do filme anterior, seja no início deste filme. Eddie é jornalista, e seu ofício atrai o interesse de Cletus, então encarcerado e a caminho da pena de morte por injeção letal. O porque de Cletus ter essa, digamos, obsessão em nomear Eddie como seu confidente é um dos inúmeros lapsos sem muita justificativa que povoam o claudicante filme realizado por Andy Serkis.

Gênio da captura de performance –ele personificou Gollum, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres” e Cesar em “Planetas dos Macacos-A Origem” –Andy Serkis, é de se presumir, tinha também um intrínseco conhecimento do uso cênico da computação gráfica, o que deve tê-lo gabaritado para dirigir este trabalho –no qual, sobretudo sua dupla principal, depende dos efeitos visuais para se fazer convincente –em substituição à Ruben Fleischer, diretor do original.

Nesse quesito –dos efeitos computadorizados –ele até se sai bem (“Tempo de Carnificina” tem a fluidez, a beleza e a precisão minimamente necessárias aos grandes blockbusters, mas isso é tão lugar comum que mal consta como trunfo), entretanto, onde realmente importa (a condução narrativa) o filme encontra inúmeros obstáculos, que começam a se somar logo quando sua premissa (bem) básica inicia sua construção: Em uma das várias entrevistas que se seguem, Cletus consegue atacar Eddie, tirando um pouco de sangue dele.

O sangue de Eddie, como sabemos desde o primeiro filme, está  contaminado com o simbionte alienígena Venom e, a partir da gota ingerida por Cletus, dá origem à um novo simbionte, Carnificina que, para resumir a coisa toda, cresce, liberta Cletus da prisão e se transforma numa verdadeira máquina de matar.

Tudo que ele almeja, a partir daí, é reencontrar e libertar Shriek, presa numa instituição governamental –único lugar que comporta seu poder, um grito devastador.

Nesse ínterim, o –vamos dizer –‘relacionamento’ entre Eddie e Venom não vai bem: O alienígena, vaidoso por acreditar ser o responsável por Eddie ser quase uma espécie de superherói, reluta cada vez mais em aceitar as regras impostas por seu hospedeiro humano, como a de nunca devorar os cérebros humanos dos desafetos que encontra. Com esses atritos constantes, a compatibilidade de Eddie e Venom se vê comprometida justamente quando ambos estão a beira de enfrentar o Carnificina, cujo simbionte quer Venom (seu pai) morto; e cujo hospedeiro (Cletus) quer Eddie morto!

Essa –pasmem –é uma das poucas motivações que fazem algum sentido no filme.

Há, por exemplo, Eddie, insistentemente retratado como um fracassado, enquanto Venom, no roteiro terrivelmente simplista, surge como uma criatura exclusivamente norteada por seus instintos; um é irritante por sua repetição (pois, o primeiro filme já batia muito nessa tecla), o outro, por sua implausibilidade (ao mesmo tempo que se apresenta já inserido em hábitos da civilização, comporta-se como se houvessem outros que ele desconhece). Assim, sem um bom protagonista fica difícil para o expectador comprar seu antagonista: Embora Woody Harrelson seja sempre hábil no registro da uma vilania inconsequente, toda vez que seu personagem deixa essas áreas (em especial, ao investir na relação com Shriek) ele derrapa. O poder dela –seu grito destruidor –é exatamente o ponto fraco de ambos os simbiontes, do bem e do mal, e ainda que nas boas intenções dos realizadores, eles quisessem que essa fosse uma dinâmica intrigante e curiosa, na prática, isso não leva a lugar algum, culminando em contradições ocasionados no desfecho que desafiam a vontade do público em continuar acompanhando o filme.

Se há um mérito real em “Tempo de Carnificina”, ele está no fato de que é objetivo e enxuto com seus noventa e sete minutos de duração –isso, e a presença inebriante, segura e apaixonante da maravilhosa Michelle Williams, anos-luz melhor que todo o resto do filme: e mesmo assim sua participação é básica e mal aproveitada –no mais, a continuação do filme de 2018 (que apesar do entretenimento diverito que era já possuía preocupante inclinação para o genérico) se mostra desanimadora e pouco atrativa; é um sinal de alerta, afinal, quando sua intrigante cena pós-crédito (sim, este filme também tem uma!) chama muito mais a atenção do que todo o longa-metragem que veio antes dela.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Proposta Indecente


 O diretor inglês Adrian Lyne sempre foi adepto de uma certa sem-vergonhice pincelada em tons de requintado cinema, ao mesmo tempo, ele também era adepto de experimentos em torno da interação com o público –isso nas décadas de 1980 e 90 quando tal ideia era de um arrojo inédito. Seu “Atração Fatal”, por exemplo, dos primeiros filmes a abordar o adultério sem amenidades, deixou-se orientar por seções-testes com o público para definir o desfecho que teria maior aceitação. Prática que passou a ser adotada no cinema comercial. Algo um pouco parecido veio a ocorrer com “Proposta Indecente” lançado em 1993.

Grande responsável pelo símbolo sexual fulgurante no qual Demi Moore se tornou pelo restante daquela década (a atriz já havia feito imenso sucesso em “Ghost-Do Outro Lado da Vida” mas, nele o público não a tinha enxergado ainda por um viés de sensualidade), o filme se municiou de uma campanha de marketing onde a grande e escandalosa questão que permeia toda premissa era dirigida ao público, incitando-o a dar seu parecer e a conferir o que ocorria no filme em si.

E todos os envolvidos fizeram bem seu dever de casa: Pela beleza e sex-appeal então revelados de Demi Moore, pelo tratamento visualmente acachapante do diretor Adrian Lyne, pela divulgação promocional astuta e instigante e pelo filme bastante sedutor que resultou, “Proposta Indecente” foi muito debatido e comentado na época e, consequentemente, fez imenso sucesso.

O casal de pombinhos apaixonados Diana e David (Demi Moore e o ainda pouco conhecido Woody Harrelson) estão enfrentando uma fase economicamente complicada na relação –e Lyne gasta um tempo demasiado, além de inúmeros recursos estilísticos e melodramáticos para salientar simultaneamente o perrengue que vivenciam e o amor que os une.

A saída para eles parece ser juntar alguma grana e partir para Las Vegas tentar a sorte nos jogos de cassino. Entretanto, as coisas vão mudar quando cruzarem-se com um personagem que representa, digamos, o terceiro vértice desse triângulo amoroso: John Gage, um milionário interpretado por Robert Redford, ainda firme, forte e convicto em sua fase de galã maduro.

Ao vê-la imediatamente John cai de desejos por ela –e, na tentativa de levar o público (em especial o masculino) à compactuar com esta faceta do personagem, o diretor Lyne não economiza maneirismos em sua hábil fotografia para tornar Demi Moore assombrosamente linda e desejável (além das caras e bocas da parte dela própria) –o que leva John, gradualmente, a aproximar-se do casal, a esboçar suas libidinosas intenções para com a moça (despertando diferenciadas reações de indignação no casal, ainda que pouco convincentes) e a propor o acordo que ocupa o cerne da narrativa: Endinheirado e entediado, John enxerga em Diana mais do que uma bela mulher –claro, ele TAMBÉM enxerga isso! –ele enxerga em Diana uma chance de aventurar-se na imponderabilidade de uma relação com riscos e possibilidades que ele a algum tempo não usufrui mais. Sua proposta é a de que ela passe uma noite de amor com ele, com o consentimento de ambos (dela e do marido) e, com isso, ele lhes dará a soma de um milhão de dólares; o suficiente para pagar todas as dívidas que o casal tem.

É desse dilema, e da maneira como se dá sua resolução, que se abastece a narrativa.

Parte de um nicho comercial improvável surgido no cinema hollywoodiano em meados dos anos 1990 –os thrillers eróticos, depois do fenômeno acarretado por “Instinto Selvagem” –“Proposta Indecente” tinha seu pedigree na direção estilosa de Adrian Lyne e na revelação pertinente e válida de Demi Moore, porém, seu resultado final é oscilante em satisfação, sobretudo, em sua cambaleante capacidade de envolver o público, sobretudo, o feminino: O romance nunca engrena por razões que, vistas hoje, parecem um tanto quanto patentes; afinal, se Robert Redford, o milionário desavergonhado e cara-de-pau é charmoso e atrativo, o marido indeciso vivido por Woody Harrelson é desengonçado e feioso. Na narrativa melodiosa e romantizada –aclimatada pela densa e tristonha trilha sonora de John Barry –a escolha de Diana pelo segundo em detrimento do primeiro se dá pela justificativa do amor, mas infelizmente, para demérito da produção, esses rumos moralistas tomados pelo filme jamais se conciliam com a torcida do público.

domingo, 23 de agosto de 2020

Virada No Jogo

Julianne Morre venceu o Oscar 2015 de Melhor Atriz por “Para Sempre Alice”, contudo, muitos são os que afirmam que o ponto alto de sua carreira predominantemente cinematográfico foi, por ironia do destino, o filme televisivo “Virada No Jogo”, pelo qual ela conquistou diversos prêmios anos antes, incluindo o Emmy Awards 2011 de Melhor Atriz.
Se “Virada de Jogo” tivesse sido feito para cinema é quase certo que o Oscar seria dela.
O filme também marca a consagração do premiado roteirista Danny Strong (que depois escreveria “Jogos Vorazes-A Esperança”), desenvolvendo uma trama sólida, eficiente e instrutiva a partir de eventos reais de ramificações escorregadias com personagens que não raro resvalam em certa ambiguidade; e ainda configura mais um belo exemplo da faceta desconhecida do diretor Jay Roach, mais conhecido por comédias deliberadamente grosseiras (como “Entrando Numa Fria”) e menos por suas austeras e elogiadas incursões na história da política norte-americana –entre as quais se insere “Virada de Jogo”.
Em 2008, os partidos americanos Republicano e Democrata iniciaram mais uma disputa à presidência da nação tendo como candidatos o veterano John McCain (Ed Harris) de um lado, e Barack Obama, de outro. Logo, ficou claro a grande vantagem populista que o carisma de Obama lhe garantia perante seu adversário.
Tentando compensar o tradicionalismo republicano sugerido pela figura de McCain, o seu principal conselheiro político Steve Schmidt (Woody Harrelson, sempre ótimo) sugeriu uma escolha estratégica para o candidato à vice-presidência: Alguém que despertasse a identificação dos eleitores e eleitoras indecisos, aos quais McCain não tinha apelo.
Entre várias opções logo surge o nome de Sarah Palin (Julianne Moore), governadora do estado do Alasca.
Cristã, ex-prefeita de sua cidade-natal e exercendo o cargo de governadora à 18 meses, Sarah surge como uma escolha providencial: Tinha predicados republicanos o bastante para agradar os ainda reticentes membros conservadores do próprio partido e representava uma opção diferenciada de inclusão capaz de fazer frente à proposta que tornava Obama tão fascinante aos olhos do público.
A aprovação de McCain e de todo o seu comitê eleitoral chegou quando ficou comprovado também que Sarah Palin tinha tanto carisma junto ao público norte-americano quanto seu adversário.
Entretanto, na pressa em realizar um opção bombástica que arrebatasse a eleição, o conselho de McCain deixou passar indícios que, ao longo da campanha, se tornaram gritantes: Nada familiarizada com política externa, a governadora Palin mostrou-se de um despreparo desconcertante em entrevistas que só fizeram abastecer às críticas à campanha de McCain e as várias sátiras que ela própria sofreu no processo –a famosa imitação de Tina Fey é mostrada inúmeras vezes.
Contudo, a própria Sarah não desejava desistir: Por sua competividade natural, pelo desejo de não desapontar McCain e por uma crença legítima (e ingênua) na qual queria o melhor para os EUA, ela submeteu-se a todo o escrutínio da máquina política norte-americana, o que incluiu o circo midiático formado em torno dela e que logo a transformou na figura central da oscilante derrocada da campanha de McCain.
Ela até tentou –seu debate vice-presidencial vitorioso contra o Senador Biden, recriado com primor e euforia é grande exemplo disso –mas, a forte pressão logo cobrou seu preço: Sarah ficou a beira de um colapso nervoso passando à ignorar as orientações de seus auxiliares de campanha.
Quando uma crise era superada, outra surgia: Na reta final da campanha, ciente de que seu apelo junto ao público carregava a popularidade (e os votos) de McCain nas costas, Sarah deixou que um certo estrelismo a afetasse; passou a mudar deliberadamente as decisões do roteiro eleitoral e a contradizer várias alegações feitas no começo à luz de alguma humildade.
O filme de Jay Roach revela detalhes peculiares e novelescos sobre esses bastidores, sempre mantendo um equilíbrio raro e impecável entre o gracejo, a crítica e a compaixão –Sarah Palin é recriada em minimalismos pontuais pela atuação brilhante de Julianne Moore sem cair na armadilha da caricatura e sem ceder à tentação do enaltecimento.
Pode parecer simples numa primeira impressão, mas o que é obtido em “Virada de Jogo” está longe de ser algo fácil ou comum: Um olhar sem retoques das imbricações éticas e circunstanciais da corrida eleitoral, onde seus retratados adquirem humanidade e dignidade, sem no entanto perder o viés de desleixo e falha que os levou à derrota.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

True Detective - 1ª Temporada

A primeira temporada da série “True Detective é, ao mesmo tempo, uma obra-prima da parte do escritor Nic Pizzolatto (roteirista de “Sete Homens e Um Destino”) ao conceber um dos mais magníficos retratos de caçada à um psicopata já engendrados, uma aula de direção de Cary Joji Fukunaga e parte essencial do processo de reviravolta na carreira do astro Matthew McConaughey que com esta série e uma sucessão de grandes filmes –“O Poder e A Lei”, “Magic Mike”, “Killer Joe”, “Amor Bandido” entre outros –provou-se o ator competente e destemido que é, característica recém-descobertas que o levaram ao Oscar de Melhor Ator por “Clube de Compras Dallas”.
A série “True Detective”, em si, foi idealizada por Nic Pizzolatto como uma antologia –ou seja, cada temporada dedicava-se a uma única trama com começo, meio e fim, sem ligação com as outras, exceto por sua disposição temática. Isso permitiu agregar à série duas qualidades estratosféricas: A primeira, que seus personagens pudessem ser assim profundamente afetados pelo andamento natural da premissa, pelo transcorrer  plausível do tempo e para que esses efeitos fossem trabalhados diretamente na essência dramática do projeto. A segunda, um tanto consequência da primeira, é que “True Detective”, nas características que reúne, trata-se de cinema do início ao fim; seja na presença de astros muito além do calibre televisivo como McConaughey e Woody Harrelson, seja na direção circunspecta e poderosa de Fukunaga que, com personalidade própria desvencilha-se da comparação com os grandes clássicos desse sub-gênero, “O Silêncio dos Inocentes” e “Seven-Os Sete Pecados Capitais”, ou seja no tratamento conferido à história que, além de detalhes pertinentes relativos à trama e ao desenvolvimento sensacional de personagens, fornece à premissa um viés épico ambientando os acontecimentos em três núcleos distintos de tempos, separados por anos, quase décadas (!).
Assim, elucidando essa imensa carpintaria dramática construída com zelo incomum por Pizzolatto, começamos a história em 2012, quando os já aposentados detetives de polícia Rust Cohle (McConaughey, espetacular) e Marty Hart (Woody Harrelson), retornam a uma delegacia de polícia para prestar depoimentos sobre um caso que ambos, outrora parceiros, resolveram em 1995.
Marty, pai de família, mulherengo, e relativamente esforçado em não deixar que os desdobramentos macabros de seu ofício deixem de torná-lo uma pessoa normal, recebe um parceiro de atitudes estranhas: Colhido pelo pessimismo convulsivo em decorrência da morte da filha e do fim do casamento, Rust é anti-social, pragmático, metódico e, na falta de traquejo em suas relações humanas e profissionais, intolerável.
Mas, é também o homem certo para esmiuçar o caso de uma prostituta assassinada no que parece um ritual satânico, que abala a comunidade rural da Louisiana.
A medida em que a trama vai sendo descortinada em meio ao interrogatório no presente, descobrimos que Rust e Marty acharam indícios de que outras mortes foram perpetradas –eles estavam, pois, no rastro de um serial-killer –e que, de alguma maneira, aquele caso afetou a vida pessoal e a amizade dos dois.
No brilhante quarto episódio, o diretor Fukunaga entrega uma sequência inacreditável constituída de um único take de câmera que percorre casas (interiores, inclusive), ruas e quintais de uma vizinhança, antecipando o virtuosismo assombroso de “1917”, e, logo em seguida, no quinto episódio, há uma espécie de guinada: Os investigadores chegam ao que parece ser um culpado, no entanto, as circunstâncias a cercar essa tentativa de prisão os obriga a encenar um tiroteio que os torna famosos.
Logo, a trama salta de 1995 para 2002, quando já condecorados pelo feito e vivenciando distintas situações domésticas, os detetives são confrontados com a possibilidade do verdadeiro psicopata ainda estar em liberdade, e continuar matando. Sem saber lidar com isso, Rust e Marty entram numa espiral decadente que compromete a vida pessoal e profissional de ambos pelos próximos dez anos, até o destino conduzi-los a um reencontro.
Essa consideração passa a interferir nos momentos mostrados em 2012 –que deixam, cada vez mais, de ser mero artifício narrativo para se tornar parte essencial da trama quando o derradeiro episódio final de aproxima: Afinal, tudo leva os investigadores atuais a suspeitarem de Rust; seu desempenho certeiro no caso, seus comportamentos pouco usuais e propensos à auto-destruição e, sobretudo, o fato de que, mesmo já afastado da polícia, ele continuou rondando as cenas dos crimes que se sucederam.
No entanto, Rust sabe que será ele, ao lado de Marty, que deve encarar e carregar o fardo de encontrar o verdadeiro responsável, nem que essa obsessão o leve junto consigo.
A obra de Pizzolatto e do diretor Fukunaga, pelo tempo e pela dedicação investidos nos personagens e nas minúcias de sua trama, alcança um primor de suspense e detalhamento narrativo assombroso no oitavo e último episódio, dono de um dos marcos de audiência do canal HBO, embora hoje, “True Detective” possa ser enxergada pela perspectiva daquilo que revela ser de fato: Um grande filme de oito horas de duração.
Tão brilhante foi sua execução e tão alto foi o padrão estabelecido que as temporadas que se seguiram à esta primeira (foram duas, até então, com promessa de uma quarta) sequer chegaram perto de equiparar sua excelência.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Expresso Transiberiano

Talvez a maior surpresa de “Expresso Transiberiano” seja o fato de que, embora ostente em seu elenco os consagrados Woody Harrelson e Ben Kingsley, sua protagonista de fato seja mesmo a não muito conhecida Emily Mortimer, atriz de ampla experiência (esteve em “A Sombra e A Escuridão”, “Harry Brown”, “O Idiota do Meu Irmão”, “Um Lugar Chamado NottingHill”, “Ilha do Medo” e “A Invenção de Hugo Cabret”), mas longe de conseguir reunir predicados que a façam uma estrela.
E, se esse é o dado mais surpreendente num suspense que tem por objetivo surpreender a todo o momento o expectador, já detectamos aí a primeira das muitas falhas no trabalho do diretor Brad Anderson.
Começamos com o personagem de Ben Kingsley, um investigador russo do departamento de narcóticos investigando a cena de uma queima de arquivo. Imediatamente, ele percebe que lá estão faltando as drogas e a soma em dinheiro que justificou as mortes, e então decide partir em uma viagem com objetivos suspeitos.
Corta então para o casal Roy e Jessie (Woody Harrelson e Emily Mortimer) em Pequim, na China, fazendo um trabalho voluntário que proporcionou-lhes ao mesmo tempo uma viagem a outros recôncavos do mundo e o sabor de aventura ao estagnado casamento.
Em regresso para os EUA, eles decidem tomar o tal ‘expresso transiberiano’ –Roy é particularmente fascinado por trens –cuja rota parte da China através da Mongolia e passa pela Sibéria até a Europa atravessando a Rússia. Eles dividem o vagão-leito com outro casal viajante, o espanhol e expansivo Carlos (Eduardo Noriega, de “Preso Na Escuridão” e “A Espinha do Diabo”) e a americana Abby (Kate Mara, de “Perdido Em Marte” e “127 Horas”).
Há um elemento suspeito no casal que não passa despercebido de Jessie a medida que os dois vão ganhando mais a proximidade (e a intimidade) dela e de Roy ao longo da viagem.
Numa parada de estação, Roy parece perder o trem, obrigando Jessie a esperá-lo na estação seguinte –naquele fim de mundo, o atraso dos trens envolve um dia inteiro –na companhia de Carlos e Abby.
Enredada pelas propostas aparentemente casuais de Carlos, Jessie o acompanha numa viagem de ônibus até um vila imersa na neve. Lá ele tenta consumar o flerte que vinha fazendo, mas Jessie o rejeita e, diante do assédio forçado dele, ela acaba o matando (!).
Mas, e quando ao personagem de Ben Kingsley do começo do filme? Para onde foi? Que relação tem com todo o resto? É preciso esperar, porque de fato leva um tempo desgraçado para essas duas partes do filme enfim se juntarem.
Toda abalada por ter inadvertidamente cometido um assassinato, Jessie reencontra Roy na estação e tomam o trem com ela disposta a esquecer de tudo e deixar Abby (que ficou na estação) para trás.
Eis, contudo, o pulo do gato: Roy fez amizade, nesse meio tempo, com o detetive Grinko (justamente o personagem de Kingsley!) que não tarda a notar os pontos nebulosos nos relatos estranhamente evasivos da esposa do norte-americano. Grinko diz a eles estar atrás de um casal de traficantes de drogas –certamente, Carlos e Abby –que teriam escondido seu carregamento de drogas em algum material para despistar a polícia –os bibelôs que ele trazia às dezenas em sua mala e que, numa oportunidade ladina, Carlos colocou na mala de Jessie antes de sua morte.
Este é, portanto, o paradeiro das drogas mencionadas na cena de crime do começo.
Com o carregamento de drogas em mãos, Jessie tem muito o que esconder e –além de perceber isso –Grinko tem interesse nelas e no dinheiro que Carlos supostamente trazia consigo, um interesse que vai bem além de seu mero dever policial; algo perceptível no conluio violento que ele estabelece com o perigoso Kolzak (Thomas Kretschmann) junto do qual pode deixar completamente a camaradagem de lado para extrair a verdade de Jessie e de Roy de formas bem mais contundentes.
É possível acompanhar os desdobramentos da trama sem ofender-se em demasia com as conveniências do roteiro graças à condução –cuja direção de fotografia, valorizando as belas paisagens da Sibéria, e o traquejo nervoso dos movimentos de câmera, responde pelo quesito mais bem aproveitado da produção –e ao trabalho competente de todo elenco em geral.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Zumbilândia - Atire Duas Vezes

O primeiro “Zumbilândia” até por seu grau de acerto em tantos níveis de sua proposta de diversão pedia, há tempos, por uma continuação.
O problema é que essa continuação demorou um bocado para sair, como atestam os longos dez anos que separam este e o primeiro filme.
Durante esse período tentou-se emplacar uma mal-fadada (e hoje pouco lembrada) série de TV oriunda do filme, de resultado pífio, os zumbis se tornaram uma presença constante e sob ameaça de defasagem na cultura pop graças ao seriado “The Walking Dead” e o seu elenco, sobretudo Emma Stone e Jesse Eisenberg (ela, vencedora do Oscar por “La La Land-Cantando Estações”; ele, indicado ao Oscar por “A Rede Social”), adquiriu renome e reconhecimento a ponto de ser um pouco estranho vê-los de volta aos seus alucinados personagens de início de carreira.
E é exatamente isso, estranhamento, que mais emana desta sequência: Em parte também pelo humor nem sempre funcional que contamina alguns momentos, tornando evidente uma já esperada incapacidade em recuperar a química precisa do filme original.
No mundo pós-apocalíptico conhecido por Zumbilândia, segundo a narração de Columbus (Jesse Eisenberg, envelhecendo rápido), reencontramos ele, sua namorada Wichita (a maravilhosa Emma Stone), a irmã dela, Little Rock (Abigail Breslin, longe da menininha vista no primeiro filme) e o impagável Tallahassee (Woody Harrelson, sempre fabuloso) ocupando a própria Casa Branca dos EUA, e por lá se estabelecendo como num lar.
Contudo, passado algum tempo, a rotina incomoda as mulheres: Little Rock sente-se sufocada pelo cuidado demasiado de Tallahassee, que ainda a vê como criança, enquanto que Wichita reluta em aceitar o pedido de casamento de Columbus.
Diante dessa inadequação, as duas partem para a estrada, deixando os dois em circunstâncias muito parecidas com as quais começaram o primeiro filme. Columbus, porém, não demora a achar algum consolo; e se envolve com a alienada patricinha Maddison (Zoey Deutch, de “O Artista do Desastre”, entregando uma atuação espantosa) cuja falta de noção soa ocasionalmente irreal no contexto de sobrevivência do filme.
Entretanto, a própria Wichita foi abandonada por Little Rock –que resolveu fugir junto de um hippie pacifista (!) –e agora, precisa do auxílio de Columbus e Tallahassee para seguir sua pista até Graceland (onde cruzam com os personagens de Rosario Dawson, Luke Wilson e Thomas Middleditch) e de lá para a comunidade denominada Babilônia –um lugar criado por uma nova e inacreditável geração de hippies que aboliram os uso de armas de fogo; mesmo que cercados de zumbis (!).
O grupo dos protagonistas chega lá a tempo de salvá-los de uma grande encrenca: Às três categorias conhecidas de zumbis, os Homers (os burros e lerdos), os Hawkings (dotados de inesperada inteligência) e os Ninjas (os silenciosos e ágeis que atacam furtivamente), soma-se uma nova, os T-800s (tal e qual o antagonista de “O Exterminador do Futuro”, mais fortes, mais resistentes e mais robustos, os quais dois tiros usuais na cabeça –como no título! –não são meramente capazes de pará-los!), e é justamente uma horda ensandecida deles que busca invadir a pacífica Babilônia.
Nota-se os esforços contínuos dos roteiristas Rhet Reese, Paul Winnick (ambos do primeiro filme) e Dave Callaham, além de seu elenco, para tornar este segundo filme tão divertido e engraçado quanto o primeiro. As soluções encontradas pelo roteiro podem até envolver e garantir alguma graça durante o tempo de duração do filme, mas ele nunca consegue igualar a inspiração flagrante do original –em parte, porque comédia é algo que se faz com espontaneidade, item escasso na maior parte do filme, substituído por uma histeria que o diretor Ruben Fleischer parece confundir com comicidade.
Não é de todo o ruim: Há alguns momentos realmente engraçados, a sintonia entre os protagonistas (salvo, talvez, o deslocamento de Abigail Breslin) continua afinada e carismática, e um ou outro acréscimo no elenco contribui com novas risadas, porém, há algo de muito errado no filme quando percebemos que sua melhor cena, anos-luz a frente de todas as outras, é a sequência surpresa nos créditos finais com a sensacional participação de Bill Murray.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Midway - Batalha Em Alto-Mar

As intenções na realização de “Midway” almejadas pelo diretor Roland Emmerich (de “Independence Day”) são tão ambiciosas, amplas e megalomaníacas que todo seu escopo se acomodaria facilmente numa minissérie.
Entretanto, ao optar pelo formato cinematográfico de longa-metragem, ele arriscou-se a encapsular uma narrativa povoada de personagens e de acontecimentos históricos de natureza mais didática que o normal num roteiro hollywoodiano na improvável duração de duas horas e dezoito minutos.
Emmerich, porém, o faz atento às referências pertinentes para a categoria de cinema que adentra: Seu vasto e diversificado elenco traz rostos que parecem escolhidos a partir do mesmo critério usado por Christopher Nolan em “Dunkirk” –atores e atrizes de fisionomia clássica, aparentando realmente indivíduos que viveram na década de 1940. Já, o seu prólogo lembra, não à toa, o início de “Cartas Para Iwo Jima”, de Clint Eastwood, informando-nos que um dos protagonistas, o Oficial de Inteligência Edwin Layton (Patrick Wilson) viveu um período no Japão dos anos 1930; o profundo conhecimento da cultura japonesa e de sua mentalidade estrategista será importante à Layton na década seguinte, quando o Japão já estiver aliado aos nazistas na Segunda Guerra Mundial e, por meio do inesperado ataque à Base Aérea de Pearl Harbor (recriado com grandes semelhanças ao trabalho de Michael Bay no filme “Pearl Harbor”) fazer com que os EUA, até então auto-declarados neutros, ingressem no conflito.
Já fica claro aí, portanto, que em suas pretensões artísticas, “Midway” deseja ser mais abrangente, em termos históricos, do que qualquer superprodução que veio antes dele.
Após o ataque de Pearl Harbor –que ocupa um tempo considerável do primeiro terço se pensarmos que este não é o tema central –o filme trata de, numa sucessão de ganchos histórico-narrativos, introduzir uma série quase interminável de seus demais protagonistas: O piloto audacioso e indisciplinado Dick Best (Ed Skrein, de “Deadpool”) e seu oficial, o tenente Wade McClusky (Luke Evans, de “A Garota No Trem” e “A Bela e A Fera”), ambos servindo a bordo do destróier USS Yorktown comandado primeiro pelo Almirante William Halsey (Dennis Quaid), depois pelo Almirante Raymond Spruance (Jake Weber, de “Madrugada dos Mortos”); e o coronel Chester Nimitz (Woody Harrelson) que ao lado de Layton e de um time de oficias de contra-inteligência tentarão prever a próxima manobra dos inimigos –que, eles têm quase certeza, será uma ofensiva no Mar de Coral e no Atol de Midway a fim de avançar com a frota marítima pelo Oceano Pacífico pegando de assalto o oeste dos EUA.
Aqui e ali, o filme também captura impressões de outros personagens coadjuvantes como a aflição da esposa do piloto Best, Anne (a belíssima Mandy Moore), ou os percalços do humilde auxiliar de mecânico de um dos porta-aviões, Bruno (o cantor Nick Jonas).
Além desses núcleos –que em si já se revelam numerosos e certamente um pesadelo para a montagem (a cargo de Adam Wolfe) –o filme também vai de encontro ao politicamente correto, não obstante seu incontido patriotismo, ao dar expressão e tempo de cena aos oponentes japoneses (um elenco que inclui Tadanobu Asano, de “Tabu”,Etsushi Toyokawa, de “A Espada do Desespero”, e Jun Kunimura, de “Audition” e “Kill Bill”), mostrados com humanidade, indecisão e temor diante da morte tanto quanto seus adversários norte-americanos.
Um filme, como se pode notar, de intenções bastante ambiciosas quanto ao alcance de sua narrativa.
Esse objetivo em parte perde-se devido ao perfil do diretor: Se Roland Emmerich, por um lado, tem plena confiança da abordagem técnica e reconstituição realista que seus departamentos de execução e desenvolvimento fazem das batalhas aéreas e em alto-mar (e, de fato, isso responde pelo apelo maior do filme), por outro, a amplitude de seus interesses esbarra no seu desleixo notório em dirigir adequadamente o grande elenco, na organização nem sempre harmoniosa e perfeita das diversas unidades narrativas e na pouca importância que ele deliberadamente dispõe ao drama humano tornando-o repetitivo, monocromático e redundante.
O gênero do cinema bélico possui um nicho de público que de fato procura estes exemplares mais interessado na pirotecnia do que no bom acabamento dramático, contudo, também existem nele títulos de primeira grandeza cinematográfica como “A Um Passo da Eternidade” e “Tora! Tora! Tora!”, visivelmente as grandes influências para este projeto, que consegue unir a urgência do conflito à ênfase maior no fator humano.
Algo que, aqui, não foi alcançado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Uma Gatinha Boa de Bola


Pode até se divertir o expectador que passar pela verdadeira muralha de conceitos pré-estabelecidos que constituem este filme –é um filme desportivo, ao mesmo tempo em que serve de veículo para o estrelato de Goldie Hawn (o projeto em si segue a mesma conjugação de obras como “A Recruta Benjamin” ou “Protocolo”) e ainda por cima sua premissa básica é a mesma de um sem fim de outros filmes, desde “Ao Mestre, Com Carinho” até o mediano “Mentes Perigosas”.
Molly McGrath (Goldie), embora feminina, tem uma característica peculiar: É aficionada por futebol americano.
Seu sonho é ser treinadora de um time e, na busca por ele, requisita uma chance para treinar uma subdivisão com o pouco esportivo treinador Darwell (Bruce McGill). Ele, entretanto, numa forma de escancarar a galhofa no fato de uma mulher querer ser treinadora a indica para o posto de treinadora oficial de um time que ninguém deseja treina: Os jogadores da Central de Detroit, um time despreparado e desacreditado do subúrbio, constituído de jovens com um pé plantado na vida marginal.
Como toca a cartilha de diversos filmes que vieram antes e depois desse, o processo de aceitação e superação de Molly em sua empreitada passa por vários estágios bastante óbvios: A dificuldade extrema em conquistar a confiança do desleixado e grosseiro grupo de rapazes (entre os quais se nota, ainda bem jovens, Wesley Snipes e Woody Harrelson); o complicado processo para inteirar os jovens jogadores nos meandros sérios do esporte; as escorregadias negociações para este ou aquele jogador enfim conciliar o talento que pode demonstrar dentro de campo com as atividades inusitadas fora dele; a colisão inevitável (e francamente previsível) entre a dedicação profissional e os problemas pessoais que surgem estrategicamente para dar conflito à narrativa; e o disputado embate final que poderá vir a coroar todos os esforços mostrados ao longo da trama.
Mas, como este é um filme dos anos 1980, há um verniz de diversão que não se vê em qualquer produção –até inesperadas cenas de nudez de Goldie Hawn, acredite se quiser, podem ser flagradas aqui!

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Han Solo - Uma História Star Wars


De um modo geral, “Han Solo” foi vítima de uma escolha ingrata em sua data de lançamento (logo após o fenômeno “Vingadores-Guerra Infinita” e com poucos dias de diferença do igualmente fenomenal “Deadpool 2”!) e de uma campanha de marketing bastante relapsa em relação aos bons trabalhos feitos com títulos anteriores da mesma saga; some-se a isso um excesso de expectativa (normal em qualquer obra oriunda dessa franquia) e eis que ele arcou com o ingrato título de Produção Mais Fraca Desde A Retomada de Star Wars Pela Disney.
De longe, o mais problemático de seus projetos, “Han Solo” passou por uma tumultuada troca de diretores (sai os escolhidos iniciais, Phil Lord e Chris Miller, da animação “Uma Aventura Lego”, e entra no lugar o veterano Ron Howard), uma sucessão de refilmagens e várias incertezas com relação ao seu astro, Alden Ehrenreich que herdou a complicada tarefa de substituir o quase insubstituível Harrison Ford no papel do contrabandista Han Solo ainda jovem, no início de uma jornada (finalmente contada neste filme) que terminaria o colocando ao lado de Luke Skywalker e Léia Organa contra as forças do Império Galáctico.
Desconsiderando todos esses aspectos e focando unicamente no filme do qual esse esforço resultou, é possível afirmar sem equívocos que “Han Solo” é uma obra completamente injustiçada.
Divertido, impulsionado por um ritmo que jamais se acomoda e satisfatórios na maioria de seus aspectos, ele acompanha com notável desembaraço a trajetória de seu protagonista Han (Ehrenreich, que não compromete o resultado e encabeça o filme com serenidade) inicialmente um jovem suburbano num planeta nos confins do universo que sonha partir para as estrelas ao lado da amada Qi’ra (a deliciosa Emilia Clarke). Um contratempo de última hora os separa e Han (que ganha a alcunha 'Solo' de um oficial de imigração) vai parar em outro planeta onde submete-se a um insano treinamento para oficial do Império Galáctico e acaba encontrando aquele que virá a ser seu grande amigo e aliado, Chewbacca (incorporado por Joonas Suotamo e não pelo veterano Peter Mayhew como nos filmes clássicos).
A partir desse encontro e de uma descoberta quase acidental de uma parceria certeira para escapar das enrascadas, Han Solo e Chewie unem-se ao duvidoso time de assaltantes espaciais de Beckett (Woody Harrelson) que embora lhes sirva de mentor, deixa bem claro não ser nada confiável.
As referências aos antigos faroestes vislumbradas por George Lucas nos filmes originais aparecem na cena de roubo de uma espécie de trem espacial, onde uma série de atropelas acontecem e os personagens acabam levados à presença do grande vilão do filme personificado por Paul Bettany (o Visão de “Guerra Infinita”), e inesperadamente à um reencontro entre Han e Qi’ra.
Ao longo desse percurso e a partir dele, o roteiro escrito por Lawrence Kasdan molda o que é quase uma trama de origem enquanto vai preenchendo lacunas a respeito de inúmeros elementos que integram as peculiaridades do personagem Han Solo; sendo o mais ostensivo deles, a aparição do ótimo Donald Glover no papel bem administrado de Lando Calrissian (marcante o suficiente para não passar despercebido, equilibrado o bastante para não se destacar mais que os protagonistas) e a introdução da icônica nave Millenium Falcon e as razões devidamente esboçadas para fazer com que Han Solo passasse a pilotá-la.
Comparar “Han Solo” com o derivado anterior da saga –o assombroso e brilhante “Rogue One” –é injusto por inúmeras razões (e sob qualquer prisma isso acaba desfavorável à “Han Solo”), mas ainda assim é um filme que entrega diversão, escapismo e efeitos visuais magníficos do início ao fim; a proposta, afinal, que sempre tornou todos os filmes “Star Wars” tão sedutores ao público.
E uma de suas últimas cenas reserva ainda a aparição de um dos mais festejados (e sub-aproveitados) vilões que a franquia já teve –se essa cena representa somente um ‘fan-service’ vazio ou terá futuramente repercussões é difícil dizer.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Três Anúncios Para Um Crime


O grande trabalho de Martin McDonagh promove a convergência de diversos gêneros harmonizados pela boa condução de um elenco primoroso: Passeia-se do drama genuíno e não raro pesado à comédia de intenções satíricas para com as autoridades e os discursos de empostação intransigente, chegando até o suspense e o gênero policial de investigação.
Dessa maneira, muitos foram os críticos que enxergaram nessa largueza de detalhes uma caricatura que contradizia as propostas sérias que a premissa inicialmente cultivava.
Quando um filme é bom demais, ele padece pelas prerrogativas exigentes de alguns expectadores para que ele seja, de fato, bom; esse problema se dá, com mais freqüência, com as obras indicadas ao Oscar, caso de “Três Anúncios Para Um Crime”, cujos prêmios de Melhor Ator Coadjuvante (para Sam Rockwell) e Melhor Atriz (para Frances McDormand), ele venceu.
Frances é Mildred Hayes, mãe de uma filha estuprada e morta na cidadezinha de Ebbing, no Missouri, cujo crime ainda não se solucionou: Depois de sete meses, o caso emperrou na incapacidade da polícia local.
Mildred, então, toma uma decisão radical: Resolve alugar três outdoors –localizados num trecho pouco movimentado da rodovia –e neles divulga três mensagens contundentes de apelo crítico à polícia.
A repercussão é fervorosa, em grande parte, porque o xerife, Will Willoughby (Woody Harrelson), além de ser uma figura querida na cidade, está padecendo de câncer no pâncreas. Ninguém se mostra favorável à Mildred; nem seu filho Robbie (Lucas Hedge, de “Manchester ÀBeira-Mar”) que trata o luto pela irmã silenciosamente; nem seu violento ex-marido, Charlie (John Hawkes); nem mesmo Welby, o jovem que lhe alugou os outdoors (interpretado por Caleb Landry Jones) e que, com isso, ganhou a antipatia de toda força policial; e muito menos do racista, impulsivo e irresponsável policial Dixon (Sam Rockwell), cujas atitudes encrenqueiras passam longe de espelhar o que se espera de um policial.
Se há, na trama que centraliza Mildred, algum potencial para o melodrama e para a comiseração, o roteiro primoroso de McDonagh e, em especial, a atuação estupenda, implacável e poderosa de Frances McDormand não permitem que aconteça: Essencial em uma galeria de ótimos e magníficos personagens, Mildred é a força que movimenta todos os núcleos, mesmo àqueles aos quais ela não parece incluída.
E o filme de McDonagh ainda esbanja perspicácia e inteligência ao brindar o expectador com sucessivas dinâmicas distintas e deliciosas de se acompanhar: A camaradagem cheia de graça, perplexidade e alguma tensão entre Dixon e Willoughby; a dor impronunciável que intoxica os momentos entre Mildred e Robbie; a violência ridícula que pontua os encontros entre Mildred e Charlie; a implicância potencialmente letal que surge quando Dixon se encontra com Welby e que, aos poucos, adquire inesperado afeto.
Nenhuma delas, contudo, supera, a relação de distância, antagonismo e incompreensão abissal que define os momentos que Mildred e Dixon dividem juntos, mas que, paulatinamente vão se modificando para uma das parcerias mais sensacionais do cinema recente, e que promove, no personagem de Sam Rockwell, uma sutil e brilhante metamorfose.
Diante de um filme tão bom, tão singularmente interessante e notável, parece irrelevante a discussão do quão realista ele se mostra em relação a ideologias de posturas políticas –o quê parte da crítica até andou fazendo –mas, mesmo assim, Martin McDonagh soube manter a sensatez com seu corajoso final, no qual se arrisca a contrariar as expectativas do público com um desfecho transitório onde ele se atreve a espelhar os anseios que cada expectador haverá de ter, em seus próprios termos.

terça-feira, 3 de abril de 2018

O Castelo de Vidro

A crítica teceu comparações entre este filme autobiográfico e o ótimo “Capitão Fantástico”, entretanto, são as diferenças entre os dois filmes que se mostram de fato gritantes, em especial, na empatia que aquele filme obtém com o expectador graças ao trabalho primordial de Viggo Mortensen.
Aqui, o pai e a mãe adeptos de uma existência alternativa vividos por Woody Harrelson e Naomi Watts são eficientes em conquistar a indignação e a injúria do expectador.
Quem termina salvando o filme é a maravilhosa Brie Larson como a filha deles depois de adulta –em cuja personagem, inclusive, repousam as características diferenciais do filme já que assim podemos observar os valores opostos dos filhos de pessoas que escolhem esse meio de vida.
Os próprios Rex e Rose Mary Walls (Harrelson e Naomi) não são exatamente pessoas alternativas; eles estão mais para sem noção mesmo: Ela é artista (e na justificativa desprezível de sua arte, negligencia os quatro filhos pequenos em casa); ele é daqueles filósofos de esquina que, alcoólatra, comete mais erros que aqueles que quer discriminar; se recusam a viver das obrigações e deveres da sociedade, mas usufruem de seu sistema como parasitas; moram de cidade em cidade, às vezes impondo condições subumanas às crianças para não ter de pagar contas a ninguém. Os filhos, Jeanette (Ella Anderson), Brian (Charlie Shotwell), Lori (Sadie Sink, da segunda temporada de “Stranger Things”) e Maureen (Shree Crooks) não tardam a notar isso, porém, enquanto são pequenos nada podem fazer senão viver conforme o estilo de vida caótico, itinerante e inconseqüente dos pais.
Paralelamente à essa sofrida infância, o filme mostra Jeanette já na fase adulta (interpretada muito bem  por Brie), vivendo em Nova York e com casamento marcado.
Rex e Rose Mary seguiram seus filhos –que foram todos morar e trabalhar na metrópole –e vivem como moradores de rua, desejosos de voltar a fazer parte da vida dos filhos.
Baseado no livro de memórias escrito por Jeanette Walls –cujo título, se refere à um projeto que seu pai sonhou em construir, um castelo inteiramente constituído de vidro –este filme dirigido por Destin Daniel Cretton (o mesmo de “Temporário 12” que revelou Brie Larson) tem uma narrativa preguiçosa e unilateral, acomodando-se em fazer dos personagens de Harrelson e Naomi os vilões da história, com as ressalvas do final e de uma ou outra cena antes dele; é difícil não se indignar com o comportamento irresponsável e avoado dos dois –e as coisas ficam piores quando a narrativa se concentra no pai: Normalmente talentoso, Harrelson entrega um personagem detestável, hipócrita, arrogante e apático o que prejudica completamente o desenlace redentor de seu desfecho.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sete Psicopatas e Um Shih Tzu

Diretor de “Três Anúncios Para Um Crime”, um dos grandes favoritos ao Oscar 2018, Martin McDonagh tem, como se pode constatar por este trabalho, um apreço pelo humor negro. E como todo autor a lidar com um estilo que aprecia, ele o exerce com habilidade insuspeita: “Sete Psicoapatas e Um Shih Tzu” une comédia e sordidez humana num viés de cinismo que dá sabor à narrativa algo multifacetada que ele oferece.
Seu protagonista numa brincadeira de metalinguagem que aos poucos vai ficando clara é Marty, um reflexo do próprio Martin McDonagh, diretor e roteirista (interpretado por Colin Farrel, chapa do diretor com quem antes fez “Na Mira do Chefe”). Envolvido com a bela e impaciente Kaya (Abbie Cornish), Marty é um roteirista hesitante –tem uma idéia para um roteiro que vai pouco além do título –“Seven Psychopaths”, o título original –e aos poucos vai elaborando os personagens: O 1º é uma mulher que, na cena indicativa e significativa que abre o filme, extermina a sangue frio dois assassinos de aluguel; o 2º é um quacre (Harry Dean Stanton), pai desolado de uma garota morta que persegue o assassino dela mesmo depois que este paga uma sentença de anos e se regenera após a prisão.
Aos poucos a realidade vai invadindo a premissa fictícia: O melhor amigo de Marty, o destrambelhado Billy (o ótimo Sam Rockwell que está no elenco de “Três Anúncios Para Um Crime”) trabalha num negócio ilícito e picareta com Hans (Christopher Walken); eles ‘sequestram’ cães de pessoas ricas e os devolvem depois que é anunciada uma recompensa, para assim dividirem o dinheiro; pois o 3º psicopata é justamente Charlie Costello (Woody Harrelson, também ele presente em “Três Anúncios...”), o gangster irascível dono do cachorrinho que a perplexa Sharice (uma breve ponta de Gaborey Sidibe, de “Preciosa”) perdeu –cachorro este levado pelos ‘seqüestradores’.
O 4º psicopata é um vietnamita que tem por obsessão vestir-se de padre e chacinar norte-americanos (!) e que terá apenas um sentido reflexivo no final.
O 5º psicopata, que se apresenta à Marty respondendo a um anúncio colocado num jornal por Billy, é Zach (o lendário Tom Waits) e sua namorada Maggie –seria ela então o 6º psicopata –que juntos resolveram viajar os EUA matando serial killers (deram cabo, inclusive do Zodíaco!), mas vieram a se separar.
O caldo da trama elaborada por McDonagh engrossa quando as pontas soltas começam surpreendentemente a se juntar: O rastro de vingança de Charlie em busca de seu cachorro seqüestrado (da raça shih tzu) leva a morte da esposa de Hans e, por conta disso, Billy –revelando-se o 7º psicopata –mata sua namorada Angela (a linda Olga Kurylenko) que, à propósito, era o 1º psicopata mencionado no início.
À medida que a narrativa se afunila em seus quarenta minutos finais (que se estendem desnecessariamente), a metaliguagem proposta pelo diretor se mostra ainda mais intensa e notável, bem como algumas surpresas que ele guarda na manga e a influência nítida de Tarantino e seu “Pulp Fiction” –algo inevitável em toda uma geração de cineastas americanos.
“Sete Psicopatas e Um Shih Tzu” é uma obra de um jovem autor habilidoso e antenado com as características contumazes do cinema urgente feito na atualidade, tem suas fragilidades, é bem verdade (e elas respondem, sobretudo, pela sua incapacidade em ser mais objetivo com seu enredo, resultando numa primeira metade sensacional e numa segunda enrolada), mas é revelador de um talento que, cedo ou tarde, entregaria algo realmente extraordinário.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Zumbilândia

Dos mais divertidos filmes de mortos-vivos que agregam humor em sua premissa –e esse sub-gênero possui exemplares assim aos borbotões –“Zumbilândia”, do diretor Ruben Fleischer, de 2009, se sobressai de forma notável por reunir, ao lado do veterano Woody Harrelson, um time de jovens atores que ainda daria muito o que falar –haviam ali Abigail Breslin, poucos anos depois de ter feito “Pequena Miss Sunshine”, a sensacional Emma Stone (vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “La La Land-Cantando Estações”) e Jesse Eisenberg (indicado ao Oscar de Melhor Ator por “A Rede Social”) –por ostentar uma irresistível natureza cult (até hoje, não superada por outras pretensas imitações que vieram depois), por mesclar as características inerentes de filme de mortos-vivos de forma admirável à um humor peculiar, descontraído e bastante acessível, e por ser, de fato, um filme muito bem realizado.
A intenção dos roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick (que depois escreveriam “Deadpool”) foi conceber algo até então inédito na TV: Uma série de zumbis –em 2009, eles não tinham ainda virado lugar-comum com a série de sucesso “The Walking Dead”. A idéia era que a trama se estendesse por vários capítulos: O episódio-piloto terminaria na cena em que Columbus (Eisenberg) e Tallahassee (Harrelson) são roubados pelas duas meninas pela primeira vez.
Com seu plano de série rejeitado, eles transformaram “Zumbilândia” num roteiro de cinema.
A trama se passa assim num EUA assolado pela existência de letais hordas de mortos-vivos, uma Zumbilândia.
Lá, seus personagens levam o nome do lugar de onde vieram ou para onde pretendem ir.
Columbus, outrora alienado nerd pouco afeito a deixar a comodidade de seu apartamento, consegue sobreviver por preservar uma série de estranhas regras, justamente os mesmos maneirismo que antes o tornavam anti-social. Após sobreviver por muito pouco ao ataque de sua deliciosa vizinha (Amber Heard) transformada em zumbi, ele pega a estrada e seu caminho cruza-se com o de Tallahassee, um alucinado texano viciado em Twinkies (um bolinho norte-americano) e especializado em matar zumbis das formas mais ecléticas possíveis. A eles, mais tarde irá se juntar uma dupla de irmãs, a sensual e desconfiada Wichitta (Emma Stone, sempre apaixonante), e a jovem e precoce Little Rock (Abigail Breslin). Esse inusitado grupo decide rumar em direção a Costa Oeste, em meio a esse mundo pós-apocalíptico.
A despeito de todas as regras e paradigmas do sub-gênero de mortos-vivos serem seguidos com zelo e atenção, o filme de Fleischer logo adquire características empáticas que o destacam da leva comum de filmes de zumbi –sua narrativa passa a dar mais atenção à graça genuína que pulsa do personagem de Harrelson (que recebe uma ajuda e tanto quando encontra seu ídolo, Bill Murray em pessoa, numa seqüência hilária durante uma parada em Hollywood), ao romance hesitante e bonitinho que surge entre os personagens de Eisenberg e de Emma, e ao senso envolvente de aventura, do que à atmosfera de terror propriamente dita, ou à seqüências mais gráficas e sangrentas.
“Zumbilândia” é, pois, uma distorção da categoria a que pertence –como o próprio gênero de zumbi foi uma distorção dos filmes tradicionais de terror –e, nesse ímpeto consegue fazer o expectador rir e vibrar com seus cativantes personagens.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos - A Guerra

A trilogia que conta a espetacular e épica saga de César –um personagem que em si resume o propósito e as razões da existência da sociedade dos macacos –chega ao fim neste filme, mais uma vez dirigido por Matt Reeves, que fez um bom trabalho em “Planeta dos Macacos-O Confronto”, embora não tão primoroso quando Rupert Wyatt em “Planeta dos Macacos-A Origem”.
Entretanto, parece que entre um filme e outro, Matt Reeves viu, reviu e avaliou cada um de seus deslizes e suas fraquezas a fim de saná-las para este final de trilogia: A sua evolução como cineasta neste trabalho é algo espantoso. Ele concebeu certamente o melhor filme dessa nova trilogia “Planeta dos Macacos”, plenamente digno de ser enxergado, nas décadas vindouras, como uma obra tão clássica quanto a original estrelada por Charlton Heston.
Contam exatamente quinze anos desde que os macacos, liderados por César se emanciparam do jugo dos homens, em “Planeta dos Macacos-A Origem” (ao mesmo tempo em que foi disseminado um vírus que quase varreu a raça humana), e cinco anos desde que as ações de Koba levaram à inevitabilidade de uma guerra entre humanos e símios, em “Planeta dos Macacos-O Confronto”.
Na qualidade de líder de seu povo, César deseja paz. Contudo, não é o que líder dos humanos –intitulado por eles como O Coronel –quer: Soldados fazem incursões constantes nas matas a fim de aniquilar os macacos, mesmo quando sofrem derrotas terríveis –e a primeira cena de batalha já deixa bem claro a nítida evolução intelectual e estratégica experimentada pelos símios, assim como a genialidade espantosa dos efeitos visuais que recriam os macacos em cena de maneira irretocável, e a técnica espetacular e renovadora com a qual o diretor Reeves consegue reger o filme.
Como num filme de guerra autêntico e genuíno, o diretor expõe as circunstâncias menos nítidas –macacos auxiliando os humanos e vice-versa, assim como desentendimentos de ideologia em ambas as facções –para emoldurar um filme poderoso amparado em grandiosas cenas. Embora tenha morrido no filme anterior, por exemplo, o personagem Koba continua sendo poderosamente ressonante na trama deste daqui; sua constante comparação com César e sua trágica trajetória, é um dos elementos de grande força dramática do roteiro, após um acontecimento, ainda na primeira parte, que talvez seja melhor não ser mencionado.
Único humano que ganha alguma importância na narrativa –pois aqui, os humanos são inexpressivos e irrelevantes –Woody Harrelson vive o Coronel que, em sua vilania plena, ganha ocasionais momentos de referência ao Coronel Kurtz de “Apocalypse Now”, assim como uma megalomaníaca analogia ao Deus Bíblico; tudo isso, na intenção de evidenciar a propensão perene que o ser humano tem para acarretar a destruição de si mesmo e dos demais à sua volta.
Os sucessivos blocos que compõem este grande filme oferecem ampla chance para que Reevez faça extraordinárias referências cinematográficas: As mais notáveis dizem respeito aos filmes sobre campos de concentração em geral, e “Fugindo do Inferno” em particular; mas há também espaço para “Doutor Jivago” (na cena em que César e seus companheiros encontram um casarão embranquecido com tanta neve onde acham outro macaco inteligente) e “Os Dez Mandamentos” (numa das últimas cenas, quando César e seus seguidores realizam o grande êxodo que a tempos planejavam). Mas a referência-mor para o filme é –e não poderia deixar de ser, o “Planeta dos Macacos” clássico –e ela surge numa sucessão de momentos (quando César e seus companheiros são vistos cavalgando na beira de uma praia, numa cena inconfundível do original), em pequenos detalhes (o filhote sobrevivente de César chama-se Cornelius) e em diálogos dos personagens (quando o próprio personagem de Harrelson admite que os humanos estão perdendo a capacidade de falar e, se ele próprio não fizer algo, este será um “planeta dos macacos”), até por fim envolver todo o filme (o desfecho, quando César consegue levar todos os seus até um lugar onde poderão viver, e que se parece demais com o mesmo cenário da comunidade de macacos vista no filme original).
A trilogia prólogo de “Planeta dos Macacos” chega ao fim com um filme digno, poderoso e emocionante, honrando plenamente o legado de seu clássico graças a dois talentos monumentais: O esplêndido ator-virtual Andy Serkis que faz de César um dos grandes personagens do cinema moderno (quando é que vão resolver dar um Oscar a ele?!) e, desta vez, o diretor Matt Reeves entregando aqui seu melhor filme, uma acachapante e magnífica alegoria sobre as inclinações que nos separam uns dos outros.