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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Tempo


 O cinema de M. Night Shyamalan é um cinema de percepções diferenciadas, norteadas pelo desejo de tatear um caminho de originalidade em meio às fórmulas do mainstream. É frequente, nesse pressuposto, Shyamalan enveredar por thrillers e narrativas de suspense, agregando a elas uma concepção inusitada de dramaturgia, de cinema fantástico e, por conta disso, de certa alegoria. É uma tática que, filme após filme, não escapou de uma tremenda ironia: Se Shyamalan pulsa de disposição, a cada premissa, a cada construção de cena, de querer ser desesperadamente único e original, as suas diversas obras urgidas a partir disso lembram, e muito, episódios alongados e turbinados da cultuada série “Além da Imaginação”.

“Tempo”, sua mais recente criação, não escapa, de forma alguma, dessa impressão. No ritmo pausado que lhe é habitual, Shyamalan apresenta ao público a Família Cappa, Guy, o pai (Gael Garcia Benal), Prisca, a mãe (Vicky Krieps, de “Trama Fantasma”), e os filhos pequenos Maddox (Alexa Swinton) e Trent (Nolan River). Juntos, eles saem em férias para um resort afastado. No início, tudo é corriqueiro, banal até, e Shyamalan se vale disso para flagrar instantes de imperfeição no núcleo familiar –Guy e Prisca estão, só pra variar, em iminente separação –enquanto introduz, aos poucos, outros coadjuvantes, como a família formada pelo arrogante médico Charles (Rufus Sewel), a mãe dele (Kathleen Chalfant), sua esposa-troféu (Abbey Lee-Kershaw, de “Demônio de Neon”) e a filha pequena Kara (Mikaya Fisher). Embora almeje ser incisivo e sucinto, essas características –pelo menos, aos olhos de quem já acostumou-se aos trabalhos de Shyamalan –só apontam algumas de suas limitações como autor: A tendência, ocasionalmente incômoda e presunçosa, de colocar frases inadequadas de pretenso intelectualismo na boca dos personagens, e seu desenvolvimento que quase sempre caminha para uma mesma personalidade, sejam protagonistas ou coadjuvantes; basicamente, o que muda, de um filme para o outro, são seus intérpretes e uns poucos elementos.

Entretanto, essa sensação de insuficiência é breve, e dura somente até Shyamalan armar o palco para seu verdadeiro objetivo: Ao receber uma dica de um consierge do resort, os Cappa seguem rumo a uma praia paradisíaca isolada por pedreiras. Junto deles, está a família do Dr. Charles, e a eles logo se juntam o casal Jarin e Patricia Carmichael (Ken Leung e Nikki Amuka-Bird), ela, sofrendo de surtos de epilepsia. No local se encontra um rapper, Mid-Sized Sedan (Aaron Pierre). E então, coisas suspeitas não tardam a acontecer: O corpo morto de uma jovem é encontrado nas águas –seria a acompanhante de Mid-Sized que tentou contornar a costa pelo mar e não conseguiu.

Ao tentar chamar por ajuda, Guy descobre que estão presos: A caverna que dava o único acesso à praia não pode mais ser usada –todos simplesmente desmaiam ao tentar atravessá-la, acordando nas areias da praia outra vez.

O pior, contudo, virá em seguida: A medida que as horas passando a praia revela um efeito aterrador; o envelhecimento acelerado. Numa explicação fajuta, que ainda assim, o vaidoso roteiro de Shyamalan insiste em dar –seriam consequências de um pólo magnético acarretado pela condição incomum de pedras e minerais acumulados naquele lugar –o tempo exerce um efeito muito mais rápido em todos que ali estão. Os primeiros a sentirem os efeitos, e a deixá-los mais visíveis são, claro, as crianças –e com isso, Maddox, Trent e Kara, deixam de serem interpretados pelos atores mirins e passam a serem vividos respectivamente por Thomasin MacKensie (de “Jojo Rabbit”, essa sim a possível atriz principal do filme), Alex Wolff (de “Hereditário”) e Eliza Scanlen (de “Adoráveis Mulheres”). A mãe do Dr. Charles, uma anciã, logo falece. O tumor que Prisca vinha tentando esconder dos filhos cresce exponencialmente –o que obriga-os a improvisar uma repulsiva cirurgia de última hora.

Ao que parece, cada meia hora transcorrida ali representa um ano de vida envelhecido, o que significa que, dentro de 24 horas, se não encontrarem uma saída, todos –ou, pelo menos, a maior parte deles –morrerão de velhice (!).

Como na grande maioria das situações-limites, sejam elas de ordem fantasiosa ou não, exploradas pelo cinema, “Tempo” usa desse enredo para moldar um microcosmos sobre a união familiar, sobre as celeumas sociais –não escapa, por exemplo, uma observação, um bocado maniqueísta sobre o preconceito –e sobre os questionamentos de hoje e de sempre –ao fim, o teremos feito com o tempo que nos foi dado? O quanto de nossa criança interior preservamos durante nosso crescimento? Quais imaturidades carregados ao longo da vida para nosso próprio pesar? Que significado tiramos, cada um de nós, afinal, dessa inescapável condição humana?

Econômico, filmado com evidência dentro das circunstâncias da pandemia –ficam claras as condições em que equipe técnica e elenco se restringiram num filme básico, afastado e com poucos integrantes –“Tempo” não chega nem perto das qualidades antológicas de “Corpo Fechado” ou “O Sexto Sentido”, mas revela-se bem mais funcional, válido e pertinente do que “A Dama Na Água” e “Fim dos Tempos”, os piores trabalhos de Shyamalan. É envolvente e intrigante –características que ele sempre persegue em seus projetos –mas, também não chega a ostentar muito fôlego ao tentar reflexões mais arrojadas –como autor de certo renome, Shyamalan deixa vislumbrar um conhecimento limitado de mundo de alguém que, já há algum tempo, vive numa zona de conforto e privilégio –e nem a empolgar como seus trabalhos de outrora.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O Sexto Sentido

Crítica do amigo Fabricio Gurski
Seguindo a cartilha do mestre Alfred Hitchcock é repleto de pistas e recompensas, fazendo jus ao status de grande filme de suspense e mistério ganho precocemente no seu lançamento.
Pois, um bom filme de mistério ou suspense, além de contar uma boa história precisa de alguma maneira surpreender o espectador, digo mais, é aqueles exemplares que depois de momentos tensos quando chegam na reta final, no desfecho, revelando o seu segredo –e ali o espector pensa (verbaliza) "poxa tava na cara o tempo todo" –então, isso eu considero um ótimo filme do gênero, assim é “O Sexto Sentido”.
Ao assisti-lo novamente, sempre percebo coisas novas, vejo o tremendo trabalho e dedicação aplicado no filme, o roteiro primoroso, com diálogos consistentes, os personagens coerentes e dignos ao universo naturalista do filme, e M. Night Shyamalan para complementar a sua própria obra, optou por um estilo de narrativa clássica com edição e direção minimalistas usando na montagem muito ‘fade out’ e cortes suaves, repletos de rimas visuais, trilha sonora marcante e acentuada, se não bastasse tudo isso ainda vemos um elenco magnífico (parece em alguns momentos até um documentário, um realismo absoluto), desde o jovem Haley Joel Osment até o experiente Bruce Willis e todos que os cercam estão mais que convincentes, dando vidas às personagens.
A condução da história faz o espectador viajar por sensações diversas, passeia entre os extremos da tristeza e da alegria, tudo isso, graças à estética impressa no exemplar por M. Night, pois temos um trabalho extremamente dramático que conforme acontecem as viradas (os plots) o gênero se transforma, e quando chegamos ao meu amado gênero terror tomamos bons sustos e muita tensão.
O clima de mistério aumenta a cada descoberta do Dr. Malcom, e assim a apreensão, a angústia e o sofrimento crescem até a descoberta definitiva e não tão aliviante, o expectador vivência tudo de uma forma ímpar no cinema de gênero das duas últimas décadas, “O Sexto Sentido” pode ser considerado uma obra prima do cinema de gênero, e assim não é nenhum absurdo compará-lo com alguns dos exemplares do mestre do suspense/mistério Alfred Hitchcock.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Vidro

Os altos e baixos na trajetória de M. Night Shyamalan como autor reconhecido e aclamado refletem a curiosa e demorada gênese de “Vidro” como projeto cinematográfico.
Quando lançou “Corpo Fechado” na esteira do sucesso de “O Sexto Sentido”, Shyamalan experimentou um fenômeno ainda mais inusitado e louvável do que o sucesso de público e crítica da obra anterior: Inicialmente recebido com aparente desprezo por aqueles que julgavam “Corpo Fechado” um correspondente atípico de “O Sexto Sentido”, o filme cresceu na memória do público e dos cinéfilos aos poucos, com o passar do tempo, transformando-se em um dos grandes cult-movies do cinema.
De lá pra cá, entre sucessos originados de sua reconhecida fórmula de fazer cinema e projetos que por vezes caíam na incompreensão e na indiferença, M. Night Shyamalan foi constantemente indagado sobre uma vindoura continuação para “Corpo Fechado” –uma ideia a qual, durante um bom tempo, ele foi abertamente arredio.
A maneira como ele correspondeu ao anseio do público foi bem ao seu gosto, improvável e inesperada: Em “Fragmentado”, de 2016 (exatos dezesseis anos, portanto, do lançamento de “Corpo Fechado”), ele introduz uma cena final onde revelava que o protagonista daquele filme, David Dunn, vivido por Bruce Willis, existia, por assim dizer, no mesmo universo que Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) e os outros personagens de “Fragmentado”.
Estava aberta a porta para a esperada continuação não apenas de “Corpo Fechado”, mas agora de “Fragmentado” também.
Com efeito, a trama se inicia logo depois dos eventos daquele filme. Após o rapto de garotas cuja sobrevivente foi a jovem Casey (Anya Taylor-Joy), e o desenvolvimento de uma 24ª personalidade bestial –adequadamente chamada ‘The Beast’ –a Horda (como é apelidado o indivíduo de múltiplas personalidades vivido por McAvoy) entra no radar do vigilante David Dunn que tem agido nas sombras neutralizando criminosos na Philadelphia na última década com o auxílio logístico de seu filho Joseph (Spencer Treat Clarke, um rapaz aqui, ainda uma criancinha em “Corpo Fechado”).
O embate entre personagens tão antagônicos quanto antológicos não tarda muito a acontecer, escrito e dirigido com aquele primor desigual que Shyamalan parecia ter perdido nos últimos tempos, mas que recuperou em “Fragmentado”.
É quando Dunn e a Horda são capturados e jogados numa clínica psiquiátrica –em uma guinada que aproxima “Vidro” do clássico “Um Estranho No Ninho” –que as intenções de Shyamalan começam a ficar mais claras: Entra em cena a personagem da Dra. Ellie Staple (interpretada com o esperado ar de petulância intelectual por Sarah Paulson).
Staple representa a descrença. Ela não acredita que pessoas normais possam desenvolver características extraordinárias que as aproximam dos superheróis de quadrinhos –a rigor, a premissa de “Corpo Fechado” –e, dentro das instalações psiquiátricas, tratará de enfraquecer a convicção de David, de Kevin (e todas as personalidades dentro dele) e também do sedado Elijah Price (Samuel L. Jackson), encarcerado desde que foi descoberto tratar-se do perigoso Mr. Glass; na concepção dele próprio, um vilão de HQs que compensa a fragilidade do próprio corpo (ossos quebradiços como vidro) com uma mente brilhante e aprimorada.
Staple confronta os três protagonistas fantásticos com embasamentos factuais que nivelam ao patamar do normal as suas proezas, e não deixa de soar com isso aquilo que a narrativa de fato quer fazer dela: Uma estraga-prazeres.
Entretanto, a mente de Elijah não pode ser contida ou domesticada. Antes mesmo que a doutora perceba, já existe um plano detalhado em gestação, e que certamente envolve a fuga dele e da Horda de seus confinamentos.
A essa sequência concebida com zelo e critério (e com um viés emocional inédito nos filmes anteriores), Shyamalan acrescenta todas as considerações morais, pessoais, sentimentais e filosóficas que ele atribui a todos os seus melhores trabalhos: “Vidro” é, como “Corpo Fechado”, uma variação do conceito de histórias em quadrinhos em atividade num mundo real –assunto bastante atual diante do sucesso retumbante do Universo Marvel nos cinemas –mas, é também um olhar preocupado e válido sobre as neuroses imprevisíveis escondidas na sociedade (argumento presente em “Fragmentado”), e une todas essas considerações numa conclusão válida e pertinente sobre a família; e para tanto, são fundamentais à narrativa as participações também dos entes queridos relacionados à cada um dos três protagonistas, Joseph, o filho de Dunn, que busca ser uma força indireta na cruzada do pai; Casey, a vítima que escapou da fúria de ‘The Beast’ por ser reconhecida por ele como uma igual; e a mãe de Elijah (Charlayne Woodard) que sempre experimentou a aflição pelo corpo frágil do filho e o orgulho por sua inteligência fora do comum.
“Vidro”, assim, embora seja também sobre o bem contra o mal (como toda boa HQ), ao mesmo tempo embaralha essas impressões com algumas dinâmicas ambíguas, porém, revela-se mesmo um tratado sobre a fé contra a incredulidade. A disposição para acreditar que o extraordinário é real e possível contra o conformismo de justificá-lo com pretextos impessoais.
E nessa disputa, Shyamalan escolhe claramente um lado sem um pingo de dúvida.

terça-feira, 6 de março de 2018

Fim dos Tempos

O fundo do poço, para o diretor e roteirista M. Night Shyamalan, após uma tentativa de fugir à sua fórmula com o estranho “A Dama Na Água” representou ser este equivocado “Fim dos Tempos”.
Após as críticas negativas e o desinteresse do público no filme anterior, Shyamalan decidiu recorrer ao mesmo molde pelo qual havia urgido os bem-sucedidos “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila”. E ele seguiu a receita à risca: Como nos outros, escalou um ator de filmes de ação (Mark Wahlberg) como forma de surpreender o público num personagem dramático; administrou seu estilo parcimonioso –indiferente às cenas de ação –para se ocupar de uma trama de conotações fantásticas e fantasiosas, mas ainda sim um reflexo de celeumas e inquietações bem reais (uma espécie de episódio da série “Além da Imaginação” estendido para o cinema); e ainda tentou introduzir uma pretensa revelação infantil, nos moldes do que fez com Haley Joel Osment –a péssima e inexpressiva Ashlyn Sanchez.
Embora tenha organizado os ingredientes com rigor até excessivo, a mistura mostrou-se pouco harmoniosa em relação aos seus bons trabalhos.
“Fim dos Tempos” fala sobre uma praga desconhecida que assola a humanidade –o mais próximo, portanto, que Shyamalan e seu peculiar cinema se aproximam de um filme-catástrofe. Na premissa bolada pelo autor, um surto coletivo de suicídios domina os grandes centros urbanos começando pelas cidades da Costa Oeste dos EUA. Na Philadelphia (local que é uma referência constante nos trabalhos de Shyamalan), um professor de matemática (Wahlberg) junto da esposa (Zooey Deschanel, deslocada) e de sua sobrinha (a menina Ashlyn), inicialmente acompanham a onda de pessoas perdidas e assustadas dispostas a fugir desse mal, que a princípio pensam tratar-se de um ato terrorista.
É, na realidade, uma vingança das próprias árvores (!) contra o desmatamento: Na concepção do diretor (que sua impostação e sua pretensão fazem ser tão ridícula quanto parece), as plantas, identificando na humanidade um inimigo que as ameaça há milênios desenvolvem uma enzima que se espalha pelo ar e que interfere no cérebro humano, levando as pessoas ao suicídio.
Mais uma parábola, portanto, muito particular de M. Night Shyamalan sobre a humanidade e o próprio gênero de terror e suspense que adotou, onde ele lança mão de cenas um pouco mais gráficas –no lugar da sugestão que predominou nas obras anteriores –como as intermináveis (e mórbidas) seqüências de suicídio (pessoas se jogando dos prédios, deitando na frente de cortadores de grama e tirando a vida das mais diversas maneiras) ou os momentos de tensão quando os personagens ficam na expectativa da chegada silenciosa do vento (elemento que afinal transporta a enzima suicida!). No entanto, o filme acaba ficando na memória mesmo por suas cenas constrangedoras, como o diálogo do personagem de Mark Wahlberg com uma samambaia –é sério, isso acontece mesmo!
Tudo, porém, piora muito mais quando chegamos aos quarenta minutos finais, e Shyamalan desleixadamente parece deixar de lado o filme irregular que construía até então para colocar os personagens numa situação distinta repleta de acontecimentos sem sentido –uma casa isolada, onde a moradora oferece abrigo para então revelar-se excêntrica e psicótica (vivida por Betty Buckley, que também aparece em “Fragmentado”): Na verdade, esse trecho esquisito, mal amarrado ao restante da premissa e desagradavelmente inesperado é baseado num curta-metragem de Shyamalan, e foi colocado ali para aumentar a duração do filme somente.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Dama Na Água

Mais cedo ou mais tarde, uma carreira construída em torno de alguma espécie de fórmula passa por uma necessidade de reinvenção.
E o diretor M. Night Shyamalan (que havia conquistado grande aceitação de público e crítica com seus filmes que nada mais eram que ótimas e espertas variações cinematográficas e de pretensões artísticas para contos fantásticos, ora mirabolantes, ora aterrorizantes) certamente percebeu isso, dando início a um projeto de natureza mais insólita, ligeiramente afastado das suas obras anteriores.
Diferente de “O Sexto Sentido”, “Sinais” e “A Vila”, “A Dama Na Água” não era pautado pelos sustos, e ao contrário de “Corpo Fechado” não caminhava com sua premissa fantástica em direção ao realismo –ele seguia em caminho oposto.
“A Dama Na Água” era, de uma maneira um pouco torta, um conto de fadas.
Shymalan preservou seu estilo de roteirizar e dirigir –que, neste filme, começava a deixar transparecer uma presunção e uma soberba que prejudicaram o resultado –no entanto, mudou radicalmente o conceito com o qual trabalhava.
A história de Cleveland Heep (Paul Giamatti), um desiludido e solitário zelador de condomínio, e dos personagens que o cercam, carrega em tintas de estranheza que na maioria esmagadora de sua duração soam inapropriadas.
Cleveland encontra, em certa noite, uma jovem despida e assustada (Bryce Dallas Howard, de “A Vila”) que parece ter saído da própria piscina do local (!). A jovem é arredia, inicialmente não parece conseguir se comunicar e nem sequer pertencer ao mundo normal. Ele descobre aos poucos que ela é uma "ninph", um ser mitológico que inspira as pessoas (saído inteiramente da imaginação de Shyamalan), e está ali se escondendo de seu predador natural, uma espécie de lobo monstruoso.
Segundo a própria lenda que a cerca, há pessoas específicas, com habilidades específicas que serão de fundamental importância no ritual para levá-la para casa.
Tentando assim juntar forças para sair da depressão na qual seu passado trágico o colocou, Cleveland toma para si a missão de encontrar tais pessoas.
Para grande parte do público, o maior problema de “A Dama Na Água” era que ele não trazia os sustos freqüentes e os sobressaltos ocasionais e bem elaborados com os quais Shyamalan havia acostumado a platéia em seus últimos filmes. Embora até tivesse alguma tensão, “A Dama Na Água” trabalhava tais elementos, no máximo, com uma displicência quase existencial: Exemplo disso é a cena em que o monstro encurrala num beco escuro um crítico de cinema (um dos vários personagens apáticos do filme) e ele começa a discorrer sobre os elementos genéricos de uma seqüência assim, numa brincadeira pretensiosa e anti-climática de metalinguagem.

Mas, é provável que o maior problema deste filme de Shyamalan realmente tenha sido o fato dele criar uma mitologia própria para esse conto de fadas –o de uma “ninph”, algo como uma sereia bípede (!), que precisa atrair uma águia gigante que a levará para o mar (!) a salvo de um lobo composto por grama (!!) –carregando a premissa de elementos contraditórios (como se pode notar...) que, no fim das contas, não compunham uma trama que instigasse ou fascinasse o público: As criaturas inventadas por ele (desde a protagonista aos seres que surgem com expectativa zero no suposto clímax) não despertam qualquer interesse ou empatia no expectador, e os detalhes que as cercam oscilam entre o banal e o tedioso.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Sinais

Após os sucessos de “O Sexto Sentido” e “Corpo Fechado” –antes deles, ele havia feito a comédia dramática “Olhos Abertos” –estabeleceu-se uma fórmula por meio da qual M. Night Shyamalan criava suas obras: Um protagonista normalmente relacionado a filmes de ação (Bruce Willis no dois filmes anteriores, Mel Gibson neste aqui), porém, à frente de um elenco plenamente explorado em suas capacidades dramáticas; uma incursão no terror/suspense fantástico que, nada mais é senão uma forma narrativa de refletir os anseios do ser humano; uma notável economia de efeitos visuais e pirotecnia onde ele se vale exclusivamente das preciosas lições de ameaça sugerida deixadas, sobretudo, pelo mestre Spielberg em “Tubarão”, mas também pelo outro mestre Hitchcock, em inúmeros filmes; e uma atmosfera de freqüente sobressalto e susto construída com grande ajuda da trilha sonora.
Essas características definem este e todos os outros filmes de Shyamalan, inclusive “A Vila”, que ele faria em seguida.
Aqui, embora o quê ele pareça entregar seja um suspense crescente e aflitivo sobre invasões alienígenas (e até certo ponto, ele realmente seja mesmo), Shyamalan discute a fé em Deus ante as tragédias da vida, sobre o eixo fundamental da família.
O fazendeiro Graham Hess (Mel Gibson), outrora um padre que deixou de exercer seu sacerdócio após ter perdido a fé devido à trágica morte da esposa (numa cena esmiuçada gradativamente ao longo do filme), descobre perplexo ao lado de seu cunhado (Joaquim Phoenix) e dos dois filhos pequenos (Rory Culkin e Abigail Breslin, de “Pequena Miss Sunshine”) que em sua lavoura foram feitas misteriosas e gigantescas marcas, impossíveis de terem sido realizadas pela mão humana tal sua precisão e a rapidez com que surgiram da noite para o dia. São os famosos círculos que surgem em plantações ao longo do mundo e são atribuídos a seres extraterrestres.
Tentando elucidar o mistério que os perturba eles testemunham, nos dias que se seguem, outros indícios de que algo está a espreita: Aparições inexplicáveis, de criaturas fortuitas e desconhecidas se tornam cada vez mais freqüentes na plantação –e Shyamalan é hábil ao tornar cada uma desses aparições um momento arrepiante.
Pouco a pouco, enquanto a televisão vai noticiando outras e ainda mais estarrecedoras aparições em todo o mundo, eles vão se dando conta de que o planeta Terra como um todo parece estar sendo invadido.
É algo usual, portanto, o quê Shyamalan propõe: Testemunhar tal invasão do ponto de vista de humildes fazendeiros que só podem torcer pelos humanos nas grandes batalhas acompanhadas pelo noticiário da TV, e tentar rechaçar os invasores eventuais que vêem perturbar em seu próprio quintal.
Na estrutura algo convencional que Shyamalan atribui ao seu conto –pois os filmes de Shyamalan lembram, de fato, pequenos e saborosos contos de terror ou ficção científica –os desdobramentos ocorridos no desfecho tem direta relação com o acidente que tirou de Graham sua mulher. E a harmonia desses detalhes, a forma com que eles se complementam e parecem lá colocados para que eles possam sobreviver, é o elemento restaurador da fé que ele julgava ter abandonado para sempre.
“Sinais” não é tão perfeito quanto “O Sexto Sentido”, nem tão inspirado quanto “Corpo Fechado”, e perde na comparação até mesmo com o ótimo “A Vila”, que Shyamalan fez logo depois, mas é um dos sensacionais exemplares que ele entregou em sua melhor fase, que se acabou quando ele meteu os pés pelas mãos e lançou o estranho “A Dama Na Água”. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O Sexto Sentido

Em meados de 1999, quando o cinema norte-americano foi chacoalhado por uma sucessão de trabalhos autorais de grandes talentos que se revelavam, como Spike Jonze (“Quero Ser John Malkovich”), os Irmãos –agora irmãs –Wachowski (“Matrix”) ou Wes Anderson (“Três É Demais”), uma das mais bombásticas revelações atendia pelo difícil nome de M. Night Shyamalan, e seu filme, sem sombra de dúvidas, um dos mais comentados do ano, era o surpreendente “O Sexto Sentido” com sua já lendária reviravolta final.
O próprio Shyamalan, para o bem e para o mal, fez uma carreira de sucesso empregando com algumas variações a fórmula que ele descobriu aqui –virando inclusive uma caricatura de si mesmo perante a indústria com a insistência em usar finais inesperados.
No entanto, quando ele lançou “O Sexto Sentido” houve um abalo sísmico na indústria cinematográfica, por uma série de razões.
A trama inicia-se na Philadelphia (palco de quase todas as histórias de Shyamalan) com o psiquiatra infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, um dos atores prediletos do diretor) numa noite em que terá seus esforços reconhecidos com um prêmio como bem observa sua esposa Anna (Olívia Williams, que também estava em “Três É Demais”).
As inclinações dramáticas de Shyamalan logo surgem quando aparece em cena um ex-paciente de Malcolm (vivido por Donnie Whalberg, irmão de Mark), perturbado e suicida.
Sem delongas e dando apenas as informações necessárias ao expectador para seguir com a história em frente, Shyamalan avança um ano no tempo. Após sofrerem o atentado, o casamento de Malcolm e Anna passa por uma súbita crise, e ele acaba conhecendo um garotinho chamado Cole (o pequeno e espantoso Haley Joel Osment, certamente grande responsável pelo imenso sucesso deste filme).
Tão protagonista quanto Malcolm, Cole tem problemas muito similares aos do antigo paciente que se matou: O convívio social com as outras crianças –e até mesmo com alguns adultos –a despeito de ser muito inteligente, é doloroso e relutante. A angústia que ele ostenta é freqüentemente injustificável e seu comportamento o leva violentamente rumo à alienação.
Para Malcolm, ajudá-lo seria, portanto, como redimir-se pelo outro jovem com o qual fracassou.
Para Cole ele é, aos poucos, a única pessoa que realmente é capaz de ouvir sua confidência e entender o terrível segredo que carrega –que ele, Cole, tem visões assustadoras, que logo descobriremos, é resultado de um dom que permite a ele enxergar os mortos (e nas cenas apavorantes que se seguem, absurdamente bem orquestradas, envolvendo essas aparições o diretor Shyamalan chega a ombrear Kubrick, em “O Iluminado” ou Polanski, em “O Bebê de Rosemary” na concepção de alguns dos mais antológicos e intensos momentos na história do gênero de terror).
Aliás, uma das mais notáveis conseqüências do sucesso de “O Sexto Sentido” foi o retorno à pauta do cinema comercial de premissas e idéias que devolviam o medo de verdade ao gênero do terror que vinha de uma década de 1990 praticamente dominada por filmes adolescentes na esteira de “Pânico”, de Wes Craven, e outras tolices. Com uma mistura adulta, refinada e competente de dramaturgia bem executada e terror psicológico com bases plausíveis e sensatas Shyamalan mostrou à indústria que o público poderia assimilar filmes que não tivessem apelo exclusivamente juvenil.
Mais que isso: Que poderia haver vida inteligente num sucesso de bilheteria. O público certamente não estava preparado para o fato de que, em direção a um final quase ameno e tranqüilo e na busca por tentar conviver com o incrível dom do menino, os dois, o jovem paciente Cole e seu psiquiatra Malcolm, caminhavam para um desfecho surpreendente.
Durante muito tempo, os expectadores saiam chocados das salas de cinema, falando a respeito da forma quase inovadora com que seu final sutilmente conseguia transformar todo o filme que havia vindo antes dele.
Entre muitas, essa certamente foi uma sacada de gênio.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Vila

Durante a realização de “A Vila”, o diretor e roteirista M. Night Shyamalan ainda estava em estado de graça devido aos êxitos de seus três últimos trabalhos, “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado” (cuja audiência inicial pareceu frustrante, mas, com o tempo se tornou um sucesso cult) e “Sinais”.
Ironicamente, este foi seu último grande filme pouco antes dele iniciar, com “A Dama Na Água”, uma espécie de banalização com o estilo que ele próprio havia difundido e enfileirar vários projetos equivocados. Seria necessário quase uma década para Shyamalan reencontrar o sucesso com “Fragmentado”.
“A Vila” reúne maravilhosamente bem as características que definem o realizador que Shyamalan é. Características que, quando harmoniosas e hábeis, rendem um belo trabalho.
O início já flagra, como é quase sintomático em Shyamalan, um registro dramático que não poupa seus personagens da tragédia como forma de ressaltar certa seriedade: Um enterro de alguém muito jovem. Um pai (Brendan Gleeson) inconsolável.
Chama a atenção o lugar: Um vilarejo extremamente longínquo e isolado de algum período antigo, como nos sugerem as moradias, as vestimentas e os costumes que veremos ao longo da narrativa.
O lugar possui toda uma sociedade que se desenvolveu baseada em regras seguidas à risca. E o combustível que dá eficácia a essas regras é o medo: A grande floresta que os cerca é habitada por criaturas estranhas e assustadoras com as quais a população mantém uma trégua milenar: Uns jamais devem invadir as fronteiras dos outros; as criaturas não entram na vila, e os aldeões não invadem a floresta.
Dessa forma, as pessoas conservam roupas e utensílios da cor amarela (considerada a cor boa que afasta as criaturas), e eliminam da vila qualquer vestígio de vermelho (a cor ruim que as atrai).
É nesse ambiente brilhantemente texturizado pelo roteiro e pela direção que conhecemos Edward Walker, o personagem de William Hurt, líder da vila, cuja filha mais jovem, Ivy (a sensacional Bryce Dallas Howard), é cega de nascença. Além dela, há também Lucius Hunt (Joaquim Phoenix, presente também no filme anterior de Shyamalan, “Sinais”), a mãe dele (Sigourney Weaver) e seu melhor amigo, o mentalmente debilitado Noah (Adrien Brody).
A vida, ora pacata, ora ocasionada por temores, na vila é justaposta assim pelo modo como cada um desses personagens reage à circunstância mirabolante em que estão inseridos: Na valentia imprevista ostentada por Lucius, as criaturas são um meio de se provar digno para proteger seus entes queridos; nas constantes dissertações de Edward, elas são um mistério com o qual conviver e ao qual respeitar; em sua aparentemente inofensiva alienação, Noah é incapaz de enxergar nelas o pavor que outros enxergam; já, Ivy acolhe com serenidade a maneira com que o mundo permite essa co-existência.
Entretanto, logo começam a surgir indícios preocupantes de que a trégua mantida por tanto tempo com as criaturas está por terminar.
E Shyamalan esbanja habilidade ao elaborar cenas de minúcia apaixonante que estabelecem uma bela dinâmica de personagens, ao mesmo tempo em que moldam suas já conhecidas cenas de sobressalto e suspense, amparadas em referências diversas: “A Vila” guarda elementos de “Tubarão”, de Steven Spielberg, de “O Morro dos Ventos Uivantes” e da série de TV, “Além da Imaginação” (fonte à qual o cinema de Shyamalan deve muito).
A grande reviravolta próxima do desfecho –e, à exemplo dos trabalhos anteriores de Shyamalan, este filme tem uma –coloca esta obra como uma metáfora, das mais intrigantes, sobre o protecionismo paranóico difundido pelo governo Bush em particular (pós-11 de Setembro) e sobre o medo pontual que leva os seres humanos ao distanciamento em geral.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Corpo Fechado

O lançamento de “Fragmentado” reacendeu a esperança de toda uma legião de fãs deste cultuado trabalho de M. Night Shyamalan que, por tanto tempo, sonharam com uma continuação das aventuras (se é que se pode chamar assim) do personagem David Dunn, magnificamente interpretado por Bruce Willis.
Em meados do ano 2000, Shyamalan estava com a bola toda. Revelado (e indicado ao Oscar) pelo sensacional “O Sexto Sentido”, o diretor e roteirista tinha toda a atenção do público e da crítica sobre o seu trabalho seguinte, o misterioso “Unbreakable”.
Obedecendo uma espécie de conceito que ele adotou em “O Sexto Sentido” –e numa série de projetos que vieram depois –este novo trabalho de Shyamalan (aqui no Brasil batizado como “Corpo Fechado”...) dava uma roupagem de seriedade, fatalismo e até dramaticidade à uma premissa fantasiosa; se em “O Sexto Sentido” eram filmes de fantasmas, em “Corpo Fechado”, eles eram adaptações de histórias em quadrinhos.
Tudo isso feito numa época, diga-se, em que tais adaptações não tinham o monopólio comercial que têm hoje: No ano 2000 existia, quando muito, o primeiro filme dos “X-Men”, e a promessa de um ainda vindouro filme do Homem-Aranha...
Por essas razões, sob inúmeros aspectos, “Corpo Fechado” era um filme a frente de seu tempo.
Retomando a parceria pra lá de bem-sucedida de “O Sexto Sentido”, Shyamalan escalou mais uma vez Bruce Willis para ser o protagonista, David Dunn, um cara até então normal que se torna o único sobrevivente de um brutal descarrilamento de trem. Mais que isso: Além de sobreviver ele não teve um único arranhão sequer.
Quando Elijah Price (Samuel L. Jackson) um estranho colecionador de quadrinhos, portador de uma doença que lhe enfraquece os ossos se apresenta a ele, David percebe coisas que até então não dera atenção, como o fato de nunca ter realmente se machucado ou ficado doente.
Price tem uma teoria: os super-heróis das histórias em quadrinhos são na verdade inspirados em seres humanos reais que eventualmente nascem, crescem e morrem com capacidades sobre-humanas em meio às pessoas normais, capacidades as quais nem sempre imaginam possuir. E segundo sua teoria, David Dunn seria um deles.
Resta, contudo, superar algumas dúvidas bem cabíveis: Se Dunn possui poderes, quais são eles? Quais as suas extensões? Que utilidade ele dará à esses novos dons? E –a mais perturbadora de todas –por qual razão Elijah Price tem tanto interesse nisso?
Narrado com primor singular e uma abordagem adulta que os filmes do gênero ainda não haviam experimentado, “Corpo Fechado” à época, infelizmente, não fez o mesmo sucesso do trabalho anterior de Shyamalan; alguns expectadores se frustraram com seu deliberado distanciamento temático e categórico de “O Sexto Sentido”; enquanto que outros, paradoxalmente, não gostaram justamente por enxergarem inesperadas semelhanças entre os dois filmes (!).
Com o tempo, porém, “Corpo Fechado” encontrou seu público por meio de um culto iniciado em homevideo que cresceu exponencialmente com o passar dos anos –a ponto de tornar o insistente clamor por uma continuação um aborrecimento constante ao diretor em suas aparições públicas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Fragmentado

A arte e a indústria assimilam as características mesmo transgressivas e inovadoras fazendo com que, a partir de um determinado ponto, eles soem como algo comercial. De certa forma foi o que aconteceu quando do lançamento, nos anos 1990 de “De Olhos Bem Fechados” –o diretor Stanley Kubrick, então há uma década sem filmar, entregou um filme nos seus moldes mas que, ao contrário de suas outras obras, não surpreendeu o público já acostumado com toda uma nova geração de filmes e realizadores que absorveram lições narrativas do próprio Kubrick (embora, “De Olhos Bem Fechados” seja, apesar de tudo, um tipo de obra muito especial, que cresce a cada revisão).
Foi também o que de certa maneira aconteceu com o diretor e roteirista M. Night Shyamalan, guardadas as devidas comparações (ainda que o vaidoso Shyamalan viesse a aceitar com satisfação uma comparação com Kubrick): Após o sucesso estarrecedor de “O Sexto Sentido” e de outros grandes filmes que se seguiram (“Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila”), nos quais ele, acima de tudo, estabeleceu uma reputação de autor diferenciado e desigual –além de criar também uma receita bastante específica por meio da qual seus trabalhos eram concebidos, como a trama de natureza incomum, fortes elementos de suspense, e uma reviravolta mirabolante no seu final –Shyamalan viu sua magia, digamos, se apagar.
Depois do irregular “A Dama Na Água”, ele engatou tentativas fracassadas de reproduzir os mesmos filmes fascinantes de outrora –o tenebroso “Fim dos Tempos”, o claudicante e modorrento “O Último Mestre do Ar” (adaptado da série animada “Avatar”), o desinteressante “Depois da Terra” e, mais recentemente, o suspense realizado em found-footage “A Visita”.
O quê nos leva, enfim, a este “Fragmentado”, que apesar de seus lampejos de imperfeição, parece sinalizar um retorno de Shyamalan aos bons tempos em que era capaz de fazer ótimos filmes.
Como naqueles quatro primeiros e melhores trabalhos que ele realizou, “Fragmentado” é um delicioso conto de suspense que une sobrenatural, dramaticidade e absurdo numa roupagem que os reveste de algum realismo, tudo enfatizado a partir de um texto cheio de pormenores.
Em princípio, acompanhamos o desenrolar intrigante da trama pelos olhos da jovem e desajustada Casey (a maravilhosa Anya Taylor-Joy, de “A Bruxa”) que, ao lado de duas amigas mais, digamos, normais (Haley Lu Richardson e Jessica Sula) é raptada e levada ao que parece ser uma cela num porão por sociopata metódico que aparentemente responde pelo nome de Dennis (James McAvoy, impecável). Aparentemente... pois, ao longo do cárcere, as três garotas descobrirão que Dennis é somente uma das muitas identidades que habitam aquele corpo –há também Patrícia, um mulher de comportamento manipulador; Hedwig, um garoto impulsivo de nove anos; Barry, um rapaz com talento para ser estilista de moda; Orwell, um homem culto, porém inseguro e outras mais (embora essas sejam as que importam para a trama) num total de vinte e três personalidades completamente distintas (!).
Porém, uma outra está a caminho.
Todos os outros a mencionam como sendo “a Fera”, e é aí que entram as três garotas seqüestradas: Tudo indica que Casey e as outras servirão como uma espécie de presa para quando a mais terrível e perigosa de todas as identidades aflorar.
Tal e qual é comum em suas obras, as premissas de Shyamalan se estruturam em torno de referências inusitadas e claras –aqui, elas são o clássico “O Colecionador” (também ele sobre um cárcere e uma relação ambígua entre cativa e captor) e o conto de fadas “João e Maria” (no tom surreal do aprisionamento e no eufemismo, cada vez mais explícito, do abuso). Como comprovam alguns ocasionais flashbacks que interrompem a narrativa claustrofóbica, Casey tem um passado familiar traumático e, na cartilha quase comiserativa de Shyamalan, essa perturbação a torna mais apta a sobreviver naquela situação do que suas outras amigas –e, no desfecho de certa forma amargo, percebemos que escapar daquela enrascada representa, para ela, regressar àquele tormento.
Shyamalan, na busca algo disfarçada de uma obra pop, não escapa de alguns equívocos ginasianos: Além de uma continuidade notadamente defeituosa, a representação novelesca do TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade) oferecida por seu filme é uma de suas mais constantes críticas.
Nada disso, contudo, importa muito diante do fato de que este é o mais satisfatório filme que Shyamalan conseguiu entregar desde “A Vila”. Embora no final ele se isente de entregar mais uma das suas ‘reviravoltas-surpresa’ (embora isso seja, afinal, uma surpresa também...) ele oferece um vislumbre delicioso para uma continuação: Na forma da aparição inesperada e sensacional do protagonista de um de seus mais cultuados filmes.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Por que A Bruxa de Blair é bom, e A Visita não é?

Dificilmente você verá um grande diretor valer-se do recurso do found footage (aquele no qual a câmera de mão, manuseada por um dos personagens da trama acaba sendo o próprio filme em si). Martin Scorsese. Roman Polanski. Steven Spielberg. Ou mesmo os mais novos como Christopher Nolan, dificilmente empregarão esse artifício em suas narrativas. Pois, de certa forma, o found footage é uma maquiagem que serve mais a esconder as falhas e a pobreza do filme.
O fato de “A Visita”, o novo filme de M. Night Shyamalan, ser um found footage é a prova inconteste do caminho decadente que ele já trilha a algum tempo.
Não que o found footage seja, em si, o vilão da história.
No início houveram trabalhos intrigantes e curiosos antes que esse estilo fosse completamente saturado pelo uso excessivo que a indústria fez ao longo dos últimos anos, sobretudo nos gêneros de terror ou suspense.
Cito três grandes exemplos desses bons trabalhos: “A Bruxa de Blair”, “Cloverfield –Monstro” e “Rec”.
Os pioneiros dessa técnica são, para muitos, o clássico “A Tortura do Medo”, de Michael Powell, e o tenebroso “Holocausto Cannibal”, mas em ambos a linguagem se alterna entre a narrativa cinematográfica normal e a câmera em primeira pessoa do found footage.
“A Bruxa de Blair” é, portanto, o primeiro realizado inteiramente como um found footage.
Mas eram outros tempos: 1999. E o estilo documental do filme, aliado à percepção de que tudo aquilo pudesse ser real, conferia uma autenticidade que só intensificava a experiência de assisti-lo. “A Bruxa de Blair” era, à época, um filme genuinamente apavorante.
Com “Cloverfield”, de 2008, a coisa era um pouco diferente. A linguagem adotada para o filme era só mais um dos muitos detalhes com os quais o produtor J.J. Abrahams (e ele era somente produtor, reparem nisso) incrementava esses trabalho; não à toa, sua tardia continuação, “Rua Cloverfield, 10” não é filmado em found footage.
“Rec”, o filme de zumbis espanhol de 2007, por sua vez, é um trabalho europeu, também ele carregado de inventividade e propósito.
Salvo esses três exemplos, os filmes de found footage nunca se justificaram de fato (com a possível exceção do primeiro “Atividade Paranormal” cuja linguagem da câmera servia para contornar o baixíssimo orçamento; mas mesmo esse filme, agora já com cinco continuações, já teve seu apelo completamente esgotado).
Quando foi lançado nos anos 1970, por Ruggero Deodato, a intenção por trás dos trechos em found footage de “Holocausto Cannibal” eram elevar o já desgastado nicho de filmes italianos de canibais a um novo patamar, convencendo a audiência da autenticidade das mortes mostradas, ainda que no final, tudo fosse só um filme. Tirando a excessiva violência exploitation do período, era exatamente essa a intenção também dos diretor Eduardo Sanchez e Daniel Myrick em “A Bruxa de Blair”, no que foram muito bem sucedidos: Por meses, o público discorreu, assombrado, se aquelas imagens eram reais.
Mas eram outros tempos. A internet ainda engatinhava no fim da década de 1990, e a velocidade de informação ajudou a disseminar o culto em torno do filme, ao invés de esmiuçá-lo. Hoje em dia, isso é diferente: Não há qualquer propósito para um diretor de cinema que se preze valer-se de uma simulação de realidade como o found footage, se o expectador poderá, com um único clique, descobrir na internet se a história por trás do filme é real ou não.
Em “A Visita”, portanto, o diretor M. Night Shyamalan desce, por conta própria, ao nível dos cineastas medíocres.