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sábado, 18 de outubro de 2025

Na Cama Com Madonna


 No início dos anos 1990, Madonna era uma artista indomada e implacável: Em 1992, ela havia lançado simultaneamente o ousado livro de fotos “Sex”, o álbum “Erotica” e o longa-metragem “Corpo em Evidência”. Um ano antes, esse ciclo de ousadia destinado a chacoalhar as bases de pudor do showbizz já havia se iniciado com o documentário “Na Cama Com Madonna” –ou, no original, “Madonna-Truth Or Dare”.

Dirigido por Alek Keshishian (realizador com certa experiência em videoclipes), “Na Cama Com Madonna” foi lançado fora de competição no Festival de Cannes 1991, onde iniciou sua escandalosa e inovadora trajetória no circuito comercial. Sua estrutura narrativa intercala basicamente a parte documental, depoimentos e bastidores (filmada em preto & branco com câmeras de 16 mm) com o registro das apresentações musicais do show “Blonde Ambition” (filmado, por sua vez, em cores com diversas câmeras de 35 mm), contudo, em sua proposta, o filme revelou-se ousado: Nunca antes um documentário havia exposto a intimidade de uma artista famosa com tanta contundência e de forma tão deliberada, ao flagrar momentos de tensão, crises íntimas e outros conflitos.

Na esteira da turnê “Blonde Ambition” –transcorrida no segundo semestre do ano de 1990, pelo Japão, Europa, EUA, e Canadá –acompanhamos os percalços pessoais, profissionais e familiares da pop-star Madonna, bem como fortes indícios de sua irredutível personalidade: Produzido com perfeccionismo quase obcecado por sua estrela (todos os modelos usados por ela na turnê foram criados pelo estilista Jean-Paul Gaultier!), o show serve como veículo para mostrar um panorama bastante expositivo de sua vida pessoal; o namoro de então com o astro Warren Beatty (com quem ela trabalhou em “Dick Tracy”); a maneira fria e sardônica com que trata as pessoas do showbizz (exemplo disso é o rude desdém para com Kevin Costner); suas opiniões polêmicas sobre sexo, religião e comportamento; a estreita ligação com o mundo homossexual de seus bailarinos; o relacionamento conturbado com o pai e o irmão; a festa na casa de Pedro Almodóvar e a paquera frustrada com Antonio Banderas (com quem trabalharia anos mais tarde no filme “Evita”); a insegurança durante a apresentação em Detroit, com os amigos de infância; a controvérsia gerada pela famosa cena em que simula um orgasmo na cama ao som de “Like A Virgin”, e várias outras revelações.

Com um custo de aproximadamente 4 milhões de dólares, “Na Cama Com Madonna” foi um notável sucesso de bilheteria, sintomático do fascínio que uma estrela como Madonna era capaz de suscitar graças às suas polêmicas e ousadias –ele permaneceu sendo o documentário de maior rentabilidade na história do cinema até 2002, quando foi tirado desse posto por “Tiros em Columbine”, de Michael Moore.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Babygirl


 Não falta ao cinema exemplares eróticos em que um relacionamento de fortes tonalidades físicas é também uma espécie de jogo de poder. “9 ½ Semanas de Amor”. “O Último Tango Em Paris”. “O Império dos Sentidos”.

Em “Babygirl”, a cena que abre o filme da diretora e roteirista Halina Reijn flagra a estrela Nicole Kidman, aos 57 anos, em um cena de sexo num ângulo de câmera inusitado –trata-se de um início atrevido para um filme que se propõe a uma sondagem pouco usual de uma relação definida por submissão.

É curioso, portanto, que a personagem de Nicole, Romy, seja uma mulher influente e empoderada em seu meio profissional (é CEO de uma empresa de alta tecnologia), uma esposa e mãe dedicada (casada com o personagem de Antonio Banderas) e que isso tudo se mostre uma fachada para as predisposições que irão se revelar mais tarde –pois, ao conhecer Samuel (Harris Dickinson, de “Triângulo da Tristeza”), um estagiário de sua empresa, Romy inicia com ele um jogo que começa timidamente, quase ao acaso (ele a surpreende controlando um cachorro que quase a ataca na rua), mas depois vai galgando níveis mais íntimos, conforme vão se revelando as facetas submissas de Romy e as tendências dominadoras de Samuel (justamente o oposto dos papéis que desempenham no àmbito de trabalho), culminando em adultério.

Vencedora do Coppa Volpi 2024 de Melhor Atriz no Festival de Veneza e indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática em 2025 (tendo perdido, inclusive, para Fernanda Torres por “Ainda Estou Aqui”), Nicole Kidman compõe uma mulher cheia de nuances e contradições, ostentando o primor e a desinibição que costumam caracterizar seus melhores trabalhos. Junto dela, o jovem Harris Dickinson se sai magnificamente bem, criando um contraponto misterioso, carismático e envolvente para a multi-facetada protagonista, e enfatizando o brilhantismo dessa disputa velada, afetiva e existencial de poder –é particularmente sensacional a cena em que ele dança para a personagem de Nicole Kidman ao som da música “Father Figure”, de George Michael.

Os diálogos, no roteiro da própria diretora, absorvem a predisposição para a sondagem psicológica do cinema independente, neles a relação que testemunhamos se construir entre Romy e Samuel, nunca surge simplificada por expedientes de obviedade: Exemplo disso é a cena que transcorre dentro do carro –ambos querem rejeitar um ao outro como forma de estabelecer dominação, e ambos não conseguem fazê-lo, deixando no ar uma dúvida perene sobre o quê, afinal de contas, eles estavam então conversando. É um equilíbrio e um controle que, se não chega a ajudar o filme a atingir o status de obra-prima, torna a experiência um tanto quanto notável.

Ao tratar de temas pertinentes e atuais como crise matrimonial, frigidez, assédio sexual, sororidade, fetichismo, libertinagem e conflitos sociais sobre a ótica feminina de uma diretora mulher –prática que, felizmente, está se tornando cada vez mais comum na indústria –“Babygirl” expõe uma situação complexa e real com propriedade e uma sensibilidade inédita.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Indiana Jones e A Relíquia do Destino


 Há uma estranha tendência em voga a dominar o entretenimento. Nela, ícones considerados clássicos sofrem uma espécie de desconstrução em prol de certas agendas ideológicas e discursos politicamente corretos em atividade, sobretudo, nas redes sociais. Colhido num momento em que tal prática parece ter chegado ao seu ápice, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, o quinto filme da gloriosa franquia que remonta desde os anos 1980, seria uma retomada das aventuras do famoso arqueólogo; uma celebração da tenacidade quase absurda de seu intérprete, Harrison Ford (do alto de seus 81 anos) em permanecer num papel tão fisicamente exigente; e um resgate das aventuras à moda antiga que lotavam cinemas, numa época em que Hollywood e seus realizadores parecem ter perdido o jeito para fazer exatamente isso.

Entretanto, “A Relíquia do Destino” não é nenhuma dessas coisas: A troca de diretores (sai o veterano, mas ainda ativo, Steven Spielberg, realizador de todos os quatro longas anteriores; entra o jovem diretor James Mangold, de “Ford Vs Ferrari”), talvez na intenção de rejuvenescer aspectos narrativos da franquia, pouco ajudou no fato de que, ao afastar-se das características identificáveis que agregavam estilo à série –e que, ao longo dos anos, arregimentaram seus fãs –o novo filme se afasta não só dos elementos que sempre fizeram de Indiana Jones e seus filmes algo tão original, mas também afasta a possibilidade desta produção, com todo o vultuoso orçamento investido, ser um bom filme.

Em seu prólogo, “A Relíquia do Destino” até alimenta um pouco a esperança do público: Nos anos 1940 (época correspondente ao período de “Os Caçadores da Arca Perdida”), Indiana Jones (Harrison Ford, neste início, rejuvenescido por computador) escapa por um triz do jugo dos nazistas junto de seu amigo Basil Shaw (Toby Jones), numa intrépida cena de ação sobre um trem em movimento –neste trecho, está em cheque a posse do precioso Marcador de Tempo de Arquimedes, segundo o qual, seria possível torcer o fluxo temporal e modificar o passado.

Logo após esse prólogo, somos levados à 1969, na companhia de um Indiana Jones octogenário, amargurado, desiludido e aposentado. Na ânsia de afastar-se do mal-recebido “Indiana Jones e O Reino daCaveira de Cristal”, a produção descarta muitos dos elementos plantados por aquele filme, como o casamento com Marion Havenwood (Karen Allen), agora um iminente divórcio, e em especial, o filho de Indy, Mutt Williams (vivido naquele filme pelo irritante Shia LaBeouf), morto em combate, como não tardamos a descobrir.

A ação começa de fato quando entra no caminho de Indy uma misteriosa mulher que descobrimos ser sua afilhada, Helena (Phoebe Waller-Bridge, da série “Fleabag”), filha do já falecido Basil. Helena quer a ajuda de Indiana para encontrar as duas partes perdidas do Marcador de Arquimedes –uma das quais esteve nas mãos dele e de seu pai –contudo (e isso, os realizadores tratam como a maior das novidades), Helena não deseja o artefato para fins filantrópicos ou altruístas como colocá-lo em exposição num museu (motivação principal do grande protagonista da série e, até de muitos de seus antagonistas, também), Helena quer, na verdade, vender a relíquia num leilão clandestino e faturar dinheiro.

E está aí, na postura de relativo desdém para com o passado e seus significados, aquela que parece ser a opinião não só da coadjuvante que busca, o tempo todo, roubar o filme de seu idoso protagonista, como também a dos realizadores. Enquanto “Indiana Jones” possuía Spielberg na direção –mesmo que nos filmes nem tão superlativos da saga como o demasiado sombrio “O Templo da Perdição”, ou mesmo o insatisfatório “O Reino da Caveira de Cristal” –havia um diretor atento aos elementos icônicos do personagem, aos impulsos morais que faziam seus códigos de honra serem infalíveis, e à uma postura cinematográfica e artística que tornava tudo salutar, supino e translúcido (“Indiana Jones” é bom lembrar, sempre teve profunda influência de “007”); agora com o esforçado James Mangold na direção (o roteiro ficou a cargo dele, de Jezz Butterworth e de John-Henry Butterworth), muito disso se perde: Mangold dirige com plena consciência dos tópicos a serem preservados como símbolos distinguíveis da série (como a trilha de John Williams, as cenas de ação impregnadas de uma melindrosidade do cinema mudo de Buster Keaton e Harold Loyd, os enigmas a serem desvendados em cenários ancestrais, inacessíveis e inesperados), mas se esquece que seu herói precisa SER Indiana Jones, e não a desengonçada moça que, neste enredo, o acompanha. Enaltecida de forma bastante desmedida para ser uma mera coadjuvante, mas pouco memorável para ombrear o personagem principal, Helena é uma personagem que atende demandas dos tempos atuais: É empoderada (ou assim julgam os roteiristas que a fazem uma anti-heroína ambígua durante boa parte do filme), questionadora (já que ela justifica roubar a relíquia de todo mundo como uma prática que espelha o próprio capitalismo!) e nem um pouco sexualizada (na verdade, é quase masculinizada!), Helena é uma personagem concebida, pelo roteiro e pela atriz que a interpreta com tanta sanha em corresponder aos tópicos liberais da atualidade (que condenam muito da imagem das protagonistas femininas dos filmes do passado) que não tiveram tempo de fazer dela alguém com quem o público vá se importar.

Resultado: A coadjuvante, que em diversos momentos parece suplantar o verdadeiro herói ao longo do filme (até porque, a avançada idade de Harrison Ford o impede de atuar com verossimilhança como Indiana Jones em muitos momentos cruciais e essencialmente físicos da trama) é chata, sem empatia e sem motivação, não oferecendo absolutamente nenhuma característica positiva que a faça, por exemplo, mais digna da torcida do público que os próprios vilões de plantão, vividos, à propósito, por Mads Mikkelsen e Boyd Holbrook (de “Logan”).

Há um lamento que persiste e perpassa todo “A Relíquia do Destino”, uma sensação de que Indiana Jones já foi melhor aceito (e melhor realizado) em outros tempos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Quero Dizer Que Te Amo


 Vencedor do Oscar 1994 de Melhor Filme Estrangeiro, por “Sedução”, o diretor espanhol Fernando Trueba fez sua estréia norte-americana por meio de caminhos comercialmente viáveis –saiu-se já de cara com uma comédia –e trouxe a tiracolo um astro latino (Antonio Banderas) com o qual provavelmente teria mais compatibilidade durante a produção do que um ator americano.

“Quero Dizer Que Te Amo” deleita-se com a situação de farsa que predomina nesse subgênero específico das comédias, de “Quanto Mais Quente Melhor” até “Tootsie”; no entanto, o que se sucede em cena não é um protagonista se travestindo, mas sim se multiplicando em dois (!).

Art Dodge, personagem de Banderas, é dono de uma galeria de arte em Miami. Sua técnica é ir até velórios e explicar, com a cara mais lavada do mundo, que o falecido comprou-lhe um quadro na semana anterior, levando os familiares a pagar-lhe o valor da obra a partir do benefício da dúvida. Nota-se aí, a predisposição ao embuste de Art.

Todavia, ele mete-se em maus lençóis quando o falecido em questão, no golpe que decide aplicar, é pai de um gangster pouco avesso à amenidades, o colérico Gene (Danny Aiello). Para escapar da encrenca com a pele intacta, Art termina de carona no carro de Betty (Melanie Griffith), ex-esposa de Gene, com quem Art acaba tendo um affair passageiro. Ou, ao menos, ele julgava que seria passageiro: De um dia para o outro, a impulsiva e inconsequente (e à propósito rica...) Betty decide que vai se casar com Art, sem lá muito perguntar a opinião deste. Mas, Art conhece a irmã dela, Liz (Daryl Hannah), completamente diferente, mais centrada e mais ajuizada que a outra, e por ela se apaixona.

Como, porém, conseguir almejar algum romance real com a iminente cunhada proibida, se ela, ainda por cima, não o suporta e o enxerga como um aproveitador barato?

A saída é inventar um irmão gêmeo fictício, Bart (!), e embora o truque se resuma a Art soltar os cabelos presos por rabo-de-cavalo e colocar um par de óculos, a manobra dá surpreendentemente certo, chegando a quase convencer até mesmo seu pai (!) meio senil, Sheldon (vivido com graça e descontração pelo veterano Eli Wallach).

No papel de Bart, o protagonista consegue assim conquistar o coração da até então inacessível Liz, desempenhando o papel de artista engajado que corresponde a ela –na verdade, o próprio Art era um artista frustrado que adotou a malandragem diante de suas desventuras.

O grande problema de Art, no entanto, é a autenticidade de seus sentimentos: Ele se apaixona de fato por Liz, ainda que a data de seu casamento com a irmã avoada, Betty, vá rapidamente se aproximando –e o truculento Gene, ainda apaixonado por Betty e disposto a fazê-la feliz de qualquer maneira, não aceitará ver Art dando o fora nela sem fazer com que pague muito caro por isso!

Herdeiro a um só tempo das comédias italianas (e européias em geral), e das ágeis screwball norte-americanas (todas inspirações para esta obra, não há dúvidas), o filme de Trueba prioriza o humor ao romance, a despeito do cerne ser, o tempo todo, seu triângulo amoroso; para tanto, há espaço de sobra para que brilhem os atores coadjuvantes magistrais (como a secretária vivida pela sempre sensacional Joan Cusack, que esteve com Melanie em –veja só! –“Uma Secretária de Futuro”) e para que se note, em boa luz, o timing cômico impagável de Banderas, até então soterrado em projetos norte-americanos que buscaram vendê-lo como o estereótipo do amante latino no cinema.

Foi nesta produção charmosa e agradável –ainda que ocasionada por certa redundância corriqueira –que Banderas e Melanie se conheceram vindo a se casarem poucos meses depois. Com efeito, percebe-se nitidamente que a química dele com Melanie flui muito melhor do que com Daryl Hannah –o par romântico de fato –o que agrega ao filme um ligeiro desequilíbrio em sua condução e nas impressões passadas ao expectador.

Nada que comprometa esta diversão descompromissada, despretensiosa e rasteira.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Indicados Ao Oscar 2020

E está dada a largada ao que ainda é considerado o grande prêmio do cinema:

Melhor Filme
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez em... Hollywood
Ford vs Ferrari
História de Um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

“Coringa” lidera o número de indicações, com 11, seguido por “Era Uma Vez em... Hollywood” e “O Irlandês”, com 10 cada, contudo, há tempos que o número de indicações não quer dizer favoritismo na premiação –colocando as demais premiações em perspectiva, muito se aposta na obra de Quentin Tarantino que parece usufruir de fatores muito favoráveis junto ao prêmio.
E que felicidade é ver “Parasita” gozando de tantas honrarias!

Melhor Atriz
Scarlet Johansson – História de Um Casamento
Renée Zellweger – Judy-Muito Além do Arco-Íris
Charlize Theron – O Escândalo
Saoirse Ronan – Adoráveis Mulheres
Cynthia Erivo – Harriet

Melhor Ator
Joaquin Phoenix – Coringa
Adam Driver – História de Um Casamento
Antonio Banderas – Dor e Glória
Jonathan Pryce – Dois Papas
Leonardo DiCaprio – Era Uma Vez em... Hollywood

Os favoritos: Renée Zellweger e Joaquin Phoenix, sem discussão!
Quem pode ameçar a supremacia de cada um deles é, respectivamente, Charlize Theron e Adam Driver.
A inclusão de Antonio Banderas entre os melhores atores é certamente uma daquelas alegrias que vez ou outra o Oscar nos proporciona; pena elas não serem mais frequentes...

Melhor Atriz Coadjuvante
Laura Dern – História de Um Casamento
Margot Robbie – O Escândalo
Scarlett Johansson – Jojo Rabbit
Florence Pugh – Adoráveis Mulheres
Kathy Bates – Richard Jewell

Melhor Ator Coadjuvante
Brad Pitt – Era Uma Vez em... Hollywood
Anthony Hopkins – Dois Papas
Tom Hanks – Um Lindo Dia na Vizinhança
Al Pacino – O Irlandês
Joe Pesci – O Irlandês

Antes de falar sobre os possíveis ganhadores, deixem-me expressar minha felicidade pela dupla indicação de Scarlett Johansson, na categoria principal (por “História de Um Casamento”) e na de coadjuvante pelo belo trabalho de Taika Waikiki; demorou para que a Academia reconhecesse seu já comprovado talento, acima da linda mulher (e símbolo sexual) que ela é, mas quando o fez, foi com pompa e circunstância!
Como no Globo de Ouro, as presenças de Al Pacino e Joe Pesci (com destaque para o segundo) parecem ameaçar tremendamente o favoritismo de Brad Pitt que vem (merecidamente) se consolidando ao longo da temporada. Eu prefiro (inclusive em outras categorias!) infinitamente mais a homenagem esperta e camarada de Tarantino à Hollywood do que o estudo sobre o tempo, o envelhecimento e a resiliência conduzido por Scorsese. Entre as atrizes coadjuvantes, a bela surpresa na inclusão de Kathy Bates, Margot Robbie e Florence Pugh não tira a liderança nas apostas de Laura Dern, vencedora em praticamente todos os prêmios que disputou até agora –este parece ser o ano da musa de David Lynch!

Melhor Diretor
Martin Scorsese – O Irlandês
Quentin Tarantino – Era Uma Vez em... Hollywood
Sam Mendes – 1917
Bong Joon Ho – Parasita
Todd Phillips – Coringa

Melhor Roteiro Original
História de Um Casamento – Noah Baumbach
Era Uma Vez em... Hollywood – Quentin Tarantino
Parasita – Bong Joon Ho, Han Jin Won (História por Bon Joon Ho)
Entre Facas e Segredos – Rian Johnson
1917 – Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns

Melhor Roteiro Adaptado
Jojo Rabbit – Taika Waititi
O Irlandês – Steven Zaillian
Dois Papas – Anthony McCarten
Coringa – Todd Phillips e Scott Silver
Adoráveis Mulheres – Greta Gerwig

Um prazer ver Bong Joon-Ho e seu “Parasita” em tantas categorias, é bem provável que todas essas indicações se concretizem no único prêmio de Filme Estrangeiro, mas já está bom demais!
Com Scorsese perdendo terreno na temporada de prêmios, é de se imaginar o Oscar de Melhor Diretor ficando mesmo entre Sam Mendes (até então o favorito) e Quentin Tarantino, que deve mesmo prevalecer na categoria de Roteiro Original.
Já, entre os roteiros adaptados, “O irlandês” deve competir direto com a delicadeza e qualidade de “Adoráveis Mulheres” –e com o imenso apreço que a Academia parece nutrir pelas obras de Greta Gerwig –e com a larga aceitação de púlbico e crítica de “Coringa”, fatores que podem influenciar numa categoria sem tantos favoritos como esta.

Melhor Figurino
Jojo Rabbit
Era Uma Vez em... Hollywood
O Irlandês
Coringa
Adoráveis Mulheres

Melhor Maquiagem & Cabelo
O Escândalo
Coringa
Judy-Muito Além do Arco-Íris
Malévola-Dona do Mal
1917

Melhor Direção de Arte
Era Uma Vez em... Hollywood
1917
Jojo Rabbit
O Irlandês
Parasita

Melhor Trilha Sonora Original
Coringa
Adoráveis Mulheres
História de um Casamento
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

Melhor Canção Original
“I’m Standing With You” de Superação-O Milagre da Fé
“Into the Unknown” de Frozen 2
“Stand Up” de Harriet
“(I’m Gonna) Love Me Again” de Rocketman
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” de Toy Story 4

Melhor Fotografia
1917
Coringa
O Irlandês
O Farol
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Montagem
O Irlandês
Ford vs Ferrari
Coringa
Jojo Rabbit
Parasita

Melhor Edição de Som
1917
Coringa
Ford vs Ferrari
Star Wars-A Ascensão Skywalker
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhor Mixagem de Som
Coringa
Ad Astra
1917
Ford vs Ferrari
Era Uma Vez em... Hollywood

Melhores Efeitos Visuais
Vingadores-Ultimato
O Irlandês
O Rei Leão
1917
Star Wars-A Ascensão Skywalker

De modo geral, as categorias técnicas têm, em “1917”, seu grande favorito –até mesmo em efeitos visuais, onde se destaca o fenômeno “Vingadores-Ultimato”.
Entre surpresas de última hora (“Ad Astra” em Mixagem de Som e “O Farol” em Fotografia) e esnobadas intrigantes (sobretudo, a ausência de “Era Uma Vez em... Hollywood” em Melhor Montagem, vaga que provavelmente ficou com “Ford vs Ferrari”), temos “Rocketman”, cujo favoritismo em Melhor Canção Original terá de compensar seu esquecimento em praticamente todas as outras categorias.

Melhor Documentário
Democracia em Vertigem
American Factory
The Cave
For Sama
Honeyland

Melhor Animação
Toy Story 4
I Lost My Body
Link Perdido
Como Treinar Seu Dragão 3
Klaus

Melhor Filme Estrangeiro
Honeyland – Macedônia
Corpus Christi – Polônia
Parasita – Coreia do Sul
Les Misérables – França
Dor e Glória – Espanha

Como é até habitual, a Academia reconhece o valor do cinema brasileiro com mais frequência entre os documentários –e este ano, é “Democracia em Vertigem” que ganha a honraria –entre as animações, a grande surpresa foi a ausência de “Frozen 2”, que restrige ao peso-pesado “Toy Story 4” a tarefa de superar a súbita preferência nas premiações conquistada (sem muito mérito) por “Link Perdido” e (com largo merecimento) por “Klaus”.
Já, o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro já tem dono, embora seja sempre bacana ver uma obra de Pedro Almodovar reiterar a relevância do diretor espanhol: Será o absurdo dos absurdos se a Academia negar esse Oscar ao sul-coreano “Parasita”.

Melhor Curta Animado
Dcera (Daughter)
Hair Love
Kitbull
Memorable
Sister

Melhor Curta em Documentário
In the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
A Vida em Mim
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

Melhor Curta em Live-Action
Brotherhood
Nefta Football Club
The Neighbors’ Window
Saria
A Sister

A confirmação dos favoritos ou a invalidação das maiores apostas se dará no dia 9 de fevereiro, na 92ª Cerimônia do Oscar, a ser realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Os 33

Era uma questão de tempo que o dramático episódio real envolvendo os trinta e três mineiros chilenos aprisionados de 5 de agosto à 13 de outubro de 2010 numa mina desabada acabasse rendendo um filme de Hollywood.
E ele saiu feito sob encomenda: Edificante, povoado por personagens emotivos e carismáticos, cheio de momentos arrebatadores, calibrado à perfeição para enaltecer a tenacidade daqueles que jamais perderam a esperança. Em suma: Os realizadores tiveram o bom senso de fazer um filme exatamente como o mundo gostaria de assisti-lo –caracterizado pela mesma percepção de senso comum triunfante presente nos noticiários da época que cobriram obstinadamente todo o drama.
E não consta, nessa equação deliberada, escolhas artísticas que pudessem atrair prêmios para a obra –“Os 33” se assume, do início ao fim, uma produção de apelo e orientação popular, como se tivesse sido feito (e, talvez, até tenha sido mesmo) para os próprios mineiros e suas famílias; é irônico, portanto, que muitos deles tenham se declarado insatisfeitos com o resultado.
A história inicia-se nas festividades que marcaram a aposentadoria de um deles, Mario Gómez (Gustavo Angarita) que, por uma ironia suprema do destino, tinha poucos dias a mais para então parar de trabalhar. Ali vemos brevemente todos eles e tomamos conhecimento dos personagens que ganharão mais expressão no filme, como Mário Sepúlveda (Antonio Banderas), o supervisor de segurança Luis ‘Dom Lucho’ Urzua (Lou Diamond Phillips), o aficcionado por Elvis Presley, Edison ‘Elvis’ Peña (Jacob Vargas), o mais jovem deles Alex Vega (Mario Casas), o evangélico José Henriquez (Marco Treviño) e Dario Segovia (Juan Pablo Raba).
Pelo reconhecimento da história que encenam, o elenco interpreta com incontida solenidade o que prejudica a veracidade dramática de muitas das relações, como a de Maria Segovia (Juliette Binoche) com Dario, seu irmão mais novo com quem não se dava até antes do acontecimento. Detalhes como esse, a discriminação sofrida pelo boliviano Carlos Mamani (Tenoch Huerta) da parte dos outros mineiros e o tumultuado casamento de Yonni Barrios (Oscar Nunez), que mantinha a amante Susi (Elizabeth De Razzo) morando na casa ao lado daquela em que vivia com a esposa Marta (Adriana Barraza), apenas ocupam tempo até o evento principal –o fatídico desmoronamento –mas, ao menos, a diretora Patricia Riggen (de “Sob A Mesma Lua”) é austera o suficiente para impor-lhes uma montagem dinâmica que chegue rapidamente onde interessa.
Assim, todos os personagens principais vão trabalhar em um mina de ouro no Deserto do Atacama no dia 5 de agosto quando ocorre o acidente: Recriado com a clareza de detalhes e o realismo permitido pelos efeitos visuais de última geração.
É nos dias que se seguem –e na adição de novos e importantes personagens –que o filme de Patricia Riggen vai encontrando alguns de seus méritos.
Sua primeira parte, quando o resgate é uma incógnita, quando a empresa privada insiste em tratar o acidente com negligência e quando muitos apostavam que nenhum deles estava mais vivo (quando na verdade estavam todos em um refúgio a mais de 580 metros abaixo do solo), é consideravelmente mais marcante e envolvente que o trecho seguinte, quando os mineiros são descobertos e o filme invade o ponto da história que o mundo todo já conhece –aquele em que os mineiros já viraram notícia mundial.
Até lá, a narrativa oscila entre os esforços realizados na superfície –com destaque para o Ministro de Minas, Laurence Golborne (Rodrigo Santoro) e o engenheiro André Sougarret (Gabriel Byrne) cuja perseverança garantiu uma continuidade nas operações até que os mineiros fossem finalmente encontrados –e a claustrofóbica agonia dos mineiros que, sem certeza de que serão resgatados, têm que racionar a comida suficiente para três dias por mais de uma quinzena (!), com inevitável ênfase na liderança de Mário Sepúlveda, cuja fé e destemor são mostrados como um norte que impediu os demais mineiros de sucumbirem ao desespero enquanto lá estiveram.
Da forma como se apresenta, a direção de Patricia Riggen não faz (ou não consegue fazer) maiores arroubos de inventividade narrativa, deixando a história falar por si –ela, quando muito, introduz elementos de melodramaturgia duvidosa como na cena em que, em sua última refeição, quando a comida racionada se esvaiu, o mineiros famintos têm uma alucinação coletiva onde encontram seus familiares e são presenteados por um banquete com seus pratos prediletos.
Os quarenta minutos finais de “Os 33” se contentam em mostrar a mesma trama que o mundo todo acompanhou por meio das coberturas de imprensa –e salvo alguns momentos intimistas é essa mesma linguagem informativa que ele adota.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Trilogia Os Mercenários

Durante boa parte dos anos 1980 e 90, os fãs de filmes descerebrados de ação cultivaram a ideia de ver reunidos em cena alguns de seus heróis prediletos do período, sendo estes os mais requisitados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.
Isso não ocorreu naquelas décadas –inclusive porque, durante algum tempo, os dois alimentaram uma espécie de rivalidade antes de virarem bosn amigos e se tornarem sócios da cadeia de restaurantes Planet Hollywood –entretanto, os aficcionados tiveram a oportunidade de ver isso acontecer primeiramente em “Os Mercenários”, que reuniu os dois e mais um punhado considerável de  marombados daquela época, como Bruce Willis e Dolph Lundgreen.
Dirigido pelo próprio Stallone, o primeiro “Os Mercenários” não fazia maior esforço além de incitar o público com esse apelo –o de reunir em primeira mão os astros da pancadaria do passado, no que pode ser visto como uma das primeiras produções a se valer de um certo saudosismo dos anos 1980 que desde então dominou inúmeras obras.
Assim, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários de aluguel composto por Lee Christmas (Jason Statham, talvez o único verdadeiro astro de ação da atualidade), Toll Road (Randy Culture), Gunnar Jens (Lundgreen, que curiosamente se destaca no elenco), Hale Caesar (Terry Crews) e o ágil Yin Yang (o chinês Jet Li) –além deles, há também a ponta ilustre de Mickey Rourke como um barman cheio de histórias para contar.
Como era ainda governador da Califórnia na época do filme, Schwarzenegger não faz mais do que uma participação especial ao lado de Bruce Willis, numa cena em que encontram Barney em uma igreja –momento breve que, porém, foi o bastante para fazer a alegria dos apreciadores de filmes de ação protagonizados pelos três.
Na trama absurdamente genérica, o grupo de mercenários liderado por Barney deve completar uma missão numa republiqueta sul-americana. Entretanto, em algum momento a ombridade típica de herói de ação em Barney e Christmas irá falar mais alto, e eles decidirão destituir o impiedoso ditador do lugar, vivido com canastrice premeditada por Eric Roberts, convencidos pela candura da mocinha indefesa da vez, interpretada –veja só –pela atriz brasileira Gisele Itié.
Embora essa receita soasse infalível, o tratamento narrativo dado por Stallone –talvez, por essa mesma excessiva confiança –foi tão genérico e impessoal que quase o filme não passa do ponto de corte: “Os Mercenários”, ainda que com uma razoável bilheteria, concorreu ao Framboesa de Ouro de Pior Diretor (!), o que levou os produtores a tomarem um cuidado maior na continuação.

Em “Os Mercenários 2”, o diretor escolhido foi Simon West que, tendo no currículo “Con Air-A Rota da Fuga” e o primeiro “Tomb Raider”, com Angelina Jolie, ostentava vasta experiência e conhecimento no gênero. De fato, ele contribui com um ritmo vertiginoso, um humor revigorante e um tremendo entendimento sobre os aspectos que tornam esse tipo de filme empolgante aos olhos de seus apreciadores –“Os Mercenários 2” é, sem sombra de dúvida, a produção que, dentre toda a trilogia, tira melhor proveito dos elementos que usa como chamariz.
Sobretudo no que diz respeito às participações de astros famosos e veteranos da ação: Além de todos os integrantes do primeiro filme (à exceção de Mickey Rourke que não voltou), aparecem também Jean Claude Van Damme, no papel do vilão Jean Vilain (!?!), o lendário Chuck Norris (que recebe da narrativa um tratamento que faz jus à sua lenda!) e participações mais estendidas e suculentas de Schwarzenegger e Bruce Willis (com direito à infindáveis referências aos seus grandes sucessos); de lambuja, ainda temos a presença do jovem Liam Hemsworth, de “Jogos Vorazes”.
É ele quem, de certa maneira, dá a ignição à trama, quando um encontro com o perverso Jean Vilain (Van Damme sempre interpreta vilões num divertido tom canastrão e provocativo) termina mal para o rapaz, por quem Barney estava se apegando –reza a lenda que originalmente este seria o destino reservado ao personagem de Mickey Rourke.
Barney e sua equipe, com o auxílio de Trench Mauser (Schwarzenegger) o rival salvo na cena inicial convertido em aliado, seguem assim numa missão mais pessoal com o intuito de frustrar os planos inescapavelmente malignos de Vilain e vingar a morte do jovem..
Aqui, os heróis ouvem a todo o instante que já estão velhos e obsoletos para seu ofício. Nada mais que provocação: “Os Mercenários 2” é um dos melhores e mais divertidos filmes de ação dos últimos tempos e seus protagonistas, astros inquestionáveis do gênero.

É nesse sentido –no do segundo exemplar ter resultado tão memorável –que o terceiro filme acaba sendo uma curva descendente.
Os produtores julgaram que chamando um diretor mais jovem –Patrick Hughes, da comédia adolescente “Imaginem Só” e o faroeste contemporâneo “Busca Sangrenta” –a energia e o frescor da produção se manteria. Contudo, “Os Mercenários 3”, se não chega a ser de qualidade duvidosa como o primeiro filme (que beneficiou-se, sobretudo, da novidade) também passa longe do equilíbrio e do ajuste acertado do segundo.
Os acréscimos ao elenco (fatores que passaram assim a definir a série) foram Wesley Snipes (chapa de Stallone desde que fizeram “O Demolidor”), Antonio Banderas (chapa de Stallone desde que fizeram “Assassinos”), Kelsey Grammer (o Fera de “X-Men O Confronto Final”), novo gerente de missões e Harrison Ford, além do vilão interpretado com fleuma e vigor por Mel Gibson. Por outro lado, o filme não conta com Terry Crews (reduzido à uma participação ínfima), Chuck Norris e Bruce Willis (esses nem sequer aparecem).
Há também outro grupo, de integrantes jovens que estão lá mais para atender aos propósitos da trama.
No encalço de Conrad Stonebanks (Gibson), um adversário que ajudou a fundar o grupo dos ‘expendables’, Barney se depara com a necessidade de recrutar integrantes mais novos diante da ineficácia de seus velhos companheiros. Esses novos mercenários são John Smilee (Kellan Lutz), Thorn (Glen Powell, de “Estrelas Além do Tempo”), Marte (Victor Ortiz) e a durona Luna (Ronda Rousey, ex-lutadora de MMA), além do personagem de Banderas, um histriônico alívio cômico.
É previsível ao extremo o fato de que o jovem grupo falhará miseravelmente, virando reféns do próprio vilão, fazendo com que o grupo da velha guarda retorne para salvar a situação –e nisso a direção de Patrick Hughes encontra suas grandes fraquezas. Ele simplesmente não se satisfaz em realizar um filme digno de ação amparado nas presenças icônicas de que dispõe. Quer porque quer preencher suas entrelinhas de significado e com isso espalha sequências vazias e desanimadoras por todo o filme; como por exemplo o aproveitamento nada criativo do personagem de Schwarzenegger convertido numa espécie de ‘voz da consciência’ do personagem Barney, de Stallone, aparecendo em momentos pontuais sem nunca ter relevância de fato, e esse problema se estende tanto ao personagem de Harrison Ford (um coadjuvante sem o brilho e sem a razão de ser que um astro merecia) quanto ao de Wesley Snipes (que, salvo a cena de abre o filme, passa todo o resto da trama sem qualquer serventia).
Composta por dois filmes medianos e apenas um verdadeiramente empolgante, a “Trilogia dos Mercenários” ocupa um lugar especial na memória afetiva de seus fãs mais pelo apelo no conceito em ver reunidos em cena diversos ícones vivos do gênero pancadaria, do que por sua execução final.
E tal é o seu apreço que até hoje alimentam expectativas para uma vindoura “Parte 4”.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Machete Kills


Na continuação de seu trailer-falso tornado um longa-metragem real –derivado, por sua vez, do projeto “Grindhouse” –Robert Rodriguez incrementou ainda mais a mescla de referências, influências e tendências que caracterizava o primeiro “Machete” e dele fazia quase um Tour de Force narrativo: A iniciar esta quase experiência de imersão em tudo o que o cinema-poeira setentista tinha de mais desavergonhado e popularesco, temos (veja só!) mais um trailer falso –antecedido por aquelas vinhetas retrô que tanto Rodriguez quanto Quentin Tarantino adoram colocar em seus filmes –de uma produção intitulada “Machete Kills Again... In The Space” (!).
O filme propriamente dito começa logo depois: Na esteira do final de sua aventura anterior, onde vemos o vingador Machete Cortez (Danny Trejo, mais casca-grossa do que nunca) pegar a estrada ao lado de sua agora parceira Sartana (Jessica Alba), testemunhamos uma ação do próprio Machete ao lado dela tentando desbaratar um cartel munido de armas fornecidas pelos militares –o bandidinho da vez que surge nesse prólogo é interpretado por Freddy Rodrigues, de “Garotas Sem Rumo”, que o próprio Robert Rodriguez (nenhum parentesco) dirigiu em “Planeta Terror”.
Após perder a mulher que ama nessa sequência, Machete, sedento de vingança é despachado numa missão de suma importância pelo presidente dos EUA em pessoa, vivido por Charlie Sheen (que aqui adota seu nome real, Carlos Estevez!), na qual deve encontrar o poderoso líder do cartel, Marcos Mendez (Demian Bichir) e, conforme a circunstância, mata-lo.
Seu contato na tumultuada fronteira EUA/México –e que, nessa tresloucada realidade alternativa concebida por Rodriguez, inclui uma muralha megalomaníaca a separar os países –vem a ser deliciosa e insinuante Miss San Antonio (Amber Heard) cujo disfarce de ganhadora de sucessivos concursos de beleza só reforça o colorido vibrante e esfuziante com o qual o diretor caracteriza seu filme.
E a jornada de Machete segue assim na construção de uma aventura descerebrada, evocativa do cinema mirabolante que suscita, fazendo de seu protagonista uma versão latina, sangrenta e truculenta de James Bond transfigurada por todos os vícios que acompanham seu contexto: Eis que Mendez, o tal vilão, tem lá um plano mirabolante –os batimentos de seu coração estão conectados à um míssil que será disparado contra o solo americano (!). Para desarmar tal engenhoca, Machete, portanto, precisa mantê-lo vivo e atravessar com ele a fronteira. Contudo, a cabeça de Machete está a preço de ouro e isso atrai a atenção de pelo menos um oponente ameaçador: O lendário assassino de aluguel Camaleão –que, honrando o nome, se metamorfoseia em nada menos do que quatro intérpretes ao longo do filme, entre eles, Walton Goggins, Cuba Gooding Jr. e Lady Gaga (participações espetaculares que só um diretor de natureza descolada e cult como Rodriguez é capaz de atrair).
E “Machete Kills” não se acomoda nessa premissa: Quando achamos que as peças do tabuleiro estão estabelecidas, eis que o verdadeiro vilão do filme se revela; o ardiloso Luthor Voz, incorporado por Mel Gibson –e não deixa de ser uma tremenda e brilhante inversão de valores proporcionada por Rodriguez o fato de que, neste e no primeiro filme, o calejado Danny Trejo (sempre relegado à papéis coadjuvantes ou de vilões devido à sua compleição física) tem a chance de ser protagonista tendo como vilões dois dos mais celebrados astros de ação do passado; o próprio Gibson e Steve Segal (no filme anterior).
Após uma série de perseguições, tiroteios e batalhas onde as implausibilidades se equilibram à moda das obras que o diretor quer homenagear, eis que a história culmina num gancho desavergonhado para um próximo filme –e que, então descobrimos, acaba sendo justamente o filme mostrado no trailer do começo: “Machete Kills Again... In The Space” (cujo título já diz tudo) é, pois, a continuação de “Machete Kills” que, no senso de humor referencial e sarcástico de Rodriguez, pode acabar nem sendo feito (a repercussão deste filme foi bem menor que a do primeiro), tornando-se assim o que era para ser desde o começo, um trailer falso.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A Balada do Pistoleiro


Nos anos 1990, tendo surpreendido toda a classe cinéfila dos festivais com uma estréia promissora, “El Mariachi”, na qual concebeu um filme palpitante e atrevido de ação com um dos mais irrisórios orçamentos que já se teve notícia (e conquistar o feito de romper o bloqueio do circuito comercial, o quê tornou seu trabalho ainda mais conhecido), o jovem diretor Robert Rodrigues tratou de dar continuidade à saga daquele personagem, por assim, dizer fazendo este novo filme que, embora ainda uma produção pequena, era infinitamente mais endinheirado que o anterior.
“A Balada do Psitoleiro” não é nem uma continuação, nem uma refilmagem, nem uma reinvenção de “El Mariachi”, mas, é um pouco disso tudo.
Não procura estabelecer conexões narrativas mais profundas com aquele outro filme, mas o respeita na medida do possível.
E Rodrigues, aqui, se pode dar ao luxo de ter Antonio Banderas como protagonista –que, com a mexicana Salma Hayek, compôe um casal explosivo!
A trama é daquelas onde importa menos o conteúdo do que o estilo; do personagem principal mal sabemos o nome. Sabemos que ele é Banderas no auge de seu vigor, seu carisma e sua afinação para personagens marrentos e cheios de pomba (com frequência, ele consegue passar a impressão de ser perfeito para o papel). E sabemos, também que ele quer vingança. E tem, em sua habilidade com as armas de fogo, bem escondidas sob um disfarce de descontraído violeiro (e assim chamada Mariachi), os meios para perpetrá-la.
O alvo de sua vingança é um barão do crime local (o português Joaquim de Almeida) e até chegar nele, o Mariachi tem que ultrapassar os obstáculos de seus comparsas armados.
E pronto.
Ciente de suas limitações não apenas orçamentárias, mas também artísticas, Rodrigues impõe ao ritmo e a narrativa aquilo que pressupõe que seu público irá querer: ação.
E o modo com que ele orquestra essas sequências impressiona pelo número baixo de recursos que ele tinha à disposição, e que não o impediram de moldar uma obra pulsante.