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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

X-Men Fênix Negra


 “Fênix Negra” é, em vários aspectos, o fim de uma era: É o fim dos X-Men como eles foram conhecidos até aqui no âmbito cinematográfico, ou pelo menos, o fim da reinvenção promovida em 2011 por “X-Men Primeira Classe”. É também, a produção que marca a última realização dos Estúdios Fox em torno desses personagens que até então a produtora possuía –as negociações que levaram a Disney a adquirir todo o espólio intelectual da Fox e terminaram levando os direitos dos mutantes de volta para a Marvel Studios estavam em curso enquanto “X-Men Fênix Negra” se achava em produção.

Como resultado, este trabalho –o trabalho de estréia, como diretor, do roteirista mais prolífico desta franquia, Simon Kinberg –já veio prejudicado por uma expectativa bastante negativa, e pelo demérito de abordar uma mitologia já, digamos, moribunda: Os personagens de qualquer modo sofreriam um novo reboot no novo estúdio, e até mesmo Hugh Jackman, o representante maior dessa fase dos mutantes em seu auge, já havia se despedido de seu personagem, Wolverine, em “Logan”.

O fato do filme desagradar público e crítica foi somente a cereja no topo desse bolo pra lá de indigesto que muitos foram obrigados a engolir. Mas, por trás de todos esses revezes tremendamente desfavoráveis, a pergunta crucial que fica é: O filme, afinal, é ruim de fato?

Para muitos é um despropósito discutir esses méritos, visto que quando chegou aos cinemas, “Fênix Negra”, por todas as razões já citadas, tinha perdido sua relevância. Entretanto, a verdade é que não... o filme de Simon Kinberg não é tão ruim assim, não!

Também passa longe de igualar a qualidade pulsante de “Primeira Classe”, o melhor filme de toda franquia, ou mesmo a maestria sempre austera de “Dias de Um Futuro Esquecido”, que manteve um nível considerável de qualidade, mas certamente evita muitos dos equívocos estapafúrdios presentes em “Apocalypse”, por exemplo.

Na pior das hipóteses, o roteiro (também escrito por Kinberg) trabalha os elementos com absoluta desenvoltura e familiaridade –tão habituado ele está com o material envolvendo os mutantes que seu manejo é algo que ele faz com serenidade.

No prólogo, temos uma bem-feita cena de acidente, onde uma ainda jovem Jean Grey perde os pais durante um uso inadvertido de seus poderes (cena esta que contradiz algumas circunstâncias nas quais essa mesma personagem foi introduzida no filme anterior, “Apocalypse”). Corta para a atualidade –ou os anos 1980 ou 90 na cronologia incerta da série... –quando Jean (agora interpretada pela gatíssima Sophie Turner, de “Game Of Thrones”) é uma das alunas da Escola Charles Xavier Para Jovens Super-Dotados, e integra, ao lado de Mística (Jennifer Lawrence), Ciclope, seu namorado (Tye Sheridan), Mercúrio (Evan Peters), Noturno (Kodi Smith-McPhee), Tempestade (Alexandra Ship) e Fera (Nicholas Hoult), o grupo conhecido como X-Men, uma espécie de equipe composta de mutantes, disponibilizados por Charles Xavier (James McAvoy), durante as mais variadas emergências a fim de preservar uma boa imagem do povo mutante perante as pessoas normais.

Numa ocasião surge, portanto, uma emergência mais complicada que o habitual: Um ônibus espacial sofre uma avaria e fica à deriva no espaço à mercê do que parece ser uma tempestade de energia solar. À bordo de seu avançado avião high-tech, o Pássaro Negro, os X-Men partem para o salvamento, e quando as coisas se complicam de verdade, os poderes de Jean se revelam fundamentais: Ele consegue proteger a todos, mas é assolada pela estranha radiação que dela parece se apoderar.

Jean, no entanto, sobrevive. Mas, ao voltar para a Terra, uma energia perigosa e imprevisível começa a se apoderar de sua vontade, potencializando e amplificando seus poderes (a telepatia dela sobrepuja a do Prof. Xavier) e ressaltando seus sentimentos negativos em relação à rejeição e ao abandono. Com isso, Jean volta-se contra Xavier e os X-Men e, no processo, descobre-se poderosa o bastante para superar a todos .

Ao mesmo tempo, criaturas alienígenas descem à Terra em busca de Jean, ou melhor, em busca do poder que ela absorveu –e que, em todo universo, parece ser a única criatura capaz de suportá-lo. Liderando esses seres estranhos e muito pouco esboçados ao longo do filme está Vuk, que assume com obviedades o papel de vilã da história (e para a qual a normalmente competente Jessica Chastain entrega uma atuação fria, caricata e apática).

No meio desse entrave, Eric, ou melhor Magneto (Michael Fassbender), assume uma posição mais ambígua: Embora tenha superado seu antagonismo com Charles Xavier –cuja relação oscilava em amizade e rivalidade ao longo dos filmes –ele não concorda de todo com sua postura, embora também não tenha intenção de aliar-se à Vuk e suas inclinações genocidas.

Com essa premissa e com seus ricos personagens justapostos, o roteiro de Kinberg faz o que sempre foi feito em toda franquia; explora suas dinâmicas humanas, ao mesmo tempo em que nunca perde o foco de suas habilidades sobrehumanas. E uma de suas notáveis qualidades é não perder-se em meio à tanta diversidade: Muitas são as cenas, sobretudo, em sua segunda metade, onde vários personagens com poderes diversos estão em conflito, e todos são empregados, de modo geral, com intensidade, coerência e coesão. Pode não parecer nada, mas essa é uma falha muito fácil de se cometer ao se orquestrar um filme sobre super-humanos com tantos poderes distintos entre si. E nela, “Fênix Negra” não cai.

Os maiores problemas que afligem o filme de Simon Kinberg são, na verdade, dois: O primeiro, o fato de Kinberg ter tanta inexperiência como diretor; Nas mãos dele, cenas que tinham tudo para serem antológicas, perdem seu potencial por pequenos detalhes irrisórios, e às vezes, por um tratamento involuntariamente displicente. E, meu Deus, que direção de atores péssima! –ele consegue desperdiçar talentos incontestes como os de Lawrence, McAvoy, Fassbender e Chastain!!

O segundo é o evidente fato dele aqui tentar adaptar o mais famoso dentre todos os arcos narrativos dos X-Men nos quadrinhos, a “Saga da Fênix” –já aproveitada, também sem sucesso, no irregular “X-Men O Confronto Final” –listada, por muitos, entre as melhores HQs de todos os tempos. Se, pelo menos, “Fênix Negra” se sai melhor do que “O Confronto Final” no cômputo geral, ele se obriga a abandonar aspectos empregados naquele filme, e constrói uma pálida versão de elementos que nos quadrinhos eram exuberantes e intensos, resultando assistível, ainda que imperfeito.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

It - A Coisa Parte 2

Dono da honraria de maior bilheteria para um filme de terror de toda a história do cinema, o “It-A Coisa Parte 1” deixou uma expectativa considerável a ser superada pela parte 2 –e já se presumia uma certa infelicidade da parte do projeto uma vez que sabíamos que o elenco infantil (responsável por grande parte do apelo irresistível daquele filme) não retornaria sendo que os personagens seriam mostrados em idade adulta, exatos vinte e sete anos depois dos acontecimentos anteriores.
A saída do diretor Andy Muschetti foi criar um pretexto para que as crianças voltassem; na forma de sucessivos flashbacks que não só acometem com frequência à narrativa principal como também recebem uma justificativa bastante poderosa dentro de sua premissa, o que termina por modificar algumas considerações da trama e a afasta bastante do que se passa no livro original de Stephen King –do qual o “Parte1” era tão magnificamente fiel.
Algumas coisas são até deduzíveis: Sabemos que Pennywise, a entidade maligna que assume na maior parte das vezes e das cenas a forma de um tenebroso palhaço assassino (interpretado com notável caracterização por Bill Skarsgaard) não morreu de fato no final do filme anterior; e também sabemos, por informações pregressas, que ele desperta a cada vinte e sete anos com sede de sangue, passando a assombrar novamente a desolada cidadezinha de Derry.
Dentre os sete jovens amigos que integravam o Clube dos Perdedores –os responsáveis pela derrota de Pennywise –somente Mike (Isaiah Mustafa) ficou na cidade; e por razões que descobriremos mais tarde somente ele reteve memórias mais nítidas do ocorrido e da promessa que, na emocionante cena final, todos eles fizeram.
Quando os indícios do retorno da criatura ficam claros –inclusive com uma cena perturbadora de morte mostrada já no início, um bocado indicativa da disposição do diretor Muschetti em preservar em seu filme a ênfase num pavor muito mundano e contundente apontada por Stephen King em toda sua obra –Mike decide contactar um a um seus antigos amigos, que deixaram Derry para seguir suas vidas.
É assim que, numa sequência formidável, somos apresentados aos personagens em sua nova versão (e aos atores que os interpretam, todos escolhidos com zelo de tal maneira absoluto que eles realmente parecem os intérpretes infantis envelhecidos, detalhe aproveitado em diversas cenas que intercalam o passado e o presente): Bill, agora vivido por James MacAvoy, tornou-se autor e roteirista de cinema; o hipocondríaco Eddie (James Ransone) tornou-se analista, e casou-se com uma esposa implicante e repressora a espelhar de tal maneira sua mãe que termina interpretada pela mesma atriz (!); a única garota do grupo, Beverly (agora vivida pela absurdamente maravilhosa Jessica Chastain), casou-se –com um marido violento que é descartado logo em sua primeira cena; enquanto que o gordinho Ben, apaixonado por ela desde a infância, tornou-se arquiteto e deixou de ser gordinho ganhando a fisionomia malhada do ator Jay Ryan; o divertido Ritchie, uma das melhores presenças do primeiro filme, ganhou uma nova versão à altura, com o ótimo Bill Hader; e Stan (Andy Bean), por sua vez (por razões que convêm não dizer), tem aqui sua participação bastante reduzida.

Todos vão assim parar em Derry, onde a ameaça de Pennywise os aguarda, bem como lembranças das quais eles se desprenderam –em grande parte, explicado pelo fato do poder do próprio Pennywise exercer esse esquecimento sobre quem de lá se afasta. Daí Mike (que foi o único a permanecer em Derry) ser o único a lembrar de tudo.
Num recurso meio oportunista, o roteiro sugere que as próprias memórias que o expectador compartilha com os personagens (correspondentes aos eventos do primeiro filme) não representam sua totalidade: Daí o reaproveitamento dos protagonistas juvenis do outro filme em novas cenas feitas especialmente para esta produção. Muitas delas dão uma forte impressão de encheção de lingüiça (apenas para preservar na continuação a maioria dos elementos do sucesso anterior), entretanto, veem também abrilhantadas por um agridoce sabor de nostalgia e uma técnica primorosa da parte do diretor Muschetti.
O Clube dos Perdedores tem, pois, que reunir alguns artefatos especiais (todos inerentes ao apreço pessoal de cada um) para a execução de um ritual onde será revelada a verdadeira forma da Coisa (na verdade, um alienígena milenar de poderes metafísicos) por meio do qual ele por fim pode ser morto.
Dentro dessa estrutura –a árdua preparação para o ritual, a procura individual por cada um dos artefatos, as consequentes aparições fantasmagóricas de Pennywise ao longo disso, as informações acerca de sua origem e o emprego de alguns outros elementos (inclusive ideias novas que afastam este filme do livro) –a realização de Andy Muschetti não faz a menor questão de esconder as imodestas proporções que fazem dele uma espécie de “Senhor dos Anéis” do gênero terror: Em escala e em extensão (sua duração atinge quase as três horas!), “It-A Coisa Parte 2” apresenta uma abrangência e uma amplitude que poucos, quiçá filme nenhum de terror chegou a ostentar antes.
É por isso que, embora traga um trabalho visivelmente contagiante e apaixonado pelo material que manipula, a direção de Muschetti encontra justamente o problema de um excesso de fascínio por seu próprio conteúdo que compromete a solidez da narrativa em seu terço final –o conflito contra Pennywise se estica demais porque Muschetti toma muito tempo se enamorando dos personagens para deixa-los com tanta facilidade. Ele se apega demais a detalhes não tão necessários assim, e com isso perde o foco.
Nada que desvaneça o fato de ser esta uma obra belíssima e perfeitamente capaz de agradar por completo seu público –ela simplesmente não consegue igualar o sensacional filme ao qual busca dar continuidade.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Band Of Brothers

A experiência de realizar em conjunto o clássico “O Resgate do Soldado Ryan” havia sido tão marcante para Steven Spielberg e para o astro Tom Hanks que eles resolveram, em 2006, se aventurar por um projeto de espírito muito parecido, e escopo ainda mais ambicioso.
A minissérie “Band Of Brothers” levava para a tela da TV a mesma concepção visual e narrativa que tornava “Soldado Ryan” majestosamente cinematográfico, desta vez, contando a história muito real (e muito Impressionante) da Companhia Easy, o 506º Regimento da 101ª Divisão de paraquedistas dos EUA.
A história, oriunda do livro de Stephen E. Ambrose, detalha com minúcia espetacular o modo como as circunstâncias fizeram com que a 101 fosse uma das Divisões de desempenho definitivo na Segunda Guerra Mundial, em ocasiões assombrosamente estratégicas, inclusive sendo os primeiros a chegar ao famigerado Ninho da Águia, o Q.G. de Adolph Hitler.
Oscilando episódio a episódio em seu protagonismo –em virtude de possuir numerosos personagens –mas, ainda assim, mantendo o foco central quase sempre no destemido capitão Winters (a quem Damian Lewis confere uma interpretação à altura), a história tem início no epísodio “Currahee”, onde vemos, não a guerra, mas o treinamento submetido aos recrutas –durante o qual a tropa como um todo já demonstra sinais de que virá a ser um dos grupos de desempenho mais destacado do batalhão.
Somente a partir do segundo episódio, “O Dia dos Dias”, somos testemunhas da guerra de fato, numa reconstituição espetacular das operações aéreas do Dia D quando legiões de paraquedistas norte-americanos saltaram na França sob artilharia pesada.
Do ponto de vista do perplexo recruta Blithe (Marc Warren), vemos, no episódio “Caretan” a Companhia Easy se reagrupar e tentar repelir os invasores alemães da cidade francesa de Caretan, numa das mais fabulosas batalhas já filmadas na TV norte-americana.
É no episódio “Os Substitutos” que Winters é promovido de tenente para capitão quando toda a companhia retorna à Inglaterra para então ser encaminhada como apoio numa operação nos Países Baixos. Na Hollanda, uma ofensiva sofrida pela Easy leva o hábil soldado Denver ‘Bull’ Randleman (Michael Cudlitz) a perder-se de sua tropa durante uma tensa noite em meio à fazendeiros refugiados e soldados inimigos espreitando em cada canto.
Ainda pela região da Hollanda, em “Encruzilhadas”, a Companhia Easy frustra mais uma operação alemã, para então lançar-se a uma penosa incursão à Bélgica, no que o capitão Winters compreende ser um desafio de vida ou morte para seus soldados.
O primoroso episódio “Bastogne” chegou a ganhar o prêmio Writers Guild Award, em 2003, por seu roteiro. Nele, testemunhamos através dos olhos do médico Eugene ‘Doc’ Roe (Shane Taylor) o definhar gradativo, tétrico e desumano dos soldados da Easy, a medida que os dias gélidos se passam enquanto eles se veem entrincheirados nas redondezas da cidade belga de Bastogne, nos arredores da ocupada Vila Foy.
O episódio alterna o relacionamento hesitante, furtivo e efêmero de Roe com uma enfermeira belga nas bases aliadas e sua incapacidade em salvar a totalidade de seus companheiros de bombardeios implacáveis e devastadores perpetrados contra as trincheiras que deveriam manter.
Em “A Gota D’Água”, ao receber reforços dos aliados –alguns proporcionados pela tenacidade do General George Patton, como visto em acontecimentos paralelos mostrados em “Patton-Rebelde Ou Herói?” –a Companhia Easy enfim invade a Vila Foy, prosseguindo em seu árduo avanço rumo à Alemanha.
No que talvez seja o mais fraco dentre todos os episódios, “A Patrulha” –não pelo episódio em si, mas, provavelmente pelo nível elevadíssimo de qualidade de todos os demais –acompanhamos o soldado Webster (Eion Bailey) juntando-se à Easy na cidade de Haguenau e sofrendo uma ligeira discriminação de seus outrora companheiros: Um tiro na perna levou-o a um retiro de meses no hospital militar afastando-o de todos os trágicos acontecimentos vistos nos últimos dois episódios, o que leva seus companheiros a dispor-lhe o mesmo tratamento dado aos substitutos.
A saída? Provar seu valor, junto do destacamento do calejado soldado Malarkey (Scott Grimes), e invadir a área de Haguenau tomada por alemães, numa patrulha audaciosa (e para muitos suicida!).
Em “Por Isso Nós Lutamos”, finalmente estrelado pelo melhor amigo de Winters, o Capitão Nixon (Ron Livingston, de “Como Enlouquecer Seu Chefe”), testemunhamos o estarrecimento dos soldados americanos ao encontrarem, pela primeira vez, os terríveis campos de concentração nazista, assim como as legiões de vítimas lá confinadas.
Dessa forma, chegamos em “Pontos”, o último episódio, quando a Companhia Easy por fim chegada ao covil de Hitler, o Ninho da Águia.
A Segunda Guerra Mundial se aproxima de seu desfecho e os soldados, depois de seis longos anos lutando no conflito se preparam para voltar para casa encerrando assim uma das mais extraordinárias minisséries já realizadas.
O título “Band Of Brothers” tem uma refinada origem, William Shakespeare. Parte de uma frase presente do emocionante discurso final em “Henrique V”, quando o protagonista fala aos seus homens sujos, cansados e vitoriosos:
“Deste dia em diante, nós seremos lembrados! Nós, estes soldados entrincheirados! Nós, este bando de irmãos!”

terça-feira, 9 de julho de 2019

Vidro

Os altos e baixos na trajetória de M. Night Shyamalan como autor reconhecido e aclamado refletem a curiosa e demorada gênese de “Vidro” como projeto cinematográfico.
Quando lançou “Corpo Fechado” na esteira do sucesso de “O Sexto Sentido”, Shyamalan experimentou um fenômeno ainda mais inusitado e louvável do que o sucesso de público e crítica da obra anterior: Inicialmente recebido com aparente desprezo por aqueles que julgavam “Corpo Fechado” um correspondente atípico de “O Sexto Sentido”, o filme cresceu na memória do público e dos cinéfilos aos poucos, com o passar do tempo, transformando-se em um dos grandes cult-movies do cinema.
De lá pra cá, entre sucessos originados de sua reconhecida fórmula de fazer cinema e projetos que por vezes caíam na incompreensão e na indiferença, M. Night Shyamalan foi constantemente indagado sobre uma vindoura continuação para “Corpo Fechado” –uma ideia a qual, durante um bom tempo, ele foi abertamente arredio.
A maneira como ele correspondeu ao anseio do público foi bem ao seu gosto, improvável e inesperada: Em “Fragmentado”, de 2016 (exatos dezesseis anos, portanto, do lançamento de “Corpo Fechado”), ele introduz uma cena final onde revelava que o protagonista daquele filme, David Dunn, vivido por Bruce Willis, existia, por assim dizer, no mesmo universo que Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) e os outros personagens de “Fragmentado”.
Estava aberta a porta para a esperada continuação não apenas de “Corpo Fechado”, mas agora de “Fragmentado” também.
Com efeito, a trama se inicia logo depois dos eventos daquele filme. Após o rapto de garotas cuja sobrevivente foi a jovem Casey (Anya Taylor-Joy), e o desenvolvimento de uma 24ª personalidade bestial –adequadamente chamada ‘The Beast’ –a Horda (como é apelidado o indivíduo de múltiplas personalidades vivido por McAvoy) entra no radar do vigilante David Dunn que tem agido nas sombras neutralizando criminosos na Philadelphia na última década com o auxílio logístico de seu filho Joseph (Spencer Treat Clarke, um rapaz aqui, ainda uma criancinha em “Corpo Fechado”).
O embate entre personagens tão antagônicos quanto antológicos não tarda muito a acontecer, escrito e dirigido com aquele primor desigual que Shyamalan parecia ter perdido nos últimos tempos, mas que recuperou em “Fragmentado”.
É quando Dunn e a Horda são capturados e jogados numa clínica psiquiátrica –em uma guinada que aproxima “Vidro” do clássico “Um Estranho No Ninho” –que as intenções de Shyamalan começam a ficar mais claras: Entra em cena a personagem da Dra. Ellie Staple (interpretada com o esperado ar de petulância intelectual por Sarah Paulson).
Staple representa a descrença. Ela não acredita que pessoas normais possam desenvolver características extraordinárias que as aproximam dos superheróis de quadrinhos –a rigor, a premissa de “Corpo Fechado” –e, dentro das instalações psiquiátricas, tratará de enfraquecer a convicção de David, de Kevin (e todas as personalidades dentro dele) e também do sedado Elijah Price (Samuel L. Jackson), encarcerado desde que foi descoberto tratar-se do perigoso Mr. Glass; na concepção dele próprio, um vilão de HQs que compensa a fragilidade do próprio corpo (ossos quebradiços como vidro) com uma mente brilhante e aprimorada.
Staple confronta os três protagonistas fantásticos com embasamentos factuais que nivelam ao patamar do normal as suas proezas, e não deixa de soar com isso aquilo que a narrativa de fato quer fazer dela: Uma estraga-prazeres.
Entretanto, a mente de Elijah não pode ser contida ou domesticada. Antes mesmo que a doutora perceba, já existe um plano detalhado em gestação, e que certamente envolve a fuga dele e da Horda de seus confinamentos.
A essa sequência concebida com zelo e critério (e com um viés emocional inédito nos filmes anteriores), Shyamalan acrescenta todas as considerações morais, pessoais, sentimentais e filosóficas que ele atribui a todos os seus melhores trabalhos: “Vidro” é, como “Corpo Fechado”, uma variação do conceito de histórias em quadrinhos em atividade num mundo real –assunto bastante atual diante do sucesso retumbante do Universo Marvel nos cinemas –mas, é também um olhar preocupado e válido sobre as neuroses imprevisíveis escondidas na sociedade (argumento presente em “Fragmentado”), e une todas essas considerações numa conclusão válida e pertinente sobre a família; e para tanto, são fundamentais à narrativa as participações também dos entes queridos relacionados à cada um dos três protagonistas, Joseph, o filho de Dunn, que busca ser uma força indireta na cruzada do pai; Casey, a vítima que escapou da fúria de ‘The Beast’ por ser reconhecida por ele como uma igual; e a mãe de Elijah (Charlayne Woodard) que sempre experimentou a aflição pelo corpo frágil do filho e o orgulho por sua inteligência fora do comum.
“Vidro”, assim, embora seja também sobre o bem contra o mal (como toda boa HQ), ao mesmo tempo embaralha essas impressões com algumas dinâmicas ambíguas, porém, revela-se mesmo um tratado sobre a fé contra a incredulidade. A disposição para acreditar que o extraordinário é real e possível contra o conformismo de justificá-lo com pretextos impessoais.
E nessa disputa, Shyamalan escolhe claramente um lado sem um pingo de dúvida.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Atômica

Como todos os grandes diretores que já demonstraram propriedade ao moldar o gênero de ação (Irmãs Wachowsky, Paul Greengrass, Steve Sodenbergh), David Leitch compreende o fetiche inerente a essa categoria de filme. Sua narrativa efusiva e diversificada cerca de atributos e elementos visuais o corpo de Charlize Theron. E que corpo! –ela materializa a mais perfeita e genuína versão feminina de James Bond desde que esse objetivo ensaiou-se no cinema comercial.
Numa compreensão intrínseca que já havia demonstrado da ação em “John Wick”, Leitch enxerga em Charlize Theron o objeto, o modelo para experimentações, e ao longo das quase duas horas de “Atômica” ela passará com honras por todas as variações mais brutais, técnicas e dramáticas da ação.
Como se tal zelo não bastasse, Leitch se beneficia do fato de que a trama desta adaptação de histórias em quadrinhos se passa nos anos 1980 –mais precisamente, 1980, às vésperas da queda do Muro de Berlim: O repertório do qual ele dispõe na trilha sonora é tão sensacional quanto poderia ser.
Charlize Theron é Lorraine Broughton, uma agente do MI6 –o Serviço de Inteligência Inglês –despachada para Berlim em uma missão escorregadia: Oficialmente, trazer o corpo de um agente morto por lá; extra-oficialmente, encontrar um microfilme tirado dele e que contém uma lista de agentes infiltrados. Mais que isso: O nome mais procurado dessa lista, seja por ingleses ou por soviéticos, é o do fantasmagórico agente Satchell, um agente duplo –ou talvez até triplo! –à serviço da Coroa. Lorraine conta com a ajuda pouco confiável de um agente britânico há anos baseado em Berlim chamado David Percival (James McAvoy, uma escolha interessante para um personagem irrequieto e ambíguo), além da aliança (ou oposição...) da sedutora agente francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella, uma delícia!), e dos recursos variados de um astuto contato no lado oriental de Berlim (Bill Skarsgaard, o Pennywise de “It-A Coisa”).
O diretor David Leitch em momento algum se acomoda com as cartas que dispõe na mesa: Cada minuto de filme é uma oportunidade que ele usa para surpreender o expectador, seja com a expressividade gestual ou o talento físico de Charlize Theron (que mulher extraordinária!), seja com as características fascinantes da rebuscada narrativa de espionagem que guarda, até os segundos finais, uma série de guinadas inesperadas debaixo da manga, neste filme admirável, envolvente e eletrizante.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Desejo e Reparação

Depois de uma maravilhosa adaptação de “Orgulho e Preconceito” –filme que considero superior a este –o diretor Joe Wright, junto de sua estrela inglesa Keira Knightley, aventurou-se no desembaraço de uma narrativa mais complexa, oriunda do livro algo desafiador de Ian McEwan –autor que escreveu o romance que resultou no também desafiador “O Jardim de Cimento”.
No caso deste “Desejo e Reparação”, as complicações recaem sobre as múltiplas ramificações que a noção de narrativa proporciona, quando afetadas pela distinção dos pontos de vista, pela insuficiência transformadora dos detalhes e, por fim, pelo arrependimento.
A menina Briony (interpretada com surpreendente expressividade e noção de cena pela jovem Saiorse Ronan), como toda jovem aspirante à escritora, tem uma percepção dramática e imaginativa dos fatos à sua volta. E, na mansão bucólica e aristocrata em que vive no início do século XX, os desenlaces mais dignos de atenção são aqueles que cercam o inquieto romance de sua irmã mais velha Cecilia (Keira Knightley) com Robbie (James McAvoy) um dos empregados da casa.
Munida de conclusões errôneas e deturpadas por aquilo que viu nos últimos dias de verão, Briony acaba condenando os sonhos de felicidade e amor de sua irmã e Robbie ao acusá-lo de um estupro.
Nos anos que se seguem, ela já crescida (e interpretada pela bela Romola Garai, que atuou com McAvoy no drama inglês “Os Melhores Dias de Nossas Vidas”) se dará conta do erro que cometeu, e tentará repará-lo trabalhando obstinadamente como enfermeira num hospital já em meio à Segunda Guerra Mundial. Para a angustiada Briony, o mal que acomete o mundo é menos um reflexo do conflito e mais uma conseqüência de tudo que ela fez e percebe ser irreparável: Mais velha, ela começa a compreender o terrível equívoco que cometeu, o quê levou à injustiça que separou o casal apaixonado.
No mesmo período de tempo, o próprio Robbie, lutando na mal-fadada frente de batalha em Dunkirk, busca se reencontrar com sua amada Cecilia. Há uma cena, breve e dolorosa, onde os três se reencontram e várias recriminações –sobretudo à Briony –são verbalizadas.
O filme de Wright salta então para o tempo presente, onde acompanhamos Briony na velhice (vivida pela grande Vanessa Redgrave), consagrada como escritora e prestando uma entrevista onde vários pontos pessoais são colocados em questão, e a estrutura construída para o roteiro do filme é assim decifrada, revelando as intervenções que a própria Briony e sua irreprimível vontade de mudar o passado operaram na triste história de Robbie e Cecilia.
O belo trabalho do diretor Joe Wright representa assim um passo a mais em termos de sofisticação como cineasta (e o reconhecimento disso foram as indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar que o filme recebeu), ainda que sua obra sofra de algum desequilíbrio dramático, resultando comiserativa. McAvoy e a bela Keira Knightley rendem bem em seus papéis e nas distintas versões em que eles são observados, mas as grandes performances são mesmo das atrizes que interpretam Briony em suas três fases: Saiorse Ronan, Romola Garai e Vanesssa Redgrave.

Por meio delas se vislumbra o objetivo moral da trama, uma dissertação dolorida e criteriosa sobre a expiação existencial presente na dicotomia entre memória, nostalgia e ficção.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Fragmentado

A arte e a indústria assimilam as características mesmo transgressivas e inovadoras fazendo com que, a partir de um determinado ponto, eles soem como algo comercial. De certa forma foi o que aconteceu quando do lançamento, nos anos 1990 de “De Olhos Bem Fechados” –o diretor Stanley Kubrick, então há uma década sem filmar, entregou um filme nos seus moldes mas que, ao contrário de suas outras obras, não surpreendeu o público já acostumado com toda uma nova geração de filmes e realizadores que absorveram lições narrativas do próprio Kubrick (embora, “De Olhos Bem Fechados” seja, apesar de tudo, um tipo de obra muito especial, que cresce a cada revisão).
Foi também o que de certa maneira aconteceu com o diretor e roteirista M. Night Shyamalan, guardadas as devidas comparações (ainda que o vaidoso Shyamalan viesse a aceitar com satisfação uma comparação com Kubrick): Após o sucesso estarrecedor de “O Sexto Sentido” e de outros grandes filmes que se seguiram (“Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila”), nos quais ele, acima de tudo, estabeleceu uma reputação de autor diferenciado e desigual –além de criar também uma receita bastante específica por meio da qual seus trabalhos eram concebidos, como a trama de natureza incomum, fortes elementos de suspense, e uma reviravolta mirabolante no seu final –Shyamalan viu sua magia, digamos, se apagar.
Depois do irregular “A Dama Na Água”, ele engatou tentativas fracassadas de reproduzir os mesmos filmes fascinantes de outrora –o tenebroso “Fim dos Tempos”, o claudicante e modorrento “O Último Mestre do Ar” (adaptado da série animada “Avatar”), o desinteressante “Depois da Terra” e, mais recentemente, o suspense realizado em found-footage “A Visita”.
O quê nos leva, enfim, a este “Fragmentado”, que apesar de seus lampejos de imperfeição, parece sinalizar um retorno de Shyamalan aos bons tempos em que era capaz de fazer ótimos filmes.
Como naqueles quatro primeiros e melhores trabalhos que ele realizou, “Fragmentado” é um delicioso conto de suspense que une sobrenatural, dramaticidade e absurdo numa roupagem que os reveste de algum realismo, tudo enfatizado a partir de um texto cheio de pormenores.
Em princípio, acompanhamos o desenrolar intrigante da trama pelos olhos da jovem e desajustada Casey (a maravilhosa Anya Taylor-Joy, de “A Bruxa”) que, ao lado de duas amigas mais, digamos, normais (Haley Lu Richardson e Jessica Sula) é raptada e levada ao que parece ser uma cela num porão por sociopata metódico que aparentemente responde pelo nome de Dennis (James McAvoy, impecável). Aparentemente... pois, ao longo do cárcere, as três garotas descobrirão que Dennis é somente uma das muitas identidades que habitam aquele corpo –há também Patrícia, um mulher de comportamento manipulador; Hedwig, um garoto impulsivo de nove anos; Barry, um rapaz com talento para ser estilista de moda; Orwell, um homem culto, porém inseguro e outras mais (embora essas sejam as que importam para a trama) num total de vinte e três personalidades completamente distintas (!).
Porém, uma outra está a caminho.
Todos os outros a mencionam como sendo “a Fera”, e é aí que entram as três garotas seqüestradas: Tudo indica que Casey e as outras servirão como uma espécie de presa para quando a mais terrível e perigosa de todas as identidades aflorar.
Tal e qual é comum em suas obras, as premissas de Shyamalan se estruturam em torno de referências inusitadas e claras –aqui, elas são o clássico “O Colecionador” (também ele sobre um cárcere e uma relação ambígua entre cativa e captor) e o conto de fadas “João e Maria” (no tom surreal do aprisionamento e no eufemismo, cada vez mais explícito, do abuso). Como comprovam alguns ocasionais flashbacks que interrompem a narrativa claustrofóbica, Casey tem um passado familiar traumático e, na cartilha quase comiserativa de Shyamalan, essa perturbação a torna mais apta a sobreviver naquela situação do que suas outras amigas –e, no desfecho de certa forma amargo, percebemos que escapar daquela enrascada representa, para ela, regressar àquele tormento.
Shyamalan, na busca algo disfarçada de uma obra pop, não escapa de alguns equívocos ginasianos: Além de uma continuidade notadamente defeituosa, a representação novelesca do TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade) oferecida por seu filme é uma de suas mais constantes críticas.
Nada disso, contudo, importa muito diante do fato de que este é o mais satisfatório filme que Shyamalan conseguiu entregar desde “A Vila”. Embora no final ele se isente de entregar mais uma das suas ‘reviravoltas-surpresa’ (embora isso seja, afinal, uma surpresa também...) ele oferece um vislumbre delicioso para uma continuação: Na forma da aparição inesperada e sensacional do protagonista de um de seus mais cultuados filmes.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O Último Rei da Escócia

Vindo de uma premiada carreira como documentarista, era natural que quando estreasse no terreno da ficção, o diretor Kevin MacDonald se concentrasse numa figura verídica.
Idi Amin é um daqueles personagens tão espantosos, que chega a ser inacreditável que seja real, e na atuação poderosa de Forest Whitaker, ele ganha uma personificação cheia de carisma, de fôlego e de minúcia, plenamente capaz de fazer jus ao exuberante personagem retratado.
Mas (apesar de Whitaker ter conquistado, com ele, o Oscar de Melhor Ator, em 2006), Idi Amin não é exatamente o protagonista de “O Último Rei da Escócia”. Esse papel cabe, na verdade ao médico escocês Michael Carrigan, vivido por James McAvoy –seria de fato desequilibrado ao ritmo e ao tom do filme introduzir já de imediato para o expectador um vulcão cênico como o Idi Amin personificado por Whitaker.
São os anos 1970. Recém-formado em medicina, e oprimido pela pressão paterna em obter pronto reconhecimento, o jovem escocês Carrigan decide partir para Uganda, na África, onde seus conhecimentos poderão servir às mazelas da população pobre, e onde a experiência proporcionará a aventura que ele busca.
Todavia, o destino leva Carrigan a cair nas graças do homem que recentemente tomou o posto de presidente do país, o general Idi Amin, e dele tornar-se médico particular.
O quê Carrigan não esperava, contudo, é que, ao longo de sua convivência, Amin vai revelando uma personalidade assustadora, sádica, imprevisível e psicopata, o que coloca seguidamente sua vida em risco. Não ajuda em nada o fato de Carrigan se envolver em um caso com uma das esposas dele (a linda Kerry Washington).
Ainda que seguramente magistral em sua direção magnífica, que resgata o máximo possível de autenticidade no seu registro de época, lugar e circunstância (bastante indicativo da formação de documentarista de MacDonald), sua grande atração é mesmo a interpretação espetacular de Forest Whitaker, em perfeita sintonia com a bem calibrada presença de McAvoy, mas definitivamente engolindo quase todo o filme: Não apenas Whitaker impressiona em seus rompantes furiosos de carisma e selvageria, como também a revelação para o público de sua faceta mais perturbadora e sombria (que atinge momentos terrivelmente inacreditáveis no último terço do filme) se dá por meio de uma condução brilhante de sutileza e auto-controle, fruto certamente da ampla experiência e do indiscutível talento de seu intérprete.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

X-Men Apocalypse

Uma cena emblemática: Os jovens saem de um cinema após uma sessão de “O Retorno de Jedi” –o filme-sensação do ano, então 1983 –e já estão a discorrer sobre sua qualidade.
“O melhor é ‘O Império Contra-Ataca’” comenta a garota chamada Jubileu.
“Tudo começou com o primeiro filme” diz Scott, o Ciclope (Ty Sheridan) “não haveriam continuações se não fosse o primeiro filme!”
Até que Jean Grey (Sophie Turner) faz uma afirmação categórica:
“Vamos, pelo menos, concordar que o último filme é o pior da trilogia!”
Talvez, uma piada interna da produção, talvez, um acaso carregado de sarcasmo, porém o quê a personagem diz se aplica ao filme no qual estão presentes, “X-Men Apocalypse”.
Dizer que ele é o mais fraco da trilogia iniciada em “Primeira Classe” (cuja austeridade e noção de ritmo do diretor Mathew Vaughn, permanecem a fazer dele o melhor dentre todos os filmes da série) e continuada em “Dias de Um Futuro Esquecido”, contudo, não é desmerecê-lo: “Apocalypse” ainda é um divertimento de qualidade, com interessantes predicados, o problema é que Bryan Singer se despiu de muitos elementos que davam equilíbrio ao conceito e tornavam os X-men tão singulares entre a infinidade de super-heróis que começam a abarrotar as salas de cinema.
Passaram-se dez anos desde os acontecimentos do filme anterior (parece ser uma espécie de tradição nessa nova versão dos mutantes que seus filmes se passem com uma década de intervalo entre um e outro, embora seu elenco principal não demonstre nenhum sinal de envelhecimento), e a Escola Para Jovens Superdotados do Prof. Charles Xavier recebe a cada dia novos alunos, como o novato Scott, que descobriu a pouco as rajadas devastadoras que saem sem controle de seus olhos, ou a instável Jean, cujo poder de telepatia e telecinese parece esconder uma ameaça maior dentro dela.
Dos antigos companheiros de Xavier, Raven, ou Mística (Jennifer Lawrence, catalizando parte das atenções da trama), se encontra pelo mundo, ajudando mutantes à sua própria maneira: É assim que ela chega até o jovem Kurt Wagner, ou Noturno (Kodi Smit-McPhee, tão bom quanto sua versão mais velha vista em “X-Men 2”), um teleportador de corpo azul.
Já, Eric, ou Magneto (Michael Fassbender, em uma bela interpretação) após os eventos pregressos, refugiou-se na Polônia onde buscou começar vida nova.
Todas essas trajetórias colidem quando um mutante ancestral, o milenar En Sabah Nur, ou Apocalypse (Oscar Isaac, cuja atuação esmerada não escapa ao tom canhestro desse tipo de personagem bidimensional), desperta no Oriente Médio, trazendo consigo sua determinada ânsia para varrer os humanos da face da terra.
Com uma habilidade que lhe é inerente, Bryan Singer, concebeu esse recomeço da série “X-Men”, antecipando e, por vezes, alterando os eventos da série original, não apenas enfatizando a pertinente questão do preconceito, mas atrelando a trama de cada filme à um evento histórico ocorrido em cada década respectiva; se em “Primeira Classe” havia o sensacional aproveitamento da crise dos mísseis de Cuba, e “Dias de Um Futuro Esquecido” foi hábil em utilizar como cerne narrativo o final da Guerra do Vietnam, a década de 1980, na qual se ambienta “Apocalypse” não possui nenhum acontecimento histórico importante a ser abordado; e esse é só um dos problemas enfrentados pelo filme.
Ao eleger, o onipotente e cartunesco Apocalypse como seu vilão principal, Singer também desproveu seu filme de um de seus mais encantadores trunfos: As motivações e ideologias, tão pertinentes e atuais, que norteiam seus personagens, inclusive seus vilões, o quê valorizava a trama e suscitava uma discussão sempre interessante.
Não há, porém, muito o que comentar sobre Apocalypse em si: Ele é um vilão somente. Quer a destruição, e cabe aos heróis aplacá-lo, o quê reduz o filme de Singer a um mero filme de ação onde os bons combatem os maus, e as áreas cinzas da personalidade dos adversários são deixadas de lado.
Claro que, mesmo no comando das cenas de ação, Singer continua um artesão de admirável apuro e requinte visual, embora seu uso de efeitos visuais (bastante imodesto na comparação com os enxutos filmes anteriores) fique excessivo na parte final, assim como seu exorbitante hábito de dilatar o tempo além da conta nos momentos de suspense (que já havia ficado provado em “Superman-O Retorno” ser um de seus defeitos).

Talvez, o grande problema de “Apocalypse” seja a condição na qual chega aos cinemas (como terceiro e mais simplório de uma trilogia na qual os dois capítulos anteriores, sobretudo o primeiro, foram magistrais), e também o timing com o qual isso se dá (depois de um mediano “Batman Vs Superman” e de um espetacular “Capitão América-Guerra Civil”, quando uma parte do público e boa parte da crítica já começa a falar sobre a defasagem de superheróis nas salas de cinema). 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

X-Men Dias de Um Futuro Esquecido

Num obscuro futuro para a raça mutante, os robôs sentinelas já dizimaram quase toda a população da Terra, restando a Charles Xavier e Magneto (os veteranos Patrick Stewart e Ian McKellen), reunir os remanescentes x-men para um último e desesperado recurso: valer-se do poder da jovem Kitty Pride (Ellen Page) para enviar Wolverine (Hugh Jackman, sempre impecável) ao passado, onde ele deve entrar em contato com o então jovem Prof. Xavier (James McAvoy), e juntos impedir o atentado que deflagrou aquele futuro terrível, o assassinato do inventor Bolivar Trask (Peter Dinklage, de "Game of Thrones") pelas mãos da transmorfa Mística.
Após dez anos, Bryan Singer volta a sentar na cadeira de diretor, e honrando um legado que ele mesmo ajudou a criar, elabora uma trama que une passado e presente na qual os mutantes têm uma chance de fazer algo que todos nós, de um modo ou de outro, ansiamos como seres humanos: reescrever a história a nosso próprio favor.
Quem nunca pensou em voltar para salvar Martin Luther King de ser assassinado? Ou John Lennon? Ou deter Hitler, e o nazismo?
Neste filme soberbo Wolverine é obrigado a lidar com isso na prática quando é enviado pelos velhos Xavier e Magneto a encontrar, nos anos 1970, suas contrapartes jovens, promovendo assim o encontro da série original com os novos integrantes de “X-Men Primeira Classe”.
O resultado é de encher os olhos, graças ao impecável minimalismo cinematográfico do diretor Bryan Singer, ainda que o roteiro contenha furos homéricos que comprometem muito a suposta continuidade entre este novo filme e a primeira trilogia. Nesse sentido ele pode ser um pouco falho como continuação, mas como cinema, porém, é um senhor entretenimento.

Embora pareça ser Wolverine, é Jennifer Lawrence, como Mística, o verdadeiro catalisador do filme, impressão, aliás, que parece se reforçar nos trailers do vindouro "X-Men Apocalypse".
Aguardaremos para ver...

segunda-feira, 9 de maio de 2016

X-Men Primeira Classe

Ao se conhecerem, o jovem sobrevivente dos campos de concentração Erik Lensherr e o aristocrata Charles Xavier imediatamente percebem uma conexão que os torna melhores amigos, unidos no ideal de encontrar e recrutar as pessoas oriundas da proeminente raça dos mutantes (pessoas que nascem com assombrosos e diferenciados poderes, o que os tornam vítimas de discriminação por parte dos humanos comuns) que surgem no mundo em meados dos anos 1960 de então. Mas um inimigo poderoso surgirá na forma de Sebastian Shaw, que usará desses mesmos mutantes para arremessar o mundo numa Terceira Guerra Mundial, valendo-se do episódio da Crise dos Mísseis de Cuba, o quê, entre outras coisas, levará Erik e Charles a um rompimento irreversível.
Após o fiasco não só em termos de bilheteria, mas de crítica também, do filme solo do Wolverine as coisas rapidamente mudaram nos estúdios da Fox: Um novo projeto envolvendo os mutantes rapidamente foi iniciado, com toda a cara de reformulação da série (um elenco de novos atores –Michael Fassbender, James MacAvoy e Jennifer Lawrence, em destaque –incorporando uma versão mais jovem dos personagens Magneto, Charles Xavier e Mística, e um retrocesso no tempo para contar o início da história), e mais uma vez Bryan Singer estava envolvido (agora como roteirista e produtor), além da bem-vinda euforia cinética que o novo diretor, o talentoso Matthew Vaughn (de “Kick Ass”), trouxe para a narrativa.
O resultado foi “X-Men Primeira Classe”, um filme vibrante que excedeu expectativas e não apenas devolveu o brilho aos mutantes no cinema, resgatando a profundidade de suas histórias e do pertinente estudo sobre o preconceito, mas cuja qualidade cinematográfica obtida praticamente em todas as áreas técnicas e artísticas logo o colocou como o melhor filme da série (posto que ele ocupa até hoje).
Um novo e promissor futuro aguardava os mutantes, mas a grande questão era: Será que a saga sofreria uma reinvenção, ou este era tão somente o passado dos filmes originais?

sábado, 16 de janeiro de 2016

O Procurado

É a um cinema comercial de ação desenfreada a que “O Procurado” se presta. Mas é também um novo prisma sobre esse mesmo cinema que o diretor Timur Bekmanbetov almeja levar à tela. 
Há inúmeras camadas a serem refletidas e removidas em “O Procurado”, o que já o eleva como um filme muito mais significativo que aparenta ser. 
Temos o protagonista que desperta de uma vida de inércia para uma nova existência (“Matrix”), o questionamento existencial que impulsiona a inquietação, e a insatisfação de toda uma geração (“Clube da Luta”), o aprimoramento físico e intelectual a níveis sobrehumanos como forma de exteriorizar a transformação da própria personalidade (“O Ultimato Bourne”). 
Havia algo de claudicante nos filmes realizados por Timur Bekmanbetov na Rússia, “Guardiões do Dia” e “Guardiões da Noite”, mas parece que a identidade visual de Bekmanbetov caiu como uma luva em “O Procurado”. 
Adaptação de uma série de histórias em quadrinhos independentes escritas por Mark Millar, é um projeto que mostra em boa luz as qualidades de Bekmanbetov como diretor: sua criatividade e sua habilidade na composição de cenas (sobretudo, de ação) que primam pelo equilíbrio de situações inacreditáveis. Uma bela demonstração de espirituosidade, na mescla apurada de humor e inteligência com que conta a história do jovem alienado que descobre ser filho do maior assassino de todos os tempos. Essa abordagem inspirada, em muito se deve à esperta escolha do ótimo James MacAvoy como protagonista. Ator inglês, de filmes mais densos e cadenciados, sua presença desigual rima com a escalação de Keanu Reeves como Neo em “Matrix”, assim como seus recursos dramáticos são bem empregados ao mostrar a evolução de seu personagem. À apoiá-lo temos uma vibrante Angelina Jolie e a voz firme de Morgan Freeman.

domingo, 26 de julho de 2015

Dois Lados do Amor

Eis um bem vindo filme incomum no aborrecido circuito comercial.
A história da gênese deste projeto é, ela própria incomum, e merece ser contada para uma melhor compreensão do filme que dali se originou.
Notável e promissor realizador de curta-metragens, o roteirista e diretor Ned Benson concebeu uma história de amor dividida em dois pontos de vista, que esmiuçava assim, não somente os detalhes pertinentes a uma trama de romance, mas também as percepções distintas de cada uma das partes. A importância de determinados personagens para um, em detrimento do pouco significado que eles têm para o outro. Ou mesmo a distinção até extrema com que cada pessoa enxerga o mesmo fato. E tão rica essa história era que exigia, assim, uma divisão.
 Dessa forma, nasceram dois filmes com o mesmo título (The Disappearance of Eleanor Rigby ), que o circuito alternativo dos festivais de cinema independente receberam como sendo "His" e "Her", ou seja, "Ele" e "Ela". Assim, a experiência como um todo resultava em assistir dois filmes de uma hora e meia de duração cada um.
Mas, e ao ser lançado em cinemas, ou locadoras (como foi unicamente o caso, aqui no Brasil)?
Bem, para isso foi criada uma versão "They", isto é: "Eles", uma junção de ambas as versões, que é o que será resenhado aqui.
Sabendo de antemão desse formato prévio com que foi planejado, é até interessante acompanhar o filme (que não se enganem, é fascinante por si só!): percebe-se a dicotomia de certas cenas que teriam um tratamento numa e em outra versão.
O resultado é um filme de pouco mais de duas horas. Uma história de amor, que não é sobre o amor, mas sobre os trágicos percalços que o amor tem que superar, quando as coisas dão muito errado.
Jessica Chastain, particularmente, está sensacional na interpretação intimista que entrega: ela é um tanto quanto melhor que seu parceiro, o esforçado James McAvoy, e muito melhor que boa parte do elenco de apoio (que tem muita gente boa, como Willian Hurt, Isabelle Hupert, Viola Davis e Bill Hader, é importante dizer!).
O final do filme é um caso quase à parte. Daqueles em que um grupinho reunido fica mais tempo falando dos três minutos daquela última cena do que do resto do filme inteiro. Como alguns dos mais instigantes trabalhos do cinema, este é um caso em que tudo está aberto à interpretações.
O quê não deixa de ser sensacional!