Mostrando postagens com marcador Anya Taylor-Joy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anya Taylor-Joy. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Amsterdam


 Escrito e dirigido pelo mesmo David O’Russell que surpreendeu público e crítica com “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça”, “Amsterdam” passou despercebido quando foi lançado em 2022. A intriga verborrágica, mirabolante e intrincada que ele descortina (ainda que ampara em fatos reais, a chamada Conspiração Empresarial de 1933) não caiu no gosto dos expectadores, e a condução de O’Russell –como sempre, inclinada ao fascínio por tipos disfuncionais e por uma sistemática estranheza –não ajudou a tornar mais apetecível uma obra que, em sua indefinição, parece não pertencer a gênero nenhum: Durante suas mais de duas horas de duração, “Amsterdam” reúne elementos de film noir, suspense conspiratório, drama, comédia de humor negro e thriller político, tudo numa roupagem desigual que remete à década de 1930.

O enredo cheio de melindres gira em torno de três grandes amigos: Os soldados Burt Berendsen (Christian Bale), Harold Woodman (John David Washington, de “Resistência”) e a enfermeira Valerie (Margot Robbie). Em meados de 1918, Burt e Woodman se conheceram no front da Primeira Guerra Mundial e logo foram despachados para o hospital em que Valerie servia. A amizade foi instantânea –bem como o romance entre Harold e Valerie –e os três logo fugiram para Amsterdam a fim de viver um sonho até o limite do tolerável.

Entretanto, Burt, casado com a abastada Beatrice Vandenheuvel (Andrea Riseborough), precisou voltar para a América, trazendo Harold à reboque. Quinze anos depois, os dois trabalham numa clínica médica de quinta categoria para soldados veteranos em Nova York –Burt como médico-cirurgião, Harold como advogado –quando são procurados por Elizabeth Meekins (a cantora Taylor Swift), certa de que seu pai, o Senador Meekins, não morreu de causas naturais ao voltar de uma viagem à Europa.

Durante a autópsia, perpetrada por Burt e pela enfermeira Irma St. Clair (Zoe Saldaña), eles descobrem que o Senador foi envenenado e, quando dão por si, são tragados para dentro de um furacão: Na sequência, Elizabeth é assassinada, a culpa recai sobre Burt e Harold que logo se tornam os principais suspeitos aos olhos da polícia –personificada nos paspalhos personagens de Matthias Schoenaerts e Alessandro Nivola. Ao fugirem, Burt e Harold dão início à sua própria investigação a fim de limpar seus nomes, quando reencontram novamente Valerie, e vão descobrindo uma trilha de pistas que irá levá-los até um influente político de Washington (Robert De Niro) e, por fim, à uma terrível verdade acerca de um mal inominável que começa a despontar em certos governos totalitários da Europa, como a Itália e a Alemanha, E acredite, essa é só a ponta do iceberg!

Uma sinopse descrita em características normais não dá conta das idas e vindas, da deliberada excentricidade e da atmosfera de incomum ironia que persiste durante todo o tempo no filme de O’Russell, e embora esse elemento seja certamente grande parte de seu charme e diferenciação, ele é também seu calcanhar de Aquiles –o diretor O’Russell sempre foi muito afeito à esquisitices pontuais em suas narrativas. Em alguns casos, esse gosto curioso e apurado resultou em obras que foram capazes de contornar o estranhamento para surpreender ou até emocionar seu público; em outros –sobretudo seus trabalhos de início de carreira como a bizarra comédia romântica “A Mão do Desejo”, o inconformista “Flying With Disaster” e o filme sobre e para loucos (!) “Huckabees” –o produto final acabava sendo tão distante das convenções que simplesmente não se revelava palatável ao público. É esse o caso, aqui, de “Amsterdam”.

Não é que não seja um bom trabalho (ele é), não é que seu elenco não esteja bem (Christian Bale, pra variar, se mostra excelente, e os nomes estelares da produção só mostram o quanto a reputação de O’Russell é positiva), não é que o roteiro seja ruim (muito pelo contrário, ele reúne com certa maestria elementos díspares que poderiam, com menos talento, jamais surgirem tão bem ordenados numa narrativa) e nem que a direção de O’Russell deixe a desejar (seu manejo das inúmeras facetas de gêneros que se presta a abordar é extremamente elegante e inspirado,e nunca soa forçado ou cansativo), mas o fato é que “Amsterdam”, na sua originalidade tão contundente, provavelmente, está condenado a ser um cult-movie, uma obra incompreendida que, nos anos ou décadas por vir, será redescoberta por cinéfilos e admiradores que o enaltecerão, observando nele as qualidades que não foram notadas na sua época.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Furiosa - Uma Saga Mad Max


 Em 2015, o diretor australiano George Miller retomou a “Franquia Mad Max” ao trazer para o mundo uma verdadeira obra de arte chamada “Mad Max-Estrada da Fúria”. Sucesso avassalador e merecido de público e crítica, ganhador de seis prêmios Oscar, “Estrada da Fúria” reacendeu o interesse pela saga, outrora protagonizada por Mel Gibson (e que não ganhava um novo filme a pelo menos trinta anos), e com isso, muitos foram os que logo especularam a possibilidade de George Miller prontamente arregaçar as mangas e fazer um novo filme.

Nove anos depois, isso aconteceu. Contudo, ao contrário do que poderia se imaginar, Miller não deu uma continuidade àqueles eventos (e nem tampouco trouxe de volta o protagonista Max, agora vivido por Tom Hardy), ele na verdade entregou uma prequel (uma sequência que narra eventos anteriores) focada na personagem Furiosa, vivida naquele filme por uma inspirada e sensacional Charlize Theron. Essencial à trama, tanto ou até mais que o protagonista Max, Furiosa era uma personagem intrigante, sólida e imediatamente cativante que respondia pelo coração pulsante do filme.

Nesta espécie de origem que esclarece, explica e justifica certos tópicos que eventualmente ficaram nebulosos naquele filme (como a ambígua relação dela com o vilão Immortan Joe), acompanhamos a trajetória de sofrimento, bravura e persistência de Furiosa, desde sua infância, ao longo de anos (quinze, mais precisamente) até culminarmos no trecho em que a trama de “Estrada da Fúria” se inicia –o que converte esse dois filmes, unidos, numa única grande obra, completa e abrangente.

Ainda uma criança, Furiosa (então vivida pela pequena mas competente Alyla Browne) por uma série de lamentáveis contratempos acaba sequestrada do local onde nasceu, um oásis secreto administrado com sigilo e ferocidade por um clã de guerreiras, por um grupo desgarrado de motoqueiros do deserto. Esses motoqueiros compõem a gangue de maltrapilhos selvagens e brutalizados liderados por Dementus (Chris Hemsworth, satisfeito num exuberante papel de vilão), um líder sarcástico, cruel e desumano, travestido de uma versão escatológica e non-sense de Jesus Cristo (!).

Furiosa até é seguida por sua mãe, Mary Jabassy (Charlee Fraser, de “Todos Menos Você”), que em vão tenta tirá-la das mãos desses desordeiros, conseguindo apenas ser morta cruelmente no processo. Nos anos por vir, Furiosa (que em algum momento passa a ser interpretada por Anya Taylor-Joy, uma substituta formidável e impecável para Charlize Theron) procura sobreviver estando próxima o suficiente de Dementus para que ele não a descarte como muitas das vítimas que vão parar em suas mãos; mas distante e cautelosa o bastante para que ele não deseje extrair dela o segredo de como regressar para casa, e nem perceba seus planos de vingar-se dele, o assassino de sua mãe.

É dessa forma que Furiosa acaba se tornando uma testemunha da inusitada guerra por poder que se desenrola no deserto, a envolver as lideranças antagônicas de Dementos e Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne): Dominando a chamada Cidade Gasolina (uma fortaleza que acomoda as refinarias de combustível para as tantas máquinas de guerra, o único item tão precioso naquele mundo-cão quanto a água), Dementus se torna uma potência a ser respeitada, o que, com seu temperamento provocador e sua predisposição para traição, leva seus oponentes a elaborar constantes estratégias para lhe derrotar.

É assim que Furiosa, no decurso de embates árduos a envolver fogo, sangue e ferragens de carros em colisão, deve compreender que existe uma diferença imprevisível entre a expectativa daquilo que esperamos e a realidade que a vida termina por nos entregar.

Brilhantemente dirigido (toda a mitologia expandida e materializada em visual acachapante dos filmes anteriores é ainda mais aprofundada nesta narrativa) e realizado com minúcia ímpar e perícia absurda nos mais diversos quesitos (é bem provável que seus predicados sejam recompensados na próxima cerimônia do Oscar), “Furiosa” só não iguala o brilhantismo de “Estrada da Fúria” porque, ao abordar uma trama que se propõe a albergar vários anos com eventos ora intimistas, ora bombásticos, ele não evoca a mesma perfeição de ritmo e atmosfera daquele magistral trabalho –ainda que não falte a esta nova obra de Miller, o primor de acabamento que transformou “Estrada da Fúria” num espetáculo tão singular.

terça-feira, 30 de maio de 2023

O Homem do Norte


 O mais ambicioso trabalho até então do autoral diretor Roger Eggers, “O Homem do Norte” parte de uma antiga lenda viking que teria inspirado o próprio “Hamlet”, de William Shakespeare. O registro de Eggers para uma saga que, em si, vem carregada de tópicos bastante reconhecíveis –principalmente, porque o “Hamlet” de Shakespeare é uma obra maiúscula a inspirar um extenso leque de trabalhos na cultura pop –não poderia ser mais arrojado: Ele toma emprestado o senso visual singular de “O Regresso”, de Alejandro Gonzales Iñarritu, no qual cada fotograma é uma pintura e enche de beleza e opressão o mundo sombrio habitado pelo protagonista.

Amleth é filho de um pai assassinado (Ethan Hawke) e de uma mãe tomada à força (Nicole Kidman). Logo, o alvo central do ódio que alimenta até a fase adulta (onde é vivido por um musculoso Alexander Skaasgard, também produtor) vem a ser o autor dessas atrocidades: Seu próprio tio Fjölnir (Claes Bang, de “A Garota Na Teia de Aranha”).

Não à toa, o mantra que norteia Amleth ao longo de toda a vida é: Eu vou vingá-lo, pai. Eu vou salvá-la, mãe. Eu vou matá-lo, Fjölnir.

Os anos se passam após a fuga, por um triz, de Amleth de seu reino deposto, logo após o assassinato de seu pai. E Amleth, agora convertido num enorme e violento guerreiro regressa às terras de sua família no dissimulado papel de escravo. Comprado por um Fjölnir, agora resignado ao título de senhor de terras, Amleth aguarda, nas noites que se seguem, pelo momento de sua vingança, enquanto a propriedade de Fjölnir se vê assolada por inesperadas desgraças, fruto da intervenção de uma feiticeira (Anya Taylor-Joy, maravilhosa) que se apaixona por Amleth e resolve ajudá-lo em sua obsessão.

Os cânones mais distinguíveis da obra shakesperiana reaparecem neste filme de Eggers numa transfiguração poética e cinematográfica, em especial, a reflexão diante de um crânio, empregada aqui para evocar a presença anterior de Willem Dafoe (reeditando a colaboração com Eggers, depois de “O Farol”), todavia, o que realmente remete à Shakespeare é a percepção de tragédia, a impregnar de uma ironia cruel, cada nuance na trajetória de Amleth. Na ânsia unilateral para vingar a memória do pai –busca que lhe cobrou praticamente a vida inteira –Amleth é confrontado com as inverdades que infectaram cada uma de suas certezas: Se ele almejava salvar a mãe (Nicole Kidman e Alexander Skaasgard formaram um casal na minissérie “Big Little Lies”, o que confere à escalação deles, como mãe e filho, uma aura significativa, perturbadora e freudiana de incesto), ao revê-la ele descobre que o casamento com Fjölnir representou à ela, uma fuga de um casamento ainda mais infeliz; se ele desejava matar Fjölnir, o gradual convívio com seu eterno nêmesis vai revelando que ele é, apesar de tudo, um marido zeloso, um pai amoroso e um homem justo, o que confere à Amleth, e sua necessidade implacável de matá-lo, tintas de vilania e maldade.

Ambientado num mundo cujas facetas naturais e impiedosas brutalizam qualquer criatura a nele viver, “O Homem do Norte” é uma reconstituição desigual e originalíssima de um período antigo, fruto da percepção singular do diretor Eggers, e de sua capacidade em atentar-se à detalhes inesperados na composição (algumas cenas são construídas em torno da relação dos personagens com a música), no primor da direção de fotografia (concentrada em pormenores preciosos) e na evocação sofisticadamente artística de entraves violentos e indivíduos tão inusitados quando o mundo a que pertencem, todos registrados em técnicas de campo e contracampo que promovem uma imersão fora do comum. Grande trabalho.

terça-feira, 28 de junho de 2022

Noite Passada Em Soho


 No fim das contas, está aberto a questionamentos se “Noite Passada Em Soho” é de fato o filme de viagem no tempo que inicialmente ele sugere ser, mas certamente, esse retorno ao passado faz parte integral dos planos do diretor Edgar Wright: Ele evoca uma série de vertentes, inspirações e influências diretamente relacionadas aos anos 1960 que, com tanto entusiasmo, se propõe a revisitar. Há, por exemplo, o retrato da ‘Swinging London’ presente no icônico “Blow Up”, de Antonioni, o tom e atmosfera muito reconhecíveis do giallo italiano, sobretudo, nos momentos em que a obra atinge seu clímax e diz a que veio, e pelo menos uma cena que remete imediatamente à “Repulsa Ao Sexo”, de Polanski (lançado em 1965), também ele trazendo uma protagonista assombrada pela indefinição entre o alucinatório e o real.

A ótima Thomasin McKensie –a garota de “Jojo Rabbit” –é Eloise Turner, jovem inglesa vinda de Cornwall, no interior, para tentar estudar moda em Londres e ser uma estilista. Como bem sua avó (Rita Tushingham) lhe advertiu, o lado negro de Londres não demora ameaçar tragá-la tão logo ela chega: Sua colega de quarto, a invejosa Jocasta (Synnove Kalsen), lhe inferniza a vida a ponto dela sair da república e ir morar numa pensão. Todavia, nesse ponto, o filme de Edgar Wright começa a flertar abertamente com o fantástico: Imersa nas músicas antigas, gosto herdado da avó, Eloise se transporta, toda a noite, para um momento da década de 1960, quando passa a viver na pele de uma jovem, Sandie (a extraordinária Anya Taylor-Joy) que, como ela, foi para Londres a fim de vencer como cantora, mas amargou decepção atrás de decepção, até ser engolida pela sordidez da realidade.

Se em princípio, Wright expõe um mistério ao expectador –seriam as visões noturnas uma viagem no tempo da parte de Eloise? Ou um reflexo de seus dons mediúnicos sugeridos desde o início da narrativa? –ele logo substitui essa dúvida por outra: Afinal, quais os desdobramentos trágicos do que terminou acontecendo com Sandie? E como Eloise obterá as respostas no presente atual, tantas décadas depois que tudo ocorreu?

Diretor talentoso, desigual e dono de um estilo visual peculiar e arrojado, Edgar Wright sabe empregar maneirismos sedutores para contar uma história, e aqui, além de tornar a mostrar seu apreço palpitante pela música em conjugação com as belas imagens (como já havia feito em “Baby Driver”), ele tem também uma dupla fantástica de atrizes principais. Entretanto, embora seu roteiro seja construído com detalhismo, perspicácia e uma certa paixão, ele não escapa da evidência desfavorável de que, no charme inconteste empregado na direção, a forma é muito mais bem acabada que seu conteúdo –ainda que faça um suspense belíssimo em seu anacronismo, pulsante em sua proposta e vistoso em sua estética, a trama de mistério que vai se descortinando revela-se seu grande calcanhar de Aquíles, uma vez que, no fim das contas, nada realmente de inovador, ou até surpreendente, termina sendo contado.

“Noite Passada Em Soho” descobre-se incapaz de escapar da seara de realizações onde o mundo de imagens estarrecedoras que pareciam levar a heroína rumo à insanidade acabam levando-a, de fato, à solução de um crime antes insolúvel, não sem antes explorar a máxima de que nada é, deveras, aquilo que parece ser.

Poderia ser –e de fato, talvez, até seja –uma produção acima da média, no entanto, quando contemplamos a sensacional filmografia de seu realizador logo notamos que “Noite Passada Em Soho” atinge notas que poderiam alcançar um nível de inspiração muito mais elevado.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O Gambito da Rainha


 O grande vencedor do Emmy 2021 de Melhor Minissérie ou Filme Para TV, “O Gambito da Rainha”, da Netflix, foi dirigido e escrito por Scott Frank (roteirista de “Irresistível Paixão” e “Minority Report-A Nova Lei”) a partir dos fatos reais que cercaram a vida de Elizabeth Harmon, uma enxadrista prodígio norte-americana.

Dotado daquela característica sublime que volta e meia acomete brilhantes obras televisivas –a de ser uma produção cinematográfica em todos os seus valores e definições, mas, por acaso, possuir uma duração proibitiva a um circuito de exibição comercial (sete horas, neste caso) –“O Gambito da Rainha” é uma conjunção primorosa de fatores muito felizes: Ao assumir a direção de um roteiro de sua autoria, Scott Frank deixou, de certa maneira, de lado os elementos intrincados com os quais apreciava adornar seus trabalhos –“O Gambito da Rainha” é acessível e inteligível, mesmo em momentos que presumimos que ele não venha a ser! –priorizando as emoções universais e os detalhes saborosos na trajetória de sua protagonista. A própria história real, da forma como vemos se desenrolar na tela, é uma jornada vibrante, notável e envolvente, pedindo para ganhar uma produção que a retratasse. E, finalmente, a bela e jovem atriz Anya-Taylor Joy, habituada à cada projeto a surpreender o público, entrega uma atuação precisa, cativante e carregada de empatia e inteligência.

A jovem Beth Harmon (no primeiro capítulo vivida pela pequena Isla Johnston) sofreu, ainda aos nove anos de idade, um trágico acidente onde perdeu a mãe. Abandonada pelo pai, de quem pouco teve informações (embora esse plot seja retomado mais tarde), ela vai parar em um orfanato para meninas, onde não encontra outra saída senão adaptar-se às rígidas e massacrantes regulamentações de então –meados de 1961. Lá, Beth, bem como todas as outras garotas, é submetida a um regime de psicotrópicos que buscavam inibir as tendências mais rebeldes das garotas internas. Aconselhada pela amiga Jolene (Moses Ingram), Beth aprende a guardar as cápsulas do remédio verde e usá-las somente na hora de dormir –embora não deixe, gradativamente, de viciar-se neles e em seu efeito letárgico.

A aptidão sem igual de Beth surge quando ela conhece, nos porões da dependência, um velho zelador (o veterano Bill Camp, de “Os Infratores” e “Inimigos Públicos”), flagrado sempre compenetrado sobre um tabuleiro de peças diferenciadas que chamam a atenção da jovem. Ele jogava xadrez. E, com o tempo, Beth aprende os movimentos de cada peça e passa a jogar com ele.

O fato de Beth, com apenas dez anos, superá-lo no jogo –ele, que era jogador de um clube de xadrez –lhe chama a atenção para o talento incomum da criança. Beth é levada para um colégio onde deve jogar simultaneamente (e sozinha) contra todos os membros do clube de xadrez –e derrota a todos!

Já mais velha –e interpretada então com energia cênica e magnetismo pela sensacional Anya-Taylor Joy –Beth é adotada, aos treze anos de idade (!) por um casal. Entretanto, essa não é necessariamente uma família feliz: O marido está em iminente abandono do lar, e a esposa (Marielle Heller, de “Um Lindo Dia Na Vizinhança”), agora mãe adotiva de Beth, afunda no alcoolismo –Beth foi nada mais que um recurso para que a mulher não ficasse sozinha, possibilitando a saída do marido sem complicações.

Frequentando uma escola normal –com meninos e meninas –Beth colide com todos os aspectos da vida normal que ela não teve contato durante seu período no orfanato e com sua falta de traquejo social. Todavia, a garota não deixa de perseguir o xadrez: Ela se informa dos campeonatos locais e vai vencendo, etapa após etapa, até galgar às disputas nacionais, e começar a chamar a atenção por suas capacidades.

Nesse ponto, quando alguns anos já transcorreram, ela viaja, ao lado da mãe, para diversas cidades americanas, de Las Vegas à Cinccinnati, competindo com jogadores de nível cada vez mais alto, e surpreendendo detratores e expectadores ao ombrear com todos eles em habilidade e conhecimento. A trajetória de Beth Harmon segue duas ênfases paralelas que definem em grande medida a jornada dessa protagonista: De um lado, os competidores, sempre homens e sempre intransigentes, em cujo desenvolvimento de personagens, aparecem inicialmente como adversários antagônicos, mas acabam ganhando a simpatia da heroína e do público se convertendo em aliados fundamentais em ocasiões vindouras –é o caso de Harry Beltik (Harry Melling, de "Harry Potter”), primeiro competidor realmente forte com quem ela se defronta; e Benny Watts (Thomas Brodie-Sangster, de “Maze Runner”), enxadrista nova-iorquino que ensina a ela técnicas e percepções novas na forma de jogar xadrez; de outro lado, a concretização do vício de Beth, em psicotrópicos que calibram sua mente –equilibrando a ansiedade e a calmaria –para entender e visualizar jogadas de uma complexidade que escapa à mentes menos prodigiosas (tais jogadas são ilustradas em visualizações que ganham a adição de efeitos digitais a alterar sombras e texturas do cenário), e mais tarde, o próprio alcoolismo herdado do hábito auto-destrutivo da mãe adotiva.

A medida que se torna uma das mais aclamadas enxadristas de todos os tempos, competindo com verdadeiros mestres definidos para ela como adversários inatingíveis, Beth se coloca entre os melhores do mundo, e vai para Paris e, ao fim, para Moscou, onde lhe aguarda o maior desafio de sua carreira: O frio e impassível Vasily Borgov (Marcin Dorocinski).

Sem jamais ceder à obviedades, “O Gambito da Rainha” constrói pouco a pouco uma trajetória que captura o público com sua fantástica protagonista, em cuja história de vida ficam latentes, sem panfletagem redundante, o tratamento injustificado, ingrato e desdenhoso reservado às mulheres em ambientes presumidamente masculinos, além de proporcionar um retrato nunca menos que magistral das sucessivas partidas de xadrez mostradas ao longo da trama –algo fundamental à sua narrativa –às quais não desanimam os especializados (enxadristas da vida real estiveram entre os primeiros a apontar os méritos incomuns da minissérie) e nem confundem os leigos (os desafios de Beth, mesmo aqueles cujo detalhismo dos jogos escapam aos não-conhecedores, jamais deixam de ser tensos e emocionantes). Com sua maravilhosa heroína, “O Gambito de Rainha” leva o expectador a altos e baixos emocionais, à guinadas técnicas de impressionante complexidade embutidas nos jogos, e a pertinentes mensagens morais, muitos deles espantosos por existir em tanta intensidade numa história real.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2021


 Ontem, forma anunciados os indicados, pela Imprensa Estrangeira, ao Globo de Ouro, uma das prévias ao Oscar, nesta temporada de premiações que tem tudo para ser bastante desigual, afinal, estamos vindo de um ano de pandemia onde muitos hábitos normais (sobretudo, o cinema) foram profundamente afetados. O próprio anúncio dos indicados deu-se de maneira incomum, com as atrizes Sarah Jessica Parker e Taraji P. Henson anunciando os filmes on-line de suas próprias residências; e muito provavelmente uma prevenção parecida se dará durante a premiação, evitando a aglomeração de praxe. Vamos à lista dos indicados exclusivamente aos prêmios de cinema:

Melhor Filme de Drama

O Pai
Mank
Nomadland
Promising Young Woman
Os 7 de Chicago 

As consequências da pandemia se refletem já nas categorias principais: Pela primeira vez, predominam filmes de streaming, com a Netflix saindo na frente graças às indicações de “Mank”, de David Fincher, aparentemente o favorito como Drama. Embora não tenha a mesma sorte no Oscar, Fincher já foi premiado algumas vezes (“A Rede Social”), embora seu filme não seja uma unanimidade entre os críticos. Seus maiores concorrentes são “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin (ironicamente, o roteirista de Fincher em “A Rede Social”), também ele bastante indicado, e o elogiadíssimo “Nomadland”, de Chloe Zhao, vencedor do Leão de Prat no Festival de Veneza.

Melhor Filme de Comédia ou Musical

Borat – a fita de cinema seguinte

Hamilton

Music

Palm Springs

Festa de Formatura

Na categoria Comédia ou Musical, predominam filmes ainda inéditos por aqui –embora essa questão de ser ou não inédito, seja relativa já que dificilmente haverão estréias de cinema.... –de começo, pode-se afirmar que “Music” e “Festa de Formatura” são presenças inesperadas (frutos, possivelmente, de uma falta maior de opções para as cinco vagas), o que parece restringir a disputa do prêmio entre a continuação de “Borat” –que, diferente do filme original, não foi produto de um estúdio, mas sim da Amazon –e “Palm Springs”, de Max Barbakow; o ator Andy Samberg parece ter prestígio junto ao Globo de Ouro, vide os prêmios de sua série “Brooklyn Nine-Nine”.

Melhor Ator Dramático

Riz Ahmed, O Som do Silêncio
Chadwick Boseman, 
A Voz Suprema do Blues
Anthony Hopkins, 
O Pai
Gary Oldman, 
Mank
Tahar Rahim, 
The Mauritanian

Entra ano sai ano, as premiações volta e meia atraem a atenção do público com alguma celeuma incomum. A deste ano parece ser as indicações póstumas de Chadwick Boseman, falecido em agosto, cujos últimos trabalhos ganharam ainda mais notoriedade à luz de seu precoce falecimento. Com efeito, ele surge concorrendo como Melhor Ator em “A Voz Suprema do Blues”, e não apenas desponta como favorito (seus maiores concorrentes são Gary Oldman, por “Mank”, até pelo favoritismo do filme em si, e Riz Ahmed, extremamente cotado por seu assombroso trabalho em “O Som do Silêncio”) como também deve ser uma presença garantida no Oscar; suas indicações póstumas parecem repetir a mesma circunstância de Heath Ledger em 2008.

Melhor Atriz Dramática

Viola Davis, A Voz Suprema do Blues
Andra Day, The United States vs. Billie Holiday
Vanessa Kirby, Pieces of a Woman
Frances McDormand, Nomadland
Carey Mulligan, Promising Young Woman

E, de Chadwick Boseman, vamos para sua companheira de cena, Viola Davis, que no mesmo “A Voz Suprema do Blues”, interpreta a cantora Ma Rainey, num trabalho fenomenal que já a coloca entre as mais cotadas do ano. Viola tem duas grandes concorrentes na categoria que nada mais são do que duas das mais incisivas e poderosas atuações de 2020: A sempre espetacular Frances McDormand, por “Nomadland”, e a jovem Vanessa Kirby, absolutamente surpreendente por seu papel e “Pieces Of A Woman” –talvez, a mais disputada categoria do Globo de Ouro, pela excelência plena dessas três interpretes, este prêmio não possui uma favorita.

Melhor Ator de Comédia ou Musical

Sacha Baron Cohen, Borat – a fita de cinema seguinte
James Corden, Festa de Formatura
Lin-Manuel Miranda, Hamilton
Dev Patel, A Vida Extraordinária de  David Copperfield
Andy Samberg, Palm Springs

Certamente, o prêmio ficará entre Sasha Baron Cohen e Lin-Manuel Miranda (ator, dramaturgo e produtor que goza de grande prestígio na TV e no teatro, aqui mais conhecido por papéis coadjuvantes em “Sete Homens e Um Destino” e “Assassinato No Expresso do Oriente”). Os demais concorrentes já têm imensa sorte por estarem indicados: O esforçado Dev Patel, o queridinho do Globo de Ouro, Andy Samberg, e James Corden que, como seu filme, “Festa de Formatura”, surpreende por estar lista, uma vez que a obra recebeu várias críticas negativas..

Melhor Atriz de Filme de Comédia ou Musical

Maria Bakalova, Borat: Fita de Cinema Seguinte
Kate Hudson, Music
Michelle Pfeiffer, French Exit
Rosamund Pike, Eu me Importo
Anya Taylor-Joy, Emma

Maria Bakalova, a grande surpresa de “Borat Fita de Cinema Seguinte”, surge com algum favoritismo, embora muitos insistam que ela é coadjuvante e não atriz principal do filme. Assim sendo, muitos defendem a vitória da ótima Anya Taylor-Joy, que conseguiu destacar-se neste último ano, não só com seu trabalho em “Emma”, mas também na prestigiada série “O Gambito da Rainha”.

Melhor Ator Coadjuvante

Sacha Baron Cohen , Os 7 de Chicago

Daniel Kaluuya, Judas e o Messias Negro

Jared Leto, Os Pequenos Vestígios

Bill Murray, On the Rocks

Leslie Odom, Jr. , Uma Noite em Miami

Uma categoria disputada quase tanto quanto a de Melhor Atriz Dramática, aqui, talvez o único a passar em branco será Daniel Kalluya, já que Sacha Baron Cohen (com dupla indicação neste ano!) e Leslie Odom Jr. chamam a atenção em filmes bastante indicados, enquanto Bill Murray (em seu retorno à colaboração com a diretora Sofia Coppola, 17 anos depois de “Encontros e Desencontros”!) se beneficia com o apreço dos críticos, e Jared Leto se destaca dos demais por seu belíssimo duelo de interpretações com Denzel Washington em “Pequenos Vestígios”.

Melhor Atriz Coadjuvante

Glenn Close, Era uma Vez um Sonho

Olivia Colman, O Pai

Jodie Foster, The Mauritanian

Amanda Seyfried, Mank

Helana Zengel, Relatos do Mundo

As formidáveis veteranos (inclusive de premiações) Jodie Foster, Glenn Close e Olivia Colman têm pela frente a disputa com a jovem e talentos Amanda Seyfried, que finalmente emplaca um indicação, por um trabalho fabuloso: Embora haja algo de polêmico no filme “Mank”, a presença de Amanda nele é extraordinária e pivotal para os rumos da trama; o que sempre garante a relevância para uma premiação como coadjuvante.

Melhor Direção

Emerald Fennell, Promising Young Woman
David Fincher, Mank
Regina King, Uma Noite em Miami
Aaron Sorkin, Os 7 de Chicago
Chloé Zhao, Nomadland

A categoria de Melhor Direção foi recebia com entusiasmo: Pela primeira vez, as mulheres predominaram, ocupando três das cinco vagas. Um recorde! Os colegas Aaron Sorkin e David Fincher (este bastante cotado) terão de disputar com o forte favoritismo de Chloe Zhao e Regina King, ambas à frente de dois dos mais aclamados filmes da temporada.

Melhor Roteiro

Emerald Fennell, Promising Young Woman

Jack Fincher , Mank

Aaron Sorkin , Os 7 de Chicago

Florian Zeller, Christopher Hampton, O Pai

Chloe Zhao, Nomadland

Melhor Filme em Língua Estrangeira

Another Round, Dinamarca

La Llorona, Guatemala/França

The Life Ahead Itália

Minari, Estados Unidos, mas falado em coreano

Two of Us, França

Melhor Animação

The Croods: Uma Nova Era

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

A Caminho da Lua

Soul

Wolfwalkers

Melhor Canção

Fight for You, Judas e o Messias Negro

Here My Voice, Os 7 de Chicago

“IO SI (Seen), Rosa e Momo

Speak Now, Uma Noite em Miami

Tigers & Tweed, The United States vs. Billie Holiday

Melhor Trilha Sonora

O Céu da Meia-noite

Tenet

Relatos do Mundo

Mank

Soul

Num cômputo geral, nota-se que, diferente de anos anteriores, os críticos não dispunham de uma variedade muito grande de filmes para preencher todas dos supostos ‘melhores do ano’, o que deve se refletir, inclusive, no Oscar. O que parece claro, por hora, é que não há como negar a relevância da Netflix e do outras plataformas nesse cenário, muito mais do que os estúdios que em 2020 tiveram praticamente suas mãos atadas. A entrega dos prêmios do Globo de Ouro se dará em 28 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Vidro

Os altos e baixos na trajetória de M. Night Shyamalan como autor reconhecido e aclamado refletem a curiosa e demorada gênese de “Vidro” como projeto cinematográfico.
Quando lançou “Corpo Fechado” na esteira do sucesso de “O Sexto Sentido”, Shyamalan experimentou um fenômeno ainda mais inusitado e louvável do que o sucesso de público e crítica da obra anterior: Inicialmente recebido com aparente desprezo por aqueles que julgavam “Corpo Fechado” um correspondente atípico de “O Sexto Sentido”, o filme cresceu na memória do público e dos cinéfilos aos poucos, com o passar do tempo, transformando-se em um dos grandes cult-movies do cinema.
De lá pra cá, entre sucessos originados de sua reconhecida fórmula de fazer cinema e projetos que por vezes caíam na incompreensão e na indiferença, M. Night Shyamalan foi constantemente indagado sobre uma vindoura continuação para “Corpo Fechado” –uma ideia a qual, durante um bom tempo, ele foi abertamente arredio.
A maneira como ele correspondeu ao anseio do público foi bem ao seu gosto, improvável e inesperada: Em “Fragmentado”, de 2016 (exatos dezesseis anos, portanto, do lançamento de “Corpo Fechado”), ele introduz uma cena final onde revelava que o protagonista daquele filme, David Dunn, vivido por Bruce Willis, existia, por assim dizer, no mesmo universo que Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) e os outros personagens de “Fragmentado”.
Estava aberta a porta para a esperada continuação não apenas de “Corpo Fechado”, mas agora de “Fragmentado” também.
Com efeito, a trama se inicia logo depois dos eventos daquele filme. Após o rapto de garotas cuja sobrevivente foi a jovem Casey (Anya Taylor-Joy), e o desenvolvimento de uma 24ª personalidade bestial –adequadamente chamada ‘The Beast’ –a Horda (como é apelidado o indivíduo de múltiplas personalidades vivido por McAvoy) entra no radar do vigilante David Dunn que tem agido nas sombras neutralizando criminosos na Philadelphia na última década com o auxílio logístico de seu filho Joseph (Spencer Treat Clarke, um rapaz aqui, ainda uma criancinha em “Corpo Fechado”).
O embate entre personagens tão antagônicos quanto antológicos não tarda muito a acontecer, escrito e dirigido com aquele primor desigual que Shyamalan parecia ter perdido nos últimos tempos, mas que recuperou em “Fragmentado”.
É quando Dunn e a Horda são capturados e jogados numa clínica psiquiátrica –em uma guinada que aproxima “Vidro” do clássico “Um Estranho No Ninho” –que as intenções de Shyamalan começam a ficar mais claras: Entra em cena a personagem da Dra. Ellie Staple (interpretada com o esperado ar de petulância intelectual por Sarah Paulson).
Staple representa a descrença. Ela não acredita que pessoas normais possam desenvolver características extraordinárias que as aproximam dos superheróis de quadrinhos –a rigor, a premissa de “Corpo Fechado” –e, dentro das instalações psiquiátricas, tratará de enfraquecer a convicção de David, de Kevin (e todas as personalidades dentro dele) e também do sedado Elijah Price (Samuel L. Jackson), encarcerado desde que foi descoberto tratar-se do perigoso Mr. Glass; na concepção dele próprio, um vilão de HQs que compensa a fragilidade do próprio corpo (ossos quebradiços como vidro) com uma mente brilhante e aprimorada.
Staple confronta os três protagonistas fantásticos com embasamentos factuais que nivelam ao patamar do normal as suas proezas, e não deixa de soar com isso aquilo que a narrativa de fato quer fazer dela: Uma estraga-prazeres.
Entretanto, a mente de Elijah não pode ser contida ou domesticada. Antes mesmo que a doutora perceba, já existe um plano detalhado em gestação, e que certamente envolve a fuga dele e da Horda de seus confinamentos.
A essa sequência concebida com zelo e critério (e com um viés emocional inédito nos filmes anteriores), Shyamalan acrescenta todas as considerações morais, pessoais, sentimentais e filosóficas que ele atribui a todos os seus melhores trabalhos: “Vidro” é, como “Corpo Fechado”, uma variação do conceito de histórias em quadrinhos em atividade num mundo real –assunto bastante atual diante do sucesso retumbante do Universo Marvel nos cinemas –mas, é também um olhar preocupado e válido sobre as neuroses imprevisíveis escondidas na sociedade (argumento presente em “Fragmentado”), e une todas essas considerações numa conclusão válida e pertinente sobre a família; e para tanto, são fundamentais à narrativa as participações também dos entes queridos relacionados à cada um dos três protagonistas, Joseph, o filho de Dunn, que busca ser uma força indireta na cruzada do pai; Casey, a vítima que escapou da fúria de ‘The Beast’ por ser reconhecida por ele como uma igual; e a mãe de Elijah (Charlayne Woodard) que sempre experimentou a aflição pelo corpo frágil do filho e o orgulho por sua inteligência fora do comum.
“Vidro”, assim, embora seja também sobre o bem contra o mal (como toda boa HQ), ao mesmo tempo embaralha essas impressões com algumas dinâmicas ambíguas, porém, revela-se mesmo um tratado sobre a fé contra a incredulidade. A disposição para acreditar que o extraordinário é real e possível contra o conformismo de justificá-lo com pretextos impessoais.
E nessa disputa, Shyamalan escolhe claramente um lado sem um pingo de dúvida.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Fragmentado

A arte e a indústria assimilam as características mesmo transgressivas e inovadoras fazendo com que, a partir de um determinado ponto, eles soem como algo comercial. De certa forma foi o que aconteceu quando do lançamento, nos anos 1990 de “De Olhos Bem Fechados” –o diretor Stanley Kubrick, então há uma década sem filmar, entregou um filme nos seus moldes mas que, ao contrário de suas outras obras, não surpreendeu o público já acostumado com toda uma nova geração de filmes e realizadores que absorveram lições narrativas do próprio Kubrick (embora, “De Olhos Bem Fechados” seja, apesar de tudo, um tipo de obra muito especial, que cresce a cada revisão).
Foi também o que de certa maneira aconteceu com o diretor e roteirista M. Night Shyamalan, guardadas as devidas comparações (ainda que o vaidoso Shyamalan viesse a aceitar com satisfação uma comparação com Kubrick): Após o sucesso estarrecedor de “O Sexto Sentido” e de outros grandes filmes que se seguiram (“Corpo Fechado”, “Sinais” e “A Vila”), nos quais ele, acima de tudo, estabeleceu uma reputação de autor diferenciado e desigual –além de criar também uma receita bastante específica por meio da qual seus trabalhos eram concebidos, como a trama de natureza incomum, fortes elementos de suspense, e uma reviravolta mirabolante no seu final –Shyamalan viu sua magia, digamos, se apagar.
Depois do irregular “A Dama Na Água”, ele engatou tentativas fracassadas de reproduzir os mesmos filmes fascinantes de outrora –o tenebroso “Fim dos Tempos”, o claudicante e modorrento “O Último Mestre do Ar” (adaptado da série animada “Avatar”), o desinteressante “Depois da Terra” e, mais recentemente, o suspense realizado em found-footage “A Visita”.
O quê nos leva, enfim, a este “Fragmentado”, que apesar de seus lampejos de imperfeição, parece sinalizar um retorno de Shyamalan aos bons tempos em que era capaz de fazer ótimos filmes.
Como naqueles quatro primeiros e melhores trabalhos que ele realizou, “Fragmentado” é um delicioso conto de suspense que une sobrenatural, dramaticidade e absurdo numa roupagem que os reveste de algum realismo, tudo enfatizado a partir de um texto cheio de pormenores.
Em princípio, acompanhamos o desenrolar intrigante da trama pelos olhos da jovem e desajustada Casey (a maravilhosa Anya Taylor-Joy, de “A Bruxa”) que, ao lado de duas amigas mais, digamos, normais (Haley Lu Richardson e Jessica Sula) é raptada e levada ao que parece ser uma cela num porão por sociopata metódico que aparentemente responde pelo nome de Dennis (James McAvoy, impecável). Aparentemente... pois, ao longo do cárcere, as três garotas descobrirão que Dennis é somente uma das muitas identidades que habitam aquele corpo –há também Patrícia, um mulher de comportamento manipulador; Hedwig, um garoto impulsivo de nove anos; Barry, um rapaz com talento para ser estilista de moda; Orwell, um homem culto, porém inseguro e outras mais (embora essas sejam as que importam para a trama) num total de vinte e três personalidades completamente distintas (!).
Porém, uma outra está a caminho.
Todos os outros a mencionam como sendo “a Fera”, e é aí que entram as três garotas seqüestradas: Tudo indica que Casey e as outras servirão como uma espécie de presa para quando a mais terrível e perigosa de todas as identidades aflorar.
Tal e qual é comum em suas obras, as premissas de Shyamalan se estruturam em torno de referências inusitadas e claras –aqui, elas são o clássico “O Colecionador” (também ele sobre um cárcere e uma relação ambígua entre cativa e captor) e o conto de fadas “João e Maria” (no tom surreal do aprisionamento e no eufemismo, cada vez mais explícito, do abuso). Como comprovam alguns ocasionais flashbacks que interrompem a narrativa claustrofóbica, Casey tem um passado familiar traumático e, na cartilha quase comiserativa de Shyamalan, essa perturbação a torna mais apta a sobreviver naquela situação do que suas outras amigas –e, no desfecho de certa forma amargo, percebemos que escapar daquela enrascada representa, para ela, regressar àquele tormento.
Shyamalan, na busca algo disfarçada de uma obra pop, não escapa de alguns equívocos ginasianos: Além de uma continuidade notadamente defeituosa, a representação novelesca do TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade) oferecida por seu filme é uma de suas mais constantes críticas.
Nada disso, contudo, importa muito diante do fato de que este é o mais satisfatório filme que Shyamalan conseguiu entregar desde “A Vila”. Embora no final ele se isente de entregar mais uma das suas ‘reviravoltas-surpresa’ (embora isso seja, afinal, uma surpresa também...) ele oferece um vislumbre delicioso para uma continuação: Na forma da aparição inesperada e sensacional do protagonista de um de seus mais cultuados filmes.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A Bruxa

Que filmaço este “A Bruxa”!
Uma refinada reconstituição de época, atroz na forma como faz emergir seus atores nos trejeitos arcaicos daquelas pessoas de então, ao mesmo tempo em que é um perturbador conto de terror, o mais poderoso que o cinema nos trouxe em muitos anos.
Engana-se porém aquele que pensar tratar-se de um filme de terror nos mesmos moldes daqueles que infestam as salas de multiplex: Esta não é uma obra a ser consumida por públicos adolescentes.
Sua condução é comedida, e o tratamento narrativo realizado visa criar um clima em torno do qual o diretor Robert Eggers relata sua tenebrosa história.
Em meados do século XVII, uma família de imigrantes ingleses, cujo patriarca entra em desacordo com as normas rígidas da religião local, aventura-se por florestas inexploradas buscando um lugar para se estabelecer e viver. A floresta por eles escolhida é um lugar proibido às crianças, que resumem-se à adolescente Thomasin (a ótima Anya Taylor-Joy), ao garoto Caleb, e aos gêmeos Mercy e Thomas.
Há também o bebê, que no início do filme, por um momento de descuido de Thomasin acaba desaparecido. E levanta-se, então a hipótese de uma bruxa na região, embora a própria Thomasin, assim como o patriarca da família busquem a explicação mais racional e menos aterradora de que foi um lobo.
A tensão que se acumula com o passar dos dias, e com a sucessão de novas ocorrências vai desestabilizando as relações familiares.
Segundo consta, adaptado de uma série de relatos oriundos da própria época, o filme de Eggers encontra sua força na excelência de sua recriação, o quê já contribui para convencer o expectador com o forte realismo que pulsa de todas as cenas.
O desenlace é cruel e árduo, tal como a própria idéia que tinham da condição humana; nada, portanto, mais lógico.
Em sua encenação certeira, sua eficaz e compenetrada caracterização, e na atuação minuciosa de seu elenco, o diretor obtém uma atmosfera asfixiante que envolve o filme do início ao fim, e conduz aos vinte minutos finais. Uma sequência ininterrupta de cenas espantosas e apavorantes.