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quarta-feira, 26 de abril de 2023

Transformers - A Era da Extinção


 Após “O Lado Oculto da Lua” e seus contratempos, um alerta vermelho acendeu nos corredores da Paramount Pictures e nos escritórios de Michael Bay: A franquia “Transformers” pedia por uma espécie de reboot e os realizadores precisavam compreender o momento certo de fazê-lo, se antecipando à reação negativa do público; que seriam bilheterias cada vez menores. Dessa forma, “A Era da Extinção” abriu mão de todo o núcleo de protagonistas humanos dos dois filmes anteriores –que, convenhamos, não serviam para muita coisa nos filmes e tinham ainda menos importância na série de desenhos de onde se inspiravam –focando em novos acréscimos ao elenco. Saia assim o histrionismo de Shia LaBeouf e entrava em seu lugar a seriedade apropriada e confiável de Mark Wahlberg, com quem Michael Bay havia trabalhado anteriormente no ótimo “Sem Dor Sem Ganho”.

É curioso notar como, dessa forma, “A Era da Extinção” apontou involuntariamente para um calcanhar de Aquiles que a franquia possuía desde seu início: A insistência dos roteiristas em privilegiar o ponto de vista dos personagens humanos (ainda que construídos com tanta rasura quanto os personagens não humanos...) e deixar num nada satisfatório segundo plano as verdadeiras estrelas do show, os robôs gigantes, Autobots e Decepticons, que se enfrentam numa guerra interminável.

Assim, entra em cena, Cade Yeager (Mark Wahlberg, recém-saído de uma indicação ao Oscar por “Os Infiltrados”), fazendeiro norte-americano com todas as características de herói involuntário de ação: É pai de uma jovem ávida por procurar encrenca (Nicola Peltz, de “Tempo”, uma candidata genérica à ‘nova Megan Fox’), é viúvo e solitário (gancho para o interesse amoroso, que veio no filme seguinte) e muito hábil em mecânica –conhecimento que vem a calhar quando acaba caindo em suas mãos a carcaça de um caminhão antigo pedindo para ser restaurado. Quando acontece de encaixar e ajustar as peças certas, Cade não apenas conserta o caminhão, mas restaura suas diretrizes, descobrindo assim que ele é Optimus Prime (!), o poderoso líder dos Autobots.

Como é perfeitamente previsível, isso arremessa Cade diretamente no centro da guerra entre as duas facções de robôs, sobretudo, depois que sua filha acaba indo parar numa nave pertencente aos alienígenas (!), o que leva Cade a ter de aturar o namoradinho metido à besta dela (Jack Reynor, de “Midsommar-O Mal Não Espera A Noite”) para poder salvá-la, indo parar do outro lado do mundo, na China (uma nada aleatória escolha de ambientação, visto a China abrigar um dos mais numerosos públicos do planeta), onde as batalhas demolidoras e barulhentas de praxe se seguem.

Mais do que a satisfação do público (ainda que, no geral, a cotação deste quarto longa-metragem tenha sido melhor que as dos dois últimos), e mais do que a aprovação da crítica (esta cada vez mais injuriada com os vícios de linguagem e as redundâncias da narrativa de Michael Bay), “A Era da Extinção” é considerado um exemplar bem-sucedido dentro da saga por ser um orçamento consideravelmente menor que os filmes anteriores (algo que Bay havia prometido já durante a pré-produção) e, mesmo assim, manter o bom desempenho nas bilheterias, o que proporcionou à “Franquia Transformers” uma sobrevida.

domingo, 18 de setembro de 2022

Na Roda da Fortuna


 Desigual, como aliás, é desigual toda a filmografia dos Irmãos Coen, “Na Roda da Fortuna”, lançado em 1993, vinha na sequência de obras como “Barton Fink-Delírios de Hollywood”, “Ajuste Final” e “Arizona Nunca Mais”; isto é, os Coen chegavam num ponto da carreira em que, ao mesmo tempo que testavam novas formas de contar uma história abordando gêneros novos e desconhecidos, começavam a experimentar algum tipo de aclamação, com prêmios como a Palma de Ouro por “Barton Fink”.

“Na Roda da Fortuna” é a reafirmação dos Coen por um cinema instintivo onde construíam seus filmes a partir de impressões que, proposital ou não, pouca vontade tinham para ir de encontro às expectativas de público ou crítica. É também uma espécie de retorno às raízes ao firmarem aqui uma improvável colaboração com Ram Saimi que aparece como co-roteirista em numa participação especial (Raimi, ainda atrelado às trincheiras dos filmes de terror de baixo orçamento, havia escrito seu escatológico “Dois Heróis Bem Trapalhões” com a ajuda dos Coen), e uma referência e reverência ao cinema de Frank Capra, no qual, os esmagadores interesses industriais e corporativos estavam sempre fadados a serem sobrepujados pelo inocência e pelas boas intenções.

Como já tinham reputação de serem brilhantes cineastas (e isso, para minha profunda admiração, eles nunca deixaram de ser), os Coen já eram capazes de atrair grandes nomes para seu elenco: Aqui, na trinca de personagens principais, eles contam com Tim Robbins (então aclamado por “O Jogador”, de Robert Altman, e por “Bob Roberts”, também sua estréia como diretor), Jennifer Jason Leight (atriz talentosa que, a despeito de seus papéis sexualmente pesados, conseguira se impor como a grande intérprete que é) e o astro veterano Paul Newman (a cereja no topo do bolo, que coroava os Coen como realizadores capazes de despertar o interesse dos maiores de Hollywood).

O título original de “Na Roda da Fortuna”, “Hudsucker Proxy” –uma brincadeira referencial dos autores com um termo que aparece tanto em “Evil Dead”, de Saimi, como também em “Arizona Nunca Mais”, dos Coen –é, na verdade, o título de uma empresa fabricante da Nova York de 1958. Após o suicídio (mostrado com toda a galhofa pouco usual e o arrojo técnico e artístico que tornara os Coen notórios) de seu presidente-fundador, o executivo-chefe Sidney J. Mussberger (Paul Newman, se divertindo a valer) põe em prática um plano ardiloso: Nomear em seu lugar o substituto mais paspalho possível a fim de que o preço das ações despenque. O escolhido vem a ser o ingênuo e sonhador Norville Barnes (Tim Robbins), recém-chegado do interior à Grande Maçã. Entusiasmo com sua boa sorte, Norville promove a execução de suas ideias –inclusive a quase pueril iniciativa de produzir bambolês em larga escala (!) –enquanto a aguçada e destemida repórter Amy Archer (Jennifer Jason Leight, numa personagem que emula brilhantemente os trejeitos da Rosalind Russell de “Jejum de Amor”) fareja, nessa improvável história, um escândalo escondido, destinado a ilustrar as manchetes dos jornais.

Os rumos inesperados (mas, nem tanto) desse enredo são o sucesso repentino dos bambolês de Norville entre as crianças –o que gero um efeito inverso às expectativas vilanescas de Mussberger –e o enlace romântico entre Norville e Amy, fatores que levam Mussberger a revelar, por fim, suas facetas perversas e manipuladoras.

Na fábula que aqui concretizam, os Coen não se furtam de promover seu final feliz valendo-se das concessões indubitáveis e inevitáveis de Hollywood –esta produção, é bom lembrar, foi seu primeiro filme bancado com um orçamento mais vultuoso de um grande estúdio –mas, o fazem com um sinceridade imprevista e desconcertante: Os fatores sobrenaturais a determinar o rumo de sua conclusão são representados por um curioso e nada celestial anjo vivenciado pelo próprio suicida Waring Hudsucker (Charles Durning). Os Coen colocam na mesma salada Frank Capra e as mazelas da Grande Depressão sob um viés de humor negro, não sem antes, garantir também um molho especial com o sabor de seu próprio e inconfundível cinema.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Grande Lebowski


 A premissa do “homem errado” rendeu alguns dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, mas nas mãos dos Irmãos Coen ela representa o ponto de partida de uma de suas obras mais notáveis: O quê passa longe de ser pouca coisa.

Mais conhecido como Dude pelos amigos que, como ele, freqüentam o mesmo bar de boliche, Jeff Lebowski (Jeff Bridges, sensacional) descobre da pior maneira que tem um homônimo milionário: Enrascadas relacionadas a esse outro Lebowski vêem até ele atrapalhar sua tranqüilidade movida à maconha e ócio –a pra lá de jovem esposa desse velho magnata desapareceu (ou foi raptada) e os responsáveis por esse ocorrido não o deixam em paz.

De um lado, o outro Lebowski (David Huddleston, de “Banzé No Oeste”), milionário cadeirante e assoberbado, o quer como intermediário no momento de pagar o resgate –afinal, o Dude é o único capaz de dizer se os sequestradores e os homens violentos que inutilizaram seu precioso tapete da sala são as mesmas pessoas.

Para ajudá-lo (ou seria atrapalhá-lo?), Dude conta com o insano Walter (John Goodman, hilário), parceiro do torneio de boliche e completamente pinel devido à sua experiência na Guerra do Vietnam –reza a lenda que os Coen basearam esse personagem divertidíssimo, irredutível e impagável no diretor John Milius (de “Conan-O Bárbaro”).

Tentar descrever “O Grande Lebowski” é uma tarefa relativamente ingrata: Os Coen valeram-se de seu talento desigual para criar uma obra engraçadíssima, cuja natureza ligeiramente intrincada remete ao estilo detetivesco do autor Raymmond Chandler por pura graça, mas cuja trama a envolver crime e suspeita fica, por assim dizer, em segundo plano. O destaque quase sempre são exatamente seus personagens, um mais bizarro e idiossincrático que o outro, e as circunstâncias nas quais diferentes dinâmicas se estabelecem a partir de encontros movidos por distintos interesses, sempre com o personagem de Jeff Bridges como uma espécie de mestre de cerimônias.

Além de Dude e Walter, o velho milionário Lebowski e sua jovem e nada confiável esposa (Tara Reid, de “American Pie”), temos o braço-direito do velho rico, vivido com sofisticação caricata por Phillip Seymour Hoffman, o  pacato amigo do boliche Donnie (Steve Buscemi), o adversário do torneio Jesus Quintana (John Turturo, numa participação breve, irrequieta e antológica), o arremedo de ator pornô travestido de bandido de meia-tigela vivido por Peter Stormare (de “Fargo” e “Minority Report-A Nova Lei”), a artista plástica, excêntrica e egocêntrica, filha do Velho Lebowski (Julianne Moore), o gangster da pornografia interpretado com fleuma inacreditável por Ben Gazarra, e o cowboy –e também narrador do filme –que calmamente interfere vez ou outra na narrativa como quem não quer nada (Sam Elliot, formidável).

Originário de um culto quase sem precedentes no cinema –há relatos até mesmo de uma religião surgida a partir dos preceitos e da filosofia de vida do Dude (!?) –o filme dos Irmãos Coen foi um fracasso comercial na época de seu lançamento em 1998, mas foi redescoberto pelo público ao longo dos anos até se tornar um fenômeno cultural. Isso se deve, sem sombra de dúvidas, ao fato de que os expectadores de então não perceberam de imediato seu humor tão complexo quanto irresistível, sua abordagem desigual de comportamentos esquisitos (mas que depois ditaram moda) e na manutenção imprevista de uma trama tão carregada de nuances originais que foi precipitadamente tachada de non-sense.

Em resumo: Que filme sensacional os Coen fizeram!

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom


 A histriônica atriz Isla Fisher conseguiu destacar-se no bem-sucedido “Penetras Bons de Bico” no incontrolável papel de uma quase ninfomaníaca. Tanto chamou a atenção que o diretor australiano P.J. Hogan (de “O Casamento de Muriel” e “O Casamento do Meu Melhor Amigo”) apostou nela para protagonizar esta adaptação do livro de Sophie Kinsella, uma ágil comédia que une “O Diabo Veste Prada” à “Rosalie Vai Às Compras”.

Num registro colorido e plural do consumismo capitalista que permeia todo o filme, conhecemos a compulsão de Rebecca Bloomwood (Isla Fisher, cujos exageros ocasionalmente comprometem sua adequação ao papel), moça nova-iorquina que vive em funções das compras –na narração dela própria, descobrimos que as próprias vitrines das lojas parecem ganhar vida e chamá-la a comprar os diversos adereços.

Por conta disso, Rebecca vive com suas finanças no vermelho. O que a leva a almejar um ofício prontamente rentável. A fim de unir suas aptidões às suas necessidades, a intenção primordial de Rebecca acaba sendo obter um cargo na prestigiada revista de moda “Alette”, já que afinal, consumista voraz. Rebecca sabe tudo sobre marcas e griffes.

Todavia, a aguardada entrevista de emprego –à qual ela comparece com uma ostensiva echarpe verde –dá errado: A sonhada vaga já foi preenchida. Resta, contudo, uma outra alternativa, comer pelas beiradas: No mesmo prédio da “Alette”, outros escritórios, de outras revistas, também funcionam, sendo assim, Rebecca ainda tem a chance de ser aceita em outro departamento e, com sorte, ir subindo de nível, até atingir seu Santo Graal na revista de moda. E a chance que aparece vem a ser uma ironia do destino: Uma vaga na revista “Economia de Sucesso” –justamente uma publicação que orienta os leitores a controlar suas finanças e não deixar-se levar por suas compulsões de consumismo.

Contra todas as possibilidades, Rebecca redige uma carta que surpreende o jovem editor-chefe, Luke Brandon (Hugh Dancy, de “Falcão Negro Em Perigo” e “Histeria”), convencendo-o de que, diferente da realidade, ela é alguém especializada em finanças e perfeitamente capaz de administrar o próprio dinheiro (e logo, ensinar leitores a fazê-lo também!).

Esta comédia, conduzida com bastante sagacidade por P.J. Hogan, é assim aquela modalidade de farsa onde a adorável protagonista equilibra uma sucessão de mentiras –a persona gastadeira que ela oculta de todos no trabalho, onde ganha fama (na misteriosa coluna “A Garota da Echarpe Verde”) aconselhando o oposto do que realmente faz; seus hábitos caloteiros (e que colocam um implacável cobrador em seu encalço) que a levam a frequentar uma reunião de Compradores Anônimos (!); e o fato de encobrir tudo isso do razoável e envolvente Brandon, por quem ela vai se apaixonando, a despeito de todas as mentiras que conta a ele –até que a narrativa as empilha e acumula de tal maneira que todas explodem em confusões a partir de um determinado ponto do filme. O que eu vejo como ponto oscilante dessa produção é justamente o fato de Hogan ancorar isso tudo em Isla Fisher: Embora simpática e relativamente esforçada (em alguns momentos até demais!), ela não dispõe da doçura genuína de uma Sandra Bullock, nem da serenidade para o cômico e para o terno que fez de Meg Ryan uma estrela; em vez disso, ela emprega os mesmos arroubos que moldou para sua personagem em “Penetras Bons de Bico” –personagem esta de orientação completamente diferente da Rebecca Bloomwood que vemos aqui.

Uma coisa é destacar-se como coadjuvante histérica e irrequieta, outra, bem diferente, é saber dosar os momentos de maior ou menor intensidade para, como protagonista, levar todo um filme nas costas. Menos mal que, no elenco de apoio, P.J. Hogan soube escolher com muito mais primazia: Há John Goodman e Joan Cusack, sensacionais como os pais desprendidos e deselegantes da heroína; Kristin Scott-Thomas, sempre maravilhosa no papel da endeusada Alette Naylor; pontas pertinentes e precisas de John Lithgow, Leslie Bibb e Krysten Ritter (esta como a melhor amiga de Rebecca); e, sobretudo, Hugh Dancy, na medida certa de suavidade e simpatia para contrapor os desvarios de sua aloprada parceira de cena.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Valerian e A Cidade dos Mil Planetas


 Poucos diretores possuem uma identidade visual tão marcante e particular quanto Luc Besson, e poucos diretores (menos ainda!) logram obter uma liberdade autoral tamanha que conseguem conceber uma obra nos seus devidos termos e objetivos. Em algum momento da década anterior, o diretor Besson descobriu-se independente no que tange às amarras criativas de seus projetos após produzir dezenas de produções de ação para o mercado mundial. A frente de sua produtora, Besson pôde então dar vazão às suas ambições sem preocupar-se com o desempenho de público e a aprovação da crítica.

Certamente, é por isso que, à sua maneira, “Valerian e A Cidade dos Mil Planetas” remete tanto à elementos do início da carreira de Besson: Como em “O Último Combate”, seu primeiro longa-metragem, e outros trabalhos que vieram depois, “Valerian” é adaptado e profundamente influenciado por clássicos quadrinhos europeus, ligeiramente divergentes dos quadrinhos norte-americanos, onde o senso estético desigual e a narrativa de possibilidades tão ilimitadas quanto mirabolantes ditam as regras, ou possibilitam uma ausência quase contumaz delas.

No caso da graphic-novel “Valerian e Laureline”, de Pierre Christin e Jean-Claude Méziéres, as influências vão desde “Star Wars” até “Avatar” –influências que a HQ desempenhou sobre os longa-metragens e não o contrário, diga-se! O roteiro, concebido pelo próprio Besson, dá conta da vasta mitologia imaginada para essa série de ficção científica, e também estabelece uma trama onde muitos aspectos aventurescos e referenciais dos quadrinhos são mantidos, entretanto, no que diz respeito à Besson, é o estilo que conta, muito mais que o conteúdo.

A cena inicial –mantida misteriosa e inexplicada por um bom tanto de filme –mostra um planeta alienígena paradisíaco sofrendo um súbito genocídio. Corta então para o protagonista do filme, Major Valerian (Dane Deehan), que parece acordar de uma espécie de pesadelo com essa cena em mente. Ao lado da Sargento Laureline (Cara Delevingne, de “Cidades de Papel”), ele é um agente operacional do governo da Terra, atuando no espaço sideral. E aí, no relacionamento entre os dois heróis, começam as obviedades do filme de Besson: Valerian tem lá seus sentimentos por Laureline, contudo, ela o evita sistematicamente temendo ser só mais um nome em sua lista de conquistas. E essa relação de relutância, sempre entre a ternura e a irritação, clichê de nove entre dez casais da ficção, perpassa toda a história do filme –e encontra fragilidades ainda maiores porque não só Dane Deehan, um bom ator, não chega a se adequar com perfeição ao papel de Valerian, e Cara Delevigne, mais linda do que competente, não se aprofunda na interpretação de Laureline, como também os dois não partilham de qualquer química.

É por isso que a jornada que segue encontra sucessivas dificuldades em envolver o público: Incumbidos de uma nova missão interestelar, Valerian e Laureline têm que adentrar um mercado espacial cujas negociações se dão em duas distintas dimensões –e são nessas cenas cheias de inventividade visual que “Valerian” encontra sua grande força.

Dessa forma, eles vão descobrindo indícios de um mistério que os leva à uma série de atentados perpetrados em Alpha, uma estação orbital inicialmente criada por humanos, mas cujo trânsito constante de raças alienígenas diversas transformou, com o passar dos milênios, numa metrópole espacial apelidada de “A Cidade dos Mil Planetas”.

É cinema em sua forma mais honesta e genuína aquilo que Luc Besson realiza, todavia, em função do patamar de autor que ele obteve, não existem outras vozes criativas cujas opiniões poderiam melhor direcioná-lo em projetos como este –“Valerian e A Cidade dos Mil Planetas” guarda todos os elementos que constituem o fascínio inconteste da filmografia de Besson, mas padece por não importar-se em filtrá-los por meio da coerência, do bom senso e da parcimônia. Besson faz o quer, como quer e do jeito que quer. O resultado acaba sendo uma obra vívida e não raro assombrosa em seus termos visuais, feita com visíveis intenções de entreter, mas estranhamente displicente para com suas próprias predisposições comerciais.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Além da Eternidade


 Alguns anos antes do sucesso maciço de “Ghost-Do Outro Lado da Vida”, o diretor Steven Spielberg teve a ideia de fazer seu próprio romance com elementos sobrenaturais. Isso, claro, acabava sendo consequência do fato de “Além da Eternidade” ser uma refilmagem do clássico “Dois No Céu”, de Victor Fleming, lançado em 1943, que ele descobriu ser uma paixão em comum com o ator Richard Dreyfuss, com quem trabalhou em “Tubarão” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” –daí, ser Dreyfuss o simpático protagonista desta produção.

Transpondo a ação da Segunda Guerra Mundial para os anos 1980 de então, a trama se ambienta entre os pilotos de grandes aviões destinados a apagar incêndios florestais descarregando grandes reservatórios de água sobre as chamas.

Um desses pilotos é Pete Sandich (Dreyfuss), apaixonado, por sua vez, por Dorinda Durston (Holly Hunter), a controladora de voo –e o casal formado por Dreyfuss e Hunter tem tanto carisma, exala tanta química, que eles tornaram a fazer par romântico, desta vez no estranho “Meu Querido Intruso”, do sueco Lasse Halstrom.

Durante uma operação emergencial de contenção de incêndio, Pete se sacrifica para salvar outro piloto, seu grande amigo Al Yackey (John Goodman, fantástico), e seu avião explode.

Pete morre, mas, de alguma forma, sua alma não terminou seus assuntos pendentes na terra –ou, pelo menos, é o que dá a entender uma espécie de anjo que lhe aparece, apropriadamente interpretado por Audrey Hepburn.

O fantasma de Pete retorna para junto de seus entes queridos ainda vivos, contudo, com uma missão: Deve ajudar sua amada Dorinda a superar o luto, e permitir que ela encontre o caminho até um outro amor, que no caso seria o piloto substituto Ted Baker (Brad Johnson, de “Projeto Filadélfia 2“). Pete vem com alguns ‘poderes’: É capaz de sugerir ideais e ações às pessoas vivas ao sussurrar para elas.

Diferente da convicção empolgante que Spielberg sempre ostentou em tantos outros projetos, aqui ele parece ligeiramente acanhado ao falar de amor; esse é claramente um tema que, em sua aura pueril, ele mostra-se desconfortável ao abordar.

Ainda assim, “Além da Eternidade” preserva os aspecto usuais de ser realizado por um grande diretor: Seu ritmo é impecável, fluente e funcional, o elenco é dirigido com primazia e, acima de tudo, suas boas intenções afloram na tela tornando-o, se não emocionante, ao menos emotivo. Contudo, este talvez seja o primeiro caso na carreira de Spielberg no qual o nível tão elevado de suas outras realizações depõe contra a qualidade singela desta daqui.

terça-feira, 2 de março de 2021

Aracnofobia


 Estréia na direção do então produtor Frank Marshall, “Aracnofobia” é um filme muito querido para mim pelo fato de ter sido o primeiro filme que aluguei em VHS –o marco zero de minha fase cinéfila como cliente de videolocadoras!

Exceto por isso, talvez, hajam poucas justificativas para que ele tenha sobrevivido com mais dignidade ao teste do tempo: Ao longo dos anos, “Aracnofobia” –que, diga-se, traz produção executiva de Steven Spielberg –se tornou um típico exemplar da ‘sessão da tarde’, com seus lances aventurescos de orientação genérica se sobrepondo à interessante proposta inicial em referenciar “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock.

Em algum lugar das matas sulamericanas, uma equipe –liderada pelo Dr. Atherton, personagem do eclético Julian Sands –descobre uma espécie de aranha descomunal, dotada de veneno poderoso e instantâneo. Uma dessas aranhas morde o fotógrafo norte-americano da equipe e, pegando carona dentro de seu esquife, vai parar na cidadezinha de Canaima, mesmo lugar para onde se muda o médico, Dr.Jenkins (Jeff Daniels), protagonista do filme e portador da anomalia do título.

A aranha em questão acasala com um aranha marrom local e uma proliferação de pequenos filhotes dotados do veneno fulminante da ‘superaranha’ infesta a cidade, fazendo vítimas entre os cidadãos.

Como a aparição das aranhas coincide com a chegada ao lugar do Dr. Jenkins e sua família, os supersticiosos e implicantes moradores locais passam a crer que ele tenha, de alguma forma, causado aquelas mortes, até então sem explicação.

Procurar em “Aracnofobia” o mesmo viés de requinte e alegoria que pulsa brilhantemente da obra de Alfred Hitchcock seria em vão –ainda que o filme de Marshall lhe faça alusão constante –há, de fato, incessantes cenas de ataques e quase ataques das aranhas, remetendo ao chamado ‘terror de montanha russa’ tão comum à filmografia de Spielberg.

É seu estilo, por sinal, que se identifica no trabalho irregular do diretor Marshall, quando por exemplo, as aranhas são muitas vezes empregadas como personagens em cenas individuais que fazem graça ao mesmo tempo que fazem certo suspense. Nesse sentido, se há um representante do humor no filme, esse alguém é o personagem de John Goodman, um alívio cômico tão assumido que chega a ser maniqueísta, aspecto tolerável graças à desenvoltura natural de Goodman como ator.

“Aracnofobia” até se ampara em expedientes científicos e artísticos de ponta, mas termina mesmo se restringindo à uma aventura mirabolante com doses de humor e de exageros –a aranha antagonista tem seu gigantismo sempre enfatizado –que procuram integrar seu passatempo. No caso desta estréia de Marshall como diretor, a despretensão prejudicou o resultado final: Tão modestas e tímidas são as intenções do longa que ele realmente pouco faz mais que divertir e entreter –a fórmula que Spielberg aprimorou ao longo de sua carreira é seguida com fidelidade e esmero, porém destituída de um elemento crucial: Personalidade.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

A Vingança dos Nerds

Vulgar, debochada e com frequência deliberadamente patética, a comédia “A Vingança dos Nerds” foi muito marcante para os jovens que cresceram assistindo aos besteiróis dos anos 1980; herança de um esforço criativo em tentar superar o escracho de comédias icônicas da década anterior –como o genial “Clube dos Cafajestes” –o filme, de 1984, dirigido por Jeff Kanew (que, um ano depois, realizou outro clássico oitentista da ‘sessão da tarde’, “Gotcha-Uma Arma do Barulho”, também com Anthony Edwards) não economiza no machismo, no estereótipo para além do tolerável e do ofensivo –e nesse balaio entram tanto os mocinhos apatetados quanto os vilões caricatos –no sexismo e no retrato politicamente incorreto do bullying –sempre usado para efeitos cômicos.
Em seu primeiro dia rumo ao campus universitário, os grandes amigos Gilbert (Anthony Edwards) e Lewis (Robert Carradine) mal são capazes de conter sua empolgação: Eles creem que o início de sua vida universitária será um caminho glorioso para o sucesso e a realização.
Ledo engano: Ao lá chegarem, eles são taxados, como tantos outros excluídos, como os nerds do lugar que, para nos ater aos personagens realmente relevantes à trama são: O porcalhão Booger (Curtis Armstrong), o ingênuo e oriental Takashi (Brian Tochi), o efeminado Lamar (Larry B. Scott), o pra lá de estranho Arn Poindexter (Timothy Busfield) e o garoto prodígio de 12 anos (!) Wormser (Andrew Cassese) –e, se você é jovem demais para saber, nos anos 1980, os nerds não eram aceitos, sobretudo, no âmbito estudantil, e sofriam desprezo e discriminação.
É lógico que o filme de Jeff Kanew, em seu humor de porta de banheiro, leva essa perseguição à um outro nível de absurdo.
Graças a uma brincadeira tremendamente imprudente (incendiando cortinas ao brincar de cuspir fogo!), os esportistas valentões da fraternidade Alpha Beta têm sua casa destruída pelo fogo. Sem terem onde dormir, o passivo diretor da universidade acata a inadmissível sugestão do treinador igualmente valentão dos Alpha Beta (interpretado por um ainda jovem John Goodman): Expulsar os nerds do dormitórios onde vivem.
Dessa forma, serão Lewis, Gilbert e sua turma quem terão de arcar com a perda de sua morada e dormir em leitos provisórios montados no ginásio local.
Os nerds, no entanto, correm atrás do prejuízo. Eles encontram uma casa no campus onde podem enfim ter um lar para morar; não têm, porém, sossego: O bullying dos Alpha Beta continua. Como o conselho estudantil é dominado por eles e pelas patricinhas Irmãs Pi, tentar denunciá-los é inútil, a menos que eles se tornem uma fraternidade também.
A única casa que os aceita é a segregada –por antiquadas questões raciais –Lambda Lambda Lambda e, para causar boa impressão, os nerds tratam de promover uma festa e, depois, provar valentia dando o troco às Irmãs Pi –colocando câmeras em seus dormitórios e roubando suas calcinhas, o que dá a deixa para as inevitáveis (e extasiantes) cenas de nudez –e aos Alpha Beta –sabotando seus calções de treinamento com produtos urticantes!
Contudo, a desforra definitiva dos nerds injustiçados será no Campeonato de Homecoming, o qual, se eles ganharem, terão a oportunidade de presidir o conselho no ano seguinte.
Quanto mais o tempo passa –e quanto mais as transformações culturais moldam os valores e os comportamentos de nossa sociedade –mais curioso se torna assistir, nos dias de hoje, filmes feitos décadas atrás, como este daqui; “A Vingança dos Nerds” é capaz de surpreender alguns expectadores mais jovens e desavisados com o tratamento despojado que dedica à dinâmica do sofrimento estudantil adolescente, aqui visto com galhofa, sarcasmo e sem um pingo de seriedade, nem mesmo por aqueles que eram vitimados –mais do que trazer predicados artísticos e técnicos (os quais deixam algumas vezes a desejar), o filme de Jeff Kanew é um perfeito exemplar daquela leveza escatológica que permeava os valores daquela época (e por isso, talvez, tenha se tornado para muitos o pseudo-clássico saudosista que é) onde nenhum drama, mal-trato ou prejuízo era demais inapropriado para ocupar o tema de uma boa piada.
E, se com esse enredo, “A Vingança dos Nerds” ainda termina num apoteótico desfecho ao som de “We Are The Champions”, tanto melhor!

segunda-feira, 23 de março de 2020

Vítimas de Uma Paixão

Em 1984, Al Pacino havia protagonizado um dos maiores fracassos de sua carreira em “Revolução”, dirigido pelo mesmo Hugh Hudson de “Carruagens de Fogo” –mas, de um resultado inverso ao bom desempenho daquele filme –Pacino deu a volta por cima quatro anos depois, graças ao sucesso deste competente drama policial que o colocou de volta ao topo de Hollywood para, no ano seguinte, estrelar os aclamados “Dick Tracy” e “O Poderoso Chefão-Parte 3”, uma trajetória de brilho impecável que, ao adentrar os anos 1990, muito contribuiu para levá-lo ao Oscar de Melhor Ator finalmente conquistado por “Perfume de Mulher”.
Mas... voltemos ao filme de 1989. Dirigido pelo habilidoso Harold Becker (de “Toque de Recolher”), “Vítimas de Uma Paixão” parte da premissa um tanto batida da procura por um assassino em série.
É a morte de dois homens que fornece ao policial nova-iorquino Frank Keller (Pacino) o indício de uma conexão: Ambas as vítimas, além de serem mortas em circunstâncias semelhantes, colocaram seus nomes no mesmo anúncio de revista, à procura de companhia feminina.
No decurso da investigação, Keller e seu parceiro Sherman (John Goodman) colocam, também eles, anúncios nas revistas a fim de atrair as prováveis suspeitas de terem praticado os crimes.
O roteiro sucinto e desigual de Richard Price (o mesmo de “A Cor do Dinheiro”) demanda um tempo incomum na humanização de seu protagonista: Além da solidão contumaz da cidade grande e dos aborrecimentos inerentes do recente divórcio, Keller é mostrado padecendo de desglamourizadas frustrações na execução de seu trabalho, quando uma pista aparentemente quente leva a uma desiludida perda de tempo.
É o que aparenta acontecer quando ele se encontra com Helen (a sensualíssima Ellen Barkin), também divorciada, mãe solteira e loira extraordinariamente voluptuosa que lhe responde um dos anúncios.
O encontro programado e repleto de escutas para todos os lados não dá muito certo. Contudo, algum tempo depois, Keller reencontra Helen casualmente, sem a companhia de seus companheiros do trabalho; e o flerte antes mal-sucedido acaba levando os dois para a cama.
A medida que os dias seguem e a relação afetiva e sexual dos dois vai ganhando mais expressão, a paranóia de Keller também se amplifica diante da possibilidade nunca refutada de que Helen possa ser autora dos crimes –e Keller, por conseguinte, sua próxima vítima!
Além da presença certeira de Pacino como seu perplexo protagonista –nuances de desorientação e de desilusão às quais ele dá soberba expressão –“Sea Of Love” (título que remete à uma canção de Phil Phillips que toca toda a vez que os crimes são executados, e que é regravada por Tom Waits nos créditos finais) também vale a conferida graças a participação espetacular da loiraça Ellen Barkin, uma das mais vulcânicas femme fatales da década de 1980.

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Dia do Atentado

Percebe-se um padrão nos três filmes realizados pelo diretor Peter Berg em colaboração com o astro Mark Wahlberg, o drama de guerra “O Grande Herói”, o filme-catástrofe “Horizonte Profundo-Desastre No Golfo”, e este “O Dia do Atentado: Todos eles reconstituem episódios reais centralizando os esforços extraordinários de homens ordinários.
Aqui, Berg volta a atenção de suas lentes para os acontecimentos deflagrados em abril de 2013, durante a Maratona de Boston, no estado de Massachussets.
Ele lança de mão de diversas linhas narrativas, mostrando os numerosos personagens do filme –o policial Sgt. Tommy Saunders (Mark Wahlberg) incumbido da segurança da maratona; o comissário Ed Davis (John Goodman); o chefe de polícia de Watertown, o município vizinho, Jeffrey Puglieses (J.K. Simmons); o estudante chinês de intercâmbio Dun Meng (Jimmy O. Yang); o jovem casal Patrick Downes e Jessica Kensky (Christopher O. Shea e Rachel Brosnahan); o jovem policial, oficial Sean Collier (Jake Picking); e os terroristas interpretados com deliberado desleixo por Themo Melikidze e Alex Wolf (de “Hereditário”) –todos são apresentados por Berg ao seu estilo de baixa voltagem nesse primeiro terço, para então, na cena do atentado, terem unidas as pontas soltas de suas narrativas, revelando que todos eles ocupam, de uma forma ou de outra, um papel nesse trágico acontecimento, elevando assim consideravelmente o nível de tensão e ansiedade no expectador.
É quase um filme de ação transfigurado numa fórmula narrativa diferenciada (ao invés de rompantes ocasionais, tudo vai num aumento gradual), mas que ao longo desses projetos citados, Peter Berg aprimorou a ponto de domina-la com maestria.
O atentado propriamente dito ocorre quase com meia hora de filme, abrilhantado por uma recriação visual que não deixa margens para dúvidas acerca da habilidade do diretor.
É chocante, angustiante e visceral, no entanto, sua qualidade mais flagrante, passada a intensa reação que provoca, é o controle absurdo de ritmo que Peter Berg impõe: Ele nunca se apressa nem se atrasa em relação a sua intenção de expor os fatos para então partir para os finalmentes –ele toma tempo com as devidas informações pertinentes a respeito dos eventos, enquanto sem o expectador notar eleva o nível de urgência e a sensação de ameaça da narrativa.
Quando as bombas explodem, uma perplexidade palpitante contamina muitos dos personagens. O primeiro a retomar o controle é Saunders que imediatamente orienta a chegada das ambulâncias e socorristas. Patrick e Jessica estão entre as vítimas –se encontravam praticamente ao lado de uma das bombas! Ao comissário Davis, no comando das investigações, logo de junta o agente do FBI DesLauriers (Kevin Bacon). Os terroristas, erráticos, acompanham os noticiários de seu sujo apartamento exibindo assustadora falta de empatia.
A medida que os dias vão passando, e a investigação vai se revelando frutífera –graças ao aparato tecnológico fenomenal do FBI na captura das imagens das telas de segurança –os terroristas se veem compelidos a prosseguir com seu plano, desta vez, roubando uma arma e um carro para irem à Nova York.
A arma, eles tiram do policial Collier, que matam; o carro, eles obtêm sequestrando o jovem Dun Meng.
É ele quem consegue escapar e alertar a polícia sobre os terroristas, a tempo para que sejam interceptados numa vizinhança suburbana de Watertown; onde um tiroteio espetacular coloca o policial Pugliese na história –e nesse detalhe, no de ter conferido um background prévio a cada personagem que contribui à narrativa, o filme de Berg se mostra astuto, bem lapidado e de um zelo pontual para com os personagens e os eventos que retrata.
Se há nele um porém é no excesso de enaltecimento aos valores norte-americanos –comum nos filmes de Peter Berg –que, a partir de algum momento, começa a soar xenófobo em algumas cenas, piegas em outras.
Nada que desfaça a constatação do grande filme que foi realizado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Se Beber, Não Case 2 e 3

O primeiro “Se Beber Não Case” ao mesmo tempo que era ótimo –e essa qualidade rendeu gorda bilheteria, sucesso de crítica e o Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia em 2009 –também se bastava em si mesmo tendo começo, meio e fim bem definidos.
Todavia, era questão de tempo que tanto êxito se traduzisse num novo filme.
Aguardado com expectativa pelos fãs numerosos arrebanhados pelo ótimo primeiro filme, a continuação foi lançada em 2011, debaixo de pelo menos uma polêmica bastante tola: A tatuagem em um dos personagens que reproduzia em caráter de homenagem a mesma tatuagem de Mike Tyson (a mais falada participação especial do primeiro filme), o que não impediu o tatuador Victor Whitmill de tentar processar os produtores do filme –as cópias em homevideo tiveram que ter seu lançamento atrasado em meses para que, segundo instrução dos advogados de Whitmill, a referência à tal tatuagem fosse digitalmente removida.
Contudo, vamos falar do filme em si.
Desta vez, não mais em Las Vegas, mas, na Tailândia, acompanhamos o casamento não de Doug (Justin Bartha que, ao contrário do que se esperava, não tem sua participação aumentada no filme, e permanece alheio aos acontecimentos) e sim de Stu (Ed Helms) que (também ao contrário do que se esperava) não vai se casar com a personagem de Heather Graham do filme anterior, mas sim com uma mocinha de descendência tailandesa (a bonitinha Jamie Chung, de “Sucker Punch” e “Sin City-A Dama Fatal”).
Como era de se imaginar, a cerimônia terá a presença do grande amigo Phil (Bradley Cooper, aquele que melhor soube administrar a carreira após do sucesso do primeiro filme) e do inacreditavelmente lesado Alan (Zach Galifianakis) que, após os acontecimentos do filme original, se vê ligeiramente ressentido pelo afastamento do “bando de lobos”.
A nova reunião representa a oportunidade para mais uma festa de arromba durante a despedida de solteiro de Stu, entretanto, na manhã seguinte, mais uma vez, uma presepada os aguarda: Sem lembrança das confusões da noite anterior –veja só... –eles se deparam com fato de que agora o irmão da noiva (e futuro cunhado de Stu) desapareceu (!), e precisam reunir indícios de tudo que aprontaram na noite anterior para descobrir onde ele está antes do prazo-limite do casamento.
Como se pode perceber, o filme em si pode não ser visto como uma continuação apenas, mas sim como uma reprodução do filme original, com alterações pontuais –mas, que não são contundentes o suficiente para que qualquer um não perceba a semelhança gritante na trama dos dois.
E como o frescor sempre possui um sabor melhor do que o requentado, é óbvio que o primeiro filme é infinitamente superior a este!

Se o segundo filme foi consequência do sucesso do primeiro, então pode-se perfeitamente afirmar que o terceiro filme foi, por sua vez, uma consequência das críticas mais comuns dirigidas à continuação –afirmando ser ela (não sem uma certa razão) uma mera refilmagem da história do original.
Com efeito, “Se Beber Não case 3” vai buscar material numa trama que se afasta de acontecimentos similares aos outros dois filmes.
O imaturo Alan envolve-se num inacreditável acidente envolvendo uma girafa –uma cena que mostra a dificuldade considerável encontrada pelos realizadores em fazer rir de fato neste terceiro filme –o que culmina numa sucessão de infortúnios que levam seus amigos, o chamado “bando de lobos”, à decisão radical de interna-lo numa clínica para doentes mentais.
A caminho de lá, Phil, Stu, Doug e o próprio Alan são abordados violentamente por Marshall (o sempre eficiente John Goodman) com uma encrenca que os persegue desde o primeiro filme: O insano gangster Leslie Chow (na interpretação aloprada de Ken Jeong) escapou da prisão (para onde tinha ido no filme anterior) em posse de milhões de dólares em barras de ouro roubadas de Marshall, e como seus únicos amigos são eles –Alan tem trocado e-mails com Chow desde então! –Phil, Stu e Alan são os únicos capazes de encontra-lo; dessa forma, Marshall sequestra Doug sob a promessa de mata-lo senão lhe for entregue Chow.
Com base nessa premissa um tanto sombria, mas de fato esforçada em se afastar de similaridades óbvias em relação aos outros filmes, o terceiro filme tenta assim, fazer graça e conduzir seus personagens a um desfecho digno, inclusive, levando sua ação de volta a Las Vegas na segunda metade, proporcionando assim diversas referências ao primeiro filme.
Tem lá seus momentos, por uma série de razões objetivas: Porque os personagens já são conhecidos do público e é agradável acompanha-los em suas peripécias; porque o diretor Todd Phillips se não exerce genialidade, ao menos, empresta ritmo aos acontecimentos; e porque o elenco em geral é competente, descontraído e bem entrosado –com as contribuições particulares de John Goodman, Ken Jeong e de Melissa McCarthy, numa ponta.
Nenhum desses elementos, porém, diz respeito a qualquer qualidade do filme propriamente dito, o que faz deste terceiro (e certamente último) exemplar da série, uma obra claudicante.
A trilogia que começou pulsante e levando um improvável sopro de ineditismo ao acomodado gênero de comédia terminou com aquilo que tinha orgulho de não ser: Um filme com pouca graça.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Monstros S.A.


A Pixar vinha de um sucesso estrondoso (“Toy Story”) e um sucesso razoável (“Vida de Inseto”) quando, ainda na necessidade de se provar perante público e crítica, provou, com este “Monstros S.A.”, que era sim capaz de apreender doses cavalares de genialidade e astúcia narrativa no que parecia apenas um longa-metragem descompromissado.
Numa dimensão paralela habitada por monstros, o baixinho Mike (voz de Billy Cristal, caprichando no improviso) e o grande e peludo Sully (John Goodman, emotivo) trabalham numa usina de energia especializada em arrancar gritos de terror das crianças da nossa dimensão (o medo das crianças é uma fonte de energia na dimensão deles).
Mas, as crianças, cada vez mais incrédulas, já não têm tanto medo assim dos monstros que se materializam no armário, tanto que o mundo de Mike e Sully enfrenta uma crise de energia generalizada. É quando, sem querer, os dois deixam uma garotinha humana –a apaixonante Boo –escapar para o seu mundo criando um enorme pandemônio (os monstros acham que as crianças são tóxicas).
Incluído entre as primeiríssimas produções indicadas ao Oscar de Melhor Longa-Metragem de Animação em 2001 –o primeiro ano em que essa categoria foi instaura –“Monstros S.A.” injustamente perdeu para o sarcástico, mas não tão memorável, “Shrek”.
Uma pena: Dono de um roteiro primoroso –onde são levadas em conta capacidades pouco exploradas das crianças em encarar a tensão da narrativa e a complexidade de certos tópicos –o filme se permite uma inesperada e bem-humorada reflexão sobre as prioridades trabalhistas e as características perniciosas do medo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Vôo


Reconstituído com mais minúcia e fidelidade em “Sully-O Herói do Rio Hudson” (dirigido por Clint Eastwood, com Tom Hanks), o episódio em que a habilidade do veterano piloto salvou as vidas dos passageiros de um Boeing serviu de inspiração para este filme de Robert Zemeckis, lançado uns anos antes, onde ele regressou às narrativas mais realistas depois de quase uma década fazendo experiências em animações com captura de performance.
Aproveitando brilhantemente o fato de ser uma obra de ficção –e com esse expediente usar de suas ferramentas para surpreender o público –e basear-se apenas por alto no episódio real, “O Vôo” oferece, acima de tudo, uma oportunidade e tanto para Denzel Washington mostrar sua capacidade na plenitude de seu talento.
Ele é Whip Whitaker, um piloto já tão habituado ao seu compulsivo alcoolismo que tal vício lhe serve mais para ser socialmente desenvolto e profissionalmente destemido.
No acidente aéreo que ocupa os quinze minutos iniciais do filme –e que Robert Zemeckis elabora com virtuosismo acachapante –o vício etílico de Whip não surge como um problema, e nem o impede de fazer um pouso milagroso num campo aberto, salvando muitos passageiros quando todos podiam ter morrido.
Na verdade, se revela um problema mais tarde: Quando as investigações protocolares se iniciam, e a necessidade de um bode expiatório paira sobre corporações preocupadas como a construtora do avião, o alcoolismo de Whip, até então despercebido, ameaça torná-lo um alvo de severa punição. E alguns aliados como o amigo e consultor de vôo Charlie Anderson (Bruce Greenwood) e o relutante advogado Hugh Lang (Don Cheaddle) farão o possível para que os indícios do vício de Whip passem batidos no julgamento, a despeito do fato desconcertante de que o próprio Whip parece afundar cada vez mais nesse lamaçal.
Muito mais bem resolvido cinematograficamente, e bastante superior em termos de narrativa e realização do que “A Travessia”, o filme seguinte de Zemeckis, “O Vôo” talvez goze de tal posição em sua filmografia justamente por contar como seu ponto alto o fator humano (não somente Washington está magistral como também estão a linda Kelly Reilly, de “Sra. Henderson Apresenta”, e o grande John Goodman) na obra de um cineasta reconhecido pela atenção às vezes excessiva que ele dá às facetas técnicas de suas produções.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O Artista

Foi o francês Michel Hazanavicius –outrora, mais conhecido por diversos filmes de graciosa paródia feitos em parceria com o astro Dujardim (o quê não deixa de ser o caso deste filme também) –o realizador deste festejado vencedor do Oscar 2012 de Melhor Filme, derrotando inúmeros concorrentes de peso (e de qualidade cinematográfica notadamente superior).
Pode-se argumentar que, para aqueles de paladar mais comercial, ele acerta onde, por exemplo, "Árvore da Vida" erra (um de seus concorrentes na disputa ao Oscar): Tem o bom senso de terminar na hora certa –não cansando o expectador; este é um dos mais curtos e rápidos filmes a ganhar o Oscar dos últimos anos.
Todavia, se este é o melhor elogio a se fazer para um filme que tirou tal prêmio das mãos de “A Invenção de Hugo Cabret”, “Histórias Cruzadas”, “Meia-Noite em Paris” ou da própria obra de Terence Malick, então este é um caso de se rever a atitude da Academia de Artes Cinematográficas.
1927. O astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin premiado com o Oscar de Melhor Ator) conhece e encanta-se com a atriz iniciante Peppy Miller (Berenice Bejo, esposa do diretor, em uma bela atuação). Nos anos que virão com a ascensão do cinema falado e o declínio do cinema mudo, ela irá tornar-se uma estrela, enquanto ele sofrerá sua decadência, indisposto e incapaz de aceitar essa nova tecnologia.
Filmado em preto & branco e num tom completamente desprovido da acidez das comédias norte-americanas, o ameno e singelo trabalho de Hazanavicius se mostra uma homenagem aos filmes mudos em geral (valendo-se dos mesmos recursos, como pantomina, intertítulos e tudo o mais) e das obras, daquele período, oriundas dos estúdios hollywoodianos em particular. Tudo mostrado com reverência, com carinho e zelo. De repente pode ter sido essa escancarada demonstração de admiração que tenha massageado o ego dos americanos, fazendo com que “O Artista” conquistasse os cinco Oscars que conquistou –incluindo o de Melhor Diretor para Hazanavicius.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Atômica

Como todos os grandes diretores que já demonstraram propriedade ao moldar o gênero de ação (Irmãs Wachowsky, Paul Greengrass, Steve Sodenbergh), David Leitch compreende o fetiche inerente a essa categoria de filme. Sua narrativa efusiva e diversificada cerca de atributos e elementos visuais o corpo de Charlize Theron. E que corpo! –ela materializa a mais perfeita e genuína versão feminina de James Bond desde que esse objetivo ensaiou-se no cinema comercial.
Numa compreensão intrínseca que já havia demonstrado da ação em “John Wick”, Leitch enxerga em Charlize Theron o objeto, o modelo para experimentações, e ao longo das quase duas horas de “Atômica” ela passará com honras por todas as variações mais brutais, técnicas e dramáticas da ação.
Como se tal zelo não bastasse, Leitch se beneficia do fato de que a trama desta adaptação de histórias em quadrinhos se passa nos anos 1980 –mais precisamente, 1980, às vésperas da queda do Muro de Berlim: O repertório do qual ele dispõe na trilha sonora é tão sensacional quanto poderia ser.
Charlize Theron é Lorraine Broughton, uma agente do MI6 –o Serviço de Inteligência Inglês –despachada para Berlim em uma missão escorregadia: Oficialmente, trazer o corpo de um agente morto por lá; extra-oficialmente, encontrar um microfilme tirado dele e que contém uma lista de agentes infiltrados. Mais que isso: O nome mais procurado dessa lista, seja por ingleses ou por soviéticos, é o do fantasmagórico agente Satchell, um agente duplo –ou talvez até triplo! –à serviço da Coroa. Lorraine conta com a ajuda pouco confiável de um agente britânico há anos baseado em Berlim chamado David Percival (James McAvoy, uma escolha interessante para um personagem irrequieto e ambíguo), além da aliança (ou oposição...) da sedutora agente francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella, uma delícia!), e dos recursos variados de um astuto contato no lado oriental de Berlim (Bill Skarsgaard, o Pennywise de “It-A Coisa”).
O diretor David Leitch em momento algum se acomoda com as cartas que dispõe na mesa: Cada minuto de filme é uma oportunidade que ele usa para surpreender o expectador, seja com a expressividade gestual ou o talento físico de Charlize Theron (que mulher extraordinária!), seja com as características fascinantes da rebuscada narrativa de espionagem que guarda, até os segundos finais, uma série de guinadas inesperadas debaixo da manga, neste filme admirável, envolvente e eletrizante.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?

Os Irmãos Coen já fizeram de quase tudo: Homenagens ao cinema (“Barton Fink-Delírios de Hollywood” e recentemente “Ave, César”); homenagens à gêneros muito específicos (o filme gangster com “Acerto Final”, o film noir com “Gosto de Sangue”, o faroeste com “Bravura Indômita”); cult-movies (“O Grande Lebowski”); ganhadores do Oscar (“Fargo” e, sobretudo “Onde Os Fracos Não Têm Vez”) e até mesmo obras inclassificáveis (“Queime Depois de Ler” e “Um Homem Sério”).
Mas, eis que nessa ânsia por renovação e por jamais se prender numa fórmula, eles decidiram fazer também uma versão moderna do clássico conto da Grécia Antiga “A Odisséia”, assim como também uma produção musical: Tudo num só filme!
Além de ser isso tudo, “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?” é, de certa maneira, também uma homenagem ao cinema, como será possível perceber mais a frente.
Durante o período da Grande Depressão norte-americana (década de 1930), o presidiário Everett Ulisses McGill (George Clooney, em espetacular paródia do astro antigo Clark Gable), junto de seus dois amigos, Delmar (Tim Blake Nelson, sensacional) e Pete (John Turturro), resolve fugir dos trabalhos forçados da prisão estadual e toma a longa estrada para casa, disposto a voltar para os braços de sua relutante mulher, Penny (Holly Hunter) –no quê já fica perfeitamente perceptível a transposição de “A Odisséia” de Omero (cujo protagonista se chama Ulisses!) para esta versão bem-humorada e deliciosamente desmiolada que se vale dessa ambientação inusitadamente norte-americana dessa saga mitológica para fazer uma esperta sondagem das raízes provincianas em muitas das características, positivas e negativas, dos EUA.
Como vem a afirmar as palavras proféticas de um senhor no começo do filme, a viagem dos três será repleta de contratempos e distrações, além da constante perseguição da polícia –na forma de uma presença espectral e diabólica que parece ter um dom sobrenatural para encontrá-los.
Eles encontrarão Tommy Johnson (Chris Thomas King), um jovem tocador de banjo –numa referência ao filme “A Encruzilhada”, talvez? –que afirma ter vendido a alma ao diabo em troca de talento ao dedilhar o instrumento (junto dele, eles cantam uma música numa rádio local que, no percurso de sua fuga, vai se tornar uma das mais tocadas da estação!); como o próprio Ulisses, encontrarão sereias –ou melhor, lavadeiras de rio! –cuja voz melodiosa será capaz de enfeitiçá-los; além de um ciclope (John Goodman) que os conduzirá à encrencas envolvendo a Ku Klux Khan (numa seqüência musical que se atreve a estabelecer analogias propositais ou não entre as manifestações nazistas e os grandes musicais da Antiga Hollywood) e até mesmo a folclórica e torturada figura do ladrão de bancos Baby Face Nelson (Michael Badalucco).
Tirando de letra a difícil tarefa estabelecida pelo conceito desafiador de conceber um musical em termos tão inusitados (não só a trilha sonora é inebriante como o elenco arrasa nas seqüências cantadas), este belo trabalho dos sempre talentosos irmãos Coen marca a primeira dentre as inúmeras colaborações frutíferas com o igualmente talentoso astro George Clooney, que se mostra extremamente à vontade (ele chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical) trabalhando ao lado de seus já habituais colaboradores: Holly Hunter, John Goodman, John Turturro e Charles Durning, todos já fizeram filmes com os Coen antes.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Kong - A Ilha da Caveira

Habitante do imaginário popular desde 1933, quando o filme clássico de Merian C. Cooper foi lançado, King Kong apareceu em várias versões na cultura pop além dos três conhecidos longa-metragens para cinema; até mesmo um encontro com o monstro nipônico Godzilla foi arranjado!
Nessa nova personificação, “Kong-A Ilha da Caveira”, o macaco gigante surge embalado por uma veia comercial extremamente atrelada aos tempos de hoje –onde uma franquia só vale a pena comercialmente quanto tem um “universo compartilhado”.
Por isso, a trama apresenta ligeiras modificações em relação àquelas dos filmes anteriores. Ainda há –é claro! –uma assim chamada Ilha da Caveira, onde as mais inacreditáveis monstruosidades se criaram longe do testemunho humano. Como também ainda há aqueles impelidos por um desejo quase inconseqüente de ir até lá, e descobrir seus segredos, mesmo que isso custe toda a vida de uma incauta equipe que irá acompanhá-los. E aqui, tal personagem ganha vida nas mãos de John Goodman, um estudioso obcecado em descobrir a Ilha da Caveira (identificada por meio de fotos de satélite), e que convence, ao lado de outro companheiro (Corey Hawkins) um senador de Washington (ponta de Richard Jenkins) a financiar uma expedição à ilha antes dos russos (eram anos 1970, e vivia-se a realidade da Guerra Fria). Ele é só o primeiro de muitos que virão.
Finda a Guerra do Vietnam, a esquadrilha de soldados e helicópteros chefiados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson, o Nick Fury de “Os Vingadores”, da Marvel Studios) recebe assim a missão de escoltar os cientistas até o longínquo lugar –a conversão gradual e nada sutil do personagem de Jackson num estereótipo de militar intempestivo, irredutível e explosivo é infelizmente dos pontos baixos do filme.
Além deles, está também o mercenário e aventureiro de aluguel Conrad (Tom Hiddleston, o Loki de “Thor”, da Marvel Studios) e a fotógrafa de guerra Mason Weaver (Brie Larson, protagonista do ainda vindouro filme da “Capitã Marvel”, da Marvel Studios).
Na ilha, além dos perigos eventuais e da portentosa presença de King Kong (vivido, na captura de performance, pelo ator Toby Kebbel), eles encontram também um piloto perdido da época da Segunda Guerra Mundial, Marlow (John C. Reilly que foi coadjuvante em “Guardiões da Galáxia”, da Marvel Studios).
E, como se pode notar pelos créditos do elenco, se há um molde pelo qual esta produção se baseia, ele está menos no clássico “King Kong” de Merian C. Cooper e Ernest Schoedsack e mais nos bem-sucedidos filmes da Marvel que compartilham o mesmo universo entre si. Este filme também trás uma vibração assim: E isso se percebe na presença da subdivisão Monarch –também ela presente em “Godzilla”, de Gareth Edwards –mostrado aqui como um departamento ainda embrionário, capitaneado por Randa (o personagem de Goodman) e que é uma boa dica do que ainda virá. Se mesmo assim o público não se convencer, certamente a cena pós-créditos (tal como faz a Marvel Studios) o fará: Pois eis que agora é Hollywood, com seus efeitos especiais grandiloquentes e megalomaníacos, quem quer, afinal, reeditar o encontro de Kong com Godzilla e outros gigantescos monstros ilustres do passado!
Até lá, no entanto, é possível se entreter, e muito bem, com o regozijo cinematográfico que o diretor Jordan Vogt-Roberts consegue extrair de todas as cenas, desde que se releve um ocasional exagero na sinergia de algumas seqüências e na pressa do andamento –fruto, entre outras coisas, de um roteiro que ao mesmo tempo em que apresenta dezenas de personagens, exige ritmo em sua condução.

domingo, 23 de abril de 2017

Argo

A produção dirigida por Ben Affleck é um filme primoroso nos mais diversos aspectos, mas talvez, o mais interessante deles é que promove uma junção vistosa, homogênea e relevante entre um cinema sério, de conotações sócio-políticas (e providencialmente baseado em fatos reais) com o entretenimento típico (do qual o próprio Affleck, como ator, participou de inúmeros exemplares), feito puramente para que a tensão, quando suscitada, intensifique a catarse do desenlace seguinte; e nesse aspecto, a direção de Ben Affleck é de uma perspicácia louvável.
Fim dos anos 1970. Sob enorme tensão política, a embaixada americana é invadida no Teerã. Seis de seus funcionários escapam com vida para as ruas e buscam refúgio na embaixada canadense. Sua segurança, porém, deve durar pouco. Correndo contra o tempo, o agente da CIA, especialista em extrações, Tony Mendez (Affleck em interpretação contida e minimalista), elabora uma missão das mais improváveis: Sair daquele país com a identidade de uma equipe cinematográfica canadense que foi lá atrás de locações para um filme de ficção científica intitulado "Argo" –o mundo e a cultura pop, afinal, experimentavam uma febre por filmes de ficção científica iniciada por um certo “Star Wars”!
Para viabilizar essa missão, é criada uma produtora de cinema em funcionamento (contando com os autênticos realizadores vividos por John Goodman e Alan Arkin) e todo um processo ilusório de filmagem que engana os próprios profissionais da área.
O fabuloso Vencedor do Oscar 2013 de Melhor Filme é um prodigioso trabalho do diretor Ben Affleck na construção magistral de uma atmosfera crescente, constituído de uma dosagem refinada (e calibrada à perfeição) de suspense e ritmo. “Argo” se torna fascinante justamente em sua postura, na qual coloca questões culturais, políticas e diplomáticas em segundo plano (sem, no entanto, tirar deles sua importância para com a narrativa) e elege o próprio cinema como o herói da trama e grande salvador dos personagens indefesos e encrencados.
Dentre os últimos ganhadores do Oscar é o mais assumidamente divertido em muito tempo.