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domingo, 21 de junho de 2026

Imperdoável


 Produzido pela Netflix (assim como “Bird Box”, outro grande sucesso estrelado por Sandra Bullock), “Imperdoável” –ou “Unforgivable” é adaptado da série de TV inglesa, “Unforgiven”, inédita no Brasil, estrelada por Suranne Jones e dirigida por David Evans. De fato, nota-se o quanto o enredo de “Imperdoável” se ramifica em diversos outros personagens atrelados ao drama de sua protagonista, multiplicando suas sub-tramas num recurso que remete mesmo aos expedientes das séries de TV.

Contudo, a opção aqui, apesar desses despercebidos elementos narrativos, é dar uma solidez cinematográfica ao material, e nisso o trabalho da diretora Nora Fingscheidt acaba lembrando muito os contundentes dramas independentes norte-americanos.

Sandra interpreta (e muito bem) a protagonista, Ruth Slater que, quando a trama começa, está saindo da penitenciária na qual permaneceu encarcerada nos últimos vinte anos. Depois de tanto tempo presa, Ruth já não parece ser capaz de funcionar em sociedade. É uma pessoa calada, acuada e introspectiva. E para piorar, além das severas circunstâncias em que precisa se manter durante esse frágil período de liberdade condicional, existem as complicações do crime pelo qual ela foi condenada –do qual inicialmente, não sabemos muito, mas cujos elípticos flashbacks vão, aos poucos, tentando nos esclarecer.

Ruth matou um policial quando tinha vinte anos –um crime ao que tudo indica acidental, todavia, nada disso serve de atenuante para aqueles que se voltam contra ela, por pura simpatia à polícia.

Na árdua tentativa de se readaptar, Ruth vai morar num albergue suburbano, arruma emprego numa fábrica processadora de pescados (o único que ela obtém apesar de possuir referências melhores) e consegue uma segunda ocupação ao ajudar uma OMG na construção de um abrigo para sem-tetos. Enquanto se incumbe dessa rotina, ela recebe ocasionais visitas de seu rigoroso agente da condicional, Vincent Cross (o ótimo Rob Morgan, de “Não Olhe Para Cima” e “Confronto No Pavilhão 99”) e estabelece uma relutante amizade com o colega de trabalho Blake (Jon Bernthal).

Existem ainda os filhos do policial que ela matou, o irascível Keith (Tom Guiry, de “Tigerland-O Caminho da Guerra”) e o retraído Steve (Will Pullen) que eram crianças na ocasião do homicídio –mas que agora, diante da revoltante notícia da liberdade de Ruth, pensam seriamente em planejar um ato de justiça com as próprias mãos.

Há o casal, formado por Vincent D’Onofrio e Viola Davis, novos moradores da casa onde Ruth morou, e dentro da qual se sucedeu o tal crime; sendo advogado, John Ingram (personagem de D’Onofrio) é procurado por Ruth para que encontre meios legais, que não burlem as rígidas regras da condicional, a fim de estabelecer um contato entre Ruth e sua irmã pequena que, desde o nascimento Ruth havia criado, e desde que foi presa nunca mais teve notícias, apesar das milhares de cartas que, nesses anos todos, ela escreveu.

A irmã de Ruth, Katie (Aisling Franciosi, de “Drácula-A Última Viagem do Demeter”), agora com 25 anos, mal lembra dela e vive com seus pais adotivos, Michael e Rachel Malcolm (Richard Thomas, da versão televisiva de “It-A Coisa” e Linda Emond, de “Old Boy” e “Across The Universe”) e com sua irmã Emily (Emma Nelson).

Todos são fios narrativos que, de uma maneira ou de outra, convergem para a trama principal de Ruth, revelando já próximo do final algumas informações surpreendentes que podem alterar a percepção de alguns expectadores sobre muito do que vinha sendo mostrado no filme, ainda que dificilmente isso haveria de dissipar a excelente composição dramática de Sandra Bullock, provando pela enésima vez que é uma atriz muito mais versátil e capaz do que as bem-sucedidas comédias românticas levavam a crer. O filme cresce quando ela está acompanhada por bons parceiros de cena, caso de Rob Morgan, Vincent D’Onofrio, Viola Davis e –vá lá –Jon Bernthal, mas se percebe o ritmo moroso e o andamento desanimado da direção toda a vez que os membros mais frágeis do elenco dão as caras.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Jogos Vorazes - A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes


 A distopia “Jogos Vorazes” criada na literatura por Suzanne Collins capitaneou um fenômeno editorial denominado Young Adults, para então ganhar vida no cinema, primeiro num filme dirigido por Gary Ross, e depois, em todo o restante da saga (que totalizou quatro longa-metragens) dirigida por Francis Lawrence –um entusiasta de futuros pós-apocalípticos desde que realizara “Eu Sou A Lenda”. Lançado alguns anos depois desse fenômeno –que, só para constar, encontrou muito de seu êxito na presença poderosa de Jennifer Lawrence interpretando a heroína Katniss Everdeen –o livro “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” mostrava a escritora e criadora Suzanne Collins revisitando aquele rico universo, desta vez, abordando os primórdios dos chamados Jogos Vorazes e, por consequência, uma espécie de trama de origem justamente do grande antagonista dos livros (e filmes) principais, Coriolanus Snow que, devido à trama se suceder 60 anos antes, é mostrado como um jovem no início da jornada que o transformará no grande vilão vivido por Donald Sutherland.

Embora a inevitável adaptação para cinema de “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” trouxesse como diretor, mais uma vez, Francis Lawrence (pois, todos concordam que ele soube dirigir os filmes com muito mais propriedade e perícia do que Gary Ross) algumas dúvidas incômodas a respeito do projeto pairavam no ar: Poderia “Jogos Vorazes” funcionar sem sua estrela principal, Jennifer Lawrence? E sem a personagem importantíssima, Katniss, que ela interpretava?

A sorte, do filme e de Suzanne Collins, é que Francis Lawrence, de fato, como diretor, compreendeu muito bem o material que manuseou, neste e nos filmes anteriores: Em suas mãos, os escritos instigantes de Collins ganham a ênfase certa, na analogia pontual que executam da atração das audiências por violência e sangue, na essência da distopia futurista em si como um espelho das mazelas morais do ser humano, e na advertência (certamente, repaginada de George Orwell e seu “1984”) de que o gênero como um todo (e este exemplar em particular) faz dos rumos políticos e apáticos da sociedade na desumanização dos oprimidos, exercida pelos opressores, donos dos meios de comunicação.

Ainda um rapaz muito jovem, e contando dez anos desde que seu país, Panem, sobreviveu aos chamados Dias Escuros (uma guerra impiedosa que opôs os doze distritos à capital), o ambicioso Coriolanus Snow (Tom Blyth, de uma energia a lembrar um jovem Rutger Hauer) vive na Capital almejando um futuro melhor para si, para sua avó (Fionnula Flanagan, de “Os Outros”) e para sua adorada prima, Tigris (Hunter Schafer, da série “Euphoria”). E tudo isso –além de prêmios, dinheiro e todo o prestígio que deseja –Snow sabe que só conseguirá obter se levar à vitória o garoto ou garota tributo que treinar nos iminentes Jogos Vorazes –uma mescla estranha e questionável entre torneio físico, chacina indiscriminada e reallity show promovido pela Capital onde os participantes descartáveis são ‘sorteados’ entre a população dos distritos –um espetáculo cuja audiência claudicante pode fazer desta décima edição (justamente aquela na qual Snow enxerga uma chance fugaz) a última.

Contudo, o destino parece oferecer alguma oportunidade de sucesso à Snow: Embora a garota-tributo delegada para ser treinada por ele, pelo rancoroso Highbottom (Peter Dinkagle), seja do Distrito 12, o mais pobre (o que significa que ela é desnutrida, fraca e a candidata nº 1 a morrer por primeiro na arena), ela é também a exótica e inusitada Lucy Gray Bird (a maravilhosa Rachel Zegler, revelada por Spielberg em “Amor Sublime Amor”) que, já de início, chama a atenção do público com inesperados dotes de cantora (talento que a versátil Rachel possui de fato na vida real) e mostra-se mais selvagem e menos indefesa do que seu aspecto pode denunciar –durante a colheita, ela coloca uma serpente verdadeira dentro do vestido de um de seus desafetos (!).

Por instinto, Snow compreende que tem ali uma participante capaz de monopolizar as atenções dos patrocinadores, desde que consiga, trabalhando furtivamente nos bastidores, mantê-la viva –e para tanto, ele sabe que deve, além de tudo, conter o ímpeto quase homicida existente nas ideias sempre mortais engendradas pela idealizadora dos jogos, Dra. Volumnia Gaul (Viola Davis, mais sinistra do que nunca).

Assim, “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, o livro, e agora o filme que dele resultou, encontram um diferencial interessante justamente ao abordarem os mesmos “Jogos Vorazes” mostrados antes –aqui porém com um viés mais arcaico, mais similar à brutalidade dos gladiadores romanos –só que valendo-se, também, do ponto de vista de um protagonista posicionado, não no centro dos enfrentamentos caóticos, como Katniss, mas do outro lado dos acontecimentos, por trás das câmeras, testemunhando as equipes de bastidores em suas deliberações e manipulações; e não raro, participando delas, também.

Ao contrário do que poderíamos supor, Coriolanus Snow é, sim, um personagem bastante interessante, por razões inesperadas que os realizadores souberam preservar com nitidez: Porque no início de sua história, ele ainda tem intenções ambíguas o bastante para afastar-se da pecha desagradável de vilão; porque a química (e o passível romance) com Lucy Gray Bird funciona às mil maravilhas (e ela própria se revela uma personagem tão forte e carismática quanto Katniss); porque Tom Blyth entrega uma atuação suficientemente profunda, habilidosa e identificável para se impor como um ótimo protagonista durante todo o (longo) filme; e finalmente, porque o diretor Francis Lawrence soube reconhecer todos esses elementos e enfatizou-os em sua narrativa, contando a história da maneira como ela necessitava ser contada.

“A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, é bem verdade, padece de uma forte subtração de ritmo em seu terço final, quando a trama vai além do conflito na arena e se mostra mais prolongada do que poderia ter sido –e esse é, deveras, um lapso que também o filme acaba herdando do livro –contudo, há tanta convicção no trabalho belíssimo de Francis Lawrence, tantos instantes de brilhantismo a serem apreciados em seu talentoso elenco, e tanto fulgor na possibilidade do roteiro se debruçar sobre características não tão exploradas na mitologia de “Jogos Vorazes” que as possíveis ressalvas sobre esta obra se revelam pálidas diante de suas radiantes qualidades finais.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Ender's Game - O Jogo do Exterminador


 O diretor sul-africano Gavin Hood ganhou do Oscar de Filme Estrangeiro por "Infância Roubada" e, em seguida, quase destruiu a própria carreira ao dirigir “X-Men Origens Wolverine”, o primeiro (e catastrófico) filme solo do personagem. Ao encarar esta adaptação austera, equilibrada e interessante de uma série conhecida de livros juvenis, ele tentou –e de certa forma conseguiu –provar que é um bom realizador.

Ender’s Game” passa longe de ser uma obra-prima, mas deixa evidente a condução sensata, a noção de ritmo e o entendimento de uma história que Gavin Hood pode ter quando não há todo um estúdio dando pitaco em seu trabalho.

A trama se passa no futuro, onde toda uma geração de crianças é treinada para uma provável guerra contra uma raça alienígena que tentou uma invasão fracassada a Terra no passado.

Uma dessas crianças é o jovem e promissor Ender (Asa Butterfield), cujo irmão mais velho não soube desenvolver seu potencial, fazendo com que a mesma descrença caísse agora sobre ele.

Sua rotina na academia militar situada no espaço é penosa: além de enfrentar desafiadoras provas simuladas, Ender precisa lidar com o bullying de inúmeros colegas e rivais que aparecem em seu caminho.

Dois são os mentores que pavimentam seu caminho rumo à uma certa auto-descoberta e à transição da perplexidade adolescente até a consciência estrategista e ética de um vida adulta inicial, e eles são o Coronel Graff (Harrison Ford) e o lendário Mazer Rackhan (Ben Kingsley, que fez, anos antes, “A Invenção de Hugo Cabret”, também ao lado de Asa Butterfield), além de outras personagens evidentemente plantadas com o nítido objetivo de guiá-lo ao amadurecimento pessoal, como atestam as presenças demagógicas, ainda que inebriantes de Hailee Stenfeld e Abigail Breslin; todavia, o personagem mais marcante do filme é o breve antagonista Bonzo, vivido por Moises Arias (da série "Hannah Montana" e de "Kong-A Ilha da Caveira") –ele responde pelo trecho mais envolvente, sólido e reflexivamente esclarecedor de todo o filme. Esse acerto particular (e possivelmente involuntário) em todo um único bloco narrativo (pois, Bonzo não tarda a ser descartado da trama), em detrimento das outras partes, boas mas não tanto, fornecem um estranho desequilíbrio ao filme de Gavin Hood. Ele flerta seriamente com a grande obra que poderia ter sido, para então, praticamente em toda sua segunda metade, investir em aspecto que nunca funcionam –sua elaborada reviravolta final, por exemplo, é um bocado fácil de antecipar.

No saldo geral, “Ender’s Game” termina como uma experiência positiva para o expectador, ainda que seu curto fôlego como trabalho antológico tenha feito sua repercussão, seja de público, seja de crítica, ser merecidamente muito aquém do que se esperava. Fato que termina condenando o gancho final –explicitamente necessitado do respaldo de uma continuação –a jamais ser concluído em outros filmes.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Esquadrão Suicida


 Os percalços que levaram às telas esta nova versão de O Esquadrão Suicida são um exemplo das voltas que o mundo dá: Sucesso de público e fracasso de crítica (um fenômeno muito mais comum do que pode parecer), “Esquadrão Suicida”, dirigido por David Ayer, foi um dos muitos filmes que comprometeram a viabilidade do Universo Compartilhado da DC Comics almejado pela Warner Studios.

Era consenso geral que o trabalho de Ayer foi incapaz de capturar o sarcasmo necessário aos personagens –um grupo de heróis formado por vilões –o que transformou o filme numa sucessão de incoerências e frustrações, longe da intenção inicial de fazer dele uma espécie “Guardiões da Galáxia” da Distinta Concorrência. Contudo, quis o destino que James Gunn, justamente o cérebro por trás da originalidade palpitante daquele filme da Marvel Studios, ficasse em maus lençóis com os executivos da Disney devido ao aparecimento de twits polêmicos que ele escrevera muitos anos atrás. Demitido (por pouco tempo, já que foi recontratado), James Gunn ficou assim disponível para ser recrutado pela própria Warner Bros, que não pestanejou diante da oportunidade de ciscar no terreno do vizinho.

E assim, Gunn incumbiu-se de dirigir e roteirizar um novo “Esquadrão Suicida” que a um só tempo é continuação, reinvenção, derivado e reformulação do filme anterior (a única modificação no título é o acréscimo do artigo “O”). Sob muitos aspectos, ele deixa aquele filme completamente de lado para alçar voo próprio diante das possibilidades instigantes que descobre. Roteirista e diretor brilhante (anos-luz à frente de David Ayer, diga-se), James Gunn é um conhecedor intrínseco de histórias em quadrinhos, logo, ele compreende o contexto, a proposta e a dinâmica dos personagens reunidos em “O Esquadrão Suicida” de uma forma que David Ayer jamais conseguirá. E, como diretor, possuir também uma apurada percepção de cinema também ajuda muito.

Arrojado que só, “O Esquadrão Suicida” já começa num enquadramento de câmera absolutamente audacioso, mostrando Savant (Michael Rooker), um prisioneiro que, nos moldes dos personagens do filme anterior, é recrutado pela impiedosa Amanda Waller (Viola Davis que aqui não rouba a cena porque simplesmente todos estão sensacionais) para integrar o Esquadrão Suicida –um grupo de força-tarefa cujos membros, na falta de heróis superpoderosos, são escolhidos entre os vilões mesmo.

Único personagem minimamente nobre entre eles é o Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), oriundo do filme anterior –também são de lá o ardiloso Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e, claro, a doce e psicótica Arlequina, personagem que, à essa altura, a australiana Margot Robbie já tornou tão antológica quanto indissociável dela própria.

O grupo é despachado para a republiqueta sul-americana de Corto Maltese (nome que, em si, já representa uma das muitas e sensacionais referências plantadas por Gunn na trama) para um missão algo nebulosa e, logo na chegada, são atacados. E eis que a obra de Gunn revela, já aí, toda a coragem, habilidade e excelência que faltou no outro filme: Salvo Rick Flag e Arlequina todos os outros personagens acabam mortos –até mesmo o personagem de Michael Rooker, até então sugerido pela narrativa como os olhos do público!

É só o começo, literalmente –tudo isso ocorre antes mesmo dos créditos iniciais!

Em “O Esquadrão Suicida”, mais que qualquer coisa, James Gunn exercita sua capacidade de se fazer imprevisível. O andamento da trama, as mortes que se sucederão ou não, e a guinada de roteiro seguinte são elementos que dificilmente os expectadores serão capazes de prever.

Um pouco longe dali, um segundo grupo também foi recrutado e enviado, grupo este composto pelo Sanguinário (o ótimo Idris Elba), o Pacificador (John Cena, de "Bumblebee", cada vez melhor), o Homem-Bolinhas (David Dastmalchian, de “Homem-Formiga”), a Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) e o simultaneamente fofo e amedrontador Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone).

Com habilidade insuspeita, o diretor James Gunn conduz a trama alternando esses dois grupos a medida que vai revelando algumas surpresas referentes à missão incumbida. Isso permite à Gunn explorar o termo ‘suicida’ presente em seu título –o desapego com que o diretor descarta muitos personagens ao longo do filme acrescenta um toque inesperado de suspense às situações de perigo –e operar com uma liberdade que não usufruía nem mesmo na Marvel Studios –produtora de filmes bem comportados, para todos os públicos, muito diferentes deste daqui onde Gunn enche a boca de seus personagens com impropérios e palavrões, pisa no acelerador no quesito da violência e emprega sanguinolência num nível similar somente ao que ele havia feito na produtora Troma em seu início de carreira.

De fato, “O Esquadrão Suicida” tem tudo isso; ação, violência, pancadaria, tiros e mortes, mas, é também um filme cheio de poesia: Na concepção irretocável em termos de um maior requinte cinematográfico, na escolha sublime e primordial das músicas que integram a trilha sonora (milagre que ele já havia executado em “Guardões da Galáxia”), na construção finalmente apropriada, ácida e vibrante dos personagens politicamente incorretos que tem em mãos, James Gunn finalmente mostra como fazer um filme de verdade com o Esquadrão Suicida, e de quebra entrega uma das melhores produções baseadas em histórias em quadrinhos de todos os tempos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2021


 Ontem, forma anunciados os indicados, pela Imprensa Estrangeira, ao Globo de Ouro, uma das prévias ao Oscar, nesta temporada de premiações que tem tudo para ser bastante desigual, afinal, estamos vindo de um ano de pandemia onde muitos hábitos normais (sobretudo, o cinema) foram profundamente afetados. O próprio anúncio dos indicados deu-se de maneira incomum, com as atrizes Sarah Jessica Parker e Taraji P. Henson anunciando os filmes on-line de suas próprias residências; e muito provavelmente uma prevenção parecida se dará durante a premiação, evitando a aglomeração de praxe. Vamos à lista dos indicados exclusivamente aos prêmios de cinema:

Melhor Filme de Drama

O Pai
Mank
Nomadland
Promising Young Woman
Os 7 de Chicago 

As consequências da pandemia se refletem já nas categorias principais: Pela primeira vez, predominam filmes de streaming, com a Netflix saindo na frente graças às indicações de “Mank”, de David Fincher, aparentemente o favorito como Drama. Embora não tenha a mesma sorte no Oscar, Fincher já foi premiado algumas vezes (“A Rede Social”), embora seu filme não seja uma unanimidade entre os críticos. Seus maiores concorrentes são “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin (ironicamente, o roteirista de Fincher em “A Rede Social”), também ele bastante indicado, e o elogiadíssimo “Nomadland”, de Chloe Zhao, vencedor do Leão de Prat no Festival de Veneza.

Melhor Filme de Comédia ou Musical

Borat – a fita de cinema seguinte

Hamilton

Music

Palm Springs

Festa de Formatura

Na categoria Comédia ou Musical, predominam filmes ainda inéditos por aqui –embora essa questão de ser ou não inédito, seja relativa já que dificilmente haverão estréias de cinema.... –de começo, pode-se afirmar que “Music” e “Festa de Formatura” são presenças inesperadas (frutos, possivelmente, de uma falta maior de opções para as cinco vagas), o que parece restringir a disputa do prêmio entre a continuação de “Borat” –que, diferente do filme original, não foi produto de um estúdio, mas sim da Amazon –e “Palm Springs”, de Max Barbakow; o ator Andy Samberg parece ter prestígio junto ao Globo de Ouro, vide os prêmios de sua série “Brooklyn Nine-Nine”.

Melhor Ator Dramático

Riz Ahmed, O Som do Silêncio
Chadwick Boseman, 
A Voz Suprema do Blues
Anthony Hopkins, 
O Pai
Gary Oldman, 
Mank
Tahar Rahim, 
The Mauritanian

Entra ano sai ano, as premiações volta e meia atraem a atenção do público com alguma celeuma incomum. A deste ano parece ser as indicações póstumas de Chadwick Boseman, falecido em agosto, cujos últimos trabalhos ganharam ainda mais notoriedade à luz de seu precoce falecimento. Com efeito, ele surge concorrendo como Melhor Ator em “A Voz Suprema do Blues”, e não apenas desponta como favorito (seus maiores concorrentes são Gary Oldman, por “Mank”, até pelo favoritismo do filme em si, e Riz Ahmed, extremamente cotado por seu assombroso trabalho em “O Som do Silêncio”) como também deve ser uma presença garantida no Oscar; suas indicações póstumas parecem repetir a mesma circunstância de Heath Ledger em 2008.

Melhor Atriz Dramática

Viola Davis, A Voz Suprema do Blues
Andra Day, The United States vs. Billie Holiday
Vanessa Kirby, Pieces of a Woman
Frances McDormand, Nomadland
Carey Mulligan, Promising Young Woman

E, de Chadwick Boseman, vamos para sua companheira de cena, Viola Davis, que no mesmo “A Voz Suprema do Blues”, interpreta a cantora Ma Rainey, num trabalho fenomenal que já a coloca entre as mais cotadas do ano. Viola tem duas grandes concorrentes na categoria que nada mais são do que duas das mais incisivas e poderosas atuações de 2020: A sempre espetacular Frances McDormand, por “Nomadland”, e a jovem Vanessa Kirby, absolutamente surpreendente por seu papel e “Pieces Of A Woman” –talvez, a mais disputada categoria do Globo de Ouro, pela excelência plena dessas três interpretes, este prêmio não possui uma favorita.

Melhor Ator de Comédia ou Musical

Sacha Baron Cohen, Borat – a fita de cinema seguinte
James Corden, Festa de Formatura
Lin-Manuel Miranda, Hamilton
Dev Patel, A Vida Extraordinária de  David Copperfield
Andy Samberg, Palm Springs

Certamente, o prêmio ficará entre Sasha Baron Cohen e Lin-Manuel Miranda (ator, dramaturgo e produtor que goza de grande prestígio na TV e no teatro, aqui mais conhecido por papéis coadjuvantes em “Sete Homens e Um Destino” e “Assassinato No Expresso do Oriente”). Os demais concorrentes já têm imensa sorte por estarem indicados: O esforçado Dev Patel, o queridinho do Globo de Ouro, Andy Samberg, e James Corden que, como seu filme, “Festa de Formatura”, surpreende por estar lista, uma vez que a obra recebeu várias críticas negativas..

Melhor Atriz de Filme de Comédia ou Musical

Maria Bakalova, Borat: Fita de Cinema Seguinte
Kate Hudson, Music
Michelle Pfeiffer, French Exit
Rosamund Pike, Eu me Importo
Anya Taylor-Joy, Emma

Maria Bakalova, a grande surpresa de “Borat Fita de Cinema Seguinte”, surge com algum favoritismo, embora muitos insistam que ela é coadjuvante e não atriz principal do filme. Assim sendo, muitos defendem a vitória da ótima Anya Taylor-Joy, que conseguiu destacar-se neste último ano, não só com seu trabalho em “Emma”, mas também na prestigiada série “O Gambito da Rainha”.

Melhor Ator Coadjuvante

Sacha Baron Cohen , Os 7 de Chicago

Daniel Kaluuya, Judas e o Messias Negro

Jared Leto, Os Pequenos Vestígios

Bill Murray, On the Rocks

Leslie Odom, Jr. , Uma Noite em Miami

Uma categoria disputada quase tanto quanto a de Melhor Atriz Dramática, aqui, talvez o único a passar em branco será Daniel Kalluya, já que Sacha Baron Cohen (com dupla indicação neste ano!) e Leslie Odom Jr. chamam a atenção em filmes bastante indicados, enquanto Bill Murray (em seu retorno à colaboração com a diretora Sofia Coppola, 17 anos depois de “Encontros e Desencontros”!) se beneficia com o apreço dos críticos, e Jared Leto se destaca dos demais por seu belíssimo duelo de interpretações com Denzel Washington em “Pequenos Vestígios”.

Melhor Atriz Coadjuvante

Glenn Close, Era uma Vez um Sonho

Olivia Colman, O Pai

Jodie Foster, The Mauritanian

Amanda Seyfried, Mank

Helana Zengel, Relatos do Mundo

As formidáveis veteranos (inclusive de premiações) Jodie Foster, Glenn Close e Olivia Colman têm pela frente a disputa com a jovem e talentos Amanda Seyfried, que finalmente emplaca um indicação, por um trabalho fabuloso: Embora haja algo de polêmico no filme “Mank”, a presença de Amanda nele é extraordinária e pivotal para os rumos da trama; o que sempre garante a relevância para uma premiação como coadjuvante.

Melhor Direção

Emerald Fennell, Promising Young Woman
David Fincher, Mank
Regina King, Uma Noite em Miami
Aaron Sorkin, Os 7 de Chicago
Chloé Zhao, Nomadland

A categoria de Melhor Direção foi recebia com entusiasmo: Pela primeira vez, as mulheres predominaram, ocupando três das cinco vagas. Um recorde! Os colegas Aaron Sorkin e David Fincher (este bastante cotado) terão de disputar com o forte favoritismo de Chloe Zhao e Regina King, ambas à frente de dois dos mais aclamados filmes da temporada.

Melhor Roteiro

Emerald Fennell, Promising Young Woman

Jack Fincher , Mank

Aaron Sorkin , Os 7 de Chicago

Florian Zeller, Christopher Hampton, O Pai

Chloe Zhao, Nomadland

Melhor Filme em Língua Estrangeira

Another Round, Dinamarca

La Llorona, Guatemala/França

The Life Ahead Itália

Minari, Estados Unidos, mas falado em coreano

Two of Us, França

Melhor Animação

The Croods: Uma Nova Era

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

A Caminho da Lua

Soul

Wolfwalkers

Melhor Canção

Fight for You, Judas e o Messias Negro

Here My Voice, Os 7 de Chicago

“IO SI (Seen), Rosa e Momo

Speak Now, Uma Noite em Miami

Tigers & Tweed, The United States vs. Billie Holiday

Melhor Trilha Sonora

O Céu da Meia-noite

Tenet

Relatos do Mundo

Mank

Soul

Num cômputo geral, nota-se que, diferente de anos anteriores, os críticos não dispunham de uma variedade muito grande de filmes para preencher todas dos supostos ‘melhores do ano’, o que deve se refletir, inclusive, no Oscar. O que parece claro, por hora, é que não há como negar a relevância da Netflix e do outras plataformas nesse cenário, muito mais do que os estúdios que em 2020 tiveram praticamente suas mãos atadas. A entrega dos prêmios do Globo de Ouro se dará em 28 de fevereiro de 2021.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Paranoia

Diz-se de “Paranoia” que foi uma ideia ocorrida à Steven Spielberg –pura bajulação, uma vez que não passa de uma versão modernosa de “Janela Indiscreta”, de Hithcock –quando este teve a iniciativa de produzir um exemplar de filme comercial nos moldes daqueles que ele executou nos anos 1980, dirigido e estrelado por seus apadrinhados, e que marcaram uma geração de expectadores –como “Os Goonies”, “Gremlins”, “De Volta Para O Futuro” e outros.
Os apadrinhados desta vez eram o diretor D.J. Caruso e o jovem candidato a astro Shia LaBeouf (que, em meados de 2007, gozava de alta conta junto à Spielberg que colocou-o como protagonista em “Transformers” e ainda o escalou para “Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal”).
LaBeouf é Kale Brecht, jovem norte-americano, morador de um bairro residencial que acaba em prisão domiciliar devido à um surto violento ocorrido na escola, acarretado pela morte do pai.
Com uma tornozeleira eletrônica –e não uma perna engessada como o personagem de James Stewart –e, por conta disso, sem poder deixar a área da casa e quintal onde mora com a mãe (Carrie Anne-Moss), tudo o que Kale pode fazer é transformar o ato de bisbilhotar os vizinhos numa arte; isso e emergir em buscas pela internet e jogos de videogame (o emprego imodesto de tecnologia nos desdobramentos da trama é o grande diferencial abraçado pelo filme em sua evocação de modernidade).
Durante essa rotina voyeurística de espionagem, duas coisas terminam por chamar a atenção de Kale acima das outras: Uma, a chegada –um tanto providencial –de uma nova vizinha, a bela, jovem e descolada Ashley (Sarah Roemer, formando um belo parzinho com LaBeouf), que não tarda a se tornar sua amiga e (a despeito da enfatizada contradição do nerd estranho enamorando-se da garota bonita e popular) a compactuar com suas excentricidades.
A outra coisa, vem a ser o vizinho da casa dos fundos (vivido pelo sempre eficiente David Morse, de “Contato”), recluso, pouco sociável e de hábitos que vão revelando, ao escrutínio cada vez mais indiscreto de Kale, a possibilidade dele ser um assassino em série (!).
É claro que a narrativa de D.J. Caruso e o roteiro de Christopher Landon e Carl Ellsworth aproveitam até o limite do divertidamente tolerável a batida situação do protagonista que antecipa todo o mal, mas é incapaz de prová-lo aos céticos personagens coadjuvantes à sua volta –até que seja tarde demais.
“Paranoia” é, quando muito, um conceito –um exercício de imaginação que muito pouco muda os elementos que compõem a estrutura da narrativa idealizada por Alfred Hitchcock em seu clássico imortal.
O frenesi de seu suspense e a diversão de seus cento e cinco minutos de duração funcionam porque o diretor Caruso compreende a redundância desse detalhe e usa de seus recursos para tornar tudo ágil, dinâmico, envolvente e saboroso, tal qual um delicioso bolo de chocolate, como diria o próprio Hitchcock.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Irresistível Paixão

Muito aclamada devido ao sucesso de público e crítica de “Onze Homens e Um Segredo” e suas continuações, a parceria entre o diretor Steve Sodenbergh e o astro George Clooney começou, de fato, neste sensacional “Irresistível Paixão”.
Aliás, astro pode ser termo, à época, precipitado para atrelar à George Clooney: Tendo deixado a série “Plantão Médico” para protagonizar o frustrante “Batman & Robin” –a mais catastrófica versão do Homem-Morcego para os cinemas –Clooney ainda não era um dos grandes nomes de Hollywood, mas, havia ganho tanto dinheiro para estrelar o mal-fadado filme que, na sequência, descobriu ter o privilégio de escolher a dedo seus projetos seguintes: Se colocar dinheiro no bolso já não era mais prioridade, ele podia passar a almejar a qualidade.
Foi assim que Clooney envolveu-se em trabalhos prestigiados como a aventura marinha “Mar Em Fúria”, o drama de guerra “Três Reis” e esta notável adaptação de Elmore Leonard, uma trama intrincada (bem ao gosto do autor) que, lá no fundo, versava sobre um caso de amor improvável entre um ladrão de bancos e uma oficial de justiça.
Clooney é Jack Foley, cujo orgulho é ter assaltado quase duzentos bancos sem jamais precisar sacar uma arma, em vez disso, Foley se valia de esperteza, inteligência e uma astúcia prodigiosa –características que ele põe em prática já na primeira cena.
Não adianta muito: Por um golpe de azar, ele vai preso mesmo assim.
Amargando mais algum tempo na prisão –e começando a concluir, por conta disso, que seu próximo golpe deve render sua aposentadoria definitiva desse negócio –Foley participa de uma fuga em massa, de cujo fracasso ele se desvencilha graças à cumplicidade do amigo Buddy (Vhing Rhames) e a casual aparição no local da agente federal Karen Sisco (a maravilhosa Jennifer Lopez, no papel que ajudou a construir sua imagem de símbolo sexual dos anos 1990) no carro de quem eles empreendem sua escapada.
Dividindo o porta-malas (eles a levam como refém), Foley e Karen trocam alguns minutos de conversa onde o diretor Sodenbergh permite-se vislumbrar com satisfação e exultação a química espetacular que Clooney e Jennifer compartilham em cena; é uma pena que eles não tenham feito outros filmes juntos.
A partir daí, revelando o gosto do hábil roteirista Scott Frank (de “Um Plano Simples” e “Minority Report-A Nova Lei”) para tramas elaboradas e fragmentadas, o filme se divide em duas linhas distintas de tempo, destinadas a se encontrar (e a se complementar) quando o filme de Sodenbergh atingir seu clímax: Numa delas, passada dois anos antes, vemos Foley em uma prisão da Flórida junto de outros detentos, entre eles, o estelionatário ricaço Ripley (Albert Brooks, de “A Musa” e “Bem-Vindo Aos 40”) e o ex-pugilista e bandidão barra-pesada Snoopy (o simpático Don Cheadle aqui, contudo, ameaçador). Na outra, evidentemente, acompanhamos os eventos subsequentes à fuga de Foley, suas tentativas de escapar ao jugo da polícia e do FBI e de prosseguir, ao lado de Buddy, com seu derradeiro golpe, aquele com o qual ele almejava se aposentar (assaltar a mansão de Ripley ao lado de Snoopy); além, é claro, das investigações por conta própria da esperta e persistente Karen Sisco que deseja reencontrar Jack, para prendê-lo novamente, ou quem sabe, descobrir o que é essa estranha atração que sentem.
Naquele ano, 1998, “Irresistível Paixão” chegou às salas de cinema capitaneando um formidável abalo sísmico no cinema comercial norte-americano, ao substituir as pirotecnias em voga nas produções de então por uma inteligência instigante e à toda prova –uma tendência inesperada e salutar que moldaria um pico insuspeito de qualidade entre as obras hollywoodianas naqueles anos –grande responsável pelo êxito deste filme foi também o tratamento sempre diferenciado de Steve Sodenbergh, um entusiasta nítido e confesso das narrativas antigas da Velha Hollywood, sobretudo, os filmes de gangster e os filmes noir. São tons e atmosferas que ele atribui à este brilhante e bem calibrado conto de polícia e ladrão, temperado com bem-vinda sensualidade, imprevisto requinte e palpitante virilidade: Sim, pois, em seu tumultuado, eletrizante e divertido desfecho não tenha dúvidas, o romance entre Jack Foley e Karen Cisco termina em bala!

segunda-feira, 4 de março de 2019

Longe do Paraíso

“Logo além do pecado, se encontra um mundo encantado”
Era inevitável a constatação de que o cinema de Todd Haynes, atento ao contraponto entre a normalidade das superfícies e o caos das profundezas, se ombreasse de alguma forma, à obra de Douglas Sirk, o diretor norte-americano que dedicou seu olhar à expor com forte melodrama as condenações implícitas da sociedade nos anos 1950.
Ao emular Sirk em “Longe do Paraíso”, Todd Haynes leva sobre ele a vantagem de pertencer ao presente, e com isso ter liberdade autoral para tratar abertamente de temas que na filmografia exigidamente discreta dele seriam completamente velados e absolutamente sugeridos, tais como o homossexualismo.
A vida de Cathy Whitaker (Julianne Moore, tão maravilhosa quanto na primeira colaboração com Haynes, “À Salvo”) aparenta ser imaculada –e tal perfeccionismo a leva a ilustrar capas de notícias enaltecendo sua vizinhança.
Entretanto, o filme de Haynes não tarda a revelar fissuras em meio à suposta perfeição. O marido de Cathy, Frank (Dennis Quaid, excelente) é ausente, cria justificativas tolas para não voltar para casa e, em instantes tratados com elegante elipse, Haynes vai deixando claro que algo está errado na harmonia do lar.
Num flagra tão doloroso quanto desconcertante, Cathy descobre o porquê: Frank é homossexual e muitas vezes não consegue conter seu ímpeto para buscar outros parceiros noite afora.
Ainda assim, ele tem consciência de que muita coisa depende da fachada de perfeição erguida em seu lar: Sua família (composta também por um casal de filhos pequenos e carentes de atenção paterna); seu emprego e, por consequência, seu futuro.
Frank se dispõe a submeter-se a todos os procedimentos médicos e psiquiátricos que supostamente poderiam tratar esse comportamento, como bem sinalizava a ciência dos anos 1950 de então, por meio do prisma preconceituoso da época.
No entanto, embora seja Frank e seu tormento o gatilho narrativo para as mudanças da premissa, é em Cathy que o eixo dramático de fato se concentra, pois, embora não seja ela o pivô de todo o drama, é ela quem sofre as mais injustas e indiretas consequências –e Haynes demonstra sua compaixão pela protagonista evidenciando a intensa e crescente tristeza nas circunstância que ela experimenta: Deixada de lado pelo marido, esmagada pelas obrigações e afazeres domésticos e sufocada pela necessidade de aparentar felicidade (quando, na verdade, por dentro desatina), ela encontra um consolo inesperado na amizade com Raymond (Dennis Haysbert), seu jardineiro negro.
A relação, definida por carência da parte dela e fascínio evidente da parte dele, progride inevitavelmente para um interesse romântico que as imposições não permitem que deixe de ser platônico –o que não impede que as fofocas resultantes dos menores gestos e dos mais inocentes indícios coloquem Cathy em maus lençóis junto da desumana concepção de sua comunidade.
Ao fim, Haynes ratifica mais do que apenas o drama: Ele mostra que, mesmo tendo sido Frank o transgressor por natureza, por assim dizer, foi Cathy quem teve de sofrer todos os revezes.
Mais do que um louvável retrato do homossexualismo em meio à um âmbito de considerações totalitárias (algo que Todd Haynes concretizou com “Carol”), “Longe do Paraíso” é um comentário sutil e inteligente sobre o papel sempre desfavorável da mulher nas injustas crises sociais.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Noites de Tormenta


Mesmo par de "Cotton Club" e "Infidelidade", Diane Lane e Richard Gere demonstram neste singelo, ainda que agradável drama romântico (tão agradável e singelo quanto é o livro de Nicholas Sparks de onde é adaptado) o quanto sua química, trabalhada ao longo dessa longeva parceria continua perfeita.
Esse fator faz desse par central a grande razão de ser do filme, visto que esta produção não se destaca em nenhum outro aspecto; nem mesmo na tremenda curiosidade mórbida que emana de algumas produções catastroficamente ruins e que, por isso mesmo, atraem alguma atenção.
É assistível sem ser excepcional. É romântico sem ser arrebatador. Dramático sem ser triste. Bem-humorado sem ser gracioso.
Adrienne (Diane Lane, facilmente cativante) é uma mulher de meia idade, ainda bonita e atraente, transtornada por usuais problemas com a filha e o ainda incômodo divórcio.
Desejosa de ares renovados para se acalmar e pôr em perspectivas as mudanças de sua vida, ela se propõe a cuidar do chalé de praia de uma amiga (ponta luxuosa de Viola Davis). O quê a torna recepcionista de um único hóspede: O Dr. Paul Flanner (Richard Gere, com sua impecável fleuma de galã veterano), um homem em princípio misterioso e reservado que aparece para se hospedar no período mais improvável para que tal coisa aconteça –um fim de semana bucólico que ainda vem com o adendo de um aviso de tempestade.
A história de Paul (ou talvez o idealizado interesse pela história dele) passa então a ocupar o centro da narrativa quando inadvertidamente Adrienne passa a reunir indícios das razões que o levaram ali e que explicam com mais clareza o seu comportamento.
Cirurgião responsável por uma operação mal-sucedida, ele está lá atrás do perdão do marido (Scott Glenn) de uma paciente sua que morreu na mesa de cirurgia, um morador local.
Mesmo avisados da proximidade de um furacão, os dois, Paul e Adrienne, inquilino e pensionista decidem ficar na casa de praia assim mesmo –e por outras razões que, à essa altura começam a se esboçar timidamente. Isolados e sozinhos, eles dividem seus problemas e inquietações e dessa súbita cumplicidade surge o amor.
Mas esse sentimento terá de enfrentar outros empecilhos para sobreviver além da praia onde se conheceram.
Além do acerto de seu par central, o grande mérito de “Noites de Tormenta” é jamais querer ser algo que não é, e nesse sentido, nessa absoluta falta de pretensão, o filme até exagera: Mostra-se assim tão básico que ostenta lacunas que poderiam até ter sido aprofundadas.
Felizmente, o diretor George C. Wolfe conta com um casal protagonista brilhante em cena, e eles conseguem enfatizar o romance que predomina na trama, cuja reviravolta algo manjada do final –bem ao gosto lacrimoso do autor Nicholas Sparks –serviu de pretexto para muitas expectadoras românticas ter este filme como um de seus prediletos.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Syriana - A Indústria do Petróleo


Como em “Traffic” –o filme pelo qual venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado –a estréia como diretor de Stephen Gaghan, “Syriana”, é uma trama que amplifica seu tema central por meio de três linhas narrativas fragmentadas que se ramificam e se complementam ao longo do filme.
De um lado, temos o agente da CIA Bob Barnes (George Clooney, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mas certamente o personagem principal do filme) cuja experiência em lidar com os meandros complexos das negociações armamentistas travadas entre células terroristas conquistou o milagre de mantê-lo vivo esses anos todos; ironicamente, sua derrocada parece vir de dentro da própria CIA quando seus superiores começam a mover um plano para torná-lo bode expiatório numa circunstância que tornou-se desfavorável.
De outro lado, acompanhamos o conselheiro financeiro norte-americano Bryan Woodman (Matt Damon), residente em Genebra, que após uma tragédia familiar consegue uma inesperada proximidade com um príncipe saudita disposto e usar de sua fortuna para melhorar as condições de vida no Oriente Médio.
A terceira trama segue o advogado Bennett Holiday (Jeffrey Wright) representante menor de uma indústria norte-americana de extração petrolífera –e cuja influência tentacular de seus diretores atinge as condições sócio-políticas dos moradores do Irã –sobre quem paira a responsabilidade de viabilizar uma autorização de extração de petróleo cercada por complicações legais que, não raro, esbarram em infrações consideráveis à lei.
Como era de se esperar neste trabalho, Gaghan honra seu passado de roteirista e executa magnificamente bem as amarras de seus núcleos dando solidez à uma trama fácil de se perder, mas ele ainda acrescenta uma direção austera e convicta (herança, talvez, de seu convívio com Steve Sodenbergh) com a qual consegue tornar minimamente palatável esta incisiva (e dada sua postura, surpreendente) crítica às extensões nocivas exercidas pelo governo norte-americano nas mazelas dos países do Oriente Médio.
Seu trabalho une a contundência e a certeza de realismo de um documentário à predisposição dramática e flexibilidade narrativa de uma ficção –o melhor de dois mundos.

sábado, 15 de julho de 2017

Solaris

A junção inesperada dos talentos de James Cameron (produtor) e Steven Sodenberg (diretor) rendeu um projeto, também ele, de natureza inesperada: Uma refilmagem norte-americana do fenomenal “Solaris”, de Andrei Tarkoski.
Para além do atrevimento em tentar recriar uma obra de tal magnitude, o filme de Sodenbergh se baseava, com algum bom senso, no mesmo romance de Stanislaw Lem que deu origem ao filme de Tarkovski; este novo filme é, portanto, realizado a partir da inspiração de Tarkovski e não do prestigiado filme que ele fez.
O americano Chris Kelvin (George Clooney, ator predileto de Sodenberg) é um psiquiatra às voltas com seus próprios problemas emocionais: Sua viuvez é recente, e as lembranças de Rheya (Natascha McElhone, de “O Show de Truman” e da série “Californication”), outrora sua esposa são ainda tão recentes quanto dolorosas –essas questões serão revistas mais tarde.
Ao contrário do reflexivo protagonista do outro filme, imerso nos questionamentos intelectuais de sua reclusão no campo, vista no início, o personagem de Clooney surge, nas cenas iniciais, desgastado por uma rotina urbana que ele parece enxergar como um remédio para sua angústia.
Há um tom ligeiramente formulaico no modo com que Sodenberg expõe essa condição.
Logo em seguida, Chris é chamado a uma estação orbital ao redor do desconhecido planeta Solaris.
Os tripulantes dessa estação sofrem males desconhecidos que levaram alguns deles ao suicídio ou ao desaparecimento –e a presença de Kelvin é requisitada por um dos tripulantes, Gibarian, afirmando ser ele o mais indicado para avaliar a situação.
Desde o início supõe-se que tudo seja provocado pela proximidade do estranho planeta. Ao chegar lá, Kelvin procura em vão por algumas respostas, que apenas se desdobram em mais e mais perguntas: Qual a razão do comportamento irrequieto e evasivo de um dos astronautas (vivido pelo já naturalmente irrequieto e evasivo Jeremy Davies, de “O Resgate do SoldadoRyan")? O que aconteceu com Gibarian (Ulrich Tukur) que, Kelvin descobriu ao chegar, terminou se suicidando? Por que a astronauta aparentemente mais lúcida do grupo, Gordon (a grande Viola Davis, muito antes da fama), é assolada por uma expressão de angústia constante?
À noite, enquanto ainda tenta absorver o estranho comportamento dos tripulantes, Kelvin se dá conta de que o lugar em que estão pode materializar o impossível: Rheya, sua esposa falecida aparece à sua frente, em carne e osso (!), oferecendo ao alarmado Kelvin a chance de remodelar o passado ou de viver sua aflição toda outra vez.
A descoberta de algo que contradiz as bases da realidade se torna assim o questionamento dos personagens –afinal, é a realidade a referência pela qual a ciência dos homens pensantes encontra uma âncora para jamais naufragar na loucura.
Todavia, apesar da suposta densidade imposta pela narrativa deliberadamente lenta e contemplativa, o filme de Sodenberg não adentra essas dúvidas de maneira tão fascinante e circunspecta quanto o filme de Tarkovski: Prefere os elementos mais prosaicos, o drama romântico que ronda os personagens de Clooney e Natascha, o senso de aventura sugerido (jamais, porém, explorado) nos portentosos efeitos visuais –empregados, contudo, de forma bastante discreta –e o suspense que parece brotar do mistério espacial; Qual é, afinal, a maldição que se abate sobre a nave?
O filme de Tarkovski abraçava isso tudo, e ainda se lançava em imponderáveis possibilidades de reflexão, fazendo tudo isso parecer fácil e simples; o grande mérito do filme de Sodenberg é mostrar, acima de tudo, que não, a realização estupenda de Tarkovski não tinha nada de simples.