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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Indiana Jones e A Relíquia do Destino


 Há uma estranha tendência em voga a dominar o entretenimento. Nela, ícones considerados clássicos sofrem uma espécie de desconstrução em prol de certas agendas ideológicas e discursos politicamente corretos em atividade, sobretudo, nas redes sociais. Colhido num momento em que tal prática parece ter chegado ao seu ápice, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, o quinto filme da gloriosa franquia que remonta desde os anos 1980, seria uma retomada das aventuras do famoso arqueólogo; uma celebração da tenacidade quase absurda de seu intérprete, Harrison Ford (do alto de seus 81 anos) em permanecer num papel tão fisicamente exigente; e um resgate das aventuras à moda antiga que lotavam cinemas, numa época em que Hollywood e seus realizadores parecem ter perdido o jeito para fazer exatamente isso.

Entretanto, “A Relíquia do Destino” não é nenhuma dessas coisas: A troca de diretores (sai o veterano, mas ainda ativo, Steven Spielberg, realizador de todos os quatro longas anteriores; entra o jovem diretor James Mangold, de “Ford Vs Ferrari”), talvez na intenção de rejuvenescer aspectos narrativos da franquia, pouco ajudou no fato de que, ao afastar-se das características identificáveis que agregavam estilo à série –e que, ao longo dos anos, arregimentaram seus fãs –o novo filme se afasta não só dos elementos que sempre fizeram de Indiana Jones e seus filmes algo tão original, mas também afasta a possibilidade desta produção, com todo o vultuoso orçamento investido, ser um bom filme.

Em seu prólogo, “A Relíquia do Destino” até alimenta um pouco a esperança do público: Nos anos 1940 (época correspondente ao período de “Os Caçadores da Arca Perdida”), Indiana Jones (Harrison Ford, neste início, rejuvenescido por computador) escapa por um triz do jugo dos nazistas junto de seu amigo Basil Shaw (Toby Jones), numa intrépida cena de ação sobre um trem em movimento –neste trecho, está em cheque a posse do precioso Marcador de Tempo de Arquimedes, segundo o qual, seria possível torcer o fluxo temporal e modificar o passado.

Logo após esse prólogo, somos levados à 1969, na companhia de um Indiana Jones octogenário, amargurado, desiludido e aposentado. Na ânsia de afastar-se do mal-recebido “Indiana Jones e O Reino daCaveira de Cristal”, a produção descarta muitos dos elementos plantados por aquele filme, como o casamento com Marion Havenwood (Karen Allen), agora um iminente divórcio, e em especial, o filho de Indy, Mutt Williams (vivido naquele filme pelo irritante Shia LaBeouf), morto em combate, como não tardamos a descobrir.

A ação começa de fato quando entra no caminho de Indy uma misteriosa mulher que descobrimos ser sua afilhada, Helena (Phoebe Waller-Bridge, da série “Fleabag”), filha do já falecido Basil. Helena quer a ajuda de Indiana para encontrar as duas partes perdidas do Marcador de Arquimedes –uma das quais esteve nas mãos dele e de seu pai –contudo (e isso, os realizadores tratam como a maior das novidades), Helena não deseja o artefato para fins filantrópicos ou altruístas como colocá-lo em exposição num museu (motivação principal do grande protagonista da série e, até de muitos de seus antagonistas, também), Helena quer, na verdade, vender a relíquia num leilão clandestino e faturar dinheiro.

E está aí, na postura de relativo desdém para com o passado e seus significados, aquela que parece ser a opinião não só da coadjuvante que busca, o tempo todo, roubar o filme de seu idoso protagonista, como também a dos realizadores. Enquanto “Indiana Jones” possuía Spielberg na direção –mesmo que nos filmes nem tão superlativos da saga como o demasiado sombrio “O Templo da Perdição”, ou mesmo o insatisfatório “O Reino da Caveira de Cristal” –havia um diretor atento aos elementos icônicos do personagem, aos impulsos morais que faziam seus códigos de honra serem infalíveis, e à uma postura cinematográfica e artística que tornava tudo salutar, supino e translúcido (“Indiana Jones” é bom lembrar, sempre teve profunda influência de “007”); agora com o esforçado James Mangold na direção (o roteiro ficou a cargo dele, de Jezz Butterworth e de John-Henry Butterworth), muito disso se perde: Mangold dirige com plena consciência dos tópicos a serem preservados como símbolos distinguíveis da série (como a trilha de John Williams, as cenas de ação impregnadas de uma melindrosidade do cinema mudo de Buster Keaton e Harold Loyd, os enigmas a serem desvendados em cenários ancestrais, inacessíveis e inesperados), mas se esquece que seu herói precisa SER Indiana Jones, e não a desengonçada moça que, neste enredo, o acompanha. Enaltecida de forma bastante desmedida para ser uma mera coadjuvante, mas pouco memorável para ombrear o personagem principal, Helena é uma personagem que atende demandas dos tempos atuais: É empoderada (ou assim julgam os roteiristas que a fazem uma anti-heroína ambígua durante boa parte do filme), questionadora (já que ela justifica roubar a relíquia de todo mundo como uma prática que espelha o próprio capitalismo!) e nem um pouco sexualizada (na verdade, é quase masculinizada!), Helena é uma personagem concebida, pelo roteiro e pela atriz que a interpreta com tanta sanha em corresponder aos tópicos liberais da atualidade (que condenam muito da imagem das protagonistas femininas dos filmes do passado) que não tiveram tempo de fazer dela alguém com quem o público vá se importar.

Resultado: A coadjuvante, que em diversos momentos parece suplantar o verdadeiro herói ao longo do filme (até porque, a avançada idade de Harrison Ford o impede de atuar com verossimilhança como Indiana Jones em muitos momentos cruciais e essencialmente físicos da trama) é chata, sem empatia e sem motivação, não oferecendo absolutamente nenhuma característica positiva que a faça, por exemplo, mais digna da torcida do público que os próprios vilões de plantão, vividos, à propósito, por Mads Mikkelsen e Boyd Holbrook (de “Logan”).

Há um lamento que persiste e perpassa todo “A Relíquia do Destino”, uma sensação de que Indiana Jones já foi melhor aceito (e melhor realizado) em outros tempos.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

A Queda - As Últimas Horas de Hitler


 A reconstituição proposta pelo diretor Oliver Hirschbiegel vai além da caracterização impecável favorecida pela minimalista interpretação de Bruno Ganz (de "Asas do Desejo") como um Adolph Hitler paranóico, acuado e irascível, da trama real e histórica assim resgatada nos pormenores minuciosos de uma pesquisa nitidamente meticulosa, da mera intenção de retratar o Terceiro Reich em seus derradeiros suspiros. Hirschbiegel almeja mergulhar no clima de tensão quase insuportável que perdurou entre o Fuhrer e seus subordinados naquelas impraticáveis horas finais. Entre eles, Traudl Junge (a lindíssima Alexandra Maria Lara), secretária do Alto Escalão Nazista, que testemunhou de camarote a dissolução lenta, agonizante e implacável do poderio estratégico e da convicção alemã. Em seu bunker pessoal, fincado no coração subterrâneo de Berlin, Adolph Hitler, junto de um grupo de familiares, pessoas de confiança e de seus oficiais militares, assiste seu domínio ser reduzido a pó conforme avançam implacáveis as forças aliadas. Muito em breve, eles estarão batendo a sua porta, levando os nazistas a prepararem-se para um suicídio coletivo.

Não há esperança na narrativa de Hirschbiegel, não há manobras de liberdade poética como em “Bastardos Inglórios”, não há sequer protagonistas heróicos aos quais o público possa se agarrar. Hirschbiegel propõe uma visão circunspecta e aprofundada da mais irreversível derrocada do mal. E, no tratado visual e existencial que se incumbe, a construção desse mal assim retratado oferece ambiguidade na troca volátil de impressões que faz com o público. Muitos serão os expectadores que se pegarão surpresos com a caracterização bastante gentil feita de Adolph Hitler. Ele não soa, nem parece com um vilão de cinema. Nem é essa a intenção.

O mal, como reza a cartilha da filosofia mais arguta, dificilmente surge definido como um perigo de fácil identificação. Como os déspotas que vieram antes e depois dele, Hitler não surge como uma figura pronta para ser odiada, ao qual podemos relacionar toda a crueldade que deflagrou. Ele surge inescapavelmente humano, carismático, afável, ostentando as características que adestraram o subconsciente do povo alemão e levaram a enaltecê-lo.

Aqui e ali –mas, com cada vez mais frequência e aflição –surgem os momentos desesperadores, quando os oficiais vistosos, uniformizados e perplexos trazem informações que só corroboram o fim inapelável.

São seqüências memoráveis pontuadas pelas nuances aterradoras da atuação de Bruno Ganz: Há algo de fascinante na forma com que ele revela e libera todo um turbilhão de fúria, indignação e mágoa quando acusa de falha seus oficiais, quando lamenta em arroubos estridentes o destino inevitável que se abate sobre ele, quando se dá conta de como seu poder vai minguando.

Apesar dessa atmosfera sufocante, a direção de Hirschbiegel é de um auto-controle primoroso –e Hitler logo volta ao registro amigável de antes; ele está, afinal, em meio ao seu séquito e, com efeito, é dessa forma que ele é visto, uma vez que, ao abrir mão de personagens não inseridos nesse contexto, a hábil narrativa de Hirschbiegel realiza o esforço adulto de tentar compreender as dinâmicas muito humanas que prevaleceram naqueles cruciais momentos em família. O que inclui, já na reta final deste tenso, íntimo e esmagador registro de derrota desumana, as reconstituições assombrosas e lúgubres dos suicídios que se seguiram.

Todos esses eventos, mostrados do ponto de vista da jovem secretária Junge, recém incluída no círculo de confiança de Hitler, chegam, em certo ponto, a ganhar alguma cumplicidade do expectador, embora haja sempre uma dúvida que paira: Por que nenhum dos envolvidos inteirou-se das atrocidades cometidas na Europa? Por que não se deram conta disso? (É um questionamento que surge, inclusive de forma comovente, no depoimento final e real de Traudl Junge que encerra o filme).

Pesado em sua dramaticidade, memorável na reconstituição que executa e inesquecível no resultado que obtém, “A Queda” entrega ao expectador uma experiência um tanto quanto singular: Uma observação, sem distrações e sem desvios, do que teria sido a deterioração moral da suprema corte nazista, despisda de quaisquer maniqueísmos, na qual o julgamento ético e humano depende do discernimento de cada um.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Expresso Transiberiano

Talvez a maior surpresa de “Expresso Transiberiano” seja o fato de que, embora ostente em seu elenco os consagrados Woody Harrelson e Ben Kingsley, sua protagonista de fato seja mesmo a não muito conhecida Emily Mortimer, atriz de ampla experiência (esteve em “A Sombra e A Escuridão”, “Harry Brown”, “O Idiota do Meu Irmão”, “Um Lugar Chamado NottingHill”, “Ilha do Medo” e “A Invenção de Hugo Cabret”), mas longe de conseguir reunir predicados que a façam uma estrela.
E, se esse é o dado mais surpreendente num suspense que tem por objetivo surpreender a todo o momento o expectador, já detectamos aí a primeira das muitas falhas no trabalho do diretor Brad Anderson.
Começamos com o personagem de Ben Kingsley, um investigador russo do departamento de narcóticos investigando a cena de uma queima de arquivo. Imediatamente, ele percebe que lá estão faltando as drogas e a soma em dinheiro que justificou as mortes, e então decide partir em uma viagem com objetivos suspeitos.
Corta então para o casal Roy e Jessie (Woody Harrelson e Emily Mortimer) em Pequim, na China, fazendo um trabalho voluntário que proporcionou-lhes ao mesmo tempo uma viagem a outros recôncavos do mundo e o sabor de aventura ao estagnado casamento.
Em regresso para os EUA, eles decidem tomar o tal ‘expresso transiberiano’ –Roy é particularmente fascinado por trens –cuja rota parte da China através da Mongolia e passa pela Sibéria até a Europa atravessando a Rússia. Eles dividem o vagão-leito com outro casal viajante, o espanhol e expansivo Carlos (Eduardo Noriega, de “Preso Na Escuridão” e “A Espinha do Diabo”) e a americana Abby (Kate Mara, de “Perdido Em Marte” e “127 Horas”).
Há um elemento suspeito no casal que não passa despercebido de Jessie a medida que os dois vão ganhando mais a proximidade (e a intimidade) dela e de Roy ao longo da viagem.
Numa parada de estação, Roy parece perder o trem, obrigando Jessie a esperá-lo na estação seguinte –naquele fim de mundo, o atraso dos trens envolve um dia inteiro –na companhia de Carlos e Abby.
Enredada pelas propostas aparentemente casuais de Carlos, Jessie o acompanha numa viagem de ônibus até um vila imersa na neve. Lá ele tenta consumar o flerte que vinha fazendo, mas Jessie o rejeita e, diante do assédio forçado dele, ela acaba o matando (!).
Mas, e quando ao personagem de Ben Kingsley do começo do filme? Para onde foi? Que relação tem com todo o resto? É preciso esperar, porque de fato leva um tempo desgraçado para essas duas partes do filme enfim se juntarem.
Toda abalada por ter inadvertidamente cometido um assassinato, Jessie reencontra Roy na estação e tomam o trem com ela disposta a esquecer de tudo e deixar Abby (que ficou na estação) para trás.
Eis, contudo, o pulo do gato: Roy fez amizade, nesse meio tempo, com o detetive Grinko (justamente o personagem de Kingsley!) que não tarda a notar os pontos nebulosos nos relatos estranhamente evasivos da esposa do norte-americano. Grinko diz a eles estar atrás de um casal de traficantes de drogas –certamente, Carlos e Abby –que teriam escondido seu carregamento de drogas em algum material para despistar a polícia –os bibelôs que ele trazia às dezenas em sua mala e que, numa oportunidade ladina, Carlos colocou na mala de Jessie antes de sua morte.
Este é, portanto, o paradeiro das drogas mencionadas na cena de crime do começo.
Com o carregamento de drogas em mãos, Jessie tem muito o que esconder e –além de perceber isso –Grinko tem interesse nelas e no dinheiro que Carlos supostamente trazia consigo, um interesse que vai bem além de seu mero dever policial; algo perceptível no conluio violento que ele estabelece com o perigoso Kolzak (Thomas Kretschmann) junto do qual pode deixar completamente a camaradagem de lado para extrair a verdade de Jessie e de Roy de formas bem mais contundentes.
É possível acompanhar os desdobramentos da trama sem ofender-se em demasia com as conveniências do roteiro graças à condução –cuja direção de fotografia, valorizando as belas paisagens da Sibéria, e o traquejo nervoso dos movimentos de câmera, responde pelo quesito mais bem aproveitado da produção –e ao trabalho competente de todo elenco em geral.

terça-feira, 25 de junho de 2019

King Kong

Numa revisão, o apaixonado trabalho de Peter Jackson permite transparecer as apuradas técnicas narrativas de adaptação em relação ao assombro de seus efeitos visuais que predominam na forte impressão deixada nas primeiras vezes.
Após a ressaca de bilheterias e premiações sem precedentes da “Trilogia Senhor dos Anéis”, o projeto seguinte de Peter Jackson –ao qual a mídia e o público dedicaram interessada expectativa –representava um retorno à gênese pessoal de seu próprio apreço ao cinema: O “King Kong” original, de 1933, dirigido por Merian Cooper e Ernest Schoedsack, foi uma das obras que definiram a identidade cinéfila de um ainda muito jovem Peter Jackson.
Com efeito, sua refilmagem é frequentemente uma declaração de amor.
Já havia sido feita uma refilmagem, por John Guilhermin, em 1976, e ela tomava o mesmo princípio de atualidade do original, ambientando a trama naquele tempo presente.
Ao decidir recriar com exatidão passional o filme de Merian Cooper, Jackson paradoxalmente afastou-se dele: Se o filme original trata sua época (1933) como o período presente, o “King Kong” de Peter Jackson, ao ambientá-lo no mesmo 1933 agrega elementos distintos da contemporaneidade como a atmosfera nostálgica a emular as características da Grande Depressão, as inescapáveis referências cinematográficas e a recriação de época em termos cinematográficos que, por si só, já proporciona um filtro à realidade inerente ao cinema enquanto arte e exercício de imaginação.
Assim sendo (e com as três horas de narrativa das quais se beneficia), este “King Kong” é, antes de tudo, um filme sobre Ann Darrow, vivida com a adequada noção de desamparo por Naomi Watts –nas mãos dela, a protagonista é tanto uma artista em busca de seu lugar ao sol, como também uma sonhadora romântica que, em algum lugar lá no fundo, alimenta a esperança de achar, ou ser achada, por um príncipe encantado.
Mas, a realidade é dura: Atriz de vaudeville, Ann, como todos, já beira os níveis desesperadores da pobreza. É quase uma providência divina quando o cineasta Carl Denham (Jack Black, evitando magistralmente os personagens cômicos com os quais é associado) lhe chama para estrelar um filme numa aventura imprevista.
King Kong” é também sobre Carl Denham. Visionário e entusiasta do cinema –e malandro acima de tudo –Carl vislumbra em cada projeto seu o sucesso; indiferente ao fato de que realmente nunca o encontra. O próximo, no entanto, promete: De posse de um mapa ancestral, Carl reúne uma equipe, um elenco, uma tripulação e ainda o escritor Jack Driscol (Adrien Brody, pouco aproveitado) para juntos partirem num navio a caminho da lendária Ilha da Caveira, habitada, dizem as lendas, por criaturas pré-históricas. Lá, Carl alimenta planos de fazer uma das mais singulares filmagens já feitas –e toda a primeira hora do filme de Jackson é dedicada a esmiuçar essas motivações, as dinâmicas estabelecidas entre os distintos personagens (como a afeição romântica nascida entre Ann e Jack; as intermináveis manobras de Carl que levam todos no papo; ou a hilária prepotência vaidosa do astro da película, vivido por Kyle Chandler, em sua melhor atuação no cinema), a empatia por eles nutrida e, por consequência, a elevação exponencial do suspense quando por fim estiverem em perigo.
Quando “King Kong” já está quase na metade, sua improvavelmente longa duração começa a se justificar: Jackson constrói com ela uma atmosfera que poucos realizadores hoje têm tanta paciência para fazer.
A Ilha da Caveira, portanto, enche os olhos do expectador com seus perigos inimagináveis que seus efeitos visuais de última geração convertem em momentos assombrosos.
E Kong. Quando o protagonista de fato deste filme surge, ele se mostra assombroso, personificado por uma excelência tátil por meio da computação gráfica e, sobretudo, através da performance minuciosa e abrangente de Andy Serkis que traz para o icônico primata gigante a mesma maestria que ele ostentou em Gollum, de “O Senhor dos Anéis”.
O resto é história. Falou-se muito também sobre o fato de Peter Jackson exercitar seu vasto aparato cinematográfico sobre um filme do qual todo mundo sabia o desenlace final, mas ele não o faz presumindo que o expectador não o soubesse: Em cada circunstância que leva a trama a avançar (a captura de Ann pelos nativos; sua entrega ao deus Kong; os perigos experimentados por Jack e a tribulação para reencontrá-la; a captura de Kong; e, por fim, sua apresentação e desastrosa fuga em Nova York), Jackson enfatiza não as surpresas em potencial, mas o drama de se moldar uma tragédia irreversível.
Esse primor encontra seus acordes mais elevados na construção complexa e nada verbal da relação afetiva entre Ann e Kong –e que culmina, por sua vez, numa cena inexistente em todas as outras versões, e que pode ser nomeada como a mais bela e emocionante sequência desta produção: Quando ela e Kong, pouco antes da perseguição aérea que o levará para sempre, brincam de escorregar no gelo nas águas congeladas do rio Hudson.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O Motorista de Taxi


Na transição dos anos 1970 para os 80, a Coréia do Sul enfrentou tempos tão politicamente turbulentos quanto sua contraparte do Norte.
É um episódio desse período que este filme tenta ilustrar: A admirável história real de um repórter alemão que desembarcou em Seul para contratar os serviços de um taxista para levá-lo até a cidade de Gwangju, onde protestos estudantis estavam recebendo, das forças armadas, um tratamento absolutamente bárbaro e truculento.
O repórter era Jurgen Hinzpeter, chamado aqui meramente de Peter (vivido pelo sempre competente Thomas Kretschmann) e sua jornada –inclusive em regresso para casa, de onde pode relatar a barbárie que testemunhou ao mundo –só se concluiu com êxito graças ao desempenho do motorista de taxi, por quem passou a nutrir um respeito extraordinário, mas que nunca mais encontrou (nem sequer seu nome real ele sabia!).
É justamente por não haver maiores informações acerca desse importante personagem que o filme do diretor Jang Hoon se mune de todos os melindrosos e sedutores artifícios da ficção.
Interpretado por Song Kang-Ho, célebre ator da Coréia do Sul, o motorista de taxi em questão é um trabalhador assalariado, viúvo e pai de uma garotinha pequena. Sua rotina massacrante por vezes o obriga a administrar a necessidade e o bom coração: Na primeira cena, ele dá carona a um casal cuja mulher tem as contrações do parto e cujo homem está com o bolso vazio.
Decidido a ganhar uma boa grana, porém, sem maiores informações sobre a tarefa que assume, ele resolve fazer um corrida muito bem remunerada. Tudo que ele sabe é que deve levar um estrangeiro até a cidade de Gwangju.
Tal estrangeiro, sabemos, é Peter, e seu objetivo em Gwangju é documentar a convulsão política que resultou em choque das tropas com a população, sobretudo, a classe estudantil.
O taxista não sabe disso. E, na pouca disposição que os dois possuem para falar a língua um do outro, quase nenhuma informação é trocada.
Somente quando se aproximam de seu destino, os indícios nefastos começam a apontar algum perigo (barricadas ameaçadoras nas estradas; muita gente partindo, praticamente ninguém, além deles mesmos, indo; e soldados nada amigáveis patrulhando a área e fazendo perguntas em tom hostil); e o filme começa também a mudar sua verve divertida e afável, quase de uma comédia de costumes, para um registro implacável, áspero e realista que chega a lembrar o estilo de Oliver Stone no sensacional “Salvador-O Martírio de Um Povo” (até mesmo as cenas na auto-estrada e da população nas ruas são bem parecidas).
Durante todo essse curioso e sufocante percurso (que se estende para além das prováveis duas horas de duração), o diretor Jang Hoon visita outros aspectos, sempre dedicando a todos a devida atenção: A relação entre o taxista e o passageiro que, como era de se esperar, começa distante, apática e antagônica para se metamorfosear numa bonita amizade forjada a ferro e fogo nos perigos extremos a que é submetida; a própria tensão política que vai galando níveis mais altos e detalhistas, revelando assim uma estudada e hábil reconstituição dos fatos; o surgimento de novos personagens, vilões e aliados, que acrescentam mais e mais à narrativa; e uma observação apurada dos desdobramentos morais que tudo isso abarca.
O próprio diretor, em sua euforia, leva seu filme um pouco mais longe do que poderia ter ido: Sua duração excessiva, e o tempo dedicado ao drama e à tensão tornam seu trabalho um pouco exaustivo ao público –uns vinte minutos a menos fariam um grande bem ao resultado. Todavia, esta ainda é uma obra que figura com honra entre os notáveis exemplares do cinema sul-coreano.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Saga Resident Evil


Resident Evil-O Hóspede Maldito
Uma das mais controversas adaptações de videogame para cinema (na medida em que possui tantos admiradores quanto detratores), a Saga “Resident Evil”, a despeito de uma discussão perene acerca das reais aplicações de suas qualidades como cinema, permanece um corpo conceitual único pela forma quase independente com que sua mitologia abilolada adquiriu vida própria nas telas, afastando-se completamente da fidelidade aos conceitos do jogo original e singrando por um caminho tão imprevisível quanto improvável.
Ao dar início, num já longínquo 2002, ao enrolado novelo de lã que constitui o enredo da saga como um todo, este primeiro filme de “Resident Evil” se esgueira de uma condição constante nos videogames para assumir sua primeira decisão como narrativa: Ele possui uma protagonista.
Ela é Alice (personagem ausente nos jogos cuja nomenclatura remete ao conto de Lewis Caroll e ao leque variado de hostilidades além da imaginação que vão vir).
Ela acorda providencialmente desmemoriada num lugar que não sabe onde é, por razões que não sabe quais são; os realizadores usam assim do benefício da dúvida para fazer de Alice (interpretada com garra e perplexidade por Milla Jovovich) os olhos da platéia para o mundo mirabolante que eles irão descortinar.
Em comparação com a megalomania de suas continuações, este primeiro filme realizado por Paul W.S. Anderson até que parece contido e sucinto: Ele se esforça em emular certo pesadelo claustrofóbico presente no videogame ao confrontar Alice e os personagens que vão aparecendo com as monstruosidades de praxe que surgem, digitais e ostensivas, a cada virada de corredor.

Resident Evil 2-Apocalipse
No segundo filme –agora dirigido por um tal Alexander Witt –a protagonista Alice descobre que toda a ação transcorrida no subsolo do original na realidade acontecia embaixo de uma cidade normal, subsidiária de um grande complexo das indústrias Umbrella, empresa criadora do vírus que possibilitou a praga e (por razões nunca de fato plausíveis) criadora da própria Alice, também; um clone dotado de tamanha força e rapidez que faz ela parecer a Mulher-Maravilha (!).
Agora, os zumbis e toda a ameaça biológica concebida pela Umbrella poderão ganhar o mundo e Alice, ao lado da policial Jill Valentine (a bonita e inexpressiva Sienna Guillory, uma personagem oriunda do game) devem lutar para ao menos salvar a população.
Esta primeira continuação da aguardada adaptação para cinema do cultuado videogame estabelece de forma meio cambaleante o que seria, daqui para frente, a série cinematográfica "Resident Evil": Absurdos monumentais de roteiro, referências ocasionais às tramas do game (e não uma literal adaptação) e um clima predominante de filme B, tudo emoldurando a atuação overpower de Milla Jovovich.
Se os outros capítulos encontraram –sobretudo, num trabalho de direção consciente de sua cinematografia –meios de ir além da pirotecnia desvairada, este segundo filme se revela o mais fraco ao dispor de pouca habilidade na manipulação de seus elementos.

Resident Evil 3-A Extinção
Com a chegada do terceiro filme, a saga já sofreu uma das suas primeiras e mais evidentes reformulações (entre muitas que em maior e menor grau seriam aplicadas na trama): Já se vão alguns anos desde que os acontecimentos dos dois primeiros longa-metragens mudaram a paisagem do mundo.
Agora, a saga "Resident Evil" ambienta-se num cenário pós-apocalíptico muito parecido com "Mad Max", e toda a sorte de filmes sobre esse tema e com essas características que a produção pode citar.
Há inclusive aí uma cena onde o diretor Russel Mulcahy (de “Highlander-O Guerreiro Imortal”) –substituindo Paul WS Anderson que dirigiu o primeiro filme, produziu o segundo (dirigido por Alexander Witt) e voltaria a dirigir os próximos –tenta homenagear "Os Pássaros" de Hitchcook.
Não há dúvida que o diretor Mulcahy traz uma nova visão vigorosa à série, mostrando que seu material sobrevive a uma tentativa de reinvenção e, mais ainda, ganha com isso em sabor e melodia –há todo um novo contexto que revitaliza as peripécias de Alice (personagem que a essa altura, Milla Jovovich já tornou sua) e dá novo empuxo às seqüências de confronto, ação e perseguição que se seguem.
Na trama, Alice, enquanto singra os deserto desse novo mundo constituído de pó, ruína e desolação, acha-se com uma caravana de sobreviventes, incluindo aí alguns personagens referenciais do videogame como Claire Redfield (Ali Larter, da série “Heroes”). Entre tiroteios, lutas e perseguições concebidas com todo o apuro que o cinema de ação é capaz de moldar, Alice dá continuidade à sua constante fuga de seus criadores, os inescrupulosos cientistas das Indústrias Umbrella.

Resident Evil 4-Recomeço
Vingança. É o combustível que impulsiona a protagonista neste quarto exemplar da série de cinema que, de forma completamente à margem da trama desenvolvida no videogame, segue parecendo uma sucessão de filmes onde o exagero da forma, o barulho inaudível das seqüências de explosão, o excesso de frenesi nas cenas de ação, se sobrepõem a qualquer ênfase que por ventura a história pudesse ter.
Contudo, esses elementos são manipulados com uma consciência desigual e uma reflexão em torno do quê, de fato, é “Resident Evil” –certamente, aqueles que esperaram por uma versão fiel e direta do que se joga no videogame ficaram bastante perplexos.
Sua premissa, por sinal, é manancial abundante de tudo que mais mirabolante a cultura pop andou criando nos últimos tempos, envolvendo clones, mutação, zumbis, superpoderes, monstros mutantes, experiências, tecnologia, tudo embalado em meio a efeitos 3D alucinados que certamente seduzem ao desesperado paladar adolescente.
Foi a partir daqui que o diretor Paul W.S. Anderson (marido da estrela Milla Jovovich, à propósito) assumiu em definitivo a direção da série –que já reunia indisfarçavelmente todas as suas características como realizador –e fez dela uma obra sua.
O sub-título, “Recomeço” é plenamente significativo: A trama leva Alice por novos rumos que definiram inclusive os filmes vindouros, o quê envolve a perda de seus poderes (até então ela era quase uma espécie de Mulher Maravilha!), o refúgio –junto de inúmeros outros sobreviventes –dentro de uma prisão abandonada, e o início da concepção de um grande vilão; e, por conseguinte, um propósito à heroína.

Resident Evil 5-Retribuição
Uma observação a respeito da saga “Resident Evil” é o leque de opções variados que a natureza non-sense de sua realização permite: Conforme os filmes avançam, os roteiristas se sentem à vontade para pegar um ou outro gancho narrativo que resta construindo a partir dele um ponto de partida sobre algo que anteriormente poderia ser uma observação passageira de um dos filmes anteriores.
Trocando em miúdos: Fingir que se está trilhando um caminho todo elaborado e pré-definido quando na verdade se está tateando novas histórias (e a maneira de continuá-las) às cegas.
Essa é uma característica cada dia mais comum no universo das franquias cinematográficas (vide a franquia “Velozes e Furiosos”): Trata-se de uma dissolução deliberada que vai de encontro a um certo público para o qual quanto mais genérico parece, mais interessante, afinal, fica –um nicho de expectadores para quem a novidade pode desagradar justamente por seu elemento de inetidismo: O mais do mesmo lhe é confortável e agradável.
Para tanto, esta trama abusa das variações possíveis da clonagem nas dinâmicas entre personagens já conhecidos: Jill Valentine reaparece aqui (na verdade, um clone) como uma notável antagonista, assim como Rain Ocampo (Michelle Rodriguez, do próprio “Velozes e Furiosos”, por sinal), morta no primeiro filme.
Alice deve escapar de uma instalação de segurança máxima mantida pela Umbrella após descobrir que uma infinidade de clones (alguns dela mesma) estão sendo empregados num plano sinistro.
É neste 5º filme da saga que Paul W.S. Anderson aprimora o rumo esboçado já na primeira produção: Se o anterior “Recomeço” já era uma ponderação da relação “Resident Evil” filme e videogame, “Retribuição” é então a criação de um jogo próprio.
Ele aceita finalmente o parque de diversões descerebrado de incrementos high-tech que é. Na verdade, Anderson ostenta uma vulgaridade pop de que ele (e quem assiste) acredita no imenso poder sensorial das imagens.

Resident Evil 6-Capítulo Final
É nessas condições que todas as escolhas, excessos e premissas conduzem ao assim alardeado “Capítulo Final”, cuja história chega com a intenção de ser um arremate para todos os subtextos, todas as adaptações tentadas e não completamente consideradas das tramas nos games, as referências que em algum momento constituíram rumos tomados pelo roteiro, e os personagens que foram e voltaram como num palco ao sabor de improvisos ferozes.
É certo que a maior parte de seu público sequer considerou os dilemas artísticos e narrativos que pairavam sobre a série –e em alguns momentos, próprio o diretor Anderson parece se mostrar pouco afetado pela drasticidade das alterações –mas, é curioso notar que há, de fato, um enfoque novo que a informação acerca deste ser o capítulo final, dá a esta tentativa de expiação, de almejar um cinema maior, ainda que reafirmando orgulhosamente suas próprias imperfeições.
Aqui, o apocalypse zumbi já mostrou todos os perigos que poderia oferecer. Alice é uma sobrevivente. Nessa condição, ao lado de outros personagens, ela chega a Racoon City, reduto da Umbrella onde todos os seus recursos serão reunidos para um último ataque contra aqueles que restaram da humanidade.
Reza a lenda que o verdadeiro cinema é a ação em suas mais incontidas e exacerbadas transfigurações: Que a sempre vital dramaturgia, a essencial necessidade da atuação, o valor intrínseco do roteiro, e outras preciosidades apontadas em uma cinematografia dizem respeito às outras artes, o teatro, a literatura, a música. Dizem que o que resta ao cinema, e que lhe confere singularidade sobre todas as outras formas de arte, é a sua possibilidade de arrebatar o público com som e fúria.
Se for verdade, então, a “Saga Resident Evil” é cinema em toda sua plenitude, mesmo com suas incoerências, seus excessos e suas maluquices.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Operação Valquíria

Lançado no mesmo ano de “Bastardos Inglórios” –e, por uma série de motivos, menos exultante, empolgante e imprevisível que aquele filme –este “Operação Valquíria” viu-se meio que ofuscado pela obra de Quentin Tarantino, ainda que alguns críticos lhe tenham chamado a atenção para suas qualidades.
Reunindo uma vez mais o diretor Bryan Singer e o roteirista Christopher McQuarrie (que juntos realizaram o aclamado “Os Suspeitos”) –isso sem falar no astro Tom Cruise –o filme busca fazer uma reconstituição da famosa tentativa real de assassinar Adolf Hitler, aquela que mais próxima chegou de se concretizar; o mesmo episódio já havia sido adaptado em diversos outros filmes sendo o mais famoso até então o oitentista “O Plano Para Matar Hitler”, com Brad Davis, de “O Expresso da Meia-Noite”.
A Segunda Guerra Mundial segue tensa e conflituosa quando a narrativa do filme, já em seu princípio, trata de revelar que existiam sim dissidentes ocultos entre os oficiais de confiança de Adolf Hitler (David Bamber, numa recriação minimalista, mas sem muito brilho). Homens que acreditavam que o melhor para a Alemanha seria a morte do Füher e o encerramento daquela guerra. Um desses homens, vivido por Kenneth Brannagh, é um oficial nazista com especialidade em explosivos, mas cujas condições precárias das poucas bombas que consegue colocar próximas a Hitler sempre resultam em falha de seus planos.
As chances de sucesso, dele e de outros militares do alto escalão da Alemanha unidos na intenção de acabar com o ditador aumentam quando conseguem aliciar para suas fileiras a liderança do Coronel Claus Von Staunffenberg (Tom Cruise).
Oficial condecorado –e privado de um olho e da mão direita durante um bombardeio, anos antes –Von Staunffenberg trás um objetivo bem mais sólido e incisivo para o desamparado grupo de oposição silenciosa ao nazismo: Não somente planejar um atentado contra a vida de Adolf Hitler, e por um fim a guerra, mas também garantir que seja imediatamente instaurado o protocolo da ‘operação valquíria’, um documento ao qual pouca atenção era concedida, devido ao mito de superioridade (e de imortalidade) que rondava Hitler, mas que vinha a presumir um caminho caso o Füher viesse a morrer. O plano deles é instaurar um novo sistema de governo imediatamente após a morte do Füher, segundo instrui esses documentos oficiais, e trazer a paz propondo uma rendição aos aliados logo em seguida.
Os elementos e as circunstâncias que cercam a execução do plano são tão arriscados e mirabolantes quanto os pequenos detalhes que o fizeram dar errado; da mesma forma, a direção meticulosa de Bryan Singer, o roteiro competente e o bom elenco não conseguem contornar o fato de que o filme busca criar suspense em torno de uma trama que todos conhecem o desfecho.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O Pianista

“Eles vão nos espetar e não iremos sentir, vão nos fazer cócegas e não iremos rir, vão nos envenenar e não iremos morrer.”
O filme que deu finalmente o Oscar de Melhor Diretor ao genial, ainda que controverso e polêmico, Roman Polanski foi também uma maneira que ele encontrou de refletir sobre suas experiências pregressas (na infância o próprio Polanski foi um sobrevivente dos campos de concentração) o que dá à tragédia e ao drama registrados uma autenticidade e um vigor insuspeitos.
As experiências de vida de Polanski, é certo, sempre interferiram no caráter de suas obras –como se percebe, por exemplo, em sua profundamente sangrenta e fatalista versão de “Macbeth”, uma espécie de reação artística ao assassinato brutal de sua esposa, Sharon Tate –mas, ele nunca antes tinha abordado o holocausto, da maneira direta, incisiva e pessoal como o fez ao relatar a história de Wladislaw Spillmmann (Adrien Brody, agraciado com o Oscar cujo empenho no papel levou-o à uma desnutrição e à um definhamento físico similar somente à transformação sofrida por Tom Hanks em “Naúfrago”)
Aclamado pianista judeu, Spillmmann vivenciou a gradativa tomada das forças alemãs durante o cerco à Varsóvia, na Segunda Guerra Mundial, o quê levou sua família ao confinamento paupérrimo e angustiante do gueto e, mais tarde, à morte inclemente nas câmaras de gás onde os trens os levaram. Esse destino trágico –reservado à toda família dele –só não se abateu sobre Spillmmann devido a um gesto de última hora de um conhecido polonês dentre os funcionários dos nazistas.
Spillmmann escapou por um triz e o filme de Polanski, a partir daí, registra a maneira quase absurda com a qual ele sobreviveu por anos entre os guetos e escombros, escondido dos nazistas, por vezes em condições sub-humanas. O terço final captura certa ironia –acompanhada de uma demonstração de humanismo –da parte de Polanski: Refugiado no sótão de um prédio convertido em instalação provisória de oficiais nazistas, Spillmmann cai nas graças de um oficial alemão que se sensibiliza por sua condição de talentoso pianista relegado à subsistência humana (a cena em que o oficial, vivido por Thomas Kretschmann, observa Spillmmann tocar magnificamente todo um trecho musical é uma das mais emocionantes do filme) e o acoberta e alimenta por anos até a guerra acabar: A despeito de todas as atrocidades que viu e experimentou, Polanski ainda assim opta por fazer de um alemão um dos personagens mais genuínos e benevolentes de todo este longa-metragem poderoso, comovente e humano.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Jovem Rainha Vitória

O diretor Jean Marc-Valée sempre demonstrou na elevada qualidade de seus trabalhos, uma capacidade inata de ressaltar o imenso potencial de entendimento entre seus ótimos intérpretes e os personagens de suas tramas. Em “A Jovem Rainha Vitória”, essa regra se cumpre com gosto: No papel de Vitória, Emily Blunt flutua com carisma, desenvoltura e força pelos ambientes empostados deste filme de época. Com ela, cada reunião de cúpula, cada obrigação aristocrática parece uma aventura. Foi realmente uma injustiça não tê-la indicado ao Oscar (prêmio que o filme terminou conquistando só no departamento de Melhor Figurino).
Única herdeira ao trono inglês, Alexandrina Vitória Regina sofre, desde muito cedo (ainda menina), as tentativas de influência daqueles que a cercam, que vão desde sua mãe (Miranda Richardson) e seu manipulador conselheiro Conroy (Mark Strong), até o tentacular Lord Melbourne (Paul Betany, o Visão de “Vingadores-A Era de Ultron” e “Capitão América-GuerraCivil”).
Logo, Vitória encontrará na amizade com o Príncipe Albert (o ótimo Rupert Friend, obtendo com Emily uma química fenomenal), da Alemanha, um alento para tantas intrigas. Assim, a personalidade destemida e intrépida de Vitória descobrirá, ao longo dos anos e das situações, os caminhos tortuosos da monarquia, adquirindo a confiança com a qual ela dará seus primeiros passos como rainha.
Despido do peso habitual que acompanha os densos filmes de época que têm por hábito se debruçar sobre históricas intrigas palacianas, este roteiro notável de Julian Fellowes (roteirista de “Assassinato Em Gosford Park” e criador da série “Downton Abbey”) tem a salutar qualidade de propor um convite ao expectador: Conhecer ali, naquelas ardorosas atribulações pontuadas pelo crescimento de sua protagonista, (seja esse crescimento físico, seja ele existencial, graças à plenitude sutil na atuação de Emily Blunt), a obstinação de uma jovem perante responsabilidades que se mostraram, desde sempre, imensuráveis; vislumbrar a dinâmica escorregadia, traiçoeira e perigosa que costuma se estabelecer entre o jogo do poder, a vaidade da fama, a ambigüidade da política e o orgulho da realeza; e testemunhar, encantado, o amor entre Vitória e Albert encontrar passagens em cada uma dessas brechas noscivas, para então definir a força de todo um reinado.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Rainha Margot

França, século 16. Para manter a paz em função de uma eminente revolta religiosa, um casamento arranjado une a católica Margot (Isabelle Adjani, em toda a sua exuberância visual e interpretativa), irmã do rei Charles IX e filha de Catarina de Médici, e o nobre protestante Henri de Navarre (o sempre ótimo Daniel Auteuil). Ela se recusa, no entanto, a aceitá-lo como marido. Pouco depois, cinco mil protestantes são massacrados no Dia de São Bartolomeu. Margot protege um sobrevivente, La Môle (o galã Vincent Perez), ironicamente um protestante, e se apaixona por ele.
A jornada íntima de Margot na descoberta de quem é e quais as verdadeiras mazelas enfrentadas pela França caminha paralela à jornada do próprio Henri de Navarre, na tentativa de se impor em meio ao jogo quase mortal de intrigas palacianas.
O diretor Patrice Chereau exerce um trabalho significativo e carregado de propriedade neste épico francês de grande impacto visual e acentuada dramaticidade.
Embora sua visão sobre os jogos do poder e a ambigüidade moral da realeza ostente uma série de preciosismos singulares de ordem narrativa, este poderoso trabalho causou certo alvoroço em meados dos anos 1990 quando foi lançado, em grande parte por suas cenas de sexo, envolvendo inclusive a bela e deslumbrante Isabelle Adjani, grande estrela do cinema francês.

terça-feira, 26 de abril de 2016

King Kong - As três versões

Dentre os poucos casos de refilmagem que levam um sopro de novidade ao material original, um que sempre apreciei muito foi “King Kong”. Está certo que, além do longa seminal de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, lançado em 1933, há também o remake feito em 1976 por John Guilhermin com uma estonteante Jessica Lange e apinhado de duvidosos subterfúgios psicológicos que tinham a intenção de atualizar a obra, e transpor seu contexto para aquele mundo dos anos 1970 de então. Entretanto, até mesmo aquele trabalho (recheado de elementos cinematográficos e sociais daquele período, todos passíveis de um belo estudo) guarda momentos, senão memoráveis, pelos menos francamente interessantes.

Mas, na louvável refilmagem de Peter Jackson, de 2005, não é só isso que acontece. Em tudo e por tudo, Jackson quer compreender o longa de 1933, e preservar-lhe a época e a ambientação, conferindo distinção em seu trabalho: O “King Kong” de Merian Cooper se passava no mesmo ano em que a história transcorria, com suas imagens em preto e branco e seus efeitos especiais pioneiros e jurássicos (mas, à época realmente eficientes e impressionantes).
O “King Kong” de Peter Jackson se passava igualmente em 1933, o que o obriga a assumir-se também como filme de época. E as percepções que o filme de Jackson obtém a partir disso são o grande diferencial da produção.
A trama, contudo, manteve-se intacta: A aspirante a atriz Ann Darrow, um dos membros da expedição do cineasta Carl Denhan à pré-histórica Ilha da Caveira desperta os instintos do mais poderoso ser do lugar, o gorila gigante Kong, que a toma para si. Um grupo de resgate é então montado pelo apaixonado Jack Driscol para salvá-la. No encalço de todos, Kong ataca. Ao ser capturado, ele é levado à Nova York, onde será abatido por aviões no topo do Empire State numa cena que é um dos momentos verdadeiramente emblemáticos do cinema.
PS: Acho particularmente linda a homenagem à "King Kong" feita em uma cena de "Regras da Vida", de Lasse Halstrom.

sábado, 16 de janeiro de 2016

O Procurado

É a um cinema comercial de ação desenfreada a que “O Procurado” se presta. Mas é também um novo prisma sobre esse mesmo cinema que o diretor Timur Bekmanbetov almeja levar à tela. 
Há inúmeras camadas a serem refletidas e removidas em “O Procurado”, o que já o eleva como um filme muito mais significativo que aparenta ser. 
Temos o protagonista que desperta de uma vida de inércia para uma nova existência (“Matrix”), o questionamento existencial que impulsiona a inquietação, e a insatisfação de toda uma geração (“Clube da Luta”), o aprimoramento físico e intelectual a níveis sobrehumanos como forma de exteriorizar a transformação da própria personalidade (“O Ultimato Bourne”). 
Havia algo de claudicante nos filmes realizados por Timur Bekmanbetov na Rússia, “Guardiões do Dia” e “Guardiões da Noite”, mas parece que a identidade visual de Bekmanbetov caiu como uma luva em “O Procurado”. 
Adaptação de uma série de histórias em quadrinhos independentes escritas por Mark Millar, é um projeto que mostra em boa luz as qualidades de Bekmanbetov como diretor: sua criatividade e sua habilidade na composição de cenas (sobretudo, de ação) que primam pelo equilíbrio de situações inacreditáveis. Uma bela demonstração de espirituosidade, na mescla apurada de humor e inteligência com que conta a história do jovem alienado que descobre ser filho do maior assassino de todos os tempos. Essa abordagem inspirada, em muito se deve à esperta escolha do ótimo James MacAvoy como protagonista. Ator inglês, de filmes mais densos e cadenciados, sua presença desigual rima com a escalação de Keanu Reeves como Neo em “Matrix”, assim como seus recursos dramáticos são bem empregados ao mostrar a evolução de seu personagem. À apoiá-lo temos uma vibrante Angelina Jolie e a voz firme de Morgan Freeman.