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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Aquaman 2 - O Reino Perdido


 Em 2013, o diretor Zack Snyder dava o estopim inicialmente ao que seria o DCU, o Universo Cinematográfico da DC Comics nos cinemas com “Homem de Aço”, agora, em 2013, esse mal-fadado universo chega ao fim com este “Aquaman 2”, de James Wan, o segundo filme a trazer o herói interpretado por Jason Momoa como protagonista, depois do sucesso do primeiro filme em 2018. Entre esses dois extremos absolutos de tempo –a promessa e a ambição de 2013 e esse final relativamente amargo de 2023 –houve a tentativa de criação de um universo que resultou problemático, afligido pelas interferência dos Estúdios da Warner no processo de criação que levou à obras equivocadas como “Batman Vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Flash”, longe, muito longe do sucesso de público e crítica obtido pelos filmes realizados no mesmo período pela Marvel Studios.

A sensação, portanto, não é de uma espécie de despedida, mas, sim a de possibilidades que não conseguiram ser atingidas. Com esse fantasma a lhe assombrar, o filme de James Wan dá continuidade à trama do filme de 2018 sem a menor predisposição para ousar: Diferente de alguns dos exemplares mais audaciosos que, em algum momento, esse universo produziu (sobretudo, os dirigidos pelo próprio Zack Snyder), “O Reino Perdido” se afasta de qualquer esboço de uma narrativa sombria (e olha que estamos falando de um diretor, James Wan, tarimbado no gênero de terror!), e trilha o caminho fácil, previsível e confortável de uma diversão para toda a família. Se as esperanças artisticamente honoráveis de se criar um universo compartilhado estão todas perdidas, então, ao menos, faça-se um produto vibrante, agradável e acessível, que consiga satisfazer a maior fatia possível do público, assim devem ter pensado seus realizadores.

“O Reino Perdido” começa, assim, com Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, numa vibe caricata que ombreia as patetices de Chris Hemsworth em “Thor-Amor e Trovão”...) em uma posição onde é agora pai, marido, herói e rei –todos títulos obtidos no filme anterior, onde salvou a Terra, sagrou-se rei de Atlântida e casou-se (e teve um filho) com Mera (Amber Heard, com tempo de cena visivelmente reduzido devido ao escândalo envolvendo seu processo contra o ex-marido Johnny Depp nos tribunais). Todavia, oriundo também do primeiro filme, o vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), desejoso de vingança contra Aquaman, adquire o misterioso tridente negro que pertenceu a um monarca de um reino renegado e ancestral dos mares, o chamado Reino Perdido. Tal tridente traz um poder tão grande quanto corruptível: Restaura o funcionamento de maquinários bélicos implacáveis e dá ao seu usuário força de sobra para colocar seus inimigos de joelhos, mas ele leva também o espírito diabólico do antigo rei de Necrus, cujo único objetivo é queimar uma substância de nome Oricalco, capaz de destruir, em poucos dias, todo o eco-sistema do planeta Terra.

Para o Arraia Negra, cuja sede de vingança pelo que Aquaman fez (ele deixou que seu pai morresse) o torna capaz de qualquer coisa, sacrificar a segurança do planeta acaba sendo um preço que ele se dispõe a pagar em troca dos meios adequados para ter sua revanche. Com esse problema nas mãos –e ciente de que, sendo mestiço de humano e atlante, sua responsabilidade é proteger ambos os mundos de onde veio –Arthur deve reencontrar seu irmão Orm (Patrick Wilson, sensacional), prisioneiro desde o filme anterior, quando conspirou uma invasão contra o povo da superfície.

O que o diretor James Wan engendra, a partir daí, é um filme frenético, e acometido de ocasionais piadinhas, acompanhando a relação conflituosa, mas no fim, afetuosa, entre esses dois irmãos, Arthur e Orm, onde eles se unem para encontrar a trilha que os levará aos segredos que ajudarão a sobrepujar o mal. Pela trajetória cheia de perigos que não ameaçam ninguém (pois, sabemos, até pela leveza da narrativa que tudo ficará bem no final), pelos cenários sempre exóticos e selvagens que surgem no caminho dos protagonistas, e pela receita oscilante de ação, humor e suspense de montanha-russa que entrega, o filme lembra muito “Cidade Perdida”, com Sandra Bullock e Chaning Tatum (que, por sua vez, já lembrava o oitentista “Tudo Por Uma Esmeralda”) mesclado à excentricidade visual (e ao exagero digital, por que não) de “Valerian e A Cidade dos Mil Planetas”.

É um bom entretenimento –e o elenco, pleno de carisma, ajuda muito nesse quesito –mas, é absolutamente esquecível. Para um filme que acaba sendo o último suspiro de um universo que almejava ir tão longe, “O Reino Perdido” se revela melindroso em suas opções deliberadamente formulaicas.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Magic Mike XXL


 Apesar de não contar com os personagens Dallas (de Matthew McConaughey) e Kid (de Alex Petiffer), a grande ausência que determina o resultado da continuação de “Magic Mike” é a do diretor Steve Sodenbergh. Felizmente, quem ocupa o lugar dele é o produtor Gregory Jacobs que escapa astuciosamente da armadilha de tentar emular Sodenbergh e concebe a este filme um brilho e uma personalidade próprios.

Cerca de três anos depois de ter abandonado os palcos, o ex-stripper Mike (Channing Tatum, de volta num dos personagens mais marcantes de sua carreira) segue realizando suas aspirações profissionais afrente de uma empresa de móveis personalizados.

De repente, ele recebe um telefonema de seus antigos colegas: Os também strippers Ritchie (Joe Manganiello), Ken (Matthew Bomer), Tito (Adam Rodriguez) e Tarzan (Kevin Nash) o chamam para um reencontro.

Ao contrário de Mike, eles continuaram como strippers, e agora, largados ao léu por Dallas –que partiu para o estrangeiro levando Kid à tiracolo –querem fazer uma última apresentação numa convenção em Macau, antes de receberem dinheiro o suficiente para todos partirem em busca de seus próprios sonhos.

Assaltado de uma súbita nostalgia, Mike decide acompanhá-los, numa forma de celebrar a última oportunidade em que esses grandes amigos estarão todos juntos.

Como diretor, Jacobs troca a observação inquisitiva e analítica da vida moderna executada por Sodenbergh por uma visão mais desprendida, onde predomina o alto-astral, e as emoções mais universais a acompanhar o reencontro dos amigos –o primeiro reflexo bastante positivo é que o filme acaba dando espaço muito maior para os coadjuvantes e suas vulnerabilidades.

Se no primeiro “Magic Mike” todo o staff de strippers servia mais para uma caracterização esmerada do universo das casas noturnas, bem ao gosto a um só tempo niilista e meticuloso de Sodenbergh, aqui, os anseios e emoções desses personagens entram em foco, proporcionando a eles a humanidade que não tiveram a chance de expor: Ritchie é fanfarrão, carismático e, na leveza que compartilha com todos, um amigo crucial à união do grupo (e possivelmente o melhor personagem do filme); Ken tem seus próprios anseios e objetivos, mas antes de tudo precisa superar um ligeiro ressentimento pelo abandono de Mike; Tito é hábil cozinheiro e planeja obter dinheiro com essa derradeira apresentação para se lançar no ramo; e Tarzan –ou Ernest –encobre com imponência e seriedade sua vontade casar e constituir família.

Essa mudança de enfoque, do cinismo para a ternura, revela facetas novas de todos os personagens e, sobretudo, de suas dinâmicas: No trajeto de Miami até Macau, confissões afloram, lembranças animadas são colocadas em pauta e todos saboreiam a sensação agridoce de estarem juntos uma última vez, o que transforma “Magic Mike XXL” num autêntico road-movie.

E como tal, o trajeto de seus protagonistas até seu destino final é registrado nas minúcias de seu humor e de seu drama: O trailer que os leva sofre uma acidente, obrigando-os a apelar para os favores de uma conhecida (Jada Pinkett Smith num papel originalmente feito para ser masculino), e na sequência, encontrar breve refúgio na mansão de uma ricaça carente (ponta de Andie MacDowell); não sem antes Mike e seu pessoal pararem numa loja de conveniência e, num desafio oferecido ao divertido Ritchie –arrancar um sorriso de uma soturna atendente –produzirem a melhor cena do filme.

Quase um musical na evocação irrestrita que promove da descontração inerente aos seus personagens, “Magic Mike XXL” é uma continuação que troca sem pudores o drama circunspecto por uma atmosfera leve, irrequieta e contagiante. E faz disso seu grande mérito.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Machete Kills


Na continuação de seu trailer-falso tornado um longa-metragem real –derivado, por sua vez, do projeto “Grindhouse” –Robert Rodriguez incrementou ainda mais a mescla de referências, influências e tendências que caracterizava o primeiro “Machete” e dele fazia quase um Tour de Force narrativo: A iniciar esta quase experiência de imersão em tudo o que o cinema-poeira setentista tinha de mais desavergonhado e popularesco, temos (veja só!) mais um trailer falso –antecedido por aquelas vinhetas retrô que tanto Rodriguez quanto Quentin Tarantino adoram colocar em seus filmes –de uma produção intitulada “Machete Kills Again... In The Space” (!).
O filme propriamente dito começa logo depois: Na esteira do final de sua aventura anterior, onde vemos o vingador Machete Cortez (Danny Trejo, mais casca-grossa do que nunca) pegar a estrada ao lado de sua agora parceira Sartana (Jessica Alba), testemunhamos uma ação do próprio Machete ao lado dela tentando desbaratar um cartel munido de armas fornecidas pelos militares –o bandidinho da vez que surge nesse prólogo é interpretado por Freddy Rodrigues, de “Garotas Sem Rumo”, que o próprio Robert Rodriguez (nenhum parentesco) dirigiu em “Planeta Terror”.
Após perder a mulher que ama nessa sequência, Machete, sedento de vingança é despachado numa missão de suma importância pelo presidente dos EUA em pessoa, vivido por Charlie Sheen (que aqui adota seu nome real, Carlos Estevez!), na qual deve encontrar o poderoso líder do cartel, Marcos Mendez (Demian Bichir) e, conforme a circunstância, mata-lo.
Seu contato na tumultuada fronteira EUA/México –e que, nessa tresloucada realidade alternativa concebida por Rodriguez, inclui uma muralha megalomaníaca a separar os países –vem a ser deliciosa e insinuante Miss San Antonio (Amber Heard) cujo disfarce de ganhadora de sucessivos concursos de beleza só reforça o colorido vibrante e esfuziante com o qual o diretor caracteriza seu filme.
E a jornada de Machete segue assim na construção de uma aventura descerebrada, evocativa do cinema mirabolante que suscita, fazendo de seu protagonista uma versão latina, sangrenta e truculenta de James Bond transfigurada por todos os vícios que acompanham seu contexto: Eis que Mendez, o tal vilão, tem lá um plano mirabolante –os batimentos de seu coração estão conectados à um míssil que será disparado contra o solo americano (!). Para desarmar tal engenhoca, Machete, portanto, precisa mantê-lo vivo e atravessar com ele a fronteira. Contudo, a cabeça de Machete está a preço de ouro e isso atrai a atenção de pelo menos um oponente ameaçador: O lendário assassino de aluguel Camaleão –que, honrando o nome, se metamorfoseia em nada menos do que quatro intérpretes ao longo do filme, entre eles, Walton Goggins, Cuba Gooding Jr. e Lady Gaga (participações espetaculares que só um diretor de natureza descolada e cult como Rodriguez é capaz de atrair).
E “Machete Kills” não se acomoda nessa premissa: Quando achamos que as peças do tabuleiro estão estabelecidas, eis que o verdadeiro vilão do filme se revela; o ardiloso Luthor Voz, incorporado por Mel Gibson –e não deixa de ser uma tremenda e brilhante inversão de valores proporcionada por Rodriguez o fato de que, neste e no primeiro filme, o calejado Danny Trejo (sempre relegado à papéis coadjuvantes ou de vilões devido à sua compleição física) tem a chance de ser protagonista tendo como vilões dois dos mais celebrados astros de ação do passado; o próprio Gibson e Steve Segal (no filme anterior).
Após uma série de perseguições, tiroteios e batalhas onde as implausibilidades se equilibram à moda das obras que o diretor quer homenagear, eis que a história culmina num gancho desavergonhado para um próximo filme –e que, então descobrimos, acaba sendo justamente o filme mostrado no trailer do começo: “Machete Kills Again... In The Space” (cujo título já diz tudo) é, pois, a continuação de “Machete Kills” que, no senso de humor referencial e sarcástico de Rodriguez, pode acabar nem sendo feito (a repercussão deste filme foi bem menor que a do primeiro), tornando-se assim o que era para ser desde o começo, um trailer falso.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aquaman

É comum acontecer de diretores oriundos exclusivamente de filmes de terror fazerem trabalhos espetaculares quando lidam com material hollywoodiano –foi assim, por exemplo, com “O Senhor dos Anéis” que ganhou do diretor Peter Jackson um tratamento que conciliou suas muitas facetas num todo primoroso graças à sua capacidade de enfatizar um insuspeito peso dramático.
Essa mesma percepção se repete em “Aquaman”, que o diretor James Wan, vindo dos bem-sucedidos “Invocação do Mal”, trata de eleger, com seu invulgar domínio narrativo, a melhor produção de um personagem da DC Comics até então, passando a frente do ótimo “Mulher Maravilha” e estabelecendo um belíssimo (e ocasionalmente elevado) padrão de qualidade para os claudicantes “Liga da Justiça”, “Batman Vs Superman” e afins.
Por sinal, fica claro na trama que o longa se passa depois dos eventos relatados em “Liga da Justiça” –onde o Aquaman foi de papel essencial –mas, uma breve menção é tudo que o diretor James Wan se presta a fazer; todo o restante do filme pertence ao seu protagonista e à fascinante mitologia que ele construiu com zelo e empenho em torno dele.
Arthur Curry (Jason Momoa, abraçando o protagonismo com um carisma inquestionável) pertence a dois mundos –por um lado, ele é filho da poderosa rainha Atlana (Nicole Kidman, fantástica), por outro, seu pai vem a ser o humilde faroleiro Thomas Curry (Temuera Morrison). Ambos se encontraram quando Atlana se feriu num combate e, à deriva, foi parar no litoral do chamado “mundo da superfície”. Do amor entre o terráqueo e a atlante, nasceu Arthur, um filho do qual ela teve de abrir mão para que os atlantes –sempre hostis e arredios para com o povo da superfície –não viessem atrás dele.
Arthur cresceu alheio e indiferente à sua herança atlante –usando seus poderes, como pudemos notar no filme da Liga da Justiça, para salvar pescadores aqui e ali –até que o guerreiro Vulko (Willen Dafoe), a pedido de Atlana, aparece para treiná-lo.
Assim, Arthur descobre que tem um irmão, Orm (Patrick Wilson, o ator-assinatura de James Wan) e que na sua ausência, é Orm quem subirá ao trono decretando uma guerra contra a superfície que terminará em prejuízo para ambos os lados.
É a belíssima Mera (Amber Heard, uma aparição aqui tanto quando em “All Boys Love Mandy Lane”, que a revelou) que aparece –depois de seu rápido encontro em “Liga da Justiça” –para lhe afirmar que o único meio de deter Orm é reclamando seu direito, como primogênito, ao trono.
Mas, a impulsividade Arthur o coloca em desvantagem contra Orm (e ainda quase lhe custa a própria vida): Para sobrepuja-lo de uma vez, Arthur deve assim encontrar o lendário tridente perdido do primeiro rei atlante.
Sensato, o diretor James Wan estrutura seu roteiro com base nos mais indiscutíveis e certeiros conceitos da jornada do herói, pontuando a partir de um determinado momento a busca por um artefato precioso quase como uma saga de “Indiana Jones” –há, portanto, em seu enredo, todas as reflexões necessárias a respeito de valor, legado, herança e responsabilidade, e ele amadurece seu personagem principal com base nessas características enquanto emoldura nele um filme de rara beleza épica a aportar nos cinemas: Não é exagero afirmar que as batalhas grandiloquentes que ocupam a tela no terço final ombreiam em refinamento e fulgor visual com as memoráveis sequencias de “O Senhor dos Anéis”!
É, pois, algo até irônico: Vítima constante de piadinhas acerca de sua relação com peixes e suas habilidades aquáticas em comparação com os desprendidos Superman e Batman, o atlante Aquaman ganha aqui um filme majestoso, invulgar e antológico que o põe anos-luz à frente das produções recentes daqueles outros heróis, e cuja excelência fará qualquer um engolir em seco ao tentar fazer alguma piadinha sobre ele no futuro.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Zumbilândia

Dos mais divertidos filmes de mortos-vivos que agregam humor em sua premissa –e esse sub-gênero possui exemplares assim aos borbotões –“Zumbilândia”, do diretor Ruben Fleischer, de 2009, se sobressai de forma notável por reunir, ao lado do veterano Woody Harrelson, um time de jovens atores que ainda daria muito o que falar –haviam ali Abigail Breslin, poucos anos depois de ter feito “Pequena Miss Sunshine”, a sensacional Emma Stone (vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “La La Land-Cantando Estações”) e Jesse Eisenberg (indicado ao Oscar de Melhor Ator por “A Rede Social”) –por ostentar uma irresistível natureza cult (até hoje, não superada por outras pretensas imitações que vieram depois), por mesclar as características inerentes de filme de mortos-vivos de forma admirável à um humor peculiar, descontraído e bastante acessível, e por ser, de fato, um filme muito bem realizado.
A intenção dos roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick (que depois escreveriam “Deadpool”) foi conceber algo até então inédito na TV: Uma série de zumbis –em 2009, eles não tinham ainda virado lugar-comum com a série de sucesso “The Walking Dead”. A idéia era que a trama se estendesse por vários capítulos: O episódio-piloto terminaria na cena em que Columbus (Eisenberg) e Tallahassee (Harrelson) são roubados pelas duas meninas pela primeira vez.
Com seu plano de série rejeitado, eles transformaram “Zumbilândia” num roteiro de cinema.
A trama se passa assim num EUA assolado pela existência de letais hordas de mortos-vivos, uma Zumbilândia.
Lá, seus personagens levam o nome do lugar de onde vieram ou para onde pretendem ir.
Columbus, outrora alienado nerd pouco afeito a deixar a comodidade de seu apartamento, consegue sobreviver por preservar uma série de estranhas regras, justamente os mesmos maneirismo que antes o tornavam anti-social. Após sobreviver por muito pouco ao ataque de sua deliciosa vizinha (Amber Heard) transformada em zumbi, ele pega a estrada e seu caminho cruza-se com o de Tallahassee, um alucinado texano viciado em Twinkies (um bolinho norte-americano) e especializado em matar zumbis das formas mais ecléticas possíveis. A eles, mais tarde irá se juntar uma dupla de irmãs, a sensual e desconfiada Wichitta (Emma Stone, sempre apaixonante), e a jovem e precoce Little Rock (Abigail Breslin). Esse inusitado grupo decide rumar em direção a Costa Oeste, em meio a esse mundo pós-apocalíptico.
A despeito de todas as regras e paradigmas do sub-gênero de mortos-vivos serem seguidos com zelo e atenção, o filme de Fleischer logo adquire características empáticas que o destacam da leva comum de filmes de zumbi –sua narrativa passa a dar mais atenção à graça genuína que pulsa do personagem de Harrelson (que recebe uma ajuda e tanto quando encontra seu ídolo, Bill Murray em pessoa, numa seqüência hilária durante uma parada em Hollywood), ao romance hesitante e bonitinho que surge entre os personagens de Eisenberg e de Emma, e ao senso envolvente de aventura, do que à atmosfera de terror propriamente dita, ou à seqüências mais gráficas e sangrentas.
“Zumbilândia” é, pois, uma distorção da categoria a que pertence –como o próprio gênero de zumbi foi uma distorção dos filmes tradicionais de terror –e, nesse ímpeto consegue fazer o expectador rir e vibrar com seus cativantes personagens.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça

Pode-se afirmar que foi um verdadeiro parto conseguir este filme da “Liga da Justiça”.
Há muito tempo esperado e alardeado –antes mesmo da realização bem-sucedida de “Os Vingadores” pela Marvel Studios, o quê já foi há cinco anos –o projeto enfrentou, entre outras coisas, um cancelamento provocado pela então greve dos roteiristas em 2007, quando o plano ainda era que fosse dirigido por George Miller e com um elenco totalmente diferente.
De lá para cá, muita coisa mudou.
A Marvel estabeleceu um formato para que um universo de narrativas e personagens dos quadrinhos fosse transposto para o cinema, e a DC Comics, sua rival, naturalmente procurou seguir esse caminho. A jornada, entretanto, foi tortuosa: Sem o humor e a descontração de sua concorrente, a DC buscou um ponto de partida para o seu próprio universo numa reformulação de Superman, seu mais icônico personagem (“O Homem de Aço”), em seguida deu continuidade com um filme até hoje controverso que não agradou a crítica (“Batman Vs Superman” do qual sob muitos aspectos, este filme é uma continuação direta), e uma produção equivocada e problemática (“Esquadrão Suicida”), para finalmente acertar com o filme solo de sua principal heroína (“Mulher Maravilha”).
Diretor de “Batman Vs Superman”, Zack Snyder era inicialmente o diretor deste projeto –e ele de fato responde por pelo menos uns 80 % do material que se assiste no filme –mas, devido à uma tragédia pessoal, desligou-se da produção, dando lugar para Joss Whedon (diretor de “Os Vingadores”) terminar o trabalho.
Algumas coisas ficam claras desde o início: Os realizadores têm consciência de seus erros e os corrigem paulatinamente aqui –o tom sombrio (e tido diversas vezes como inadequado) foi equilibrado, agora a DC compreende que superheróis são motivo de celebração e não de introspecção (há espaço até para piadinhas!); a trama já não se dispersa em subterfúgios banais ou motivações pretensiosas, o roteiro é objetivo e busca ir direto ao ponto (prerrogativa principal para que um filme com tantos protagonistas funcione corretamente).
Como foi visto ao fim de “Batman Vs Superman”, o mundo está de luto pela morte do Superman. Contudo, como foi também visto lá, ameaças muito maiores do que as mundanas começam a contemplar o planeta Terra: O poderoso alienígena Lobo da Estepe (voz do ator Ciaran Hinds, o quê não quer dizer muito...) vem para o nosso planeta atrás de três ‘caixas maternas’ aqui deixadas. Quando reunidas elas despertarão uma entidade de nome ‘unidade’ que consumirá todo o nosso mundo.
Identificando com antecedência o perigo, o vigilante Batman (Ben Affleck, tão esmerado quanto no filme anterior, porém, menos sisudo) põe então em prática o plano com o qual já flertava antes: O de reunir, ao lado da poderosa Diana Prince, a Mulher Maravilha (Gal Gadot, que consegue ser, com facilidade, uma das melhores coisas do filme), os poucos superpoderosos identificados do mundo, que no caso seriam Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, da mal-fadada reformulação de “Conan-O Bárbaro”), Barry Allen, o Flash (o talentoso e divertido Ezra Miller) e Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher, o intérprete mais fraco do grupo).
Juntos, como a Liga da Justiça, eles buscarão se opor aos vilões que desejam a destruição. Não só eles, diga-se: Num daqueles casos tão óbvios que até uma criança de colo perceberia, é lógico que o Superman (vivido por Henry Cavill) haverá de ressuscitar para compor o time dos heróis no grande clímax –e apesar disso ser evidente, a narrativa parece tratar a manobra como um das grandes surpresas do roteiro!
No fim das contas, o aspecto que poderia prejudicar o filme –a substituição de diretor com as filmagens em andamento, e antes mesmo da pós-produção –acabou beneficiando-o: “Liga da Justiça” encontra uma harmonia agradável, fluida e plausível entre o estilo lúgubre, amargo até de Zack Snyder e o tom mais ameno, escapista e otimista do experiente Joss Whedon (que até mesmo já roteirizou histórias em quadrinhos).
Seus problemas acabam ficam assim à sombra de seus acertos, especialmente diante do fato de que, comparado ao inconstante “Batman Vs Superman”, este “Liga da Justiça” é um bem-vindo salto de equilíbrio e entendimento narrativo –ainda que ele fique um pouco aquém das qualidades do amplamente satisfatório “Mulher Maravilha”.
É bom saber que a DC Comics está no caminho certo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

All Boys Love Mandy Lane

Ou “Tudo Por Ela”, título nacional que (além de pertencer também a outro filme francês, com Diane Kruger) é preguiçoso e bastante sintomático do descaso que a distribuidora aparentemente devia ter para com este filme, uma pérola de humor negro e brilhantismo cuja fama cresceu com o boca-a-boca positivo das platéias já nos festivais em que foi lançado em 2006.
O diretor Jonathan Levine, depois, realizaria outros êxitos, todos discorridos em gêneros diferentes (como a elogiada comédia dramática “50 %” e o pastiche de “Crepúsculo” –ainda que com um pouco mais de qualidade –“Meu Namorado É Um Zumbi"), o que talvez tenha ajudado a manter seu nome conhecido mais em nichos alternativos. Este, todavia, continua sendo seu melhor trabalho.
A grande sacada de “Mandy Lane” é construir uma atmosfera de terror amparada sempre em sua narrativa e na capacidade de sustentar as mais inesperadas atmosferas a partir de suas cenas. Uma demonstração de inventividade que supera seu baixo orçamento e qualquer tendência ocasional do roteiro em render-se a uma convenção de gênero.
O filme se concentra em Mandy Lane (a belíssima Amber Heard, revelada aqui, mas que ficou famosa mesmo pelo casamento tumultuado com o astro Johnny Depp) a garota mais linda e cobiçada da escola –tão mais atraente pelo fato de que aparenta exibir uma certa indiferença em relação a isso.
A chance para alguns rapazes –ou até algumas moças –conquistarem sua afeição surge durante o quê parece ser um inocente fim de semana numa casa de campo: Cenário perfeito e apropriado, como todos sabem, para um filme de terror.
A graça é perceber o tempo todo a auto-consciência da direção em relação á isso, e dela construindo as mais divertidas e interessantes cenas, mesmo que isso signifique apelar ocasionalmente para elementos que tornam o gênero indigesto para o menos afoitos, como sanguinolência e mutilação, além dos propósitos sempre pouco elucidativos das mortes.

“All Boys Love Mandy Lane” é, portanto, um filme de terror que PENSA o gênero de terror, e se torna curioso e interessante a partir dessa apropriação espirituosa dos cânones do gênero. Ah, e ter uma beldade hipnótica como Amber Heard em cena ajuda bastante!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa

Tom Hooper é o mesmo diretor de “O Discurso do Rei” e do musical “Os Miseráveis”. Aqui ele entrega um trabalho melhor do que ambos. O maior problema de “O Discurso do Rei”, na verdade, é que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme num ano em que não merecia, derrotando o arrojado “A Rede Social” e mais uma porção de outros concorrentes melhores. Isso atraiu uma espécie de antipatia ao filme, embora no fundo fosse um trabalho redondo e bem-intencionado, ainda que excessivamente acadêmico e conservador. 
Essas características se repetem em “A Garota Dinamarquesa”, ironicamente, uma obra com um tema dos mais audaciosos: A história de Einar Wegener, o primeiro transexual da história a submeter-se à uma cirurgia de mudança de sexo. 
Tudo começa quando Gelda (a maravilhosa e inebriante Alicia Vikander), pintora assim como Einar, seu então marido, o convence a vestir uma meia feminina a fim de terminar um quadro diante da ausência da modela inicialmente contratada. Isso desperta algo em Einar, que pouco a pouco, começa a encontrar sua verdadeira identidade ao vestir-se de mulher (e auto-intitular-se Lily). O quê começa como uma brincadeira do casal de artistas vai se tornando algo realmente sério, que ameaça seu casamento, especialmente quando Einar conclui que Lily é quem ele verdadeiramente é, e decide assim submeter-se à uma operação jamais tentada. 
Este filme não teria a dimensão que ostenta se não fosse por Eddie Redmayne, o jovem inglês entrega um trabalho assombroso, superior a sua caracterização como Stephen Hawkings, que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator no ano passado. Na minúcia da interpretação que ele oferece no filme, desvendamos as engrenagens que definem uma pessoa, e que o fazem além, muito além, daquilo que ele deseja: Einar não quer partir o coração de Gelda, a esposa que ele de fato ama, mas ele paradoxalmente não quer mais ser Einar, e em última instância, o marido dela. Ele quer ser uma mulher, quer ser Lily, o ser humano no qual ele descobriu-se por inteiro. E os momentos registrados pelas câmeras de Tom Hooper, nos quais essa descoberta se opera estão entre os mais preciosos do filme. O diretor Hooper almejava em "O Discurso do Rei" atingir um grau de requinte, sutileza e sensibilidade que somente aqui ele consegue fazê-lo. Foi necessário, não resta dúvida o auxílio de dois intérpretes superlativos para isso: Alicia Vikander e, sobretudo, Eddie Redmayne.