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domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

O Escândalo


 Se em princípio Jay Roach foi um realizador de comédias compromissadas tão somente com o objetivo de fazer rir (como atestam os hilariamente ácidos exemplares da série “Entrando Numa Fria”), aos poucos, filme após filme, ele conseguiu migrar para o cinema uma capacidade que já demonstrava em obras televisivas: Uma percepção desigual e afiada para registrar com urgência sublime e relevância maiúscula as arestas sociais e comportamentais de certos aspectos da modernidade na política norte-americana, como atestam os formidáveis “Virada de Jogo” (feito para TV) e “Trumbo” (lançado em cinema). Neste magnífico “Bombshell”, Roach mantêm suas câmeras aguçadas no panorama político da América (sua trama abrange o período das eleições presidenciais norte-americanas de 2015-16), ao mesmo tempo que joga luz sobre um tema cada vez mais necessário: A cultura do assédio.

Ainda no ano de 2015, a âncora Megyn Kelly (Charlize Theron, espetacular) foi escolhida pelo canal de notícias Fox News para mediar os debates presidenciais entre os pré-candidatos republicanos, entre eles, aquele que terminaria ganhando a preferência –e, no ano seguinte, as próprias eleições –Donald Trump. Embora ferrenha defensora dos ideais ultra-conservadores de direita, Megyn foi fiel ao perfil combativo com o qual era vista na mídia e confrontou Trump com perguntas incisivas sobre sua alardeada misoginia.

O episódio gerou um impasse delicado na Fox News: Ao mesmo tempo em que a rede jornalística representava um dos maiores apoios à candidatura republicana –e Megyn beneficiava-se de relativa confiança do todo-poderoso presidente do canal Roger Ailes (John Lithgow, sordidamente convertido por quilos de maquiagem) –a jornalista comprou uma briga informal contra o candidato que passou a retuitar em mídia nacional várias ofensas contra ela.

Essa transformação forçada de paradigmas de Megyn coincidiu com outro acontecimento, também ressonante, nos corredores da Fox News; transferida de um programa do horário nobre para outro na ingrata programação da tarde (por não suportar o sexismo predominante de seus colegas de cena), a apresentadora Gretchen Carlson (Nicole Kidman, ótima) abriu um processo por antigos abusos sexuais contra o próprio Roger Ailes tão logo é, por fim, demitida.

Hábil e astuta, Gretchen tinha algumas cartas na manga, como a previsível atitude de sua demissão por parte de seu patrão manipulador, mas contava com a aparição, logo após sua iniciativa, de outras mulheres que também foram assediadas. É Megyn, inesperadamente, uma delas, entretanto, ela estava longe de ser a única: Também ganha bastante espaço na narrativa a circunstância de Kayla Pospisil (Margot Robbie, em corajosa e brilhante atuação), jovem produtora em ascensão profissional dentro da Fox News que é coagida, naquela que é de longe a cena mais aflitiva de todo o filme, por Roger Ailes em pessoa à levantar sua saia até que sua calcinha fique visível. Dentre todas essas personagens, somente  a de Kayla não é precisamente real –trata-se de um amálgama de pelo menos duas dezenas de mulheres que prestaram depoimento ao roteirista do filme, Charles Randolph (de “A Grande Aposta”).

Impressionante, entre outras coisas, é também o retrato que o filme de Roach faz do clima que surge, logo em seguida, nos corredores da Fox News: Com seu presidente sendo acoado por questões imprevistas de natureza procedural, a rede move seus recursos tentando provar o contrário, que Ailes era respeitador e inofensivo (funcionárias são obrigadas a vestir uma camisa em apoio ao chefe processado e depoimentos positivos são exigidos de praticamente todas as mulheres da empresa), que provas para quaisquer acusações eram inexistentes (uma severa operação de pente-fino, inclusive com o uso de escutas telefônicas, é adotada), e que a ex-contratada do canal, Gretchen Carlson, não era alguém confiável (todo o arsenal midiático da Fox News é subitamente voltado contra a reputação pessoal e profissional dela).

Contudo, as trajetórias íntimas de cada uma dessas três protagonistas, Megyn, Kayla e Gretchen, haverá de expor os caminhos tortuosos por meio dos quais, felizmente, a verdade se fez prevalecer, levando Ailes, após uma avalanche repentina de inúmeras acusações de assédio, a ser demitido pelo próprio dono da corporação, o magnata Rupert Murdoch (uma ponta de Malcolm McDowell).

Realizado com um brilhantismo à toda prova, “Bombshell” parece confrontar o expectador com uma difícil questão: Por meio de quais engrenagens nocivas, uma série de mulheres empoderadas, em plena década de 2010, são levadas à compactuar com o abuso sexual? Parte efetiva e crucial de um movimento que chegou até tardiamente ao entretenimento (o de obras que registram e confrontam esse comportamento tóxico), o filme de Jay Roach oferece um panorama primorosamente cristalino e bem construído dessas circunstâncias, para deixar que a conclusão fique inteiramente à cargo do público.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Doutor Estranho No Multiverso da Loucura


 Nos quadrinhos, as inúmeras tramas paralelas que se sucedem e que convergem, muitas vezes, aos mesmos personagens, ambientes e situações raramente acabam despertando nos fãs a minúcia para encontrar detalhes contraditórios ou erros de continuidade. É curioso, pois que, em sua bem-sucedida tentativa de levar esse mesmo status narrativo ao cinema, a Marvel Studios, volta e meia, se defronte com esse problema: Fãs, um tanto quanto chatos e minimalistas, apontando esta ou aquela imperfeição nas amarras de suas histórias.

Já contando mais de vinte produções em sua filmografia –além de algumas séries! –a Marvel começa a enfrentar esta e outras velhas questões, já antigas nos quadrinhos, a respeito de quanto material o expectador deve assim ter conhecimento para compreender na íntegra o filme que irá ver no cinema. E a verdade a ser encarada, hoje, é que... não, não há como assistir a tudo, saber de tudo, ter conhecimento de tudo. E, se esse é um fato bem aceito aos leitores de quadrinhos, com o tempo, os expectadores de cinema, ainda que bem mais exigentes, terão de aceitar também.

Tomemos “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” como exemplo. A princípio, as maiores referências adotadas em sua trama são o filme “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, com participação do Dr. Estranho (o ótimo Benedict Cumberbatch) e do qual é continuação quase direta, a série “WandaVision” que, em função da participação fundamental de Wanda Maximoff (a sensacional Elizabeth Olsen), acaba também dando continuidade à sua trama, e a série “Loki”, cuja abordagem do Multiverso, ainda que indiretamente, influencia todos os desdobramentos que veremos neste filme; e não tenha dúvidas, em outros projetos futuros também! Há também de se considerar o primeiro “Doutor Estranho” –a introdução, afinal, de muitos dos personagens presentes aqui –e o próprio “Vingadores-Ultimato” –ponto crucial para quase todas as histórias desenvolvidas pela Marvel daqui para frente –mas, a verdade é que, dentro em breve, será impossível acompanhar a tudo.

Como ocorre nos quadrinhos, meu conselho é o expectador  desencanar e curtir a viagem, aproveitar a trama, construída pelos roteiristas a fim de ser o mais satisfatória possível bastando em si mesma, mas certamente dependente (e referente) a várias outras vindas antes e depois. Os enredos da Marvel Studios serão, assim, uma miríade de narrativas que acontecem para frente (os filmes vindouros), para trás (os filmes que já foram feitos) e para os lados (alguns casos de obras que se passam quase simultaneamente aos eventos deste), e aos poucos, se não foram todos conferidos, com tempo, haveremos de descobrí-los.

“Multiverso da Loucura” traz Stephen Strange às voltas com uma jovem literalmente única: America Chavez (a carismática Xochiti Gomez) dotada do raro poder de teleportar-se entre uma realidade paralela e outra. Tal poder a torna alvo de ninguém mais, ninguém menos que Wanda, a Feiticeira Escarlate, que desde os eventos atribulados de “WandaVision” –onde sequestrou toda uma cidade para criar uma ilusão feliz onde vivia ao lado do trágico Visão (Paul Betany) e de seus dois filhos pequenos, materializados pelo poder incomensurável de sua magia –almeja pegar os poderes de America para si a fim de reaver seus filhos perdidos, nem que seja tirando-os de outra realidade alternativa.

Na batalha que se segue, Estranho é obrigado a valer-se inadvertidamente dos poderes de America –os quais ela não sabe controlar –e pular para outros universos, tentando escapar de Wanda.

Astuta que só, a Marvel Studios vale-se desse mote para presentear os fãs com momentos vibrantes e referências a outros personagens, numa manobra um pouco parecida com a aparição-surpresa de Andrew Garfield e Tobey Maguire em “Sem Volta Para Casa”. Uma dessas surpresas –só para ficarmos naquelas que os expectadores já tinham ideia de antemão –é a presença de Charles Xavier (Patrick Stewart), o Professor X, anunciando que, em algum lugar do horizonte, os X-Men estão bem próximos de aparecer no Universo Marvel.

E quanto ao filme em si? Embora inquieto, envolvente, visualmente esplendoroso e tecnicamente impecável, é necessário guardar as devidas proporções ao apreciarmos “Multiverso da Loucura”, sobretudo tendo como expectativa os incondicionalmente arrebatadores “Vingadores-Guerra Infinita” e “Ultimato”. A Marvel, como foi dito em outras ocasiões, estabeleceu com com esses dois trabalhos, um patamar tão alto que representa um desafio, e um empecilho, para todas as produções que vieram depois deles igualar tamanha excelência. E com “Multiverso da Loucura” não é diferente. A saída, um tanto brilhante, da Marvel Studios aqui é focar na diferenciação; este novo filme estrelado por Stephen Strange é, pela primeira vez no UCM, um filme de terror, cortesia da desenvoltura de gênero do diretor Sam Raimi, substituindo o diretor anterior, Scott Deriksson (aqui como produtor executivo). De um estilo forte e personalíssimo –o que curiosamente não colide com as predisposições muito comerciais da Marvel –Raimi (que realizou, além dos cultuados filmes de série “Evil Dead”, a “Trilogia Homem-Aranha” com Tobey Maguire e o primeiro “filme-quadrinho” da era moderna, “Darkman-Vingança Sem Rosto”) acrescenta à narrativa os elementos que tanto ama trabalhar, como os movimentos inusitados de câmera, os jump-scares, e o apreço por ícones tenebrosos como zumbis (o desfecho final é impagável!), olhos fulgurantes de possessão (Elizabeth Olsen, grande atriz, consegue ficar assustadora apesar da grande beleza) e um senso de humor muito peculiar a temperar toda essa morbidez.

A assinatura de Raimi, assim sendo, é nítida e constante neste filme, embora ele seja, nítida e constantemente, um filme também da Marvel Studios.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Monster - Desejo Assassino

Em meados de 2003, a carreira da atriz Charlize Theron havia entrado numa seara complicada: Embora já tivesse estagnado ao estrelar projetos genéricos que insistiam em rotulá-la –sobretudo, diante da grande beleza –como os pouco notáveis “Doce Novembro”, “Lendas da Vida” e “Encurralados”, ela também não havia ainda atingido um status que a consolidasse como estrela.
A saída para ser vista como fulgurante atriz capaz de reinventar-se quando necessário aos olhos da indústria –e, se possível, levar uns prêmios pelo esforço –surgiu quando ela decidiu radicalizar e estrelar (além de produzir) o filme independente de estréia da diretor Patty Jenkins, que atrevia-se a biografar a trajetória (ou, ao menos parte dela) de Aileen Wuornos, a primeira mulher condenada à morte na cadeira elétrica sob acusação de ser uma serial-killer.
De fato, para o papel, Charlize transformou-se: Deixou de lado a pele macia e bem cuidada, colocou próteses dentárias que alteraram drasticamente o aspecto de seu rosto, pôs lentes de contato castanhas sobre seus lindos olhos azuis, e engordou alguns quilos –uma metamorfose completa como os membros da Academia costumam adorar e enaltecer de tempos em tempos: Desnecessário dizer, portanto, que esse esforço lhe valeu o Oscar 2004 de Melhor Atriz, além do Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática e o Urso de Prata no Festival de Berlim. Lhe valeu também um sopro de renovação na carreira: A partir de então, Charlize passou a ser requisitada para projetos mais nobres e distintos, com realizadores confortáveis com sua capacidade e versatilidade, uma chance e tanto para um carreira que provou-se merecedora: Ela tornou a concorrer ao Oscar em outras duas ocasiões (em 2006, por “Terra Fria” e neste ano mesmo, por “O Escândalo”), compareceu em projetos tão distintos e audaciosos como a ação “Atômica”, a ficção científica “A Estrada” e  a aventura “Branca de Neve e O Caçador”, e marcou presença numa das mais prestigiadas produções dos últimos tempos: “Mad Max-Estrada da Fúria”.
Muito disso se deve à Aileen Wuornos, papel que ela desempenha com ferocidade do início ao fim deste filme carregado de desilusão.
Prostituta de rua desde os 13 anos de idade, Aileen –como notamos na narração em off que acompanha o filme –ainda acreditava num amanhã melhor e no ‘sonho americano’, alimentada por certa ingenuidade, uma característica que, no caso dela em especial, flertava com certa insanidade. Chegando por acaso num bar gay, Aileen conhece a jovem e deslocada Selby Wall (Christina Ricci, presença assídua de produções independentes naqueles anos), cuja homossexualidade a tornou uma pária aos olhos da família.
Embora não fosse lésbica e verbalizasse a pouca vontade de se relacionar com Selby, Aileen, talvez motivada pela própria carència, acaba por se envolver com ela. Quando a convence a deixar a casa dos tios onde morava, Aileen a engana (e, em certa medida, engana a si própria também) com uma história na qual deixará de ser prostituta e arrumará um emprego onde ganhará dinheiro para que as duas possam viver bem.
Ao confrontar Aileen com o exato oposto daquilo que sonhava, a diretora Patty Jenkins desmonta cada uma das facetas do ‘american way of life’, escancarando para a plateia uma América medíocre, suja, amoral, doentia e amargurada.
Contudo, as razões da terrível derrocada de sua protagonista já estavam plantadas antes mesmo disso: Quando ainda tentava obter dinheiro para o segundo encontro com Selby, Aileen decide fazer alguns programas. Ela entra no carro de um cliente que a amarra e tenta estuprá-la com uma chave de roda (!), mas consegue soltar-se e o mata a tiros.
Mais tarde, conforme se dá conta de que a polícia não conseguiu avançar nas investigações acerca do homicídio, e de que suas chances para tentar um emprego honesto no mercado de trabalho são ínfimas, Aileen vai, aos poucos, se convencendo de que os homens pérfidos que atendia eram, em geral, merecedores do fim violento que ela acabou lhes dando. Ela tenta acreditar que os matava para proteger-se, mas as mortes –nas quais desovava o corpo, pegava o dinheiro e ficava com o carro das vítimas –vão se somando de tal maneira que, nos finalmentes, Aileen matava pessoas inocentes de fato, que apenas lhe davam carona, alheios ao fato de que era prostituta.
A diretora Patti Jenkins nem tanto enfatiza esse aspecto ‘serial-killer’ da personagem e do filme, como prefere, muito mais, vislumbrar com atenção e minúcia, os caminhos pedregosos que a levaram até lá. Nesse sentido, é realmente primoroso o trabalho de interpretação de Charlize Theron: Ela emprega os maneirismos que definem Aileen como mecanismos de defesa para ela proteger-se da inclemência do mundo, mostrando a protagonista, em sua inaptidão, se converter quase sem notar numa assassina, enquanto se abastece da certeza ilusória de que está trilhando um caminho rumo ao seu sonho.
Como é inevitável num filme com essa proposta, “Monster” abandona o expectador com um sabor amargo na boca e com as imagens de um deprimente registro de seres à margem de uma sociedade obcecada pelo sucesso mas capaz de esmagar com inapelável crueldade os seus fracassados.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Branca de Neve e O Caçador

É irônico que, perante essa nova e lucrativa tendência dos Estúdios Disney de refazer em filmes com atores suas animações clássicas, tenha sido outro estúdio, a Universal Pictures, quem repaginou em tons realistas o clássico maior da Disney, “Branca de Neve e Os Sete Anões”.
Claro que, por conta disso, “Branca de Neve e O Caçador” tem liberdades poéticas necessárias que afastam o risco de um processo autoral –como o fato de serem oito anões, e não sete (!), além da presença consideravelmente menos importante deles na trama.
Aqui, quem ganha destaque, como o próprio título já trata de esclarecer, é o breve personagem do Caçador (que Chris Hemsworth interpreta com propriedade e carisma) numa manobra narrativa um bocado comum, onde se aventa uma ‘história não contada’ dentro da própria história já muito difundida –e “Branca de Neve” é certamente uma das histórias mais famosas de todos os tempos.
Com uma austeridade narrativa que remete à obras de mitologia mais adulta como “O Senhor dos Anéis”, “Excalibur” ou “O Feitiço de Áquila”, a trama do filme se inicia com a pequena e doce menina Branca de Neve perdendo a mãe e vendo ela ser substituída, não muito depois, pela belíssima Ravena (Charlize Theron, espetacular em todas as facetas da personagem).
Entretanto, Ravena se revela uma feiticeira perigosa e nem um pouco interessada em desposar um rei –ela quer (e, de fato, consegue) é tomar-lhe seu reino, sagrar-se rainha e arremessar todos os súditos num regime tirânico e aterrorizante.
Com seu pai morto, Branca de Neve é convertida em prisioneira, crescendo no alto de uma torre nos anos seguintes –e adquirindo com isso as feições de Kristen Stewart; que não é a boa atriz, nem a linda mulher que é Charlize Theron, mas cujo protagonismo na série “Crepúsculo” lhe garantia estrelato o suficiente para ser aqui a personagem principal.
Se há algo que valoriza “Branca de Neve e O Caçador” é o fato de que, ainda em seus primeiros vinte minutos, já fica evidente a disposição entusiasmada do diretor Rupert Sanders em incorporar um cinema vistoso, assumidamente comercial e visualmente bem acabado para moldar um filme sedutor ainda que amparado numa história batida, e que com frequência não consegue escapar –a despeito de suas intenções de seriedade –das características pueris presentes no conto de fadas: Apesar de tudo, Ravena continua obcecada em manter o título de ‘Mulher Mais Bela’ aos olhos do onisciente Espelho Mágico (cuja personificação visual me lembrou as criaturas dos filmes de Guillermo Del Toro) e, quando Branca de Neve atinge idade o bastante para tomar-lhe tal honraria, a insatisfeita Ravena ordena sua execução.
É quando –em outro momento perigosamente implausível com os quais a trama flerta –Branca de Neve aproveita o ensejo e consegue sozinha fugir do palácio (!), terminando desaparecida na lúgubre e assustadora Floresta Negra.
Indignada com a inépcia de seus soldados, a rainha convoca o único homem capaz de encontrar alguém extraviado por lá, o Caçador.
Beberrão e desesperançado desde que se tornou viúvo (background mais aprofundado na continuação “O Caçador e A Rainha do Gelo”), o Caçador recebe da rainha uma oferta irrecusável: Ela usará seus poderes para ressuscitar sua amada se ele lhe trouxer o coração de Branca de Neve.
No entanto, após encontrar Branca de Neve, o Caçador começa a compreender as razões para a extrema atenção que a ira da rainha dedica a ela: A jovem é a única capaz de tirar Ravena de seu trono e restaurar harmonia ao reino.
Segue-se assim uma aventura episódica onde o diretor leva esse casal central a encontrar os agora oito anões, grupo de personagens que soa mais como alívio cômico do que como um adendo relevante da narrativa, embora entre eles hajam participações ilustres como Bob Hoskins, Eddie Marsan, Ray Winstone, Nick Frost e Ian McShane (todos miniaturizados por computador, como Peter Jackson fez com os hobbits em “O Senhor dos Anéis”).
E também, o providencial ‘príncipe encantado’, na forma do apaixonado amigo de infância William (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”) cujo exército contribui para a inevitável batalha final, reflexo condicionado do sub-gênero de filmes épicos que o trabalho de Sanders, em seu caráter evocativo, não resistiria.à tentação de incluir.
Há também a clássica passagem da maçã envenenada, seguida do igualmente clássico momento do beijo que faz Branca de Neve despertar –aqui, o trabalho de Sanders também aproveita para inserir uma sutil intenção transgressora ao sugerir que, longe dos olhos de testemunhas, foi o beijo do Caçador, e não o do príncipe quem despertou a protagonista –um prenúncio de triângulo amoroso que talvez estivesse nos planos da vindoura continuação, mas que foi completamente modificado em função da polêmica que envolveu a divulgação do filme: A atriz Kristen Stewart e o diretor Rupert Sanders, ambos comprometidos, foram flagrados juntos por paparazzis, o quê afastou ambos do segundo projeto, “O Caçador e A Rainha do Gelo”.
Contudo, se a continuação, por todas essas razões de afastamento, resultou fraca, aqui obtem-se uma produção fluente, de encher os olhos e satisfatória para os aficcionados de aventuras de espada & magia, num esforço até que válido, mas ocasionalmente banal, para ocultar os traços infantis de conto de fadas da história original.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A Saga Velozes e Furiosos


Velozes e Furiosos
No ano de 2001 talvez ninguém tivesse idéia (nem mesmo seus realizadores) de que “Velozes e Furiosos” viria a ser uma franquia tão longeva e comercialmente marcante.
Visto hoje, o primeiro filme se revela tímido (em meio à trama policial, há uma única sequência realmente explosiva de perseguição de carro) e incrivelmente datado (os cabelos, atitudes e modismos do filme deixam bem claro que este já pertence a uma época que não é a atual).
Provavelmente pensado como um produto escapista de verão, o primeiro filme não faz um único esforço para ser original.
Seu enredo em particular se resume a um conceito que pega emprestado elementos de filmes lançados anos antes como a premissa do policial infiltrado presente tanto em “Atraídos Pelo Desejo” (com Charlie Sheen), quanto no ótimo “Caçadores de Emoção” (dirigido por Kathryn Bigelow, com Keanu Reeves e Patrick Swayze).
Uma quadrilha audaciosa tem roubado caminhões em L.A. munida de carros de corrida –os assaltos são executados sem paradas, em alta velocidade!
Logo, o policial Bryan O’ Connell (Paul Walker, no personagem pelo qual será sempre lembrado) é designado para infiltrar-se nesse meio e encontrar uma pista dos assaltantes.
Ele faz amizade com o experiente Dominique Toretto (Vin Diesel, roubando consideravelmente a cena) que lhe põe a par das complexidades do contexto.
Como é inevitável na cartilha de um roteiro pretensamente bom e envolvente (ainda que indiferente ao clichê), a amizade entre O’ Connell e Toretto cresce em paralelo aos indícios de que é ele o líder da misteriosa quadrilha.
Grande sucesso de bilheteria, o grande acerto de “Velozes e Furioso” foi a sua, digamos, romantização dos rachas e corridas de carro –mais ou menos, o quê “Top Gun” fez pelos pilotos de caça-aéreos: Uma roupagem de glamour, adrenalina e fascínio proporcionada pelo cinema (e que certamente não tem nada a ver com a realidade) indo de encontro às ansiedades de toda uma geração de expectadores ávidos por um filme que representasse suas aptidões.

+ Velozes + Furiosos
A primeira continuação seguiu assim um caminho convencional enquanto sequência –e, para variar, revelando-se menos interessante que o anterior...
Seu maior problema: Vin Diesel, grande responsável pelo sucesso do filme declinou de sua participação no filme; Diesel então investia pesado em sua carreira e, com outras duas franquias em potenciais para se ocupar (a aventura de espionagem “Triplo X” e a elogiada ficção científica “Eclipse Mortal”, com o personagem Riddick), ele desistiu de “Velozes e Furiosos” fazendo com que o protagonismo integral caísse sobre os ombros de Paul Walker e seu Bryan O’ Connell.
Na direção, substituindo Rob Cohen do filme original, entrou John Singleton (de “Os Donos da Rua”) que, em resposta às pressões corriqueiras desse tipo de produção acrescentou mais dinamismo à montagem, amplificou consideravelmente as cenas de corridas e fez do filme um mero policial de ação.
Continuando exatamente onde o primeiro filme parou –com O’ Connell renegado pela polícia após ter deixado que Toretto escapasse –reencontramos o ex-policial em disputas de rachas ilegais na fronteira com o México. O’ Connell é então requisitado em Miami para uma missão de tal maneira movediça que, se realizá-la, obterá perdão pelos desvios na missão anterior.
Este roteiro visivelmente agrega o personagem de Tyrese Gibson como forma de tentar substituir a presença de Vin Diesel, mas tanto esse esforço quanto as manobras executadas pelo diretor Singleton não contornam a redundância da produção.
Ainda assim, “+ Velozes + Furiosos” parece ter agradado seu público que se mostrou satisfeito com a prevenção dos elementos que constituíam o clichê desse gênero –uma característica que passaria a dominar a franquia.

Velozes e Furiosos 3-Desafio Em Tóquio
Por sua vez, quando foi lançado o terceiro filme da série "Velozes e Furiosos" pouco pareceu ter de relação com os anteriores (exceto uma citação surpresa perto do fim), inclusive abandonando sua trama policial e o elenco de protagonistas que surgiram nos outros filmes.
A idéia acabou lembrando um pouco o que havia sido feito em “Halloween III”, nos anos 1980 –também ele uma trama completamente à parte dos dois filmes anteriores.
Contudo, foi aqui que entrou o diretor Justin Lin, compensando tudo com um trabalho de ritmo e edição tão vertiginoso quanto criativo que pôs as peripécias dos demais filmes no chinelo –foi o próprio Lin quem capitaneou, mais tarde, uma espécie de reinvenção de “Velozes e Furiosos”, mas, antes vamos à trama deste terceiro filme...
Rapaz que arrumou muitos problemas em Los Angeles (terminando com uma enorme dívida após um racha de automóveis) é despachado para Tóquio onde seus familiares esperam que encontre um rumo na vida. Mas lá ele conhece um grupo que também participa de rachas ilegais, usando os carros inclusive para manobras impossíveis chamadas "driffting".
Curioso como certos conceitos de filmes oitentistas ainda influenciam o filme –mesmo estando ele desconectado da trama principal dos demais; aqui, muito lembra a premissa de “Karatê Kid 2”, substituindo as lutas, claro, por carros de corrida e suas manobras impossíveis.

Velozes e Furiosos 4
O filme que retoma a tradição de “Velozes e Furiosos” –ou, na opinião de alguns, a inicia de fato!
Justin Lin, o diretor e Chris Morgan, o roteirista, ambos responsáveis pelo terceiro filme, considerado um dos mais bem-acabados da série uniram-se ao agora produtor Vin Diesel, e juntos tomaram a decisão de resgatar o elenco do filme original, para fazer o que é a mais autêntica continuação do primeiro filme. Assim a dinâmica entre os personagens originais (uma das razões do sucesso do primeiro “Velozes e Furiosos”) interpretados pelo próprio Vin Diesel e por Paul Walker, é retomada, junto das alucinantes corridas de automóveis turbinados.
É aqui também que começa a se desenhar o grande subtexto proclamado pela saga (aplicado sem muita sutileza, como teria de ser mesmo...) no qual se enaltece o conceito de família.
O policial O’ Connell –aparentemente já tendo superado as conseqüências do primeiro filme –na perseguição a uma quadrilha cruza o caminho de um velho conhecido seu, um ex-criminoso que foi seu aliado no passado e que agora quer vingança pelo assassinato da namorada, Dominique Toretto –que o roteiro, a condução e a influência de Vin Diesel como produtor trataram de finalmente enfatizar como o protagonista de fato da franquia.
De forma inicialmente relutante, os dois unem forças mais uma vez para, juntos, enfrentarem os bandidos no terreno que mais dominam: as corridas de carro.

Velozes e Furiosos 5
Parte do tempo e do enredo despendido nos filmes que se seguiram foi empregado para unir muitas das pontas soltas deixadas por três filmes que não necessariamente se importavam em estabelecer conexões entre si.
Por sorte, os realizadores passaram a tratar a narrativa com coesão e unidade, justificando eventos pregressos que soavam banais e aleatórios –foi tão funcional que os fãs, neste filme e nos próximos, passaram a enxergar em “Velozes e Furiosos” uma sinergia entre os personagens e suas tramas paralelas semelhante ao que –pasmem! –a própria Marvel Studios vinha fazendo com seus heróis num universo compartilhado.
Também outra característica dos filmes de super-heróis logo começou a aparecer em “Velozes e Furiosos”: A ação em tintas cada vez mais implausíveis.
O quinto filme –para o qual o anterior já deixava um gancho palpitante ao final –acompanha Toretto numa tentativa de elucidar o misterioso assassinato de Letty (Michelle Rodrigues), sua companheira desde o primeiro filme, o que o leva a associar-se, mais uma vez, ao ex-policial O’ Connell, desta vez numa aventura em terras brasileiras.
Um dos apelos deste quinto filme foi a introdução, como vilão ocasional (nos filmes seguintes ele passou para o lado dos mocinhos), do brutamontes Hobbs, interpretado por Dwayne ‘The Rock’ Johnson: Afinal, Johnson e Diesel eram os dois grandes astros de ação do novo milênio, os mais autênticos sucessores de Schwarzenegger e Stallone.

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Se o filme anterior girava em torno da busca pelos assassinos de Letty, a sexta produção –que transfere sua ação para as ruas e auto-estradas de Londres, na Inglaterra –se inicia a partir da descoberta de que Letty, na verdade, não morreu. Todavia, ela não parece lembrar quem foi, visto que agora está aliada aos inimigos e comporta-se como se não conhecesse seus outrora aliados –nem mesmo seu amado Toretto!
Também a ‘Parte 6’ traz uma manobra sintomática à série: Hobbs, personagem de Dwayne Johnson e antagonista do filme anterior, por uma série de circunstâncias, se junta ao grupo e se torna mais um dos membros da ‘família’ –e esse é um tema que, a partir do quarto filme passou a definir os propósitos da série.
É Hobbs quem arregimenta Toretto e sua trupe (incluindo O’ Connell; Roman Pearce, o personagem de Tyrese Gibson introduzido no segundo filme e que, depois, ganhou um background de alívio cômico; e tantos outros) para perseguir e capturar o grupo mercenário de operações especiais liderado por Owen Shaw (Luke Evans, até então o vilão mais expressivo da série) ao qual Letty (por razões mirabolantes esmiuçadas ao longo do filme) está integrada.
A “Saga Velozes e Furiosos” neste ponto já havia atingido uma espécie de ápice: Suas bilheterias eram gordas e garantidas, seus fãs, entusiasmados e satisfeitos, e seus astros, na pior das hipóteses, agradecidos. O plano certamente era continuar assim indefinidamente; e a cena pós-crédito, que finalmente começava a conectar a narrativa do terceiro filme com todos os demais, deixava isso bem claro.
Contudo, como se sabe, durante as filmagens da ‘Parte7’ um acidente tirou a vida de Paul Walker, um dos protagonistas, levando a série para um outro rumo em geral e o sétimo filme para uma outra abordagem em particular.

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O quê nos leva ao oitavo filme.
Depois da estrondosa bilheteria do sétimo filme –em grande parte, impulsionada pelo fascínio mórbido e pelo viés emotivo da morte de Paul Walker –a produção ainda buscou, de forma nada lisonjeira, continuar capitalizando em cima de seu astro falecido: A afirmação de Diesel e dos envolvidos era que o filme anterior era “para Paul” e que o novo era “por Paul”...
Este novo filme, dirigido por F. Gary Gray, trazia como vilã a personagem de Charlize Theron (que trabalhou com Gray em “Uma Saída de Mestre”) –e todas as suas características (uma hacker, com recursos ilimitados e maldade megalomaníaca), já denunciavam o fato de que os filmes já haviam assimilado todo o absurdo fantasioso de referências ao estilo “James Bond” (inclusive com locações ao redor do mundo se sucedendo com a naturalidade de uma ida até a esquina!).
Conforme já havia acontecido antes, o vilão do filme anterior, Ian Shaw (Jason Statham, mais um emblemático marombado) por força das circunstâncias se torna um dos aliados, ao passo que o protagonista Toretto (com Vin Diesel ainda mais altivo e prepotente com a ausência de Paul Walker) tem uma curiosa reviravolta: Ele se alia à vilã contra seus amigos, num estratagema que vai sendo revelado aos poucos.
Assim, sem Vin Diesel para conduzir os momentos envolvendo os numerosos personagens que passaram a compor a galeria da série, a liderança de cena pesa assim sobre os volumosos ombros de Dwayne Johnson e Jason Statham, que revelam-se juntos o grande achado do filme: Tão primorosa é sua química em cena –inclusive em meio à ação e à pancadaria –que, logo, o estúdio tratou de viabilizar um derivado protagonizado pelos dois; desta vez, sem Vin Diesel para ficar atrapalhando!
A série “Velozes e Furiosos” em si, por outro lado, está prevista para durar dez filmes (!), restando ainda ser anunciado o lançamento dos próximos dois.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Atômica

Como todos os grandes diretores que já demonstraram propriedade ao moldar o gênero de ação (Irmãs Wachowsky, Paul Greengrass, Steve Sodenbergh), David Leitch compreende o fetiche inerente a essa categoria de filme. Sua narrativa efusiva e diversificada cerca de atributos e elementos visuais o corpo de Charlize Theron. E que corpo! –ela materializa a mais perfeita e genuína versão feminina de James Bond desde que esse objetivo ensaiou-se no cinema comercial.
Numa compreensão intrínseca que já havia demonstrado da ação em “John Wick”, Leitch enxerga em Charlize Theron o objeto, o modelo para experimentações, e ao longo das quase duas horas de “Atômica” ela passará com honras por todas as variações mais brutais, técnicas e dramáticas da ação.
Como se tal zelo não bastasse, Leitch se beneficia do fato de que a trama desta adaptação de histórias em quadrinhos se passa nos anos 1980 –mais precisamente, 1980, às vésperas da queda do Muro de Berlim: O repertório do qual ele dispõe na trilha sonora é tão sensacional quanto poderia ser.
Charlize Theron é Lorraine Broughton, uma agente do MI6 –o Serviço de Inteligência Inglês –despachada para Berlim em uma missão escorregadia: Oficialmente, trazer o corpo de um agente morto por lá; extra-oficialmente, encontrar um microfilme tirado dele e que contém uma lista de agentes infiltrados. Mais que isso: O nome mais procurado dessa lista, seja por ingleses ou por soviéticos, é o do fantasmagórico agente Satchell, um agente duplo –ou talvez até triplo! –à serviço da Coroa. Lorraine conta com a ajuda pouco confiável de um agente britânico há anos baseado em Berlim chamado David Percival (James McAvoy, uma escolha interessante para um personagem irrequieto e ambíguo), além da aliança (ou oposição...) da sedutora agente francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella, uma delícia!), e dos recursos variados de um astuto contato no lado oriental de Berlim (Bill Skarsgaard, o Pennywise de “It-A Coisa”).
O diretor David Leitch em momento algum se acomoda com as cartas que dispõe na mesa: Cada minuto de filme é uma oportunidade que ele usa para surpreender o expectador, seja com a expressividade gestual ou o talento físico de Charlize Theron (que mulher extraordinária!), seja com as características fascinantes da rebuscada narrativa de espionagem que guarda, até os segundos finais, uma série de guinadas inesperadas debaixo da manga, neste filme admirável, envolvente e eletrizante.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2004

Para nós, brasileiros, o Oscar 2004 tem uma importância a mais: O cinema nacional estava representado numa ocasião sem precedentes com as quatro indicações (Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem) de “Cidade de Deus”.
Entretanto, todos sabiam –este era o ano do Peter Jackson e seu “O Senhor dos Anéis” –e a Academia reconheceu isso premiando-o com a marca histórica de 11 Oscars, igualando o recorde de “Titanic” e “Ben-Hur”.
Mas, foi um grande ano que contou com belíssimos trabalhos que inclusive não ganharam premiação, como “21 Gramas”, “OÚltimo Samurai” e “Piratas do Caribe-A Maldição do Pérola Negra”.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei", Peter Jackson

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron, "Monster-Desejo Assassino"

MELHOR ATOR
Sean Penn, "Sobre Meninos e Lobos"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Renée Zellwegger, "Cold Mountain"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Tim Robbins, "Sobre Meninos e Lobos"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Sob A Névoa da Guerra"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Chernobyl Heart"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

MELHOR SOM
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR FIGURINO
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Mestre dos Mares-O Lado Distante do Mundo"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE & CENÁRIOS
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR TRILHA SONORA
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Into The West", de "O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Harvie Krumpet"

MELHOR MONTAGEM
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"Two Soldiers”

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Vidas Que Se Cruzam

No principio, o escritor Guillermo Arriaga e o diretor Alejandro Gonzáles Iñarritu dividiram uma rara compatibilidade artística. Desse entendimento surgiu uma parceria que rendeu obras elogiadas como “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel” –estes dois últimos filmados nos EUA quando ambos já gozavam de um reconhecimento internacional.
Com a ruptura vieram as tentativas (de ambos os lados) de seguir caminhos próprios.
Arriaga, após fracassar em estabelecer a mesma sintonia com outros realizadores (vide o irregular “Búfalo da Noite”), buscou ele próprio assumir as rédeas, como diretor dos roteiros que ele mesmo concebia. O resultado é este drama promissor em sua contundência, e que ainda leva o mérito de ter sido um dos primeiros filmes a revelar o talento de Jennifer Lawrence –antes mesmo de sua indicação ao Oscar por “Inverno da Alma”.
Como é de hábito no cinema de Arriaga, três linhas narrativas distintas, aos poucos, vão se revelando partes da mesma e fatídica trama: Uma dona de casa adultera (Kim Basinger, ótima) tem seu caso extraconjugal pouco a pouco constatado pela filha mais velha (Jennifer Lawrence, bem novinha e entregando um trabalho exemplar); Noutro, a mesma adolescente, agora já sem a mãe, que morreu, termina por se envolver com o filho do homem que ela tivera como amante; Na última trama, uma mulher amarga e depressiva (Charlize Theron, sempre focada) é confrontada com um passado que havia deixado para trás, na forma da filha pequena que ela nunca conheceu.
São essas três excelentes atrizes que dão solidez a este filme cuja estrutura da história, contada fora de ordem cronológica, remete de fato às outras obras anteriores de Guillermo Arriaga. Ao encarar a direção, ele termina realizando um trabalho muito semelhante ao estilo realista e despojado adotado por Iñarritu, com seu registro seco, suas atuações naturalistas e seu ritmo sucinto a anunciar uma tragédia iminente –o quê pode indicar tanto que ele não conseguiu desvencilhar-se da poderosa influência do ex-parceiro, como também que, talvez, fosse ele a força criativa mais predominante naqueles trabalhos.
Do jeito como está, “Vidas Que Se Cruzam” fica bem aquém da excelência dos três grandes filmes que Arriaga fez ao lado de Iñarritu, claro, mas é muito melhor do que “O Búfalo da Noite”.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Branca de Neve No Cinema

Branca de Neve e Os Sete Anões
O primeiro longa-metragem de animação de Walt Disney, “Branca de Neve...” impressiona até hoje por, entre outras coisas, ser ainda considerado por muitos, o melhor.
Podemos apenas imaginar como deve ter sido o assombro e o maravilhamento de platéias inteiras na época de seu lançamento, quando foram presenteados com uma obra animada sem precedentes; Pois é isso que “Branca de Neve...” é, um produto de arte da tal maneira refinada que estava, em diversos aspectos, a frente de seu tempo: Técnicas como a animação em três telas justapostas –que garantia um efeito de foco que simulava a câmera real e permitia a elaboração de incríveis proezas óticas –só foram assimiladas pela indústria muitas décadas depois.
Branca de Neve é a mais bela do reino em que vive. Essa realidade, entretanto, é demais para ser aceita por sua madrasta malvada que, orientada por seu espelho mágico, ordena que um caçador a mate na floresta. O homem a desobedece, poupando Branca de Neve que, fugitiva, encontra refúgio numa casa de pequenas proporções em meio à floresta. Ela pertence a sete anõezinhos que moram nela e trabalham numa mina próxima. Eles acolhem Branca de Neve ao chegarem em casa e achá-la dormindo sobre a cama. Mas, a notícia de que Branca de Neve ainda vive enfurece sua madrasta a ponto dela transformar-se numa bruxa hedionda e planejar matá-la, valendo-se do artifício de uma maçã envenenada.

Histórias Que Nossas Babás Não Contavam
Era inevitável –como tudo o mais –que o enredo rendesse lá um ou outro filme erótico (e devem existir centenas!), mas eis que a história do conto de fadas acabou inspirando aquele que é lembrado como um dos melhores e mais apreciados exemplares do nosso infame subgênero de pornochanchadas!
Num mundo fictício cuja galhofa só poderia mesmo existir num filme nacional dos anos 1980, a princesa Clara das Neves (a deliciosa Adele Fátima que, num contraste malicioso e divertido com a personagem do conto de fadas, é uma mulata das mais charmosas, belas e voluptuosas) se torna rapidamente um empecilho para a rainha má (Meiry Vieira), inclusive lhe tirando o favoritismo do príncipe (Denis Derkian) como o rabo de saia real mais cobiçado do pedaço (!). Ao confabular com o afeminado e petulante conselheiro fantasma (!) que mora em seu espelho mágico (vivido por Renato Pedrosa), a rainha resolve incumbir um caçador de matá-la em plena floresta.
Primeiro, o caçador (uma participação simplesmente hilária do comediante Costinha) se esbalda nos encantos sexuais de Clara das Neves, e depois –talvez, por gratidão à ela! –deixa que ela fuja para a floresta onde encontra uma casa habitada pelos sete anões.
Dos sete, seis deles ficam extremamente satisfeitos (maravilhados seria a palavra mais apropriada!) em ter uma mulher absurdamente esplêndida –e que fica nua a cada cinco minutos por qualquer razão! –morando em sua casa. O único anão que não concorda com a idéia, Zangado se sente protelado pelos demais que agora têm uma mulher de verdade para acariciar (!?!).
A divertida seqüência em que os anõezinhos vão, um a um, entrar no quarto onde Clara das Neves dorme pelada, e se fartam dela, um de cada vez, é simplesmente antológica!
Produzido por Aníbal Massaini Neto e dirigido por Osvaldo de Oliveira, “Histórias Que Nossas Babás Não Contaram” cai na possível situação onde poderia –na distorção tão descarada que faz da história original –ter supostamente estragado a infância de muita gente, contudo, sua malícia empregada na medida certa, sua chacota irresistível e seu bom humor até hoje saboroso e, sobretudo, o apelo sexualmente inquestionável da bela Adele Fátima o tornam um exemplo perfeito do que foi (ou do que deveria ter sido) o subgênero das pornochanchadas.

Floresta Negra
Numa das mais admiráveis versões já realizadas na história, a Madrasta Malvada (aqui batizada de Claudia) ganha expressão na competência à toda prova de Sigourney Weaver, em um filme que se debruça sobre os meandros complexos na relação de Branca de Neve e sua madrasta –que, na ambigüidade e na proposta dramaticamente rica da direção tem um belo arco narrativo que justifica o fato dela ser tão malvada assim.
O diretor Michael Cohn reavalia o conto dos Irmãos Grimm sob um prisma macabro, fatalista e sombrio vislumbrando as fissuras irremediáveis entre os relacionamento das duas antagonistas –basicamente, as únicas personagens que permaneceram intocadas nesta versão.
Branca de Neve é assim chamada Liliana (a jovem Monica Keena, de “Freedy X Jason”), e seu pai, Lord Hoffman (Sam Neil) casa-se com Claudia sobre quem já pesou a suspeita de práticas de bruxaria –a trama se ambienta no Período das Cruzadas, quando discussões e reflexões acerca do que era misticismo e religião estavam relativamente em voga.
Quando o pai da jovem falece cabe à Claudia e Liliana estabelecerem um consenso entre suas divergências, mas, à medida que a jovem cresce –e afloresce não apenas sua beleza, mas também sua rebeldia e impetuosidade –as diferenças entre ela e sua madrasta adquirem um desequilíbrio ainda maior, e mais perigoso.
Em fuga pela famigerada Floresta Negra, Liliana encontra refúgio em meio aos parias que se escondem na floresta de toda sorte violenta de discriminações alheias: Não, não são os sete anões, mais sim um grupo de lenhadores deformados –entre eles, o jovem Will (Gill Bellows, de “Um Sonho de Liberdade”) que assume a função de interesse romântico na ausência deliberada de um providencial príncipe encantado.
Essa necessidade enfática de afastar-se do caráter lúdico do conto e abraçar um viés realista só encontra alguns percalços prejudiciais no trecho final, quando alguns artifícios do roteiro se mostram bem menos inspirados no momento de seu desfecho do que o eram em seu ponto de partida.

Branca de Neve (ESP)
Transpondo o conto dos Grimm para a Espanha no que parecem ser meados dos anos 1920, o diretor Pablo Berger esbanja ousadia e personalidade ao converter o filme num exemplar com todos os cacoetes e características do cinema mudo –a exemplo do oscarizado, “O Artista”.
Este “Branca de Neve” se passa em Sevilha onde um grande toureiro (Daniel Gimenez Cacho), além de ser atingido por um touro –o que lhe imobiliza o corpo –tem também a esposa falecida durante o parto, restando-lhe assim somente a filha pequena. Como fica bem claro nesse prólogo, esta nova e audaciosa versão é de uma dramaticidade sem fim.
O toureiro, apesar de sua condição, logo irá desposar sua própria enfermeira, Encarna (Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também” e “O Labirinto do Fauno”) –de olho na fortuna do famoso toureiro –o quê a torna madrasta da filha pequena dele, Carmen (que, ao crescer, ganhará as formas da bela Macarena García).
A vida de Carmen será assim se submeter às crueldades de Encarna: Morando na mansão que ela rege depois do falecimento de sua avó, a jovem testemunha o pai ser confinado e esquecido dentro de um quarto enquanto a madrasta estabelece uma violenta relação com o chofer.
Carmen aprende com o pai suas prodigiosas técnicas de tourada, o quê só aumenta o ódio de Encarna por ela que, em algum momento, sugere que o chofer a mate.
Ao fugir disso tudo, Carmen termina perdida (e sem memória) numa floresta onde encontra (desta vez) seis diminutos toureiros, os anões que lhe darão o apelido de Branca de Neve –e aqui cabe, também, uma referência ao cult “Monstros”, de Todd Browning. Eles a protegerão e cuidarão, inclusive, quando se abater sobre ela a trágica maldição da maçã envenenada: Ao contrário das outras versões, Pablo Berger não faz concessões a um final feliz com o surgimento de um príncipe que quebre o feitiço –seu filme se encerra numa angustiante cena de circo de horrores, onde o corpo imóvel e cadavérico de Carmen (ou Branca de Neve) está à disposição de uma interminável fileira de interessados a beijá-la, e nenhum deles sinaliza qualquer possibilidade de vir a desfazer o encanto.
Por mais angustiante e depressivo que seja o desfecho deste “Branca de Neve”, o mais inacreditável é que ele ainda soa ameno e pueril perto de outra versão de mesmo nome, portuguesa, lançada no ano 2000 e dirigida por João César Monteiro: Um filme, dizem, difícil, radical e perturbador.

Branca de Neve e O Caçador
Com o lançamento do irregular, porém, bem-sucedido “A Garota da Capa Vermelha” –que, por sua vez, pega carona na moda de “Crepúsculo” –os estúdios passaram a adotar uma nova tendência: As adaptações de contos de fadas (muitos deles materializados em animações no passado) convertidos em filmes de apelo mais sério e mais infanto-juvenil, não raro, com influência de outros filmes de sucesso.
Dessa forma, surgiu (pouco antes de “Malévola”, com Angelina Jolie) este “Branca de Neve e O Caçador” –realizado pelos estúdios da Universal e não pela Disney –como o nome sugere (e como os desdobramentos tornam explícito), buscando uma quase reinvenção da história clássica.
Até então a adorável filha do rei, Branca de Neve (Kristen Stewart, de “Crepúsculo”, certamente escolhida com interesse na legião de fãs daquela saga) perde seu pai na mesma noite em que tem seu reino tomado pela maquiavélica Ravena (Charlize Theron, numa atuação memorável). Anos mais tarde, feita rainha e com sua beleza intocada graças ao uso constante de magia negra, Ravena recebe a notícia de seu espectral espelho mágico de que não é a mais bela entre as mulheres, honra que cabe agora à Branca de Neve, desde então prisioneira na torre mais alta. Quando tentam matá-la, Branca de Neve escapa e ruma para os confins sombrios da floresta negra, lugar que só um homem destemido e atormentado como o Caçador (Chris Hemsworth, o “Thor” da Marvel Studios) se atreveria a adentrar. Ele vai atrás dela sob um acordo com a Rainha, mas decide aliar-se à Branca de Neve e ajudá-la na épica batalha pelo reino que está por vir.
O escolhido para a direção, o inglês Rupert Sanders, deixa bastante claras suas aspirações cinematográficas: Além dos filmes de sucesso aos quais a escolha do elenco principal remete, seu filme emula, em tom, visual e intenção, do início ao fim, as qualidades épicas de “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson –inclusive, era Viggo Mortensen, uma de suas escolhas iniciais para viver o Caçador!
Da trama tão conhecida e difundida pelo desenho de Walt Disney sobrou pouco mais que o esqueleto: Se o Caçador tinha um papel breve e irrisório no conto de fadas, aqui sua presença e importância chegam a suplantar o príncipe encantado (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”), e os anões –agora oito, ao invés de sete –não são mais que um gracioso reforço nas cenas de combate.
É um filme bonito, cujos valores de produção são bem aplicados e eficientes em torná-lo um espetáculo charmoso, seu grande calcanhar de Aquiles é mesmo sua atriz principal, Kristen Stewart, cuja apatia implícita na interpretação tira um pouco do brilho que a personagem poderia ter. A atriz, inclusive, envolveu-se com o diretor Sanders (que era casado) durante a divulgação do filme, escândalo que comprometeu os planos para a continuação –sugerida no final vagamente aberto –a saída do estúdio foi remover a atriz o diretor (Sanders depois encarregou-se de realizar “Ghost In The Shell-Vigilante do Amanhã”) tentando, um tempo depois, remodelar a produção obtendo como resultado “O Caçador e A Rainha do Gelo” que, como seqüência revelava-se ligeiramente irregular e incoerente.

Espelho, Espelho Meu
Lançado no mesmo ano de “Branca de Neve e O Caçador” –e repetindo o estranho equívoco de filmes extremamente similares lançados no mesmo período –este “Espelho, Espelho Meu”, dirigido por Tarsem Singh Dhandwar (da aventura “Imortais”) tinha por diferencial um tratamento escancarado de comédia.
A angelical Branca de Neve (Lilly Collins, filha do cantor Phil Collins) está em apuros. Nutrida de inveja para com sua beleza, a malvada madrasta (Julia Roberts, aparentemente a razão de ser deste projeto), rainha do castelo desde a morte do pai de Branca de Neve a deseja morta, pagando para isso os serviços de um caçador. Ao invés disso, porém, Branca de Neve vai parar na floresta onde torna-se hóspede de sete anõezinhos.
O diretor elabora um caprichado senso visual, repleto de cor e exuberância para esta versão em comédia do conto imortalizado pelo desenho de Walt Disney, no qual seu principal trunfo parece mesmo ser a escalação da estrela Julia Roberts para o vilanesco e afetado papel de Rainha Má (cujos rompantes de divas parecem fazer alusão involuntária aos chiliques da atriz na vida real), em contraponto a doçura e fragilidade de Lilly Collins. Outro elemento que depõem a favor desse ‘diferencial cômico’ é o príncipe encantado (o vistoso Armie Hammer) cuja suavidade de sua participação, a pouca expressão na trama e a inclusão de uma vergonhosa sub-trama paralela (onde vira um cachorro...) ameaçam transformá-lo num coadjuvante quase obsoleto.
Comédia não é um gênero fácil em torno do qual trabalhar. O humor é um paladar complicado ao qual se ajustar em relação ao que espera o público, e o diretor Dhandwar –notadamente oriundo de produções sombrias (como o suspense “A Cela”) –já não tinha muita desenvoltura nessa área, o quê fica patente aqui na desmesurada confiança que ele deposita não na narrativa, no roteiro ou no elenco, mas no aparato amplo e endinheirado de seu designer de produção –e essa característica, de fato, se revela em todos os seus filmes –terminando por carregar esta versão do conto de fadas em elementos excessivamente cartunescos, tornando o filme um trabalho infantilizado e superficial.