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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Aquaman 2 - O Reino Perdido


 Em 2013, o diretor Zack Snyder dava o estopim inicialmente ao que seria o DCU, o Universo Cinematográfico da DC Comics nos cinemas com “Homem de Aço”, agora, em 2013, esse mal-fadado universo chega ao fim com este “Aquaman 2”, de James Wan, o segundo filme a trazer o herói interpretado por Jason Momoa como protagonista, depois do sucesso do primeiro filme em 2018. Entre esses dois extremos absolutos de tempo –a promessa e a ambição de 2013 e esse final relativamente amargo de 2023 –houve a tentativa de criação de um universo que resultou problemático, afligido pelas interferência dos Estúdios da Warner no processo de criação que levou à obras equivocadas como “Batman Vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Flash”, longe, muito longe do sucesso de público e crítica obtido pelos filmes realizados no mesmo período pela Marvel Studios.

A sensação, portanto, não é de uma espécie de despedida, mas, sim a de possibilidades que não conseguiram ser atingidas. Com esse fantasma a lhe assombrar, o filme de James Wan dá continuidade à trama do filme de 2018 sem a menor predisposição para ousar: Diferente de alguns dos exemplares mais audaciosos que, em algum momento, esse universo produziu (sobretudo, os dirigidos pelo próprio Zack Snyder), “O Reino Perdido” se afasta de qualquer esboço de uma narrativa sombria (e olha que estamos falando de um diretor, James Wan, tarimbado no gênero de terror!), e trilha o caminho fácil, previsível e confortável de uma diversão para toda a família. Se as esperanças artisticamente honoráveis de se criar um universo compartilhado estão todas perdidas, então, ao menos, faça-se um produto vibrante, agradável e acessível, que consiga satisfazer a maior fatia possível do público, assim devem ter pensado seus realizadores.

“O Reino Perdido” começa, assim, com Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, numa vibe caricata que ombreia as patetices de Chris Hemsworth em “Thor-Amor e Trovão”...) em uma posição onde é agora pai, marido, herói e rei –todos títulos obtidos no filme anterior, onde salvou a Terra, sagrou-se rei de Atlântida e casou-se (e teve um filho) com Mera (Amber Heard, com tempo de cena visivelmente reduzido devido ao escândalo envolvendo seu processo contra o ex-marido Johnny Depp nos tribunais). Todavia, oriundo também do primeiro filme, o vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), desejoso de vingança contra Aquaman, adquire o misterioso tridente negro que pertenceu a um monarca de um reino renegado e ancestral dos mares, o chamado Reino Perdido. Tal tridente traz um poder tão grande quanto corruptível: Restaura o funcionamento de maquinários bélicos implacáveis e dá ao seu usuário força de sobra para colocar seus inimigos de joelhos, mas ele leva também o espírito diabólico do antigo rei de Necrus, cujo único objetivo é queimar uma substância de nome Oricalco, capaz de destruir, em poucos dias, todo o eco-sistema do planeta Terra.

Para o Arraia Negra, cuja sede de vingança pelo que Aquaman fez (ele deixou que seu pai morresse) o torna capaz de qualquer coisa, sacrificar a segurança do planeta acaba sendo um preço que ele se dispõe a pagar em troca dos meios adequados para ter sua revanche. Com esse problema nas mãos –e ciente de que, sendo mestiço de humano e atlante, sua responsabilidade é proteger ambos os mundos de onde veio –Arthur deve reencontrar seu irmão Orm (Patrick Wilson, sensacional), prisioneiro desde o filme anterior, quando conspirou uma invasão contra o povo da superfície.

O que o diretor James Wan engendra, a partir daí, é um filme frenético, e acometido de ocasionais piadinhas, acompanhando a relação conflituosa, mas no fim, afetuosa, entre esses dois irmãos, Arthur e Orm, onde eles se unem para encontrar a trilha que os levará aos segredos que ajudarão a sobrepujar o mal. Pela trajetória cheia de perigos que não ameaçam ninguém (pois, sabemos, até pela leveza da narrativa que tudo ficará bem no final), pelos cenários sempre exóticos e selvagens que surgem no caminho dos protagonistas, e pela receita oscilante de ação, humor e suspense de montanha-russa que entrega, o filme lembra muito “Cidade Perdida”, com Sandra Bullock e Chaning Tatum (que, por sua vez, já lembrava o oitentista “Tudo Por Uma Esmeralda”) mesclado à excentricidade visual (e ao exagero digital, por que não) de “Valerian e A Cidade dos Mil Planetas”.

É um bom entretenimento –e o elenco, pleno de carisma, ajuda muito nesse quesito –mas, é absolutamente esquecível. Para um filme que acaba sendo o último suspiro de um universo que almejava ir tão longe, “O Reino Perdido” se revela melindroso em suas opções deliberadamente formulaicas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

O Homem Invisível


 Haviam dois grandes obstáculos que este novo projeto enfrentava antes mesmo de ver a luz do dia: O primeiro, e mais recente, era o fracasso de “A Múmia”, com Tom Cruise, que emperrou os planos da Universal Studios em criar um universo compartilhado com histórias envolvendo seus clássico ícones do terror (entre os quais estava o plano de uma versão de “O Homem Invisível”, com Johnny Depp); o segundo era a comparação com o formidável “O Homem Sem Sombra”, realizado no fim dos anos 1990 pelo diretor holandês Paul Verhoeven com euforia e alta voltagem. Felizmente, o diretor Leigh Whannell, saído das fileiras do terror independente –e conhecedor, portanto, das minúcias narrativas que movem as engrenagens do gênero –driblou esses contratempos tomando a mais sensata das atitudes: Fazendo um filme muito, muito bom.

A invisibilidade, em “O Homem Invisível”, veja só, é uma mera consequência de sua premissa extraordinariamente sólida e bem construída: O filme de Leigh Whannell é, acima de tudo, a história de Cecilia (a talentosíssima Elizabeth Moss), esposa severamente abusada pelo marido, Adrian Griffin, um cientista pioneiro em pesquisas ópticas. Já de início, na primeira cena, testemunhamos a perplexa e sorrateira tentativa de Cecilia em abandonar o cônjuge abusador na calada da noite –e os predicados de suspense empregados por Whannell descartam a necessidade de uma caracterização maior de seu antagonista que praticamente nunca aparece; na verdade, é até benéfico para a narrativa nunca sabermos ao certo como ou quem Adrian é.

Somos relegados ao ponto de vista de acompanhantes da protagonista Cecilia. Inicialmente, testemunhando sua lenta adaptação ao mundo normal, à realidade, quando tenta vencer o mero medo de andar alguns metros para fora da casa –ela foi hospedar-se na casa do namorado da irmã, James (Aldis Hodge, de “Estrelas Além do Tempo”), que é policial.

Lá pelas tantas, uma notícia: Adrian suicidou-se! Cecilia, que sofreu tanto nas suas mãos que dele espera tudo, não está muito certa de que isso seja verdade; e nos dias que se seguem, acontecimentos estranhos ao seu redor começam a reforçar essa certeza. Entretanto, como toda maldosa e melindrosa assombração, Adrian –que deduzimos de antemão, encontrou um meio de ficar invisível e está torturando ela –se manifesta com tal sutileza cruel que somente Cecilia tem noção de seus atos; aos olhos de todos os outros, incluindo sua irmã (Harriet Dyer), James, a filha dele Sydney (Storm Reid, de “Uma Dobra No Tempo”), além das autoridades, todos os demais personagens a sua volta começam a acreditar que Ceclia pode estar perdendo a razão.

Mais que um filmaço de terror –o que ele também é, visto a condução primorosa de Whannell, e o empregado nunca exagerado, nunca pedante e nunca destituído de propósito de seus efeitos visuais –“O Homem Invisível” é também um filme muito atual na abordagem meticulosa e profunda que faz dos relacionamentos abusivos, um assunto bastante em pauta na busca sempre pertinente por igualdade e justiça para todos.

Na atuação brilhantemente calibrada e estudada de Elizabeth Moss (que leva o filme nas costas sem parecer sentir seu peso) e no roteiro pra lá de competente e relevante (há pelo menos dois momentos em que o filme ameaça terminar sempre tomando um rumo imprevisto e acrescentando novas e magistrais camadas à trama), o filme do diretor Leigh Whannell cria uma das melhores transfigurações de gênero ao acomodar os códigos do terror numa premissa que foca em uma situação aflitiva e muito real como a violência doméstica, seja ela física ou psicológica.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aquaman

É comum acontecer de diretores oriundos exclusivamente de filmes de terror fazerem trabalhos espetaculares quando lidam com material hollywoodiano –foi assim, por exemplo, com “O Senhor dos Anéis” que ganhou do diretor Peter Jackson um tratamento que conciliou suas muitas facetas num todo primoroso graças à sua capacidade de enfatizar um insuspeito peso dramático.
Essa mesma percepção se repete em “Aquaman”, que o diretor James Wan, vindo dos bem-sucedidos “Invocação do Mal”, trata de eleger, com seu invulgar domínio narrativo, a melhor produção de um personagem da DC Comics até então, passando a frente do ótimo “Mulher Maravilha” e estabelecendo um belíssimo (e ocasionalmente elevado) padrão de qualidade para os claudicantes “Liga da Justiça”, “Batman Vs Superman” e afins.
Por sinal, fica claro na trama que o longa se passa depois dos eventos relatados em “Liga da Justiça” –onde o Aquaman foi de papel essencial –mas, uma breve menção é tudo que o diretor James Wan se presta a fazer; todo o restante do filme pertence ao seu protagonista e à fascinante mitologia que ele construiu com zelo e empenho em torno dele.
Arthur Curry (Jason Momoa, abraçando o protagonismo com um carisma inquestionável) pertence a dois mundos –por um lado, ele é filho da poderosa rainha Atlana (Nicole Kidman, fantástica), por outro, seu pai vem a ser o humilde faroleiro Thomas Curry (Temuera Morrison). Ambos se encontraram quando Atlana se feriu num combate e, à deriva, foi parar no litoral do chamado “mundo da superfície”. Do amor entre o terráqueo e a atlante, nasceu Arthur, um filho do qual ela teve de abrir mão para que os atlantes –sempre hostis e arredios para com o povo da superfície –não viessem atrás dele.
Arthur cresceu alheio e indiferente à sua herança atlante –usando seus poderes, como pudemos notar no filme da Liga da Justiça, para salvar pescadores aqui e ali –até que o guerreiro Vulko (Willen Dafoe), a pedido de Atlana, aparece para treiná-lo.
Assim, Arthur descobre que tem um irmão, Orm (Patrick Wilson, o ator-assinatura de James Wan) e que na sua ausência, é Orm quem subirá ao trono decretando uma guerra contra a superfície que terminará em prejuízo para ambos os lados.
É a belíssima Mera (Amber Heard, uma aparição aqui tanto quando em “All Boys Love Mandy Lane”, que a revelou) que aparece –depois de seu rápido encontro em “Liga da Justiça” –para lhe afirmar que o único meio de deter Orm é reclamando seu direito, como primogênito, ao trono.
Mas, a impulsividade Arthur o coloca em desvantagem contra Orm (e ainda quase lhe custa a própria vida): Para sobrepuja-lo de uma vez, Arthur deve assim encontrar o lendário tridente perdido do primeiro rei atlante.
Sensato, o diretor James Wan estrutura seu roteiro com base nos mais indiscutíveis e certeiros conceitos da jornada do herói, pontuando a partir de um determinado momento a busca por um artefato precioso quase como uma saga de “Indiana Jones” –há, portanto, em seu enredo, todas as reflexões necessárias a respeito de valor, legado, herança e responsabilidade, e ele amadurece seu personagem principal com base nessas características enquanto emoldura nele um filme de rara beleza épica a aportar nos cinemas: Não é exagero afirmar que as batalhas grandiloquentes que ocupam a tela no terço final ombreiam em refinamento e fulgor visual com as memoráveis sequencias de “O Senhor dos Anéis”!
É, pois, algo até irônico: Vítima constante de piadinhas acerca de sua relação com peixes e suas habilidades aquáticas em comparação com os desprendidos Superman e Batman, o atlante Aquaman ganha aqui um filme majestoso, invulgar e antológico que o põe anos-luz à frente das produções recentes daqueles outros heróis, e cuja excelência fará qualquer um engolir em seco ao tentar fazer alguma piadinha sobre ele no futuro.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A Saga Velozes e Furiosos


Velozes e Furiosos
No ano de 2001 talvez ninguém tivesse idéia (nem mesmo seus realizadores) de que “Velozes e Furiosos” viria a ser uma franquia tão longeva e comercialmente marcante.
Visto hoje, o primeiro filme se revela tímido (em meio à trama policial, há uma única sequência realmente explosiva de perseguição de carro) e incrivelmente datado (os cabelos, atitudes e modismos do filme deixam bem claro que este já pertence a uma época que não é a atual).
Provavelmente pensado como um produto escapista de verão, o primeiro filme não faz um único esforço para ser original.
Seu enredo em particular se resume a um conceito que pega emprestado elementos de filmes lançados anos antes como a premissa do policial infiltrado presente tanto em “Atraídos Pelo Desejo” (com Charlie Sheen), quanto no ótimo “Caçadores de Emoção” (dirigido por Kathryn Bigelow, com Keanu Reeves e Patrick Swayze).
Uma quadrilha audaciosa tem roubado caminhões em L.A. munida de carros de corrida –os assaltos são executados sem paradas, em alta velocidade!
Logo, o policial Bryan O’ Connell (Paul Walker, no personagem pelo qual será sempre lembrado) é designado para infiltrar-se nesse meio e encontrar uma pista dos assaltantes.
Ele faz amizade com o experiente Dominique Toretto (Vin Diesel, roubando consideravelmente a cena) que lhe põe a par das complexidades do contexto.
Como é inevitável na cartilha de um roteiro pretensamente bom e envolvente (ainda que indiferente ao clichê), a amizade entre O’ Connell e Toretto cresce em paralelo aos indícios de que é ele o líder da misteriosa quadrilha.
Grande sucesso de bilheteria, o grande acerto de “Velozes e Furioso” foi a sua, digamos, romantização dos rachas e corridas de carro –mais ou menos, o quê “Top Gun” fez pelos pilotos de caça-aéreos: Uma roupagem de glamour, adrenalina e fascínio proporcionada pelo cinema (e que certamente não tem nada a ver com a realidade) indo de encontro às ansiedades de toda uma geração de expectadores ávidos por um filme que representasse suas aptidões.

+ Velozes + Furiosos
A primeira continuação seguiu assim um caminho convencional enquanto sequência –e, para variar, revelando-se menos interessante que o anterior...
Seu maior problema: Vin Diesel, grande responsável pelo sucesso do filme declinou de sua participação no filme; Diesel então investia pesado em sua carreira e, com outras duas franquias em potenciais para se ocupar (a aventura de espionagem “Triplo X” e a elogiada ficção científica “Eclipse Mortal”, com o personagem Riddick), ele desistiu de “Velozes e Furiosos” fazendo com que o protagonismo integral caísse sobre os ombros de Paul Walker e seu Bryan O’ Connell.
Na direção, substituindo Rob Cohen do filme original, entrou John Singleton (de “Os Donos da Rua”) que, em resposta às pressões corriqueiras desse tipo de produção acrescentou mais dinamismo à montagem, amplificou consideravelmente as cenas de corridas e fez do filme um mero policial de ação.
Continuando exatamente onde o primeiro filme parou –com O’ Connell renegado pela polícia após ter deixado que Toretto escapasse –reencontramos o ex-policial em disputas de rachas ilegais na fronteira com o México. O’ Connell é então requisitado em Miami para uma missão de tal maneira movediça que, se realizá-la, obterá perdão pelos desvios na missão anterior.
Este roteiro visivelmente agrega o personagem de Tyrese Gibson como forma de tentar substituir a presença de Vin Diesel, mas tanto esse esforço quanto as manobras executadas pelo diretor Singleton não contornam a redundância da produção.
Ainda assim, “+ Velozes + Furiosos” parece ter agradado seu público que se mostrou satisfeito com a prevenção dos elementos que constituíam o clichê desse gênero –uma característica que passaria a dominar a franquia.

Velozes e Furiosos 3-Desafio Em Tóquio
Por sua vez, quando foi lançado o terceiro filme da série "Velozes e Furiosos" pouco pareceu ter de relação com os anteriores (exceto uma citação surpresa perto do fim), inclusive abandonando sua trama policial e o elenco de protagonistas que surgiram nos outros filmes.
A idéia acabou lembrando um pouco o que havia sido feito em “Halloween III”, nos anos 1980 –também ele uma trama completamente à parte dos dois filmes anteriores.
Contudo, foi aqui que entrou o diretor Justin Lin, compensando tudo com um trabalho de ritmo e edição tão vertiginoso quanto criativo que pôs as peripécias dos demais filmes no chinelo –foi o próprio Lin quem capitaneou, mais tarde, uma espécie de reinvenção de “Velozes e Furiosos”, mas, antes vamos à trama deste terceiro filme...
Rapaz que arrumou muitos problemas em Los Angeles (terminando com uma enorme dívida após um racha de automóveis) é despachado para Tóquio onde seus familiares esperam que encontre um rumo na vida. Mas lá ele conhece um grupo que também participa de rachas ilegais, usando os carros inclusive para manobras impossíveis chamadas "driffting".
Curioso como certos conceitos de filmes oitentistas ainda influenciam o filme –mesmo estando ele desconectado da trama principal dos demais; aqui, muito lembra a premissa de “Karatê Kid 2”, substituindo as lutas, claro, por carros de corrida e suas manobras impossíveis.

Velozes e Furiosos 4
O filme que retoma a tradição de “Velozes e Furiosos” –ou, na opinião de alguns, a inicia de fato!
Justin Lin, o diretor e Chris Morgan, o roteirista, ambos responsáveis pelo terceiro filme, considerado um dos mais bem-acabados da série uniram-se ao agora produtor Vin Diesel, e juntos tomaram a decisão de resgatar o elenco do filme original, para fazer o que é a mais autêntica continuação do primeiro filme. Assim a dinâmica entre os personagens originais (uma das razões do sucesso do primeiro “Velozes e Furiosos”) interpretados pelo próprio Vin Diesel e por Paul Walker, é retomada, junto das alucinantes corridas de automóveis turbinados.
É aqui também que começa a se desenhar o grande subtexto proclamado pela saga (aplicado sem muita sutileza, como teria de ser mesmo...) no qual se enaltece o conceito de família.
O policial O’ Connell –aparentemente já tendo superado as conseqüências do primeiro filme –na perseguição a uma quadrilha cruza o caminho de um velho conhecido seu, um ex-criminoso que foi seu aliado no passado e que agora quer vingança pelo assassinato da namorada, Dominique Toretto –que o roteiro, a condução e a influência de Vin Diesel como produtor trataram de finalmente enfatizar como o protagonista de fato da franquia.
De forma inicialmente relutante, os dois unem forças mais uma vez para, juntos, enfrentarem os bandidos no terreno que mais dominam: as corridas de carro.

Velozes e Furiosos 5
Parte do tempo e do enredo despendido nos filmes que se seguiram foi empregado para unir muitas das pontas soltas deixadas por três filmes que não necessariamente se importavam em estabelecer conexões entre si.
Por sorte, os realizadores passaram a tratar a narrativa com coesão e unidade, justificando eventos pregressos que soavam banais e aleatórios –foi tão funcional que os fãs, neste filme e nos próximos, passaram a enxergar em “Velozes e Furiosos” uma sinergia entre os personagens e suas tramas paralelas semelhante ao que –pasmem! –a própria Marvel Studios vinha fazendo com seus heróis num universo compartilhado.
Também outra característica dos filmes de super-heróis logo começou a aparecer em “Velozes e Furiosos”: A ação em tintas cada vez mais implausíveis.
O quinto filme –para o qual o anterior já deixava um gancho palpitante ao final –acompanha Toretto numa tentativa de elucidar o misterioso assassinato de Letty (Michelle Rodrigues), sua companheira desde o primeiro filme, o que o leva a associar-se, mais uma vez, ao ex-policial O’ Connell, desta vez numa aventura em terras brasileiras.
Um dos apelos deste quinto filme foi a introdução, como vilão ocasional (nos filmes seguintes ele passou para o lado dos mocinhos), do brutamontes Hobbs, interpretado por Dwayne ‘The Rock’ Johnson: Afinal, Johnson e Diesel eram os dois grandes astros de ação do novo milênio, os mais autênticos sucessores de Schwarzenegger e Stallone.

Velozes e Furiosos 6
Se o filme anterior girava em torno da busca pelos assassinos de Letty, a sexta produção –que transfere sua ação para as ruas e auto-estradas de Londres, na Inglaterra –se inicia a partir da descoberta de que Letty, na verdade, não morreu. Todavia, ela não parece lembrar quem foi, visto que agora está aliada aos inimigos e comporta-se como se não conhecesse seus outrora aliados –nem mesmo seu amado Toretto!
Também a ‘Parte 6’ traz uma manobra sintomática à série: Hobbs, personagem de Dwayne Johnson e antagonista do filme anterior, por uma série de circunstâncias, se junta ao grupo e se torna mais um dos membros da ‘família’ –e esse é um tema que, a partir do quarto filme passou a definir os propósitos da série.
É Hobbs quem arregimenta Toretto e sua trupe (incluindo O’ Connell; Roman Pearce, o personagem de Tyrese Gibson introduzido no segundo filme e que, depois, ganhou um background de alívio cômico; e tantos outros) para perseguir e capturar o grupo mercenário de operações especiais liderado por Owen Shaw (Luke Evans, até então o vilão mais expressivo da série) ao qual Letty (por razões mirabolantes esmiuçadas ao longo do filme) está integrada.
A “Saga Velozes e Furiosos” neste ponto já havia atingido uma espécie de ápice: Suas bilheterias eram gordas e garantidas, seus fãs, entusiasmados e satisfeitos, e seus astros, na pior das hipóteses, agradecidos. O plano certamente era continuar assim indefinidamente; e a cena pós-crédito, que finalmente começava a conectar a narrativa do terceiro filme com todos os demais, deixava isso bem claro.
Contudo, como se sabe, durante as filmagens da ‘Parte7’ um acidente tirou a vida de Paul Walker, um dos protagonistas, levando a série para um outro rumo em geral e o sétimo filme para uma outra abordagem em particular.

Velozes e Furiosos 8
O quê nos leva ao oitavo filme.
Depois da estrondosa bilheteria do sétimo filme –em grande parte, impulsionada pelo fascínio mórbido e pelo viés emotivo da morte de Paul Walker –a produção ainda buscou, de forma nada lisonjeira, continuar capitalizando em cima de seu astro falecido: A afirmação de Diesel e dos envolvidos era que o filme anterior era “para Paul” e que o novo era “por Paul”...
Este novo filme, dirigido por F. Gary Gray, trazia como vilã a personagem de Charlize Theron (que trabalhou com Gray em “Uma Saída de Mestre”) –e todas as suas características (uma hacker, com recursos ilimitados e maldade megalomaníaca), já denunciavam o fato de que os filmes já haviam assimilado todo o absurdo fantasioso de referências ao estilo “James Bond” (inclusive com locações ao redor do mundo se sucedendo com a naturalidade de uma ida até a esquina!).
Conforme já havia acontecido antes, o vilão do filme anterior, Ian Shaw (Jason Statham, mais um emblemático marombado) por força das circunstâncias se torna um dos aliados, ao passo que o protagonista Toretto (com Vin Diesel ainda mais altivo e prepotente com a ausência de Paul Walker) tem uma curiosa reviravolta: Ele se alia à vilã contra seus amigos, num estratagema que vai sendo revelado aos poucos.
Assim, sem Vin Diesel para conduzir os momentos envolvendo os numerosos personagens que passaram a compor a galeria da série, a liderança de cena pesa assim sobre os volumosos ombros de Dwayne Johnson e Jason Statham, que revelam-se juntos o grande achado do filme: Tão primorosa é sua química em cena –inclusive em meio à ação e à pancadaria –que, logo, o estúdio tratou de viabilizar um derivado protagonizado pelos dois; desta vez, sem Vin Diesel para ficar atrapalhando!
A série “Velozes e Furiosos” em si, por outro lado, está prevista para durar dez filmes (!), restando ainda ser anunciado o lançamento dos próximos dois.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Invocação do Mal

Saudado pela crítica e público como o melhor filme de terror de 2013 (embora seus competidores não fossem, por assim dizer, fortes), “Invocação do Mal” revelou-se um belo exemplo do domínio de narrativa do diretor James Wan, um verdadeiro especialista no gênero que realizou o primeiro filme da série "Jogos Mortais" (uma das produções que determinou as características de todo um filão de filmes de terror da década de 2000) e o bem-sucedido "Sobrenatural-Insidious".
O que James Wan faz não tem absolutamente nada de inovador: Ele tão somente manipula com precisão e bom senso (essas sim, características raras entre diretores mais jovens) os mesmo elementos explorados com perfeição pioneira no clássico “O Exorcista” –um filme ao qual este “Invocação do Mal” presta um incalculável tributo.
Anos 1970. Renomados demonólogos, o casal Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga, ambos ótimos) especializou-se em esconjurar entidades malignas que perturbavam pessoas comuns nos mais diversos casos, como o célebre episódio da boneca Annabelle –mais tarde, ele próprio transformado num filme.
Embora esta atividade lhes tenha cobrado, por vezes, um preço alto.
Este filme é baseado no que é considerado por eles mesmos, seu caso mais assombroso: A progressão terrível e violenta das aparições de um espírito para uma família americana de classe média, numa casa que antes pertencera a uma mulher acusada de bruxaria.
A despeito da veracidade inconteste e alardeada de sua trama –um fator empregado à exaustão no marketing do filme a fim de valorizar seus sustos –a história, da forma como é apresentada no filme tem inevitáveis reformulações hollywoodianas e liberdades poéticas em prol de uma narrativa fechada e otimista; na vida real, os demonólogos não foram capazes de livrar a família dos espíritos e eles tiveram que simplesmente deixar a casa.

Em tempo: Os casos do casal Warren inspiraram outros filmes mais ou menos conhecidos de terror como “Horror em Amityville” e “Invocando Espíritos”.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Velozes e Furiosos 7

Nessas horas eu me sinto aquele cara que costuma nadar contra a corrente. Já que, hoje em dia, todo mundo gosta da franquia Velozes e Furiosos por uma série de distintas razões.
Eu sempre achei uma bobagem, uma mera justificativa para corridas incessantes de carro. Mas, um amigo meu, fã da série, insistia para que eu desse uma chance a ela, que deveria vencer meu preconceito e tal.
O quê me levou a rever alguns desses filmes, culminando no tão falado sétimo filme, aquele que meio mundo assistiu devido à curiosidade mórbida por ter sido o trabalho que o ator Paul Walker (falecido por acidente com as filmagens ainda no meio) não conseguiu completar.
É um filme de ação com todas as letras. Daqueles exemplares típicos de hoje em dia, onde a montagem acelerada faz muita gente se perder em cena.
Não é uma questão de vencer o preconceito: se você é desses que não gosta de ação desenfreada, descerebrada e inverossímil, este filme não é para você.
Interessante que, nesse sentido há uma progressão nítida nos filmes da série. O primeiro Velozes e Furiosos, lançado lá no ano 2001, salvo as corridas que abrem e fecham a trama, tem uma única corrida de carros o filme inteiro! O resto é uma história de policial infiltrado, com ecos de "Caçadores de Emoção".
A pecha "filme de corrida de carros" foi mais acentuadamente abraçada na continuação "+ Velozes +Furioso", realizada só com Paul Walker, sem a participação de Vin Diesel. Embora a quantia de cenas de raja tenha sido ampliada exponencialmente, essa continuação é tida hoje, com quase unanimidade, como o mais fraco dos filmes da série.
Talvez tenha sido isso que levou ao fato de o terceiro filme ser uma história completamente independente dos dois primeiros. "Velozes e Furiosos - Desafio em Tóquio" mostrava uma trama na qual um jovem norte-americano envolvia-se em rachas arrojados disputados no Japão, onde a modalidade "drifting" era a grande sensação. A ideia, talvez, fosse seguir uma nova história dali para frente. Ou contar uma nova história a cada filme, sei lá...
 O importante era que, no terceiro filme da série, a entrada do diretor Justin Lin promoveu uma interessante melhora na direção: "Desafio em Tóquio" pode não ser o melhor da série, mas é, certamente, um dos mais bem construídos, apesar de sua trama frustrar o expectador  com quase nenhuma ligação com os anteriores, salvo uma participação especialíssima de Vin Diesel no final.
Foi assim que as coisas passaram a tomar um outro rumo. Com Justin Lin confirmado como diretor, o quarto filme recuperava Vin Diesel, agora não apenas como astro, mas como produtor também.
Com ele, voltaram Paul Walker e todos os protagonistas do primeiro filme, numa clara intenção de revitalizar a saga.
E foi o quê ocorreu, o filme seguinte, "Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio" dava continuidade ao gancho explícito deixado no filme do quarto filme, e trazia toda a trupe para correr nas ruas do Brasil, aproveitando para introduzir novos personagens ao grupo, inclusive um ainda vilanesco Duaine "The Rock" Johnson.
Enquanto narravam suas histórias com cenas de rachas de carro cada vez mais e mais mirabolantes, os roteiros dos filmes, sobretudo o quinto e o sexto, aproveitavam para juntar pontas soltas: O amigo de Paul Walker que surge do nada no segundo filme reaparece, o japonês do terceiro (ainda que ele tenha morrido no fim daquele filme!) torna-se figura recorrente na série.
O quê nos leva, enfim, ao sétimo filme...
Filmes de ação são fetichistas, não há a menor dúvida, e o fetiche de "Velozes e Furioso" sempre foram os carros, ainda que, a partir do quarto filme, a série tenha ganhado um forte sub-texto sobre família.
Em "Velozes e Furiosos 7" as corridas são insanas. Certamente, as mais bem elaboradas e complexas de toda a série (ainda que percam de lavada para as maravilhas técnicas que podemos ver em "Mad Max - Estrada da Fúria"). Só que o fato de cada filme ter de superar as proezas do filme anterior leva a um problema: As cenas de ação como um todo -e não apenas as de corridas de carro -são de um exagero que pode até assombrar quem não está acostumado aos filmes da série. Temos uma perseguição onde os carros descem por ribanceiras inacessíveis como se descessem uma estrada asfaltada; um carro pulando de um edifício para outro em Abu Dabi; e, no fim, uma corrimaça envolvendo os carros tunados de sempre, um helicóptero e um drone, que destroem metade da cidade (!).
O fato de não contarem com a presença do falecido Paul Walker, mas apenas de metade de suas cenas filmadas, torna este um filme menos sólido que os anteriores em termos narrativos. Percebe-se que, ao contrário dos outros filmes, o personagem dele, Brian O'Connel, é deixado muitas vezes de lado em prol do Toretto, de Vin Diesel, o quê muda muito da dinâmica que tínhamos visto os dois estabelecer ao longo da série. E isso é uma pena.
Não é, nem de longe, um caso como "O Cavaleiro das Trevas" cuja tragédia do falecimento de Heath Ledger levou milhares de expectadores ao cinema, mas que não afetou em nada o nível estratosférico de qualidade do filme.
Aqui, percebe-se, até com certo lamento, os momentos em que Paul Walker provavelmente teria mais presença com seu personagem, mas que são suprimidos e contornados com ajustes ou piadinhas do roteiro, e isso nem sempre funciona (na verdade, quase nunca funciona!).
E então chega a dita da cena final, na qual o filme faz uma curiosa despedida do seu personagem, com Vin Diesel e sua trupe numa praia ensolarada, discutindo a partida do amigo, com uma evidente constatação de que ele não estará mais entre eles. Nesse momente, não parecem falar de Brian O'Connel, mas do próprio Paul Walker.
A cena é de uma emoção real e palpável, que deve ter justificado muitas das rasgadas críticas positivas ao filme. Ele e Vin Diesel emparelham seus carros lado a lado, e enquanto uma música toca (composta especialmente em homenagem a Paul Walker) um sucessão de cenas invade a tela, relembrando os momentos de Paul desde o primeiro filme, até este que se encerra. Onde ele se despede do público.
Os carros correm por um estrada que então se divide, e o carro de Paul Walker parte sozinho, numa outra direção, com a voz poderosa e solene de Vin Diesel despedindo-se dele, mas prometendo que vão se encontrar uma outra vez.
Pode ser (e é!) um filme imperfeito, mas este é (ao lado do genial "Divertida Mente" da Pixar) o final mais emocionante do ano.